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terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Pobreza está cada vez mais concentrada em grupo de 48 países, alerta UNCTAD

Fonte: ONU BR - Segunda-feira, 19 de Dezembro de 2016 


A pobreza global está cada vez mais concentrada em um grupo de 48 países que estão ficando para trás na comparação com o restante do mundo em termos de desenvolvimento econômico, de acordo com relatório publicado nesta terça-feira (14) pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD).O relatório afirma que a meta global de reduzir o tamanho do grupo de países menos desenvolvidos (LDCs, na sigla em inglês) não será alcançada a não ser que a comunidade internacional tome ações mais efetivas.

A lista inclui Afeganistão, Angola, Bangladesh, Benin, Butão, Burkina Faso, Burundi, Camboja, República Centro-Africana, Chade, Comores, República Democrática do Congo, Djibuti, Guiné Equatorial, Eritreia, Etiópia, Gâmbia, Guiné, Guiné-Bissau, Kiribati, Haiti, Laos, Lesoto, Libéria, Madagascar, Malawi, Mali, Mauritânia, Moçambique, Myanmar, Nepal, Níger, Ruanda, São Tomé e Príncipe, Senegal, Serra Leoa, Ilhas Salomão, Somália, Sudão do Sul, Sudão, Timor-Leste, Togo, Tuvalu, Uganda, Tanzânia, Vanuatu, Iêmen e Zâmbia.

“É nesses países que a luta global pela erradicação da pobreza será vencida ou perdida”, disse o secretário-geral da UNCTAD, Mukhisa Kituyi, no lançamento do documento. “Um ano atrás, a comunidade global concordou em ‘não deixar ninguém para trás’, mas isso é exatamente o que está acontecendo nos países menos desenvolvidos”.

A proporção de pobres no grupo de 48 países menos desenvolvidos mais do que dobrou desde 1990, para bem acima de 40%. A participação daqueles sem acesso a água também dobrou para 43,5% no mesmo período. Esses países agora respondem pela maioria (53,4%) das 1,1 bilhão de pessoas no mundo que não têm acesso a eletricidade, um aumento de dois terços.

Em seis países desse grupo a taxa de pobreza extrema está entre 70% e 80%, e em dez deles esse percentual está entre 50% e 70%. Há apenas quatro outros países no mundo onde a taxa está acima de 30% e em nenhum lugar está acima de 50%.

Isso faz com que o grupo dos países menos desenvolvidos fique numa “armadilha da pobreza”, um ciclo vicioso no qual a pobreza leva à baixa nutrição e saúde, à falta de educação, minando a produtividade e o investimento. Isso bloqueia o desenvolvimento sustentável necessário para reduzir a pobreza.

Os países só poderão quebrar esse ciclo vicioso com apoio internacional em finanças, comércio e tecnologia. A categoria de países menos desenvolvidos foi criada justamente para atrair tal apoio para aqueles que mais precisam.

Os países podem sair da lista ao atingir uma série de indicadores econômicos e sociais. Mas apenas quatro foram retirados em 45 anos desde que a classificação foi criada. Em 2011, a comunidade internacional estabeleceu a meta de reduzir o número de países no grupo até 2020. Mas na metade do caminho, esse objetivo parece estar longe de ser atingido, disse a UNCTAD.

Apenas um país (Samoa) saiu do grupo desde 2011; e outros três (Guiné Equatorial, Vanuatu e Angola) devem fazê-lo nos próximos anos. O relatório projeta que apenas outros 13 países irão se qualificar para sair do grupo até 2021, bem menos que os 21 necessários para atingir a meta em 2020.

As dificuldades em conseguir se retirar do grupo ou atingir o desenvolvimento de longo prazo apontam para a inadequação das medidas de apoio internacional ao desenvolvimento desses países, segundo a UNCTAD.

O relatório pede, então, melhoras em tais medidas, como atingimento das metas de doações para a assistência aos países menos desenvolvidos, mais isenções tributárias para as exportações dessas nações e esforços renovados para acabar com o impasse sobre tratamento especial desses países na Organização Mundial do Comércio (OMC).

Outras medidas citadas pelo documento são o melhor monitoramento das transferências tecnológicas para as nações mais pobres e a implantação de um processo mais gradual de retirada desses países da lista, para limitar o impacto da perda de apoio internacional uma vez que saem do grupo.

Link:

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Comunidade científica considera a aprovação da pec 55 um retrocesso para o desenvolvimento do país

Por Daniela Klebis e Viviane Monteiro – Jornal da Ciência/SBPC

Presidente da SBPC, Helena Nader, diz lamentar que governo brasileiro insista em tratar educação, saúde, ciência, tecnologia e inovação como gastos: “Cada real colocado nessas áreas, retorna de forma fantástica no desenvolvimento econômico e social do País”

Dirigentes de educação e ciência, tecnologia e inovação avaliam que a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) nº 55, que corrige o orçamento da União pela inflação congelando os recursos por duas décadas, representa “um profundo” retrocesso para a educação, a saúde, e a CT&I.

“Novamente, o Parlamento brasileiro virou as costas para o povo brasileiro”, lamenta a presidente da SBPC, Helena Nader. Segundo ela, é uma vergonha que o governo brasileiro insista em tratar educação, saúde, ciência, tecnologia e inovação como gastos. “Qualquer país com democracia verdadeira sabe que se trata de investimento. Cada real colocado nessas áreas retorna de forma fantástica no desenvolvimento econômico e social do País. Na minha visão pessoal, de cidadã brasileira, é uma vergonha ter sido aprovada essa PEC do retrocesso para as áreas de saúde, CT&I e educação”, afirma.

A chamada PEC dos Gastos, que institui um novo regime fiscal do País, foi aprovada, no segundo turno, por volta de 13h30 desta terça-feira (13), no plenário do Senado Federal, com 53 votos a favor e 16 contrários. A medida será promulgada pela Presidência do Senado Federal na quinta-feira (15), em sessão solene do Congresso Nacional, às 9 horas. A oposição apresentou destaque para deixar de fora dos impactos da PEC os orçamentos em saúde e educação, mas a decisão foi rejeitada por 52 votos, contra 19 a favor. O teto do gasto durará pelo menos dez anos.

Para a presidente do Conselho de Secretários Estaduais para Assuntos de Ciência, Tecnologia e Inovação (Consecti), Francilene Garcia, a implementação da PEC nº 55 tende a limitar o crescimento competitivo do País e que, provavelmente, fará com que o Brasil recue em vários avanços, obtidos nas últimas duas décadas, na infraestrutura de CT&I e nas contribuições que a ciência vem dando em várias áreas. Para Garcia, a PEC deve comprometer ainda a perspectiva de futuro de uma juventude que precisa “ser posicionada a tempo”.

Na observação de Garcia, ainda não está claro em que patamar o orçamento da área de CT&I, do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), será corrigido pela inflação pelos próximos 20 anos, até porque a verba da área apresenta contingenciamentos consideráveis todos os anos, principalmente a do Fundo de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT).

Garcia lembrou que na reunião do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia (CCT), realizada em 10 de novembro, o ministro da Fazenda Henrique Meirelles, afirmou que seriam encaminhados à área de CT&I R$ 1, 5 bilhão dos recursos repatriados do exterior.

Pela proposta de lei orçamentária (PLOA), aprovado na Comissão Mista de Planos, Orçamentos Públicos e Fiscalização, na quinta-feira, 08, de dezembro (disponível aqui), o orçamento FNDCT para o próximo ano é de R$ 2,698 bilhões, um acréscimo de 1,31% sobre o valor autorizado de R$ 2,663 bilhões em 2016. Trata-se do menor valor desde 2013, quando o montante autorizado somou R$ 3,758 bilhões.

in EcoDebate, 15/12/2016

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Desigualdade social é principal motivo de mortes por uberculose

Mesmo estando disponíveis no Brasil, recursos para prevenção e tratamento da doença não alcançam a população com maior vulnerabilidade social
Foto: Leon Rodrigues/Secom/PMSP

Estudo realizado pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da USP em parceria com o Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT) de Lisboa, Portugal, aponta que a desigualdade social tem forte impacto na mortalidade por tuberculose.

De acordo com dados do Ministério da Saúde, o Brasil ocupa a décima oitava posição no ranking entre os 22 países que concentram 80% dos casos de tuberculose, com 73 mil novos diagnósticos e 4.477 mortes por ano. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), esses números são injustificáveis, pois o sistema de saúde do Brasil possui todos os recursos necessários para o diagnóstico e tratamento da doença.

Para entender esse descompasso, o professor Ricardo Alexandre Arcêncio, da EERP, e a professora Inês Fronteira, do IHMT, iniciaram estudo para saber quais os motivos que levam a tuberculose a fazer tantas vítimas. Os resultados mostraram que a causa não é única. O fator mais relevante é a falta de acesso aos recursos da área da saúde, que, mesmo existentes, não alcançam a população com maior vulnerabilidade social, consequentemente, a mais atingida pela doença.

Multidroga-resistência

A multidroga-resistência acontece quando o bacilo (bactéria) se torna resistente aos dois principais medicamentos para tratamento da doença. A ciência já comprovou que, atualmente, isso acontece em várias doenças, inclusive a tuberculose, e se dá por conta do uso indiscriminado de antibióticos. Outro fator que leva à multidroga-resistência da tuberculose é a falta de investimentos da indústria farmacêutica, como relata Arcêncio. “Como é uma doença da pobreza, a indústria farmacêutica não está interessada em desenvolver novos fármacos para a tuberculose.”


A medicina está utilizando os mesmos antibióticos de 1960.”

Outro dado apontado pelo estudo dos pesquisadores lusófonos é a relação direta da tuberculose com o vírus do HIV. Dos 22 países que mais têm concentração de pessoas com tuberculose, quase todos também têm um quadro preocupante de HIV. “O HIV é fator de risco para o desenvolvimento da tuberculose, que é uma doença oportunista”, explica o professor.
Compromisso de diminuição de 95% dos casos

Recentemente, o Brasil firmou compromisso com a OMS de reduzir, até 2035, 95% dos óbitos por tuberculose por meio da estratégia Fim da TB. No entanto, para os pesquisadores, isso é pouco provável de se concretizar. Segundo Arcêncio, o estudo evidenciou a dificuldade dos municípios de conseguir alcançar essa meta, uma vez que a redução do número de óbitos caminha a passos mais lentos do que prevê a OMS. “Se continuarmos nesse ritmo, essa meta será atingida apenas em 2200”, alerta o professor. Para a professora Inês, a intervenção deve ser também social e não apenas no tratamento.


