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sexta-feira, 8 de abril de 2016

País desperdiça 36,4% da água disponível, diz Ministério do Meio Ambiente

Ações para reduzir o desperdício de água são um dos focos do Ministério do Meio Ambiente. Foto: Divulgação/Cesan 

No Brasil, 36,4% da água são desperdiçados e apenas 40,8% do esgoto são tratados, segundo o diretor do Departamento de Recursos Hídricos do Ministério do Meio Ambiente, Sérgio Antônio Gonçalves. Ele participou na quinta-feira (24) de seminário promovido pela pasta para fortalecer o intercâmbio de informações sobre a gestão de recursos hídricos e subsidiar ações e políticas públicas no setor.

De acordo com informações do ministério, esse desperdício se refere às perdas no próprio mecanismo de disponibilização de água para o abastecimento público, como ao uso de encanamentos velhos, por exemplo. Essas perdas acontecem antes mesmo de a água chegar às casas das pessoas.

Dessa forma, segundo Gonçalves, o desenvolvimento de políticas públicas no setor é fundamental para que o Brasil consiga avançar no uso sustentável dos recursos naturais e na melhoria da disponibilidade de água em qualidade e quantidade para os diversos usos.

Saiba Mais

“As águas não têm nação ou território único. A maioria transcende os limites de municípios, estados, nações. Temos essa responsabilidade [de cuidar dos recursos hídricos] porque moramos neste planeta”, afirmou Sérgio Gonçalves.

Uma iniciativa de preservação da água é a consulta pública sobre o Plano Nacional de Recursos Hídricos para 2016-2020 (PNRH). O documento trará as diretrizes e prioridades para os próximos quatro anos. Qualquer cidadão interessado em contribuir pode participar da consulta pública até o dia 1° de maio.

Durante o seminário, realizado na semana do Dia Mundial da Água (22 de março), o superintendente adjunto da Agência Nacional de Águas (ANA), Flávio Tröger, afirmou que o portalhttp://www3.snirh.gov.br/portal/snirh oferece à população informações importantes sobre qualidade, quantidade e uso da água, entre outros. No portal, há um encarte especial sobre a Bacia do Rio Doce, atingida pelo rompimento da barragem da mineradora Samarco, em novembro do ano passado.

“Os usuários [do portal sobre recursos hídricos] podem encontrar mapas interativos, podem baixar metadados, além de dados necessários para estudos. Dessa maneira, a sociedade, de uma forma geral, poderá dispor dessas informações para os mais diferentes fins”, disse Tröger.

A diretora de Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente, Letícia Carvalho, destacou a preocupação em identificar uma possível contaminação da Bacia do Rio Doce por substâncias químicas resultantes do rompimento da barragem. Ela afirmou ainda que é fundamental que se faça uma gestão ambientalmente adequada de metais pesados, por exemplo, para evitar riscos de contaminação do ar e das águas. Segundo Letícia Carvalho, o Brasil ainda não dispõe de uma legislação ampla sobre gestão de substâncias químicas.

A importância do acesso à água para todos foi ressaltada por Renato Saraiva Ferreira, do Departamento de Revitalização de Bacias. Ele falou sobre o Programa Água Doce, desenvolvido pelo ministério em parceria com instituições federais, estaduais, municipais e sociedade a civil. Uma das ações de destaque é a dessalinização de água no Semiárido brasileiro. Segundo Ferreira, já são mais de 480 mil pessoas beneficiadas.

Por Marieta Cazarré, da Agência Brasil, in EcoDebate, 28/03/2016

quinta-feira, 24 de março de 2016

Cuidar das florestas significa cuidar da água

A América Latina possui uma enorme riqueza de recursos florestais e hídricos que devem ser protegidos para erradicar a fome e alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável
A América Latina e Caribe possui uma enorme riqueza de recursos florestais que devem ser protegidos para erradicar a fome e alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, assinalou hoje a FAO durante o Dia Internacional dos Bosques, dedicado ao vínculo profundo e essencial entre as florestas e a água.

“A água e as florestas estão inteiramente ligadas – explicou Jorge Meza, da Unidade Florestal da FAO – já que as árvores filtram a água, aumentam os níveis de umidade no ar e incorporam mais profundamente na terra, evitando a evaporação”.

A América Latina e Caribe recebe 29% das precipitações do planeta e possui 23,4% da área de florestas do mundo, recursos estratégicos para a segurança alimentar e a geração de serviços ecossistêmicos.

Em âmbito mundial, as bacias hidrográficas e as zonas úmidas florestais proporcionam até 75% dos recursos de água doce, por exemplo, mais de 70% da pluviometria da bacia do Rio de la Plata se origina a partir da evaporação e transpiração da selva amazônica.

De acordo com a FAO, as florestas também podem reduzir os efeitos das inundações, além de prevenir e reduzir a salinidade das terras áridas e a desertificação.

A seca é um dos sintomas mais negativos das mudanças climáticas. Por meio do armazenamento de água, as árvores e os bosques podem fortalecer a resiliência às secas.

Combater o desmatamento para cuidar da água

A FAO chama a atenção dos governos para acelerar a gestão das florestas e reduzir o desmatamento, como uma ferramenta para melhorar a quantidade e qualidade da água disponível.

Nas últimas décadas, caiu a perda da área de floresta na região. Entre 1990 e 2000, 4,5 milhões de hectares eram perdidos por ano. Já entre 2010 e 2015, essas perdas caíram para 2,18 milhões de hectares, principalmente por causa da diminuição de perdas no Brasil, Mesoamérica e no Cone Sul.

O Caribe vem registrando um aumento liquido nas áreas florestais em locais que antes eram plantações da cana de açúcar e outras terras agrícolas. Esse crescimento é visto principalmente na Cuba, República Dominicana, Porto Rico e em Trinidad e Tobago.

Fora do Caribe, o Chile, a Costa Rica e o Uruguai são os únicos países que mostraram um aumento na área de floresta durante 2010 e 2015.

No entanto, as perdas líquidas anuais na região continuam sendo superiores as perdas globais. “Quando o desmatamento é elevado, gera erosão do solo e altera a qualidade da água. As florestas regulam o regime hídrico, e quanto mais natural seja o ecossistema, mais efetiva será essa função”, explicou Meza.

“Cuidar das florestas da região significa também cuidar da água”, ressaltou Meza.

Meza também destacou que além de proteger o fornecimento de água de qualidade, o manejo florestal reduz a pobreza mediante a criação de empregos, a produção de alimentos, a prevenção de incêndios florestais, a proteção de bacias hidrográficas e a prestação de outros serviços, tais como a eliminação de dióxido de carbono do ar que respiramos.

O uso de água dobrou na América Latina

A situação dos recursos hídricos da região é dupla: alguns dos lugares mais áridos e dos mais úmidos do planeta estão na América Latina e Caribe.

Isso significa que a disponibilidade de água varia consideravelmente entre países e dentro de diferentes áreas de um mesmo país.

De acordo com a FAO, nas três últimas décadas a extração de água se duplicou na América Latina e Caribe a um ritmo muito superior da média mundial.

Nessa região, o setor agrícola e, especialmente, a agricultura irrigada usa a maior parte da água, uma média de 70% do uso, seguido pela extração para uso doméstico com 20% e a indústria com 10%.

As mudanças climáticas podem degradar as florestas e afetar a água

As mudanças climáticas estão modificando o comportamento de precipitações e temperaturas, o que vai alterar os agrossistemas atuais.

Na América Latina e Caribe, as mudanças nos padrões de chuvas e temperaturas vão afetar o rendimento de cultivos básicos como trigo, arroz e feijão, gerando uma pressão sobre as áreas não agrícolas, geralmente cobertas pelas florestas, para convertê-las em áreas produtoras de alimentos.

“As mudanças climáticas afetam a saúde e a qualidade das florestas e a disponibilidade de água, sendo que este efeito é ampliado pela degradação dos solos devido a expansão das áreas de cultivos em locais não apropriados e a intensificação da produção e do uso não apropriado de insumos agrícolas”, salientou Meza.

Entre possíveis efeitos das mudanças climáticas, se espera que no meio deste século ocorra uma substituição gradual das florestas tropicais por savanas no leste da Amazônia, e ainda da vegetação semiárida por vegetação de áreas áridas devido ao aumento da temperatura e da diminuição de água no solo.

Atualmente, a FAO está implementando uma iniciativa regional que trabalha com os governos para apoia-los no cuidado com os recursos naturais, enfrentar as mudanças climáticas e gerir os riscos de desastres.

