Mostrando postagens com marcador Alimentos não convencionais. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Alimentos não convencionais. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 22 de julho de 2019

Trevos nos quintais e oxalato

Texto:
Eloar Vanessa Souza Lopes: Bióloga e acadêmica de Nutrição - UNITAU
Marcos Roberto Furlan - Eng. Agrônomo - Prof. UNITAU

As plantas que nascem espontaneamente nos quintais, isto é, sem serem cultivadas possuem eficientes mecanismos de defesa. Alguns são baseados na produção de substâncias tóxicas e outros são considerados como fatores anti-nutricionais, pois prejudicam o aproveitamento de nutrientes pelo predador, inclusive o ser humano.

A maioria dos fatores anti-nutricionais é considerada como um composto bioativo produzido no metabolismo secundário dos vegetais, cujo principal objetivo é a adaptação da planta ao seu ambiente. 

Segundo Souza et al. (2019), esse fatores foram importantes, em um contexto evolutivo, para “atrapalhar” a digestão dos animais que ingerissem, por exemplo, as sementes dos vegetais, ou seja, para que o embrião das plantas pudesse sobreviver ao trato gastrointestinal do predador, ou para causar efeitos gastrointestinais adversos nos predadores, evitando que as plantas fossem consumidas numa próxima ocasião.

Dentre os compostos com ação anti-nutricional, é exemplo o oxalato de cálcio (foto 1). Esta substância forma cristais no formato de agulha, com o objetivo principal de defesa da planta, e também reage com cálcio e ferro, prejudicando a absorção desses nutrientes. No organismo do predador causa irritação e sensação de queima na garganta, por exemplo. Outra consequência dos oxalatos quando precipitados com o cálcio, é a formação de cristais insolúveis e cálculos renais nos indivíduos (LOBATO et al., 2017).

Algumas plantas ornamentais como a comigo-ninguém-pode, medicinais como a ruibarbo e comestíveis como a carambola ou a taioba, são ricas em oxalatos.

Com relação aos quintais, espécies que inclusive tem relação com o nome deste composto, são vistas com frequência e denominadas por trevo. Tem em comum o nome científico Oxalis, o qual deu origem ao termo oxalato.

Algumas espécies do gênero Oxalis são considerados alimentos não convencionais. Geralmente são consumidos crus, o que não reduz seu teor de oxalato. O cozimento dos vegetais pode reduzir em até 80% o teor de oxalato. Portanto, o consumo de trevo na salada, principalmente, deve ser com muito cuidado.
Foto 1. Oxalato de cálcio.
Foto 2. Oxalis sp
Eloar Vanessa Souza Lopes

Referências

LOVATO, Frederico et al. Composição centesimal e conteúdo mineral de diferentes cultivares de feijão biorfortificado (Phaseolus vulgaris L.). Brazilian Journal Of Food Technology, [s.l.], v. 21, p.1-6, 27 nov. 2017. FapUNIFESP (SciELO). http://dx.doi.org/10.1590/1981-6723.6817. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/bjft/v21/1981-6723-bjft-21-e2017068.pdf>. Acesso em: 20 jul. 2019.

SOUZA, Carla Giselly de et al. Fatores anti-nutricionais de importância na nutrição animal: Estratégias de diminuição dos efeitos anti-nutricionais. Pubvet, [s.l.], v. 13, n. 5, p.20-28, maio 2019. Editora MV Valero. http://dx.doi.org/10.31533/pubvet.v13n5a328.20-28.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Piolhinho na calçada

Texto:


Marcos Roberto Furlan - Engenheiro agrônomo - professor UNITAU e Faculdade Integral Cantareira
Mariane Belfort dos Santos - acadêmica de nutrição - UNITAU
Pétria Thomé Greber - acadêmica de Engenharia Agronômica - UNITAU

O texto trata de uma espécie ainda não muito conhecida pela maioria das pessoas que passa nas calçadas, mas cada vez mais comentada quanto ao seu uso na culinária. De nomes curiosos, como, por exemplo, piolhinho, colarzinho, beldroegão (não confundir com a beldroega de mesma família, mas como folhas menores), benção-de-deus, língua-de-vaca, ora-pro-nobis (também não confundir com plantas do gênero Pereskia e que recebem também este nome popular), maria-gomes e manjogome. 

Como ainda não faz parte da culinária no dia-a-dia ou por ser desconhecida como alimento por grande parte da população, é considerada como um alimento não convencional.

Seu nome científico é Talinum paniculatum, pertence à família Portulacaceae, classe Eudicotiledônea e divisão Angiosperma. É uma planta rasteira de origem americana e possui traços anatômicos bem definidos, tais como: folhas largas, lisas e suculentas, caules alaranjados e sementes avermelhadas. 

Apesar de passar despercebida nas calçadas, possui grandes efeitos benéficos e aplicabilidades medicinais, nutricionais e gastronômicas. Segundo Thanamool et al. (2013), a hortaliça atua como suplemento nutricional de origem vegetal, e na medicina popular é usada como cicatrizante, diurética e depurativa. É indicada também para remediar edemas, fraquezas gastrointestinais, tosses e cansaço físico e mental. 

O potencial na alimentação da utilização das folhas e dos talos do Talinum paniculatum deve ser  destacado (BIONDO et al., 2018), pois é uma espécie abundante na borda de florestas ciliares, em terrenos baldios e arredores de hortas, é de fácil obtenção e identificação. E do ponto de vista nutricional, é considerada como fonte de ferro, magnésio, zinco, cálcio e potássio, além de ser considera como alta concentração de proteínas. 

A T. paniculatum pode ser utilizada integralmente como alimento, desde as sementes até as folhas. As partes folhosas podem ser consumidas em saladas, refogadas, temperadas e na preparação de caldos. O caule pode ser utilizado no processo de infusão para a confecção de chás e bebidas. Já as raízes podem ser utilizadas na decoração. 



Referências

BIONDO, Elaine et al. Diversidade e potencial de utilização de plantas alimentícias não convencionais no Vale do Taquari,RS. Revista Eletrônica Científica da Uergs, [s.l.], v. 4, n. 1, p.61-90, 13 abr. 2018.  http://dx.doi.org/10.21674/2448-0479.41.61-90.

RIBEIRO, A.o.; SILVA, A.f.; CASTRO, A.h.f.. Identificação de espécies da família Asteraceae, revisão sobre usos e triagem fitoquímica do gênero Eremanthus da Reserva Boqueirão, Ingaí-MG. Revista Brasileira de Plantas Medicinais, [s.l.], v. 12, n. 4, p.456-465, dez. 2010. FapUNIFESP (SciELO). http://dx.doi.org/10.1590/s1516-05722010000400009


THANAMOOL et al. Talinum paniculatum (jacq.) Gertn: a medicinal plant with potential estrogenic activity in ovariectomized rats. International Journal of Pharmacy and Pharmaceutical Sciences: Academic Sciense, Thailand, v. 5, n. 2, p.478-485, fev. 2013. 

Foto: piolhinho na calçada, em Taubaté, SP.
Marcos Roberto Furlan

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Trevos e oxalato

Texto:
Marcos Roberto Furlan - Eng. Agrônomo - UNITAU/FIC
Mariane Belfort dos Santos - acadêmica de Nutrição - UNITAU 

Apesar do consumo condensado de vegetais, no que diz respeito a diversidade, ao redor do ser humano, como em calçadas e terrenos baldios, nascem espécies com potencial alimentício. Por não comporem parte comumente da nossa alimentação, estes vegetais são denominados de plantas alimentícias não convencionais (Pancs). 

No entanto, há alguns malefícios quanto ao consumo. São escassas as pesquisas sobre os seus valores nutricionais e muitas destas espécies desenvolveram mecanismos eficiente de defesa contra predadores e parasitas. 

Estes mecanismos podem ser, por exemplo, substâncias químicas tóxicas ao predador ou parasita, ou barreiras físicas como presença de cristais de oxalato ou uma camada de silício. 

Uma das substâncias é o ácido oxálico. Este composto tem relação com a formação de cálculos, devido à deposição de cristais de oxalato de cálcio nos rins. O ânion, oxalato, ao se ligar aos íons metálicos, forma precipitados insolúveis com destaque para o oxalato de cálcio, que é o principal constituinte da forma mais comum de cálculos renais. O ácido oxálico também pode causar lesão renal. 

