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sábado, 10 de agosto de 2019

Flora apícola - 1

Texto: 

Alana Cristina de Oliveira – Acadêmica de Engenharia Agronômica – UNITAU

A flora apícola é um conjunto de plantas de interesse para as abelhas. É essencial para garantir a sua sobrevivência, pois é de onde elas extraem todo o néctar, o pólen e a resina, os quais serão utilizados em sua colmeia.

Essa flora pode ser caracterizada conforme a sua região. Pode estar presente em grandes matas e até mesmo em seu quintal. É importante ressaltar que cada planta desse conjunto floral, tem uma época de florada, e, portanto, é necessário o conhecimento prévio, e ter plantas com épocas de floradas diferentes, garantido alimento o ano todo.

É indispensável abordar o assunto do desmatamento ou devastação, pois contribuem para a diminuição de oferta nutritiva às abelhas. Logo, é fundamental o incentivo na propagação de plantas que constituem esse conjunto floral.

Alguns exemplos de plantas habituais em jardins e quintais que compõem uma flora apícola, e o que pode ser extraído delas:

Plantas Apícolas para Nativas/ Exóticas

 Astrapeia-rosa - néctar/ pólen (foto 1)
 Pinhão-roxo - néctar/ pólen e resina
 Coroa-de-cristo - néctar/ pólen e resina
 Sabugueiro – néctar/ pólen (mamangavas edificam-no)
 Babosa - pólen
 Onze-horas - néctar/ pólen
 Iris-da-praia - néctar/ pólen
 Flor-de-santa-luzia – néctar/pólen
 Palmeira Jerivá – néctar/ pólen
 Manjericões – néctar/ pólen
 Urucum - néctar/ pólen e resina
 Pau-de-incenso – néctar/ pólen
 Resedá – néctar/ pólen
 Ora-pro-nóbis - néctar/ pólen
 Aroeira-pimenteira - néctar/ pólen e resina (foto 2)
 Odontonema - néctar
 Ipê-de-jardim – néctar/ pólen
 Dorme-dorme - pólen
 Quaresmeira - néctar/ pólen
 Feijão-guandu – néctar/ pólen

Referência da lista:
20 plantas para abelhas nativas
https://www.youtube.com/watch?v=2SaQ6g2dUj0

Foto 1. Astrapeia-rosa

Foto 2. Aroeira-pimenteira

quinta-feira, 2 de maio de 2019

As abelhas sem ferrão estão desaparecendo

19/12/2018


Bióloga diz que é preocupante pensar na extinção das espécies sem ferrão, pois elas possuem um papel importante para o meio ambiente e para a sociedade


O programa Ambiente É o Meio desta semana entrevista Juliana Feres, bióloga e gestora ambiental. Ela atua na conservação de recursos genéticos florestais, conservação de polinizadores, genética de populações, ecologia, biologia reprodutiva e meliponicultura.

As abelhas são classificadas como insetos que vivem em grandes comunidades e podem ser encontradas, além de colmeias, em tocos de árvores, em buracos nos barrancos e pedras e até mesmo em cupinzeiros desocupados.

Juliana diz que a introdução das abelhas africanizadas afastou a criação das abelhas sem ferrão para a produção de mel. Durante o doutorado, Juliana foi mãe e seu filho tinha amigdalite constantemente; foi quando a cientista começou a pesquisar remédios naturais que evitassem a cirurgia de retirada das amígdalas e encontrou o mel de Jataí.

As abelhas Jataí são uma espécie sem ferrão, consideradas sagradas pelo povo tupi. O mel das abelhas Jataí possui diversos benefícios medicinais, como aumento da resistência do organismo, ajudando na constipação e infecções intestinais, gripes, resfriados, entre outros problemas.

Juliana conta que desenvolveu o projeto Eborá com mulheres do Assentamento Mário Lago, em Ribeirão Preto, para ensinar como criar abelhas sem ferrão, quais benefícios elas podem trazer para as plantações e para a saúde da comunidade, além de colaborar com a luta contra o desaparecimento das abelhas.

A bióloga alerta para os fatores que levam ao desaparecimento das abelhas, como a perda florestal, que acarreta também a dificuldade de encontrar ocos de árvores, o uso abusivo de agrotóxicos, entre outros.

Ambiente É o Meio é uma produção da Rádio USP Ribeirão Preto em parceria com professores da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP e Programa USP Recicla da Superintendência de Gestão Ambiental (SGA) da USP.

Ouça acima, na íntegra, o programa Ambiente é o Meio.

Política de uso 
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.

As abelhas nativas e a importância de preservá-las

Radioagência USP - 05/12/2018

Bióloga conta que dedica seus estudos às abelhas há 12 anos e que pensa em alternativas para a sua preservação


O programa Ambiente é o Meio desta semana entrevista a bióloga Maria Juliana Ferreira Caliman. Juliana é graduada em Ciências Biológicas, mestre e doutora em Ciências pelo Laboratório de Entomologia do Departamento de Biologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP.

Juliana estuda as abelhas e diz que as nativas, chamadas também de solitárias, não oferecem produtos, mas são elas que fazem a polinização das plantações e de forma indireta têm um papel muito importante.

Para a bióloga, a preservação da biodiversidade é fundamental tanto para as abelhas solitárias quanto para as sociais. Juliana explica ainda a diferença entre elas. As abelhas solitárias são as espécies que não vivem em colônia com rainha e operárias, como, por exemplo, a mamangava, mangava, vespa-de-rodeio e vespão. Já as abelhas sociais são as que convivem em sociedade e polinizam diversas espécies de flora.

Juliana conta que as abelhas são os mais importantes polinizadores da natureza, responsáveis pela reprodução de 80% das matas, florestas e áreas verdes e de cerca de 70% da polinização de todas as culturas agrícolas. “O grande problema do aumento do CO2 é que as plantas produzidas têm um valor nutricional menor”, afirma.

Ambiente É o Meio é uma produção da Rádio USP Ribeirão Preto em parceria com professores da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP e Programa USP Recicla da Superintendência de Gestão Ambiental (SGA) da USP.

Ouça acima na íntegra o programa Ambiente é o Meio.
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Mistura de agrotóxicos encurta vida e altera comportamento de abelhas

23/04/2019

Associação entre inseticida e fungicida derruba em até 50% o tempo de vida destes insetos polinizadores
Estudo mostrou que dose não letal de inseticida clotianidina reduz em até 50% o tempo de vida dos insetos; uso associado com o fungicida piraclostrobin altera comportamento das operárias e pode comprometer a colmeia – Foto: Raul Santana/Fiocruz Imagens – CC by-nc

Um novo estudo realizado por biólogos brasileiros sugere que o efeito dos agrotóxicos sobre as abelhas pode ser maior do que se imagina. Mesmo quando usado em doses consideradas não letais, um inseticida encurtou o tempo de vida dos insetos em até 50%. Além disso, os pesquisadores observaram que uma substância fungicida considerada inofensiva para abelhas alterou o comportamento das operárias, tornando-as letárgicas – fato que pode comprometer o funcionamento de toda a colônia. Os resultados da pesquisa foram publicados na revista Scientific Reports, do grupo Nature.

O trabalho foi coordenado por Elaine Cristina Mathias da Silva Zacarin, professora na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), campus Sorocaba. Também participaram pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP. A investigação contou com apoio da Fapesp, da Capes e da Cooperativa dos Apicultores de Sorocaba e Região (Coapis).

É um fato conhecido que diversas espécies de abelhas estão desaparecendo em todo o mundo. Na Brasil, o fenômeno tem sido observado desde pelo menos 2005. E não estão desaparecendo apenas os indivíduos da espécie Apis mellifera, abelha de origem europeia e principal responsável pela produção comercial de mel. Nas matas brasileiras, há centenas de espécies selvagens possivelmente afetadas. O impacto econômico previsto é imenso, pois grande parte da agricultura depende do trabalho de polinização realizado por esses insetos. É o caso, por exemplo, de todas as frutas comestíveis.

A causa do sumiço repentino em massa também já é conhecida: a aplicação indevida e indiscriminada de defensivos agrícolas. “No Brasil, as monoculturas de soja, milho e cana dependem do uso intensivo de inseticidas. A contaminação das colônias de abelhas ocorre quando, por exemplo, os agricultores não respeitam uma margem de segurança mínima (são recomendados 250 metros) na aplicação de defensivos agrícolas entre as lavouras e as áreas florestais que as margeiam. Tem gente que aplica produtos químicos até o limite da floresta”, disse o professor Osmar Malaspina, da Unesp de Rio Claro.