Melhorar a qualidade de vida das pessoas e os quadros de desvantagem social e pobreza é o ponto principal.”

A pesquisadora é enfática ao afirmar que essas melhorias não afetariam somente a tuberculose, mas outras doenças negligenciadas, como o HIV, por exemplo. “Se melhorar a qualidade de vida, como o saneamento básico e as condições de moradia, já diminuiria entre 20% e 30% a taxa de mortalidade, como mostra o projeto”, afirma o professor Arcêncio.
PALOPs

Orientadora de trabalhos em países africanos de língua portuguesa (PALOPs) em parceria com o IHMT, a professora se diz preocupada com o cenário que encontra nesses lugares. Segundo a pesquisadora, o coeficiente de incidência da tuberculose em Angola e Moçambique, por exemplo, chega a 400 casos por 100 mil habitantes, enquanto no Brasil a média é de 40.

A pesquisadora ainda participou de intervenções na África Austral, Angola e Moçambique, para incentivar essas regiões a adotarem os padrões mínimos de abordagem da tuberculose e outras doenças. Informações sobre identificação dos casos, encaminhamento e diagnóstico são os principais pontos abordados nos trabalhos realizados e orientados por Inês nesses países.

Com o objetivo de contribuir com a formação dos profissionais desses países, Inês lembra sobre a importância que pesquisas na área da saúde têm para aquelas populações. “Temos uma aluna que vai apresentar a situação epidemiológica da tuberculose na Luanda, capital da Angola. É um estudo basicamente simples, em que ela analisou quantos casos existem, de onde as pessoas vêm, quais são as características. Pode parecer um estudo muito básico, mas nesses países, onde não há essas informações, esse estudo tem uma relevância muito grande.”

Inês Fronteira faz parte do IHMT, do Centro Colaborador da OMS para a Política de Pessoal de Saúde e Planejamento e da Associação de Gestão de Saúde da Europa. Esse estudo é realizado por meio do Projeto Regular da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) em desenvolvimento atualmente em parceria com o Instituto de Higiene e Medicina Tropical (Universidade Nova de Lisboa-Portugal) e Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da USP, denominado A mortalidade por tuberculose e sua relação com iniquidades sociais: um estudo multicêntrico.

Stella Arengheri, de Ribeirão Preto

Do Jornal/Agência USP, in EcoDebate, 06/10/2016

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Lei estadual que privatiza parques em São Paulo ameaça meio ambiente e populações tradicionais, alerta MP

Assunto foi debatido em reunião com representantes de comunidades tradicionais, indígenas e o Instituto Socioambiental

A promulgação da Lei 12.260/2016, que autoriza a concessão de 25 parques estaduais de São Paulo à iniciativa privada, preocupa comunidades tradicionais e populações indígenas que vivem nos locais. Atualmente, já foram identificados pelo menos quatro grupos da etnia Guarani e diversas comunidades quilombolas, extrativistas e caiçaras cujos territórios incidem sobre as áreas dos parques ou seus entornos.

Para debater o assunto e buscar soluções que garantam o direito desses povos, as Câmaras de Meio Ambiente e Patrimônio Cultural e de Populações Indígenas e Comunidades Tradicionais do MPF se reuniram nessa terça-feira, 16 de agosto, com representantes de comunidades tradicionais, indígenas e o Instituto Socioambiental (Isa).

O que se espera é que a privatização dos parques não inviabilize o modo de vida das comunidades, já que a lei não específica qual seria a destinação do uso dos parques. “A concessão é geral, irrestrita e abre precedentes para que o mesmo ocorra em outras partes do país. Nossa preocupação é com a questão do impacto ambiental e do impacto sobre os povos e comunidades tradicionais”, alerta o diretor do Isa, Maurício Guetta.

A lei autoriza prazo de concessão dos parques estaduais por até 30 anos para “a exploração dos serviços ou o uso de áreas inerentes ao ecoturismo e à exploração comercial madeireira ou de subprodutos florestais”. O líder indígena Davi Guarani teme que as comunidades sejam retiradas dos parques. “Os Guarani têm relação direta com a Mata Atlântica. A gente vive daquela mata, tiramos ervas, cascas para fazer cerimônias e rituais. Além disso, não fomos consultados sobre a concessão”, afirmou.

A convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, assinada pelo Brasil, prevê que comunidades indígenas e povos tribais sejam consultados quanto a empreendimentos que os impactem.

Segundo a procuradora regional da República Maria Luiza Grabner, que acompanha o caso, a falta de consulta e diálogo com as comunidades é grave falha do projeto. “A lei já é um fator de desestabilização muito grande para esses povos, que vivem em área de dupla afetação (Unidades de Conservação em convergência com comunidades tradicionais), e agora vem como um rolo compressor”, explica.

O coordenador da 6ª Câmara, subprocurador-geral da República Luciano Mariz, informou que as autoridades competentes do Estado de São Paulo serão procuradas e alertadas quanto a aspectos relacionados à inconstitucionalidade da lei e à necessidade de garantia de direitos dos povos indígenas e comunidades tradicionais, especialmente porque está aberta a discussão da regulamentação da lei.

Fonte: Procuradoria-Geral da República

in EcoDebate, 19/08/2016

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Biodiversidad 89 / 2016-3

En el mundo crece la violencia. El asesinato y las desapariciones se vuelven un signo ominoso de los días. La represión se hace abierta, a veces dirigida y a veces confusa, genérica, masiva, siempre a mansalva. Los acuerdos de libre comercio, el sistema agroalimentario industrial, los derechos de propiedad intelectual sobre las semillas y la vida misma, el acaparamiento de tierras, el sometimiento de las mujeres a designios patriarcales e injustos, las devastaciones que se suman, amenazan el futuro común que nos merecemos. Pero la gente sigue buscando cuidar, entender, compartir, procurar, abrazar, impulsar, procrear, alimentar, imaginar, entender junta, responsabilizarse e implicarse, reproducir y cuidar la vida en toda la extensión de la palabra. Para eso está la Biodiversidad, con su información y su razonamiento compartido.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

O que a sociedade tem a dizer aos indígenas que foram explorados durante o desenvolvimento do MS?

O que a sociedade tem a dizer aos indígenas que foram explorados durante o desenvolvimento do Mato Grosso do Sul? Entrevista especial com Marco Antonio Delfino de Almeida

“Os indígenas ocupam hoje, sem qualquer pendência judicial ou ameaça, os mesmos 30 mil hectares que ocupavam em 2012. Logo, o quadro de resolução que se esperava dessa questão não avançou”, afirma o procurador do Ministério Público Federal de Mato Grosso do Sul.

Os conflitos fundiários envolvendo índiosGuarani-Kaiowá e produtores rurais emCaarapó, em Mato Grosso do Sul, no último mês de junho, demonstram que há uma “denegação da realidade”, que está na origem dos impasses entre as comunidades indígenas, a sociedade civil e o Estado brasileiro, que não reconhecem os índios como integrantes da sociedade, diz Marco Antonio Delfino de Almeida àIHU On-Line, na entrevista a seguir, concedida por telefone.

De acordo com o procurador do Ministério Público Federal de Mato Grosso do Sul, que atua na região e acompanha a situação das comunidades indígenas no estado desde 2008, “hoje o quadro deconflitos é muito pior do que há oito anos”, e no recente conflito no município de Caarapó, “o que houve, efetivamente, foi um ataque a uma população civil desarmada. E, ainda, foram dados alguns tiros pelas costas, o que demonstra que havia, sim, a intenção deliberada de matar essas pessoas”, afirma.

Dada a situação atual, ele adverte que “o que temos que avaliar é se, efetivamente, todo esse movimento de denegação de direitos e de mudanças na legislação está contribuindo para uma resolução ou para um agravamento da situação. (…) Infelizmente, o que está posto é um quadro de insegurança coletiva não apenas de indígenas, mas também de produtores rurais”.

Almeida frisa ainda que o fato de os indígenas reivindicarem outros direitos “não faz com que eles não devam ter acesso à terra”. Ele lembra também que a “terra que é devolvida às comunidades indígenas não é aquela que eles tinham anteriormente, ou seja, é uma terra muito degradada. Mas quando se dá a terra a eles, o Estado simplesmente lava as mãos e diz que cumpriu seu papel”. Contudo, adverte, é preciso pensar no dia seguinte, porque “eles são colocados numa área que não tem recursos naturais, sem recursos financeiros, então são comunidades vulneráveis que acabam sendo cooptadas por vizinhos e passam por um processo nefasto de arrendamento, de precarização de relações trabalhistas, ou seja, vivem num cenário que não é diferente do que eles tinham antes. Mas o Estado tem de garantir o “day after” [dia seguinte] porque, do contrário, ficará perpetuando pré-conceitos”.

Na entrevista a seguir, Delfino comenta a atual situação das comunidades indígenas no Estado e reflete sobre a maneira de garantir com que a Constituição e a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho – OIT sejam cumpridas, conforme determina a lei.

Marco Antonio Delfino de Almeida (foto) é procurador do Ministério Público Federal de Mato Grosso do Sul, graduado em Ciências Jurídicas pelo Centro Universitário de Campo Grande – Unaes e mestre em Antropologia pela Universidade Federal da Grande Dourados.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Na entrevista que nos concedeu, em 2012, o senhor mencionou que 40 mil indígenas ocupavam uma superfície de 0,1% do território sul-mato-grossense, cerca de 30 mil hectares. Qual é a situação hoje e o que tem acontecido em relação aos indígenas nesses últimos quatro anos?

Marco Antonio Delfino de Almeida –Infelizmente, a mudança foi muito pequena. Houve um aumento populacional da comunidade indígena e, apenas em Dourados, tem um acréscimo de 400 pessoas por ano. Em termos fundiários, houve um avanço para os Guarani-Kaiowá em relação à terra de Yvi Katu, a qual ocupam integralmente e tem cerca de sete mil hectares, e em relação à terra de Ñande Ru Marangatu, a qual tem em torno de nove a dez mil hectares, mas a comunidade ocupa parte dela. Então, esses acréscimos estão muito mais ligados a uma relação de conflito do que derivados de um processo administrativo de concessão ou autorização judicial.

