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domingo, 22 de novembro de 2015

O cheiro de enxofre e o mercado do medo: apropriações simbólicas da maconha como medicamento

Texto: Julino Soares

Doutorando pelo Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo. 

A discussão sobre a maconha vem ganhando diversas frentes e despertando grande interesse popular, como a discussão sobre o usos medicinal e recreativo, direitos dos pacientes, regulação e porte. Certamente que parte do interesse de instituições por esse tema está relacionado com a ideia de controle social, centro de diversas disputas de poder. Portanto, reconhecer as estratégias de convencimento e os conflitos permitirá uma melhor percepção da complexidade do tema e diminuir os temores. 

Disciplinar nossa conduta e as experiências para um discurso coerente com o pensamento dominante sempre foi campo de disputas, seja por parte das religiões, monarquias, instituições sociais ou do próprio Estado (vídeo). Em nome de um “bem maior”, as estratégias de convencimento incluem a produção de (des)informação, o medo e a violência para o controle da vida. A aceitação e reprodução das formas de controle também se estendem para as relações pessoais, como um olhar do outro sobre o comportamento “normal” que devemos ter para a aceitação social e evitar punições. 

Historicamente, os doentes também são alvo de diversas formas de controle e discursos, especialmente os portadores de doenças psiquiátricas, hanseníase (lepra), peste bubônica (peste negra), tuberculose, ancilostomíase (amarelão), AIDS dentre outros. 

Assim, o corpo doente é campo de disputa entre as diversas práticas de cura. Possui apropriações simbólicas, da doença como manifestação do campo espiritual, possibilita intervenções do Estado, como o isolamento do doente, e “autoriza” a manifestação de ideias preconceituosas contra imigrantes, homossexuais, etnias ou dependentes químicos.

Como exemplo, Bertoli (2012), descreve a pandemia de influenza (gripe espanhola - 1918) que deixou centenas de mortos em São Paulo e causou um estado de histeria coletiva, com grande contribuição dos jornais para a legitimação dos “culpados” e difusão do pânico. O autor relata um caso que ocorreu com imigrantes alemães infectados: 

“Ernest, o pai, conseguiu internação por alguns dias no Hospital Alemão e, ao receber alta, retornou ao chalé em que morava, nas proximidades de onde hoje se situa o Parque do Ibirapuera. Na casa, sua esposa e seu filho perceberam que algo estranho havia acontecido com Ernest, que, segundo eles, exalava forte odor de enxofre, afugentando até as moscas. Ponderando os fatos, ambos concluíram que o homem havia sido tomado por Satanás. Caberia a eles, bons protestantes lutar contra o Príncipe das Trevas e, ato contínuo, assassinaram o convalescente por sufocamento, introduzindo em sua boca uma pedra de lima e oito colheres”.

É importante considerar o impacto da desinformação e preconceitos sobre a vida dos pacientes e na elaboração de políticas de saúde. Apesar das conquistas dos pacientes, que fazem tratamento com Cannabis medicinal, junto às instituições de saúde, também é preciso o reconhecimento popular e dos profissionais da saúde com essa opção terapêutica. Nesse sentido, a paciente Juliana Paolinelli faz um importante relato:

“Tenho sequelas neurológicas graves, devido a uma espondilolistese congênita, operada duas vezes, sem sucesso, e preciso da maconha, mas muito também tem que ser feito para combater o preconceito. Eu quero ser reconhecida pelo que sou: paciente de maconha. Não posso mais ouvir berros de vizinho na janela, gritando ‘maconheira’, ‘não tem vergonha, duas crianças em casa’ e outras coisas que nem vale a pena reproduzir. Dói duas vezes - a dor neurológica intratável e o preconceito. Duas grandes dores”.