Da FAO, in EcoDebate, 22/03/2016

domingo, 29 de novembro de 2015

Efecto del azafrán en pacientes oncológicos con metástasis hepáticas (www.fitoterapia.net)

El cáncer representa la segunda causa de mortalidad a nivel mundial. Recientemente se ha estudiado bastante acerca de los efectos antidepresivos y anticancerosos del azafrán. Un equipo dirigido por Azar Hosseini (del centro de investigación sobre plantas medicinales de la Facultad de Medicina Mashhad, Iran), estudio el efecto de la administración de un extracto de estigma de azafrán en pacientes afectados de diferentes tipos de cáncer (esófago, estómago, colon, ovario o de mama) con metástasis hepáticas. En el estudio participaron 13 pacientes, que fueron divididos en dos grupos a uno de los cuales se les administró diariamente un extracto con un contenido equivalente a 100 mg de estigmas de azafrán y al otro un placebo. Ambos recibieron el tratamiento quimioterápico convencional. Tras 16 meses, en la mitad de los pacientes del grupo de tratado con azafrán se observó una remisión de las metástasis o una reducción del tamaño de las mismas, efecto no observado en el grupo placebo.


Aunque se trata de un estudio con muy pocos pacientes, los resultados obtenidos animan a que se realicen estudios más amplios que puedan confirmar los efectos observados.


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domingo, 18 de outubro de 2015

Política de Águas e Educação Ambiental: processos dialógicos e formativos no planejamento e gestão de Recursos Hídricos


A publicação “Política de Águas e Educação Ambiental: processos dialógicos e formativos no planejamento e gestão de Recursos Hídricos” tornou-se referencial para orientar processos dialógicos e formativos no planejamento e na gestão de águas no país. Esta é uma das publicações #MaisAcessadas do MMA. Conheça a 3ª Edição, atualizada e ampliada.


quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Governos negligenciam a escassez de água’, diz pesquisador americano

Em entrevista, Norman Gall, diretor executivo do Instituto Fernand Braudel, aponta semelhanças na crise hídrica de São Paulo com problemas de abastecimento em outras ‘megacidades’

Há anos a escassez hídrica pauta as viagens ao redor do mundo do jornalista e pesquisador americano Norman Gall, de 82 anos. Desde 2014, ele abriu as portas do Instituto Fernand Braudel, que dirige em São Paulo, para autoridades e especialistas no setor e dedicou-se a investigar as razões pelas quais o problema atinge as megacidades. Suas conclusões ganharam as páginas da revista americana The New York Review of Books na semana passada com o artigo “Por que a água está se esgotando”.

Veja a entrevista na íntegra no jornal O Estado de S. Paulo

Do Jornal da Ciência/SBPC, in EcoDebate, 14/10/2015

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Fontes alternativas de água para uso residencial: possibilidades e riscos, artigo de Dirceu D´Alkmin Telles

[EcoDebate] A escassez de chuvas que ocorre em boa parte do país afetou milhões de pessoas de diversas formas. Grandes cidades, como São Paulo, adotaram alterações no fornecimento, a fim de manter os reservatórios em níveis capazes de atender, ainda que com limitações, suas populações no longo prazo. Embora bastante negativo, esse quadro acabou por gerar uma conscientização de que o uso da água precisa ser revisto. Cresceu significativamente a busca por fontes alternativas, como sistemas de captação de água das chuvas e a utilização de um tratamento suplementar aos efluentes de Estações de Tratamento de Esgotos (ETEs) capazes de melhorar a qualidade da água a ponto torná-la adequada para alguns tipos de reúso. São iniciativas que, se por um lado reduzem o desperdício e acabam por promover um uso mais racional desse recurso, se não forem planejadas por especialistas e habilitadas pelos órgãos competentes, podem resultar em graves consequências. É o caso da grande maioria dos poços artesianos que são perfurados atualmente.

O DAEE (Departamento de Águas e Energia Elétrica) é o órgão que controla a perfuração de poços no Estado de São Paulo. Além de expedir as outorgas, realiza estudos que revelam a presença de água subterrânea, a viabilidade de seu uso e para quais fins são indicados. Apesar de sua fiscalização, a maioria absoluta desses poços é clandestina e opera de forma inadequada. Entre outros problemas, pode contaminar aquíferos, particularmente quando são desativados. É o que ocorre atualmente em Ribeirão Preto. Conforme o Plano de Saneamento Básico do município, há 82 poços nessas condições que afetam o Aquífero Guarani, reservatório subterrâneo com capacidade de 37 milhões de quilômetros cúbicos de água que ocupa 1,2 milhão de km², abrangendo áreas de Uruguai, Argentina Paraguai e, principalmente, Brasil.

Outro fator é a exploração excessiva, que compromete os níveis dos aquíferos. Ainda no caso Aquífero Guarani, o Programa Estratégico elaborado por pesquisadores dos quatro países em 2009, elencou a perda de capacidade do reservatório como consequência da extração em níveis superiores à recarga. Como uma das soluções, propõe a restrição da perfuração de poços.

O nível dos impactos depende da capacidade do aquífero e do quanto dele é retirado. A popularização dessa alternativa entre condomínios em grandes cidades resulta em grandes perdas. Boa parte da capital paulista situa-se sobre o Aquífero São Paulo, que ocupa cerca de 1.000 km² que abrangem ainda Guarulhos, São Bernardo do Campo, Mogi das Cruzes e outras cidades. A vazão recomendada para o reservatório é de 2,8 litros por segundo, podendo chegar a 11 litros por segundo. É difícil dimensionar, por exemplo, o impacto de condomínios que optaram por essa solução na cidade. No caso de um que possua 100 apartamentos, cada um habitado por cinco pessoas, o consumo giraria por volta de 100 mil litros diários (200 litros por morador).

Além dos danos ambientais, a abertura de poços sem a autorização dos órgãos responsáveis expõe a população a graves problemas de saúde. Sem uma prévia análise técnica, corre-se o risco do uso de água proveniente de aquíferos situados em solos contaminados. Esse tipo de comprometimento, muito comum em grandes cidades, inviabiliza o uso da água de poços tanto para fins comerciais quanto residenciais. Resulta da atividade de postos de combustíveis, empresas ligadas à estocagem e comércio de materiais químicos, indústrias petrolíferas, de agrotóxicos e metalúrgicas. Hoje, no Estado de São Paulo, esses passivos ambientais são os principais limitadores de empreendimento imobiliários. A descontaminação é trabalhosa, demorada e inviável economicamente.

A água de reúso pode atender a fins menos exigentes quanto à qualidade e, dessa forma, reduzir o consumo da água tratada, que deve ter como destino usos mais nobres. Entende-se por reuso o reaproveitamento de águas utilizadas após tratamento adequado à atividade a que se destina. Um projeto nesse sentido deve priorizar o tratamento de água que já foi utilizada. Esse processo exigirá investimentos cuja compensação dependerá principalmente da qualidade exigida para o fim desejado. Equipamentos disponíveis no mercado brasileiro afirmam apresentar um payback (tempo de retorno do investimento) num período de três a seis anos. No caso de águas cinzas (sem esgoto urbano ou industrial), o payback pode chegar a um ano e meio. É comum também comum se considerar como reuso o aproveitamento de águas de chuva que são captadas em telhados, coberturas e pisos e acumuladas nas chamadas cisternas.

Já o reuso de água proveniente de chuveiros e lavagem de roupa é bastante viável economicamente, principalmente para se regar plantas, lavar o chão ou mesmo em descargas, atividades em que o uso de água tratada configura desperdício que não exigem que a água seja tratada. Na maioria das residências, exigirá adaptações no encanamento. O retorno do investimento dependerá tanto do projeto quanto do consumo. Um projeto de reúso de água deve considerar, primeiramente, a qualidade da água a ser reusada e a qualidade exigida pelo futuro aproveitamento. Esta questão deverá definir a metodologia (processos de tratamento) a ser aplicada no tratamento e o seu custo.

Dirceu D’Alkmin Telles é consultor da Fundação de Apoio à Tecnologia (Fundação FAT), onde atua em cursos sobre projetos hídricos. É doutor em Engenharia Hidráulica pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP).

in EcoDebate, 20/08/2015
"Fontes alternativas de água para uso residencial: possibilidades e riscos, artigo de Dirceu D´Alkmin Telles," in Portal EcoDebate, 20/08/2015,http://www.ecodebate.com.br/2015/08/20/fontes-alternativas-de-agua-para-uso-residencial-possibilidades-e-riscos-artigo-de-dirceu-dalkmin-telles/.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Água para Todos: conviver com a seca é possível

Fonte: Ascom/MDS - Sexta-feira, 14 de Agosto de 2015 


Governo federal já entregou 128 mil tecnologias de água para produção de alimentos no Semiárido

A seca não impede mais que as famílias do Semiárido possam produzir seus alimentos. Com a implantação das tecnologias sociais de captação de água da chuva para produção, agricultores familiares de baixa renda conseguem conviver com períodos de estiagem sem afetar o plantio e a criação de pequenos animais. 

