Mostrando postagens com marcador Aquecimento global. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Aquecimento global. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

How tequila could be key in our battle against climate change

Date: December 6, 2016

Source: Newcastle University

Summary:
Agave – the cactus-like plant which forms the base ingredient of tequila – has a nocturnal ‘body clock’ which allows it to ‘breathe’ at night and withstand the driest of conditions, new research has shown.

Agave -- the cactus-like plant which forms the base ingredient of tequila -- has a nocturnal 'body clock' which allows it to 'breathe' at night and withstand the driest of conditions, new research has shown.

Now scientists are hoping to harness this reverse molecular clock to engineer new drought-resistant crops that will be able to adapt to our future changing climate.

Publishing their findings in this month's Nature Plants, the team from Newcastle University, UK, and Oak Ridge National Laboratory, Tennessee, reveal for the first time how the stomata -- or 'breathing' pores -- on the Agave's leaves are kept shut during the day to minimise water loss.

The process is opposite to that of most plants which keep their stomata open during the day so they can take in Carbon Dioxide and use the sunlight for photosynthesis. However, this also means they lose water rapidly through evaporation.

Newcastle University's Professor Anne Borland, one of the authors of the study, explains:

"Photosynthesis needs three key ingredients -- CO2, water and sunlight -- so it follows that most plants keep their stomata open in the day when it is sunny and shut at night when it is dark.

"But for a plant living in hot, arid conditions such as the Agave, this would be disastrous. They need to conserve every drop of water they can and leaving their stomata open during the day would result in such rapid water loss they would simply die.

"What we have shown in this study is that in so-called CAM plants -- Crassulacean Acid Metabolism plants like the Agave -- several of the genes controlling stomatal opening have had their abundance re-scheduled or 'flipped' from being more abundant during the day to more abundant at night.

"Storing the carbon from the CO2 taken up overnight, the plants photosynthesise in the day like other plants but are able to carry out the process without opening their stomata.

"If we can harness these genes and engineer new drought-resistant plants then the potential is huge in terms of developing crops and biofuels that are able to withstand the challenges we face from a changing climate."

CAM plants

Crassulacean acid metabolism (CAM) was first discovered by scientists at Newcastle University in the 1950s and is a photosynthetic adaptation found in approximately 7% of plant species.

Producing high quantities of starch and sugars in areas where water is limiting, it has long been recognised that if we can harness the properties of CAM plants they could pave the way to new biofuel crops for the production of bioethanol.

Agave is native to the hot and arid regions of Mexico and the Southwestern United States. Well-known as the base ingredient for tequila, Agave nectar is now widely marketed as an alternative to sugar.

Sequencing thousands of genes and proteins to understand the underlying metabolic processes, the team compared the Agave -- or CAM -- plant with Arabidopsis, a type of cress and a typical C3 plant.

They found that although both plants have the same complement of genes and proteins, over a 24 hour period certain genes were 'switched on' at different times.

"The plants have effectively re-programmed themselves to suit their environment," explains Professor Borland, based in the School of Biology at Newcastle University.

"Because both plant types have a similar genetic makeup, we are hopeful that it will be possible to turn C3 plants into CAM plants simply by finding the right triggers.

"This is a really exciting discovery and a major breakthrough in our quest to create new plants that can cope in our future environment."

The study is part of a $14m research programme funded by the Department of Energy Office of Science Genomic Science Programme. The team are currently four years into the five year project.

Story Source:

Materials provided by Newcastle University. Note: Content may be edited for style and length.

Journal Reference:
Paul E. Abraham, Hengfu Yin, Anne M. Borland, Deborah Weighill, Sung Don Lim, Henrique Cestari De Paoli, Nancy Engle, Piet C. Jones, Ryan Agh, David J. Weston, Stan D. Wullschleger, Timothy Tschaplinski, Daniel Jacobson, John C. Cushman, Robert L. Hettich, Gerald A. Tuskan, Xiaohan Yang. Transcript, protein and metabolite temporal dynamics in the CAM plant Agave. Nature Plants, 2016; 2 (12): 16178 DOI: 10.1038/NPLANTS.2016.178

Cite This Page:
Newcastle University. "How tequila could be key in our battle against climate change." ScienceDaily. ScienceDaily, 6 December 2016. <www.sciencedaily.com/releases/2016/12/161206094243.htm>.

sábado, 3 de dezembro de 2016

Estudo coordenado pela Fiocruz mapeia mudanças no clima do Mato Grosso do Sul

Por Reginaldo Alves (Projeto Vulnerabilidade à Mudança do Clima / Fiocruz Minas)

No Mato Grosso do Sul, a porção norte do estado poderá apresentar um aumento de até 5,8°C graus na temperatura e uma redução de até 19% no volume de chuvas nos próximos 25 anos. Os dados fazem parte de uma pesquisa inédita sobre o Mato Grosso do Sul, que identificou a vulnerabilidade à mudança do clima nos 79 municípios do estado. Coordenado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o estudo é uma das atividades realizadas no âmbito do projeto Vulnerabilidade à Mudança do Clima, feito em parceria com o Ministério do Meio Ambiente.
Os resultados da pesquisa foram compartilhados durante o Seminário Indicadores de Vulnerabilidade à Mudança do Clima, que ocorreu nesta quarta-feira (30/11) em Campo Grande (MS). Para o coordenador do projeto, Ulisses Confalonieri, este trabalho possibilitará aos gestores avaliar, por meio de mapas e gráficos, qual parte do território está mais e menos vulnerável às alterações do clima e os mais aptos a se recuperarem de possíveis impactos climáticos. “O Mato Grosso do Sul é o único representante da região centro-oeste a participar do estudo. Além dele, foram escolhidos mais cinco estados para serem avaliados: Amazonas, Espírito Santo, Maranhão, Paraná e Pernambuco. Também foi desenvolvida uma ferramenta, um software, que ajuda a quantificar a vulnerabilidade humana às mudanças climáticas, conforme cada município”, ressalta o pesquisador da Fiocruz Minas.

Dias mais secos

A pesquisa feita sobre os municípios sul-mato-grossenses indica que a porção sul do estado poderá ser a mais afetada em relação ao número de dias secos consecutivos no ano, índice chamado de CDD. Na cidade de Japorá, por exemplo, o aumento no número de dias seguidos sem chuva poderá chegar a 12,6%, seguida por Sete Quedas (12,2%) e Tacuru (11,5%).

O município de Novo Horizonte do Sul apresentou o CDD mais elevado do estado, com um aumento de 15,2% para os períodos de estiagem. Esta situação é diferente em cidades localizadas na parte central, como Rochedo e Corguinho. Nelas, os dias seguidos sem chuvas permanecerão os mesmos em comparação com o período atual.

Mais calor e menos chuvas

Em relação à temperatura máxima, Corguinho poderá ter um incremento de até 5,8°C para os próximos 25 anos. Os municípios da porção norte serão os mais afetados, assim como algumas cidades localizadas na parte leste do estado. Em Paranaíba e Aparecida do Taboado o aumento pode chegar a 5,7°C para o período de 2041 a 2070.

O Alto do Taquari pode ser uma das regiões mais impactadas pela redução do volume de chuvas. Em Coxim e Rio Verde do Mato Grosso, por exemplo, a precipitação poderá diminuir 19,3%. Na parte leste do estado, a pluviosidade pode reduzir até 17,6%, como é o caso do município de Selvíria.

Campo Grande apresenta uma elevação de 5,4°C na temperatura e uma redução de 8,3% na precipitação. Em relação ao número de dias seguidos sem chuva, a capital pode ter uma diminuição de 5,4%.

Mudança do clima no Pantanal

As projeções feitas no estudo indicam possíveis consequências para o Pantanal. Por ser um bioma úmido, que depende do ciclo de cheias e secas, o aumento da estiagem pode impactar no ciclo de inundações e na diminuição da biodiversidade, por causa das alterações no processo reprodutivo de plantas e animais.

As mudanças do clima também podem provocar transformações em fenômenos naturais recorrentes no Pantanal, como o período das cheias dos rios. Por causa das alterações no volume de chuvas e elevação da temperatura, podem ocorrer eventos extremos, como secas e alagamentos. Estes fenômenos climáticos poderiam impactar no Pantanal, a perda do potencial de pesca e, em outras partes do estado, a redução da produção agrícola, afetando diretamente a segurança alimentar das populações que vivem nessa região. Outro impacto que pode ser apontado nesse cenário futuro é o aumento de doenças, devido à proliferação de vetores.

