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sábado, 30 de julho de 2016

Avaliação da Embrapa aponta que integração lavoura-pecuária-floresta proporciona mais lucros

Sistema tem como base lavoura-pecuária-floresta. Instituto avaliou quatro unidades de referência tecnológica e econômica
Na Fazenda Dona Isabina (MT), para cada um real investido pelo proprietário no sistema integrado, no período de 2005 a 2012, o lucro foi de R$ 0,53. Foto: Bruno Lobato/Embrapa

O retorno do investimento feito pelos produtores que adotam sistemas integrados de produção como a integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) é maior do que daqueles que utilizam apenas a lavoura ou pecuária. O resultado foi identificado na Embrapa Agrossilvipastoril por meio da avaliação de quatro Unidades de Referência Tecnológica e Econômica (URTE) em Mato Grosso.

Na Fazenda Dona Isabina, em Santa Carmem (MT), por exemplo, para cada um real investido pelo proprietário no sistema integrado, no período de 2005 a 2012, o lucro foi de R$ 0,53. Já a fazenda modal da região, com agricultura exclusiva, nesse mesmo período teve um prejuízo de R$ 0,31 por real investido. O lucro anual de cada hectare na ILPF foi de R$ 230, muito superior ao prejuízo anual médio de R$ 116 da sucessão soja e milho.

Trabalhando com ILPF, a Fazenda Brasil, em Barra do Garças (MT), também obteve resultados superiores aos da fazenda modal da região, com retorno de R$ 0,89 por real investido contra R$ 0,35 registrados na propriedade de comparação.

De acordo com Júlio, os dados avaliados mostram que a ILPF tem todas as condições de ser lucrativa, mas também reforçam a necessidade de planejamento e organização para tomar as decisões mais corretas no momento certo.

“Olhando nossos resultados é bem evidente que vale a pena adotar a ILPF. Mas é preciso ter muito claro que é um sistema que só apresenta resultados se o produtor tiver um nível de planejamento e organização muito grande. Se por um lado o sistema mostra um nível de retorno, receita e comportamento mais estável no tempo, isso é em decorrência do desempenho do produtor. Saber negociar no momento correto e entender as dinâmicas dos preços são questões fundamentais”, analisa o pesquisador da Embrapa.

A comprovação da importância da conjuntura para o resultado final está nos dados obtidos na Fazenda Certeza, em Querência, no leste do estado. A propriedade também trabalha com integração lavoura-pecuária e teve os resultados econômicos de 2008 a 2012 analisados. Naquele período, o mercado da soja já havia se recuperado, sobretudo com o estabelecimento da China como grande compradora do grão. Com isso, a fazenda modal de agricultura obteve resultados melhores do que a ILP. Mesmo assim, o sistema integrado ainda se mostrou viável.

Indicadores de rentabilidade

Mesmo levando-se em consideração as características de cada fazenda avaliada, todas as propriedades com alguma configuração de produção integrada tiveram resultados positivos. A maior parte delas, inclusive, supera com grande margem as áreas modais com as quais foram comparadas.

Para que seja possível comparar resultados de fazendas tão distintas, a equipe do projeto –composta por pesquisadores da Embrapa, professores e alunos da Universidade do Estado do Mato Grosso (Unemat), analistas do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) e da Rede de Fomento Integração Lavoura-Pecuária-Floresta – padronizou uma metodologia de análise de custos. Com esse método, é possível chegar a indicadores que auxiliam o produtor a visualizar os benefícios econômicos da ILPF.

Fonte: Portal Brasil, com informações do Ministério da Agricultura.

in EcoDebate, 25/07/2016

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Produção orgânica, reforma agrária e preservação florestal: a história do sítio A Boa Terra, Parte 3/3, artigo de Roberto Naime

[EcoDebate] Pelo tamanho das árvores da mata no local e a densidade da ocupação pelas plantas mais baixas, se percebe que é uma mata jovem, que 35 anos antes simplesmente não existia. No entanto, a riqueza da flora e da fauna já se mostra, com muitos pássaros, insetos e sapos.

Produzir água, hoje, talvez seja tão importante quanto produzir alimento. Quem vive na capital paulista sabe muito bem o que isso significa, diante da possibilidade de grave desabastecimento que segue ameaçando a metrópole.

E produzir água significa, na realidade, preservar áreas estratégicas de mata nativa e cuidar das nascentes. Fazendo isso, a água volta a fluir.

No Sítio, a área de preservação é hoje bem mais ampla que a área utilizada para a produção agrícola. Esta compreende 10 hectares naquele local e mais 10 hectares num local próximo, em área de serra, que por ser mais frio é mais utilizado durante o verão.

Já a área preservada compreende dezenas de hectares de mata, além dos 60 hectares de várzea, que depois de encerrado o projeto de cultivo comunitário de arroz e feijão, passaram a ser destinados à preservação permanente.

Hoje, o Sítio recebe ao longo do ano dezenas de turmas de alunos de escolas estaduais de Itobi, para propor dias inteiros de “alfabetização ecológica. O projeto foi concebido por Nicolete, uma das filhas do casal fundador Joob e Tini.

Enquanto aconteciam os projetos sociais, as mulheres começaram a plantar uma horta, utilizando técnicas de biodinâmica que a irmã de Tini havia aprendido em cursos na Holanda.
Ao final de 1981, cerca de meio hectare estava plantado. Foi a partir deste núcleo que cresceu o Sítio A Boa Terra.

Além de sua ampla produção de verduras, legumes e frutas, para atender melhor seus clientes o Sítio hoje comercializa também itens de produtores parceiros. Todos podem ser selecionados pelo site ou por e-mail.

Apenas no segundo semestre de 2014, comercializou um total de 145.439 kg de legumes e frutas (64.050 kg dos quais de produção própria) e 65.009 maços de verduras (sendo 52.251 cultivados e colhidos no local).

A produção própria inclui cenoura, milho, beterraba, rabanete, cebola, abóbora brasileira, abóbora italiana, pepino caipira, alho porro, milho verde, alfaces (americana, crespa, lisa, mimosa e roxa), escarola, couve manteiga, rúcula, almeirão, cheiro verde, manjericão, orégano e hortelã.

“Temos uma pequena área com laranjas, mangas, abacate e vamos plantar este ano mais 4 mil mudas de laranjas”, informou Júlio.

Ao todo, são 40 funcionários: seis no setor de Educação Ambiental, nove na produção e 25 na área comercial.

As cestas entregues aos clientes são assim distribuídas, 9% na região do sítio (Itobi, São José do Rio Pardo, Casa Branca, Vargem Grande do Sul e Mococa), 16% na de Ribeirão Preto e 75% nas regiões de São Paulo e Campinas.

Segundo Júlio, não há qualquer política que favoreça o produtor orgânico na obtenção de financiamento, assistência ou apoio dos governos federal, estadual e dos municipais com os quais o Sítio se relaciona.

Ao contrário, os orgânicos, além de seus custos maiores por preservar o meio ambiente e garantir um alimento sem veneno para o consumidor, têm também que arcar com todos os custos de certificação.

“Na agricultura convencional, é permitida a presença de certos níveis de agrotóxicos nos alimentos e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) analisa os produtos e afere isso. Por que estes produtores não são obrigados a dizer, no rótulo, qual o nível médio de agrotóxicos no alimento? Por que apenas o orgânico necessita de certificação?”, questiona Júlio.

Na prática, são premiados aqueles que contaminam a terra, os lençóis freáticos e os rios com agrotóxicos, e vendem alimentos com veneno, provocando malefícios que são difíceis de contabilizar, mas que certamente impactam nos gastos públicos e privados com saúde.

“Também há muito menos pesquisa acadêmica na área de orgânicos do que na área da agricultura convencional”, ressalta Joop. “Um conhecimento mais refinado dos cultivos ajudaria muito no aumento da produtividade”.

“Conheça as pessoas do campo e suas histórias, entenda a diferença entre a agricultura comum e a orgânica, ouça o campo dos pássaros, relembre o cheiro de terra molhada, o verdadeiro sabor dos alimentos, o deleite dos quitutes caseiros, ande descalço e brinque com o pés na água pelas trilhas da mata. Dê esse presente a você e aos que você ama!”

Referência: MST

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

** Nota: Sugerimos que leiam, também, os artigos anteriores desta série:



in EcoDebate, 28/07/2016
"Produção orgânica, reforma agrária e preservação florestal: a história do sítio A Boa Terra, Parte 3/3, artigo de Roberto Naime," in Portal EcoDebate, ISSN 2446-9394, 28/07/2016, https://www.ecodebate.com.br/2016/07/28/producao-organica-reforma-agraria-e-preservacao-florestal-a-historia-do-sitio-a-boa-terra-parte-33-artigo-de-roberto-naime/.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Fazenda em SP mostra viabilidade da agrossilvicultura de grande escala

A Fazenda da Toca, empresa privada de São Paulo, está demonstrando a viabilidade da agrossilvicultura — o cultivo de árvores em conjunto com culturas agrícolas ou com criação de animais — de grande escala, inclusive em terras com solo altamente degradado.