O governo federal já entregou 128 mil tecnologias sociais para produção. São cisternas do tipo calçadão e de enxurrada, barragens subterrâneas e barreiros trincheira, entre outros modelos, com capacidade para até 52 mil litros de água, que armazenam água no período da chuva.
Essas tecnologias sociais simples e de baixo custo se estabeleceram como uma das principais estratégias de convivência com o clima árido da região que abrange o Nordeste do país e o norte de Minas Gerais. Além dos reservatórios, eles têm acesso à assistência técnica especializada, a recursos para investir nas propriedades e à energia elétrica e contam com apoio à comercialização da produção, por meio de compras públicas e privadas. 

Conviver com a seca também é possível para aqueles que necessitam de água de qualidade para beber, cozinhar e fazer a higiene pessoal, mas que para isso dependiam de carros-pipa ou da água de poços. Andar quilômetros para conseguir água deixou de fazer parte do cenário de muitas famílias brasileiras.

Desde 2003, quando o governo federal começou a implementar as cisternas para consumo humano, 1,2 milhão de famílias já foram beneficiadas. Cada reservatório tem capacidade de armazenamento de 16 mil litros de água e atende a uma família de até cinco pessoas num período de estiagem de oito meses. 

O processo de construção das cisternas é simples, e a mão de obra é da própria comunidade. O estoque de água proporciona não só autonomia às famílias rurais pobres, como melhores condições de saúde e redução do tempo e esforço gastos nos deslocamentos para a obtenção de água.

O Água para Todos é uma ação do governo federal, executada pelos ministérios do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, da Integração Nacional, do Meio Ambiente, além da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), da Fundação Banco do Brasil, da Petrobras e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). As ações são executadas em parceria com organizações da sociedade civil, como a Associação Programa Um Milhão de Cisternas (AP1MC), estados, consórcio públicos municipais e bancos públicos, como o Banco do Nordeste.

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terça-feira, 4 de agosto de 2015

Propriedade rural como produtora de água: uma alternativa para conter a crise hídrica. Entrevista com Gilson Gomes

“O produtor, ao proteger sua nascente, contribui de forma sistemática para a produção de água”, diz o analista ambiental.
Foto: http://www.institutoterra.org

A recuperação das 375 mil nascentes que compõem a Bacia Hidrográfica do Rio Doce, localizada entre os municípios de Minas Gerais e Espírito Santo, “é o primeiro passo para o restabelecimento dosrecursos hídricos”, dizGilson Gomes à IHU On-Line, na entrevista a seguir, concedida por e-mail.

Segundo ele, atualmente as nascentes do Vale do Rio Doce estão não só desprotegidas, mas “assoreadas, sem cobertura vegetal e muito degradadas”. E a escassez de água na região está associada “à ocupação antrópica, desmatamento desordenado, ausência de cobertura vegetal nos topos de morro, nascentes desprotegidas, ausência de mata ciliar, uso irracional e falta de controle dos recursos hídricos em toda a bacia”, explica.

De acordo com Gomes, a iniciativa faz parte do Programa Olhos D’água, desenvolvido pelo Instituto Terra, e tem como objetivo recuperar todas as nascentes da Bacia Hidrográfica do Rio Doce num prazo de 30 anos. Para que o projeto seja efetivo, enfatiza, a participação dos pequenos e médios produtores rurais da região será fundamental para a “recomposição florestal ao longo dos cursos d’água e topos de morro”. Ele frisa ainda que, diante da escassez dos recursos hídricos, a “propriedade rural tem que se proteger e produzir água para seu sustento, lembrando que este recurso é primordial no seu processo produtivo. Assim, o produtor deve ser responsável pelo uso da água de modo a poder ofertar o excedente à sociedade”. Ao fim do projeto, comenta, a pretensão é “elaborar um protocolo operacional do programa de forma a permitir que seja replicado em outras bacias hidrográficas”.

Gilson Gomes é analista ambiental do Instituto Terra, uma associação civil, sem fins lucrativos, que promove a recuperação da Mata Atlântica no Vale do Rio Doce há 16 anos.

Confira a entrevista.
Foto: http://www.cprm.gov.br/


IHU On-Line – Qual é a situação ambiental das nascentes do Vale do Rio Doce e quantas delas precisam ser recuperadas?

Gilson Gomes – As nascentes estão desprotegidas, assoreadas, sem cobertura vegetal e muito degradadas. Estima-se que existem 375.000 nascentes na Bacia Hidrográfica do Rio Doce, entre os estados de Minas Gerais e Espírito Santo. Mais precisamente em 202 municípios de Minas Gerais e 28 do Espírito Santo.

IHU On-Line – Em que consiste o projeto de recuperação das nascentes do Vale do Rio Doce? Como será realizado esse processo?

Gilson Gomes – A recuperação das nascentes será feita através do Programa Olhos D’água, que tem como objetivo promover a recuperação, a proteção e a conservação dos recursos hídricos na Bacia Hidrográfica do Rio Doce, contribuindo para a manutenção dos seus recursos naturais, em consonância com o Plano Integrado de Recursos Hídricos do Rio Doce de 2010. O projeto tem como escopo os seguintes pontos:

(i) recuperar e proteger 100% das nascentes das propriedades rurais dos 230 municípios da Bacia Hidrográfica do Rio Doce;

(ii) implantar uma fossa séptica em cada residência das propriedades rurais dos 230 municípios da Bacia Hidrográfica do Rio Doce;

(iii) promover o Cadastro Ambiental Rural – CAR e a adesão ao Programa de Recomposição de Áreas Degradadas e Alteradas – PRADA das propriedades com até quatro módulos fiscais dos produtores rurais beneficiários, provendo, dessa forma, meios para recomposição florestal ao longo dos cursos d’água e topos de morro;

(iv) elaborar um protocolo operacional do programa de forma a permitir que seja replicado em outras bacias hidrográficas.

IHU On-Line – Qual é o tempo estimado para a recuperação das nascentes?

Gilson Gomes – A meta do programa Olhos D’água é proteger e recuperar as nascentes do Vale do Rio Doce em 30 anos.

IHU On-Line – Quais são as causas da escassez de água no Vale do Rio Doce? Qual é a situação hídrica da região atualmente?

Gilson Gomes – A escassez de água se deve à ocupação antrópica, desmatamento desordenado, ausência de cobertura vegetal nos topos de morro, nascentes desprotegidas, ausência de mata ciliar, uso irracional e falta de controle dos recursos hídricos em toda bacia, esgoto sanitário lançado no rio e baixo índice de pluviosidade.

IHU On-Line – A partir da recuperação das nascentes na região, qual é a expectativa no sentido de resolver o problema de escassez de água?

Gilson Gomes – A Implantação do Programa Olhos D’água, através da proteção e recuperação de todas as nascentes do Vale do Rio Doce, é o primeiro passo para o restabelecimento dos recursos hídricos. O Programa sozinho não muda a vida de ninguém, mas oportunamente é capaz de interagir com as políticas públicas existentes e mudar a vida das pessoas, dando um resgate social e promovendo o desenvolvimento da atual e futura geração.

O sucesso deste programa está atrelado ao desenvolvimento sustentável da propriedade rural. Hoje os recursos hídricos estão escassos, por isso uma propriedade rural tem que proteger e produzir água para seu sustento, lembrando que este recurso é primordial no seu processo produtivo. Assim, o produtor deve ser responsável pelo uso da água de modo a poder ofertar o excedente à sociedade.

Nesta linha, é importantíssima a valoração da propriedade rural “produtora de água”. Valorar economicamente este bem é uma estratégia social para resgatar o produtor na promoção da recuperação e conservação dos recursos naturais, tendo em vista que todos os setores da economia que têm intervenção humana necessitam da água para se desenvolverem.

A simples presença de água, em abundância e com qualidade, resgata o valor econômico e a função social da propriedade na medida em que ela se torna produtiva e pode fixar o homem e sua família no campo. A recuperação dos recursos hídricos, certamente, reduziria a pressão para o adensamento urbano ainda maior, e permitiria que centenas de pequenos e médios municípios dessem melhor atenção à infraestrutura básica, incluindo esgotamento e tratamento de esgoto sanitário, adequação de estradas vicinais, e outras condições para que se possa recuperar completamente a região do vale do Rio Doce.

IHU On-Line – Como será a participação dos produtores rurais da região nesse processo de recuperação das nascentes?

Gilson Gomes – O produtor, ao ser selecionado, assina um Termo de Compromisso se comprometendo a proteger e conservar a área selecionada. O produtor também é parceiro no programa, através do fornecimento de mão de obra para o cercamento da área da nascente, além de ser responsável pelo plantio e replantio e manutenção das mudas plantadas. Em síntese, o produtor rural é um grande aliado do programa.

IHU On-Line – O projeto de recuperação das nascentes pretende instalar 180 fossas sépticas nas propriedades rurais dos produtores envolvidas no projeto. Qual a importância dessas fossas na recuperação e manutenção das nascentes?