Outros minerais que podem ser ligar ao ácido oxálico são o ferro e o magnésio. 

Ao ingerir alimentos ricos em oxalato, o indivíduo pode ter hiperoxalúria, com formação subsequente dos cristais de oxalato de cálcio insolúvel (elemento primário de cálculos renais). 

Como excentricidade, apesar de efeitos tóxicos no organismo, o ácido oxálico tem diversas aplicações, como, por exemplo, para eliminar ferrugem de metais, para fixar corantes em tecidos. Por essa razão é usado em várias preparações de produtos de limpeza. 

Mas qual a relação de oxalatos com o trevo? O fundamento da nomenclatura oxalato é por ser derivada do gênero Oxalis. Muitas das espécies deste gênero são designadas popularmente de trevo e são consideradas ricas em oxalato. Portanto, o consumo dos trevos deve ser feito em pequenas quantidades, principalmente devido ao fato de serem consumidos crus. O cozimento reduz significativamente os teores de oxalato, mas o consumo de trevos é geralmente na forma crua. 

Outros alimentos em que o ácido oxálico pode ser encontrado são: espinafre, azedinha, tomate, inhame, carambola e outros, sendo estes mais conhecidos e consumidos rotineiramente. 
Foto: trevos são comuns nos quintais, se desenvolvendo entre as ornamentais ou nos canteiros de hortaliças. 
Autoria da foto: Mariane Belfort dos Santos

Algumas referências sobre trevos do gênero Oxalis 

IBRAHIM, Muhammad et al. Corniculatin A, a new flavonoidal glucoside from Oxalis corniculata. Revista Brasileira de Farmacognosia, [s.l.], v. 23, n. 4, p.630-634, jul. 2013. Elsevier BV. http://dx.doi.org/10.1590/s0102-695x2013005000059

ROGERIO FIORUCCI, Antonio. et al. Ácidos Orgânicos: dos Primórdios da Química Experimental à sua Presença em Nosso Cotidiano. Química Nova na Escola, n. 15, mai. 2002. Acesso em: 07 de fev. 2019. Disponível em: https://repositorio.bc.ufg.br/xmlui/bitstream/handle/ri/15850/Artigo%20-%20Antonio%20Rog%C3%A9rio%20Fiorucci%20-%202002.pdf?sequence=5&isAllowed=y

ROSENFELDT, Sonia; GALATI, Beatriz Gloria. Morphology of the seed coat of Oxalis spp. from Buenos Aires Province (Argentina). Turkish Journal Of Botany, [s.l.], v. 38, p.864-876, 2014. The Scientific and Technological Research Council of Turkey. http://dx.doi.org/10.3906/bot-1311-12

SANGKETKIT, C. et al. Oxalate Content of Raw and Cooked Oca (Oxalis tuberosa). Journal Of Food Composition And Analysis, [s.l.], v. 14, n. 4, p.389-397, ago. 2001. Elsevier BV. http://dx.doi.org/10.1006/jfca.2000.0982

SEAL, S. N.; SEN, S. P.. The photosynthetic production of oxalic acid in Oxalis corniculata. Plant And Cell Physiology, [s.l.], v. 11, n. 1, p.119-128, fev. 1970. Oxford University Press (OUP). http://dx.doi.org/10.1093/oxfordjournals.pcp.a074483

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Farinha à base de bambu é testada com sucesso no preparo de ‘cookie’ e macarrão

17.09.2018
Feito com o colmo jovem da gramínea, produto foi desenvolvido na Faculdade de Engenharia de Alimentos



EDIÇÃO DE IMAGEM LUIS PAULO SILVA

A alimentação saudável ganhou a mesa dos brasileiros. A tendência é perceptível não apenas nos supermercados, nos quais é crescente o número de produtos rotulados como “naturais”, mas também na indústria, que busca alternativas a ingredientes nocivos à saúde. Coordenados pela professora Maria Teresa Pedrosa Clerici, da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) da Unicamp, pesquisadores desenvolveram a farinha de bambu, que apresenta vantagens nutricionais quando comparada às farinhas de trigo, de milho e mandioca. O produto foi testado com sucesso no preparo de macarrão (fettuccine) e de biscoito (cookie).
A professora Maria Teresa Pedrosa Clerici (acima), coordenadora das pesquisas, e os derivados da farinha (abaixo)
“Este ingrediente, feito à base de colmo jovem do bambu, possui apenas 24 g de carboidratos em relação aos 82 g da farinha de milho, por exemplo. Outro diferencial é a quantidade de fibras – são 50 g encontrados na gramínea, contra apenas 1,9 g na composição da farinha de mandioca”, explica a coordenadora da pesquisa, que foi financiada pela Fapesp.

O broto de bambu, utilizado na culinária oriental, é conhecido por ser rico em nutrientes e ter baixo teor de gordura. “Ele auxilia na redução dos níveis de colesterol e também tem propriedades anticarcinogênicas. A partir daí, descobrimos que o colmo jovem do bambu também é comestível e apresenta compostos benéficos à saúde, com fibras de excelente qualidade para a alimentação humana”, revela Clerici.

Benefícios

Quando usada no preparo de biscoitos do tipo cookie, a farinha do colmo jovem de bambu consegue reduzir em 50% o açúcar e a gordura se comparada aos tradicionais, de acordo com Maria Hermínia Ferrari Felisberto, que pesquisou a aplicabilidade do ingrediente em sua tese de doutorado. A vida útil do cookie também foi ampliada, uma vez que seu armazenamento não necessitou de condições especiais para manter-se apropriado ao consumo.
A pesquisadora Maria Hermínia Ferrari Felisberto e os “cookies” desenvolvidos por ela: vida de prateleira ampliada

O Brasil é o segundo maior produtor mundial de biscoitos, atrás apenas dos EUA, com um consumo per capita anual de seis quilos e meio. “Esperamos que tantas vantagens despertem a atenção da indústria alimentícia, para que o produto saia dos laboratórios e comece a ser comercializado em breve”, declara Clerici.

Outra vantagem é que a fibra do colmo jovem de bambu não compromete o sabor ou a coloração do produto, sendo assim ideal para as massas alimentícias, uma vez que alguns consumidores podem ter rejeição por massas integrais, de coloração escura e sabor diferenciado. Essas características fazem com que o sabor seja semelhante ao dos biscoitos encontrados no supermercado, conforme resultado apresentado na dissertação de mestrado da engenheira de alimentos Amanda Rios Ferreira, que também aplicou a farinha no preparo de massas tipo fettuccine.
A engenheira de alimentos Amanda Rios Ferreira: fettuccine aprovado em testes sensoriais

Na massa, a semolina foi substituída pela farinha desenvolvida no laboratório. O resultado foi positivo. Assim como nos cookies, a redução do índice glicêmico e o aumento da quantidade de fibras resultaram num alimento mais saudável. No teste sensorial feito pelo laboratório, o macarrão teve um bom índice de aceitação, recebendo notas acima de 6. 

“Os produtos integrais vendidos no supermercado geralmente têm a cor escura devido à adição do farelo. Com a farinha do colmo jovem de bambu, temos os benefícios do alimento ‘integral’, mas com a aparência do alimento ‘tradicional’”, esclarece a engenheira de alimentos.

Sustentabilidade

Segundo o professor Antonio Beraldo, convidado para integrar a pesquisa e coautor do livro Bambu: de corpo e alma, o Brasil, por ser um país onde o clima é quente e as chuvas, abundantes, possui uma vasta diversidade de espécies de bambu, de pequeno a grande porte. O seu broto tem uma exportação significativa da China para o Japão, algo em torno de 300 milhões de dólares por ano. A possibilidade de aproveitamento da gramínea em diversas áreas, como a alimentícia, industrial e na construção civil, faz do bambu um produto economicamente interessante.
O professor Antonio Beraldo: trabalho pioneiro no Brasil e no mundo

E são exatamente as desvantagens que o bambu pode apresentar quando aplicado na área de construção civil, como o fato de fermentar e carunchar com certa facilidade, que são excelentes indicativos para uso na área alimentícia e de produtos biotecnológicos. Além disso, a gramínea tem grande rendimento anual, já que seu crescimento é rápido, com pico máximo de produção de amido em 36 meses. “Os colmos são reproduzidos assexuadamente e não necessitam de replantio. Uma vez replantado, ele regenera-se. Para extraí-lo, é necessário cortar apenas de 20% a 30% dos brotos e suas touceiras duram mais de cem anos” explica Beraldo.