“Na Europa e nos Estados Unidos, as colônias de abelhas morrem aos poucos. Desde a constatação inicial da morte das primeiras abelhas até a morte da colônia pode levar um mês ou até cinco meses. No Brasil não é assim. Aqui, as colmeias desaparecem em apenas 24 ou 48 horas. Não existe nenhuma doença capaz de matar uma colmeia inteira em 24 horas. Só inseticidas podem provocar isso”, contou o docente.
Uso associado de defensivos

Segundo Malaspina, testar em laboratório todos os mais de 600 tipos de ingredientes ativos em inseticidas, fungicidas, herbicidas e acaricidas usados no Brasil é impossível. Para contornar o problema, entre os anos de 2014 e 2017, foi realizado um estudo para identificar, dentre os 44 ingredientes ativos mais usados na agricultura paulista, quais poderiam estar relacionados à mortalidade das abelhas. Foram detectados oito ingredientes com ação comprovadamente letal para os apiários.

A equipe do projeto coletou material em 78 municípios paulistas. Trabalhando com os apicultores, os agricultores e a indústria de defensivos, os pesquisadores recomendaram uma série de ações para proteger apiários, como a observação de margens de mínima segurança na aplicação de agrotóxicos e de boas práticas agrícolas.

“Já descobrimos que um determinado tipo de fungicida, que quando aplicado de modo isolado no campo é inofensivo às colmeias, ao ser associado a um determinado inseticida se torna nocivo. Não chega a matar as abelhas como os inseticidas, mas altera o comportamento dos insetos, comprometendo a colônia”, disse Zacarin.

Os ingredientes ativos investigados foram a clotianidina, inseticida usado para controle de pragas nas culturas de algodão, feijão, milho e soja, e o fungicida piraclostrobina, aplicado nas folhas da maioria das culturas de grãos, frutas, legumes e vegetais.

Qualquer agrotóxico em grandes concentrações dizima colmeias quase imediatamente. Mas o que os pesquisadores estudam são os efeitos sutis e de médio a longo prazo sobre as colmeias, como as concentrações residuais encontradas no pólen das flores. “O que nos interessa é descobrir a ação residual dos agrotóxicos, mesmo em concentrações baixíssimas, sobre esses insetos”, disse Zacarin.
Mudança de comportamento

Os testes foram todos feitos in vitro, com insetos confinados dentro de laboratórios para não ocorrer contaminação ambiental. Nessas condições, larvas de Apis mellifera foram separadas em grupos diferentes e alimentadas entre o terceiro e o sexto dia de vida com uma dieta composta de açúcar e geleia real. O que variou foi o tipo de ingrediente tóxico presente no alimento, sempre em concentrações diminutas, na faixa de nanogramas (bilionésimos de grama).

A dieta do grupo controle não continha agrotóxico. No segundo grupo, a dieta foi contaminada com o inseticida clotianidina. No terceiro grupo, a contaminação foi por fungicida (piraclostrobina). E, no quarto grupo, havia uma associação do inseticida com o fungicida.

“Depois do sexto dia de vida, as larvas se tornam pupas e entram em metamorfose, de onde emergem como operárias adultas. No campo, uma abelha operária vive em média 45 dias. Em laboratório, confinada, vive menos. Mas os insetos alimentados com a dieta contaminada pelo inseticida clotianidina em baixíssima concentração apresentaram tempo de vida drasticamente menor, de até 50%”, disse Zacarin.

Já entre as larvas alimentadas com a dieta contaminada apenas pelo fungicida piraclostrobina não se observou nenhum efeito sobre o tempo de vida das operárias. Isso não significa que a substância seja inofensiva às abelhas. Nenhuma morreu na fase de larva e de pupa. Porém, verificou-se que, na fase adulta, as operárias sofreram modificação em seu comportamento. Elas se tornaram mais lentas do que os insetos do grupo controle – o que, no meio ambiente, poderia prejudicar o funcionamento de toda a colônia.

“As operárias jovens fazem inspeções diárias na colmeia, o que as leva a percorrer certa distância. Elas se movimentam bastante dentro da colônia. Verificamos que, no caso das abelhas contaminadas tanto pelo fungicida sozinho ou associado ao inseticida, a distância percorrida e a velocidade foram muito menores”, disse Zacarin.

Ainda não se sabe de que forma o fungicida age para comprometer o comportamento das abelhas. “Nossa hipótese é que a piraclostrobina, quando associada a um inseticida, diminuiria o metabolismo energético das abelhas. Novos estudos em andamento podem vir a elucidar esse mecanismo”, disse Zacarin.

Peter Moon /Agência Fapesp
Política de uso 
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.

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quinta-feira, 18 de abril de 2019

Abelhas no quintal

Texto:
Marcos Roberto Furlan - Professor UNITAU/FIC, Engenheiro Agrônomo
Nathalia Maia da Silva - Acadêmica de Engenharia Agronômica - UNITAU

Abelhas: ter ou não ter, eis a questão! 

Tiúbas, jataís, mirins, jandaíras, uruçus, iraís, mandaguaris, dentre outras centenas de espécies que estão entre nós para dizer sim, que é possível. Todas pertencem ao grupo das abelhas sem ferrão ou abelhas nativas. Muitas recebem nomes indígenas, pois eram conservadas e valorizadas por estes. Viviam principalmente em buracos ocos das árvores, porém, quando retiradas de seu ninho, para serem colocadas em uma nova "moradia", muitas não sobrevivem.

Com a devastação das florestas, muitas, incapazes de mudanças, não conseguiram sobreviver. Aos poucos, pesquisadores, apicultores e especialistas foram aprendendo a tornar as áreas urbanas também locais onde as abelhas sem ferrão pudessem sobreviver.

Em quintais, ainda pouco encontradas, essas abelhas proporcionam benefícios para as flores, das quais muitas não conseguem se reproduzir sem esse tipo de ajuda. Para as abelhas, que buscam no néctar o seu alimento, um quintal repleto de flores se torna um local de banquete para elas. Para o ser humano, as abelhas são fábricas de medicamento. 

O vínculo das abelhas com os quintais tem se estreitado com o passar dos anos, tanto que o conhecimento sobre as abelhas melíponas (meliponicultura) tem sido provocado e estimulado pelos apicultores, inclusive, sua criação caseira. 

Ter sua própria colmeia é uma realidade, contanto que saiba muito bem o que está fazendo. As abelhas podem contribuir com os quintais na hora da polinização, o que os deixará saudáveis, coloridos e felizes. E junto a isto, elas conseguem se alimentar e prover alimento para o seu lar:aquela colmeia feita por você, no seu quintal. 
Tetragonisca angustula 
Mandaçaia (Melipona quadrifasciata

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Manual de Boas Práticas Agrícolas

Download:

2015. 72p. Autor: Bruno Ferreira. Este manual é um guia para agricultores, educadores, gestores de áreas protegidas e de parques urbanos e para jardineiros, para ajudá-los a prover, aprimorar e manejar os ambientes agrícolas, naturais e urbanos para agentes polinizadores.

O propósito deste manual é oferecer ferramentas, informações e sugestões práticas para a conservação dos polinizadores e ajudar a mostrar ao público como suas ações podem afetar diretamente, de forma positiva ou negativa, os polinizadores.

terça-feira, 28 de março de 2017

Pesquisa confirma ação farmacológica da própolis orgânica brasileira

09/03/2017

Própolis produzida no Sul tem substâncias com ação anti-inflamatória, antioxidante, antibacteriana e até anticancerígena
As 78 amostras de própolis utilizadas na pesquisa foram coletadas em apiários no sul do Paraná e norte de Santa Catarina – Foto: Wikimedia Commons

Além do seu sabor suave e alto valor comercial, a própolis orgânica produzida no sul do País possui propriedades químicas com potencial farmacológico para várias doenças. As substâncias agem como anti-inflamatório, antioxidante, antibacteriano e até como anticancerígeno. Estas foram as conclusões de um estudo de pesquisadores da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP em Piracicaba, feito em apiários no sul do Paraná e norte de Santa Catarina.