Gilson Gomes – As fossas sépticas já estão em fase final de implantação. Até o momento já foram implantadas 129. A meta é instalarmos uma fossa para cada propriedade rural da bacia do Vale do Rio Doce. O produtor, ao proteger sua nascente, contribui de forma sistemática para a produção de água. Antes da instalação das fossas, ao mesmo tempo em que o produtor produzia água, ele lançava esgoto para os corpos d’água. Assim, se o produtor tem uma fossa em sua propriedade, será possível amenizar o problema do saneamento rural, além de poder aproveitar os dejetos para adubação das plantas.

(EcoDebate, 04/08/2015) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.

[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

terça-feira, 28 de julho de 2015

Filtragem de água de chuva na Amazônia, artigo de Roberto Naime

Foto: INPA

[EcoDebate] As civilizações antigas já valorizavam e desenvolveram importantes obras para captação, armazenamento e aproveitamento de água das chuvas. Particularmente é notável a contribuição dos árabes durante o período em que habitaram o sul da Espanha e tornaram mais conhecidas técnicas que já datavam de milhares de anos. Existem registros de utilização por pretéritas civilizações em várias localidades.

O jornal Beira-Rio, da Universidade Federal do Pará, em sua edição eletrônica de número 120, datada de agosto e setembro de 2014, descreve em detalhe atividade do grupo interno da instituição, para pesquisa e aproveitamento de água de chuva na Amazônia para saneamento e meio ambiente. Pode ser paradoxal, mas não é. Em local de tanta disponibilidade de recursos hídricos, como a Amazônia, venha a se depender da água da chuva, que por sinal representa fenômeno intempérico também abundante na região. Segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), a região norte responde por cerca de 81% dos recursos hídricos do país e cerca de 12% da água doce superficial do planeta.

As águas doces superficiais da região amazônica pouco estão pouco disponíveis para utilização, pois a região carece de saneamento básico e também de ações que contribuam para potabilização da água. Ou seja as águas são frequentemente contaminadas por esgotos e outros efluentes e não recebem os devidos tratamentos físicos e químicos. Apenas parte das águas da região, estão disponibilizadas para consumo humano em condições adequadas.

Como se sabe, a pluviosidade naquela região equatorial é elevada em boa parte do ano. E as águas da chuva quando devidamente filtradas apenas no aspecto físico, quando liberadas de particulados físicos que se encontram na atmosfera e contaminam as precipitações pluviométricas, é uma água de inegável qualidade. Não há contaminação química em águas de chuvas.

Então a instalação de filtragens físicas em coletores é uma boa solução para utilização das águas em excelentes condições. Coletores podem ser todos os telhados ou a cobertura de edificações, que sejam higienizadas 2 ou 3 vezes ao ano, para diminuir a contaminação por resíduos, particularmente de natureza física.

Os estudos do grupo de aproveitamento de água da chuva da Instituição, para uso em saneamento e meio ambiente (GPAC), através de estudos e levantamentos, estima que esta solução pode resolver a carência de água potabilizada na cidade de Belém, estimada em valor próximo a 200 mil habitantes, chegando a ter seu potencial elevado para o dobro na época de maior pluviosidade.

A água de chuva filtrada poderia ser utilizada para todas as finalidades domésticas, particularmente para fins sanitários em geral, sendo resguardada a ação de preparo de alimentos. Os sistemas de abastecimento são sempre concebidos em relação às finalidades previstas, destaca o Prof Dr. Ronaldo Mendes, coordenador da pesquisa. Dentro de realidades tão diferentes como as propiciadas por este país continente, é necessário adotar soluções específicas e regionalizadas, que possam compatibilizar inclusive a utilização de sistemas mistos de abastecimento, desde que sejam cuidadosamente planejados, dimensionados e universalizados.

Outros usos, além da demanda urbana, já estão sendo pesquisados pelo agrupamento da instituição, destacando-se o uso para irrigação, quando as características da água sofrem ainda menores restrições, ou seja, se viabilizam de forma mais fácil. A Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM) já demonstrou interesse pelo trabalho, buscando firmar parcerias.

Poucos lugares são tão beneficiados pela presença de água doce quanto a região amazônica e a região norte do país em geral. É necessário transformar e potencializar esta riqueza como instrumento de desenvolvimento efetivo. Pois a região norte apresenta muitas populações empobrecidas e vulnerabilizadas por vários fatores, incluindo dificuldades de infraestrutura em geral e ausência de persistência em políticas locais, adaptadas às peculiaridades regionais.

A cidade de Belém tem grande deficiência na coleta e tratamento de esgotos, o que torna vulnerável até mesmo os aquíferos subterrâneos, principalmente quando são reservatórios de pequena ou de baixa profundidade.

Neste cenário, se desenha novamente a necessidade de que os órgãos e entidades gestoras atuem de forma mais pró-ativa e não preconceituosa, criando novos modelos e adaptando soluções inéditas e inovadoras para solucionar graves e antigos problemas ambientais e sociais que acometem grandes parcelas de população.

O prof Dr. Ronaldo Mendes destaca que a próxima meta é implantar o sistema de captação e uso em todo campus da Universidade Federal do Pará e para tanto já existe patrocínio de uma empresa privada que fornecerá os equipamentos necessários e a implantação se dará em breve intervalo de tempo.

Não importa se são usados recursos públicos ou se são viabilizadas iniciativas privadas para incremento de inovações. Empreendimentos privados que em geral para se viabilizarem, arregimentam e viabilizam retornos econômicos. O meio ambiente agradece igualmente e quanto mais soluções sustentáveis forem viabilizadas inclusive em nível de retornos econômicos, maior e melhor é a garantia de perenização das situações que melhoram a qualidade ambiental e a qualidade de vida das populações.

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

in EcoDebate, 28/07/2015
"Filtragem de água de chuva na Amazônia, artigo de Roberto Naime," in Portal EcoDebate, 28/07/2015, http://www.ecodebate.com.br/2015/07/28/filtragem-de-agua-de-chuva-na-amazonia-artigo-de-roberto-naime/.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Florestas e produção de água, artigo de Osvaldo Ferreira Valente

Ao longo da atual crise de abastecimento de água, temos presenciado o lançamento de propostas de soluções que nem sempre estão fundamentadas em conhecimentos científicos já disponíveis. Não há surpresa alguma quanto a este fato, já que ainda há um distanciamento, no Brasil, entre a academia e o público que tenta resolver questões práticas. Na hidrologia isso é mais do que evidente, pois o tratamento matemático que predomina nos trabalhos científicos torna a teoria muito complexa para a maioria dos técnicos de campo. Daí as tecnologias adotadas ficarem mais na esperança de um sucesso que poderá se transformar em futuras frustrações. Há, também, o risco das generalizações em situações cheias de especificidades locais e regionais, onde receitas de bolo não dão garantias de qualidades dos produtos. O “ouvir dizer” e o excesso de informações, que são usadas antes de se transformarem em conhecimentos, provocam riscos iminentes de fracassos.

Tenho visto constantemente em artigos, entrevistas e debates pessoas pregando o reflorestamento como única solução para aumentar a produção de água de mananciais de abastecimento. É um erro não considerar outras opções que tenham potenciais para produzir resultados em curto prazo. A princípio pode até haver uma lógica no raciocínio sobre os reflorestamentos, mas algumas pesquisas já realizadas no Brasil, contendo dados sobre produtividades de água em bacias hidrográficas florestadas, merecem consideradas. E é sobre isso que passarei a falar nos parágrafos seguintes.

Vou tomar como exemplos dois estudos feitos em áreas florestadas. Duas teses: a primeira de doutorado na USP (Câmpus de São Paulo, capital), defendida por Valdir de Cicco, em 2009, e a segunda de mestrado, também na USP (Campus de Piracicaba), defendida por Paulo Sant’Anna e Castro. As duas, ainda que com objetivos diferentes, mediram produções de água (deflúvios) em bacias hidrográficas florestadas. A segunda mediu, também, a produção em uma outra bacia vizinha da florestada e usada para exploração agropecuária.

O Valdir de Cicco (CICCO, 2009) estudou duas pequenas bacias hidrográficas: 1) A primeira de 36,7 ha, dentro do Parque Estadual da Serra do Mar, Núcleo de Cunha- SP (Mata Atlântica); com floresta secundária formada a partir de 1974, quando a área de pastagem foi incorporada ao Parque, que tem área total atual de 315.000 ha. A rocha predominante é o gnaisse , o solo classificado como latossolo vermelho amarelo câmbico e a conformação geomorfológica de mares de morros; o clima é o Cwb (Köppen), com temperatura máxima media de 26o, mínima de 16o e precipitação anual média de 1.646 mm. 2) A segunda de 59 ha, dentro do Parque Estadual das Fontes do Ipiranga ( Mata Atlântica) que tem área total de 526,38 ha, encravado na Região Metropolitana de São Paulo, com rochas, solos e clima muito próximos aos da bacia de Cunha. A produtividade de água no mês de agosto (mês mais seco) foi de 15,13 L/Km2.s, em Cunha, e de 6,26 L/Km2.s, em Ipiranga. Com base em discussão do autor da tese, é possível justificar as diferenças de produtividades de água entre as duas bacias por duas razões: 1) A bacia do Ipiranga está sob influência da ilha de calor da área metropolitana, que transfere energia para a área do Parque, possibilitando maiores taxas de evapotranspiração e, consequentemente, menores produtividades superficiais de água; 2) A bacia de Cunha convive com elevada umidade do ar e presença de nevoeiros, o que concorre para menores taxas de evapotranspiração e maiores produtividades superficiais de água.