Vulnerabilidade dos municípios

As pesquisas realizadas sobre o estado consideram informações de cada município relacionadas a fenômenos extremos, a exemplo de tempestades, e doenças vinculadas ao clima, entre elas, dengue, leptospirose e leishmaniose. Dados sobre a população, envolvendo saúde e condições socioeconômicas e a capacidade dos municípios para lidarem com as mudanças climáticas também são utilizados.

As informações coletadas são associadas a três elementos – exposição, sensibilidade e capacidade adaptativa da população, considerando dois cenários de clima futuro: um com redução nas emissões de gases do efeito estufa e menor aquecimento global, e outro que considera o aumento contínuo dessas emissões com maior impacto no clima. A partir da combinação e análise desses dados, é possível calcular o Índice Municipal de Vulnerabilidade (IMV) e outros indicadores.
As projeções feitas na pesquisa indicaram que os municípios mais vulneráveis à mudança do clima seriam Rio Verde do Mato Grosso, Rio Negro e Sonora e os menos vulneráveis seriam Jateí, Naviraí e Chapadão do Sul. As cidades mais expostas às alterações climáticas foram Maracaju, Três Lagoas e Coxim, em virtude de desmatamentos, variações bruscas de temperatura e ocorrência de eventos extremo, como secas e enxurradas. Em relação à sensibilidade, que indica a intensidade com a qual os municípios são suscetíveis aos impactos do clima, Juti, Taquarassu e Paranhos seriam os mais impactados.

O estudo apontou que Campo Grande, Chapadão do Sul e Costa Rica foram considerados os municípios mais adaptados para lidar com as mudanças clima, devido à existência de infraestrutura de saúde, como leitos hospitalares, plano de contingência de desastres e atuação da Defesa civil. Coronel Sapucaia e Novo Horizonte do Sul seriam os menos adaptados.

in EcoDebate, 01/12/2016

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

A geração Z quer mais ação para um futuro sustentável, revela a pesquisa global

De acordo com uma pesquisa global entre jovens realizada pela Masdar, uma empresa de energia do futuro de Abu Dhabi, a mudança climática será o maior desafio do mundo na próxima década.

Apresentada na COP22 de Marrocos, a “Pesquisa Global da Masdar com a Geração Z sobre Sustentabilidade” é o primeiro estudo mundial sobre a opinião dos jovens entre 18 e 25 anos em relação à mudança climática, ao desenvolvimento sustentável e às energias renováveis.

A pesquisa foi realizada no início deste ano para coincidir com o aniversário de 10 anos da Masdar. Foram entrevistados quase 5.000 jovens pós-milênio em 20 países do Oriente Médio, Norte da África, África Subsaariana, Américas, Europa e Ásia.

Ela ilustra claramente o grau de preocupação entre os jovens sobre a mudança climática, com 40% dos entrevistados citando-a como um dos maiores desafios mundiais da próxima década, à frente da economia (34%), terrorismo (32%), pobreza e desigualdade (29%) e do desemprego (29%).

Oito em cada dez (83%) jovens pós-milênio também disseram que os governos precisam escutar mais o que eles têm a dizer sobre sustentabilidade. Um número semelhante (80%) acredita que os líderes atuais não fazem o suficiente para proteger o meio ambiente.

Eles acham que o governo e o setor privado compartilham a responsabilidade de desenvolver tecnologias limpas (81%), mas esperam mais investimentos do governo nas energias renováveis (84%).

Quase dois em cada três (59%) disseram que estão interessados em trabalhar ou estudar em uma área relacionada com sustentabilidade.

Patricia Espinosa, secretária executiva da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC, sigla em inglês), disse: “Existe uma enorme demanda entre os nossos jovens para que haja investimentos corporativos e públicos em tecnologias limpas e energias renováveis. Os vencedores da economia ecológica serão aqueles que sabem aproveitar este idealismo juvenil e combiná-lo com leis, investimentos de longo prazo, mudança cultural e ação política”.

A pesquisa descobriu que aproximadamente metade da Geração Z (46%) opta por gastar mais dinheiro em produtos de uma empresa que se comporta de forma sustentável, e 31% boicotou uma empresa que eles identificaram como usuária de práticas não sustentáveis.

Mohamed Jameel Al Ramahi, CEO da Masdar, disse: “Nos últimos 10 anos, a indústria de energia limpa tornou-se um dos mercados de crescimento mais dinâmico e emocionante do mundo. Ao pensarmos no futuro, os resultados da nossa pesquisa global fornecem uma visão importante sobre a ação necessária para acelerar a adoção de energias renováveis e tecnologias limpas”.

Para obter mais informações e os resultados completes da pesquisa, visite o endereço http://www.masdar.ae/GenZSurvey ou envie um e-mail para press@masdar.ae

FONTE Masdar, the Abu Dhabi Future Energy Company / PRNewswire

in EcoDebate, 22/11/2016

‘Descarbonizar’ a economia será desafio do país nos próximos anos

Uma palavra ainda pouco conhecida promete ocupar cada vez mais espaço na pauta dos governos e no dia a dia da população nos próximos anos: “descarbonizar”. No jargão da mudança climática, isso significa reduzir as emissões de gases do efeito estufa — especialmente o dióxido de carbono, gerado na queima de combustíveis fósseis.

Descarbonizar a economia é a missão dos países que se reuniram em Marrakech na 22ª Conferência das Nações Unidas para o Clima (COP-22), encerrada no sábado. Para conter o aumento da temperatura da Terra, eles terão de reduzir as emissões desses gases até eliminá-las por completo em algumas décadas.

No encontro, destinado a discutir meios de colocar em prática o Acordo de Paris (construído na COP-21, em 2015), ao redor de 200 países confirmaram o compromisso de agir para limitar o aquecimento do planeta a 1,5 ºC, no máximo 2 ºC, em relação ao nível pré-industrial. Em Marrakech ficou decidido que o “livro de regras” para a implementação do acordo será concluído em 2018.
A transição para uma economia de baixo carbono é “urgente, irreversível e irrefreável”, segundo a secretária-executiva da Convenção-Quadro das Nações Unidas para as Mudanças Climáticas, Patricia Espinosa. Mas essa transição vai exigir mais do que mudanças pontuais em atividades econômicas. Será preciso alterar os modelos de desenvolvimento dos países, que terão de abrir mão de fontes de energia como petróleo e carvão.

— Seremos a geração que terminará com os combustíveis fósseis — decreta a diretora- -executiva do Greenpeace, Jennifer Morgan.

O Brasil é visto como um dos países-chave nessa mobilização global. O chefe da delegação brasileira na COP, o ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho, garantiu que vamos “passar de fonte de carbono a sumidouro de carbono”. Hoje o Brasil é o sétimo no ranking de emissões, liderado por China e Estados Unidos.

Compromissos

Na COP-21, no ano passado, as nações signatárias do Acordo de Paris apresentaram suas metas de redução de emissões. O Brasil se comprometeu a cortar 43% de suas emissões até 2030, em relação aos níveis de 2005. Para isso, pretende investir em fontes renováveis de energia, eliminar o desmatamento ilegal e recuperar pastagens e florestas.

Com a recente entrada do acordo em vigor, em 4 de novembro, as metas do Brasil já não são apenas intenções. São um compromisso oficial, ratificado pelo Senado em agosto. Agora é hora de discutir as mudanças necessárias, defende o senador Fernando Bezerra Coelho (PSBPE), que participou da COP-22.

— É preciso começar imediatamente a enfrentar discussões como: vamos ou não vamos usar usinas a carvão? Essas decisões implicam mudanças profundas na infraestrutura, na indústria. É importante saber que as contribuições que o Brasil pactuou têm repercussões importantes na economia — diz o senador, que é relator da Comissão Mista de Mudanças Climáticas, criada no Congresso em 2008 para debater políticas públicas destinadas a enfrentar o problema.

Além de Bezerra, os senadores Jorge Viana (PT-AC), Lídice da Mata (PSB-BA) e Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), que também integraram a delegação do Senado em Marrakech, sugeriram a Sarney Filho que governo, Congresso, sociedade civil e setores produtivos se reúnam logo após a COP para discutir como as metas serão incorporadas ao planejamento nacional.

— Os Orçamentos que devem ser remetidos ao Congresso a partir de 2018 já precisam ter em mente que o Brasil tem metas a serem alcançadas. Como viabilizar isso? De onde virão os recursos, os financiamentos? Qual será a estratégia para atrair investimentos do setor privado para que o país chegue a 2030 como um dos líderes mundiais na condução para uma economia de baixo carbono? Com crise ou sem crise, temos que mudar nosso modelo de desenvolvimento — afirma Bezerra.