Por conter amido, açúcares e fibras que proporcionam saciedade e possuem efeitos benéficos à saúde, a farinha de colmo jovem de bambu também apresenta potencial ao ser usada em países emergentes, como em medidas de combate à fome e à desnutrição. Este feito rendeu aos pesquisadores Mária Hermínia Ferrari Felisberto, Patrícia Myake, Antonio Beraldo e Maria Teresa Clerici, no ano passado, reconhecimento nacional e internacional. O grupo foi laureado com os prêmios Josué de Castro de Combate à Fome e o AACCI para jovens pesquisadores, em San Diego, nos Estados Unidos.

Enquanto não é comercializado, a equipe espera ampliar o número de pesquisadores e atrair pessoas interessadas em viabilizar e consolidar a pesquisa. “Há trabalhos em andamento sobre o broto de bambu, mas não há registros de pesquisas envolvendo suas fibras utilizadas na área alimentícia. Somos precursores no Brasil e até mesmo em nível mundial”, garante o professor Beraldo.

Imagem de capa JU-online

domingo, 5 de agosto de 2018

Baru

Texto:
Devanil Roza Fernandes - Farmacêutico, Pós-graduando em Fitoterapia Clínica. Presidente da Plampantanal (Associação dos Agricultores Familiares para o cultivo de plantas medicinais, condimentares e aromáticas de Poconé,MT)

Letícia Fonseca do Pinhal - Ciências Biológicas - bacharelado UNIP - Universidade Paulista 

Marcos Roberto Furlan - Engenheiro Agrônomo - Professor Faculdade Cantareira e Universidade de Taubaté - UNITAU. 

Cada vez mais as espécies nativas ganham espaço no mercado, muitas vezes graças à possibilidade de suas diferentes formas de usos. Dentre estas, se destaca o Baru (Dipteryx alata Vogel, Leguminosae: Faboideae), fruto típico da região do cerrado (Foto 1). Além do consumo das suas sementes torradas e como farinha, produz óleo utilizado em massagens. A sua madeira é usada em construções. 

Os frutos têm uso na medicina popular e são consumidos por morcegos, primatas, cotias e arara-azul. Para consumo humano, é utilizada a polpa para doces ou geleias. A semente pode ser crua ou torrada, sendo comercializada em doces como a barutella (creme de cacau com semente de baru) ou paçoca. 

O baru é comum nas regiões Central e Sudeste do Brasil, onde recebe diferentes denominações populares, como, por exemplo, alvorada, barujo, castanha-de-burra, coco-feijão, cumbaru, cumaruraana, emburena-brava, forquilha, garampara, laranjal e pau-cumaru. 

Comunidades e assentamentos de agricultores familiares nas proximidades do município de Poconé, Mato Grosso, para aumentar a sua renda familiar, coletam os frutos do baru, de onde retiram suas castanhas e entregam para uma cooperativa que faz a seleção e o beneficiamento das sementes para destino ao comércio. 
Foto 1. Semente torrada de baru.
Marcos Roberto Furlan

Com relação às suas características botânicas, D. alata é uma árvore alta com 15 a 25 m. Possui tronco largo e de cor cinza-clara. O seu fruto possui polpa dura e carnosa e por dentro uma semente que tem em média 3 cm ,e produz apenas uma por fruto. Os frutos são colhidos de julho a agosto, sendo, em média, 5 mil unidades de fruto. 

A semente é considerada anti-reumática. Possui alto teor nutritivo, alto valor energético (502 Kcal/100g) e óleos essenciais, Takemoto et al. (2001) observam que a semente do baru tem cerca de 38,2% de lipídios, 23,9% de proteínas, 15,8% de carboidratos totais e 14,39% de fibras alimentares.

As fotos 2 a 4 são de sementes e da árvore encontradas no Mato Grosso.
Foto 2. Sementes in natura.
Devanil Rosa Fernandes
Foto 3. Fruto.
Devanil Rosa Fernandes
Foto 4. Baruzeiro.
Devanil Rosa Fernandes

Referência Bibliográficas 

BOTEZELLI, Luciana, DAVIDE, Antonio Claudio, MALAVASI, Marlene M., Características dos frutos e sementes de quatro procedências de Dipteryx alata Vogel (Baru) . CERNE [en linea] 2000, 6 (Sin mes): [Acessado em 21 de julho de 2018] Disponível em:<http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=74460102> ISSN 0104-7760 

SANO, Sueli Matiko. Botânica e Citogenética. In: SANO, Sueli Matiko; RIBEIRO, José Felipe; BRITO, Marcia Aparecida de. Baru: biologia e uso. Planaltina: Embrapa, 2004. p. 11-15. Disponível em: <https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/566595/1/doc116.pdf>. Acesso em: 23 jul. 2018. 

TAKEMOTO, E. et al. Composição química da semente e do óleo de baru (Dipteryx alata Vog.) nativo do Município de Pirenópolis, Estado de Goiás. Rev. Inst. Adolfo Lutz, 60(2):113-117, 2001. Disponível em: <http://www.almanaquedocampo.com.br/imagens/files/Baru%20Composi%C3%A7%C3%A3o%20qu%C3%ADmica%20da%20semente%20e%20do%20%C3%B3leo.pdf>. Acesso em: 16 jul. 2018.

terça-feira, 26 de junho de 2018

Tomate-árvore - aspectos nutricionais

Texto:

  • Letícia Fonseca do Pinhal - Ciências Biológicas - bacharelado UNIP - Universidade Paulista
  • Marcos Roberto Furlan - Engenheiro Agrônomo - Professor Faculdade Cantareira e Universidade de Taubaté - UNITAU  

As plantas alimentícias não-convencionais (Pancs), são espécies que não são comumente consumidas como alimentos pela maioria da população. Dentre elas, o tamarillo (foto) é um exemplo de panc, pois é conhecido por poucos. No entanto, está invadindo os quintais, principalmente na Bahia, em Minas Gerais e em São Paulo.



Dentre seus vários nomes populares, no comércio é conhecido por tamarillo ou tamarilho, mas nos quintais recebe nomes, como, por exemplo, tomatão, tomate-japonês, tomate-inglês, tomate-francês, tomate-árvore, tomate-de-árvore e tomate-arbóreo. Estes três últimos nomes são referências à sua altura (2,0 a 4,0 m), apesar de ser um arbusto, e por produzir fruto semelhante à alguns cultivares de tomate. Os demais nomes que fazem menção à sua origem não se justificam, pois é originado da América do Sul. 


Pertence à família Solanaceae, a mesma do tomate, pimentão e berinjela, dentre outras. Seu nome científico é Solanum betaceum, nome aceito segundo www.theplantlist.org, mas é comum encontrar com a sinonímia Cyphomandra betacea. Podem ser encontradas variedades que se diferenciam pela cor dos frutos.

O fruto pode ser consumido in natura em saladas, como sobremesa, como aperitivo, na forma de suco e, ainda, em combinação com outros produtos, tais como sorvete, leite e iogurte (PANTOJA et al., 2009).

Apesar da sua importância na alimentação, há poucas informações sobre seus usos medicinais. Quanto à composição nutricional, Torres (2012) observa que esta espécie é apreciada por ser fonte de compostos antioxidantes, cálcio, fósforo, potássio, ferro, açucares, ácidos orgânicos, pectinas e flavonoides. 

Alguns dos resultados encontrados pela pesquisadora e relacionados à composição em 100g de polpa madura do tamarillo foram: 30 Kcal; 4,10 g de fibra dietética; 331,32; 21,25; 21,18; 17,03 e 7,44 g, respectivamente, de fósforo, cálcio, magnésio, potássio e ferro. Obteve, ainda, 23,32 mg de ácido ascórbico; 1,22 mg de licopeno e presença de compostos fenólicos, antocianinas e taninos (0,40 mg catequina/100 g). 