O dado mais complicado nesse processo é que, embora a ocupação dessas terras tenha ocorrido, ela está sob condução suspensiva do Supremo Tribunal Federal, porque a demarcação é baseada em uma decisão do Supremo. Portanto, do ponto de vista de “posse mansa e pacífica”, não houve alteração; os indígenas ocupam hoje, sem qualquer pendência judicial ou ameaça, os mesmos 30 mil hectares que ocupavam em 2012. Logo, o quadro de resolução que se esperava dessa questão não avançou.

IHU On-Line – Quantas comunidades indígenas existem em Mato Grosso do Sul e quais são as que mais enfrentam situações de conflito? Pode nos dar um panorama da situação dessas comunidades?

Marco Antonio Delfino de Almeida – Historicamente, existem oito reservas que foram criadas na época do SPI [Serviço de Proteção aos Índios], entre 1915 e 1935, outras terras indígenas foram identificadas posteriormente. Em termos concretos, posso dizer que a última terra indígena homologada, a qual os indígenas ocupam plenamente, é a terra de Panambizinho, homologada em 2005. Em 2007, houve uma decisão judicial e os indígenas passaram a ocupar integralmente a área Sucuruí. Depois, em 2013, a decisão do Ministro Joaquim Barbosa também permitiu a posse integral dos indígenas à área Yvi Katu. Mais recentemente, em 2015, foi homologada a decisão da posse plena da área Ñande Ru Marangatu. Mas, como eu disse, as decisões de 2007, 2013 e 2015, eventualmente, não são definitivas. A única decisão que entendemos ter o grau de definitividade é a de 2005, em que os índios permanecem na área sem qualquer ameaça significativa à posse plena das suas terras.

Denegação da realidade

Dentro desse quadro, alguns dados precisam ser colocados. Um deles é a causa do conflito, que tem origem na denegação da realidade. Em termos práticos, hoje, o quadro de conflitos é muito pior do que há oito anos. Então, o que temos que avaliar é se, efetivamente, todo esse movimento de denegação de direitos e de mudanças na legislação está contribuindo para uma resolução ou para um agravamento da situação. Esse é um dado que tem de ser posto: até que ponto as decisões judiciais e as iniciativas legislativas contribuem não para uma resolução, mas efetivamente para um acirramento e um agravamento de tensões? Infelizmente, o que está posto é um quadro de insegurança coletiva não apenas de indígenas, mas também de produtores rurais.

“Quando se tinha que abrir fazendas, as pessoas iam pegar os índios dentro das reservas, quando as indústrias precisavam de mão de obra escrava para trabalhar na produção de álcool, elas sabiam exatamente o endereço das comunidades indígenas. Então, como agora os índios não existem e são índios que foram trazidos do Paraguai?”

Exploração indígena em Mato Grosso do Sul

A realidade econômica sul-mato-grossense foi calcada na mão de obra indígena. Inicialmente pelo processo da Companhia Matte Laranjeira, com a extração de mate, a qual era realizada com mão de obra indígena, mão de obra essa que, na maior parte das vezes, residia dentro das próprias fazendas, o que facilitava o processo de extração. Posteriormente, os indígenas atuaram de uma forma intensa na abertura das fazendas – chamam por esse nome muito bonito de “abertura de fazenda”, quando na verdade se trata de derrubada de mata. Na década de 1960, 1970, os indígenas eram como “tratores humanos”, e isso é duplamente nefasto porque eles contribuíram diretamente para descaracterização dos seus próprios territórios.

O Tonico Benites [Ava Guarani], pós-doutorando em Antropologia, já disse que trabalhou em fazendas na derrubada de matas, assim como vários outros indígenas que de alguma forma contribuíram para que seu próprio território fosse ocupado pelas fazendas. Posteriormente vieram a trabalhar na indústria sucroalcooleira, onde, majoritariamente, a mão de obra era indígena e quase escrava. Famílias inteiras se deslocavam para esses empreendimentos sucroalcooleiros, sem qualquer tipo de direito trabalhista. Para termos uma ideia, em 1999 é que houve um acordo com o Ministério dPúblico do Trabalho para que houvesse a concessão de Carteira de Trabalho – não estamos falando de 1899, mas de 1999.

É interessante, nesse processo de denegação da realidade, que, dificilmente, você encontrará uma pessoa em Mato Grosso do Sul, com mais de 50 anos de idade, fazendeiro, que não tenha utilizado, em algum momento, mão de obra indígena em sua fazenda, que não tenha arregimentado as denominadas “tropas de índios” para trabalhar em algum aspecto da sua atividade produtiva. Agora, são essas mesmas pessoas que denegam a existência desses indígenas. Enquanto eles foram úteis, eram considerados pessoas, mas a partir do momento em que passaram a reivindicar direitos, passaram a ser invisibilizadas. Quando se tinha que “abrir fazendas”, as pessoas contratatavam os índios dentro das reservas, quando as indústrias precisavam de mão de obra escrava para trabalhar na produção de álcool, elas sabiam exatamente a localização das comunidades indígenas. Então, como agora os índios não existem e são índios que foram trazidos do Paraguai? Esse processo de negação da realidade contribui claramente para o acirramento de conflito.

Reconciliação com o passado

É importante que nós façamos as pazes com o passado, que reconheçamos esse nosso passado genocida. O brasileiro tem muito essa ideia da cordialidade, de que somos bonzinhos, vivemos em uma democracia racial, quando na verdade, pelo menos em termos objetivos,temos a menor população indígena percentual das Américas. E talvez o caso seja mais grave em relação ao Chile e à Argentina. Estes países empreenderam campanhas armadas, já no final do século XIX, contra populações indígenas. Ora, nós temos menos indígenas, em números absolutos, que a Argentina e o Chile. Então,me parece que só não implementamos de uma maneira mais plena uma política indigenista denegadora de direitos por uma questão de incapacidade de gestão.

Os indígenas só tiveram o reconhecimento das terras na Amazônia porque, felizmente, o processo de colonização da Amazônia se iniciou na década de 1970. Quando houve a sua intensificação na década de 80, controles externos já existiam; não há como negar. Talvez o governo esqueça esse pequeno dado, mas a maior parte das terras amazônicas foram demarcadas com dinheiro do Banco Mundial, ou seja, com determinação do Banco Mundial, via condicionantes de repasses de recursos relacionados à demarcação de terras indígenas, especialmente depois da implantação doPolonoroeste [Programa Integrado de Desenvolvimento do Noroeste do Brasil], na década de 80, que incluiu a construção darodovia Cuiabá—Porto Velho, que foi um desastre.

O próprio Banco Mundial, finalmente, verificou a besteira que fez, publicando um relatório em que afirmava que medidas adicionais teriam que ser implementadas, e procurou, de uma forma ou de outra, contornar esse desastre que causou, que foi o extermínio de populações e desmatamento em razão de um empreendimento absurdamente mal planejado. Por conta desse empreendimento, no final da década de 80, é que houve toda uma pressão para que as terras indígenas fossem demarcadas. Portanto, nós demarcamos terras indígenas não porque somos bons, mas porque houve uma pressão internacional para que isso fosse realizado. Logo, a maior parte dessas terras indígenas na Amazônia decorre de pressão internacional, especificamente de recursos do Banco Mundial, do PILOT PROGRAM TO CONSERVE THE BRAZILIAN RAIN FOREST INDIGENOUS LANDS PROJECT. Se não houvesse pressão internacional, nós teríamos o mesmo quadro que temos em Mato Grosso do Sul: um quadro de denegação territorial aos povos indígenas, onde exemplos como o Parque Nacional do Xingu.são exceções.

Reconhecimento de erros

É importante que façamos a devida reparação das violações que foram cometidas, como outros países já fizeram. Volta e meia esse discurso absolutamente racista me é falado: “Nós deveríamos fazer o mesmo processo que houve nos Estados Unidos”. Os Estados Unidos, felizmente, não eram uma sociedade ágrafa como o Brasil era no século XIX, então, minimamente lá havia registros. Muitas vezes o que é colocado como um massacre é um registro de ações que ocorreram de forma semelhante no Brasil, mas que aqui não foram registradas e documentadas. Resultado: hoje os Estados Unidos têm uma população de 2,5 milhões de indígenas, enquanto o Brasil tem 800 mil. Portanto, onde houve uma atuação mais forte, mais direcionada e voltada para o extermínio? E, minimamente, nos Estados Unidoshouve reconhecimento, ainda que de forma econômica, dos erros que foram cometidos: eles reconheceram que erraram na elaboração dos tratados, que enganaram os índios na hora de assinar os tratados e decidiram recompensá-los financeiramente por esse erro. Podemos citar dois exemplos: A Indian Claims Commisions, inciadas em 1946 e a recente indenização pela gestão inadequada do patrimônio indígena pelo BIA (a agência indígena americana). OCanadá também reconheceu que tentou exterminar os índios e promoveu as medidas necessárias para que esse erro fosse reparado. Na Austrália e naGuatemala, aconteceu a mesma coisa.

No Brasil, se fica com essa ilusão tropicalista de que somos cordiais, de que respeitamos a diversidade, quando a realidade caminha em outra direção. Enquanto não fizermos, de uma forma muito clara, as pazes com o passado, que é um processo inerente à justiça de transição – o levantamento das reparações –, enquanto a verdade não emergir disso, enquanto nós, efetivamente, não demonstrarmos todas as violações que ocorreram, teremos dificuldade com o presente e muito mais com o futuro.

“Os Estados Unidos têm uma população de 2,5 milhões de indígenas, enquanto o Brasil tem 800 mil” 

IHU On-Line – Quais são as principais terras que os Guarani-Kaiowá reivindicam como sendo suas em Mato Grosso do Sul?