Metas complexas
Cumprir as metas de redução das emissões será uma tarefa complexa, avalia o consultor legislativo do Senado Habib Fraxe Neto, que acompanhou os senadores na COP. Pelo tamanho do desafio que representa, a proposta brasileira é ambiciosa, disse. Um exemplo é a meta de recuperação de 15 milhões de hectares de pastos degradados:

— Uma área dessa dimensão envolve milhares de propriedades rurais. Tem que providenciar assistência técnica, juros diferenciados para que os produtores busquem financiamento, capacitação de agentes financiadores. Não são desafios simples.

Jorge Viana destaca outra meta que, a seu ver, precisa ser discutida em profundidade: a redução do desmatamento. Para ele, é preciso encontrar formas de preservar a floresta e ao mesmo tempo promover o desenvolvimento econômico da respectiva região, pois a população local muitas vezes depende da exploração da mata para sobreviver:

— A floresta tem de ser vista como ativo econômico. Os estados da Amazônia foram responsáveis pela redução do desmatamento, mas com redução também da atividade econômica. Não podemos seguir financiando as metas do país à custa da pobreza da parcela de brasileiros que vivem na Amazônia.

Na COP, o senador defendeu a adoção de um instrumento desenvolvido pela ONU para recompensar os países em desenvolvimento pela conservação das florestas e pela redução do desmatamento, chamado Redd+.

Outro mecanismo que pode ajudar no alcance das metas do clima é a atribuição de um “preço” às emissões de carbono feitas por empresas e produtos. A ideia é tornar mais vantajosos os modelos de produção limpos e deixar mais onerosos os poluentes. Isso poderia ser feito por meio de uma “taxa de carbono”, imposta a quem emite mais, ou por meio de mercado de carbono, que busca incentivar empresas e serviços a reduzir emissões.

Mais de 40 países já precificam o carbono, afirma o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável, que lançou durante a COP o guia Precificação de Carbono: o que o setor empresarial precisa saber.

A Comissão de Meio Ambiente (CMA) pode votar hoje um projeto de Viana que inclui na Política Nacional sobre Mudança do Clima as metas de redução de emissões do Brasil (PLS 750/2015).

O governo prometeu para as próximas semanas o primeiro rascunho do plano de implementação das metas nacionais, para que o Brasil de fato alcance a almejada “descarbonização”

Colaborou Paula Groba, da Rádio Senado
Da Agência Senado, in EcoDebate, 24/11/2016

Acordo de Paris é mais sólido que o de Kyoto

Acordo de Paris é mais sólido que o de Kyoto. Entrevista especial com Pedro Telles

“A discussão sobre mudanças climáticas já atingiu um grau de importância geopolítica internacional importante, e vários países, como China, França e Brasil, se manifestaram dizendo que seguirão adiante com o Acordo de Paris. Disseram também que um retrocesso dos EUA em relação ao acordo não será bem-vindo”, diz Pedro Telles à IHU On-Line, na entrevista a seguir, concedida por telefone.

Segundo Telles, a eleição de Donald Trump repercutiu negativamente nos primeiros dias da COP 22, especialmente por conta das declarações que o futuro presidente dos EUA manifestou contra a agenda climática. Apesar da apreensão em relação ao futuro, diz, “tanto governos quanto ONGs e movimentos sociais adotaram um discurso de que irão seguir adiante na discussão climática, porque os EUA não dão as cartas sozinhos”.

Na avaliação de Pedro Telles, embora haja risco de os EUA anular o Acordo de Paris, esse acordo “é muito mais sólido e resiliente do que o Protocolo de Kyoto”, porque ele surgiu “em um contexto internacional muito mais forte de ação climática”. Portanto, avalia, “não vejo risco de que a saída dos Estados Unidos tenha consequências como teve em Kyoto”.
Pedro Telles | Foto: Greenpeace

Pedro Telles é coordenador da Campanha de Clima e Energia do Greenpeace e mestre em Estudos do Desenvolvimento pelo Institute of Development Studies, na Inglaterra.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Que avaliação faz da COP 22? Quais foram os pontos altos dessa conferência, que foi, na avaliação de muitos, mais técnica em relação à COP 21?

Pedro Telles – Exatamente, essa Conferência foi mais técnica do que a anterior. Podemos dizer que aconteceram três fatos importantes nessa COP. Um deles é a pauta da COP em si, o segundo ponto é a eleição de Trump nos EUA e o terceiro ponto é a participação brasileira nesse processo.

Sobre a pauta da COP em si, a COP 22 teve uma pauta muito mais técnica do que a de Paris, e a melhor metáfora para explicá-la é a seguinte: a COP de Paris chegou num acordo e a COP 22 está construindo as formas de como será implementado esse acordo, ou seja, é mais ou menos como quando se aprova uma lei e depois é preciso regulamentá-la. Então, o acordo de Paris seria a lei aprovada, e a partir da COP 22 se entra numa etapa de explicar em detalhes como vamos fazer o acordo de Paris acontecer de verdade. Essa pauta tende a se estender nos próximos dois anos. Nesse sentido, a COP deste ano entregou o que tinha que entregar, ou seja, não foi uma COP excepcional, mas construiu os caminhos que os governos vão seguir para lidar com as frentes de trabalho, como transparência, financiamento etc.

Eleição de Trump

O segundo ponto da COP 22 foi a eleição de Trump no meio da primeira semana do encontro. Os EUA são, ao lado da China, a maior economia do mundo, e Trump já disse diversas vezes que não concorda com a ação climática, assim como contesta que a causa das mudanças climáticas esteja na ação humana. No dia da eleição nos EUA, houve um impacto forte na Conferência e as pessoas não souberam como reagir, mas, logo em seguida, tanto governos quanto ONGs e movimentos sociais adotaram um discurso de que vão seguir adiante na discussão climática, porque os EUA não dão as cartas sozinhos.

Além disso, considera-se que a discussão sobre mudanças climáticas já atingiu um grau de importância geopolítica internacional importante, e vários países, como China, França e Brasil, se manifestaram dizendo que seguirão adiante com o Acordo de Paris.

Disseram também que um retrocesso dos EUA em relação ao acordo não será bem-vindo e, portanto, haverá consequências negativas para os americanos, caso retrocedam o acordo. Então, essa manifestação foi um ponto positivo porque, apesar de ficarmos apreensivos com a eleição de Trump, se insistiu que a discussão climática seguirá adiante.

Participação brasileira

O ministro da Agricultura, Blairo Maggi, falou barbaridades durante a COP

O terceiro ponto da COP 22 diz respeito à participação do Brasil, que teve uma participação mista. Por um lado, durante a COP o governo brasileiro anunciou que serão vetados novos incentivos ao uso de carvão no país. Essa decisão é consequência de um trabalho de pressão realizado pelas ONGs. Durante a COP, mais de mil ONGs internacionais assinaram um artigo pedindo o veto do Brasil nesse quesito.

Também foi retomado o Fórum de governo de mudanças climáticas, que é um fórum vinculado à Presidência e que conta com a participação de membros do governo e da sociedade civil. Mas, por outro lado, o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, falou barbaridades durante a COP. Ele negou problemas que existem na agricultura brasileira com relação ao clima e fez uma participação desastrosa, a qual foi, inclusive, encoberta pela mídia. Esse foi um ponto baixo da participação brasileira no evento.

IHU On-Line – Apesar de os membros da COP terem insistido que irão dar continuidade ao Acordo de Paris, mesmo que os EUA anulem sua participação no acordo, há riscos de o acordo de fato não sair, como ocorreu com o Protocolo de Kyoto, que não foi assinado pelos americanos?

Pedro Telles – Esse risco existe. Mas a punição em relação a uma futura postura dos EUA não foi explícita; de outro lado, houve, sim, um discurso de que as mudanças climáticas são um assunto de extrema relevância e que não será bem-vindo um retrocesso americano nesse assunto.

O Acordo de Paris é muito mais sólido e resiliente do que o Protocolo de Kyoto, por algumas razões. Primeiro porque o Protocolo de Kyoto não visava a adesão de todos os países do mundo; o Acordo de Paris, sim. Em segundo lugar, em razão dos detalhes técnicos do acordo em si, do momento histórico em que ele aconteceu, o Acordo de Paris nasce muito mais bem amarrado e em um contexto internacional muito mais forte de ação climática. Então, não vejo risco de que a saída dos Estados Unidos tenha consequências como teve em Kyoto.