A qualidade da própolis produzida pelas abelhas varia de acordo com a origem botânica. No Brasil, já foram classificadas pelo menos 13 variantes. Para serem consideradas orgânicas, as flores, brotos e cascas de onde são coletadas as substâncias devem respeitar a ordem natural de produção, sem adição de agrotóxicos ou pesticidas. As 78 amostras utilizadas na pesquisa foram obtidas em áreas de preservação permanente e zonas de reflorestamento, o que garantiu que a própolis estivesse livre de agentes poluidores, de pesticidas, fertilizantes e metais pesados, conforme avaliação de certificadoras nacionais e internacionais.
Abelha operária (Apis mellifera) coletando própolis verde de alecrim-do-campo (Baccharis dracunculifolia) – Foto: Michel Stórquio Belmiro via Wikimedia Commons

Em laboratório, as amostras foram agrupadas em sete perfis químicos. Segundo o engenheiro agrônomo Severino Matias Alencar, professor associado da Esalq e orientador de Ana Paula Tiveron, que coordenou a pesquisa, todas as variantes apresentaram “alto poder sequestrante contra espécies reativas de oxigênio” — substâncias químicas que, quando presentes em excesso no organismo, causam diversos problemas às células humanas, resultando no desenvolvimento de várias doenças como as neurodegenerativas, cânceres, anemia, isquemia, além de oxidação da LDL (o mau colesterol ).

A pesquisa demonstrou também a eficácia da própolis como anti-inflamatória e antibacteriana. O composto apresentou ação contra diversos tipos de micro-organismos: o Streptococcus mutans e S. sobrinus — agentes associados ao desenvolvimento da cárie; o Streptococcus oralis — que induz ao surgimento da placa bacteriana e à endocardite (doença infecciosa do coração); o S. aureus — que pode causar acne, furúnculos, celulite e doenças graves como meningite e pneumonias; e o Pseudomonas aeruginosa — patogênico oportunista associado às infecções hospitalares.
Severino Alencar, orientador da pesquisa. A novidade deste trabalho foi encontrar propriedades farmacológicas importantes também na própolis orgânica brasileira – Foto: Gerhard Waller/Esalq

De acordo com Alencar, diferentemente da própolis europeia, rica em flavonoides, a própolis brasileira é caracterizada pela presença de derivados de ácido cinâmico prenilado, que possui atividade sequestrante de radicais livres e significativa ação anti-inflamatória e antimicrobiana. A novidade deste trabalho foi encontrar propriedades farmacológicas importantes na própolis orgânica brasileira, que não só se destaca pela suavidade mas também por seu alto valor econômico.

Exportação

O Brasil é o segundo maior produtor mundial de própolis, exportando anualmente cerca de 160 toneladas, perdendo apenas para a China. O consumo de produtos orgânicos, além de fazer bem à saúde, incentiva produtores rurais a manterem boas práticas agrícolas para preservação ambiental, utilizando de forma responsável o solo, a água, o ar e demais recursos naturais.
Pesquisa investigou a eficácia anti-inflamatória e antibacteriana da própolis – Foto: Epukas via Wikimedia Commons

“O estudo também traz outros benefícios, como a garantia de patentes brasileiras com a geração de conhecimento em instituições nacionais”, lembra o engenheiro agrônomo. Há uma estimativa de que 44% das patentes mundiais com própolis tenham sido depositadas pelos japoneses, que importam cerca de 80% da própolis brasileira para consumo interno. Embora o Brasil seja um dos maiores produtores, possui um reduzido número de patentes concedidas em relação aos trabalhos publicados. A pesquisa feita na Esalq foi desenvolvida em parceria com pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade Federal de Alfenas (Unifal), MG.

Em novembro de 2016, o assunto Os benefícios farmacológicos da própolis orgânica produzida no sul do Brasil foi tema de um artigo publicado em revista científica internacional, a Plos One, da Public Library of Science, EUA. Assinaram o texto Ana Paula Tiveron, Severino Matias de Alencar e outros pesquisadores. Chemical Characterization and Antioxidant, antimicrobial, and anti-inflammatory activities of South Brasilian Organis Propolis.

Mais informações: e-mail smalencar@usp.br, com Severino Matias Alencar

Link:
http://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-agrarias/pesquisa-confirma-propriedades-farmacologicas-da-propolis-organica-brasileira/

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Mel de Abelha Jandaíra

Fonte: Slow Food Brasil - Terça-feira, 20 de Dezembro de 2016 


A Jandaíra é uma espécie de abelha endêmica do bioma Caatinga (que ocorre exclusivamente no Brasil), nas terras secas do semiárido, e distribui-se nos estados de Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe. Pertence à tribo dos Meliponini, grupo de abelhas presente apenas nas regiões tropicais e subtropicais, conhecidas popularmente como “abelhas sem ferrão”. A meliponicultura é a atividade de criar abelhas deste grupo, diferindo da apicultura que é a atividade de criação das abelhas Apis mellifera, popularmente conhecidas como “européias”, “italianas” ou “africanas”.

A meliponicultura é uma atividade intimamente ligada aos costumes tradicionais da região nordeste do Brasil. Na Caatinga, em especial no estado do Rio Grande do Norte, quem reina é a abelha jandaíra: “a rainha do Sertão”, espécie adaptada ao clima semiárido e produtora de um mel amplamente utilizado pelas comunidades que ali vivem para alimentação e na medicina popular. Jandaíra (jandiá-ira) significa em tupi “abelha do mel”.

Naquela terra semi-árida, a produção só é boa nos anos em que a chuva dá o ar de sua graça. Quando é assim, costuma ser colhido de março a junho, fruto da florada que passou no período de chuva, chamado de “inverno”, geralmente nos meses de janeiro, fevereiro e março. O resultado é um mel claro, de coloração âmbar claro ou até mesmo cristalino, fluido, ligeiramente ácido e com notas de ervas e especiarias.

Na natureza, as Jandaíras costumam formar suas colônias em cavidades de troncos de imburana (Commiphora leptophloeos), árvore típica da Caatinga. Para a produção de mel, são criadas em colmeias de madeira ou em cortiços, nome dado aos segmentos de troncos ocos cortados especificamente para a criação de abelhas.

O território do Mato Grande, região do município de Jandaíra, é um grande berço genético da abelha. A grande incidência de enxames tem registros que remontam a meados do século XIX, tempo em que os tropeiros ali pernoitavam, levando lenha e carvão para o litoral, de onde traziam o peixe de sal preso. No caminho, buscavam o excelente mel dos troncos ocos das Imburanas. Utilizavam o mel na própria alimentação ou, dependendo da quantidade explorada, obtinham um produto de grande valor na troca por outros alimentos.

Com o tempo, pequenos “arruados” foram se formando na beira das estradas tropeiras, dando origens a municípios como Jandaíra, oficialmente fundada em 1964. Lá o mel da abelha nativa ganhou fama e status de "medicinal" na cultura popular. O comércio do mel em Jandaíra sempre foi disputado. Mesmo em Natal, capital do estado, a referencia ao mel sempre foi feita com muita distinção: "mel de Jandaíra é coisa dos deuses"; "gripe e resfriado se cura com mel de Jandaíra"; "quem passa em Jandaíra tem que trazer mel", diziam os mais antigos, que costumavam consumi-lo com farinha de milho. Atualmente é conhecida como "a Cidade do Mel".

A principal ameaça à abelha Jandaíra é a destruição do seu habitat natural, a Caatinga. Estima-se que o único bioma considerado exclusivamente brasileiro mantém apenas metade de sua cobertura vegetal original. A destruição da Caatinga se deve, principalmente, a produção de lenha e carvão vegetal, destinados aos pólos industriais de gesso e cerâmica na região Nordeste e ao setor siderúrgico dos estados de Minas Gerais e Espírito Santo. O desmatamento é ainda mais preocupante se levada em conta a vulnerabilidade desse bioma às mudanças climáticas, sofrendo a Caatinga forte tendência à desertificação.