Um de seus destaques na nutrição é o teor de vitamina A. Prohens e Nuez (2001), em revisão sobre a espécie, relatam variação de 540 a 2475 U.I..

Pantoja et al. (2009), analisando duas variedades de tamarilo encontradas na região do Alto Vale do Jequitinhonha, no norte de Minas Gerais, concluíram que suas características físicas e físico-químicas as qualificam para o consumo in natura e para processamento industrial. Entre tais características, os autores destacaram o baixo valor calorífico do fruto, o bom rendimento de polpa e o elevado teor de sólidos solúveis. 

Referência 

PANTOJA, Lilian; PINTO, Nisia; LOPES, Cristiane; GANDRA, Renata; SANTOS, Alexalndre. Caracterização física e físico-quimica de frutos de duas variedades de tamarilho oriundas do norte de Minas Gerais. Revista Brasileira de Fruticultura, Jaboticabal - SP, V.31, n 3, p 916-919, 2009. Disponivel em: http://acervo.ufvjm.edu.br/jspui/handle/1/1124. Acesso em: 23 jun. 2018.

PROHENS, Jaime; NUEZ, Fernando. The Tamarillo (Cyphomandra betacea). Small Fruits Review, [s.l.], v. 1, n. 2, p.43-68, 20 abr. 2001. Informa UK Limited. http://dx.doi.org/10.1300/j301v01n02_06. 

TORRES, Alexia. Caracterización física, química y compuestos bioactivos de pulpa madura de tomate de árbol (Cyphomandra betacea) (Cav.) Sendtn.. Archivos Latinoamericanos de Nutrición, v. 62, n.4, p.381-388, 2012. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/256488204_Physical_chemical_and_bioactive_compounds_of_tree_tomato_Cyphomandra_betacea. Acesso em: 26 jun. 2018.

terça-feira, 8 de maio de 2018

Usos e curiosidades sobre as plantas espontâneas. Tanchagem

Texto:
Giovanna Brito Lins - Graduanda em Ciência e Tecnologia e Ciências Biológicas na Universidade Federal do ABC 

Marcos Roberto Furlan - Engenheiro Agrônomo - Professor - Faculdade Cantareira/Unitau 


Nos quintais, exigindo sombra e água fresca, se espalha a tanchagem. Muitos a consideram como planta daninha, mas talvez porque não saibam sobre a sua fama como medicinal. E para melhorar sua reputação, também é considerada uma alimento não convencional, isto é, uma panc (planta alimentícia não convencional).


Apesar de ser comum em quase todo o Brasil, é originária da Europa. Por aqui, é encontrada, por exemplo, em calçadas, quintais e hortas. Seu nome científico é Plantago major L., e pertence à família Plantaginaceae.

Outros nomes pelos quais é chamada podem ser taiova, tanchá, língua de vaca ou sete nervos. Este último, faz referência às folhas com nervuras bem marcadas que crescem em torno de um único eixo de maneira circular, em forma de roseta. É uma planta perene, que atinge seu auge de crescimento e desenvolvimento no verão. Além de possuir comprovadamente propriedades medicinais da raiz às sementes, aparece associada à várias culturas distintas em registros históricos que relatam suas mais diversas aplicações.
Archivo:Plantago major — Flora Batava — Volume v4.jpg
Figura 1. Plantago major
https://es.wikipedia.org/wiki/Archivo:Plantago_major_%E2%80%94_Flora_Batava_%E2%80%94_Volume_v4.jpg

10 usos e curiosidades sobre a Tansagem

1. Na literatura, é possível encontrar a Plantago major L., com o nome de “rei-dos-caminhos” por ser encontrada em quase todos os lugares pelo mundo.

2. De acordo com Gusso et. al. (2012), a tanchagem se espalhou pelo mundo, inicialmente, ao ser levada pelos europeus durante as navegações.

3. Embora seja considerada uma PANC no Brasil, em outros países como a Índia é uma das ervas mais utilizadas na culinária.

4. Contém mucilagem e bons teores de potássio, cálcio, fósforo, ferro e algumas vitaminas.

5. Age, ainda, enquanto depurativa, diurética, antibacteriana, combatendo tosses e bronquites. Tem propriedades cicatrizantes. As folhas frescas maceradas são úteis contra picadas de abelhas, irritação de pele, úlceras, queimaduras e sangramento de pequenos cortes.Usada também em casos de ardor de estômago, diarreia e disenteria. Também usada em gargarejos para dor e inflamação de garganta. A mucilagem auxilia na proteção intestinal e uterina.

6. É uma promissora fonte de renda especialmente na área cosmética, uma vez que pode ser aplicada diretamente sobre a acne e outros males de pele, além da ação tonificante.

7. É uma das nove ervas sagradas encontradas no texto “Encantamento das Nove Ervas” na Lacnunga, que trata-se de uma coleção de textos contendo orientações e descrições medicinais escritos no século dezenove, na Inglaterra Anglo-Saxônica. Sua descrição neste documento é: 

“E você, Tanchagem, mãe das plantas que se abre para o leste, poderosa em seu interior, sobre você as carruagens correm, sobre você as damas passam, sobre você as noivas choram, sobre você o touros resfolegam; a todos eles você resiste e confronta, assim como você resiste o veneno e a doença e ao mal que viaja pela terra”

8. Está presente na obra Romeu e Julieta, de Sheakspeare, no ato 1, cena 2.

“Romeo says, "Your plantain-leaf is excellent for that". Benvolio asks what the plantain-leaf is excellent for, and Romeo answers, "For your broken shin". Romeo is accusing Benvolio of offering about as much help as the doctor who solves all problems by telling his patients to take two aspirin.” 


9. Segundo Voeks (1997), em “Sacred Leaves of Candomblé: African Magic, Medicine, and Religion in Brazil”, a tanchagem aparece tanto como planta sagrada para o Candomblé quanto de importância econômica para pequenos agricultores;

10. A planta está descrita na Farmacopeia Homeopática brasileira. 

Referências:

GUSSO, G.; LOPES, J. M. C. Tratado de medicina de família e comunidade: princípios, formação e prática. Porto Alegre: Artmed, 2012. 2222 p. 2 v. Disponível em: <https://books.google.com.br/books?id=lOZHeFiBYd4C&pg=PT751&redir_esc=y#v=snippet&q=tansagem&f=false> Acesso em: 20 abr. 2018

MEDEIROS, Elton O. S.. Erudição e Poesia Encantatória na Inglaterra anglo-saxônica: Salomão & Saturno I e o Encantamento das Nove Ervas. Mirabilia: electronic journal of antiquity and middle ages, 2015, Núm. 20 , p. 313-363. Disponível em:< http://www.raco.cat/index.php/Mirabilia/article/view/297166/386109> Acesso em: 20 abr. 2018

MINISTÉRIO DA SAÚDE. MONOGRAFIA DA ESPÉCIE Plantago major L. (TANCHAGEM). 2014. Disponível em: <http://portalarquivos2.saude.gov.br/images/pdf/2014/novembro/25/Vers--o-cp-Plantago-major.pdf> Acesso em: 20 abr. 2018

VOEKS, A. R. Sacred Leaves of Candomblé: African Magic, Medicine, and Religion in Brazil. Disponível em: <https://books.google.com.br/books?id=uPIS5BfXMsMC&pg=PA140&redir_esc=y#v=onepage&q=plantago%20major&f=false> Acesso em 20 abr. 2018.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Frutas brasileiras são ricas em antioxidantes e anti-inflamatórios

24/04/2018 

Link:

Consumidas regulamente como alimentos funcionais, frutas poderiam ajudar na prevenção de doenças como câncer e ataque cardíaco

Estudo avaliou o potencial antioxidante, anti-inflamatório e a composição fenólica de dez frutas nativas brasileiras ainda pouco conhecidas pela ciência, como cajá, cambuci e murici vermelho (na imagem) – Foto: Divulgação / Esalq

As frutas nativas brasileiras são fontes de substâncias antioxidantes e anti-inflamatórias, bem como de uma grande diversidade de compostos fenólicos, os quais podem propiciar importantes benefícios para a saúde humana. Essa é a conclusão de um estudo desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Ciência e Tecnologia de Alimentos da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em Piracicaba. Em parceria com a Faculdade de Odontologia de Piracicaba (FOP) da Universidade de Campinas (Unicamp), a pesquisa da engenheira de alimentos Jackeline Cintra Soares avaliou o potencial antioxidante, anti-inflamatório e a composição fenólica de dez frutas nativas brasileiras ainda pouco conhecidas pela ciência, como o cajá e o cambuci.