Os medicamentos também possuem valor simbólico. Pode ser comum escutar adjetivações negativas utilizando os nomes de medicamentos como o Gardenal®, Rivotril® ou Pondera®. Como também existem doenças que são alvo de preconceitos, a maconha medicinal igualmente carrega estigmas sociais. É importante dialogar com a população para que a apropriação simbólica da maconha medicinal no imaginário popular não se confunda com preconceitos atribuídos aos dependentes químicos ou à legalização do uso recreativo da maconha, que possui sua legitimação como campo de lutas e diferentes complexidades. 

A imprensa seria um importante aliado na discussão do uso medicinal e recreativo de substâncias psicoativas. Entretanto, a questão das drogas ainda é tratada sob o olhar da criminalização e medicalização. A abordagem jornalística agrega diversos discursos, incluindo o discurso médico, mas geralmente fragmentado, e nem sempre criteriosa, para legitimar as notícias veiculadas. Na construção dessas notícias, buscam-se especialmente declarações polêmicas, como parte dos mecanismos que regem a mídia no tema das “drogas” (Fiore, 2002). Segundo Carlini-Cotrim (1995), a imprensa brasileira usa um tom alarmista e fabrica o "pânico de drogas"; e, com isso, amplificar o medo pelo sensacionalismo (Barros, 2007). 

A ação de organizar e lapidar a informação a partir de certos fenômenos sociais é feita de forma a influenciar o leitor a consumir a informação de forma mais rápida e sem questionamentos. Entretanto, essa mercadoria (informação) é a versão dos fatos, onde o leitor não tem controle das circunstâncias em que foi produzida ou o motivo pelo qual foi levada a público, não possibilitando questioná-la (Barros, 2007).

O desenvolvimento de medicamentos possui contribuições de diversas disciplinas e muitos anos de pesquisa e vigilância. Mesmo medicamentos centenários e exaustivamente estudados como o ácido acetilsalicílico (AAS) ainda possuem estudos buscando novas aplicações clínicas e suspeitas de novas reações adversas. Neste momento, é importante que os pacientes reivindiquem participação nas discussões e deliberações das agências e instituições de saúde, além de cobrar transparência e ética na publicação de notícias e artigos científicos, garantindo assim que os esforços vão ao encontro dos melhores interesses dos pacientes. 

Referências 

Carlini-Cotrim, B. 1995. A mídia na fabricação do pânico de drogas, um estudo no Brasil. In Comunicação & Política, v.1, n.2 

Barros, L.A. 2007. Os “penalizáveis”, a política, a mídia e a polícia diante do estado democrático de direito. Revista Asa-palavra de Brumadinho. N° 08, ano IV.Foucault, M. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979. 

Bertoli, C.B. Novas Doenças, Velhos Medos: a mídia e as projeções de um futuro apocalípticos. In: As Doenças e os Medos Sociais. Monteiro, Y.N. & Carneiro, M.L.T. São Paulo: Ed Fap-Unifesp, 2012. 

Fiore, M. 2002. Algumas reflexões a respeito dos discursos médicos sobre uso de "drogas". Texto apresentado na XXVI Reunião Anual da ANPOCS, realizada em Caxambú, 2002.

Foucault, M. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Erário Mineral - Vol. 1 e 2



Organizer: Furtado, Júnia Ferreira
Author: Ferreira, Luís Gomes
Publisher: Editora FIOCRUZ
Language: Portuguese
Year: 2002
Pages: 821
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Synopsis

Erário Mineral, de Luís Gomes Ferreira, foi editado pela primeira vez em Lisboa, em 1735, sendo um dos primeiros tratados de medicina brasileira escrito em língua portuguesa. O livro reúne as experiências de práticas médicas realizadas pelo cirurgião-barbeiro Luís Gomes Ferreira na capitania de Minas Gerais. Além de uma descrição pormenorizada dos principais males ali freqüentes, o autor também descreve os meios mais eficazes de cura que experimentou e faz um importante inventário dos medicamentos utilizados na época com suas respectivas funções. Nessa leitura, descobrimos que entre os remédios empregados encontravam-se vários utilizados pelos índios e incorporados pelos paulistas à medicina colonial. Parte preciosa do relato é constituída pelas minuciosas informações sobre as duras condições de vida e de trabalho a que os escravos estavam submetidos, o que facilitava a propagação das doenças. Dois glossários completam e enriquecem ainda mais esta edição, procedendo a um levantamento dos médicos e cirurgiões citados pelo autor.