Segundo o Banco Mundial, o empreendimento pode pôr fim ao mito de que a agrossilvicultura em grande escala é demasiadamente cara e requer mão de obra intensiva para atrair o setor privado.
Fazenda Toca, em São Paulo, adota o cultivo de árvores juntamente a culturas agrícolas. Foto: Instagram

Por Gregor Wolf e Werner Kornexl

A pecuária e a agricultura têm sido os impulsores principais do desmatamento e da degradação da terra no Brasil, utilizando práticas de uso da terra às custas do meio ambiente, causando escassez de água, perda da biodiversidade e persistência da pobreza.

Não há dúvida de que a restauração da terra e das florestas para reparar os ecossistemas é urgentemente necessária no Brasil. Isso é sobretudo evidente no estado de São Paulo, onde a escassez da água, causada por uma seca prolongada e bacias hidrográficas degradadas, está ameaçando a metrópole de mais de 20 milhões de habitantes. Infelizmente, devido a percepções de que a restauração da terra é proibitivamente cara, as intervenções têm sido lentas.

No entanto, em uma fazenda em São Paulo é possível ver que há mudanças a caminho. Há novas evidências de que práticas de agrossilvicultura — o cultivo de árvores em conjunto com culturas agrícolas ou com criação de animais — desenvolvidas localmente oferecem sistemas de produção financeiramente viáveis, ao mesmo tempo restaurando o solo e a cobertura da vegetação em larga escala.

A Fazenda da Toca, empresa privada de São Paulo, está demonstrando a viabilidade da agricultura e agrossilvicultura de grande escala, inclusive em terras com solo altamente degradado. O local pode pôr fim ao mito de que a agrossilvicultura em grande escala é inviável, demasiadamente cara e requer mão de obra intensiva para atrair o setor privado.

O empreendimento está apto a demonstrar que as práticas de agrossilvicultura não somente restauram áreas degradadas, mas também são mais lucrativas do que as práticas agrícolas convencionais. Qual é o segredo de sua eficácia? Simples: não se trata de um enfoque ou de uma técnica únicos. Ao contrário, é uma combinação de intervenções, inteligentemente sequenciadas, que estão produzindo resultados positivos.

Os solos degradados são estabilizados com diferentes espécies de grama para aumentar a matéria orgânica, espécies exóticas de crescimento rápido proporcionam sombra e biomassa, ao passo que árvores frutíferas e espécies nativas de madeira de alto valor geram fluxo de caixa e retornos de longo prazo. Seguindo esses princípios — em variações e abordagens múltiplas — a agrossilvicultura na Fazenda da Toca já é lucrativa sem subsídios ou outros incentivos, mostrando que a atividade em larga escala é viável.

A Fazenda da Toca também experimenta inovações tecnológicas diferentes. Por exemplo, tem trabalhado em parcerias estratégicas para desenvolver tecnologias e criar equipamentos de agrossilvicultura mecanizada em parceria com empresas locais. Essa maneira de agir reduz custos e cria redes nacionais para divulgar técnicas e modelos de uso da terra financeiramente viáveis, preparando assim o cenário parar uma ampla adoção deste método.

Recentemente, a Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura — uma coalizão de mais de 100 parceiros privados, grandes empresas e ONGs — organizou um evento para discutir a forma de acelerar a ampliação do modelo Fazendo da Toca no estado e em outras áreas do país.

O objetivo da coalizão é contribuir para o recente compromisso do Brasil na COP21 de enfrentar os problemas de degradação da terra e dos recursos, bem como ajudar a cumprir até 2030 a meta nacional de restaurar 12 milhões de hectares de terras degradadas, recuperando mais 15 milhões de hectares de pastagens degradadas e assim melhorando outros 5 milhões de hectares de sistemas de cultivo-pecuária-silvicultura.

Um dos principais resultados desse processo singular — também aprendido de cultivos florestais de larga escala bem-sucedidos no sul do país — é o seguinte: a restauração não pode estar separada da agrossilvicultura produtiva ou de sistemas agrossilvopastoris, ou seja, o processo deve proporcionar aos agricultores renda em dinheiro logo no início do processo, ao mesmo tempo restaurando o solo e as funções ecológicas.

A experiência da Fazenda da Toca oferece um importante estudo de caso para a implementação do Desafio de Bonn, cuja meta é restaurar 150 milhões de hectares de terras desmatadas e degradadas do mundo até 2020 e 350 milhões até 2030. Até hoje, 31 países deram um passo à frente comprometendo-se a restaurar áreas degradadas. No entanto, há apenas alguns lugares em que esse esforço concentrado está em andamento, reforçado pela evidência de que a restauração em grande escala é financeiramente viável.

A estrutura normativa avançada do Brasil e o Código Florestal oferecem o contexto para essa meta desafiadora. No entanto, ainda precisam ser abordados: financiamento adequado, disponibilidade de sementes, mercados, conhecimento de genética e práticas de silvicultura de espécies nativas, bem como viabilidade financeira.

Experiências como a da Fazenda da Toca trazem a esperança de que o Brasil possa realmente ampliar a restauração, cumprindo as metas de restauração determinadas pelo Código Florestal, bem como cumprindo os compromissos estabelecidos em suas Contribuições Nacionalmente Determinadas na COP21.

Da ONU Brasil, in EcoDebate, 14/07/2016

Estudo avalia efeitos distintos e limitações do manejo florestal sustentável

Resultados de pesquisas realizadas na Amazônia apontam limitações na eficácia de diretrizes de gestão de ecossistemas e de certificados internacionais (Foto:Manilkara bidentata/Wikimedia Commons

Por Peter Moon, Agência FAPESP

O Manejo Florestal Sustentável é um dos pontos basilares da Lei de Gestão de Florestas Públicas, aprovada pelo Congresso Nacional em 2006 como resposta ao desmatamento crescente que ocorria à época no Cerrado e, principalmente, na Amazônia.

A nova legislação contribuiu decisivamente para a redução do desmatamento na Amazônia Legal, que caiu dos 27.700 km2 de floresta derrubada em 2004 para a mínima histórica de 5.000 km2 em 2014, de acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) – embora, em 2015, o desmatamento tenha voltado a subir, atingindo 5.800 km2.

O Ministério do Meio Ambiente define o Manejo Florestal Sustentável como “a administração da floresta para obtenção de benefícios econômicos, sociais e ambientais, respeitando-se os mecanismos de sustentação do ecossistema objeto do manejo”.

A estratégia prevê a retirada seletiva de espécies de valor comercial em quantidade limitada, preservando as árvores jovens, por exemplo. Também é obrigatória a retirada prévia das lianas, os cipós e a vegetação aérea que crescem entre as árvores, evitando assim que a derrubada de um indivíduo arraste outras árvores consigo.

Estas e outras medidas buscam reduzir ao máximo o impacto da atividade madeireira nas florestas nacionais. Assim mesmo, o impacto existe. Como fazer para quantificá-lo e qualificá-lo? Esta foi a tarefa de um grupo de ecologistas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Os primeiros resultados foram publicados no Forest Ecology and Management. O estudo tem apoio da FAPESP.

“Queríamos entender como o manejo sustentável agia sobre espécies arbóreas de uso comercial e também aquelas não madeireiras”, disse Flavio Antonio Maës dos Santos, do Departamento de Biologia Vegetal da Unicamp. O estudo foi levado a cabo por sua então doutoranda, Maria Rosa Darrigo.

Para entender a ação do manejo florestal no médio e no longo prazo, os pesquisadores selecionaram glebas de floresta em Itacoatiara, no Amazonas, a 250 km de Manaus. A área, uma reserva florestal com 506 mil hectares, é explorada por empresa desde 1995 de acordo com diretrizes da Forest Stewardship Council (FSC), organização não governamental que estabelece padrões internacionais de manejo florestal sustentável.

As glebas florestais estudadas foram exploradas em 1996, 2002 e 2005. Os dados dos efeitos do manejo sobre as espécies vegetais e o solo foram coletados entre 2007 e 2009, fornecendo um painel de regeneração florestal efetiva de dois, cinco e 11 anos desde o manejo. Todos os dados foram comparados aos de uma área de controle não explorada.

Foram estudadas sete espécies arbóreas. Elas são comuns em todas as áreas estudadas: acariquara (Minquartia guianensis), cupiúba (Goupia glabra), maparajuba (Manilkara bidentata), maçaranduba (Manilkara huberi), Pouteria anomala, Protium hebetatume angelim-rajado (Zygia racemosa). Essas espécies representam um amplo conjunto de características, incluindo tamanho, densidade da madeira e estratégias reprodutivas.