Marco Antonio Delfino de Almeida – Em 1978 havia uma determinação para que houvesse a demarcação das terras indígenas em cinco anos, mas isso não aconteceu e essa data foi sendo adiada. Aí foi feito – o que considero uma excrescência, mas que foi o possível de ser feito à época – um acordo para que a União cumprisse seu dever. O exótico desse compromisso é que, via de regra, esses compromissos são feitos para cumprimento de legislação infraconstitucional, mas estamos falando de um acordo para cumprir a Constituição, e isso não é cumprido. É uma coisa quase que surreal. Aí se teve que entrar na Justiça para executar uma obrigação que é constitucional de demarcar terras indígenas.

Hoje existem vários GTs que correspondem às terras que as comunidades reivindicam; eles ainda não foram encerrados e visam, justamente, identificar quais são essas terras. Os GTs são divididos por bacias hidrográficas: GT TI Amambaipeguá, GT TI Dourados Amambaipeguá, GT Apapeguá, TI Iguatemipeguá, TI Dourados Peguá, a TI Brilhante Peguá e a TI Nhandéva Peguá. A partir do trabalho desses GTs se identificam quais são as áreas que eram ocupadas pelos povos indígenas. Esse processo foi feito em 2007, no âmbito desse Compromisso de Ajuste de Conduta, mas infelizmente, até o momento, ele não foi implementado.

IHU On-Line – Na semana passada houve um ataque de pistoleiros armados contra a comunidade da terra indígena Dourados-Amambai Peguá, localizada no município de Caarapó. Alguns já falam em massacre indígena. Quais as informações que o senhor tem sobre o massacre contra Guarani-Kaiowá no mês de junho e qual é a situação das comunidades no momento?

Marco Antonio Delfino de Almeida – Houve a ocupação por parte dos indígenas, no dia 12 de junho, de uma fazenda chamada Ivu, que é lindeira à reserva Te’ýikue e está dentro da área identificada como Terra Indígena Dourados Amambaipeguá, que é uma terra indígena de 55 mil hectares. No dia 13 houve um processo de negociação entre produtores rurais e os ocupantes para desocupação pacífica, e os indígenas se recusaram a sair. Houve uma discussão e, supostamente – isso está sendo apurado –, uma ameaça, pois não havendo desocupação pacífica, a retirada seria feita de forma forçada. No dia seguinte, dia 14, uma grande massa de produtores rurais voltou a essa área da fazenda Ivu e promoveu adesocupação forçada dos indígenas. Uma parte deles utilizou armamento não letal como balas de borracha e fogos de artifício, mas também foi usado armamento letal, e isso acabou vitimando um indígena – Clodiode Aquileu Rodrigues de Souza – e pelo menos mais seis pessoas foram atingidas por arma de fogo. Nós temos imagens que mostram que a comunidade indígena estava desarmada, mas, paralelamente, do outro lado, havia armas. O que houve, efetivamente, foi um ataque a uma população civil desarmada. E, ainda, foram dados alguns tiros pelas costas, o que demonstra que havia, sim, a intenção deliberada de matar essas pessoas. Não se trata de uma situação relacionada a um eventual susto, mas a intenção de que houvesse a morte dessas pessoas.

Dentro desse mesmo cenário, foi apurado que uma viatura da Polícia Militar, que se deslocava em momento posterior a esse ataque, em torno de 1h depois, teve o pneu furado e enquanto tentava consertar o pneu, foi mantida como refém, não só ela, mas três policiais e uma quarta pessoa que era o motorista de uma carreta e que se encontrava ali. Também foi apurado que essas pessoas foram torturadas e jogaram gasolina nelas. São dois fatos, ainda que interligados, mas que ocorreram em cenários distintos e temporalmente separados. Em ambos os casos nós já temos indícios relevantes de autoria e estamos trabalhando, obviamente, com a Polícia Federal e com a Justiça para responsabilização de todas as pessoas, tanto as pessoas que cometeram os primeiros crimes – porque são vários -, quanto as pessoas que cometeram os outros crimes.

Nós entendemos – é importante colocar isso – que entidades e comunidades não cometem crimes, quem comete crimes são as pessoas, por isso é fundamental que as pessoas sejam individualizadas. Da mesma forma que não foram todos os produtores rurais de Caarapó que promoveram o ataque e atentaram contra a vida dos membros das comunidades indígenas, também não foram seis mil integrantes das comunidades indígenas que promoveram o ataque aos policiais e a manutenção deles como reféns. Portanto, tanto em um caso como no outro, é importante que haja a devida responsabilização das pessoas que cometeram esses crimes.

IHU On-Line – Como esse conflito está repercutindo na sociedade de Mato Grosso do Sul?

Marco Antonio Delfino de Almeida – Infelizmente, há, de modo claro – e com isso mostramos mais uma vez que essa ideia de democracia racial é fictícia -, uma avaliação diferente das situações. Inicialmente houve muito mais impacto em relação aos policiais do que em relação às pessoas mortas e feridas. Se crimes ocorreram, o ideal seria que tivessem a mesma repercussão, mas as repercussões são diferenciadas. E agora, o que se tem é uma repercussão até maior de questões que não são nem relacionadas à integridade física, mas a questões patrimoniais de determinados sitiantes, que são pequenos, e que tiveram suas propriedades ocupadas. As agruras experimentavas por estas pessoas estão tendo maior divulgação do , do que e as pessoas feridas ou em relação à pessoa morta. Não podemos, em momento algum, considerar que questões patrimoniais sejam mais relevantes que questões relacionadas à integridade física das pessoas.

“As agressões contra comunidades indígenas não são consideradas agressões contra um integrante da sociedade, mas contra um inimigo”

Violência

Todo e qualquer ato de violência é um ato de violência, independentemente de quem o pratique. Enquanto não nos colocarmos no lugar do outro, não conseguiremos fazer um mundo melhor. Então, obviamente que toda a violência contra integridade física e a violência discriminatória que as populações indígenassofrem é nefasta, mas igualmente a violência que ataca a memória, mesmo patrimonial, quando se destroem documentos, fotos numa ocupação, é também dolorosa para as pessoas que vivenciam esse tipo de situação. Mas isso infelizmente faz parte da situação que vivemos hoje de não considerar os indígenas como integrantes da nossa sociedade.

O homicídio, se é realizado contra um integrante do grupo, é rechaçado e punido com severidade porque contribui para o esfacelamento do grupo e, portanto, para que ele permaneça coeso, é importante que os crimes mais graves sejam rapidamente punidos. Contudo, quando se comete um homicídio contra um não-integrante do grupo, como acontece nas guerras, uma pessoa pode ser condecorada, porque se ela atingiu outras cinquenta pessoas com drones, são possíveis terroristas que foram mortos, mas é óbvio que se cinquenta pessoas são mortas por um atirador, isso não tem o mesmo peso. Então, claramente, se coloca a vida do cidadão da própria comunidade de uma forma diferente no sentido de ser visto como um cidadão que não é parte da comunidade. Infelizmente é isso que vejo nesse processo: as agressões contra comunidades indígenas não são consideradas agressões contra um integrante da sociedade, mas contra um inimigo. Precisamos trabalhar essa questão de estranhamento que temos em relação aos indígenas e entendê-los como membros da sociedade, ou seja, trata-se de uma relação que tem de passar por um processo de reparação de violações que foram cometidas.

IHU On-Line – Nesse processo, o que deveria ser feito? A demarcação de terras é a melhor saída ou é preciso pensar outras políticas além da demarcação? Como resolver a questão do conflito fundiário?

Marco Antonio Delfino de Almeida – O que acontece é que há sempre uma desonestidade intelectual nesse processo, porque os direitos civis e políticos são indissociáveis dosdireitos econômicos, sociais e culturais, ou seja, a liberdade e a propriedade são indissociáveis da saúde, educação etc. Mas, na questão indígena, argumenta-se que os índios não querem só terra. É obvio que eles não querem somente terra; nós também não queremos apenas receber um salário no final do mês. Nós queremos ter acesso à saúde e a outros bens. Então, por que para a comunidade indígena o fato de eles quererem outros bens causa escândalo? As pessoas acabam enxergando um ponto final onde há uma vírgula.

O fato de os indígenas quererem os demais direitos não faz com que eles não devam ter acesso à terra. A terra que é devolvida às comunidades indígenas não é aquela que eles tinham anteriormente, ou seja, é uma terra muito degradada. Mas quando se dá a terra a eles, o Estado simplesmente lava as mãos e diz que cumpriu seu papel. Mas e o “day after” [dia seguinte]? Eles são colocados numa área que não tem recursos naturais, sem recursos financeiros, então são comunidades vulneráveis que acabam sendo arregimentadas por vizinhos e passam por um processo nefasto de arrendamento, de precarização de relações trabalhistas, ou seja, vivem num cenário que não é diferente do que eles tinham antes. Mas o Estado tem de garantir o “day after” porque, do contrário, ficará perpetuando pré-conceitos.

IHU On-Line – Que políticas deveriam compor e garantir o “day after”?

Marco Antonio Delfino de Almeida – Por exemplo, por que o Programa Nacional de Gestão Ambiental e Terras Indígenas é voltado apenas para a Amazônia e não para as demais terras indígenas? Por que não há outros projetos para essas comunidades, como projetos de agricultura? O Brasil tem uma meta de dobrar a renda das comunidades indígenas. E o que estamos fazendo hoje para que isso aconteça? É muito fácil dizer que os índios não produzem, mas quero ver qual produtor rural consegue produzir sem o financiamento doBanco do Brasil. Por que é natural a liberação de crédito para atividades produtivas, mas é uma heresia dizer que para as comunidades indígenas terem melhor qualidade de vida, elas precisam ter acesso a crédito e a recursos que permitam com que elas minimamente recuperem as terras indígenas que elas perderam? Qual é a diferença?

“É muito fácil dizer que os índios não produzem, mas quero ver qual produtor rural consegue produzir sem o financiamento do Banco do Brasil” 

IHU On-Line – O que deveria ser feito então? O Estado deveria se responsabilizar por ações como essas ou deveria haver um processo maior de enculturação?