Table of Contents
Front Matter / Elementos Pré-textuais / Páginas Iniciales Preview PDF
Arte e segredo: o licenciado Luís Gomes Ferreira e seu caleidoscópio de imagens Preview PDF
Ouro, poesia e medicina: os poemas introdutórios ao erário mineral Preview PDF
Sertões do Rio das Velhas e das Gerais: vida social numa frente de povoamento - 1710-1733 Preview PDF
Gomes Ferreira e os símplices da terra: experiências sociais dos cirurgiões no Brasil – colônia Preview PDF
O erário mineral divertido e curioso Preview PDF
II - Dos critérios de normalização editorial e modernização da linguagem Preview PDF
Erário mineral: dividido em doze tratados Preview PDF
Prólogo: ao leitor Preview PDF
Licenças: do Santo Ofício Preview PDF
Poemas laudatórios Preview PDF
Índex dos tratados e capítulos que contêm este livro Preview PDF
Índice das observações que se contêm neste livro Preview PDF
Divisão da obra Preview PDF
Proêmio Preview PDF
Tratado I: da cura das pontadas pleuríticas e suas observações Preview PDF
Tratado II: das obstruções Preview PDF
Tratado III: da miscelânea de vários remédios, assim experimentados e inventados pelo autor, como escolhidos de vários para diversas enfermidades Preview PDF
Tratado IV: das deslocações, fraturas e suas observações Preview PDF
Tratado V: da rara virtude do óleo de ouro, das muitas enfermidades para que serve e observações de curas excelentíssimas que com ele se têm feito Preview PDF
Tratado VI: dos segredos ou remédios particulares que o autor faz manifestos para utilidade de bem comum Preview PDF
Tratado VII: dos formigueiros e outras doenças comuns nestas Minas Preview PDF
Tratado VIII: da enfermidade a que chamam corrupção-do-bicho, suas causas, seus sinais, seus prognósticos, sua cura e suas observações Preview PDF
Tratado IX: dos resfriamentos Preview PDF
Tratado Χ: dos dano s que faz o leite, melado, aguardente de cana e advertências par a conservação da saúde Preview PDF
Tratado XI: dos venenos e mordeduras venenosas Preview PDF
Tratado XII: do escorbuto ou Mal de Luanda Preview PDF
Índex das coisas mais notáveis que se contêm neste livro Preview PDF
Observações sobre o universo vocabular médico-cirúrgico do erário mineral , de Luís Gomes Ferreira Preview PDF
V - Glossário de médicos Preview PDF
VI - Sumário das ilustrações Preview PDF

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

O mito de Asclépio (Esculápio), o deus grego da medicina

Asclépio. Representação com o bastão e a serpente 

Na riquíssima cultura grega, berço de quase todo o conhecimento ocidental, Asclépio é o deus da medicina. As primeiras referências a ele vêm do poeta Homero, um controvertido personagem histórico que teria vivido no século VIII a.C. Nas obras de Homero, principalmente na Ilíada, mas também na Odisseia, Asclépio ainda não tem caráter divino e é mostrado como um médico poderoso, de grande saber. Hesíodo cujas obras principais A Teogonia e Os Trabalhos e os Dias, datam provavelmente de meio século depois de Homero, já confere um caráter de divindade a Asclépio, apresentando-o como filho de Apolo. 
O nascimento de Asclépio 