“O Brasil possui condições climáticas adequadas para o desenvolvimento de um grande número de frutas nativas”, aponta Jackeline Soares. “Essa biodiversidade tem se tornado um caminho promissor para a descoberta de novos compostos bioativos capazes de ser utilizados na formulação de alimentos funcionais e medicamentos”, completa. O estudo tem orientação do professor Severino Matias de Alencar, do Departamento de Agroindústria, Alimentos e Nutrição da Esalq.

Segundo a pesquisadora, os compostos fenólicos apresentam ações específicas, podendo atuar como antioxidantes e anti-inflamatórios, assim prevenindo doenças crônicas não transmissíveis, como as cardiovasculares e a diabete, por exemplo. “Nosso objetivo foi avaliar a capacidade desativadora de espécies reativas de oxigênio e nitrogênio, atividade anti-inflamatória in vitro e in vivo e a composição fenólica. A técnica utilizada foi a espectrometria de massas de alta resolução, realizada em dez frutas nativas brasileiras.”

Assim, foram mapeados o araçá-boi (Eugenia stipitata), o cambuití-cipó (Sagerectia elegans), o murici vermelho (Byrsonima arthropoda), o murici guassú (Byrsonima lancifolia), o morango silvestre (Rubus rosaefolius), o cambuci (Campomanesia phaea), o jaracatiá-mamão (Jacaratia spinosa), o juquirioba (Solanum alterno-pinatum), o fruta-do-sabiá (Acnistus arborescens) e o cajá (Spondias mombin L.). As amostras foram coletadas no Sítio Frutas Raras, localizado na cidade de Campina do Monte Alegre (SP), exceto o cajá, que foi coletado na Fazenda Gameleira, município de Montes Claros de Goiás (GO).
Diversidade de compostos fenólicos presentes nas frutas pode propiciar importantes benefícios para a saúde humana. Na imagem, o cajá – Foto: Divulgação / Esalq

Antioxidantes

Foram identificados compostos fenólicos pertencentes à classe dos flavonoides (catequina, epicatequina, rutina, quercetina glicosilada, kaempeferol glicosilado, quercetina, procianidina B1 e procianidina B2), subclasse do ácido hidroxibenzoico (ácido gálico) e subclasse dos ácidos hidroxicinâmicos (ácido cumárico, ácido ferúlico e cafeico). Das frutas analisadas, o araçá-boi, cambuití-cipó, murici vermelho, morango silvestre e cajá foram as que apresentaram as maiores atividades antioxidantes e/ou anti-inflamatórias, cujo perfil fenólico indicou a presença de 18 compostos no araçá-boi, 32 no cambuití- cipó, 26 no murici vermelho e 20 e 11 compostos no morango silvestre e cajá, respectivamente.

Nas frutas cambuití-cipó, murici vermelho e morango silvestre também foi possível a identificação e quantificação de antocianinas, sendo que no cambuití-cipó foi identificada a kuromanina e a mirtilina. Já para o murici vermelho e o morango silvestre, somente a kuromanina foi encontrada. “Esta é a primeira vez que se relata a presença destas antocianinas no cambuití-cipó e murici vermelho. Portanto, as frutas nativas estudadas apresentam compostos bioativos com atividades antioxidante e anti-inflamatória e, quando consumidas regulamente como alimentos funcionais, poderiam ajudar na prevenção de doenças crônicas não transmissíveis.”
Morango silvestre – Foto: Divulgação / Esalq

Um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) publicado em 2017 recomenda um mínimo de 400 gramas de frutas e vegetais por dia (excluindo batatas e outros tubérculos) para a prevenção de doenças crônicas, como doenças cardíacas, câncer, diabete e obesidade, especialmente em países menos desenvolvidos.

Ainda segundo Jackeline Soares, “existe a necessidade de se buscar novos alimentos que, além de nutrir, apresentem atividades biológicas que possam inibir ou amenizar danos oxidativos relacionados a processos inflamatórios, limitando assim a progressão de certas doenças de origem metabólica e degenerativas prevalentes, principalmente quando se considera que estamos em um país detentor de uma das maiores biodiversidades do Planeta”.

Caio Albuquerque / Divisão de Comunicação da Esalq

Mais informações: e-mail jackelinecintrasoares@gmail.com, com Jackeline Cintra Soares

domingo, 22 de abril de 2018

Dez fatos sobre o feijão-borboleta

Texto:

Giovanna Brito Lins - Graduanda em Ciência e Tecnologia e Ciências Biológicas na Universidade Federal do ABC 
Marcos Roberto Furlan - Engenheiro Agrônomo - Professor - Faculdade Cantareira/Unitau 
Virgínia Vieira Santos Silva - Graduanda em Engenharia Agronômica - Faculdade Cantareira

De lindas flores azuis, a Clitoria ternatea L. é cultivada como forrageira, ornamental, medicinal e comestível, sendo mais conhecida pelo nome de feijão-borboleta.

É uma trepadeira perene. Floresce em quase todos os meses do ano no Brasil e desenvolve-se muito bem em pleno sol. Necessita de outra planta ou estrutura onde possa se apoiar e, com este suporte pode atingir até 4 m de altura. 

É considerada uma “planta de companhia”, auxiliando no crescimento e no desenvolvimento de outras plantas de maior interesse de cultivo, característica esta que lhe confere, ainda, o uso em áreas de recuperação ambiental, por exemplo. 
10 usos e curiosidades sobre o feijão-borboleta 

1. Originária de regiões da Ásia Tropical. É também conhecida como ervilha-borboleta, butterfly pea, campanilla, rainha-azul, ismênia, cunhã, clitória ou palheteira; 

2. É encontrada em diversas regiões da América do Sul, África e Austrália. 

3. Pertence à Família Fabaceae, a mesma do feijão, ervilha, soja, dentre outras 

4. Por não ser de consumo habitual entre a população como alimento, é considerada uma PANC (Planta Alimentícia não Convencional). Suas flores, folhas e vagens são comestíveis. Podem ser consumidas em saladas, geleias, gelatinas, sucos, chás, sopas, sorvetes, patês, arroz, tapioca. 

5. Também na alimentação, o feijão-borboleta é utilizado como um corante natural, dando o tom azul intenso, resistente ao cozimento.

5. Suas infusões possuem antocianina, que lhe conferem a coloração azul e podem ser utilizadas como indicadores de pH, uma vez que em contato com substâncias ácidas, a cor passa a ser rosada.

6. A planta está, culturalmente, associada à figura feminina: “Cunhã”, em tupi, quer dizer “mulher”. “Ismênia” é uma variação de “Ismeno”, que é o nome de um rio situado na região da Beócia, na parte central da Grécia, o qual, acordo com a mitologia, era onde se banhavam as ninfas Ismênides, que representavam as forças vivas da natureza, além de ser nome da filha de Édipo, outro personagem mitológico. O nome do gênero (Clitoria) faz referência à semelhança morfológica com o clitóris. 

7. Se adapta bem em diversos de ambientes e tipos de solos

8. É uma planta fixadora de nitrogênio no solo.

9. Em usos medicinais, pode ser utilizada em tratamento de infecções de garganta e olho, febre, indigestão, estresse e fortalecimento da memória. 

10. Feijão-borboleta é rico em fitoquímicos/fitonutrientes. A infusão das flores é hepatoprotetora e antidiabética. O suco é usado para curar picadas de insetos e doenças de pele. 

Referências 

DURANTE, Stéphanie. Conheça as PANC - plantas alimentícias não convencionais. 1. Disponível em: <https://revistacasaejardim.globo.com/Casa-e-Jardim/Paisagismo/noticia/2017/08/o-futuro-pertence-panc.html>. Acesso em: 15 abr. 2018. 