Marco Antonio Delfino de Almeida – Não se trata de aculturação. AConvenção 169 da OITfoi antecedida pela Convenção 107/57 da OIT, a qual afirmava que: “Aos membros das populações tribais ou semitribais em países independentes, cujas condições sociais ou econômicas correspondem a um estágio menos adiantado que o atingido pelos outros setores da comunidade nacional…”. Ou seja, se entendia que havia comunidades que eram menos adiantadas que as outras. Depois, outra passagem afirmava: “Para fins da presente convenção, semitribal abrange grupos que, embora, prestes a perderem as suas características tribais, não se achem ainda integrados na comunidade nacional…”. Recentemente estive com juízes e disse que essa é uma convenção de 1957 e não podemos usar um conceito jurídico de 57 em 2016. Naquela época se entendia que as sociedades evoluíam, ou seja, que a sociedade nacional era mais evoluída que a indígena e que esta, por sua vez, evoluiria para a nossa sociedade e que as pessoas teriam cultura. Mas parece que cultura é algo como um bronzeado, que vai se perdendo depois do verão.

Mas na Convenção 169, de 1989, diz que: “Os povos tribais em países independentes, cujas condições sociais, culturais e econômicas os distingam de outros setores da coletividade…”. Então, a diferença é justamente essa: eles são distintos, diferentes e isso significa que são nem mais atrasados nem mais evoluídos; são diversos e merecem viver dessa forma não porque eu quero, mas porque a lei determina. Se o Brasil assinou essa convenção, agora tem de cumpri-la, ou seja, temos de respeitar essa diversidade. E o respeito da diversidade parte do princípio de que não se pode impor uma sociedade em relação à outra. Nesse sentido, a consciência de identidade indígena ou tribal deverá ser critério fundamental para determinados grupos aos quais se aplicam, e quem define quem é indígena e quem não é, são os indígenas.

Dentro da Convenção 169, existem artigos que estabelecem esse diálogo. O artigo 7º determina que: “Os povos interessados deverão ter o direito de escolher suas próprias prioridades, no que diz respeito ao processo de desenvolvimento na medida em que ele afete suas vidas, crenças, instituições e bem-estar espiritual, bem como as terras que ocupam ou utilizam de alguma forma, e de controlar, na medida do possível, seu próprio desenvolvimento social, econômico e cultural. Além disso, esses povos deverão participar da formulação, aplicação e avaliação dos planos e programas de desenvolvimento nacional e regional suscetíveis aos afetados. (…) A melhoria das condições de vida e de trabalho e o nível de saúde e educação dos povos interessados, com sua participação e cooperação, deverá ser prioritária nos planos de desenvolvimento, econômico e global das regiões onde moram”.

Ou seja, estamos falando de uma determinação legal e os governos têm de priorizar odesenvolvimento das comunidades indígenas, conforme determina a Agenda 2030. Isso não significa que os indígenas têm de fazer parte da nossa comunidade, mas que devem ser ouvidos e respeitados. Ou seja, tem que perguntar o que eles querem fazer, e não impor o que eles devem fazer. Enquanto olharmos os povos indígenas de uma forma verticalizada, isso não vai mudar. A legislação existe e precisamos que ela seja implementada. Então os mecanismos para o “day after” existem, mas muitas pessoas não querem que o artigo 7º seja implementado, porque, se ele for, alguns discursos irão por água abaixo.

IHU On-Line – Como foi a reunião da qual o senhor participou em Caarapó, na última sexta-feira?

Marco Antonio Delfino de Almeida – A reunião visou celebrar um acordo com os pequenos sitiantes, detentores de uma área de cerca de 200 hectares e a comunidade indígena. A intenção era o retorno destas pessoas, de forma consensual, enquanto ocorre o processo de indenização pelas benfeitorias e o reassentamento, em face da condição de pequenos produtores rurais. Houve avanços com aceitação por parcela dos sitiantes e o compromisso da comunidade de que a questão seria levada para uma reunião ampliada para deliberação definitiva. A resposta seria fornecida na segunda-feira, dia 04/07/2016.

Por Patricia Fachin

(EcoDebate, 05/07/2016) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.

[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Famílias agricultoras de 337 municípios brasileiros sofrerão impactos diretos do Projeto Matopiba

Por Elka Macedo, ASA Brasil – Articulação no Semiárido Brasileiro

Povos indígenas, comunidades tradicionais e famílias agricultoras que moram nos territórios de abrangência do Matopiba são os mais afetados | Foto: Tiago Miotto

Quatro estados brasileiros; 337 municípios; 73 milhões de hectares; 250.238 estabelecimentos da agricultura familiar. Estes números são parte do cálculo da abrangência do Plano de Desenvolvimento Agropecuário do Matopiba, instituído por meio do decreto n° 8447, publicado no dia 06 de maio de 2015. A ação abrangerá territórios dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, e segundo o Governo Federal tem o objetivo de “promover e coordenar políticas públicas voltadas ao desenvolvimento econômico sustentável fundado nas atividades agrícolas e pecuárias que resultem na melhoria da qualidade de vida da população”.

De acordo com o decreto, o Matopiba se baseia em três grandes diretrizes: desenvolvimento e aumento da eficiência da infraestrutura logística relativa às atividades agrícolas e pecuárias; apoio à inovação e ao desenvolvimento tecnológico voltados às atividades agrícolas e pecuárias; e ampliação e fortalecimento da classe média no setor rural. No entanto, a perspectiva da expansão do agronegócio que ocupará 38% do território do estado do Tocantins, 33% do Maranhão, 11% do Piauí e 18% da Bahia para cultivo de soja, milho e eucalipto vai ocasionar problemas ambientais, sociais e culturais. Neste sentido, movimentos sociais ligados ao campo, organizações e famílias agricultoras das regiões afetadas estão se articulando para denunciar os impactos negativos do Matopiba.

O coordenador regional da Comissão Pastoral da Terra (CPT) do Piauí, Altamiran Ribeiro, que tem acompanhado a luta das famílias no estado, revela alguns dos abalos sofridos. “O impacto da obra já está acontecendo. O pequeno se quiser produzir tem que se igualar aos grandes projetos, porque se o grande usa veneno, o pequeno tem seus cultivos e a água contaminados. O Matopiba atinge não só o Cerrado, mas também o Semiárido e afeta economicamente a vida das famílias. Com a expansão dos latifúndios o custo de vida dos municípios têm subido cerca de 300%. Isso também mexe com a cultura, pois mesmo sem perceberem eles estão perdendo as suas tradições para se adequar a um novo modelo de cultura. Tudo isso, ocasiona o esvaziamento do campo”, salienta.

Em Carta aberta à Sociedade Brasileira, à Presidência da República e ao Congresso Nacional sobre a destruição do Cerrado pelo MATOPIBA, elaborada no Primeiro Encontro Regional dos Povos e Comunidades do Cerrado, construída e publicada em novembro do ano passado, os cerca de 170 participantes do evento que representavam diversos povos que habitam a região ressaltaram que “O PDA Matopiba não representa desenvolvimento, pois atinge os modos de vida das comunidades do Cerrado e não é um projeto de desenvolvimento sustentável, pois “mata” a água, a terra, o bem viver dos povos indígenas, quilombolas, camponeses e demais comunidades”.
Foto: Assessoria de comunicação do Cimi

A delimitação territorial do MATOPIBA impactará, agressivamente, as nascentes das três maiores bacias hidrográficas da América do Sul (Amazônica/Araguaia-Tocantins, São Francisco e Prata), e a mais rica biodiversidade brasileira. A obra comprometerá a vazão dessas fontes de água, como afirma Altamiran.

“A área do projeto Matopiba é onde ficam nascentes de rios como o Parnaíba e Tocantis. Com o desmatamento vai baixar a água, além disso, será construída uma ferrovia que vai passar em áreas de cerrado que são habitadas por comunidades. Além disso, está havendo investimento internacional na obra, compra de terras griladas. Para se ter ideia um hectare de terra está sendo vendido a 60 mil reais”, assegura.

Embora o primeiro grande critério de delimitação territorial do Projeto tenha tido como base as áreas de cerrados existentes nos quatro estados, a ação também implicará na ocupação de áreas de caatinga e amazônia. No Semiárido piauiense, o Matopiba prevê inicialmente a extração de calcário e de minério de ferro.

Violência e expulsão de camponesas/es

Segundo dados do Caderno de Conflitos no Campo – Brasil (CPT, 2015), nos últimos cinco anos, nos estados do Maranhão, Tocantins, Bahia e Piauí ocorreram um total de 3.076 conflitos por terra e por água com ações de violência contra os camponeses e os povos tradicionais. Deste total de conflitos por terra e água, 1.643 ocorreram dentro da área delimitada pelo MATOPIBA, ou seja, 53,4% dos conflitos, envolvendo diversos sujeitos.

“O projeto com seu montante de ações de cunho exploratório vai excluir ribeirinhos, quilombolas e comunidades tradicionais de seus territórios. Já tem estudo sobre os impactos, mas há muito para ser feito para coibir a violência e negação de direitos dessas populações”, salienta o coordenador da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) pelo estado do Maranhão, Juvenal de Sousa.

Em entrevista concedida à Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) Paulo Rogério Gonçalves, membro da Alternativas para Pequena Agricultura no Tocantins (APA-TO) enfatiza que o Matopiba fortalece processos históricos de violência no campo. “No fundo o MATOPIBA fortalece o processo de violência agrária, querem aportar mais capital para que isso continue. Por outro lado, essa grande região é a mais preservada de áreas remanescentes de Cerrado que temos no Brasil. Será a destruição do Cerrado para a expansão das monoculturas, afirma um processo de desmatamento na região”.

Um outro aspecto que Paulo Rogério elucida está ligado ao trabalho escravo. “Esses quatro Estados são os que têm um índice altíssimo de trabalho escravo. Todo esse processo de violência agrária e ambiental vem junto com um processo de escravização dos trabalhadores para o preparo de solo, limpeza de terreno e plantação do agronegócio”, destacou.

in EcoDebate, 20/05/2016

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais do Cerrado terão apoio na preservação ambiental

Projetos que evitem o desmatamento e a degradação do bioma e que promovam a proteção, a conservação dos recursos naturais e a inclusão social terão até R$ 4 milhões
Os povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais do cerrado contarão com apoio para projetos que evitem o desmatamento e a degradação do bioma e que promovam a proteção, a conservação dos recursos naturais e a inclusão social. Para isso, está aberto até 25 de abril edital que conta com até R$ 4 milhões para financiar essas iniciativas.