“A partir de todos esses dados conseguimos comparar o que estava acontecendo com os indivíduos daquelas sete espécies nas áreas investigadas”, disse Santos. Um exemplo é a abertura de clareiras na mata. Mesmo depois de 11 anos, não se observou uma recuperação total da cobertura vegetal nas áreas onde a derrubada manejada de árvores abriu clareiras.

Daí decorre uma segunda evidência: a quantidade de luz que incide sobre a vegetação na clareira. As plantas pequenas mostraram uma taxa de crescimento maior do que as demais, pois o acesso à luz é um fator determinante de crescimento.

Por outro lado, se a taxa de crescimento das plantas pequenas aumentou, sua mortalidade seguiu o mesmo rumo. E de forma acelerada. “A taxa de mortalidade das plantas pequenas subiu de duas a três vezes, quando comparada às mesmas plantas na área de controle”, disse Santos. A resposta a essa disparidade pode estar nas alterações sofridas no ambiente após o manejo, com a mudança na frequência de indivíduos de determinadas espécies em relação às outras.

Uma outra causa de mortalidade observada foi a queda de árvores. Segundo Santos, “nas áreas manejadas quem cresce mais são as espécies com densidade de madeira menor, portanto mais sujeitas à queda. Em princípio, o que pareceria benéfico às plantas menores, o aumento do acesso à luz, na verdade não ocorre”.

Composição do solo

Outra constatação dos pesquisadores foi a alteração na composição do solo nas áreas manejadas em comparação com a área de controle. Nos primeiros dois anos após o manejo, a fertilidade do solo se manteve comparável à da área de controle. Depois desse período, a fertilidade caiu cerca de 30%. Boa parte da manutenção da fertilidade nas áreas de manejo se deve à decomposição das árvores derrubadas para a abertura de trilhas por onde são transportadas as toras comercializáveis, por exemplo. Após dois anos do manejo, quando a decomposição dessa mata derrubada se completa, a fertilidade das áreas manejadas declina.

Uma das conclusões do trabalho é que os efeitos do manejo florestal sustentável não são iguais para todas as espécies. Algumas são mais afetadas do que as outras. Algumas crescem mais do que as outras. Essa constatação por si só é extremamente importante para entendermos as limitações da eficácia das diretrizes e dos certificados internacionais de manejo florestal.

“Se essas estratégias fossem de fato sustentáveis, seria de se esperar a manutenção das populações de todas as espécies ao longo do tempo. Mas não é isso o que acontece”, disse Santos. “O que constatamos foi que, tanto na área manejada há 11 anos, quanto na área manejada há cinco anos, ocorreu uma redução das populações no tempo.”

Uma possível resposta é a retirada das árvores adultas, que são justamente as fontes de sementes para a germinação de novas gerações de árvores. “Manejo sustentável é, sem dúvida, muito melhor do que a terra arrasada pelo desmatamento generalizado”, afirmou Santos. “Só que dizer que isso é sustentável, não dá para afirmar.”

Maria Rosa Darrigo é mais específica. “A exploração manejada, no caso deste estudo, realmente causou mudanças na trajetória de recomposição da floresta, que não são consideradas nos planos de manejo florestal sustentável. O que temos, de fato, é uma exploração de baixo impacto. Da forma que estamos fazendo, ainda não podemos chamá-la de sustentável, mas isso não quer dizer que não houve avanços na forma de se explorar as espécies madeireiras, uma vez que o impacto é comparativamente menor do que o causado pelos métodos tradicionais. O que precisamos entender e aceitar é que a floresta tem o seu próprio tempo de desenvolvimento, e o mercado precisa se adaptar a esse tempo natural.”

O artigo Effects of reduced impact logging on the forest regeneration in the central Amazonia (doi: 10.1016/j.foreco.2015.10.012), publicado por Santos, Darrigo e Eduardo Martins Venticinque em Forest Ecology and Management, pode ser lido em www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0378112715005678.

in EcoDebate, 14/07/2016

sábado, 25 de junho de 2016

Integração Lavoura Pecuária Floresta (iLPF): Tecnologia da Embrapa evita desmatamento de novas áreas para produção

“A tecnologia é capaz de dobrar a produtividade, quintuplicar a produção de pecuária sem alteração de custo e sem abertura de novas fronteiras agrícolas”, diz pesquisador da Embrapa. Foto: Divulgação Embrapa/ Breno Lobaro

A tecnologia aplicada na agricultura tem permitido que em uma mesma área sistemas integrados produzam até quatro safras por ano. Desenvolvido pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), os sistemas de integração envolvem a produção de grãos, fibras, madeira, energia, leite ou carne, em plantios em rotação, consorciação e/ou sucessão.

Tratada como a “revolução dos trópicos”, por um de seus criadores, o pesquisador da Embrapa Cerrados João Kluthcouski, a técnica funciona basicamente com o plantio, durante o verão, de culturas agrícolas anuais como arroz, feijão, milho, soja ou sorgo e de árvores, associado a espécies forrageiras (braquiária ou panicum). As combinações são variadas entre os componentes agrícola, pecuário e florestal e levam em consideração espaço e tempo disponíveis.

“Essa é a maior revolução dos trópicos, do cinturão tropical do mundo todo. Porque ela não é uma simples tecnologia, é um complexo tecnológico de fácil aplicação e entendimento, que permite recuperar áreas degradadas com alta sustentabilidade. Este é o sistema de integração: recuperação de áreas degradas, produção sustentável, quatro colheitas por ano que dependem apenas de chuva”, explica João Kluthcouski, conhecido como João K.

Ao integrar as atividades, evita a necessidade de desmatamento de novas áreas para o aumento da produção. A tecnologia resulta em diferentes sistemas integrados, como lavoura-pecuária-floresta (iLPF), lavoura-pecuária (iLP), silvipastoril (SSP) ou agroflorestais (SAF). A técnica de integração aceita todas as espécies vegetais, em áreas de a partir de 1 hectare de terra.

“A tecnologia é capaz de dobrar a produtividade, quintuplicar a produção de pecuária sem alteração de custo e sem abertura de novas fronteiras agrícolas”, disse João K.

O pesquisador foi o idealizador da implementação da tecnologia na Fazenda Santa Brígida, localizada em Ipameri (GO), a 200 km de Goiânia. Na ocasião, a proprietária Marize Porto Costa acabara de ficar viúva e a fazenda, até então administrada por seu marido, estava com dificuldades de manutenção.

“Quando nós assumimos a gestão da fazenda Santa Brígida em 2006, nós nos deparamos com pastos totalmente degradados, infestados de cupim e que não davam suporte para os animais que estavam aqui [na fazenda]. Quando fizemos o levantamento para ver quanto ficaria para recuperar esse espaço, nós vimos que da forma convencional era impossível fazer isso aí, era uma coisa cara e com retorno de logo prazo”, conta Marize, ao descrever o cenário da fazenda antes de procurar apoio técnico da Embrapa.

Visitada pela Agência Brasil*, a fazenda atua no sistema de integração lavoura-pecuária-floresta, com produção de gado, soja, milho, girassol e eucaliptos. Antes do sistema, a produção era de duas e meia arroba por hectare/ano. Atualmente, são 25 arrobas por hectare/ano. Com relação à soja, no começo, houve um empate de produção para uma evolução de 65 sacos por hectare/ano. A produção de milho, que era 90 sacos por hectare passou para projeção de 185 a 190 sacos por hectare.

Pecuária

Segundo o presidente da Embrapa, Maurício Lopes, o sistema representa um “novo paradigma de produção” da agricultura e pecuária brasileiras. A estatal trabalha no desenvolvimento de métricas que permitirão, ao associar a tecnologia de integração, o rastreamento da produção e a certificação da carne brasileira, em um sistema de chamado “Carbono Zero”.

Quando se cria uma métrica e um processo de rastreabilidade para a carne inserida num processo como esse, onde se tem soja, milho, árvore, pasto, o que acontece é que o sistema faz um ‘off-set‘ da emissão de metano. A Embrapa já tem dados seguros mostrando que é perfeitamente possível, quando se computa o carbono, que é incorporado pela pastagem, pelas lavouras”, explica Lopes.

Lopes ressalta que o desafio do sistema é a falta de informações do produtor rural e o estímulo para adoção do sistema. Segundo o presidente, a estatal tem atuado na adaptação de modelos para média e pequena propriedade. Nestes casos, as possibilidades de integração são mais diversificadas, mas ainda desconhecidas por parte dos agricultores.