O mito de Asclépio, que teve seu nome latinizado para Esculápio, na mitologia romana, é descrito no século V a.C. pelo poeta Píndaro: a ninfa Coronis, grávida do deus Apolo, teve um romance com o mortal Isquis. Apolo descobriu a traição e fez com que sua irmã Artemis fulminasse Coronis com um raio. Já com Coronis na pira funerária, pronta para ser cremada, Apolo arrependeu-se e conseguiu retirar o filho ainda vivo do ventre da ninfa. A este filho chamou Asclépio e delegou sua educação à Quiron, um centauro que detinha os segredos da medicina. 
O romance de Isquis e Coronis 

Asclépio rapidamente aprendeu os segredos de Quíron e logo era capaz de realizar todas as curas. Mais do que isso: conseguiu ressuscitar alguns mortos. Hades, deus dos mortos, vendo quebrada a ordem natural das coisas, queixou-se a Zeus, que, irado, e temendo que Asclépio tornasse os homens imortais, fulminou-o com um raio, porém acabou reconhecendo o seu valor e logo o elevou à categoria de deus. 

Além dos filhos médicos Macaon e Podalírio, descritos por Homero na Ilíada, Asclépio teve mais 4 filhas que o auxilivam: Aceso, a cuidadora, Iaso, que curava, Panacéia, que tinha o conhecimento de todos os remédios e Higéia que conhecia os segredos da conservação da saúde. Os termos higiene e higidez são derivados de seu nome. 
Asklepeion de Cos 

Ao longo do tempo, o culto a Asclépio foi se expandindo. Desde o século VI a.C. existiam templos chamados Asklepeion, erigidos em sua homenagem, em várias localidades, como Cós, Cilene, Siracusa, Pérgamo e Epidauro, este o mais famoso e que teria sido construído sobre a sepultura do próprio deus. Os templos eram construídos em locais aprazíveis e dispunham sempre de um bosque sagrado e uma fonte de água límpida. Existem hoje 410 ruínas de asklepeions na Grécia. 

Postado por Neto Geraldes

Link: 

domingo, 6 de julho de 2014

'Lost in translation' issues in Chinese medicine addressed by researchers

Date: July 2, 2014

Source: University of California, Los Angeles (UCLA), Health Sciences

Summary:
Millions of people in the West today utilize traditional Chinese medicine, including acupuncture, herbs and massage therapies. Yet only a handful of Chinese medical texts have so far been translated into English. Given the complexity of the language and concepts, there is a need for accurate, high-quality translations. Researchers have published a document designed to help evaluate and digest Chinese medical texts with greater sensitivity and comprehension.
Cover of the 15-page document.
Credit: UCLA

Millions of people in the West today utilize traditional Chinese medicine, including acupuncture, herbs, massage and nutritional therapies. Yet only a few U.S. schools that teach Chinese medicine require Chinese-language training and only a handful of Chinese medical texts have so far been translated into English.

Given the complexity of the language and concepts in these texts, there is a need for accurate, high-quality translations, say researchers at UCLA's Center for East-West Medicine. To that end, the center has published a document that includes a detailed discussion of the issues involved in Chinese medical translation, which is designed to help students, educators, practitioners, researchers, publishers and translators evaluate and digest Chinese medical texts with greater sensitivity and comprehension.

"This publication aims to raise awareness among the many stakeholders involved with the translation of Chinese medicine," said principal investigator and study author Dr. Ka-Kit Hui, founder and director of the UCLA center.

The 15-page document, "Considerations in the Translation of Chinese Medicine" was developed and written by a UCLA team that included a doctor, an anthropologist, a China scholar and a translator. It appears in the current online edition of the Journal of Integrative Medicine.

Authors Sonya Pritzker, a licensed Chinese medicine practitioner and anthropologist, and Hanmo Zhang, a China scholar, hope the publication will promote communication in the field and play a role in the development of thorough, accurate translations.

The document highlights several important topics in the translation of Chinese medical texts, including the history of Chinese medical translations, which individuals make ideal translators, and other translation-specific issues, such as the delicate balance of focusing translations on the source-document language while considering the language it will be translated into.