Agora, existe, sim, a possibilidade de os Estados Unidos saírem do Acordo de Paris, e Trump já indicou que iria avaliar isso durante a campanha. No entanto, depois que foi eleito, ele passou a adotar um tom de discurso bem mais moderado e não falou mais em sair do Acordo de Paris e da Convenção do Clima. De todo modo, há uma pressão muito forte de vários líderes de governo para que os EUA não saiam do acordo, mas não dá para dizer que é impossível que isso ocorra.

IHU On-Line – Alguns avaliam que o Acordo de Paris foi ratificado muito depressa e houve muito entusiasmo em relação a ele. Concorda?

Pedro Telles – Não tem certo ou errado no que tange à velocidade correta de ratificação do acordo. Certamente seria ruim se a ratificação demorasse demais. Mas a questão é que, de fato, o acordo foi ratificado de modo muito mais rápido do que todos esperavam: em menos de um ano o acordo já estava vigorando, porque já tinha ultrapassado o número de ratificações necessárias para ele entrar em vigor.

Agora que o acordo entrou em vigor, vão passar a ocorrer, anualmente, as reuniões da CNA, entre os países que já ratificaram o acordo. A primeira CNA ocorreu neste ano, mas foi uma reunião breve, porque os membros precisam de mais tempo para organizar os trabalhos.

A rapidez na ratificação do Acordo de Paris é um bom sinal, é o que chamamos de bom problema. Apesar de gerar algumas correrias burocráticas, isso é um sinal de que os governos do mundo inteiro estão, realmente, querendo fazer esse negócio acontecer, portanto vejo a ratificação com bons olhos.

IHU On-Line – Qual é o significado da meta brasileira de reduzir suas emissões em 37% até 2025 e 43% até 2030? Essa meta é ou não é ambiciosa em relação ao que o Brasil pode fazer?

Segundo a meta brasileira, o Brasil só acabará com o desmatamento ilegal na Amazônia em 2030, isto é, o governo vai aceitar a ilegalidade do desmatamento na Amazônia por mais 14 anos

Pedro Telles – Ela poderia ser bem melhor. O governo apresentou essa meta em Paris, e ela basicamente propõe evitar as emissões brasileiras em algo como 3 bilhões de toneladas de carbono por ano. Quando o governo lançou essa meta, o Greenpeace e várias outras ONGs lançaram, por meio do Observatório do Clima, uma meta nossa, a qual achamos que seria a adequada: enquanto a meta do governo é de 1,3 bilhão por ano, nós propomos que seja de 1 bilhão por ano.

Segundo a meta brasileira, o Brasil só acabará com o desmatamento ilegal na Amazônia em 2030, isto é, o governo vai aceitar a ilegalidade do desmatamento na Amazônia por mais 14 anos – no resto do país nem se fala. Isso é absolutamente inaceitável, temos que acabar com o desmatamento ilegal imediatamente, e o governo não pode dar um sinal de que vai, por mais 14 anos, tolerar a ilegalidade. Por essas e outras razões que o desmatamento voltou a subir.

Agora, em relação à energia, a proporção de energias renováveis que o Brasil apresenta para 2030 é muito próxima do que temos hoje; é praticamente a mesma coisa. Temos que acelerar isso, precisamos de uma parcela bem maior de energia solar e eólica, porque só manter a atual proporção não é suficiente. Então, a meta do Brasil parece boa se compararmos a de outros países que têm metas muito ruins, mas se compararmos com o potencial nacional, ela é muito fraca e tem que melhorar.

(EcoDebate, 25/11/2016) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.

[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

Seminário Nacional sobre mudanças climáticas clama por proteção à Mãe Terra

Durante Seminário Nacional do Fórum de Mudanças Climáticas e Justiça Social (FMCJS), em Brasília, o professor Heitor Scalambrini (PE) e Zoraide Vilasboas (BA), representantes da Articulação Antinuclear Brasileira, defenderam o uso de energias renováveis e negaram que a fonte nuclear seja limpa, já que sua cadeia de produção é cara, suja e perigosa, sendo, portanto, econômica, social e ambientalmente insustentável.

O convite à luta contra a exploração irresponsável dos recursos naturais do planeta por parte dos capitalistas e suas consequências sobre as mudanças climáticas é o foco principal da carta final do evento, promovido pelo FMCJS.

Íntegra da Carta aprovada por mais de 100 participantes do Seminário

PRECISAMOS REESCREVER O FUTURO

AGORA!

Viemos de todos os estados brasileiros, do Distrito Federal, das comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas, da agricultura familiar, das cidades, dos movimentos sociais e populares do campo, das florestas, das águas e das cidades, todxs violentadxs por projetos extrativistas e de infraestrutura como hidrelétricas, termoelétricas, energia eólica e nuclear, transposição de rios, mineração, pecuária, extração de fontes fósseis (convencionais e não convencionais), expansão da monocultura e do agronegócio, agrotóxicos, projetos de créditos de carbono, desastres ambientais que geram migrações forçadas e projetos urbanos que expulsam comunidades. Em Brasília, no Seminário Nacional do Fórum de Mudanças Climáticas e Justiça Social, de 25 a 28 de outubro de 2016, refletimos sobre as mudanças climáticas, socializamos os gritos, nos fortalecemos para enfrentar os mega-projetos patrocinados pelo sistema capitalista, por meio de corporações e governos que atentam contra a vida da Mãe Terra, de suas Filhas e Filhos.

Motivados pela espiritualidade dos povos da floresta, das águas, do campo e das cidades, em uma só voz denunciamos as faces desse desenvolvimento perverso, que produz o Ecocídio, o Etnocídio e o Genocídio da Mãe Terra e alimenta o capitalismo financeirizado, globalizado e agressivo. Denunciamos a falácia da “Economia Verde”, que mercantiliza e privatiza rios, oceanos, florestas, o ar e a Mãe Terra, expulsando suas filhas e filhos em favor de projetos que produzem morte cultural, econômica, social e organizacional de povos e comunidades tradicionais, camponeses e comunidades urbanas.

Somando-se à voz dos povos originários, a ciência revelou que chegamos a uma nova época geológica, chamada de ”Antropoceno”. Nele, a humanidade, com uma responsabilidade bem maior por parte dos mais ricos e que mais consomem, tornou-se uma força indutora de impactos profundos e irreversíveis em escala global. Impactos que incluem a 6ª grande extinção de espécies da história terrestre, um domínio destrutivo sobre a maior parte das terras e da água doce, a acidificação dos mares, a destruição da camada de ozônio. Incluem, sobretudo, uma radical mudança do clima da Terra provocada pelo aumento exponencial da concentração dos gases de efeito estufa pela queima de combustíveis fósseis, desmatamento, etc. São frutos envenenados de uma economia da morte.

As mudanças climáticas já aumentaram em 1,2oC a temperatura do planeta desde o início da era industrial, provocando efeitos extremos, tais como furacões, secas, tempestades, ondas de calor, elevação crescente do nível do mar. Ameaçam a vida de milhões de seres humanos e de outras espécies. É o maior desafio jamais posto diante da humanidade. Precisamos agir para deter essas mudanças. O causador destas aflições é o modo capitalista de desenvolvimento, que prioriza o lucro e a acumulação, e não o atendimento das reais necessidades materiais e imateriais da humanidade, que confunde desenvolvimento com mero crescimento físico. Estamos perto de esgotar os bens naturais e é urgente determos a voracidade do crescimento capitalista. Constatamos que, sem superar o sistema do capital, o Planeta mergulhará no caos e a vida nas formas conhecidas desaparecerá. Para viver, precisamos de alimentação boa e saudável, beleza e amor, e não de alimentos e água contaminados, pobreza e egoísmo. A produção contínua de desigualdades sociais e a destruição de comunidades humanas e seus modos de reprodução ampliada da vida tornam o sistema insustentável. De quanto tempo a fração privilegiada da humanidade vai precisar para descobrir que não se come dinheiro nem se bebe petróleo?

O predomínio antagônico do homem sobre a mulher e sobre a Mãe Terra, de nossa espécie sobre as demais, do capital sobre o trabalho, da riqueza material sobre a não material, da ilusão de que a técnica resolve tudo, e das corporações sobre os povos da Terra anula o sentido participativo da democracia. Reconstruir as sociedades humanas de baixo para cima começa com a organização de comunidades intencionais onde as pessoas vivem e trabalham. Produzir e consumir localmente; partilhar solidariamente nossos excedentes; promover saúde coletiva; garantir espaços de mobilidade ativa, ferrovias para passageiros e cargas, e transporte público includente, multimodal e de qualidade; assegurar terra para quem dela necessita para viver e trabalhar; universalizar a permacultura, a agrofloresta e a agroecologia; acolher os que sofrem as mazelas espalhadas pelo capital; receber refugiados climáticxs com braços, portas e fronteiras abertas para a partilha; construir uma economia do suficiente (bens materiais), e da abundância em qualidade de vida – lazer, comunicação, artes, amizade, amor, felicidade, criando o ambiente político, social, natural e espiritual propício para que cada pessoa desenvolva sempre mais plenamente seus potenciais individuais e coletivos – este é o sentido maior da vida humana.