“Com este sistema, nós estamos mudando o conceito tradicional de sustentabilidade, que era o seguinte: use os recursos naturais de forma inteligente, segura e garanta que ele esteja bom para os seus filhos. Nós estamos trabalhando um outro conceito de sustentabilidade, vamos entregar um produto muito melhor para os nossos filhos. A gente está construindo estoques de carbono no solo”, afirma Lopes.

Segurança alimentar

Segundo Maurício Lopes, os sistemas integrados diminuem a necessidade do uso de agrotóxicos na produção e atuam em variações de clima e temperatura de maneira mais segura.

“Sistemas integrados em oposição a sistemas únicos ou uso massivo de uma espécie só, eles são sistemas naturalmente mais resilientes. Esses sistemas mantém uma vida biológica extremamente mais diversificada, isso facilita por exemplo, abrigo para inimigos naturais de pragas, o que não se encontra, geralmente, em grandes culturas. Você elimina o abrigo para aqueles que seriam os inimigos naturais das pragas. Quando se tem um sistema mais diversificado, aumenta a probabilidade de você ter abrigo e proteção para inimigos naturais”, explica Lopes.

Rede de Fomento

Paulo Herrmann, presidente da empresa de máquinas agrícolas John Deere Brasil e da Rede de Fomento à Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (iLPF) explica que a tecnologia integra produção e preservação da natureza.

Do ponto de vista ambiental, ela é um avanço no que nós temos hoje, porque se tem sempre o solo coberto, sempre há vegetação, vai ter menos emissões de carbono o tempo todo, menos aquecimento global. Se consegue produzir a mesma quantidade de elementos, de produtos, que você faria num sistema convencional, numa área seis vezes menor, com 55% menos emissões [de gases]”, aponta.

Hermann destaca o benefício social da tecnologia. “Como se trata de uma atividade mais intensa, se passa a ter uma atividade ao longo do ano e isso fixa mão de obra, gera mais emprego porque é mais intensiva, tem que ter mais gente especializada para trabalhar com máquina, com a parte de gado”.

O presidente da rede de fomento ressalta a mudança de paradigma como obstáculo para o uso da tecnologia no país. “A maior dificuldade é a quebra de paradigma, não é a dificuldade da pessoa em fazer. É ela colocar na cabeça que pode plantar duas coisas ao mesmo tempo sem ter prejuízo de produtividade. De uma maneira geral, não estamos preparados para esse tipo intensivo de trabalho”.

A Rede de Fomento ILPF foi criada em 2012, composta por uma parceria entre Embrapa e as empresas Cocamar, Dow AgroScience, John Deere, Parker, Syngenta. Atualmente, há 97 unidades de referencia Tecnológica distribuídas em todos os biomas brasileiros, que envolve a participação de 19 Unidades de Pesquisa da Embrapa para disseminar informações sobre a tecnologia.

*A repórter viajou a convite da John Deere Brasil 

Por Heloisa Cristaldo, da Agência Brasil, in EcoDebate, 21/06/2016

segunda-feira, 20 de junho de 2016

INTRODUÇÃO À PERMACULTURA POR BILL MOLLISON

Este é o primeiro de uma série de 15 panfletos, baseados no Curso de Design em Permacultura ministrado em 1981 por Bill Mollison no Centro Educacional Rural, New Hampshire, Estados Unidos. Elizabeth Beyor, sem compensação financeira, transcreveu gravações em fita do curso e subseqüentemente editou o material em 15 panfletos. Thelma Snell datilografou todos os 15 panfletos e organizou a maioria deles. Lisa Barnes contribuiu com ilustracoes para os panfletos II, IX e XI. Bill Mollison editou os panfletos em relação a acurácia e estilo, como também o fiz eu, Dan Hemenway, o editor. Também fiz edição gráfica desta edição. Após cerca de 10 anos usando as transcrições de Thelma, fomos capazes de oferecer a versão editada graficamente do material, que ficou mais compacto, poupando árvores e dinheiro, e tendo também leitura mais fácil. Agora também oferecemos os panfletos em formato eletrônico, de forma que possam ser lidos diretamente na tela do computador, sem uso de papel e portanto poupando mais árvores. Esta edição foi ligeiramente re-editada e atualizada

terça-feira, 10 de maio de 2016

Agricultura sinantrópica, parte III (Final), artigo de Roberto Naime

[EcoDebate] Continuando o manejo descrito por ANDRADE e PASINI (2014), a jaqueira e o sombreiro estavam quase acompanhando o crescimento da acácia e do eucalipto. Os abacateiros já estavam bem estabelecidos e o margaridão, foi importante para ajudar a disponibilizar fósforo e nitrogênio.

Começavam a aparecer as embaúbas indicando a transformação do solo. Quando foi feita a colheita da mandioca, constatou-se que rendeu pouco mais de 28.000 kg por ha.

A partir desse momento as árvores deixaram de ser podadas. Conclui-se que a mandioca cumpriu um papel fundamental na criação das condições para o crescimento do grupo de plantas.
São dessa época também os primeiros registros da presença de minhocas puladeiras. Constatou-se que as raízes de acácia plantadas na área experimental já se estendiam até as bordas, começando a modificar o ambiente. A espécie de “carpete” que era formado pelas raízes de feto-de-gaiola estava ali mais permeável e desconectada.

Outra observação que pôde ser feita foi no momento da cavação, quando então foram encontrados exemplares de minhocas. Foi feito o plantio de mudas de bananeira com a intenção de usá-las como indicadores para analisar as possíveis modificações no solo, provocadas pela experiência em andamento.

As poucas acácias que não foram submetidas às podas regulares estavam nessa época cerca de 20% menores do que aquelas que foram podadas, evidenciando os efeitos benéficos da intervenção. Todas essas observações são exemplos do efeito da Agricultura Sintrópica.

Ao invés de gastar recursos, o homem reintegrado à sua função no sistema promove a fertilidade, a melhoria do solo, a produção de alimentos, o aumento da biodiversidade, melhorando assim as condições de vida para todos os presentes.

ANDRADE e PASINI (2014) observam que o trabalho de manutenção, com capina seletiva e podas, diminuiu gradativamente sua frequência. Posteriormente constatou-se a presença de cajá, cana-de-macaco ou cana-de-brejo e ipê . Observou-se que o chão se encontrava tomado de matéria orgânica principalmente oriunda da poda da acácia que, em breve, passaria por raleamento de modo a privilegiar seu potencial madeireiro.

As plântulas de santa bárbara apareceram tardiamente, demonstrando que não são uma boa escolha para esses tipos de solo.

Outra conclusão que se pôde tirar da secção em que foram plantadas as bananeiras foi a de que estas não são suficientemente eficientes para promover modificações naquelas condições.

Infere-se isso pelo fato de que a matéria orgânica oriunda da remoção inicial das raízes do feto de gaiola não foram tão bem digeridas como nos demais locais.

Apesar disso, as bananeiras se desenvolveram e produziram alguns cachos. Embora o manejo da área experimental seja relativamente rápido, a implantação demandou um alto custo de mão de obra.

Deve-se isso ao tempo de roçagem da área de feto-de-gaiola e o afofamento do solo. No entanto, Ernst Götsch afirma que estas etapas poderiam ser mecanizadas, diminuindo drasticamente os custos de implantação.

De um modo geral a experiência é avaliada de forma positiva por Ernst Götsch que acredita que em breve poderá colher cacau dessa área, onde há pouco predominava o feto-de-gaiola.

Os primeiros sinais de melhoria das condições de vida naquele ambiente já começaram a aparecer, as primeiras colheitas já foram feitas e, assim, o sistema bem manejado seguirá seu curso no sentido da complexificação até que se estabeleça uma floresta que por sua auto-dinâmica será capaz de se manter.

ANDRADE e PASINI (2014) assinalam que a prática da agricultura sintrópica revela um novo patamar para o conceito de sustentabilidade.

Referências:

PENEIREIRO, F. M. Sistemas Agroflorestais dirigidos pela sucessão natural: um estudo de caso, São Paulo. 1999. 13 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Florestais) – Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, Universidade de São Paulo, Piracicaba. 1999.

GÖTSCH, E. Projeto Agenda Götsch, Bahia, 2012. Disponível em http://agendagotsch.com/texts/, acesso em: 10 agosto 2014.

ANDRADE, Dayana Velozo Pastor PASINI, Felipe dos Santos. Implantação e Manejo de Agroecossistema Segundo os Métodos da Agricultura Sintrópica de Ernst Götsch. Cadernos de Agroecologia – ISSN 2236-7934 – Vol 9, No. 4, Nov 2014

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

Nota da Redação: Sugerimos que leiam, também, os artigos anteriores desta série:



in EcoDebate, 06/05/2016
"Agricultura sinantrópica, parte III (Final), artigo de Roberto Naime," in Portal EcoDebate, ISSN 2446-9394, 6/05/2016, https://www.ecodebate.com.br/2016/05/06/agricultura-sinantropica-parte-iii-final-artigo-de-roberto-naime/.