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sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Setenta e cinco porcento dos alimentos cultivados dependem de animais polinizadores sob risco de extinção

ONU Brasil

Setenta e cinco porcento dos alimentos cultivados dependem em alguma medida da polinização animal, fenômeno que mobiliza mais de 20 mil espécies de abelhas e também outros seres vivos, como moscas, borboletas, mariposas, vespas, besouros, pássaros e morcegos. Apesar do importante papel desempenhado por esses bichos, mais de 40% dos polinizadores vertebrados — e 16% dos vertebrados — estão sob risco de extinção global.
Abelha no vale do Kerio, no Quênia. Foto: FAO/Dino Martins

Setenta e cinco porcento dos alimentos cultivados dependem em alguma medida da polinização animal, fenômeno que mobiliza mais de 20 mil espécies de abelhas e também outros seres vivos, como moscas, borboletas, mariposas, vespas, besouros, pássaros e morcegos.

Apesar do importante papel desempenhado por esses bichos, mais de 40% dos polinizadores vertebrados — e 16% dos vertebrados — estão sob risco de extinção global.

Os números foram divulgados nesta semana (6) em encontro da 13ª Reunião da Conferência das Partes da Convenção da ONU sobre Biodiversidade — também conhecida como COP13 —, que acontece em Cancún até 17 de dezembro.

“Polinizadores afetam todos nós. A comida que comemos, como frutas e vegetais, nosso café e chocolate, todos dependem dos polinizadores. Contudo, polinizadores estão enfrentando muitos desafios, da agricultura intensiva e pesticidas às mudanças climáticas, que estão colocando muita pressão sobre eles”, explicou o professor da Universidade de Reading no Reino Unido, Simon Potts.

O especialista é um dos principais coordenadores do relatório sobre o tema produzido pela Plataforma Intergovernamental de Ciência e Política sobre Serviços de Biodiversidade e Ecossistemas (IPBES) e que foi discutido na terça-feira.

O valor anual das safras globais que precisam do “trabalho” dos polinizadores é estimado em 577 bilhões de dólares. Sem eles, culturas como as de café, cacau e maçã teriam sua produção drasticamente afetada. Reduções na oferta poderiam aumentar os preços para os consumidores, reduzindo os lucros de fornecedores. Potenciais perdas em dinheiro são calculadas em valores que variam de 160 bilhões a 191 bilhões.

“Serviços de polinização são um ‘insumo agrícola’ que assegura a produção das safras. Todos os fazendeiros, especialmente agricultores familiares e pequenos proprietários em todo o mundo, se beneficiam desses serviços”, ressaltou o diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), José Graziano da Silva.

O chefe da agência disse ainda que “aumentar a densidade e diversidade dos polinizadores tem um impacto positivo direto sobre a produção das safras, promovendo consequentemente a segurança alimentar e nutricional”.

Além de participar das cadeias produtivas criadas pelo homem — não apenas as de alimentos, mas também de remédios, fibras como algodão e linho e biocombustíveis —, os polinizadores são responsáveis ainda pela manutenção dos ciclos de vida de quase 90% das plantas silvestres florescentes.

O relatório da IPBES aponta algumas soluções que países podem adotar para proteger esses animais, como a rotação de culturas, o uso de saberes indígenas, a redução do uso de pesticidas, a promoção de práticas sustentáveis e a criação de habitats mais diversos para polinizadores nas paisagens urbanas e rurais.

Acesse a pesquisa aqui.

Da ONU Brasil, in EcoDebate, 14/12/2016

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Padronização agrícola ameaça animais polinizadores, alerta pesquisa internacional

Pesquisa divulgada, nesta terça-feira (9), na revista científica PeerJ, periódico que aborda estudos nas áreas de Biologia e Ciências Médicas, aponta ameaças e oportunidades para abelhas e demais espécies polinizadoras em agricultura, nos próximos 30 anos. A investigação, apoiada pela rede SuperB, financiada pela União Europeia, foi conduzida por um grupo internacional de 17 cientistas, pesquisadores de órgãos de governos e organizações não governamentais liderados pelo Prof. Mark Brown, da Royal Holloway University of London. O Prof. Breno Magalhães Freitas, do Departamento de Zootecnia da Universidade Federal do Ceará, foi o único representante brasileiro a participar do trabalho.

A reportagem foi publicada por Universidade Federal do Ceará – UFC, 09-08-2016.

Segundo os cientistas, a agricultura de larga escala pode ajudar ou eliminar os animais polinizadores. A partir da expansão desse modelo de cultivo, o desenvolvimento de novas classes de inseticidas e a descoberta de vírus emergentes, as abelhas e demais polinizadores estão enfrentando riscos ainda mais desafiadores. Em resposta, os pesquisadores alertam para a necessidade de políticas globais de prevenção pró-ativa, em vez de mitigação reativa, para assegurar o futuro dessas espécies vitais.

Ameaças e oportunidades

Para alcançar tais resultados, os pesquisadores usaram um método de “escaneamento do horizonte“, que identificou ameaças futuras – que exigem medidas preventivas – e oportunidades a serem aproveitadas, a fim de proteger as abelhas e demais insetos, como também aves, mamíferos e répteis que polinizam flores silvestres e cultivos agrícolas. “Cerca de 35% da produção agrícola mundial e 85% das plantas silvestres com flores dependem de polinizadores que enfrentam as mais diversas dificuldades para sobreviver e prosperar. Estamos adotando cada vez mais práticas que afetam essas espécies. Então, procuramos mitigar essas perdas, ao invés de impedi-las, em primeiro lugar. Esta é uma abordagem de trás para frente e bem cara para um problema que tem consequências muito reais para o nosso bem-estar”, explica o Prof. Brown.

De uma lista de 60 riscos e oportunidades identificadas para os polinizadores, a equipe selecionou seis questões de alta prioridade, como o controle corporativo da agricultura em escala global; a sulfoximina, uma nova classe de inseticidas sistêmicos; os novos vírus emergentes; o aumento da diversidade de espécies polinizadoras manejadas; os efeitos de eventos extremos no âmbito das mudanças climáticas; e, ainda, as reduções no uso de produtos químicos em ambientes não agrícolas.

A pesquisa destaca também a consolidação das indústrias agroalimentares como a maior ameaça para os polinizadores, com um pequeno número de empresas tendo um controle sem precedentes do solo. “Esta homogeneização de práticas agrícolas efetivamente implica que empresas estão usando sistemas de produção padronizados em paisagens que são muito diferentes, reduzindo significativamente a diversidade e número de polinizadores nativos”, alerta Sarina Jepsen, diretora de espécies ameaçadas e programas aquáticos, daSociedade Xerces, e coordenadora do grupo de especialistas em abelhas Bombus, da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

O Prof. Breno Magalhães Freitas, do Departamento de Zootecnia da UFC, destaca a importância de uma ação conjunta, nos âmbitos público e privado, na proteção aos polinizadores. “O estudo mostra claramente que temos duas opções: deixar as coisas continuarem como estão e ficarmos sempre reclamando e correndo atrás com medidas paliativas que geralmente não funcionam, ou chamarmos governos e as grandes corporações, como empresas da indústria agroalimentar e de pesticidas, para que assumam suas parcelas de responsabilidade e atuem em conjunto com os pesquisadores, ONGs e a sociedade em geral na implementação de medidas preventivas, para minimizar ou eliminar os possíveis problemas antes que aconteçam”, declara.

Referência:

Brown MJF, Dicks LV, Paxton RJ, Baldock KCR, Barron AB, Chauzat M, Freitas BM, Goulson D, Jepsen S, Kremen C, Li J, Neumann P, Pattemore DE, Potts SG, Schweiger O, Seymour CL, Stout JC. (2016) A horizon scan of future threats and opportunities for pollinators and pollination. PeerJ 4:e2249 https://doi.org/10.7717/peerj.2249

(EcoDebate, 15/08/2016) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.

[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Jardim Botânico do Rio inaugura projeto de criação de abelhas sem ferrão

Projeto do Jardim Botânico do Rio cria abelhas sem ferrão. Foto: Alexandre Machado/Jardim Botânico do Rio

Um projeto que tem por objetivo a preservação de abelhas sem ferrão começou a ser executado esta semana pelo Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Um espaço para a criação desse tipo de abelha está funcionando ao lado do Orquidário e é aberto ao público. A iniciativa do projeto chamado de Meliponário é do Laboratório de Fitossanidade da instituição.

A engenheira agrônoma Maria Lucia Teixeira Moscatelli, responsável pelo laboratório, disse que o projeto vai atuar na preservação e no incremento da população de abelhas sem ferrão. “Esta ação é importante diante da condição de ameaça de extinção dessa espécie de abelha e de seu papel na reprodução e perpetuação de muitas espécies de plantas nativas e manutenção da biodiversidade”.