A economia da vida promove a descentralização do poder político, econômico e cultural, e a valorização da unicidade (comunidade da vida que habita a Casa Comum) e da diversidade humana e biológica. Promove o empoderamento das comunidades para planejarem e implementarem o seu próprio desenvolvimento de forma autogestionária, solidária, sustentável, e articuladas entre si em escala sucessiva até o âmbito nacional e global. Com a posse compartilhada dos bens produtivos e o planejamento participativo superam-se os riscos da superprodução, do descarte e da especulação; em vez da privatização, o cuidado e a partilha dos bens comuns. A matriz energética se reerguerá num modelo descentralizado de produção e consumo da escala comunitária até a nacional. A educação para a vida ensinará valores e métodos da partilha dos bens produtivos e da troca solidária, ou doação dos excedentes, da reciprocidade voluntária, da restauração e da conservação dos ecossistemas.

O futuro escrito pelo capital é de destruição e morte, mas já está sendo reescrito na sabedoria representada pelos povos originários e demais comunidades tradicionais, e por outras formas de comunidades intencionais, como comunidades camponesas, ecovilas e ecocidades. Aprendamos com eles o modo de vida simples, compartilhado e rico de tradições ancestrais, o seu cuidado com o meio natural e a sua espiritualidade enraizada na Mãe-Terra, na perspectiva da construção de sociedades do bem viver!

Brasília, 28 de outubro de 2016

Zoraide Vilasboas
Movimento Paulo Jackson – Ética, Justiça, Cidadania
Articulaçao Antinuclear Brasiliera

in EcoDebate, 04/11/2016

Para especialistas, ‘churrasco de domingo’ é vilão do aquecimento global

A picanha, a fraldinha e a maminha, bem salgadas, feitas na brasa, símbolos de um bom churrasco, estão se tornando inimigas do clima. É que a carne, desde a criação do gado até a mesa do brasileiro, é responsável pela liberação de grande quantidade de gases que causam o aquecimento global, segundo o Observatório do Clima (OC) – rede que reúne 40 organizações da sociedade civil. A recomendação é que o consumo de carne de boi seja menor e a produção mais eficiente.

Os impactos causados pela agropecuária são responsáveis por 69% das emissões de gases de efeito estufa do Brasil. Estão incluídos na conta poluentes decorrentes do processo digestivo e dejetos de rebanhos, o uso de fertilizantes e o desmatamento (43% das emissões nacionais).

Os números são do Sistema de Estimativa de Emissão de Gases de Efeito Estufa (Seeg), do Observatório do Clima, divulgados no Rio de Janeiro.

De acordo com a coordenadora de Clima e Agropecuária do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), Marian Piatto, que integra a rede do observatório, somente o gado de corte é responsável por 65% das emissões de gases de efeito estufa na agropecuária.

Ela explica que um dos problemas está no sistema digestivo dos animais com dificuldades de processar o capim. “O gado bovino, quando se alimenta do capim, explicando de uma maneira bem simples, elimina metano por meio do arroto e do pum. Não é como nos carros, que vemos uma fumaça cinza, mas são poluentes”.

Marina lembra que o país tem um dos maiores rebanhos do mundo, cerca de 200 milhões de animais, o que agrava o problema. “É quase um por pessoa”, comparou.

Para chegar aos 69% das emissões nacionais do setor agropecuário, o coordenador do Sistema de Estimativa de Emissão de Gases de Efeito Estufa, Tasso Azevedo, acrescenta que, além dos problemas com o gado, entram na conta o transporte da carga, que, na maioria das vezes, usa diesel, o mais poluente dos combustíveis e o desmatamento para criação de pasto. Na Amazônia, onde avança o uso de terras para a atividade, é comum a ocupação de áreas derrubadas com o gado, denunciou Eron Martins, do Instituto Imazon.

“A relação entre a pecuária e o desmatamento é muito estreita porque a pecuária tem uma fluidez econômica muito rápida, o que facilita colocar a pecuária nos locais de expansão (desmatadas) para ter o direito daquela área mais tarde”, disse Martins. Ele contou que é comum a extração de madeira deixar áreas degradadas que, em seguida, acabam revertidas em pasto.

Soluções visam reduzir emissões

Segundo os especialistas, às vésperas de o acordo de Paris entrar em vigor em 2017, com metas para limitar o aumento da temperatura no planeta, há espaço na agropecuária para redução das emissões, como melhor manejo de pastagens e menor uso de fertilizantes. O governo, por sua vez, deve atrelar a concessão de subsídios, como o Plano Safra, às contrapartidas ambientais. Os ambientalistas, porém, são unânimes em recomendar menor consumo de carne.

“Cada bife que a gente come é responsável por impacto ambiental. Não comemos camarão e lagosta todo o dia, por que temos a necessidade de comer uma quantidade diária de carne bovina?”, questionou Marina. Uma meta internacional para tornar a carne brasileira mais sustentável foi descartada porque o destino de 80% do gado do país é a mesa do brasileiro, disse.

Para quem pensar em adiar uma mudança de hábitos à mesa, Carlos Rittl, secretário-executivo do Observatório do Clima, alerta que o aquecimento global é responsável por ondas de calor, com sensação térmica de 50º, como no verão, no Rio de Janeiro, falta de chuvas, como em São Paulo, e desastres ambientais. “A gente está falando de qualidade de vida e de economia, mudanças climáticas são um risco para um país que depende da agricultura e da pecuária”, afirmou.

CNA questiona números

A Confederação Nacional da Agricultura (CNA) questionou os dados e disse que a conta do Sistema de Estimativa de Emissão de Gases de Efeito Estufa é uma “visão parcial” da produção.

“Se a gente for levar em conta que o Brasil emite menos de 4% das emissões globais, que o sistema leva em conta as emissões e não o balanço, se a gente considerar os esforços empreendidos para redução das emissões no Brasil – que vêm diminuindo – e o comprometimento da propriedade rural na conservação da biodiversidade, no estoque de carbono e na recuperação de áreas degradas, [poderá constatar] que a agropecuária é uma atividade muito menos impactante do que se pintou no relatório”, afirmou o coordenador de Sustentabilidade, Nelson Ananias Filho.

“Precisamos promover políticas de recuperação de pastagens em degradação para aumentar produtividade e emitir menos gases, produzindo comida e o nosso churrasco de fim de semana”. Nelson confirma que uma pastagem bem manejada sequestra até 90% de toda emissão da pecuária.

Para incentivar o setor, o Ministério da Fazenda, por meio do Plano Safra, apresenta aos produtores técnicas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) de produção sustentável.

“Para o governo, é inviável financiar toda mudança tecnológica do setor. O que fazemos é mostrar as coisas que estão na prateleira e que são viáveis”, disse o coordenador-geral de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas, Aloisio Lopes Pereira de Melo.

Por Isabela Vieira, da Agência Brasil, in EcoDebate, 04/11/2016

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Impactos das mudanças climáticas ameaçam segurança alimentar de América Latina e Caribe

Relatório produzido por Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) e Associação Latino-Americana de Integração (ALADI) destacou que a mudança climática afetará o rendimento dos cultivos da agricultura, terá impacto nas economias locais e comprometerá a segurança alimentar no Nordeste do Brasil, em parte da região andina e na América Central.
As alterações climáticas têm implicações graves para a agricultura e a segurança alimentar. Foto: FAO / L. Dematteis

O impacto das mudanças climáticas na América Latina e no Caribe será considerável devido à dependência econômica da região em relação à agricultura, afirmou novo estudo feito por Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) e Associação Latino-Americana de Integração (ALADI).

O estudo foi apresentado no início de agosto em reunião da CELAC realizada em Santiago de los Caballeros, na República Dominicana, com o objetivo de ajudar a fornecer insumos para a gestão das mudanças climáticas no Plano para a Segurança Alimentar, Nutrição e Erradicação da Fome da CELAC 2025.

Segundo as três agências, o setor agrícola é a atividade econômica mais afetada pelas mudanças climáticas, enquanto responde por 5% do PIB regional, 23% das exportações e 16% dos empregos.