Agricultura sinantrópica, parte II, artigo de Roberto Naime


[EcoDebate] Além do conjunto de sementes que foi plantado, Ernst Götsch confia aos dispersores do local a função de completar o sistema. Por sua experiência, ele afirma que a partir do segundo ano começam a ser incorporadas algumas lauráceas, mirtáceas e sapotáceas, todas trazidas por dispersores, pois estes sempre estiveram presentes, assim como as matrizes.

A diferença será que, dessa vez, tais sementes encontrarão as condições adequadas para seu pleno desenvolvimento. Além desse trabalho, para cuja realização Ernst Götsch dedicou em média 30 minutos semanais, não foi feita nenhuma intervenção que demandasse enxada ou instrumento semelhante.

As mandiocas foram plantadas com apenas os pés enterrados em um ângulo de 45o para direcionar a produção das raízes. As sementes das 3 espécies de feijão foram inoculadas com Rhizobium para obter uma melhor capacidade de fixar nitrogênio.

Imediatamente após o plantio, os berços foram cobertos com a matéria orgânica que fora previamente afastada, sempre mantendo um formato côncavo de berço ou ninho pois este formato fisicamente beneficia a entrada de água e mantém a temperatura mais baixa, contribuindo para o crescimento.

Vale aqui uma breve descrição de alguns conceitos-chave que norteiam o pensamento de Ernst Götsch para que possamos voltar ao ponto em que se justificam a escolha das espécies acima citadas. Um dos principais entendimentos que estão diretamente relacionados aos princípios de Agricultura Sintrópica relaciona-se com o fato de que os sistemas tendem sempre a evoluir das formas mais simples para as formas mais complexas

Isto determina a nomenclatura “Sintrópica” que surge como contraposição ao conceito de entropia. Götsch impõe para si e para suas atividades esse imperativo como direcionador de todas as suas ações. Dessa forma, o papel do agricultor seria o de agente que maneja o ecossistema de modo com que o resultado de sua intervenção seja sempre o “aumento da quantidade e da qualidade de vida consolidada tanto no sublocal de sua ação como no planeta por inteiro” (GÖTSCH, 2012).

Este papel do agricultor sendo executado na prática foi o que pôde ser acompanhado no presente caso. Considerando a área que foi base para essa experiência, observou-se que, apesar do pousio de 80 anos, o sistema ainda não conseguia, por si só, recuperar o estágio original em termos de biodiversidade e qualidade do solo.

Na região constatava-se facilmente a presença tanto dos dispersores como das matrizes. No entanto, mesmo assim, nenhuma apresentava saúde e vigor suficientes para sustentar o processo de complexificação do local.

Para Ernst Götsch certamente essa área chegaria a se recompor em algum momento, pois as atividades fotossintéticas estão presentes, o acúmulo de matéria orgânica do feto de gaiola é visível e os meios para que isso aconteça estão disponíveis nas dinâmicas naturais.

ANDRADE e PASINI (2014) ressaltam que a recuperação acontecerá, ainda que para isso leve muitos outros anos, o que para a vida no planeta significa um tempo irrisório. No entanto, para o ser humano, os 80 anos que já se passaram sem produtividade naquela área são um tempo significativo.

E o ponto em que aquele ecossistema se encontra hoje, com as espécies mais exigentes tentando se estabelecer mas sem encontrar condições suficientes para isso, é basicamente o mesmo ponto em que ele já estava 40 anos atrás.

Em situações como esta que emerge a função do agricultor como agente que pode se valer de estratégias que contribuam para a modificação positiva do ambiente, otimizando os processos de vida e promovendo a recuperação tanto da biodiversidade quanto da qualidade do solo, em um espaço de tempo consideravelmente reduzido em comparação com a regeneração que ocorre durante o pousio.

Como subproduto dessa interação, temos a produção de alimentos e o ser humano reintegrado ao meio ambiente do qual ele faz parte.

Uma das estratégias utilizadas por Ernst Götsch para estimular o sistema a reagir à condição de degradação na qual se encontra é justamente a introdução de espécies oriundas de ecossistemas menos privilegiados no que diz respeito à disponibilidade de água e nutrientes.

A presença dessas espécies menos exigentes no início do processo é o que garante o estabelecimento das outras espécies mais exigentes. O manejo adequado e as podas regulares garantem o aporte de matéria orgânica e promovem a cooperação entre todas as espécies, sendo que cada uma exerce sua função em seu determinado espaço-tempo.

ANDRADE e PASINI (2014) asseveram que não há que se preocupar com a ocupação da acácia, por exemplo, pois ela naturalmente irá cumprir o seu ciclo de vida, que pela experiência de Götsch é de 7 a 10 anos quando dentro dos plantios.

Após esse período, que será muito bem aproveitado pelo sistema considerando-se sua enorme capacidade de mobilização de nutrientes e de biomassa, a acácia irá se retirar da área que, a essa altura, já terá outras árvores de grande porte para ocupar o seu lugar.

É importante lembrar que a fama de “invasora” geralmente associada à acácia está relacionada a sua capacidade de “invadir” áreas abertas, áreas degradadas, o que é uma característica bem vinda quando o interesse é reflorestar. “Eucalipto não é o mal em si, acácia não é o mal em si, o modo de plantá-los é que pode ser o mal” (GÖTSCH, 2012).

Rotular espécies de maneira obtusa só faz com que as preocupações que deveriam recair sobre o modo como elas têm sido cultivadas se diluam em preconceitos que, na melhor das hipóteses, não têm finalidade alguma.

PENEIREIRO, F. M. Sistemas Agroflorestais dirigidos pela sucessão natural: um estudo de caso, São Paulo. 1999. 13 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Florestais) – Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, Universidade de São Paulo, Piracicaba. 1999.

GÖTSCH, E. Projeto Agenda Götsch, Bahia, 2012. Disponível em http://agendagotsch.com/texts/, acesso em: 10 agosto 2014.

ANDRADE, Dayana Velozo Pastor PASINI, Felipe dos Santos. Implantação e Manejo de Agroecossistema Segundo os Métodos da Agricultura Sintrópica de Ernst Götsch. Cadernos de Agroecologia – ISSN 2236-7934 – Vol 9, No. 4, Nov 2014

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Celebração da vida [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

Nota da Redação: Sugerimos que leiam, também, o artigo anterior desta série:


in EcoDebate, 05/05/2016
"Agricultura sinantrópica, parte II, artigo de Roberto Naime," in Portal EcoDebate, ISSN 2446-9394, 5/05/2016, https://www.ecodebate.com.br/2016/05/05/agricultura-sinantropica-parte-ii-artigo-de-roberto-naime/.

domingo, 24 de abril de 2016

Economias Baseadas em Biomas: estudo das cadeias de comercialização de produtos florestais não madeireiros na região de planejamento dos Lençóis Maranhenses

Relatório de Pesquisa
Este relatório advém de pesquisas desenvolvidas a partir da expansão para o Maranhão do projeto Economia Baseada em Biomas, desenvolvido pelo Instituto de Desenvolvimento Econômico, Social e Ambiental do Pará (Idesp) em parceria com o Ipea, que no estado vem sendo realizado pelo Instituto Maranhense de Estudos Socioeconômicos e Cartográficos (Imesc) nos anos 2012 e 2014.

Durante o desenvolvimento do projeto, foram caracterizados os agentes das cadeias produtivas dos produtos florestais não madeireiros (PFNMs) da região de planejamento (RP) dos Lençóis Maranhenses, identificados em pesquisa de campo. A seguir, foi feita a análise econômica das cadeias a partir destes agentes e dos produtos comercializados, diante da escala espacial que compreende o comércio local, regional, nacional e internacional. Considerando a importância dos PFNMs para a economia da região, o estudo gerou informações de grande relevância para a compreensão do contexto em que a economia extrativista está inserida e diante dos aspectos sociais e ambientais da região, os quais possibilitarão a ampliação de demais estudos e a formação de políticas públicas que visem impulsionar a economia regional. Tendo em vista a proposta apresentada, adotou-se como conceito de PFNM "os recursos provenientes de florestas nativas, sistemas agroflorestais e plantações, incluindo plantas medicinais e de uso alimentício, frutas, castanhas, resinas, látex, óleos essenciais, fibras, forragem, fungos, fauna e madeira para a fabricação de artesanato" (Pedrozo et al., 2011).