It also addresses issues of technical terminology, period-specific language and style, and historical and cultural perspective. For example, depending on historical circumstances and language use, some translations may be geared toward a Western scientific audience or, alternately, it may take a more natural and spiritual tone. The authors note that it is sometimes helpful to include dual translations, such as "windfire eye/acute conjunctivitis," in order to facilitate a link between traditional Chinese medical terms and biomedical diagnoses.

The final section of the document calls for further discussion and action, specifically in the development of international collaborative efforts geared toward the creation of more rigorous guidelines for the translation of Chinese medicine texts.

"Considerations in the Translation of Chinese Medicine," was inspired by the late renowned translator and scholar Michael Heim, a professor in the UCLA departments of comparative literature and Slavic studies. A master of 12 languages, he is best known for his translation into English of Czech author Milan Kundera's "The Unbearable Lightness of Being." The new UCLA document is dedicated to him.

The document, the authors say, was influenced in large part by the American Council of Learned Societies' "Guidelines for the Translation of Social Science Texts," which are intended to promote communications in the social sciences across language boundaries. It was also influenced by Pritzker's longstanding anthropological study of translation in Chinese medicine, which is detailed in her new book, "Living Translation: Language and the Search for Resonance in U.S. Chinese Medicine," recently published by Berghahn Books. Funded by a UCLA Transdisciplinary Seed Grant, the document is available for free in both English and Chinese (PDF format) on the UCLA Center for East-West Medicine website.


Story Source:

The above story is based on materials provided by University of California, Los Angeles (UCLA), Health Sciences. Note: Materials may be edited for content and length.

Cite This Page:

University of California, Los Angeles (UCLA), Health Sciences. "'Lost in translation' issues in Chinese medicine addressed by researchers." ScienceDaily. ScienceDaily, 2 July 2014. <www.sciencedaily.com/releases/2014/07/140702122244.htm>.

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sábado, 23 de novembro de 2013

A expansão chinesa a partir da medicina tradicional

Por Liliana Fróio*

O despertar chinês não ocorre somente no âmbito econômico e da política internacional verifica-se também uma expansão cultural da potência asiática. Tal processo de expansão provém tanto de políticas planejadas, que objetivam a divulgação da imagem do país, quanto de processos de contato espontâneos ou não planejados. Esses processos espontâneos, muitas vezes, são os mais intensos, impactantes e que exigem ajustes internos e respostas dos países parademandas nacionais que surgem. O aumento na mobilidade de informação e de pessoas possibilita um cenário de constante interação entre culturas, o que provoca impactos variados para os Estados. O contato comparticularidades culturais estrangeiras certamente resulta em consequências sociais.

A expansão da medicina tradicional chinesa (MTC) se insere nesse processo, ao trazer consigo valores próprios, provocando mudanças socioinstitucionais nas regiões em que se insere. Trata-se de um sistema sanitário oriental e completamente diverso da medicina ocidental, que se difunde em vários sistemas de saúde nacionais de tal forma que passa a exigir uma resposta dos países para esse fenômeno. Particularmente a acupuntura, uma técnica peculiar da medicina chinesa, já é amplamente utilizada em pelo menos 78 países.

A medicina chinesa baseia-se nos princípios filosóficos da cultura oriental, o que a diferencia consideravelmente da medicina alopática do Ocidente. Para a MTC, o fundamental não é saber do que o corpo humano é constituído, nem de que forma seus órgãos se dispõem, mas sim observar o modo como o corpo é estimulado, tanto por fatores endógenos quanto exógenos. Por isso, até final do século XIX, essa técnica médica não se interessa pela anatomia e dissecação, criando uma fisiologia imaginária. Por exemplo, a comunicação do corpo não ocorreria por meio de artérias, veias, nervos, vasos linfáticos ou tendões, mas sim por canais de energia, denominados meridianos. A saúde do indivíduo é o resultado de um equilíbrio entre duas forças opostas – oyine oyang– cuja complementação é fundamental. Essas forças circulam no organismo sob a forma de energia, que percorre o corpo dentro dos canais. A distribuição dessa energia vital pode sofrer perturbações e os órgãos enfrentam desequilíbrios por excesso ou insuficiência de energia. Dessa forma, o corpo funcionaria sob o efeito da circulação dessa energia posta em movimento, e não da circulação de sangue.