Podem participar as organizações representativas dos povos indígenas, comunidades quilombolas e comunidades tradicionais, inseridas total ou parcialmente no cerrado ou ainda Organizações Não Governamentais (ONG) de assessoria a esses povos.

Serão realizadas oficinas de divulgação do edital em três cidades: Brasília/DF (24 a 26/02), Imperatriz/MA (29/02 a 02/03) e Cuiabá/MT (03 a 05/03). Cada organização poderá indicar um representante, que terá as despesas de viagem custeadas pelo programa.

Participação

A chamada integra o Mecanismo de Doação Dedicado a Povos Indígenas, Quilombolas e Comunidades Tradicionais do Brasil (DGM Brasil) e o DGM Global, que visa fortalecer a participação destes povos e comunidades na discussão sobre mecanismo Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação (REDD+) e ampliação da conservação, do manejo e aumento dos estoques de carbono florestal em nível local, nacional e global.

Essa estratégia faz parte do Programa de Investimento Florestal (FIP), que compõe o Fundo Estratégico do Clima (Strategic Climate Fund – SCF), iniciativa global em execução no Brasil e em outros sete países.

O objetivo é potencializar a participação dos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais na promoção do uso sustentável das suas terras, além de restaurar os ecossistemas, para redução da pressão sobre os recursos naturais e redução dos efeitos das mudanças climáticas. A iniciativa pretende, ainda, beneficiá-los por meio de ações demandadas por eles, fortalecer as organizações representativas e qualificar as políticas de conservação florestal.

Como Participar

Para se inscrever, o proponente devem preencher formulário de acordo com o tipo de projeto: gestão de recursos naturais (até R$ 195 mil), produtivos orientados para o mercado (até R$ 156 mil) e de resposta a ameaças imediatas (até R$ 78 mil). Ao todo, são 13 linhas temáticas prioritárias. Entre elas, estão o cultivo de espécies florestais, manejo de vegetação nativa, apoio às comunidades agroextrativistas, gestão territorial e ambiental e fomento a inovações de tecnologias sociais de adaptação às mudanças climáticas.

A inscrição é gratuita e deve ser enviada por correio com postagem até 25 de abril. São exigidas cópias simples dos seguintes documentos: Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ), estatuto social, ata de constituição e ata de posse da atual diretoria da organização e carta de anuência das comunidades beneficiárias no caso de propostas feitas por entidades de apoio. Também são necessárias cópias simples do Cadastro de Pessoa Física (CPF) e carteira de identidade do responsável legal do projeto.

Serviço

Edital com linha de apoio para o fortalecimento dos povos tradicionais do cerrado
Inscrições até 25 de abril.
Informações: www.dgmbrasil.org.br
Proposta e documentação devem ser encaminhadas para Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas – CAA/NM – Rua Doutor Veloso, 151, Centro, Montes Claros (MG) CEP: 39400-074.

Fonte: Ministério do Meio Ambiente

in EcoDebate, 08/02/2016

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Lo que sucede cuando las indígenas gestionan la selva en India

Las mujeres se convirtieron en las líderes naturales que llevan a cabo las gestiones para aplicar la ley ya que han sido las administradoras tradicionales de los bosques, abasteciendo de manera sostenible de alimentos, combustible y forraje a los pobres sin tierras, así como mediante la recolección de materiales para cercar sus huertas, y obtener plantas medicinales y madera para construir su casas con techos de paja.

Por Manipadma Jena
Mujeres de la aldea tribal de Gunduribadi, en el estado oriental de Odisha, en India, patrullan la selva con palos para evitar la tala ilegal. Crédito: Manipadma Jena/IPS

NAYAGARH, India, 4 may 2015 (IPS) - Lejos de Nueva Delhi, en India se desarrolla en silencio un drama que abarca a 275 millones de personas que viven en los bosques del país y que podría ser la lucha definitoria del siglo XXI.

Kama Pradhan, una mujer indígena de 35 años, con sus ojos fijos en la pantalla de un dispositivo GPS portátil, se mueve rápidamente entre los árboles. Delante de ella, un grupo de hombres se apresura a limpiar los arbustos de los pilares dispersos por esta densa selva del distrito de Nayagarh, en el oriental estado de Odisha.

"Nadie nos puede robar ni un solo metro de nuestra madre, la selva. Ella nos dio la vida y nosotros damos la vida por ella": Kama Pradhan, mujer indígena de la aldea de Gunduribadi.

Los pesados marcadores de piedra, dispuestos por las fuerzas británicas hace 150 años, delimitan el perímetro exterior de una zona que la administración colonial determinó que sería una reserva forestal de propiedad estatal, ignorando en su momento la presencia de millones de habitantes de los bosques, que habían vivido de la tierra durante siglos.

Pradhan integra la aldea tribal de Gunduribadi, compuesta por 27 hogares en total, y trabaja con los demás residentes para trazar los límites de esta selva de 200 hectáreas que la comunidad reclama como su tierra ancestral.

Al grupo le llevará días recorrer el terreno montañoso con los mapas del gobierno y sus rudimentarios sistemas GPS para encontrar la totalidad de los marcadores y determinar el alcance exacto de la zona boscosa. Pero Pradhan está decidida a hacerlo.

“Nadie nos puede robar ni un solo metro de nuestra madre, la selva. Ella nos dio la vida y nosotros damos la vida por ella”, asegura la mujer a IPS, con la voz temblando de emoción.

A la vanguardia de este movimiento se encuentran las comunidades tribales de estados como Odisha, decididas a valerse de la enmienda A2012 de la ley de Derechos Forestales para reclamar el título de propiedad sobre sus tierras.

Una de las disposiciones de la ley que devuelve más poder a los habitantes de la selva y a las comunidades tribales les dio el derecho a poseer, administrar y vender los productos forestales no madereros, de los cuales unos 100 millones de personas sin tierras dependen para obtener sus ingresos, medicinas y viviendas.
Vigilantes aprehenden a un ladrón de madera. La tala se supervisa con rigor en los bosques de Odisha, y el permiso para retirar troncos solo se concede a las familias que los necesitan para construir viviendas o encender las piras funerarias. Crédito: Manipadma Jena/IPS

Las mujeres se convirtieron en las líderes naturales que llevan a cabo las gestiones para aplicar la ley ya que han sido las administradoras tradicionales de los bosques, abasteciendo de manera sostenible de alimentos, combustible y forraje a los pobres sin tierras, así como mediante la recolección de materiales para cercar sus huertas, y obtener plantas medicinales y madera para construir su casas con techos de paja.

Con el liderazgo de mujeres como Pradhan, 850 aldeas del distrito de Nayagarh gestionan colectivamente 100.000 hectáreas de terrenos selváticos y, en consecuencia, 53 por ciento de la masa terrestre de la zona ahora tiene una cubierta forestal.

Eso es más del doble del promedio nacional en toda India, que se limita a 21 por ciento de cubierta forestal.

En total, 15.000 aldeas, principalmente en los estados orientales, protegen unos dos millones de hectáreas selváticas.

Cuando la vida depende de la tierra

La última Encuesta Forestal de India concluyó que la cubierta forestal del país aumentó 5.871 kilómetros cuadrados entre 2010 y 2012, lo que llevó el total a 697.898 kilómetros cuadrados, o aproximadamente 69 millones de hectáreas.

Sin embargo, la investigación indica que todos los días un promedio de 135 hectáreas de tierras forestales se entregan a proyectos de desarrollo, como la minería y la generación de energía.

Las comunidades tribales de Odisha no son ajenas a los proyectos de desarrollo a gran escala que se aprovechan de la tierra.

Cuarenta años de tala ilegal en cinturón forestal del estado, junto con la venta comercial de teca, sala (Shorea robusta) y bambú, dejaron estériles a las colinas.

Los arroyos que antes regaban las pequeñas parcelas de tierras de cultivo comenzaron a secarse, a la vez que las fuentes de agua subterránea desaparecían gradualmente. Entre 1965 y 2004, Odisha experimentó sequías recurrentes y crónicas, incluidos tres períodos de sequía consecutivos entre 1965 y 1967.

Las aldeas se despoblaron, ya que casi 50 por ciento de la población huyó en busca de alternativas.

“Los que nos quedamos tuvimos que vender los utensilios de bronce de nuestras familias a cambio de dinero en efectivo para comprar arroz. Era tal la escasez de madera que a veces los muertos tenían que esperar mientras íbamos de casa en casa pidiendo troncos para la pira funeraria”, recuerda Arjun Pradhan, de 70 años y jefe de la aldea Gunduribadi, en diálogo con IPS.

Nibasini Pradhan, de la aldea de Gunduribadi, maneja un dispositivo GPS suministrado por el gobierno para ayudar a la comunidad a definir los límites de sus tierras ancestrales. Crédito: Manipadma Jena/IPS

Cuando la crisis se agravó, Kesarpur, un consejo municipal en Nayagarh, ideó una campaña que ahora sirve como modelo para la silvicultura comunitaria en Odisha.

El consejo asignó derechos a cada familia, según sus necesidades, para recoger leña, forraje o productos comestibles. Toda persona que deseara talar un árbol para una pira funeraria o hacer reparaciones en su casa debía pedir permiso especial. Asimismo, las hachas estaban prohibidas en el bosque.

Los aldeanos se turnaban para patrullar la selva mediante el sistema “thengapali”, que se traduce literalmente como la “rotación del palo”. Cada noche, los representantes de cuatro familias hacían sus rondas con palos tallados. Al final de su turno, los vigilantes dejaban los palos junto a las puertas de sus vecinos, lo que indicaba el cambio de guardia.

El consejo impuso sanciones estrictas pero lógicas a quienes violaran las reglas. Aquellos atrapados robando debían pagar una multa correspondiente al robo. No presentarse a la patrulla resultaba en una noche adicional de guardia.

A medida que la selva se regeneraba lentamente, los aldeanos asumieron sacrificios adicionales. Todas las cabras, cuya venta significaba dinero fácil en tiempos difíciles, fueron vendidas y prohibidas durante 10 años para proteger los brotes nuevos en el bosque. En vez de cocinar dos veces al día, las familias preparan ambas comidas en una sola fogata para ahorrar madera.