Link:

domingo, 20 de março de 2016

Citronelol possui atividade contra parasita de verminose

Por Da Redação - agenusp@usp.br
Publicado em 29/fevereiro/2016

Da Assessoria de Comunicação do IFSC
Citronelol pode até matar o verme, dependendo da concentração

Duas pesquisadoras do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP assinam um artigo recentemente publicado na revista científica internacional Chemico-Biological Interactions em que descrevem a atividade do terpeno ctironelol contra o Schistosoma mansoni, parasita causador da esquistossomose. Ana Carolina Mafud, pós doutoranda do Grupo de Cristalografia (GC) do IFSC e a docente aposentada Yvonne Primerano Mascarenhas analisaram as atividades de terpenos (compostos naturais presentes em plantas) contra a verminose que acomete cerca de 10 milhões de brasileiros. Ao todo, foram testados 38 terpenos e o citronelol mostrou que é capaz de danificar a proteção do parasita, dependendo da concentração.

Terpenos são uma classe de substâncias naturais que geralmente se encontram em sementes, flores, folhas, raízes e madeiras de plantas superiores. A essência de diversas plantas é considerada terpenos, como a essência de eucalipto e a citronela, por exemplo. Ana Carolina explica que o tegumento (camada externa corporal) do Schistosoma é o que permite que o verme consiga se camuflar. “Isso impede que o organismo hospedeiro crie anticorpos para exterminá-lo, pois o verme também incorpora partes de proteínas do organismo do hospedeiro, o que dificulta ainda mais seu reconhecimento como um corpo estranho”, afirma.

Os pesquisadores também verificaram que o citronelol, dependendo da concentração no Schistosoma mansoni, não só rompe seu tegumento, como também é capaz de matar o verme. Testes in vitro foram realizados no Núcleo de Enteroparasitas do Instituto Adolfo Lutz, que tem como colaborador junto ao IFSC o pesquisador Pedro Luiz da Silva Pinto, e no Núcleo de Pesquisa em Doenças Negligenciadas da Universidade de Guarulhos (UnG), coordenado por Josué de Moraes.

Citronelol

Embora com diversos resultados positivos, testes in vivo são requeridos para atestar a eficácia do terpeno no organismo humano. No entanto, como o citronelol já é uma substância liberada pela ANVISA e pelo FDA, os testes com humanos poderão ser feitos mais rapidamente e, caso os resultados sejam novamente favoráveis, um fármaco também poderá ser desenvolvido e disponibilizado com mais rapidez. “Nossos últimos testes têm sido feitos somente com medicamentos já existentes, a fim de propor o reposicionamento de fármacos”, adianta Ana Carolina.

Os pesquisadores verificaram que o citronelol age de maneira “dose-dependente” no Schistosoma, ou seja, quanto maior a dose, maior a atividade. “Verificamos também que, quanto maior for o tempo de incubação do verme, maior o efeito do citronelol. Isso, porque, quanto mais tempo o citronelol fica em contato com o Schistosoma, mais ele altera as propriedades físico-químicas do verme”, elucida a pesquisadora.

Diante disso, os pesquisadores concluíram que o modo de ação do citronelol pode ocorrer pela alteração das propriedades físico-químicas do meio, assim como anestésicos, que atuam no organismo por interações não-específicas. Estudos futuros do grupo irão em direção a essa comprovação, bem como ao melhor detalhamento dos mecanismos de ação do próprio citronelol.

Foto: Assessoria de Comunicação / IFSC

Mais informações: (16) 3373-9770

Link:

sábado, 19 de março de 2016

Saiba como escolher a lancheira de seu filho

Cientistas conseguem recuperar memória de ratos com Alzheimer

Os doentes de Alzheimer podem não ter perdido suas memórias, mas apenas ter dificuldade em acessá-las, o que abre a porta a possíveis tratamentos para recupera-las. É o que revela um estudo publicado na revista científica Nature.

O estudo, realizado em ratos pelo cientista japonês Susumu Tonegawa, Nobel da Medicina em 1987, mostrou que ao estimular áreas específicas do cérebro com luz azul os cientistas conseguiam que os ratos recuperassem memórias que antes eram inacessíveis.

Os resultados, publicados na quarta-feira (16), dão a primeira prova de que a doença de Alzheimer não destrói as memórias, apenas as torna inacessíveis. “Como os humanos e os ratos tendem a ter um princípio comum em termos de memória, as nossas conclusões sugerem que os pacientes com doença de Alzheimer podem, pelo menos nos primeiros tempos, manter as memórias no cérebro, o que significa que existe uma possibilidade de cura”, disse Tonegawa.

Há anos, cientistas questionam se a amnésia provocada por traumatismo craniano, stress ou doenças como Alzheimer resulta de danos em células cerebrais específicas, o que tornaria impossível recuperar as memórias, ou se o problema é o acesso a essas memórias.

Experimento

Para tentar comprovar a segunda hipótese, Tonegawa e colegas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos EUA, usaram ratos que tinham sido geneticamente modificados para exibir sintomas semelhantes aos dos doentes de Alzheimer, uma doença degenerativa do cérebro que afeta milhões de adultos em todo o mundo.

Os animais foram colocados em uma caixa que tinha uma corrente elétrica baixa no chão, provocando uma sensação desagradável, mas não perigosa, de choque elétrico nos pés.

Um rato não afetado que seja colocado novamente na mesma caixa 24 horas depois fica paralisado de medo, antecipando a mesma sensação desagradável, mas os ratos com Alzheimer não mostraram qualquer reação, sugerindo que não têm memória da experiência.

Quando os cientistas estimularam zonas específicas do cérebro dos animais – as “células de engramas” associadas à memória – usando uma luz azul, os ratos aparentemente relembraram-se do choque.

Além disso, ao examinar a estrutura física dos cérebros dos ratos, os investigadores constataram que os doentes tinham menos sinapses (ligações entre neurônios). Através da estimulação luminosa repetida, os cientistas conseguiram aumentar o número de sinapses até níveis comparáveis aos dos ratos saudáveis.

Em certo ponto, deixou de ser necessário estimulá-los artificialmente para provocar a reação de medo diante da caixa. “As memórias dos ratos foram recuperadas através de um meio natural”, disse Tonegawa. Isto significa “que os sintomas da doença de Alzheimer desapareceram”, acrescentou o neurocientista.

Resultado

“É uma boa notícia para os pacientes”, disse o Nobel da Medicina que, no entanto, se mostrou prudente: “No futuro, a doença poderá ser tratada, se estiver em um estágio precoce, e desde que se desenvolva uma nova tecnologia que cumpra os requisitos éticos e de segurança”.

Os investigadores estimam que a técnica só funcione durante alguns meses nos ratos, ou durante dois ou três anos nos humanos, até a doença avançar de tal maneira que elimine os ganhos.

A Organização Mundial de Saúde estima em 47,5 milhões o número de pessoas no mundo afetadas por demências, 60% a 70% das quais pela doença de Alzheimer, que por enquanto não tem cura.

Da Agência Lusa / ABr, in EcoDebate, 18/03/2016

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Empreender sem desvastar


As Unidades de Conservação habitadas por populações tradicionais são criadas no modelo de Reservas Extrativistas (Resex). Nessas áreas, os moradores combinam a conservação dos recursos naturais amazônicos à coleta de produtos florestais, ao manejo sustentável da madeira, ao beneficiamento de muitos produtos naturais (ex: óleos medicinais, ecoverniz, cosméticos, cestarias, móveis artesanais a partir do reaproveitamento de madeiras, produtos de látex e sementes como biojoias, artesanato, etc.), à agricultura diversificada de subsistência. 

A Assistência Técnica de Extensão Rural voltada para o Extrativismo (Ater-Extrativista) reúne aspectos econômicos, sociais e ambientais. Seguindo um Plano de Manejo, projetos de geração de renda são feitos para proteger os meios de vida e a cultura dessas populações, assegurando o uso sustentável dos recursos naturais dessas unidades.

Conheça algumas ecolojas:
1. Ecoloja da Cooperativa da Floresta Nacional do Tapajós - 

2. Cooperativa dos Produtores Florestais Comunitários da Resex Chico Mendes 

3. Loja da Resex Tapajós Arapiuns - 

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Sistemas agroflorestais: o caminho para uma vida mais sustentável no sertão

Fonte: Ascom/MMA - Por Marta Moraes – Editor Marco Moreira - Quarta-feira, 25 de Novembro de 2015 


BOAS PRÁTICAS//Casal retorna ao campo para matar saudades e sobreviver com dignidade

Na canção Asa Branca, Luiz Gonzaga cantarolou os versos “Hoje longe, muitas léguas. Numa triste solidão. Espero a chuva cair de novo. Pra mim 'vortar' pro meu sertão”. Conterrânea do rei do baião, a agricultora Maria Silvanete Benedito de Souza, 40 anos, casada, quatro filhos, não esperou a chuva cair de novo para voltar para o sertão, em Serra dos Paus Doias, em Exu (PE).