Fact sheet: Clitoria ternatea. Disponível em: < http://www.tropicalforages.info/key/forages/Media/Html/entities/clitoria_ternatea.htm> Acesso em: 19 abr. 2018 

FIGUEIREDO, N. Clitória: a flor corante e suas curiosidades!. Disponível em: <http://nofigueiredo.com.br/clitoria-a-flor-corante-e-suas-curiosidades/> Acesso em 19 abr. 2018 

FITOQUÍMICOS: O que é fitoquímico?. Disponível em: <https://www.copacabanarunners.net/fitoquimicos.html>. Acesso em: 15 abr. 2018. 

G. MARCELINO, Dianes. Feijão-borboleta ou Cunhã, curiosidades e propriedades medicinais. . 1. Disponível em: <http://www.naturezaeconservacao.eco.br/2017/11/feijao-borboleta-ou-cunha-curiosidades.html>. Acesso em: 15 abr. 2018. 

REIS RANIERI, Guilherme. Guia Prático de PANC (Plantas Alimentícias não Convencionais) . 1. ed. São Paulo: Instituto Kairós, 2017. 44 p. v. 5. 

SISTSP [Banco de Plantas Notáveis] Projeto Tudo Sobre Plantas - Brasil. 1. Disponível em: <https://www.tudosobreplantas.com.br/asp/plantas/ficha.asp?id_planta=22831>. Acesso em: 15 abr. 2018. 

terça-feira, 17 de abril de 2018

Dez fatos sobre o coentrão

Texto:
Giovanna Brito Lins - Graduanda em Ciência e Tecnologia e Ciências Biológicas na Universidade Federal do ABC 

Marcos Roberto Furlan - Engenheiro Agrônomo - Professor - Faculdade Cantareira/Unitau 


No Brasil, esta espécie (foto) é mais comum no Norte e no Nordeste, onde é cultivada principalmente nos quintais. Seu nome científico é Eryngium foetidum L. e pertence à família Apiaceae. Popularmente, devido à semelhança no sabor e no aroma com o coentro, é conhecida principalmente por coentrão. 

Embora seja utilizada como hortaliça e condimento, possui, comprovadamente, propriedades medicinais. Em alguns estados brasileiros como o Amazonas, serve como uma boa fonte de renda para pequenos agricultores, pois é uma planta com alto consumo e ótima aceitação popular.
Foto: Eryngium foetidum 

Não se sabe ao certo sua origem, mas acredita-se que seja natural da América do Sul, embora também possa ser encontrada com facilidade na América Central e na Ásia. É uma herbácea perene que normalmente atinge até 30 cm de altura, tendo, por vezes, crescimento espontâneo principalmente nas regiões Norte e Nordeste. Desenvolve-se bem em climas quentes, preferindo solo fértil (embora possa crescer em condições adversas) e úmido. Suas folhas são relativamente grandes e duras. 

10 usos e curiosidades sobre o coentrão 

1. Tradicionalmente, esta planta é utilizada na medicina popular como diurético, antídoto contra alguns venenos, febrífugo, emenagogo, antiespasmódico e afrodisíaco (http://nerua.inpa.gov.br/NERUA/08.htm), além de possuir vitaminas A, B1, B2 e C; sais minerais tais como cálcio e ferro e ser excelente fonte de fibras e antioxidantes. 

2. É considerado ingrediente essencial na preparação do tacacá e pato no tucupi. Pode ser, ainda, usado na preparação de peixes, moquecas e sopas além de ser possível encontrar receitas de shakes e doces na internet. 

3. É possível encontrar descrições da planta na obra do século XVI "Tratado Descritivo do Brasil " de 1587, que informava à Portugal sobre espécies de plantas e animais encontradas no Brasil. Segue-se, para o coentrão, o seguinte: "Há uma erva que se chama nhambí, que se parece na folha com coentro, e queima como mastruços, a qual os comem os índios e mestiços crua, e temperam as panelas dos seus manjares com ela, de quem é mui estimada.". 
Referência: História da alimentação no Brasil, do Luis da Câmara Cascudo. 

4. Pertence à Família Apiaceae, a qual inclui, por exemplo, aipo, alcarávia, cenoura, cominho, coentro, erva-doce, funcho, salsinhas, dentre outros. Outras denominações populares são: chicória, chicória-do-amazonas, chicória-do-pará, coentro-de-caboclo, coentro-japonês, coentro-verdadeiro e nhambi, dentre outras. 

5. O constituinte do óleo essencial responsável pelo cheiro característico, comum também ao coentro (Coriandrum sativum), é o trans-2-tridecaenal. Este composto é agradável para algumas pessoas, para outras não e, ainda, pode passar despercebido por outras. Ainda não se sabe exatamente os motivos destas distinções, embora estudos mostrem que podem ser culturais ou mesmo genéticos. 

6. O epíteto específico "foetidum" vem do latim e significa "fedido", em referência ao cheiro da planta. O nome do gênero é derivado de "eryngion", o nome popular grego da planta Eryngium maritimum

7. A praga mais comum associada à plantação do coentrão, é o lepidóptero Plutella xylostella, conhecido como traça-das-crucíferas. 

8. Diferente do coentro comum, o coentrão é rústico quanto às exigências de cultivo. Pode sobreviver por até 2 anos (é bianual) e as folhas resistem por dias, quando guardadas na geladeira. 

9. Ainda é considerada uma PANC (Planta Alimentícia Não Convencional), uma vez que seu consumo somente é considerável em algumas regiões do Brasil. 

10. Tem se mostrado promissora a exportação desta planta para o Reino Unido e Oriente Médio. (https://www.fag.edu.br/upload/revista/cultivando_o_saber/57746a41661d2.pdf

Outras fontes: 



quinta-feira, 5 de abril de 2018

Dez fatos sobre o cará-moela

Texto:
Amanda Casoni dos Santos - acadêmica de Nutrição - UNITAU
Marcos Roberto Furlan - Engenheiro Agrônomo - UNITAU/FIC

1. Cará é um nome que pode, dependendo da região, ser referência para uma espécie. Mas cará-moela só pode ser referência para a espécie de nome científico Dioscorea bulbifera

2. O nome cará-moela (ou cará-do-ar) é devido à produção de bulbilhos aéreos, fato não muito comum entre os vegetais. E fato que justifica outro nome popular, batata-do-ar. Mas também produz tubérculos subterrâneos comestíveis. 

3. É rústico, isto é, resiste ao ataque de pragas, mas se desenvolve melhor em solos mais férteis. Como é trepadeira, precisa de suporte 

4. É uma panc (planta alimentícia não convencional) que se destaca, entre os vegetais, como fonte de algumas vitaminas do complexo B. 

5. Possui variedades que se diferenciam quanto ao formato ou textura do bulbilho. As mais comuns são semelhantes ao formato de uma moela de galinha ou como asas abertas de borboleta. Variedades escuras e cascudas não são recomendadas. 

6. Para o Brasil, foi provavelmente trazido pelos escravos africanos. Ásia e as ilhas de Cabo Verde e São Tomé, são algumas de suas regiões de origem. 

7. Pode ser consumido frito ou cozido. Alguns exemplos de pratos com cará-moela: purês, suflês, chips, em sopas, em pudins e bolos. 

8. Se conserva por meses fora da geladeira. Pode durar de 2 a 4 meses se conservados em lugares secos e arejados

9. No Brasil, é raro encontrar em mercados. Geralmente as pessoas possuem em seu quintal ou presenteiam os vizinhos. 

10. Os bulbilhos aéreos caem no chão e brotam espontaneamente. Ou quando colhidos e mantidos em locais escuros, brotam também. Após o plantio, cerca de 4 meses começa a produção. Um cará pode chegar a 0,5 kg. 
Fotos: cará-moela 
Autoria: Amanda Casoni 

Referências e material interessante para consulta: 




terça-feira, 3 de abril de 2018

Do mato ao prato (jornalufgonline.ufg.br)

Data: 27.09.2017

Para além do sistema agroalimentar global, as plantas alimentícias não convencionais são uma alternativa de alimentação saudável

Texto: Carolina Melo
Fotos: José Vernek e Flickr, Wikimedia Commons

Já imaginou saborear uma flor de ipê amarelo? E pegar aquele matinho infestante pra fazer uma sopa refogada e nutritiva? São muitos os “matos”, “inços”, “chicórias” e “ervas daninhas” que podem compor uma rica refeição. Mas o pouco conhecimento das propriedades nutritivas de plantas acessíveis faz que a maioria da população se limite aos produtos disponibilizados pelo sistema agroalimentar global e pelas redes de supermercado. 