O Paulo Sant’Anna e Castro (CASTRO, 1980) estudou duas pequenas bacias hidrográficas na região de Viçosa-MG (Mata Atlântica). A primeira com 114 ha, coberta com floresta secundária formada a partir da década de 1960, quando a área foi entregue à regeneração natural. E a segunda com 192 ha, vizinha da primeira, com exploração agropecuária e pequenos capões de matas que, somados, não passavam de 25% da área. Em ambas, a rocha predominante é o gnaisse e os solos são argilosos e foram classificados como latossolo vermelho amarelo distrófico, nas seções côncavas, convexas e nos topos; já nos terraços, receberam a classificação de podzólico vermelho amarelo câmbico. A geomorfologia é de mares de morros, a precipitação de 1.880 mm no período de estudo (1978/1979), temperatura média máxima de 26o, mínima de 15o e clima Cwb (Köppen). A produtividade superficial de água do mês de agosto foi de 2,4 L/km2.s, na bacia florestada, e de 8,5 L/km2.s, na com exploração agropecuária. E foi um ano hidrológico com precipitação acima da média para a região de Viçosa que é de 1340 mm/ano. Passados 35 anos, a floresta está mais densa, com árvores maiores e a produtividade superficial de água do mês de agosto, para a bacia florestada, tem sido nula. A explicação para as diferenças de produtividades pode estar no fato de que a bacia florestada comporta-se como uma ilha de atração de energia, rodeada por áreas secas e que por deficiência de umidade na região das raízes das plantas, menos profundas. É importante lembrar que a evapotranspiração depende da disponibilidade de água e de energia.

Usando estes dados de pesquisa na prática de produção de água, vale a pena discutir, como exemplo, a situação do Sistema Cantareira, que está presente cotidianamente na mídia e é responsável pelo abastecimento de grande parte da Região Metropolitana de São Paulo. Algumas pessoas e entidades têm sugerido, como solução, o reflorestamento de entornos de corpos d’água componentes do Sistema. Chegam a citar números, como 400 ha, por exemplo. Ora, como as bacias que compõem o Cantareira somam 2.280 km2, a área recomendada representa apenas 0,17 % do total. Além do mais, mesmo que tais matas ciliares viessem a se comportar como produtoras de quantidade de água, conforme o imaginário de muitos hidrologicamente desavisados, e com valores médios entre Cunha e Ipiranga, ou seja, 10,78 L/km2/s, nas épocas de estiagens, isso representaria um acréscimo de apenas 0,12 % da vazão outorgada, que é de 36.000 L/s.

Para ir um pouco mais além na análise do possível efeito do aumento da cobertura florestal em áreas das bacias contribuintes do Cantareira, poderão ser usados dados da Fundação SOS Mata Atlântica, mostrando que as florestas ocupam 21,5 % da área total das bacias e que são 5.000 km de cursos d’água, com parte deles, 1.190 km, já protegidos por matas ciliares, computadas nos 21,5 %. Como, em grande maioria, são cursos d’água com até 10 m de largura e em áreas com usos consolidados, pode-se adotar, para cumprimento do Código Floresta em vigor, uma faixa média de 40 m (20 m de cada lado dos cursos d’água) para recomposição da mata ciliar. Isso representaria um acréscimo de 152,4 km2, ou seja, 6,7 % da área de 2.280 km2, elevando a cobertura para 28,2 %. Mesmo que tais matas ciliares viessem a ter efeito positivo na produção de água, como acreditam muitos, e usando os 10,78 L/km2/s, o acréscimo não passaria de 4,56 % da vazão outorgada.

O mais certo, entretanto, e com base em fundamentos hidrológicos da produção de água na região Sudeste, é que, pelo menos nos primeiros 30 anos após os reflorestamentos, o aumento de cobertura florestal, através das matas ciliares, acarretaria uma diminuição das vazões de estiagens. Isso porque as árvores estariam em franco crescimento e com altas taxas de transpiração, pois ocupariam, em grande parte, áreas de contribuição dinâmica que tendem a ficar sempre úmidas; isso por serem zonas de ligação dos aquíferos subterrâneos com as nascentes e cursos d’água. Tal comportamento é corroborado por simulações feitas pelo pesquisador Paulo Guilherme Molin, (MOLIN, 2014) para a bacia hidrográfica do rio Piracicaba. Ele simulou, para sua tese de doutorado na ESALQ-USP, o aumento da cobertura florestal da bacia e sua ação na produção de água. Os estudos mostraram que, tomando por base o ano de 2010 e como horizonte o de 2050, quaisquer aumentos de cobertura florestal no intervalo considerado resultaria em redução das vazões dos cursos d’água, nos períodos de estiagens.

As informações apresentadas mostram, portanto, que é temerária a certeza, expressa com certa frequência, que o reflorestamento é a única alternativa para aumentar a oferta de quantidade de água de nossas bacias hidrográficas. Um horizonte de 30 anos talvez seja o mínimo para um equilíbrio ambiental floresta/hidrologia capaz de apontar uma produtividade de água em média confiável. Mas como a demanda é a curtíssimo prazo, teremos que adotar alternativas de manejo dos volumes de água recebidos pelas chuvas, conduzindo boa parte deles para os aquíferos subterrâneos e armazenando outros em represas e em reservatórios urbanos. Para privilegiar o armazenamento subterrâneo, há de se trabalhar com tecnologias alternativas ao reflorestamento e que aumentem a rugosidade das superfícies das bacias hidrográficas, dificultando a formação de enxurradas e favorecendo a infiltração de água no solo. Tais tecnologias já existem, comprovadas e economicamente viáveis.

Literatura Citada:

CASTRO, P.S. Influência da cobertura florestal na qualidade de água em duas bacias hidrográficas na região de Viçosa, MG. Piracicaba, Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” – USP, 1980. 107p (Tese de Mestrado)

CICCO, V. Determinação da evapotranspiração pelos métodos dos balanços hídrico e de cloreto e a quantificação da interceptação das chuvas na Mata Atlântica. Disponível em: www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/…/pt-br.php . Acesso em: 15 jun. 2015

MOLIN, P. G. Dynamic modeling of native vegetation in the Piracicaba River basin and its effects on ecosystem services.
Disponível em: www.teses.usp.br/teses/disponiveis/11/…/pt-br.php .Acesso em: 15 jun. 2015

Osvaldo Ferreira Valente, Articulista do Portal EcoDebate, é engenheiro florestal e autor de dois livros sobre hidrologia e produção de água: “Conservação de nascentes – Produção de água em pequenas bacias hidrográficas”e “Das chuvas às torneiras – A água nossa de cada dia”. ( valente.osvaldo@gmail.com)

Artigo enviado pelo Autor e publicado originalmente no Jornal da Ciência (SBPC), em 01/07/2015

Publicado no Portal EcoDebate, 09/07/2015
"Florestas e produção de água, artigo de Osvaldo Ferreira Valente," in Portal EcoDebate, 9/07/2015, http://www.ecodebate.com.br/2015/07/09/florestas-e-producao-de-agua-artigo-de-osvaldo-ferreira-valente/.

Desperdício de água no país equivale a seis Cantareiras, diz Instituto Trata Brasil

Poluição do Rio Tietê, em Pirapora do Bom Jesus, causada pelo despejo de dejetos. Foto: Divulgação/Prefeitura de Pirapora do Bom Jesus/Rafael Pacheco

Além de despejar todo dia o equivalente a 5 mil piscinas de esgoto em seus rios, o Brasil desperdiça, por ano, um volume de água que corresponde a seis sistemas Cantareira. As comparações foram apresentadas, ontem (8), pelo presidente do Instituto Trata Brasil, Édison Carlos, em audiência pública na Comissão de Infraestrutura do Senado. O instituto é uma organização da sociedade civil de interesse público (Oscip), formado por empresas com interesse nos avanços do saneamento básico e na proteção dos recursos hídricos do país.

“A situação do saneamento no Brasil não condiz com um país que é a sétima economia do mundo”, disse aos senadores. Édison Carlos acrescentou que o desperdício anual de água equivale a R$ 8 bilhões que deixam de retornar ao saneamento básico.

Ele ressaltou que, se esses prejuízos financeiros e naturais fossem evitados, seria possível reduzir os impostos cobrados ao setor de saneamento. O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, participou da audiência pública e disse que independentemente dos desperdícios e da crise hídrica “as empresas de saneamento viraram arrecadadoras de impostos”.