De acordo com ela, o projeto vai “informar o público sobre a existência e o papel das abelhas sem ferrão, visando conscientizar e até mesmo estimular a criação desses animais”, afirmou à Agência Brasil.

“Nas florestas brasileiras, as abelhas sem ferrão são os principais agentes de transporte de pólen e fecundação para grande parte das árvores. Elas viabilizam a reprodução através da polinização cruzada, aumentando também a produtividade das plantas cultivadas e, consequentemente, a produção de frutos e sementes”, ressaltou a pesquisadora.

Segundo Maria Lucia, a extinção de espécies de abelhas nativas implica na extinção de espécies vegetais e no desequilíbrio dos ecossistemas. “As abelhas sem ferrão produzem ainda própolis, cera e mel, podendo sua criação gerar recursos e servir como excelente instrumento de preservação ambiental”, acrescentou.

Patrocinado pela empresa global Brasil Kirin, o Projeto de Meliponário foi iniciado em 2010 e contabiliza atualmente 21 colmeias de abelhas sem ferrão das espécies: Jataí, Mandaçaia, Mirim, Iraí e Guaraipo, todas com ocorrência natural no estado do Rio de Janeiro, disse Maria Lúcia. Até o momento, os pesquisadores identificaram 13 espécies dessas abelhas no Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

Levantamento feito pelo Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP), publicado na Revista Biota Neotrop, de 2008, mostrou que o estado do Rio de Janeiro aparece entre os mais ricos em termos da presença dessas abelhas na Mata Atlântica, com cerca de 20 espécies.

Em todo o Brasil, existem mais de 300 espécies de abelhas sem ferrão. A pesquisadora estima, entretanto, que cerca de 100 delas estão seriamente ameaçadas de extinção, não só devido à poluição atmosférica e das águas, mas também à quebra da cadeia ecológica, ao desmatamento, ou mesmo à destruição dos ninhos para retirar o mel medicinal, que apresenta “sabor e doçura inigualáveis”.

“Foi pensando na preservação destas colmeias que já existem no arboreto, no estímulo à população dessas espécies e no despertar do interesse do público sobre o universo dessas grandes polinizadoras que o Jardim Botânico inaugura mais este espaço de conhecimento para o visitante”, afirmou Maria Lúcia.

Por Alana Gandra, da Agência Brasil, in EcoDebate, 16/05/2016

quinta-feira, 12 de maio de 2016

A produtividade agrícola está intimamente relacionada ao trabalho realizado pelos agentes polinizadores

Abelhas ajudam a aumentar a produtividade agrícola

Por Débora Motta, FAPERJ
Abelhas Exomalopsis auropilosa, importantes polinizadoras do tomateiro no Norte Fluminense (Fotos: Divulgação)

A produtividade agrícola está intimamente relacionada ao trabalho realizado pelos agentes polinizadores, como as abelhas e outros insetos. Essa é a conclusão de uma ampla pesquisa, realizada simultaneamente em diversos países, principalmente da América Latina, África e Ásia, e que contou com a participação da professora Maria Cristina Gaglianone, do Centro de Biociências e Biotecnologia da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), sediada no município de Campos dos Goytacazes. O trabalho ganhou repercussão internacional com a publicação de artigo na renomada revista científica Science, publicada pela Associação Americana para o Avanço da Ciência. Confira a íntegra do artigo:http://science.sciencemag.org/content/351/6271/388

Participaram do estudo pesquisadores de 18 universidades e centros de pesquisa do Brasil, Argentina, Colômbia, Portugal, Holanda, França, Itália, Alemanha, Noruega, China, Nepal, Índia, Indonésia (Java), Zimbábue, Paquistão, Quênia, Gana e África do Sul. Essa grande equipe multidisciplinar concluiu, após um trabalho de campo de dois anos, que conservar a biodiversidade ao redor das pequenas propriedades – ou mesmo dos latifúndios – é muito importante não apenas para o meio ambiente, mas também para ampliar a produtividade agrícola e gerar benefícios econômicos. Afinal, a relação entre a polinização e a produção de alimentos, cada vez mais necessária para atender à crescente demanda de consumo em escala global, é bem estreita.

Voando de flor em flor, as abelhas nativas – que no Brasil são representadas por cerca de 1.500 espécies, além da espécie Apis mellifera, produtora de mel e de origem europeia – são os principais agentes polinizadores da natureza. A polinização acontece quando as abelhas, ou outros insetos, transportam sem querer grãos de pólen masculinos para as partes femininas das flores. Isso permite que, no interior das flores, ocorra a fertilização dos óvulos, que se tornarão sementes e desenvolverão frutos.

No entanto, com o desmatamento de matas nativas para ceder espaço a atividades como o cultivo agrícola e a pecuária, observa-se uma diminuição na diversidade de abelhas e de outros insetos e, consequentemente, de seu papel polinizador. “No estudo, vimos uma relação direta entre a riqueza de polinizadores, e não apenas a sua quantidade, e a produtividade agrícola”, destaca a bióloga Maria Cristina, que obteve os títulos de mestrado e doutorado em entomologia – a ciência que estuda os insetos sob todos os seus aspectos e relações com o homem, as plantas, os animais e o meio ambiente –, pela Universidade de São Paulo (USP).

Cada grupo de pesquisadores trabalhou com um dos 33 diferentes cultivos agrícolas, em pequenas ou grandes propriedades. Vale lembrar que cerca de dois bilhões de pessoas ao redor do mundo dependem dos alimentos cultivados em pequenas áreas, muitas vezes para subsistência. “Pela Uenf, pesquisamos o cultivo do tomate em pequenas propriedades de até dois hectares, em São José de Ubá, município do Norte Fluminense. Outros grupos de pesquisa no Brasil estudaram os efeitos dos polinizadores no cultivo da maçã, do algodão, da canola, do café e do caju. Nosso objetivo era avaliar em que medida essas plantas podem ter de aumento na produção de frutos com a ação dos polinizadores”, explica a bióloga. “Observamos na média total que as abelhas e outros polinizadores aumentaram em 24% a produtividade dessas plantas nas pequenas propriedades estudadas, nos diferentes países”, destaca.
Maria Cristina Gaglianone (em pé, a 3ª a partir da dir.) reúne seus alunos na Uenf para foto: estudo destaca a importância da preservação ambiental

O principal elemento apresentado pelo artigo, que tem como primeiro autor o pesquisador argentino Lucas Garibaldi, é a realização desses testes em nível global, comprovando o benefício da diversidade dos polinizadores para a produtividade agrícola. “Não é só uma questão observada isoladamente no cultivo do tomate, da canola ou do girassol. Podemos falar em um padrão global”, pondera Maria Cristina. O cálculo da produtividade foi realizado de acordo com a área das propriedades, ou seja, pela média de frutos produzidos em cada hectare nos diferentes países investigados.

Apesar da escolha das pequenas propriedades para a realização dos testes, a necessidade de preservar os agentes polinizadores também se estende às grandes propriedades. “A princípio, podia-se pensar que aumentar o número de polinizadores em grandes propriedades rurais seria indiferente, porque a área de plantio é muito grande. Mas esse trabalho mostra que os latifúndios também podem ter produtividade maior com a presença de maior número de espécies de polinizadores. Então, se preocupar com a conservação da mata, mantendo reservas próximas às áreas de plantio, e reduzindo o uso de agrotóxicos é muito importante para o agronegócio. Temos que repensar modelos agrícolas para favorecer a diversidade ecológica de polinizadores pela própria necessidade de sobrevivência humana. Estamos falando dos cultivos que são nossos alimentos”, lembra.

O projeto contou com financiamento do Fundo Mundial para o Meio Ambiente (GEF/FAO) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e integra-se ao Projeto Polinizadores do Brasil, do Ministério do Meio Ambiente (MMA). A FAPERJ já apoiou pesquisas anteriores realizadas por Maria Cristina, sobre a importância dos agentes polinizadores em regiões de restinga estaduais e em áreas de cultivo, contempladas pelo edital Pensa Rio e com o Auxílio Básico à Pesquisa (APQ 1). “A publicação do artigo na Science foi um esforço coletivo, de um grupo com muitos pesquisadores, mas é resultado de um longo trabalho que venho desenvolvendo ao longo dos anos, que também tem sido apoiada pela FAPERJ”, diz.