Para quem descobre as ricas possibilidades alimentares das plantas, cozinhar se torna uma experiência política, cultural, ambiental e revolucionária. Ali mesmo, no quintal de casa, a baixo custo, é possível encontrar plantas que podem estar na mesa. As Plantas Alimentícias Não Convencionais (Panc), como atualmente são conhecidas, contribuem para transpor a padronização e a monotonia da alimentação diária, além de garantir a apreciação de diferentes sabores, texturas e combinações.

Árvores, trepadeiras, arbustos, cipós e até mesmo aquele matinho desprezado ou considerado invasor. São várias as espécies que podem ser consumidas, apesar de não serem conhecidas ou produzidas em grande escala. O termo “Panc”, no entanto, depende de quem está lidando com a planta. “São plantas presentes em determinadas localidades e regiões e que já exerceram ou ainda exercem grande influência na alimentação de populações tradicionais, mas que em algum momento foram perdendo espaço para o consumo de hortaliças produzidas pelo mercado”, explica a professora de Agronomia da UFG, Abadia dos Reis Nascimento. Vão desde plantas nativas até aquelas que não são produzidas pela agricultura industrial e compõem o universo de alimentos não utilizados no dia a dia de uma população.

As mudanças de comportamento alimentar fizeram que o cultivo dessas plantas passasse a ter expressões econômicas, sociais e culturais reduzidas. Já são muitas as que estão esquecidas e não são mais vistas como alimento, podendo até ser extintas. Para se ter ideia, estima-se que 30 mil plantas possuem partes comestíveis, mas cerca de 90% do alimento mundial provém de menos de 40 espécies vegetais. “A retomada do cultivo, além de preservar e valorizar as espécies nativas e a produção local, recupera as origens de uma sociedade histórica, seja nos encontros e feiras para a venda ou troca de sementes, seja na troca de conhecimentos passada por gerações. O consumo nos possibilita uma nova experiência alimentar, mais saudável e uma alternativa sustentável para os alimentos convencionais industrializados”, acredita Abadia dos Reis.

Cultivo afetivo na cidade

A horticultura doméstica e a utilização de plantas não convencionais no repertório alimentar era uma prática mais comum, de uma cultura urbana que ainda carregava o vínculo afetivo e a vivência com o campo. Entretanto, a diminuição da agricultura urbana, em diálogo com a transformação no modo de habitar a cidade, impulsionou a dependência às grandes redes de comércio de alimentos. “Essa atual realidade contribuiu para que o conhecimento sobre as Panc fosse desprezado por algumas gerações”, avalia o consultor em sustentabilidade, José André Verneck, aluno do curso de Fruticultura no Programa de Pós-Graduação em Agronomia da UFG.

Os quintais de outrora passaram a ter outros usos comuns, como estacionamento, áreas de circulação e lazer coletivo em edifícios, com ajardinamento restrito por falta de espaço físico ou para reduzir tarefas braçais requeridas pela manutenção de áreas verdes. “Sujar as mãos de terra, talvez tenha adquirido sentido demeritoso a ponto de ser classificado como coisa de ‘caipira’, sendo mais cômodo e ‘chique’, concretar o piso e se produzir vestualmente para ir fazer compras no supermercado”, observa José Verneck. Segundo o consultor em sustentabilidade, até mesmo as feiras livres tiveram o perfil alterado. “Poucos feirantes continuam a produzir e vender. São muitos os que passam a adquirir os produtos nas Centrais de Abastecimento”.

Mas o aproveitamento das áreas verdes domiciliares para o cultivo de alimentos saudáveis é uma possibilidade viável para todos os tipos e tamanhos de espaço. “Em qualquer pequeno espaço onde bata sol, com pouco trabalho por dia, é possível cultivar plantas não convencionais e ter fartas colheitas. As Panc são menos suscetíveis a pragas e requerem menos tratos do que as hortaliças convencionais. Jardins, minijardins, são muitas as possibilidades para quem tem o interesse”, afirma José Verneck. Mais do que isso, o cultivo doméstico pode estimular a adoção de tecnologias sustentáveis, como a compostagem orgânica, o uso de defensivos naturais e biofertilizantes, o reaproveitamento de materiais, a captação e uso de água pluvial. “Além de ampliar as áreas verdes no espaço urbano”, avalia o consultor.

Ao plantar, cuidar e acompanhar o desenvolvimento das plantas, cria-se uma relação afetiva com o alimento, com o ambiente e a sociedade, diferente daquela que se tem nos corredores do supermercado. Em feiras, na troca de sementes, no conhecimento compartilhado, a experiência alimentar é incrementada pelo resgate de uma memória ancestral e pela autonomia. “Cultivar alimentos em casa, sem agrotóxicos, significa soberania alimentar e menor dependência de alimentos processados. A obtenção de mudas e sementes tende a ser ampliada quando a prática se irradia a outras famílias da localidade e entre regiões distintas”, afirma José Verneck.

Acesso igualitário

De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), as famílias urbanas pobres gastam até 80% de sua renda com alimentos, o que as torna mais vulneráveis quando os preços sobem ou a renda diminui. Nesse sentido, a horticultura urbana e não convencional tem potencial para contribuir com os desafios da segurança alimentar e nutricional. “Amplia-se a capacidade de resiliência familiar”, ressalta José Verneck, que acredita que as Panc deveriam ser incluídas na merenda escolar, no cardápio dos asilos e demais organizações focadas em populações que estejam em condições de vulnerabilidade.

A percepção sobre o valor socioambiental representado pela produção caseira vem ampliando o interesse e o número de adeptos. “Pessoas e organizações têm empreendido projetos na área, com expressivos resultados educativos e na sedimentação de ciclos de capacitação, de tomada de consciência e formação de redes cooperativas em prol do alimento produzido na urbe, de modo justo, solidário e sustentável”, observa o consultor em sustentabilidade.

Segundo a professora de Agronomia da UFG, Abadia dos Reis, com a ampliação do conhecimento sobre as Panc, elas podem tornar-se uma alternativa viável para agricultores familiares. “Para isso, estratégias são necessárias para chamar a atenção e contribuir com a elaboração de políticas públicas em prol das hortaliças não convencionais”, acredita. Entre os benefícios, as espécies de plantas não convencionais podem ser selecionadas com base na adaptação às condições de solo e clima da região, possibilitando o cultivo sem a dependência de soluções sofisticadas. “Os agricultores familiares precisam dessa autonomia. Não dá para eles ficarem dependentes da compra de insumos e sementes todo ano”, acrescenta José Verneck.
Link:

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Guia Prático sobre PANCs: Plantas Alimentícias Não Convencionais (Instituto Kairós, 2017)

PDF: 

Guia online sobre PANCs


Link:

O que são PANCS? do site: kaaete.org

"Plantas Alimentícias Não Convencionais", é um termo que abrange uma quantia enorme de plantas. Algumas análises trazem a informação de que temos 26 mil espécies com potencial alimentício.

Exemplos: 
- Árvores das quais os frutos são subutilizados. Ex.: BUTIÁ. 
- Consumida em alguma região brasileira, mas subutilizada no restante. Ex.: ERVA MATE 
- Nasce espontaneamente. Ex.: CAPUCHINHA. 
-Planta usada com fins paisagísticos, além de ser comestível. Ex.:HIBISCO. 
- Plantas de sabor e características incríveis, mas pouco cultivada. Ex.: MANGARITO.

PANCs é um mundo de sabor e cor ainda desconhecido pela maioria, é a biodiversidade pela boca, é o resgate da cultura alimentar local, de alimentos ancestrais, sabores, técnicas, sabedoria, resgate da natureza.PANCs são as plantas da periferia, sucateadas, esquecidas, negligenciadas. PANCs nascem no cimento, na brecha da rua, na casa da vó, na aldeia, no meio de monocultura, na praça, no jardim, na horta caseira, no terreno abandonado.

São resistência e autonomia, tem nutrientes e propriedades medicinais. São vida, são vivas!