Para o governador, as campanhas de prevenção têm mostrado resultado no combate às perdas. Segundo Alckmin, em São Paulo, as campanhas foram responsáveis pela diminuição de gastos de água em 83% das unidades consumidoras (residências, empresas, indústrias, por exemplo).

Para estimular a economia de água, o governo do estado adotou a estratégia de dar bônus a quem passou a usá-la de forma racional e cobrar mais caro das unidades que mantiveram os gastos, afirmou o governador.

Por Pedro Peduzzi, da Agência Brasil

Publicado no Portal EcoDebate, 09/07/2015

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Maiores aquíferos do planeta estão sob ameaça de esgotamento


imagem: NASA – Clique na imagem para ampliar

Um terço das maiores bacias de águas subterrâneas do mundo estão sendo esgotadas pelo consumo humano. A conclusão está em de dois estudos da Universidade da California, divulgados nesta semana no site da Agência Espacial Americana (Nasa).

De acordo com os pesquisadores, a população mundial usa as águas subterrâneas de forma indiscriminada, apesar de não haver informações precisas sobre a dinâmica de reposição dessas reservas.

É o primeiro estudo que analisa as perdas dos aquíferos a partir de dados coletados no espaço, pela Nasa. As leituras dos satélites Grace, especializados em analisar a gravidade do planeta, permitiram a interpretação do volume de água e mostraram que 13 dos 37 maiores aquíferos estudados entre 2003 e 2013 estão sendo esvaziados em velocidade superior à da reposição de água nos sistemas.

Dos 13 aquíferos ameaçados, oito foram classificados de “superestressados”, por terem muito pouca ou nenhuma reposição natural, e cinco foram considerados “extremamente” ou “altamente” estressados, o que varia de acordo com o tempo da reposição.

Os aquíferos mais sobrecarregados estão nas regiões mais secas do planeta, onde as populações usam intensamente águas subterrâneas. A equipe de pesquisa descobriu que o Sistema Aquífero Árabe, que atende 60 milhões de pessoas, é o mais superestressado do mundo. O segundo é a Bacia Aquífera Indu, no Noroeste da Índia e no Paquistão, e o terceiro é a Bacia Murzuk-Djado, no Norte da África.

Por Maiana Diniz, da Agência Brasil.

Publicado no Portal EcoDebate, 18/06/2015

terça-feira, 26 de maio de 2015

Mudança de hábitos pode ser a chave para afastar o fantasma do racionamento

O brasileiro convive mais uma vez com a necessidade de economia de recursos básicos, como água e luz. O aumento das tarifas de energia elétrica e a falta d’água em pontos variados do país são sinais de que algumas (ou muitas) coisas não vão bem. Um exemplo claro é a recente implementação das bandeiras tarifárias, que indicam ao consumidor quando a energia está mais cara ou quando houve redução de cobrança, prática inédita no país.

De acordo com o professor do ISAE/FGV e coordenador do MBA em Setor Elétrico da instituição, Diogo Mac Cord de Faria, o Brasil está no limite de sua geração de energia. A falta de gestão aliada a condições climáticas desfavoráveis, segundo ele, é a receita do caos. Mac Cord explica que, atualmente, não construímos mais usinas com reservatório, apenas a fio d’agua, como são chamadas as usinas que operam apenas com o rio não represado. “Isso significa que, quando chove, temos energia. Quando não chove, não temos. Com o Brasil entrando numa crise econômica, as previsões são de retração no mercado elétrico, o que nos salva, por hora, de um apagão ainda neste ano”, alerta Mac Cord.

A solução, segundo o professor, é iniciar um racionamento moderado, evitando consequências mais graves num futuro próximo. Nas residências, é possível praticar cortes “simples” como a diminuição do uso do ar condicionado e do chuveiro elétrico. Para Mac Cord, “este deve ser o principal objetivo dos consumidores residenciais”.

Dados x soluções

A margem de redução para o brasileiro é pequena, o que dificulta ainda mais as opções de economia doméstica. O Banco Mundial indica que, enquanto os brasileiros consomem 2.400 kWh por ano, os argentinos consomem quase 3.000 kWh. Em outro comparativo, desta vez com os americanos, mostrou que utilizamos 20% menos energia que eles. Esse cenário evidencia que é preciso buscar caminhos alternativos para poupar mais. Entre eles, segundo o professor, estão a construção de mais usinas com reservatórios e o planejamento cauteloso, “com responsabilidade, mas sem preconceito”, de geração nuclear.

Sertão urbano: como resolver?

A crise hídrica também é fator preocupante e diretamente atrelado à crise elétrica. Tudo por um motivo simples: o aumento da utilização das termelétricas como medida preventiva ao uso das hidrelétricas elevou proporcionalmente as tarifas de luz. Além disso, segundo o docente do ISAE/FGV, Cleverson V. Andreoli, a falta de recursos para investimentos em diversas áreas fez com que os governos diminuíssem a margem de segurança dos projetos hidráulicos, que devem prever um grande período de recorrência para evitar comprometimento no abastecimento público.

Uma das soluções em longo prazo apontadas por Andreoli é a criação de legislações mais estimulantes às boas práticas ambientais, como a construção de casas sustentáveis que devem ser planejadas desde a concepção do projeto. “Leis excessivamente restritivas acabam por prejudicar o meio ambiente. É preciso garantir a segurança, mas sem desestimular ações sustentáveis importantes para evitar situações como as vividas hoje”, explica o professor.

As mudanças climáticas ampliam os extremos: as secas e as chuvas ficam mais intensas e este fenômeno já começa a cobrar atitudes na rotina dos brasileiros. Para Andreoli, não é preciso esperar o Governo decretar regras de racionamento, uma vez que estamos numa situação de risco iminente. Entre as medidas práticas que podem ser executadas para evitar o desperdício no dia a dia, estão:

Diminuir a carga de freezers e geladeiras e regular a temperatura;

Evitar o uso de equipamentos de grande consumo de energia elétrica em horários de pico (das 18h às 21h);

Desligar da tomada equipamentos em stand by, como TVs e rádios;

Apagar a luz ao sair do recinto e desligar a televisão quando não estiver assistindo;

Na compra de novos equipamentos elétricos e eletrônicos, dê preferência ao que tem certificação de eficiência Procel;

Substitua as lâmpadas incandescentes por fluorescentes;

Passar toda a roupa de uma só vez, evitando consumo excessivo de energia;

Preferir chuveiros a gás. Caso não seja possível, reduzir o tempo de banho em chuveiros elétricos;

Instalar descargas com função dupla, que dosam a quantidade de água despendida por funcionalidade;

Fechar a torneira ao escovar os dentes ou se ensaboar;

Aproveitar água da chuva para reutilização em atividades domésticas.

Publicado no Portal EcoDebate, 22/05/2015

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Saiba Mais – Comitês de Bacias Hidrográficas, por Antonio Silvio Hendges

[EcoDebate] A Lei 9.433/1997 – Política Nacional de Recursos Hídricos, PNRH – estabeleceu os fundamentos, objetivos, diretrizes e instrumentos para a gestão das águas no território nacional, regulamentando o artigo 21, inciso XIX da Constituição Federal, que prevê a implantação do Sistema Nacional de Recursos Hídricos e a definição dos critérios para as outorgas e cobranças pelos direitos de uso deste recurso natural. A PNRH tem como fundamentos previstos no artigo 1º: a) domínio público da água, b) como recurso natural limitado e dotado de valor econômico, c) uso prioritário para consumo humano e dos animais nos casos de escassez, d) gestão com uso múltiplo, e) as bacias hidrográficas como unidades básicas para implementação da gestão das águas e f) a descentralização e a participação dos poderes públicos, usuários e comunidades na gestão.

A PNRH também estabeleceu o Sistema Nacional de Gerenciamento dos Recursos Hídricos composto por diversos órgãos: Conselho Nacional de Recursos Hídricos, Agência Nacional de Águas, Conselhos de Recursos Hídricos dos Estados e Distrito Federal, Comitês de Bacias Hidrográficas, órgãos dos poderes públicos federal, estaduais, do Distrito Federal e municipais com competências relacionadas à gestão dos recursos hídricos (exemplo: os Departamentos de Recursos Hídricos ou equivalentes e os órgãos responsáveis pelos licenciamentos ambientais nos Estados) e as Agências de Água relacionadas com as diferentes regiões hidrográficas ou comitês hidrográficos. Todos estes assuntos já foram abordados em artigos anteriores publicados neste Portal EcoDebate.

Neste artigo, serão abordadas as características dos Comitês de Bacias Hidrográficas, órgãos fundamentais integrantes do Sistema Nacional de Gerenciamento dos Recursos Hídricos e organizados através de representações dos diferentes usuários, inclusive econômicos das águas brasileiras.

Os Comitês de Bacias Hidrográficas tem como áreas de atuação:

I – A totalidade de uma bacia hidrográfica¹;

II – Sub-bacias hidrográficas de tributários dos cursos principais de bacias, ou de tributários destes;

III – Grupos de bacias ou sub-bacias hidrográficas contíguas.