De la deforestación a la reforestación

Unos 20 años después de que se aplicara este proyecto piloto, un arroyo pasa por las afueras de Gunduribadi y permite el riego de pequeñas huertas cultivadas con lentejas y verduras listas para su cosecha.

Bajo la sombra de un árbol, el agua limpia brota de una profundidad de 120 centímetros a un pozo recién excavado. Las mujeres de edad avanzada se llevan cubos de agua con facilidad.

Manas Pradhan, quien dirige el comité local de protección forestal, explica que las lluvias depositan humus selvático en las 28 hectáreas de tierras de cultivo gestionadas por las 27 familias. Eso dio lugar a un suelo tan rico que una sola hectárea produce 6.500 kilogramos de arroz sin refuerzos químicos, equivalentes a tres veces el rendimiento normal de las granjas en los alrededores de los bosques que no reciben la misma protección, afirmó.

“Cuando la papa era escasa y se vendía al precio inaccesible de 40 rupias (65 centavos de dólar) por kilo, la sustituimos con pichuli, un tubérculo dulce disponible en abundancia en la selva”, explicó Janha Pradhan, una mujer indígena sin tierra, señalando a un pequeño montón del producto que cosechó durante su patrulla en la noche anterior.

“Hicimos buen dinero vendiendo algunos en la ciudad cuando los precios de la papa subieron hace unos meses”, añadió.

En un estado donde los ingresos promedian los 40 dólares al mes, y el hambre y la desnutrición afectan a 32 por ciento de la población, con la mitad de los niños y niñas con bajo peso, esta comunidad representa un oasis de salud en un desierto de pobreza.

Este reportaje forma parte de una serie concebida en colaboración con Ecosocialist Horizons.

Editado por Kanya D’Almeida / Traducido por Álvaro Queiruga

Fuente: IPS Noticias

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quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

A ambígua e ineficiente política indigenista brasileira

A ambígua e ineficiente política indigenista brasileira. Entrevista especial com Egydio Schwade

Nunca houve por parte dos invasores interesse em incluir os povos indígenas na construção das leis que regem o país”, constata um dos fundadores do Conselho Indigenista Missionário – CIMI.
Foto: istoe.com.br


No Brasil se perpetuam as violênciasàs diversas etnias indígenas que são as habitantes originárias do país. As agressões históricas iniciadas com os processos de colonização e exploração deste território foram tão intensas e continuam tão constantes que implicaram na drástica redução e no quase desaparecimento de alguns destes povos. De acordo com Egydio Schwade, passam-se os anos, mudam os dominadores, mas o desejo de expropriar e lucrar com a terra permanece o mesmo. Porém se acentuam os embates, uma vez que os indígenas passaram a reivindicar seus direitos. “É o desespero da velha política dos donatários, dos fazendeiros portugueses, vendo estes povos que, segundo eles, já não deveriam mais existir, crescerem, exigirem seus territórios e sua autonomia, é isto que move o recrudescimento atual da política genocida”, ressalta em entrevista por e-mail àIHU On-Line.

Ao fazer uma retrospectiva das políticas públicas direcionadas aos indígenas ao longo dos anos no Brasil, Schwadeaponta que não houve avanços no sentido de garantir os direitos e a segurança destes povos e que os principais entraves para a efetivação das leis que já existem e para a elaboração de outras medidas são os interesses dos donos do capital. “A política indigenista brasileira sempre foi ambígua. Sempre esteve vinculada ao ministério que propulsiona o (des)envolvimento. Enquanto por um lado tenta se respaldar em um mínimo de leis favoráveis aos povos indígenas, por outro a sua prática sempre foi anti-indígena”, constata.

Schwade ainda salienta que os indígenas não são vistos como parte do país, mas sim como uma ameaça ao modelo desenvolvimentista de gestão da nação. “Hoje a briga maior do índio já consciente e organizado e de seus aliados é conseguir efetivar a prática das leis contidas na Carta Magna de 1988. Judiciário, Legislativo e Executivo estão aí em constante conflito com a lei, ao invés de garantirem sua execução como é seu dever. No fundo o índio é um ‘perigo’ para o modelo político injusto que se instalou sobre o território brasileiro.”

Egydio Schwade é graduado em Filosofia e Teologia pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos. Foi um dos fundadores do Conselho Indigenista Missionário – Cimi e primeiro secretário executivo da entidade, em 1972. Atualmente é colaborador do Cimi e vive em Presidente Figueiredo, AM.

Confira a entrevista.
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IHU On-Line – Como analisa a questão indígena hoje no Brasil? O que nos levou a esse estado de genocídio de povos indígenas?

Egydio Schwade – A agressão contra os povos indígenas, ou seja, contra os donos desta terra, é uma herança recebida dos povos europeus que a invadiram de 1500 para cá e acham que têm o direito de prosseguir impunes ainda hoje. Neste processo inclui-se desde a agressão às suas pessoas e territórios até a legislação e a sua ausência no governo desta terra. Nunca houve por parte dos invasores interesse em incluir os povos indígenas na construção das leis que regem o país.

O que leva ao recrudescimento atual deste “estado degenocídio de povos indígenas” é o desespero dos insaciáveis latifundiários e mineradores com a constatação de que os índios estão crescendo em número, em seus valores culturais e na exigência dos seus direitos.

Quando a sociedade brasileira, a partir dos anos 1960, e aqui cito, em especial, a Igreja Católica, começou a organizar entidades com postura nova, incentivada pelo Concílio Vaticano II [1] (não mais catequese, mas encarnação na sua realidade, para conhecer e evidenciar os valores da sua cultura, “busquem os missionários colher as sementes do Verbo ocultas nos povos”, orientam os documentos do Vaticano II), passou a evidenciar como anúncio da boa nova os seus direitos à terra, à cultura e à autodeterminação. Esta nova postura trouxe novo ânimo aos povos indígenas, que começaram a crescer e a se organizar. Segundo pesquisa feita por Darcy Ribeiro [2], nos anos 1950 eram menos de 100 mil no Brasil. Já em 1978, como secretário executivo do Cimi, orientei uma nova pesquisa, onde já passavam de 220 mil. Hoje beiram um milhão, segundo o IBGE. É o desespero da velha política dos donatários, dos fazendeiros portugueses, vendo estes povos que segundo eles, já não deveriam mais existir, crescerem, exigirem seus territórios e sua autonomia, é isto que move o recrudescimento atual da política genocida.
“Nunca houve por parte dos invasores interesse em incluir os povos indígenas na construção das leis que regem o país” 

IHU On-Line – Como compreender a cosmovisão indígena na sua relação com a terra e elementos da natureza? Por que o chamado homem branco não consegue entender essa perspectiva? E como o senhor, através de sua experiência de vida, conseguiu se aproximar dessa concepção?

Egydio Schwade – A cosmovisão dos povos originários só se compreende pela convivência com eles e questionando os nossos erros e preconceitos durante esta convivência.

De 1963 a 1965, como estudante participei de uma sofrida experiência indigenista em dois internatos na Missão Anchieta – MIA dos jesuítas no Noroeste de Mato Grosso. Depois tive a oportunidade de vivenciar o processo de mudança da Igreja Católica e de outras igrejas cristãs como a Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil, desde o seu início, ou seja, desde o Concílio nos anos 60. No caso da Igreja Católica, sem dúvida nenhuma foi no encalço das linhas de ação apontadas pelo Concílio Vaticano II. Acompanhei parte do Concílio no Curso de Filosofia na Unisinos, em São Leopoldo, e a outra parte em internatos da Missão Anchieta em Diamantino, nas margens doRio Papagaio, afluente do rio Juruena no Noroeste de Mato Grosso.

Vivi o fervilhar das discussões sobre as mudanças necessárias a se fazerem na Igreja num e noutro extremo. Vi índiosRikbaktsa chegando à tarde nus ao internato de Utiariti, apenas com seu arco e flecha na mão e no dia seguinte cedo os vi ajoelhados de roupa na igreja. Vinham à Utiariti, não para voltarem à aldeia e defender o seu território, viverem sua cultura, mas para aprender a ler e escrever e irem esconder sua identidade de índios em Cuiabá. E a Missão os empurrava e incentivava a isto. Tanto era assim que no segundo internato em que trabalhei, em Diamantino, que ficava próximo de Cuiabá, eles eram integrados na perspectiva de páreas da sociedade, junto com meninos pobres, não indígenas, dos garimpos e da roça. Não existia nenhuma organização indígena em todo o território nacional.

Em 1966 voltei à Unisinos ansioso para discutir e propor mudanças nesta situação, com os companheiros que também haviam passado por esta experiência e propor mudanças imediatas. Já em março daquele ano escrevemos uma carta conjunta, os que havíamos passado pela MIA, aos dirigentes da Missão propondo interromper as atividades e planejar uma nova forma de desenvolver os trabalhos. Mas a nossa proposta foi rejeitada. Diante deste fechamento da instituição concluímos que uma mudança só seria possível apelando para a juventude e na forma ecumênica como recomendava o Vaticano II.

Junto com Thomaz Lisboa, um colega que havia atuado na missão comigo, organizei uma “fotonovela” com slides sobre a vida dos índios de Mato Grosso e todo fim de semana íamos a uma comunidade católica ou evangélica doVale do Rio dos Sinos, motivando a juventude para a missão. Finalmente, em fevereiro de 1969 criei a Operação Anchieta – Opan, hoje Operação Amazônia Nativa, que começou a selecionar, treinar e enviar jovens para as comunidades indígenas. E a partir de 1970, rapazes e moças da Opan, católicos e evangélicos, começaram a se esparramar pelas comunidades indígenas da Amazônia. Logo se juntaram e integraram os Voluntários para oDesenvolvimento da Áustria e os Técnicos Voluntários Cristãos da Itália.

Esta juventude obteve imediato apoio e participação de missionários religiosos que já atuavam nas bases, igualmente ansiosos por mudança. Acompanhei quatro anos, como coordenador técnico, a Opan. Em 1972 ajudei a criar oConselho Indigenista Missionário – Cimi, do qual fui o primeiro secretário executivo, até 1980. Nestes dois períodos acompanhei a evolução dos trabalhos da Igreja junto aos índios em todo o país. E pude sentir o drama dos povos indígenas esmagados e sem esperança de perspectivas melhores por toda parte.