“Fiquei 16 anos morando em várias cidades. Mas há oito anos compramos um pedaço de terra e retornamos. E não saio mais de jeito algum. Fui abençoada em me casar com uma pessoa, também filho de agricultores, que tinha essa mesma vontade, o mesmo sonho de voltar”, afirma.

Segundo ela, o vínculo com a terra eles nunca perderam. “A vontade de voltar para terra nunca me faltou”, afirma. “E meus filhos tinham essa mesma vontade de voltar para o campo, o que me estimulou”.

Silvanete e o marido, Valmir Erlem, voltaram mais fortes, mais preparados, e se juntaram ao trabalho da Associação dos Agricultores Familiares da Serra dos Paus Doias (Agrodoia), criada há dez anos, no município de mesmo nome, e que reúne 22 famílias. Hoje presidente da associação, ela destaca o trabalho agroflorestal (exploração agrícola sustentável) desenvolvido pelos associados da Agrodoia, na Chapada do Araripe.

APOIO

A associação possui uma produção mista: doces, geleias, farinha, goma, sequilhos, biscoitos, mel, extratos de plantas, licor, queijo, manteiga, entre outros produtos. A Agrodoia vai inaugurar em dezembro sua primeira unidade de beneficiamento, que contou com o apoio do Ministério do Meio Ambiente (MMA), por meio da Fundação Araripe.

Está sendo construído um galpão de aproximadamente 300 metros quadrados, com espaços para a fabricação de doces, geléias, licor; parte administrativa; comercialização comunitária e capacitações. Atualmente, a associação está trabalhando na extração do óleo essencial a partir das folhas da Caatinga, trabalho que será conduzido por um jovem da comunidade. “É mais interessante perceber a importância que a Caatinga tem em pé. Ela dá muito mais retorno assim do que se você usar o machado e a foice”, afirmou.

Os Sistemas Agroflorestais (SAF's) permitem aos produtores familiares diversificarem a produção e recuperarem áreas degradadas. “Nada mais é do que voltar às nossas raízes, nossa verdadeira história. Nossa prática no dia a dia é plantar sem queimar, fazer um manejo mais sustentável do solo, é plantar com mais respeito à condução da própria natureza. É cuidar melhor da terra e enxergar que somos um só: terra e homem”, enfatizou.

CAMINHO SUSTENTÁVEL

Para o diretor do Departamento de Combate à Desertificação do Ministério do Meio Ambiente, Francisco Campello, os sistemas agroflorestais representam um caminho adequado na busca de uma relação entre homens, mulheres e meio ambiente mais equilibrada e socialmente mais justa. “É uma das alternativas para um novo padrão de desenvolvimento sustentável”, destacou.

Durante o tempo que esteve morando em cidades, o casal procurou estudar e conhecer tecnologias sociais e experiências que pudessem auxiliar agricultores familiares na vida no campo. “Aproveitamos cada oportunidade de capacitação, de crescimento. Voltamos com um embasamento enriquecido de que a agroecologia seria o caminho, antes trabalhávamos de forma tradicional. Voltamos com um novo olhar, mais seguro, para a nossa terra e para os desafios”, conta Silvanete.

O casal produz milho, feijão, fava, manga para alimentação da família e sementes crioulas de milho para comercialização e multiplicação. A família possui três cisternas e fogão ecológico, entre outras tecnologias sociais que vêm colaborando para mudar a vida da população no sertão.

CADASTRO

A propriedade do casal possui o Cadastro Ambiental Rural (CAR) e Ivanete defende que o documento é uma ponte para uma convivência mais tranquila com a terra e até com os vizinhos. “O CAR mostra o que pode ser feito, traz um retrato da sua terra, é útil para a obtenção de crédito, para o monitoramento da área, vem para nos ajudar em relação ao trabalho que muitas vezes desenvolvemos em parceria com vizinhos, como no caso dos corredores ecológicos”, destacou.

O casal recebe, com frequência em sua propriedade, visitas de participantes de cursos de fundações e associações da região. A intenção é mostrar diversidade de práticas agroecológicas e de tecnologias de convivência com o semiárido, que possibilitam geração de renda ao mesmo tempo em que se preserva a Caatinga.

O intercâmbio acaba servindo de estímulo para os grupos que beneficiam frutas do bioma e os transformam em doces, geleias, polpas, licores, agregando valor aos produtos, estimulando a conservação das mesmas e gerando oportunidade de trabalho para as famílias, em especial aos jovens.

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quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Cerflor – Certificação Florestal, artigo de Roberto Naime

[EcoDebate] O CERFLOR é um Programa Nacional de Certificação Florestal, que sempre é voluntária como todo procedimento de certificação, e surgiu para atender uma demanda do setor produtivo florestal do país. A Sociedade Brasileira de Silvicultura (SBS) estabeleceu acordo de cooperação com a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), para desenvolver os princípios e critérios para o setor.

A certificação florestal voluntária vem se desenvolvendo de forma um pouco descoordenada em todo o mundo, com vários sistemas, operando e competindo entre si. Neste contexto se destaca o “Forest Stewardship Council” (FSC), ou Conselho de Manejo Florestal, que é uma organização internacional, não governamental, que foi fundada em 1993. Esta entidade não emite certificados, e sim credencia certificadoras em todo o mundo, garantindo que os certificados adotem padrões de qualidade.

Estas certificadoras desenvolvem um método para certificação baseado nos princípios e critérios do FSC, fazendo sua adaptação para os diferentes cenários estabelecidos pela realidade de cada região ou sistema de produção considerado.

Na Europa já foi criado o “Pan European Forest Certification” (PEFC). O Conselho do PEFC foi criado em junho de 1999, também em caráter voluntário, baseado em critérios próprios definidos nas resoluções das Conferências de Helsinki e de Lisboa, de 1993 e 1998, sobre Proteção Florestal na Europa. Pode se afirmar que neste continente são relevantes os avanços da certificação florestal voluntária, mas que controla todo um andamento de importante setor econômico.

A meta primordial do CERFLOR é o reconhecimento dos diferentes sistemas dos países da comunidade europeia, e o atendimento de todas as diretrizes possíveis. Na Europa e no primeiro mundo em geral, existem normatizações próprias para as certificações florestais. É assim na Alemanha, Inglaterra, EUA, Canadá, África do Sul, Indonésia, Malásia, Nova Zelândia, Chile, Áustria, Suécia, Finlândia, Bélgica e outros países.

No Brasil, desde 1996, a Sociedade Brasileira de Silvicultura (SBS), em parceria com algumas entidades ligadas ao setor, instituições de ensino e pesquisa, organizações não-governamentais e com apoio de alguns órgãos do governo, vem trabalhando com um programa voluntário nacional, que estabeleça princípios compatíveis.

No dia 20 de fevereiro de 2001, foi criado e instalado o Fórum de Competitividade da Cadeia Produtiva de Madeira e Móveis, que objetiva determinar um espaço para o diálogo que envolva o setor produtivo, o governo e o Congresso Nacional. O setor definiu diretrizes necessárias para o desenvolvimento e implementação, da sequenciação de atividades e de um futuro acordo de competitividade. Uma das proposições mais relevantes foi o de Certificação Florestal, que buscando institucionalizar este tipo de certificação no cotidiano do país e no âmbito do Sistema Brasileiro de Certificação.

A chamada subcomissão técnica de certificação florestal foi estruturada em plenária, coordenação e secretaria-executiva, que foi exercida pelo Instituto Nacional de Metrologia (INMETRO). Vários órgãos e ministérios tomaram parte do trabalho, entre órgãos reguladores, produtores e consumidores, além de entidades consideradas neutras.

As normas que compõem o CERFLOR foram elaboradas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Os projetos de normas de manejo florestal e da chamada cadeia de custódia passaram por testes de campo, que são ensaios realizados em projetos de Norma Brasileira para verificar, e garantir, a aplicabilidade da instrução. Site do INMETRO informa que todas as normas, antes de sua publicação, foram submetidas à consulta nacional por um período de 90 dias.

Cerca de cinco destas orientações, foram publicadas em fevereiro de 2002 pela ABNT, e uma em março de 2004. Em abril de 2007, continuando o procedimento de normalização segundo conceitos e diretrizes internacionais de Boas Práticas de Normatização, iniciou-se o processo de revisão das normas cuja experiência de aplicação completava até 5 anos.

O processo de revisão das normas brasileiras acontece, pelo menos, a cada 5 anos. Ou em situação em que se fizer necessária sua revisão. As normas são revisadas e atualizadas por diversos motivos. Para melhorar a clareza dos requisitos especificados, para introduzir novos conceitos e novas tecnologias aplicáveis, para harmonização aos requisitos internacionalmente reconhecidos, com os estabelecidos nas normas internacionais do PEFC – Programa para o Reconhecimento dos Esquemas de Certificação Florestal na Europa, ou outras motivações.