Nos rios de domínio da União os Comitês de Bacias Hidrográficas serão instituídos por atos da Presidência da República.

São competências dos Comitês de Bacias Hidrográficas:

I – Promover debates sobre questões relacionadas com os recursos hídricos e articular as ações das entidades que os compõe;

II – Arbitrar administrativamente em primeira instância os conflitos relacionados com os recursos hídricos;

III – Aprovar os planos de recursos hídricos das respectivas bacias;

IV – Acompanhar a execução dos planos de recursos das respectivas bacias e sugerir as ações necessárias ao cumprimento das metas estabelecidas;

V – Propor ao conselho nacional e conselhos estaduais de recursos hídricos as acumulações, derivações, captações e lançamentos pouco expressivos e isentos das obrigatoriedades de outorgas dos direitos de usos dos recursos hídricos;

VI – Estabelecer mecanismos de cobranças pelo uso dos recursos hídricos e propor os valores cobrados;

VII – Estabelecer critérios e promover a divisão dos custos de obras de uso múltiplo, de interesse comum ou coletivo dos recursos hídricos;

Quanto às decisões dos Comitês de Bacias Hidrográficas, cabem recursos ao Conselho Nacional ou Conselhos Estaduais de Recursos Hídricos. Os Comitês, conforme descrito no item II sobre as competências destes, são órgãos de primeira instância quanto ao arbitramento dos conflitos relacionados aos recursos hídricos em suas respectivas bacias.

Os Comitês de Bacias Hidrográficas são compostos por representantes da União, Estados, Distrito Federal e Municípios em que os territórios se situem, mesmo parcialmente, em suas áreas de atuação, dos usuários das águas em suas áreas de abrangência e das entidades civis relacionadas aos recursos hídricos que comprovadamente atuam na bacia hidrográfica. O número de representantes dos setores mencionados é estabelecido nos regimentos internos dos comitês, sendo que as representações dos poderes executivos da União, Estados, Distrito Federal e Municípios estão limitadas a metade do total de componentes. Nos comitês de bacias de rios fronteiriços e Transfronteiriços, a representação da União inclui obrigatoriamente um representante do Ministério das Relações Exteriores.

Nos Comitês de Bacias Hidrográficas em que os territórios de atuação abranjam terras indígenas são incluídos representantes da Fundação Nacional do Índio – Funai e das comunidades indígenas residentes ou com interesses na bacia. A participação da União nos comitês com atuações restritas aos rios de domínios estaduais será estabelecida nos regimentos respectivos. Os Comitês de Bacias Hidrográficas são dirigidos por um Presidente e um Secretário eleitos dentre os membros.

Antonio Silvio Hendges, Articulista do EcoDebate, professor de Biologia, pós graduação em Auditorias Ambientais, assessoria em sustentabilidade e educação ambiental –www.cenatecbrasil.blogspot.com.br

Publicado no Portal EcoDebate, 21/05/2015
"Saiba Mais – Comitês de Bacias Hidrográficas, por Antonio Silvio Hendges," in Portal EcoDebate, 21/05/2015, http://www.ecodebate.com.br/2015/05/21/saiba-mais-comites-de-bacias-hidrograficas-por-antonio-silvio-hendges/.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Acesso à água muda a realidade de agricultores do Semiárido

Fonte: Ascom/MDS 
Terça-feira, 19 de Maio de 2015 


Mais de 120 mil famílias receberam tecnologias para produção de alimentos na região

Com a construção da cisterna calçadão, a vida da família de Maria Aparecida da Silva, 50 anos, de Lagoa da Volta (SE), começou a mudar. “Hoje eu digo que sou uma mulher rica. Faz quatro anos que eu recebi a cisterna e, podendo armazenar água da chuva, comecei logo a plantar.” Assim como Maria Aparecida, mais de 120 mil famílias receberam tecnologias sociais de captação de água da chuva para produção de alimentos. Além das tecnologias para produção, 1,1 milhão de famílias receberam reservatórios e hoje têm água de qualidade para beber, cozinhar e para a higiene pessoal.
Antes da cisterna, com cinco filhos dentro de casa, a família de Maria Aparecida vivia de bicos. O programa Bolsa Família completava essa renda. “A vida melhorou muito. Nós morávamos em um povoado e a situação era muito difícil. Só Deus mesmo. Hoje, trabalhamos muito, mas trabalhamos para nós mesmo.” A produção na propriedade da agricultora, chamada Sítio Verde, alimenta toda a família que, com filhos e netos, soma 19 pessoas.

O excedente das frutas e verduras, ela vende em uma feira do município onde mora. “Toda sexta-feira, coloco a minha produção em um carrinho de mão e vou para a feira vender. Mas nem sempre eu chego lá, pois acaba tudo pelo caminho. Também deixo um pouco da produção em casa, pois muitas pessoas vão até lá para comprar”, diz.

As tecnologias sociais de captação de água da chuva para produção, com capacidade para 52 mil litros de água, abastecem os agricultores do Semiárido. Além dos reservatórios, eles podem ter acesso à assistência técnica especializada e a recursos para investir nas propriedades, e contam com o apoio à comercialização da produção, por meio de compras públicas e privadas.

Já as cisternas de placas são tecnologias sociais – soluções simples e de baixo custo – para captar e armazenar água da chuva. Cada família recebe um reservatório de água para consumo próprio com capacidade para armazenar 16 mil litros. Com isso, é possível que essa família, com até cinco pessoas, possa ter água para beber e comer por até oito meses.

Lançado em 2011, o Programa Água para Todos é uma ação do governo federal, executada pelos ministérios da Integração Nacional, do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, do Meio Ambiente, além da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), da Fundação Banco do Brasil, da Petrobras e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). As ações são executadas em parceria com organizações da sociedade civil, como a Associação Programa Um Milhão de Cisternas (AP1MC), estados, consórcio públicos municipais e bancos públicos, como o Banco do Nordeste.

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segunda-feira, 18 de maio de 2015

Escassez de água em várias partes do mundo ameaça a segurança alimentar e os meios de subsistência

Desafios: melhores políticas e mais investimentos, incluindo a adaptação da agricultura às alterações climáticas
Em 2050 haverá água suficiente para produzir os alimentos necessários para alimentar a população global, cuja expectativa é que supere os 9 milhões de pessoas, mas o consumo excessivo, a degradação e o impacto das alterações climáticas irá reduzir a disponibilidade de água em várias regiões, especialmente em países em desenvolvimento, segundo advertiram a FAO e o Conselho Mundial da Água (CMA) em um relatório.

O documento “Rumo a um futuro de segurança hídrica e alimentar”, aponta a necessidade de políticas governamentais e investimentos dos setores público e privado para garantir que a produção agrícola, animal e de pesca seja sustentável e contemple também a salvaguarda dos recursos hídricos.
Essas ações são essenciais para reduzir a pobreza, aumentar os rendimentos e assegurar a segurança alimentar de muitas pessoas que vivem em zonas rurais e urbanas, segundo destaca o relatório.

“A segurança alimentar e hídrica estão estreitamente ligadas. Acreditamos que desenvolvendo abordagens locais e fazendo os investimentos certos, os líderes mundiais podem assegurar que haverá um volume suficiente, qualidade e acesso à água para garantir a segurança alimentar em 2050 e na posteridade,” disse Benedito Braga, Presidente do Conselho Mundial da Água, ao apresentar o relatório no 7º Fórum Mundial da Água em Daegu e Gyeongbuk, na Coreia do Sul.

“A essência do desafio é adotar programas que envolvam investimentos com benefícios a longo prazo, como a reabilitação de infraestruturas. A agricultura tem de seguir o caminho da sustentabilidade e não o da rentabilidade imediata”, acrescentou Braga.

“Em uma época de alterações aceleradas e sem precedentes, a nossa capacidade de proporcionar uma alimentação adequada, inócua e nutritiva de forma sustentável e equitativa é mais relevante que nunca. A água como um elemento insubstituível no alcance deste fim, está já sob pressão pelas crescentes exigências de outros usos, agravada por uma governança débil, falta de capacidade e falta de investimentos,” disse a Diretora Geral Adjunta da FAO, Maria Helena Semedo.

“Este é o momento oportuno para rever as nossas políticas públicas, os marcos de investimentos, as estruturas de governança e as instituições. Estamos entrando na era de desenvolvimento pós-2015 e devemos marcá-la com compromissos sólidos,” acrescentou.

A agricultura continuará a ser a maior consumidora de água

Em 2050 serão necessários mais de 60% de alimentos – até 100% nos países em desenvolvimento – para alimentar o mundo e a agricultura vai manter-se como o maior setor consumidor de água a nível mundial, o que representa em muitos países cerca de 2/3 ou mais da disponibilidade procedente de rios, lagos e aquíferos.