IHU On-Line – Como se deu a relação da Igreja com os povos ameríndios a partir do século XVI? De que forma essa relação foi revisada nas últimas décadas?

Egydio Schwade – Foi no fim das frustradas Cruzadas [3] que iniciaram as grandes navegações, principalmente dos espanhóis e portugueses. Os cristãos europeus invadiram os territórios de centenas de povos pacíficos mundo afora, como o faziam antes os cruzados contra os mouros. E, como lá, a Igreja estava presente nos navios e na cabeça dos seus mandantes. Do mesmo modo, estes, ao invés de “colher as sementes de Deus ocultas” nesses povos (que viviam num sistema fraterno das pessoas entre si e destas com a terra, princípios pregados por Cristo), foram destruindo o que vinha pela frente e instalando o sistema antifraterno que vigorava na Europa, não apenas entre cristãos e muçulmanos, mas, inclusive, entre os próprios cristãos.

Em meados dos anos 1960 o Papa João XXIII convocou o Concílio Vaticano II, onde os padres conciliares deram novas orientações para o relacionamento com os povos, tanto no seu relacionamento intercristãos, como sobre a suaAtividade Missionária junto a outros povos. Foram estas orientações que levaram a novos rumos da Pastoral Indigenista no Brasil. Não doutrinação, mas encarnação em sua realidade e “colher as sementes de Deus ali ocultas”. E o anúncio da Boa Nova é o anúncio a estes povos do seu direito à vida, ao seu território, à sua cultura e à sua autodeterminação.
“Pude sentir o drama dos povos indígenas esmagados e sem esperança de perspectivas melhores por toda parte”

IHU On-Line – Qual o papel do Concílio Vaticano II na mudança de perspectiva das ações da Igreja diante dos povos indígenas? Como era e como vem sendo trabalhada a inculturação da fé entre os povos originários?

Egydio Schwade – Antes do Concílio já existia uma experiência de convivência sem doutrinação, a das Irmãzinhas de Jesus, junto ao povo Tapirapé na Prelazia de São Félix do Araguaia.

A Opan e o Cimi foram criados dentro dos princípios apontados pelo Concílio Vaticano II. Os seus membros foram incentivados e capacitados para se encarnar na realidade vivida então pelospovos indígenas brasileiros, convivendo e assumindo a sua causa na perspectiva de serem aceitos como membros daqueles povos. Em janeiro de 1970 partiu o primeiro grupo de pessoas da Opan para aldeias do Noroeste de Mato Grosso e para Rondônia, nos confins do rio Guaporé e Mamoré.

Em 1973, quando foi criado o Cimi, organizei o primeiro programa de ação deste órgão, o Encontros de Pastoral Indigenista, do qual participavam missionários e lideranças indígenas visando transformar e reformular as linhas de ação missionárias. Eram encontros supracircunscrições eclesiásticas, para inserção dos missionários na postura daIgreja pós-conciliar frente aos índios e para eles mesmos superarem o isolamento existente onde as Prelazias e Dioceses da Amazônia eram verdadeiras “ilhas culturais”. O segundo eixo do programa do Cimi foi o de possibilitar assembleias indígenas. Encontros dos próprios índios entre si.

Convém notar que este programa foi durante os primeiros 15 anos levado conjuntamente pela Opan e pelo Cimi. A palavra de ordem era “encarnação” em todas as missões católicas e também da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil – IECLB. Posteriormente, burilada por intelectuais, foi apresentada como “inculturação”.

IHU On-Line – Numa perspectiva histórica, como avalia a política indigenista brasileira? E trazendo para atualidade, quais os avanços, limites e retrocessos dessa política?

Egydio Schwade – A política indigenista brasileira sempre foi ambígua. Sempre esteve vinculada ao ministério que propulsiona o (des)envolvimento. Enquanto por um lado tenta se respaldar em um mínimo de leis favoráveis aos povos indígenas, por outro a sua prática sempre foi anti-indígena. Até o Estatuto do índio publicado pela ditadura militar em 1973 teve seus aspectos positivos. Mas quando fui secretário executivo do Cimi a nossa briga maior com o governo militar foi o seu desrespeito ao que ele mesmo havia posto na lei. Semelhantemente hoje a briga maior do índio já consciente e organizado e de seus aliados é conseguir efetivar a prática das leis contidas na Carta Magna [4] de 1988. Judiciário, Legislativo e Executivo estão aí em constante conflito com a lei, ao invés de garantirem sua execução como é seu dever. No fundo o índio é um “perigo” para o modelo político injusto que se instalou sobre o território brasileiro.

Bem, uma das coisas que para nós estudantes jesuítas do final da década de 60 ficou evidente, foi a de que a questão indígena não poderia se restringir à Missão Anchieta de Diamantino, mas deveríamos ter sempre diante de nós uma “visão nacional e até internacional” da questão indígena, o que, desde então, deixávamos claro em nossos documentos e ações. E, como consequência, isto nos levou a nos imiscuir na política indigenista oficial. Assim, em abril de 1967, o colega estudante paulista Thomaz de Aquino Lisboa e eu resolvemos fazer uma semana santa diferente. Ao invés de participar das cerimônias litúrgicas na igreja, fomos visitar comunidades indígenas do Rio Grande do Sul, entregues metade à política do Estado e outra metade aoServiço de Proteção aos índios – SPI. Disto resultou uma série de nove artigos que publicamos no Correio do Povo de Porto Alegre sob o título: “Drama de 1080 famílias Indígenas do Rio Grande do Sul”. A denúncia provocou uma CPI na Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul em maio de 1967. No mês seguinte instalou-se a CPI na Câmara Federal que teve como relator o Deputado Jader Figueiredo e que deu fim ao SPI e motivou a criação da Fundação Nacional do Índio – Funai.

O que constatei ao longo de todos esses anos de acompanhamento da política indigenistabrasileira oficial é que em realidade não houve avanço algum. Ela acaba sempre patinando sobre os interesses dos poderosos, que nunca tiveram interesse algum de ver os segmentos oprimidos da sociedade melhorarem de vida.

“A política indigenista brasileira sempre foi ambígua”

IHU On-Line – Como o senhor vivenciou o período da Ditadura e quais as marcas do regime permanecem no trato aos povos indígenas? E em que medida o relatório da Comissão Nacional da Verdade recupera a memória de índios sacrificados nesse período?

Egydio Schwade – No período militar fui reprimido e proibido, pelos militares que comandavam aFunai, de entrar nas áreas indígenas do país. Mas foi este o período de minha vida em que visitei mais áreas e povos indígenas por todo o país, animando-os em sua luta pelos seus direitos. A ausência do Estado, do Governo junto aos pobres e oprimidos facilitava o meu acesso.

Andei, neste período, do Alto Envira no Acre (onde encontrei Madiha com seu território invadido por latifundiários sulistas, apoiados pelos generais e uma aldeia literalmente em curral de gado) até a Serra do Ororubá emPernambuco, que galguei para me encontrar com os Xukuru, exprimidos no meio das montanhas, última nesga de território que lhes restara e disputavam. Andei do territórioRaposa Serra do Sol, em Roraima (onde, com o auxílio dos colegas missionários da Prelazia de Roraima, convocamos a assembleia dos líderes indígenas que desencadeou uma luta que 32 anos depois foi vitoriosa com a homologação da área contínua Raposa Serra do Sol), até as áreas deVentarra e Inhacorá no Rio Grande do Sul, griladas pelos governos de Brizola [5] eMeneghetti [6], para fins de uma ruidosa Reforma Agrária realizada nas terras indígenas e não sobre a praga do latifúndio que domina ate hoje o Estado.

Mas para entender a questão indígena frente ao governo brasileiro e inclusive ao documento final daComissão Nacional da Verdade – CNV [7], criada pelo governo Dilma, é exemplar o caso que vivenciei e vivencio aqui no município onde moro: o caso Waimiri-Atroari. Entre 1967 e 1977, os militares construíram a rodovia BR-174 passando pelo território desses índios como se fosse um “vazio demográfico”. No seguimento, a quase total destruição do povo Waimiri-Atroari (de 3.000 em 1968 passou a 332 em 1983). Processo de extermínio que teve a cobertura da Funai, a instalação em seu território de grileiros, mineradores e hidrelétricas.

Um funcionário da Funai, Sebastião Amâncio da Costa, nomeado para dirigir a Frente de Atração Waimiri-Atroari, em janeiro de 1975, declarou publicamente que usaria a violência contra os índios, com armas de fogo, incluindo dinamite e metralhadoras, conforme determinava um documento oficial do Comando Militar da Amazônia. Pela pressão pública da época, foi levado pela Funai ao ostracismo, de onde voltou, ainda na ditadura militar, para assumir cargo de confiança na Funai em Roraima. A Nova República o premiou com o cargo de Superintendente da Delegacia do Amazonas, segundo cargo mais importante do órgão.

Semelhantemente ao caso de Costa, José Porfírio de Carvalho, outro funcionário subserviente que durante quase 10 anos ocupou cargos de confiança na ditadura, como o de coordenador da Coordenação da Amazônia – Coama [8], no Amazonas, que fornecia as armas aos funcionários daFunai, que atuaram na área Waimiri-Atroari no período mais cruel da ditadura. Do segundo ano da Nova República [9] até hoje, ocupa o cargo de coordenador do Programa Waimiri-Atroari[10], reprimindo qualquer tentativa de contato com os índios que pudessem levar os mesmos a revelar sua história recente. Até a representante da Comissão Nacional da Verdade se submeteu aos ditames deste funcionário, não permitindo sequer a presença de um membro do Comitê pela Memória, Verdade e Justiça do Amazonas, única entidade que forneceu um Relatório [11] amplo e documentado sobre os crimes cometidos pela Ditadura contra aquele povo.

Como se pode constatar por este e outros fatos que se referem à questão indígena, que a ambiguidade continua e domina não apenas a política indigenista oficial em todo o país, mas até a CNV, órgão que foi criado para abrir caminho para o conhecimento também dos crimes cometidos contra estes povos indígenas. Se o seu relatório contém relatos dos crimes contra os povos indígenas, não acrescenta, como o faz com os demais crimes da Ditadura, medidas atualizadas para reparar esses fatos dolorosos.