Verifica-se, portanto, que consiste em uma técnica com concepções diferentes acerca do corpo, da saúde e da doença, mas que está se expandindo em diversos países do Ocidente, provocando reações sociais e exigindo medidas para integrá-la aos seus sistemas de saúde nacionais. A penetração dessa técnica esbarra em problemas relativos à legislação e à regulação de produtos, formação e licença para profissionais, informação e conscientização acerca dos serviços prestados, controle da eficiência e qualidade do serviço.

O que resulta desse processo tem uma lógica complexa. Surgem novos problemas diante dessa comunicação intercultural. O indivíduo, os hábitos, a cultura, a particularidade médica, que eram estranhos, podem tornar-se próximos e características distintas entre culturas diminuírem. Como consequência, pode-se observar a tolerância e o universalismo, em que todos se sentem incluídos, mas também podem ocorrer resistências, que em casos diversos são retratados nos movimentos de antiglobalização ou de choque entre percepções culturais.

Para compreender a capacidade de tolerância ou de aceitação de uma sociedade diante de uma particularidade cultural distinta é preciso considerar a capacidade dessa sociedade de integrar algo novo. Existem culturas mais abertas e outras mais resistentes. Dependendo da história social de um povo, a aceitação ou aquisição cultural pode ocorrer com maior ou menor facilidade. Para analisar esse grau de aceitação, seria importante verificar como está ocorrendo a gestão da heterogeneidade nessas sociedades, o que significa conhecer políticas dominantes dentro dos Estados e atitudes dos indivíduos. A realidade social e histórica de um povo é que permite compreender a penetração da medicina chinesa. Os grupos sociais experimentam concepções diversificadas acerca da etiologia das doenças e, para interpretar os fenômenos corporais,pessoas apoiam-se em noções, símbolos e esquemas de referência interiorizados de acordo com sua vivência social e cultural.

As representações sociais acerca da saúde e da doença aparecem, assim, articuladas à visão que cada indivíduo possui do biológico e do social e podem explicar reações sociais em relação aos novos conceitos de tratamento trazidos pela medicina tradicional chinesa. Essas representações sociais são dinâmicas, construídas ao longo do tempo, provêm das interações entre o social e o mental, das evoluções históricas, do que é apresentado para sociedades e da forma como interagem com novas situações que lhes aparecem. Portanto, a dinâmica global vem acelerando os contatos culturais, provocando mudanças socioinstitucionais internas e, em certos casos, alterações nas representações sociais, mas não se trata de um processo homogêneo para todas nações, sendo necessário identificar condições que explicam os impactos diferenciados para cada região.

A expansão da medicina tradicional chinesa

A medicina tradicional chinesa foi divulgada, inicialmente, nas regiões vizinhas à China, a partir da expansão territorial do império. Foi por meio das relações comerciais que os países do Ocidente tiveram seus primeiros contatos com o mundo asiático. A abertura para oeste, por meio da Rota da Seda, fez com que mercadorias chinesas chegassem à Ásia Menor e depois à Europa. As viagens do italiano Marco Polo, no final do século XIII, tornaram possíveis os primeiros contatos, ainda tímidos, com o desconhecido mundo chinês. Em 1255, o Ocidente já tinha relatos sobre uma exótica medicina praticada pelos chineses, com a obra de William de Rubruk intitulada Viagem à terra dos mongóis.Entretanto, nessa época, o que interessava aos europeus era, sobretudo, a seda chinesa.