Mesmo com o crescimento da urbanização, em 2050, grande parte da população mundial e a maioria dos mais pobres continuarão a obter sustento através da agricultura. Ainda assim, este setor verá o volume de água disponível reduzir-se devido a uma maior competição por parte das cidades e indústria, indica o relatório conjunto da FAO e do CMA.

Sendo assim, por meio da tecnologia e das práticas de gestão, os agricultores, especialmente os pequenos agricultores, terão de encontrar maneiras de aumentar a produção com uma disponibilidade limitada de terra e água.

Atualmente, a escassez de água afeta mais de 40% da população mundial, uma percentagem que alcançará os 2/3 em 2050. Esta situação deve-se em grande parte a um consumo excessivo de água para a produção alimentar e agrícola. Por exemplo, em grandes zonas da Ásia meridional e oriental, no Meio Oriente, Norte de África e América Central e do Norte, é usada mais água subterrânea do que a que pode ser reposta naturalmente.

Em algumas regiões a agricultura intensiva, o desenvolvimento industrial e o crescimento das cidades são responsáveis pela contaminação das fontes de água, acrescenta o relatório.

Alterações nas políticas e nos investimentos

São necessárias melhorias destinadas a ajudar os agricultores a aumentarem a produção de alimentos utilizando recursos hídricos cada vez mais limitados, incluindo no campo da fitogenética e da zoogenética. Será também fundamental capacitar os agricultores para que façam uma melhor gestão dos riscos associados à escassez de água, segundo a FAO e o CMA. Isso requer uma combinação de investimentos públicos e privados, assim como programas de fomento e de apoio.

Para fazer frente à degradação e ao desperdício, as instituições gestoras da água devem ser mais transparentes nos seus mecanismos de atribuição e fixação de preços, argumentam as duas organizações. Essencialmente, os direitos à água devem ser atribuídos de forma justa e inclusiva.

Em particular, o relatório salienta a necessidade de garantir a segurança da posse da terra e da água e o acesso ao crédito para potenciar o papel das mulheres, que na África e na Ásia são responsáveis por grande parte da atividade agrícola.

Fazer frente às alterações climáticas

Os efeitos do aquecimento global, incluindo padrões incomuns de precipitação e temperatura e os fenômenos meteorológicos extremos cada vez mais frequentes, como secas e ciclones, terão um impacto crescente, em particular sobre a agricultura e os recursos hídricos, adverte o relatório apresentado hoje.

As zonas montanhosas proveem até 80% dos recursos hídricos mundiais, mas o retrocesso dos glaciares que vem sendo observado, como consequência das alterações climáticas, põe em perigo a existência destes recursos no futuro.

As florestas, por outro lado, consomem água, mas também a fornecem – pelo menos 1/3 das maiores cidades do mundo obtém parte importante da água potável de zonas florestais. Isso sublinha a importância de intensificar os esforços para proteger as florestas e as zonas montanhosas onde tem origem grande parte da água doce do mundo.

O relatório apela por políticas e investimentos para melhorar a adaptação às alterações climáticas a nível das bacias hidrográficas e agregados familiares, assim como melhorar as instalações de armazenamento de água, a captura e a reutilização de águas residuais, assim como a investigação que gera sistemas de produção agrícola mais resilientes para os pequenos agricultores.

O Fórum Mundial da Água (12-17 de abril) é o maior evento internacional destinado à procura de soluções conjuntas aos muitos desafios hídricos do planeta. Além de produzir o relatório conjunto com o Fórum Mundial da Água, a FAO apresentou também no Fórum, um conjunto com vários parceiros, a Visão 2030 e o Quadro Global de Ação, que é um conjunto de diretrizes e recomendações para melhorar a gestão das águas subterrâneas.

Informe da FAO, publicado no Portal EcoDebate, 18/05/2015

Exploração de aquíferos precisa se tornar mais sustentável, dizem especialistas

Tema foi abordado por pesquisadores da University of California, Davis em simpósio realizado pela FAPESP (foto: Claudio Arouca/FAPESP)

Por Karina Toledo | Agência FAPESP

Na medida em que as mudanças climáticas se intensificam e as crises hídricas se tornam mais frequentes, cresce a exploração dos aquíferos subterrâneos – onde está armazenada cerca de 95% da água doce disponível no planeta.

A necessidade de pesquisas que ajudem a tornar mais sustentável o uso desse recurso, evitando contaminações e garantindo a recarga dos reservatórios, foi um dos temas abordados no dia 13 de maio, durante a FAPESP Week UC Davis in Brazil.

“A Califórnia é responsável pelo cultivo de 50% das frutas e vegetais consumidos nos Estados Unidos. Essas culturas dependem intensamente de irrigação e, como a Califórnia enfrenta o quarto ano consecutivo de seca, muitos fazendeiros têm recorrido ao bombeamento de água subterrânea”, disse Jan Hopmans, professor de Hidrologia, Terra, Ar e Recursos Hídricos da University of California, Davis.

Segundo dados apresentados por Hopmans, a população mundial mais do que dobrou nos últimos 50 anos. O mesmo ocorreu com a área agrícola irrigada e a demanda por água no período cresceu cerca de 250%.

“Na Califórnia, as águas subterrâneas, que antes representavam um terço do total usado na irrigação, hoje já correspondem a dois terços. E isso tem consequências tremendas”, disse.

De acordo com as estimativas de crescimento populacional, será necessário duplicar a produção de alimentos para atender a demanda dos próximos 50 anos. Segundo Hopmans, é urgente desenvolver tecnologias para tornar a irrigação agrícola mais eficiente, permitindo menor uso de água por unidade produzida. Caso contrário, a demanda por água duplicará nas próximas décadas.

Também é necessário, segundo Hopmans, encontrar soluções para minimizar a contaminação dos aquíferos por nitrato – oriundo principalmente de fertilizantes agrícolas e dejetos animais –, problema que pode se agravar nos próximos anos.

“A agricultura do futuro precisa se tornar, ao mesmo tempo, mais produtiva e mais sustentável. Isso exige uma melhor compreensão de como as plantas absorvem água e nutrientes, para que possamos fazer mais com menos. Requer pesquisas inovadoras sobre o solo, combinadas com ciência de plantas e novas tecnologias”, opinou Hopmans.

Preparação décadas antes

Na avaliação de Graham Fogg, professor de Hidrogeologia da UC Davis, o uso que tem sido feito atualmente dos aquíferos pelos fazendeiros californianos e também de outras regiões do globo está longe de ser sustentável. Para exemplificar, ele fez uma analogia com o sistema financeiro.

“Imagine que você tem todo o seu dinheiro depositado em duas contas bancárias. A conta A – que representa a água presente na superfície do planeta – tem saldo conhecido e você sabe quanto dinheiro está entrando e saindo. Da conta B – que representa a água subterrânea – você não sabe o saldo e nem quanto está entrando e saindo. E quando o saldo da conta A se esgota, você passa a fazer retiradas descontroladas da conta B. Como é possível ter segurança em uma situação dessas?”, disse Fogg.

Na tentativa de responder a uma questão fundamental – onde haverá água e qual quantidade estará disponível em um cenário futuro de mudanças climáticas – foi criado na UC Davis o IGERT Center for Climate Change, Water and Society (CCWAS), coordenado por Fogg.

O IGERT (Integrative Graduate Education and Research Traineeship) é um programa de treinamento oferecido pela National Science Foundation (NSF), principal agência de fomento à pesquisa básica nos Estados Unidos, para recrutar os mais destacados estudantes de doutorado do país.

“O centro da UC Davis tem como missão formar uma nova geração de cientistas com a profundidade e a amplitude multidisciplinar necessárias para lidar com os efeitos das alterações climáticas sobre os recursos hídricos”, contou Fogg.

Segundo o pesquisador, a seca que a Califórnia enfrenta atualmente não é consequência da queda nos índices de precipitação e sim do derretimento mais precoce da neve causado pelo aquecimento do planeta.

“A Califórnia sempre dependeu da neve para armazenamento de água. Toda nossa precipitação ocorre no inverno. Ela cai na forma de neve nas montanhas e, entre abril e julho, derrete e abastece os reservatórios. Assim, temos água para atender o pico de demanda, que ocorre entre junho e julho. Mas, nos últimos anos, a neve começou a derreter mais cedo e parte da água não tem como ser armazenada para uso no momento em que é necessária”, contou Fogg.

Em vez de criar novos reservatórios de superfície, defendeu Fogg, a solução é criar mecanismos para colocar mais água nos reservatórios subterrâneos e começar a usá-los de forma mais sustentável, o que requer pesquisas e avanços tecnológicos.

“Para estarmos preparados para uma seca como a que enfrentamos hoje, tínhamos que ter feito esse trabalho cerca de dez anos antes. É preciso motivar as pessoas para que façam o que tem de ser feito décadas antes de um evento extremo ocorrer”, disse Fogg.

Publicado no Portal EcoDebate, 18/05/2015