“Com uma mudança estrutural em seus padrões de produção e consumo, e um grande impulso ambiental, a América Latina e o Caribe podem alcançar o segundo dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), que prevê o fim da fome, a segurança alimentar e a melhora da nutrição e a promoção da agricultura sustentável”, disse Antonio Prado, secretário-executivo adjunto da CEPAL.

Segundo ele, o Plano de Segurança Alimentar da CELAC e o novo Fórum dos Países da América Latina e do Caribe sobre Desenvolvimento Sustentável serão os pilares fundamentais para este processo.

O relatório das três agências destacou ainda que a mudança climática afetará o rendimento dos cultivos, terá impacto nas economias locais e comprometerá a segurança alimentar no Nordeste do Brasil, em parte da região andina e na América Central.

“O desafio atual para a região é considerável: como continuar seu processo positivo de erradicação da fome à medida que os efeitos das mudanças climáticas se tornam cada vez mais profundos e evidentes em seus sistemas produtivos?”, questionou Raúl Benítez, representante regional da FAO.

Os países cujos setores agrícolas sofrerão os maiores impactos (Bolívia, Equador, El Salvador, Honduras, Nicarágua e Paraguai) já enfrentam desafios importantes em termos de segurança alimentar.

Alguns países da região, assim como a CELAC, já deram passos importantes no desenho de planos de adaptação às mudanças climáticas para o setor agropecuário, mas o desafio ainda é grande. Apenas em termos de recursos financeiros, sem levar em conta as mudanças necessárias de política, será necessário algo em torno de 0,02% do PIB regional anual.
Impactos sobre o setor agrícola e a segurança alimentar

Paradoxalmente, apesar de a região gerar uma menor contribuição à mudança climática em termos de emissões de gases do efeito estufa na comparação com outras, é especialmente vulnerável a seus efeitos negativos.

O novo relatório projeta deslocamentos, em altitude e latitude, das regiões de cultivo de espécies importantes como café, cana de açúcar, batata, milho, entre outras.

Nacionalmente, esses impactos podem afetar seriamente a segurança alimentar. Segundo o relatório, na Bolívia as mudanças de temperatura e chuva causarão uma redução média de 20% do faturamento rural.

No caso do Peru, as projeções indicam que o impacto da mudança climática na agricultura irá gerar redução da produção de diversos cultivos básicos para a segurança alimentar, em especial daqueles que necessitam de mais água, como o arroz.

Mas o setor agrícola não apenas é afetado pelas mudanças climáticas, como contribui para que elas ocorram, sendo urgente que os países, como o apoio da CELAC, façam uma transição urgente para práticas agrícolas sustentáveis, tanto em termos ambientais como econômicos e sociais.

Segundo as três agências, a erradicação da fome na América Latina e no Caribe requer uma mudança de paradigma para um modelo agrícola plenamente sustentável que proteja seus recursos naturais, gere desenvolvimento socioeconômico equitativo e permita se adaptar às mudanças climáticas e mitigar seus efeitos.


Da ONU Brasil, in EcoDebate, 15/08/2016

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Antropoceno, Parte 3/3, artigo de Roberto Naimea

[EcoDebate] A questão do tecnógeno ou antropoceno é mais bem compreendido quando se parte das premissas da moderna biologia, de Lynn Margulis e James E. Lovelock, criadores da hipótese Gaia, que a partir dos conceitos de entropia e processos, imaginam a vida como fluxos dinâmicos de matéria e energia, não mensuráveis por equações matemáticas simples.

São processos que guardam em si a tendência natural da energia e da matéria em caminharem inexoravelmente para a situação de maior entropia, de caos. Mas e a vida? E a complexidade de cada célula viva? Nada mais que um pequeno recipiente de organização capaz de causar um arranjo muito mais alto ao seu redor em sua curta existência do que um agente abiótico seria capaz em toda a escala geológica.

Nós seres vivos somos um trampolim, um lançador de foguetes para o caos, a obra máxima da natureza, não por nossa beleza e pela maravilhosa sensação do amor, de estarmos vivos, mas por que somos a expressão máxima da fome de natureza, de autodestruir e reinventar.

Para Margulis e Lovelock, as condições necessárias para a vida são criadas e mantidas pela própria vida num processo auto-mantenedor de retroalimentação dinâmica, caótico. Um bom exemplo é a versão mais simples da analogia da margarida. As margaridas brancas refletem a luz, tornando o planeta mais frio. As margaridas pretas absorvem a luz, reduzindo o albedo ou refletividade e com isto tornando o planeta mais quente.

As margaridas brancas querem um planeta mais frio, significando que florescem preferencialmente quando as temperaturas se reduzem. As margaridas pretas querem um clima mais quente. Estas características podem ser descritas em uma série de equações não lineares e o mundo das margaridas pode ser movimentado, formando um equilíbrio dinâmico (homeostase).

A preocupação com o meio ambiente em sua concepção mai atual nasceu na década de 50, na pequena cidade de Minamata no litoral do Japão, um lugar pequeno e tranquilo, em que boa parte da população vivia da pesca.

Em 1932 se instalou nesta localidade japonesa, a indústria Chisso, que fabricava acetaldeído, que é usado na produção de plásticos. Seus resíduos eram despejados no mar, sem qualquer tratamento e continham grande carga de mercúrio.

O mercúrio é um metal pesado, teratogênico (causa problemas na formação dos fetos durante a gravidez). Em 1953, depois de várias observações de animais com comportamento estranho (gatos realizando estranhos movimentos, com sinais de comprometimento das funções do sistema nervoso), também começaram a se identificar vários problemas de coordenação motora na população humana, além dos problemas dos nascituros.

Na cidade japonesa de Minamata houve mais um desdobramento trágico que hoje se repete de uma forma muito comum. A indústria Chisso empregava boa parte da população e se fechasse as pessoas ficariam sem trabalho. Foi o primeiro e clássico caso de conflito entre a sobrevivência e a qualidade de vida.

Com o tempo se tornou um consenso que para solucionar os problemas ambientais é necessário antes resolver o problema da sustentabilidade econômica das populações humanas. Não tem como pedir para uma pessoa remediada, que sustenta sua família através da renda de uma atividade predatória que pare de fazer isto por consciência ambiental, sem que se dê uma alternativa econômica para estas pessoas.

A segunda fase do chamado Antropoceno, vai de 1950 a 2000 ou 2015 e vem sendo chamada de “a grande aceleração”. Entre 1950 e 2000, a população humana dobrou de 3 para 6 bilhões de pessoas e o número de automóveis passou de 40 para 800 milhões.

O consumo dos mais ricos se destacou do restante da Humanidade, alimentado pela disponibilidade geográfica de petróleo abundante e barato no contexto do pós-Segunda Guerra e pela difusão de tecnologias inovadoras, que catalisaram um vasto processo de consumo de massa, como os automóveis modernos, as TVs e outros.

Na atual fase 2 da era antropocênica (1945-2015), registrou-se uma aceleração considerável das atividades humanas exageradas sobre a natureza. “A grande aceleração se encontra em estado crítico”, afirmaram Crutzen, Steffen e McNeill, porque 60% dos serviços fornecidos pelos ecossistemas terrestres já enfrentam degradação.

Vemos hoje uma combinação explosiva entre os dilemas da crise ecológica global e os dilemas da desigualdade global. Um grupo de 2 bilhões de pessoas dispõe de padrão de consumo elevado e se apropria dos consequentes benefícios materiais, enquanto 4 bilhões vivem na pobreza e 1 bilhão na miséria absoluta.

Numa terceira fase, a partir de 2000 ou, segundo alguns, de 2015, a humanidade toma consciência do Antropoceno. Na realidade, a partir dos anos 1980, os seres humanos começam a tomar progressivamente consciência dos perigos que sua atividade produtiva cada vez mais intensa gerava para o “sistema Terra”.

Trata-se de perigos para a própria humanidade que não poderia sobreviver com a destruição dos recursos naturais.

A humanidade teria três escolhas para a terceira fase da era antropocênica. A primeira consiste em manter as mesmas atitudes e esperar que a economia de mercado e o espírito humano de adaptação cuidem dos problemas ambientais. Esta opção oferece “riscos consideráveis” pois quando forem decididas medidas adequadas de combate aos problemas pode ser “tarde demais”.

A segunda opção, a de atenuação, tem por objetivo reduzir consideravelmente a influência humana sobre o planeta, por meio de uma melhor gestão ambiental, com novas tecnologias, uso mais sábio de recursos e restauração de áreas degradadas, mas isso requer “importantes mudanças no comportamento dos indivíduos e nos valores sociais”. A isto se denomina de autopoiese numa tradução livre das concepções dos sistemistas.