Entre as instituições brasileiras, além da Uenf, participaram da publicação o Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro (IJBRJ), com o pesquisador Leandro Freitas, e outras dez instituições: a Universidade de Brasília (UnB), a Universidade de São Paulo (USP), as universidades federais da Bahia, do Ceará, de Sergipe; a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS); a Empresa Brasileira de Agropecuária (Embrapa Semiárido, em Petrolina, e a Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, em Brasília); o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema), na Bahia, e o Centro de Pesquisa Emílio Schenk, da Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária (Fepagro – Vale do Taquari).

in EcoDebate, 10/05/2016

quarta-feira, 2 de março de 2016

Relatório da IPBES alerta para as consequências da extinção de polinizadores

Por Karina Toledo, Agência FAPESP
Em todo o mundo, 90% das espécies de plantas silvestres e 35% das lavouras dependem, em algum grau, do serviço de polinização de vertebrados e invertebrados

Um número crescente de espécies de animais polinizadores está ameaçado de extinção em todo o mundo em decorrência de fatores como mudança no uso da terra, uso indiscriminado de pesticidas e alterações climáticas.

Caso não sejam adotadas medidas para reverter o quadro, as consequências para a economia global, a produção de alimentos, o equilíbrio dos ecossistemas e a saúde e o bem-estar humanos poderão ser desastrosas.

O alerta foi feito por especialistas da Plataforma Intergovernamental de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) no relatório “Polinização, polinizadores e produção de alimentos”, divulgado hoje durante a 4ª Sessão Plenária da IPBES, em Kuala Lumpur, na Malásia.

O processo de elaboração do documento foi coordenado ao longo dos últimos dois anos pelo britânico Simon G. Potts, professor da Universidade de Readings, no Reino Unido, e pela brasileira Vera Lucia Imperatriz Fonseca, professora sênior do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP) e membro do Programa FAPESP de Pesquisas em Caracterização, Conservação, Restauração e Uso Sustentável da Biodiversidade (BIOTA).

“Cerca de 90% das espécies de plantas silvestres dependem, pelo menos em parte, da transferência de pólen feita por animais. Essas plantas são críticas para o funcionamento dos ecossistemas, pois fornecem comida e outros recursos essenciais para uma enorme gama de espécies”, destacou Fonseca.

Segundo Adam J. Vanbergen, pesquisador do Centro de Ecologia e Hidrologia do Reino Unido e coautor do documento, a boa notícia é que há uma série de passos que podem ser seguidos para reduzir o risco aos polinizadores e, por extensão, à saúde das populações humanas em todo o mundo. “O principal deles é buscar uma agricultura mais sustentável, o que envolve a diversificação das paisagens agrícolas e redução do uso de pesticidas”, afirmou em entrevista à Agência FAPESP.

O relatório é o primeiro de uma série de diagnósticos sobre o status da biodiversidade no planeta previstos para serem divulgados pelo IPBES até 2019. A entidade internacional foi criada em 2012 com a função de sistematizar o conhecimento científico acumulado sobre o tema, de modo a subsidiar decisões políticas em âmbito internacional. Atualmente, a plataforma conta com representantes de 124 países-membros da Organização das Nações Unidas (ONU). Paralelamente ao relatório temático, o grupo divulgou um sumário dos principais achados direcionado aos formuladores de políticas públicas.

Pontos de destaque

Mais de três quartos das principais lavouras alimentícias no mundo dependem, em algum grau, dos serviços de polinização animal, seja para garantir o volume ou a qualidade da produção. Algumas dessas espécies vegetais são cruciais para garantir o aporte de vitaminas, minerais e outros micronutrientes essenciais para a saúde humana.

“Entre as espécies cultivadas no Brasil que dependem ou são beneficiadas pela polinização animal podemos destacar açaí, maracujá, maçã, manga, abacate, acerola, tomate e muitas outras frutas, além da castanha-do-pará, do cacau e do café. Soja e canola também produzem mais na presença de polinizadores”, contou Fonseca.

Segundo o relatório, ao todo, 35% das lavouras mundiais dependem de polinização animal. Além das espécies usadas na alimentação humana, há outras importantes para a produção de bioenergia (canola e palma), fibras naturais (algodão e linho), remédios, entre outros elementos que beneficiam as populações.

Estima-se que, atualmente, entre 5% e 8% da produção agrícola global esteja diretamente ligada à polinização animal, o que corresponde a um mercado que varia entre US$ 235 bilhões e US$ 577 bilhões. No Brasil, a riqueza gerada com auxílio dos polinizadores foi estimada em torno de US$ 12 bilhões.

A maioria dos animais polinizadores é silvestre, incluindo mais de 20 mil espécies de abelhas, além de algumas de moscas, borboletas, mariposas, vespas, besouros, trips (insetos da ordem Thysanoptera), pássaros, morcegos e outros vertebrados, como lagartos e pequenos mamíferos.

Entre as espécies que podem ser manejadas pelos agricultores destaca-se a Apis mellifera, conhecida no Brasil como abelha africanizada. Também são bastante empregadas espécies de abelhas sem ferrão, mamangavas e abelhas solitárias (estas não vivem em colônias).

A importância de espécies silvestres e manejadas para a agricultura varia de acordo com o local, sendo que o ideal para a produção agrícola é a combinação entre esses dois tipos de polinizadores.

“Se nos fiamos em apenas uma única espécie polinizadora corremos o risco de essa população se tornar vulnerável a fatores como doenças ou espécies invasoras. Uma estratégia melhor seria empregar polinizadores manejáveis e, ao mesmo tempo, promover condições para a sobrevivência de polinizadores silvestres, como, por exemplo, manter uma área verde ao redor das lavouras na qual existam flores que sirvam de alimento e abrigo para esses animais”, comentou Vanbergen.

Segundo dados da International Union for Conservation of Nature (IUCN), 16,5% das espécies de polinizadores vertebrados estão na chamada “Lista Vermelha”, ou seja, correm risco de extinção global. Embora no caso dos insetos não exista uma Lista Vermelha, avaliações feitas em nível regional e nacional indicam alto nível de ameaça para algumas espécies de abelhas e borboletas – frequentemente, estudos locais indicam que mais de 40% dos invertebrados estão ameaçados.

Na Europa, por exemplo, 9% das espécies de abelhas e borboletas estão ameaçadas. Declínio populacional foi observado para 37% das espécies de abelhas e 31% das borboletas. Segundo Fonseca, no Brasil, há cinco espécies de abelhas em risco de extinção, mas listas regionais podem apresentar um número maior de espécies. “Faltam dados para determinar o número exato de espécies ameaçadas no país. O que sabemos é que as abelhas em geral são muito menos abundantes hoje do que foram no passado”, afirmou.

Principais ameaças e soluções

As atividades humanas estão relacionadas aos principais fatores de risco à sobrevivência dos polinizadores. Entre eles destacam-se as mudanças no uso da terra (quando, por exemplo, uma área florestal é desmatada para dar lugar a pasto, plantações ou área urbana), que na maioria das vezes resulta em fragmentação ou degradação de habitats. Também são citados a agricultura intensiva (monocultura), uso de pesticidas, poluição ambiental, espécies invasoras, patógenos e mudanças climáticas.

Segundo Fonseca, o relatório analisou os dados existentes sobre pesticidas à base de neonicotinoides e os efeitos letais e subletais que produzem nas abelhas. A maioria dos estudos trata de respostas a testes de laboratórios.

“Recentemente, um grande estudo comparativo em campo foi feito na Suécia e demonstrou, pela primeira vez, o efeito negativo sobre os polinizadores silvestres. No entanto, o estudo não confirmou o mesmo impacto sobre as colônias de Apis mellifera da região. Nas prioridades de pesquisas a serem desenvolvidas no Brasil, com relação a ameaças aos polinizadores, este tópico deverá ser contemplado, assim como um levantamento sobre o status de saúde de nossos polinizadores”, comentou a pesquisadora.