Atualmente o CERFLOR conta com o conjunto normativo abaixo discriminado, além de utilizar normas internacionalmente aceitas como as Diretrizes para auditorias de sistema de gestão (ABNT NBR ISO 19011).

NBR 14789:2012 – Manejo Florestal – Princípios, Critérios e Indicadores para Plantações Florestais

NBR 14790:2014 – Manejo Florestal – Cadeia de Custódia (baseada na PEFC ST 2002:2013)

NBR 14791 – Diretrizes para Auditoria Florestal – Princípios Gerais – CANCELADA e substituída pela NBR ISO 19011

NBR 14792 – Diretrizes para Auditoria Florestal – Procedimentos de Auditoria – Auditoria de Manejo Florestal – CANCELADA e substituída pela NBR ISO 19011

NBR 14793:2008 – Diretrizes para Auditoria Florestal – Procedimentos de Auditoria – Critérios de Qualificação para Auditores Florestais (em revisão)

NBR 15789:2013 – Manejo Florestal – Princípios, Critérios e Indicadores para Florestas Nativas

NBR 16789:2014 – Manejo Florestal – Diretrizes para a implementação da ABNT NBR 14789

NBR 15753:2009 – Manejo Florestal – Diretrizes para a implementação da ABNT NBR 15789 (em revisão)

NBR 17790:2014 – Manejo Florestal Sustentável – Cadeia de Custódia – Requisitos para organismos de certificação que realizam certificação em conformidade com a ABNT NBR 14790
(baseada na PEFC ST 2003:2012)

Ocorre desejar que todo este árduo e exaustivo trabalho, que envolveu a maior parte dos atores envolvidos nos processos, contribua para a melhoria da qualidade ambiental e da qualidade de vida de todas as partes envolvidas.

Fonte: INMETRO (www.inmetro.gov.br)

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

in EcoDebate, 17/11/2015
"Cerflor – Certificação Florestal, artigo de Roberto Naime," in Portal EcoDebate, 17/11/2015,http://www.ecodebate.com.br/2015/11/17/cerflor-certificacao-florestal-artigo-de-roberto-naime/.

Certificação Florestal – Diretrizes do FSC, artigo de Roberto Naime

[EcoDebate] Toda vez que se reflete sobre conservação e preservação ambiental, ocorre lembrar que os procedimentos de certificação florestal para a origem das madeiras a serem utilizadas no setor moveleiro ou na própria construção civil, são as formas mais eficientes de obtenção de resultados relevantes na dimensão ambiental.

A certificação florestal voluntária vem se desenvolvendo de forma um pouco fragmentada em todo o mundo, com vários sistemas, operando e competindo entre si. Neste contexto se destaca o “Forest Stewardship Council” (FSC), ou Conselho de Manejo Florestal, que é uma organização internacional, não governamental, que foi fundada em 1993. Esta entidade não emite certificados, e sim credencia certificadoras em todo o mundo, garantindo que a certificação adote padrões de qualidade internacionalmente reconhecidos.

Estas organizações desenvolvem métodos para certificação baseado nos princípios e critérios do FSC, fazendo sua adaptação para os diferentes cenários estabelecidos pela realidade de cada região ou sistema de produção considerado, nos diferentes países.

Por isto se torna importante reconhecer os principais critérios e diretrizes, aos quais as diversas organizações certificadoras tem que subordinar, e adotar para serem regularizadas suas funcionalidades. São princípios muito genéricos, mas de extrema relevância.

Inicialmente, o manejo florestal deve se subordinar, atender e respeitar todas as leis aplicáveis no país onde opera. Tratados e acordos internacionais e protocolos aos quais o país adere, devem ser considerados da mesma forma. Todos os princípios e critérios do “Forest Stewardship Council” também devem ser respeitados. Naqueles países signatários, devem ser respeitados todas as cláusulas e todos os acordos internacionais como o CITES (Convenção Internacional do Comércio da Fauna e Flora em Perigo de Extinção), as normas da OIT (Organização Internacional de Trabalho), o ITTA (Acordo Internacional Sobre Madeiras Tropicais) e a Convenção sobre Diversidade Biológica.

Normas do FSC estabelecem claras diretrizes sobre posses de longo prazo e direitos de uso da terra e dos recursos florestais, que devem ser claramente definidos, documentados e legalmente estabelecidos. Devem ser comprovados e claramente evidenciados os direitos de uso dos recursos florestais da propriedade a longo prazo, como por exemplo, títulos da terra, direitos tradicionais adquiridos ou contratos de arrendamento. As comunidades locais com direitos legais ou tradicionais de posse ou uso da terra, necessariamente devem manter controle sobre as operações florestais, na extensão necessária para proteger seus direitos ou recursos, a menos que deleguem esse controle para outras pessoas ou entidades, de forma autônoma, livre e consciente.

Os direitos legais e tradicionais dos povos indígenas de possuir, usar e manejar suas terras, territórios e recursos, devem ser amplamente reconhecidos e totalmente respeitados, em qualquer situação, contexto ou cenário considerado. Estes procedimentos devem estar registrados e documentados e sua operação deve ser auditada e comprovada em todas as suas dimensões.

Da mesma forma, as atividades de manejo florestal devem manter ou ampliar, a longo prazo, o bem estar econômico e social dos trabalhadores florestais e das comunidades locais. Necessitam ser adotados mecanismos apropriados para resolver pendências e providenciar compensação justa em caso de perdas ou danos que afetem os direitos legais e tradicionais, direitos de propriedade, os recursos ou a subsistência da população local. Devem ser tomadas todas as medidas para evitar a ocorrência ainda que involuntária de perdas ou danos desta natureza.

Todas as atividades de manejo florestal devem buscar incentivar o uso eficiente e otimizado dos diversos atores que propiciam a geração de produtos e serviços de floresta e produtos ambientais em geral. Para assegurar a viabilidade econômica de uma grande quantidade de benefícios ambientais e sociais decorrentes.

Os manejos florestais auditados devem conservar a diversidade ecológica e seus valores associados, os recursos hídricos, os solos, os ecossistemas e paisagens frágeis e singulares. Devem buscar equilíbrio ecossistêmico e homeostase ambiental. Dessa forma manterá as funções ecológicas e a integridade de todas as dimensões consideradas, inclusive dos meios florestais.

Planos de manejo devem ser formulados em escalas apropriadas e em conformidade com a intensidade das operações propostas. Deve ser registrados em documentos públicos, implementados e atualizados na frequência necessária. Os objetivos e metas de longo prazo do manejo florestal propostos e os meios para sua consecução, devem ser claramente expostos.

Todos os procedimentos de manejo devem ser monitorados em à em escala geográfica adequada e em função da intensidade do manejo florestal planejado. Somente desta forma é possível avaliar as condições da floresta, o rendimento dos produtos florestais, a cadeia de custódia, as atividades de manejo e todos os impactos ambientais e sociais decorrentes.

As atividades de manejo de florestas, consideradas de alto valor de conservação, devem manter ou incrementar atributos adicionais, que definem estas florestas. Todas as decisões relacionadas a florestas de alto valor de conservação devem sempre ser consideradas no contexto de uma abordagem de precaução.

As plantações florestais devem ser planejadas de acordo com todos os princípios da proposição e seus critérios estabelecidos. Existe a consideração prévia de que as plantações devam proporcionar uma grande dimensão de benefícios sociais e econômicos e contribuir para satisfazer as necessidades globais por produtos florestais. Desta forma, as atividades devem manter esta funcionalidade, reduzir as pressões sobre as áreas protegidas, promovendo a restauração e a conservação das florestas naturais.

Em todas as áreas da atividade humana, a prática cotidiana demonstra que as exigências de enquadramento e certificação tem resultados tanto ou mais relevantes do que a ação de órgãos públicos reguladores e licenciadores. Infelizmente não é conscientização de corpo funcional ou de diretoria de empresas ou organizações, que determina estas opções. São redes de mercado definidas por cadeias produtivas que se sentem pressionadas por mercados consumidores.

A rápida exposição realizada permite entender o motivo. Associado ao fato de que se tratam de disposições voluntárias. Que por vontade própria se adere e por necessidades de mercado se conservam permanentemente. E acabam propiciando melhor qualidade ambiental e melhor qualidade de vida para todos os envolvidos.


Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

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in EcoDebate, 18/11/2015
"Certificação Florestal – Diretrizes do FSC, artigo de Roberto Naime," in Portal EcoDebate, 18/11/2015, http://www.ecodebate.com.br/2015/11/18/certificacao-florestal-diretrizes-do-fsc-artigo-de-roberto-naime/.