Caso isso não se prove possível, existe uma polêmica terceira opção, que é o uso de geo-engenharia para alterar o clima e combater o aquecimento global. Esta opção envolveria manipulações bastante poderosas e fragmentadas do meio ambiente em escala mundial, com o objetivo de contrabalançar as atividades humanas.

Já existem planos para reter o gás carbônico em reservatórios subterrâneos, ou espalhar na atmosfera partículas que reflitam a luz solar, refrigerando a temperaturas. Mas isso envolve elevados riscos, pois “o remédio pode ser pior que a doença”.

Referência:

** Artigos anteriores desta série:



Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Celebração da vida [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

in EcoDebate, 30/06/2016
"Antropoceno, Parte 3/3, artigo de Roberto Naime," in Portal EcoDebate, ISSN 2446-9394, 30/06/2016, https://www.ecodebate.com.br/2016/06/30/antropoceno-parte-33-artigo-de-roberto-naime/.

Antropoceno, Parte 2/3, artigo de Roberto Naime

[EcoDebate] O geólogo russo TER STEPANIAN (1970), num boletim do IAEG (International Applied Engineering Geologists) em 1970, propôs que o período geológico atual, denominado holocênico, fosse conhecido por Tecnógeno.

E o que significa tecnógeno? Uma fase da vida da humanidade sobre a Terra, onde a ação humana (antropogênica ou de engenharia) é hegemônica sobre as ações geológicas, químicas e biológicas.

O tecnógeno ou antropoceno é então uma ciência voltada para o futuro, preocupada em acompanhar as mudanças ambientais e risco naturais devido à lenta ação de fatores imperceptíveis, que são gerados pela atividade tecnogênica do homem.

São necessários novos padrões, onde não necessariamente equações lineares, oscilatórias ou equações muito simples podem servir de modelos para sistemas governados pela entropia, onde os processos de fluxo de energia e materiais são hegemônicos sobre as representações fenomenológicas.

O tecnógeno guarda implícito o conceito de que a resiliência dos meios naturais foi ultrapassada. Ou traduzindo, que a capacidade de auto-recuperação dos ecossistemas e dos sistemas em geral, não consegue mais agir para voltar ao estado anterior a um impacto ambiental sozinha. Precisa da ajuda do próprio homem que gerou o impacto ambiental.

Fazendo uma analogia com uma borrachinha de dinheiro usada pelos bancos, podemos entender assim. A gente espicha a borrachinha e enquanto ela não rebenta e volta ao normal quando a gente pára de espichar, a resiliência não foi ultrapassada. Quando a borrachinha rebenta, quer dizer que a resiliência ou capacidade de auto-regeneração do sistema foi ultrapassada.

Mais modernamente propõe-se, em data ainda controversa entre o início da revolução industrial e o final do século XX como o início do Antropoceno, a era de influência massiva da espécie humana, uma época de profundas mudanças climáticas e de transformações expressivas no modo em que vivemos em virtude das alterações no ambiente. Estamos tratando do caos da vida e precisamos entender o que representa a chegada do Antropoceno.

A agenda 21 brasileira, bases para discussão, publicada pelo Ministério do Meio Ambiente, discute desafios em vários setores relevantes da gestão de recursos naturais do país e de sustentabilidade em setores fundamentais.

Portanto a aceitação cada vez maior no meio acadêmico do conceito de tecnógeno traz como consequência principal o consenso de que atualmente as relações dos processos antropogênicos, ou seja gerados pelo homem (ou de engenharia, neste sentido, como estradas, pontes, barragens, lavouras, indústrias, esgotos e resíduos sólidos) naturais e induzidos são os processos dominantes no tecnógeno (ou antropoceno, como queiram).

Estes processos ultrapassam a capacidade da natureza se recuperar sozinha, impondo a necessidade da própria intervenção humana para auxiliar a recuperação da natureza e a manutenção do equilíbrio que é fundamental para a qualidade de vida do próprio homem na Terra.

As mudanças climáticas e a perda da biodiversidade já desencadearam um processo de destruição de recursos naturais que ameaça as condições de vida humana no planeta. Segundo Paul Crutzen, prêmio Nobel de Química 1995, já entramos em uma nova era geológica, o Antropoceno, em que o homem começa a destruir suas condições de existência no planeta.

Em 2002, o historiador John McNeill alertou em seu livro “Algo de Novo Sob o Sol” que a humanidade vem se aproximando perigosamente das “fronteiras planetárias”, ou seja, os limites físicos além dos quais pode haver colapso total da capacidade de o planeta suportar as atividades humanas. (Something New Under the Sun, McNeill, 2002).

Os eventos climáticos extremos não cessam de confirmar sua advertência, secas, inundações, desertificação, falta d’água, temperaturas excessivas, desastres naturais e refugiados ambientais.

Em setembro de 2009, um artigo da revista Nature (A safe operating space for humanity, Rockström et alii, 2009) afirma que pode estar sob grave ameaça a longa era de estabilidade, conhecida como Holoceno, em que a Terra foi capaz de absorver, de maneira mais ou menos suave, perturbações internas e externas.

Um novo período, o Antropoceno, vem emergindo desde a Revolução Industrial e seu traço característico é a centralidade das ações humanas sobre as mudanças ambientais globais.

O advento do Antropoceno traz consigo o fim da estabilidade geobiofísica do planeta, quebrando a matriz de estabilidade e linearidade que é o pressuposto para previsões do futuro com base em acontecimentos do passado.

A não linearidade é a nova realidade, porque é característica de sistemas complexos tais como os sistemas geobiofísicos. Como as fronteiras planetárias estão sendo ultrapassadas, a solução seria caminhar na direção de uma governança global que ultrapassasse os atuais limites de soberania para um sistema internacional baseado na pós-soberania.

No número de dezembro de 2007 da revista Ambio, Paul Crutzen detalha os impactos que marcam a entrada no antropoceno.

Com Will Steffen, especialista em problemas ambientais da Universidade Nacional de Canberra, Austrália, e John McNeill, professor de história na School of Foreign Service em Washington, publica um artigo intitulado “O antropoceno: os humanos estão prestes a fazer submergir as grandes forças da natureza?”.

Após ter modificado, nestes últimos cinqüenta anos, seu ambiente como nunca o fizera antes, perturbando o sistema climático e deteriorando o equilíbrio da biosfera, a espécie humana, transformada numa “força geofísica planetária”, deve agora agir muito rapidamente para limitar os desgastes.

De acordo com ele, essa era se iniciou por volta de 1800, com a chegada da sociedade industrial, caracterizada pela utilização maciça de hidrocarbonetos.

Desde então, não cessa de crescer a concentração de dióxido de carbono na atmosfera, causada pela combustão desses produtos. A acumulação dos gases do efeito-estufa contribui para o aquecimento global. A primeira fase do Antropoceno vai de 1800 a 1945 ou 1950 e corresponde, portanto, à formação da era industrial.

Referência:

** Artigo anterior desta série:


Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

in EcoDebate, 29/06/2016
"Antropoceno, Parte 2/3, artigo de Roberto Naime," in Portal EcoDebate, ISSN 2446-9394, 29/06/2016, https://www.ecodebate.com.br/2016/06/29/antropoceno-parte-23-artigo-de-roberto-naime/.

Antropoceno, Parte 1/3, artigo de Roberto Naime

[EcoDebate] “A influência da humanidade no Planeta Terra nos últimos séculos tornou-se tão significativa a ponto de constituir-se numa nova época geológica”

A afirmação é de Paul Crutzen, Prêmio Nobel de Química. Muitos anos antes o geólogo russo Ter Stepanian já havia previsto está efeméride.

A revolução neolítica há cerca de 10.000 anos transformava a espécie humana de coletora em produtora de alimentos. O ser humano deixava de garantir sua subsistência apenas pela caça e pela coleta de alimentos silvestres, como fazem os outros animais.

A espécie humana passa então a interagir com os meios físico e biológico, a partir do desenvolvimento da agricultura e da criação de animais. E mais tarde esta interação se revoluciona com o desenvolvimento da metalurgia do cobre, do bronze e do ferro.

A ocupação agrícola das bacias hidrográficas dos Rios Tigre e Eufrates, na antiga Babilônia, pela civilização suméria, representa um marco antropológico distintivo desta nova etapa da história da humanidade. Diferenciada pela sua disposição e capacidade de alterar as regras naturais do meio ambiente.