O impacto do cultivo de transgênicos, segundo o documento, precisa ser melhor estudado. “Potencialmente, pode haver benefícios, pois plantas transgênicas resistentes a pragas evitariam o uso de agrotóxicos. Mas também pode haver malefícios, pois algumas borboletas polinizadoras são geneticamente muito próximas de espécies consideradas pragas às quais certas plantas transgênicas foram desenvolvidas para matar. Poderiam, portanto, ser afetadas. Há também questões como a possibilidade de escape dos genes introduzidos para populações silvestres de plantas aparentadas geneticamente com a cultura cujas consequências não foram ainda avaliadas”, explicou Breno M. Freitas, professor da Universidade Federal do Ceará e um dos cinco brasileiros que integraram a equipe responsável pelo relatório.

Algumas medidas a serem adotadas na direção de uma agricultura mais sustentável, de acordo com o documento, incluem proteção e restauração de manchas de habitat natural e seminatural em meio à paisagem agrícola; diminuição da exposição dos animais a pesticidas, buscando formas alternativas de controle de praga e novas tecnologias; aprimoramento da criação de polinizadores manejáveis, aumentando sua resistência a patógenos e regulando o comércio e o uso desses animais.

Primeiro do gênero

A elaboração do relatório contou com a colaboração de 77 especialistas, de diversos países, indicados pelos respectivos governos e selecionados pela IPBES com base no perfil científico. Mais de 3 mil artigos científicos publicados em revistas indexadas foram revisados pelo grupo, que também fez uso de outros tipos de documentos, como relatórios governamentais, recursos disponíveis na Internet e conhecimentos locais e indígenas.

“Pela primeira vez, reunimos em um documento as evidências científicas e o conhecimento indígena, bem como as ciências sociais e as ciências biológicas. Tentamos colocar sobre a mesa tudo que é importante saber sobre polinização, polinizadores e produção de alimentos. Países desenvolvidos e em desenvolvimento apresentaram suas perspectivas e contribuíram igualmente para a construção deste relatório”, avaliou Fonseca.

“Participaram desta reunião (4ª Plenária) os representantes dos países-membros da IPBES. Eles agora vão voltar para suas nações e reportar os dados do relatório aos seus respectivos governos. Há boa vontade entre os governos aqui reunidos e sinto que levarão consigo estes achados para tentar implementar soluções”, disse Vanbergen.

“É uma grande emoção ver este diagnóstico aprovado pelos 124 países que constituem a IPBES, não só pelo novo paradigma de qualidade que este trabalho estabelece em relação a diagnósticos globais de biodiversidade e serviços ecossistêmicos, mas também por ter participado ativamente do planejamento, estruturação e definição do escopo deste documento na 2ª Sessão Plenária da IPBES realizada em Antalya, na Turquia, em dezembro de 2013”, afirmou Carlos Alfredo Joly, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), co-chair do Painel Multidisciplinar de Especialistas (MEP, na sigla em inglês) daIPBES e coordenador do Programa BIOTA/FAPESP.

“É a experiência do BIOTA/FAPESP sendo usada em nível global, tanto do ponto de vista do conhecimento científico, com a enorme contribuição da professora Vera Imperatriz Fonseca, como do ponto de vista da interface ciência-política”, acrescentou Joly.

Para Blandina Felipe Viana, professora da Universidade Federal da Bahia e coautora do documento, a experiência foi muito positiva e enriquecedora para todos os participantes. “Os encontros possibilitaram trocas de experiências e estabelecimento de novas parcerias. O Brasil além de ter contribuído com a expertise da sua capacidade instalada, forneceu importantes evidências sobre o papel dos polinizadores na agricultura e opções para uso e conservação desses animais”, contou.

Na avaliação de Freitas, a principal mensagem é que os polinizadores são fundamentais para a alimentação e qualidade de vida humana, bem como para a manutenção da biodiversidade do planeta. “Devemos urgentemente desenvolver políticas públicas que assegurem a conservação e o uso sustentável desses animais.”

in EcoDebate, 01/03/2016

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Insetos elevam produtividade agrícola

Fonte: CARLOS FIORAVANTI - Pesquisa Fapesp - Segunda-feira, 25 de Janeiro de 2016 


Estudo em 12 países indica que abelhas e outros polinizadores respondem por 24% do ganho em pequenas propriedades

Embora estejam mais escassos no campo, por causa da redução da área das matas e do uso intensivo de fertilizantes químicos, as abelhas e outros insetos polinizadores respondem em média por 24% do ganho em produtividade agrícola em pequenas propriedades rurais (até 2 hectares). Os outros 76% estão associados à irrigação e a nutrientes e técnicas de cultivo, de acordo com estudo publicado na revistaScience no dia 22 de janeiro. Segundo esse trabalho, quanto maior o número de polinizadores, maior tende a ser a produtividade agrícola, principalmente nas pequenas propriedades.

A pesquisa foi financiada pelo Fundo Mundial para o Meio Ambiente (GEF) da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), integra-se aoProjeto Polinizadores do Brasil, do Ministério do Meio Ambiente e foi coordenado por Lucas Garibaldi, da Universidade Nacional de Rio Negro e diretor do Instituto de Investigaciones en Recursos Naturales, Agroecología y Desarrollo Rural, da Argentina, com a participação de 35 pesquisadores de 18 países, incluindo o Brasil, por meio de 12 instituições de pesquisa de oito estados.

Estudos anteriores já haviam ressaltado a importância dos polinizadores para a agricultura (ver Pesquisa FAPESP nº 171) e fornecido uma estimativa dos ganhos de produtividade com polinização por abelhas, equivalente a 10% do valor da produção agrícola mundial (ver Pesquisa FAPESP nº 218). Não existiam, no entanto, análises numéricas tão detalhadas sobre os benefícios econômicos dos polinizadores auferidas pelos mesmos critérios em escala mundial.

Nesse trabalho, os pesquisadores analisaram o número de polinizadores, a biodiversidade e o rendimento de 33 cultivos dependentes de polinizadores (maçã, pepino, caju, café, feijão, algodão e canola, entre outras) em 334 propriedades pequenas e grandes da África, Ásia e América do Sul durante cinco anos (2010-2014), por meio de métodos padronizados e uniformes. Nos 12 países analisados, o rendimento agrícola cresceu de acordo com a densidade de polinizadores, indicando que, inversamente, populações reduzidas de abelhas e outros insetos poderia ser parcialmente responsável pela queda de produtividade.

“Demonstramos o potencial do aumento da densidade de polinizadores como forma de aumentar a produtividade agrícola”, disse Antonio Mauro Saraiva, coordenador do Núcleo de Pesquisa em Biodiversidade e Computação (Biocomp) e professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), que participou do trabalho de organização, registro e análise dos bancos de dados. “Nesse trabalho testamos duas hipóteses, o efeito do aumento da densidade de polinizadores e da riqueza de espécies”, disse ele. Para as pequenas propriedades, o ganho de produtividade dependeu da quantidade de polinizadores e não esteve ligado à diversidade desses animais na propriedade. Para as grandes fazendas, em contrapartida, a única forma de se tornarem mais produtivas seria aumentar tanto a quantidade de polinizadores quanto a diversidade de plantas e animais na área cultivada.

“O que mais contribuiu para a diferença entre as taxas de produção mais altas e mais baixas foi o aumento na densidade de polinizadores”, disse Leandro Freitas, pesquisador do Jardim Botânico do Rio de Janeiro e um dos autores do trabalho. “O incremento no uso de técnicas convencionais de intensificação agrícola, como o uso de fertilizantes sintéticos e monoculturas, apresentou uma contribuição equivalente à dos polinizadores.”

Freitas examinou o cultivo de tomates no norte do estado do Rio de Janeiro com a equipe de Maria Cristina Gaglianone, da Universidade Estadual do Norte Fluminense. “O grau de informação técnica dos produtores era muito baixo”, ele observou. “Muitos não sabiam que a visitação das flores por abelhas estava relacionada à produção dos tomates.” Um estudo recente da equipe de Breno Freitas, professor da Universidade Federal do Ceará e também coautor do estudo da Science, indicou que a soja, como o tomate e outros cultivos, não depende de polinizadores, mas pode aumentar sua produtividade com eles.

Garibaldi, o coordenador do trabalho, percorreu as plantações de framboesa da Patagônia e observou: “A visão dos agricultores tem mudado nos últimos anos, mas ainda não dão muita importância aos polinizadores. A prioridade é o retorno econômico de curto prazo, sem uma visão de longo prazo.” Ele ressaltou: “Existem alternativas ao modelo mais adotado de produção agrícola, com base em monocultura e fertilizantes”.