Caso não goste do sabor de uma ou outra, não te preocupe, tem muitas para experimentar.Bom plantio, Boa colheita, Bom novo ciclo.

Link:

PANCs, para alimentar o mundo - site www.ufrgs.br/vies

Publicado por brunoglauche em 8 de maio de 2014 às 0:32

“Tudo foi mato um dia, até as pessoas descobrirem que aquilo se poderia comer, com as plantas mudando de categoria e inaugurando um novo paradigma alimentar.” Valdely Kinupp

No mundo existem 7 bilhões de pessoas, e até 2050 seremos 9 bilhões, como alimentar tantas pessoas, é uma questão que ganha força quando se pensa que mais de um bilhão de pessoas passam fome. No entanto a produção bruta de alimentos também cresce assim como o numero de pessoas obesas no mundo que já ultrapassa a casa dos bilhões.

Por isso talvez seja uma questão de distribuição e raridade. De Distribuição, pela situação de a comida não chegar às pessoas que mais precisam. E raridade, pois existem muitas monoculturas, a dieta da maioria das pessoas é baseada em poucos alimentos e o ciclo de produção calcado na demanda que mantém a situação. Esse “vício” é prejudicial inclusive para o meio ambiente, a agricultura já é uma das atividades que mais prejudicam o planeta. Não só no caso do desmatamento, para abrir espaço para monoculturas, mas também toda a emissão de gases-estufa provocada pela industrialização da agricultura. “A ideia de que somos cada vez mais numerosos e por isso precisamos produzir mais é equivocada. Precisamos é produzir melhor. Menos da metade dos grãos hoje em dia é destinada à alimentação, enquanto a maior parte serve para fabricar rações animais, biocombustíveis e outros produtos industriais.”, essa é a posição de Benedikt Haerlin, da fundação Zukunftsstiftung Landwirtschaft, que apoia projetos ecológicos.

Por outro lado, o preço cada vez mais caro, e muitas vezes flutuante, onera quem tem condições de comprá-los. Para a maioria dos países, assim como o Brasil, a dieta é muito baseada em alimentos, no caso plantas, exóticos. E para suprir essa demanda, há duas possibilidades. Primeiro pode-se importar a comida, aumentando o custo final, e pior, fortalecendo o sistema de monocultura no país de origem, e no outro cria uma dependência perigosa e desnecessária. A segunda é plantá-las no próprio país o que demanda muitos cuidados, fora que por estarem fora de seu habitat natural se tornam muito suscetíveis a mudanças, não resistindo facilmente.

“Se fala que a Amazônia vale trilhões. Vale nada. As pessoas estão passando fome lá. Muita gente vivendo precariamente, como aqui, na famosa Porto Alegre, com sua periferia cheia de pessoas comendo mal, sentindo frio ao dormir. Não adianta termos uma biodiversidade imensa na Região Metropolitana se não a comemos ou a utilizamos de forma sustentável para outros fins. Muito menos geramos divisas e empregos, porque ninguém planta.” Valdely Kinupp

Para lutar contra esse contexto insustentável, podemos fazer a nossa parte não desperdiçando comida e aproveitando melhor os alimentos. Além disso, podemos diversificar a nossa alimentação. Usar alimentos nativos, e até que não consideramos alimentos ainda. É ai que as PANCs entram.

Texto completo no link: 

Pancs – A revolução alimentar - do site astrolabio.org.br

LINK DO TEXTO: 

Alimentação alternativa e investigativa, saiba sobre as plantas alimentícias não convencionais, o projeto Ka'a-eté e as Pancs do Tear

por Milena Vilma e Bruna

astrolábio nº 21 ano II set. 2017
Alimentação e nutrição são processos essenciais na manutenção da vida dos seres vivos no planeta e ocorrem de forma bastante complexa e interligada entre múltiplos agentes e relações no cotidiano. Essa reflexão é importante, tendo e vista a estada dos seres humanos neste solo e suas diversas intervenções no meio ambiente. Atualmente, vivemos em uma sociedade bastante conturbada e cheia de práticas nocivas ao nosso lugar comum, Terra.
Entre os impasses societários existentes hoje quando pensamos na cadeia de produção de alimentos, especialmente no Brasil, destacam-se importantes problemas a serem transpostos: o crescente aumento de doenças crônicas não transmissíveis e cânceres na população; o abusivo uso de agrotóxicos em monoculturas na agricultura nacional; o constante desperdício de alimento, que começa na colheita e termina nas residencias; o fenômeno da fome que ainda está presente nos nossos dias. O desafios são muitos e estão postos para aqueles que estão atentos a esses movimentos e possuem em si motivação para enfrentá-los.
É com este plano de fundo que nasce o projeto Ka’a-eté, uma base de conhecimento livre sobre plantas alimentícias não convencionais que incentive e resgate da cultura de consumo desses alimentos como uma estratégia para o combate a fome por meio de uma rede da conexão entre produtores e consumidores numa dinâmica de economia social e criativa.

Ka’a-eté é uma palavra tupi guarani que significa Mata Importante, Ka’a representa Mata e Eté representa Importante. O motivo de se trabalhar com nessa temática deriva das potencialidades ambientais, sociais e econômicas do consumo e manejo das Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC). Sabe-se que 60% do quadro alimentar atual da população mundial é composta por poucas variedades vegetais, especialmente de arroz, trigo e milho, sendo que estimativas trazem a informação da existência de mais de 26 mil espécies com potencial alimentício. As PANC são centro de estudos de muitos pesquisadores desde a década de 80 a nível internacional, no Brasil, as pesquisas de Valdely Kinupp na primeira década dos anos 2000 tem sido um marco teórico para diversas ações. O consumo dessas plantas nos possibilita uma nova experiência alimentar, mais saudável, sustentável e solidária.
A ideia do Ka’a-etê é agregar essa vivência ao mundo técnológico por meio de um aplicativo é a proposta dessa iniciativa.O projeto é integrado por seis pessoas implicadas com os temas de agroecologia, segurança alimentar e nutricional, tecnologia e economia criativa. Uma convergência da vida que tem agregado seus conhecimentos e vivências para o desenvolvimento deste trabalho. Cinco destes integrantes estão participando de um desafio mundial de empreendedorismo na temática de combate à fome chamado Thought For Food (TFF Challenge) que te como questão norteadora “Como alimentar 9 bilhões de pessoas até 2050?”. Inicialmente como uma plataforma de mapeamento e reconhecimento das plantas em Porto Alegre e Região Metropolitana de forma colaborativa com usuários cadastrados, em um segundo momento, ampliando-se para um marketplace ao unir produtores e consumidores, formando assim uma rede viva entre plantas e pessoas, produção e consumo, coleta e plantio. Gerando uma economia social, ambiental e criativa, ou seja, uma “Economia Viva”.
Hoje, a equipe movimenta-se por duas temáticas principais, tecnologia e as PANC. Relsi Maron, Rosana Waszak e Vagner Ribas estão a frente das atividades de desenvolvimento e programação do aplicativo; enquanto, Milena Ventre, Igor Symanski e Bruna de Oliveira conduzem as tarefas relacionadas as plantas, desde-se produção de conteúdo sobre manejo e cultivo, usos e preparações culinárias e potencialidades nutricionais a dicas para reconhecimento das estruturas delas. Pensamos que a fome não está reduzida a falta de alimentos, mas sim, está também relacionada a falta de reconhecimento destes. Falta de reconhecimento a mãe natureza que sempre alimentou todos seus filhos de forma saudável, equilibrada e justa. Podemos construir juntos outra proposta alimentar.

Faça parte dessa rede que se propõe a repensar a comida no mundo. Acesse também o site do projeto. Ele está em construção mas você pode se cadastrar e receber notícias atualizadas do projeto.
O Tear também cultiva algumas Pancs, quem é leitor assíduo do Diário do Quintal lembra-se dos posts que fizemos sobre algumas pancs que existem em nossa horta.

Para refrescar a memória, falamos da Chaya, um espinafre maia que brota facilmente e chegou ao Rio pelo intermédio de Luiz Poeta, as flores beldroega e verdolaga, que inspiraram os codinomes de nossos jardineiros, e a emilia aquela plantinha vermelinha que parece um matinho e é ótima de comer com arroz.