Ao final do século XVIII, a Revolução Industrial traz, como seu conteúdo mais espetacular, uma energia desenvolvimentista nunca vista antes, estabelecendo definitivamente as bases de uma relação utilitarista com a natureza, que perdura até hoje e cujos efeitos na área energética, por exemplo, são espetaculares e discutidos em capítulo próprio.

A dimensão geológica, que se diferencia das demais ocorrências pelo fator tempo, afinal o planeta Terra tem 4,5 bilhões de anos e qualquer processo geológico leva milhares ou milhões de anos para produzir seus efeitos notáveis.

Pois a ação humana consegue se igualar aos efeitos dos processos geológicos na magnitude e importância das modificações e de seus efeitos, mesmo em períodos de tempo muito mais curtos e reduz com isto, a capacidade de auto-regeneração dos sistemas.

Vários cientistas, como o famoso geólogo russo Ter Stepamian (1970), propõem que o período de tempo denominado Holoceno, do Quaternário superior, e que corresponde ao tempo medido desde a última glaciação, há cerca de 15.000 anos, seja considerado como a transição para um proposto período Quinário ou Tecnógeno.

Agora chamado de Antropoceno, tendo como característica diferenciadora a presença cada mais marcante e predominante da ação do homem (“processos tectogênicos”), sobre os demais processos naturais e inclusive geológicos.

Esta modificação é ressaltada inclusive pelo fato de que não existem mais áreas genuinamente Quaternárias intocadas pelo homem.

As modificações extensas produzidas pelo homem decorrem dos empreendimentos que modificam a natureza, desde os períodos nômades, quando os bandos viviam de caça, pesca e extrativismo, até as complexas sociedades urbanas, organizadas em metrópoles ou megalópoles altamente informatizadas, da forma que conhecemos hoje.

Por isso, a sociedade humana merece uma abordagem específica, pela complexidade que apresenta, pelas características que tem, pela profundidade das transformações que gera.

Muitos autores como Ter Stepaniam 1970 e outros enfatizam que devido ao fato de que nos períodos atuais a capacidade de modificação dos meios pelo homem é imensa e desmedida, denominam o período atual que vivemos como Tecnógeno, cuja principal característica e não mais permitir que a natureza seja capaz de se recuperar por si própria, mesmo em longos períodos de tempo.

Outro fato é o diagnóstico de que hoje não existem mais áreas sem interferência humana, de uma forma ou de outra, ainda que sejam áreas de preservação natural. Esta propriedade também caracteriza o Tecnógeno.

Segundo o Relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) de março de 2014, durante o século XXI os impactos das mudanças climáticas deverão reduzir o crescimento econômico, tornar mais difícil a redução da pobreza, agravar a insegurança alimentar e criar novas “armadilhas” de pobreza, principalmente em áreas urbanas e regiões castigadas pela fome.

Um aumento maior na temperatura do planeta acarretará danos consideráveis à economia mundial. As populações mais pobres serão as mais afetadas, pois a intensificação dos eventos climáticos extremos, dos processos de desertificação e de perdas de áreas agricultáveis levará à escassez de alimentos e de oferta de água potável, à disseminação de doenças e a prejuízos na infra-estrutura econômica e social.

A concentração de gases que produzem efeito estufa na atmosfera atingiu seus níveis mais elevados desde 800 mil anos, o que dá uma noção do impacto atual na biosfera.

Segundo os cientistas do IPCC, as mudanças climáticas trariam impactos graves, extensos e irreversíveis, se não forem “controladas”, o que supõe medidas impositivas e obrigatórias a serem adotadas.

Há um certo consenso de que o aumento da temperatura global não deve ultrapassar 2ºC, sob pena de consequências imprevisíveis no que se refere a eventos climáticos extremos, como secas, inundações, desertificação, calor intenso, redução da produção agrícola e aumento no preço dos alimentos.

Desde a Conferência Rio-92, a ação dos “céticos do clima”, muitos deles ligados ao poderoso lobby da indústria do petróleo, conseguiu barrar os avanços que seriam necessários para evitar a situação alarmante em que nos encontramos hoje. O atraso foi tamanho que há, entre os cientistas, os que temem uma elevação de temperatura de até 4ºC.

Um novo período, o Antropoceno, vem emergindo desde a Revolução Industrial e sua característica é a hegemonia e centralidade das ações humanas sobre as mudanças ambientais globais.

Referências:

TER STEPANIAN, G. Beginning of the Technogene. Bulletin IAEG, nº 1, ago. 1970.


Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Celebração da vida [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

in EcoDebate, 28/06/2016
"Antropoceno, Parte 1/3, artigo de Roberto Naime," in Portal EcoDebate, ISSN 2446-9394, 28/06/2016, https://www.ecodebate.com.br/2016/06/28/antropoceno-parte-13-artigo-de-roberto-naime/.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Climate resilient agriculture: educational/training posters series

Citation

CIAT. 2016. Climate Resilient Agriculture: educational/training posters series. Cali, CO: International center for Tropical Agriculture (CIAT). 34p.

Resumo
These posters are based on key messages derived from a sourcebook of reading/reference materials in a companion production entitled "Towards Climate Resilience in Agriculture for Southeast Asia - An Overview for Decision-makers". They were produced by CIAT with CCAFs funding for an FP1.1 project entitled “Integrated agricultural technologies for enhanced adaptive capacity and resilient livelihoods in climate-smart villages (CSVs) of Southeast Asia”. These posters are designed for use in training or educational events, primarily for starting discussions on important issues facing agriculture in a changing climate. The poster series cover a range of topics/ issues related to climate change in agriculture.They can be used one at a time, and not necessarily in any particular sequence. These pictures can also be enlarged to serve as educational posters, displayed one at a time. They can be used in power point presentations . The illustrations can serve as prototypes for local adaptation and further improvement by local artists. Any use of the illustrations should provide adequate credits to the source. The accompanying sourcebook can be found here: http://hdl.handle.net/10568/71100.

CGIAR Affiliations

Identifiers

Related material

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Pesquisa indica que preservação e regeneração de florestas secundárias pode mitigar os efeitos do aquecimento global

Science” publica pesquisa de docente da UFSB que mostra que preservação e regeneração de florestas secundárias pode mitigar os efeitos do aquecimento global

O estudo internacional é assinado por 60 cientistas, e um deles é o professor Daniel Piotto, pesquisador e docente na Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB)

Um artigo publicado na revista Science Advances nesta sexta-feira, 13, traz dados sobre o potencial de sequestro de carbono em florestas secundárias em 43 regiões da América Latina. O estudo internacional é assinado por 60 cientistas, e um deles é o professor Daniel Piotto, pesquisador e docente na Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB).

O trabalho estimou as áreas com menos de mil metros de altitude cobertas por florestas secundárias (entre 0 e 60 anos de idade) em 43 regiões da América Latina. Com isso, a equipe calculou o potencial de estoque de carbono nessas florestas jovens, criando uma projeção assumindo que essas matas sejam mantidas intactas nos próximos 40 anos. “Estoque de carbono”, neste caso, indica o acúmulo desse elemento em raízes, tronco, galhos e folhas das árvores ao longo da vida. Isso ocorre por meio do processo de fotossíntese, durante o qual os vegetais “consomem” dióxido de carbono, o gás carbônico, e liberam oxigênio.

Dentre os países estudados, o Brasil lidera em termos de potencial de sequestro de carbono em florestas secundárias, detendo 71% do total estimado, seguido pelo México, Colômbia, Venezuela, Bolívia e Peru. Os dados se referem a áreas florestais e campos agrícolas abandonados, conforme medição em 2008.

A projeção apresentada no estudo considera que, se essas florestas secundárias forem totalmente preservadas, o total de dióxido de carbono, ou gás carbônico, retirado da atmosfera em 2048 por essas matas equivaleria a todas as emissões desse gás, da queima de combustíveis fósseis aos processos industriais, em todos os países da América Latina e do Caribe de 1993 a 2014 – um total de 22 anos de lançamento massivo de carbono em mais de 30 países.

A regeneração de florestas ajuda a reduzir a quantidade de gás carbônico na atmosfera, mas não o bastante para retirar a necessidade de redução das emissões de gases de efeito estufa. Além disso, áreas de floresta contribuem para a regulação do ciclo hidrológico. Isso implica, entre outros benefícios, a regulação de regimes de chuvas, o que interessa a todos, no meio rural e nas cidades.

O artigo pode ser acessado neste link: http://advances.sciencemag.org/content/2/5/e1501639

Fonte: Universidade Federal do Sul da Bahia / Jornal da Ciência

in EcoDebate, 17/05/2016