Os autores do artigo da Science ressaltam o conceito de intensificação ecológica, que consiste em adotar medidas de promoção da biodiversidade capazes de aumentar a produtividade agrícola, sem abandonar as práticas convencionais. Essas medidas podem oferecer condições de vida mais amigáveis aos polinizadores, como o plantio de plantas com flores em faixas dos terrenos ou à margem das estradas, a construção de cercas-vivas, a redução do uso de pesticidas e a recuperação das matas nativas próximas aos cultivos. Em um artigo de 2014 na Frontiers in Ecology and the Environment, Garibaldi e sua equipe detalham as possibilidades de implantar essas e outras medidas para ampliar a densidade de polinizadores nas propriedades rurais.

“O próximo passo é implementar essas práticas agroecológicas”, disse Garibaldi. “Aproveitamos todas as oportunidades para apresentar essas possibilidades, para escutar e aprender.” A próxima oportunidade será na quarta reunião da Plataforma Internacional para Biodiversidade e Serviços Ambientais (IPBES), um órgão intergovenamenal criado em 2012 e aberto a todos os países membros das Nações Unidas, marcada para os dias 22 a 28 de fevereiro em Kuala Lumpur, Malásia.

Artigos

GARIBALDI, L. A. ?et al. Mutually beneficial pollinator diversity and crop yield outcomes in small and large farms. Science, v. 351, n. 6271, 22 jan. 2016, p. 388-391.

GARIBALDI, L. et al. From research to action: enhancing crop yield through wild pollinators. Frontiers in Ecology and the Environment, v. 12, n. 8, p. 439–447, 2014.

MILFONT, M. de O et al. Higher soybean production using honeybee and wild pollinators, a sustainable alternative to pesticides and autopollination.Environmental Chemistry Letters, v. 11, n. 4, p. 335-341, 2013.

Link:

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Insetos elevam produtividade agrícola

Fonte: CARLOS FIORAVANTI - Pesquisa Fapesp - Segunda-feira, 25 de Janeiro de 2016 


Estudo em 12 países indica que abelhas e outros polinizadores respondem por 24% do ganho em pequenas propriedades

Embora estejam mais escassos no campo, por causa da redução da área das matas e do uso intensivo de fertilizantes químicos, as abelhas e outros insetos polinizadores respondem em média por 24% do ganho em produtividade agrícola em pequenas propriedades rurais (até 2 hectares). Os outros 76% estão associados à irrigação e a nutrientes e técnicas de cultivo, de acordo com estudo publicado na revistaScience no dia 22 de janeiro. Segundo esse trabalho, quanto maior o número de polinizadores, maior tende a ser a produtividade agrícola, principalmente nas pequenas propriedades.

A pesquisa foi financiada pelo Fundo Mundial para o Meio Ambiente (GEF) da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), integra-se ao Projeto Polinizadores do Brasil, do Ministério do Meio Ambiente e foi coordenado por Lucas Garibaldi, da Universidade Nacional de Rio Negro e diretor do Instituto de Investigaciones en Recursos Naturales, Agroecología y Desarrollo Rural, da Argentina, com a participação de 35 pesquisadores de 18 países, incluindo o Brasil, por meio de 12 instituições de pesquisa de oito estados.

Estudos anteriores já haviam ressaltado a importância dos polinizadores para a agricultura (ver Pesquisa FAPESP nº 171) e fornecido uma estimativa dos ganhos de produtividade com polinização por abelhas, equivalente a 10% do valor da produção agrícola mundial (ver Pesquisa FAPESP nº 218). Não existiam, no entanto, análises numéricas tão detalhadas sobre os benefícios econômicos dos polinizadores auferidas pelos mesmos critérios em escala mundial.

Nesse trabalho, os pesquisadores analisaram o número de polinizadores, a biodiversidade e o rendimento de 33 cultivos dependentes de polinizadores (maçã, pepino, caju, café, feijão, algodão e canola, entre outras) em 334 propriedades pequenas e grandes da África, Ásia e América do Sul durante cinco anos (2010-2014), por meio de métodos padronizados e uniformes. Nos 12 países analisados, o rendimento agrícola cresceu de acordo com a densidade de polinizadores, indicando que, inversamente, populações reduzidas de abelhas e outros insetos poderia ser parcialmente responsável pela queda de produtividade.

“Demonstramos o potencial do aumento da densidade de polinizadores como forma de aumentar a produtividade agrícola”, disse Antonio Mauro Saraiva, coordenador do Núcleo de Pesquisa em Biodiversidade e Computação (Biocomp) e professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), que participou do trabalho de organização, registro e análise dos bancos de dados. “Nesse trabalho testamos duas hipóteses, o efeito do aumento da densidade de polinizadores e da riqueza de espécies”, disse ele. Para as pequenas propriedades, o ganho de produtividade dependeu da quantidade de polinizadores e não esteve ligado à diversidade desses animais na propriedade. Para as grandes fazendas, em contrapartida, a única forma de se tornarem mais produtivas seria aumentar tanto a quantidade de polinizadores quanto a diversidade de plantas e animais na área cultivada.

“O que mais contribuiu para a diferença entre as taxas de produção mais altas e mais baixas foi o aumento na densidade de polinizadores”, disse Leandro Freitas, pesquisador do Jardim Botânico do Rio de Janeiro e um dos autores do trabalho. “O incremento no uso de técnicas convencionais de intensificação agrícola, como o uso de fertilizantes sintéticos e monoculturas, apresentou uma contribuição equivalente à dos polinizadores.”

Freitas examinou o cultivo de tomates no norte do estado do Rio de Janeiro com a equipe de Maria Cristina Gaglianone, da Universidade Estadual do Norte Fluminense. “O grau de informação técnica dos produtores era muito baixo”, ele observou. “Muitos não sabiam que a visitação das flores por abelhas estava relacionada à produção dos tomates.” Um estudo recente da equipe de Breno Freitas, professor da Universidade Federal do Ceará e também coautor do estudo da Science, indicou que a soja, como o tomate e outros cultivos, não depende de polinizadores, mas pode aumentar sua produtividade com eles.

Garibaldi, o coordenador do trabalho, percorreu as plantações de framboesa da Patagônia e observou: “A visão dos agricultores tem mudado nos últimos anos, mas ainda não dão muita importância aos polinizadores. A prioridade é o retorno econômico de curto prazo, sem uma visão de longo prazo.” Ele ressaltou: “Existem alternativas ao modelo mais adotado de produção agrícola, com base em monocultura e fertilizantes”.

Os autores do artigo da Science ressaltam o conceito de intensificação ecológica, que consiste em adotar medidas de promoção da biodiversidade capazes de aumentar a produtividade agrícola, sem abandonar as práticas convencionais. Essas medidas podem oferecer condições de vida mais amigáveis aos polinizadores, como o plantio de plantas com flores em faixas dos terrenos ou à margem das estradas, a construção de cercas-vivas, a redução do uso de pesticidas e a recuperação das matas nativas próximas aos cultivos. Em um artigo de 2014 na Frontiers in Ecology and the Environment, Garibaldi e sua equipe detalham as possibilidades de implantar essas e outras medidas para ampliar a densidade de polinizadores nas propriedades rurais.

“O próximo passo é implementar essas práticas agroecológicas”, disse Garibaldi. “Aproveitamos todas as oportunidades para apresentar essas possibilidades, para escutar e aprender.” A próxima oportunidade será na quarta reunião da Plataforma Internacional para Biodiversidade e Serviços Ambientais (IPBES), um órgão intergovenamenal criado em 2012 e aberto a todos os países membros das Nações Unidas, marcada para os dias 22 a 28 de fevereiro em Kuala Lumpur, Malásia.

Artigos
GARIBALDI, L. A. ?et al. Mutually beneficial pollinator diversity and crop yield outcomes in small and large farms. Science, v. 351, n. 6271, 22 jan. 2016, p. 388-391.
GARIBALDI, L. et al. From research to action: enhancing crop yield through wild pollinators. Frontiers in Ecology and the Environment, v. 12, n. 8, p. 439–447, 2014.
MILFONT, M. de O et al. Higher soybean production using honeybee and wild pollinators, a sustainable alternative to pesticides and autopollination.Environmental Chemistry Letters, v. 11, n. 4, p. 335-341, 2013.