Os contatos em maior escala entre o Ocidente e a China, que despertaram o interesse ocidental para um outro aspecto da cultura chinesa, em especial para sua arte médica tradicional, ocorreu concretamente a partir do século XVI, na época da expansão marítima europeia. Mas só os primeiros missionários enviados por Luís XIV, que reinou na França entre 1643 e 1715, é que começaram a compreender e a estudar instituições da civilização chinesa, inclusive suas técnicas médicas. Na Europa, o primeiro tratado de acupuntura, Les secrets de la médecine des chinois, surgiu em 1671, publicado pelo padre Harvieu. Algum tempo depois, outro religioso, o padre Cleyer, também editava um trabalho sobre a medicina chinesa em latim. Depois deles, mais de 200 autores europeus seguiram divulgando trabalhos sobre o tema.

Os padres jesuítas portugueses, que viveram no Japão por longos períodos a partir do século XVI, também puderam conhecer a forma japonesa de praticar a medicina chinesa e, no século XVII, começaram os relatos propriamente ditos de médicos ocidentais que viveram na Ásia. Iniciou-se, assim, um período de interesse do Ocidente pela medicina chinesa, particularmente pela acupuntura. O doutor Joseph Berlioz, da Escola Médica de Paris, por volta de 1810, foi responsável pela introdução da acupuntura como prática terapêutica dentro da Europa. No entanto, não era fiel ao método chinês. Limitando-se à ação local sobre a dor e negligenciando os conceitos de energia vital da medicina chinesa, o que se praticava era um método primitivo de entendimento das técnicas chinesas.

O diplomata francês Soulié de Morant foi para a China aos vinte anos para trabalhar em um banco. Em 1898, recebeu seu diploma da Escola de Línguas Orientais e seu conhecimento em chinês proporcionou-lhe entrar para o Ministério dos Assuntos Estrangeiros, sendo nomeado cônsul da França e Shangai. O conhecimento da língua chinesa permitiu a Morant traduzir os tratados médicos chineses que, até então, por questões linguísticas, estavam fora do alcance até mesmo de sinólogos e de médicos em missão oficial empenhados em desvendar a medicina chinesa. Soulié de Morant não parou mais de trabalhar e divulgar a MTC, apesar da constante desconfiança dos médicos ocidentais. A comunidade científica da época, apesar dos resultados positivos obtidos pela MTC, permanecia incrédula em relação a essa técnica médica e ao trabalho de Morant. O fato de Morant não possuir formação médica contribuía para a reação negativa da comunidade médica ocidental. Entretanto, o que mais causava desconfiança dos cientistas e pesquisadores do Ocidente era a introdução de uma técnica terapêutica com conceitos e métodos tão diferentes dos seus, considerados pouco racionais ou científicos para os padrões ocidentais estabelecidos. Soulié de Morant chegou a ser acusado de praticante ilegal da medicina pela Ordem dos Médicos da França.

No decorrer dos anos, a medicina chinesa foi, então, conquistando a França, a Europa e posteriormente o mundo. Sua credibilidade aumentava com os resultados positivos obtidos, o que demonstrava que não se tratava de uma técnica charlatã ou esotérica. Notadamente a França e a Alemanha contam com a maior parte dos técnicos acupunturistas, seguidos de Itália, Bélgica e países nórdicos. O que se vê é um sistema sanitário externo, especificamente oriental e completamente diverso da medicina ocidental, expandir-se e integrar-se em vários sistemas de saúde nacionais.

A cultura médica chinesa no Brasil

A forma como a medicina chinesa se inseriu no Brasil pode ser compreendida por quatro fatores: dois de âmbito interno e dois provenientes do contexto internacional. As justificativas internas remetem à história dos imigrantes orientais para o país e à evolução da cultura médica nacional. O Brasil não consistia na rota prioritária dos chineses para a América Latina e não adotou políticas de incentivo à imigração, o que demonstra o baixo índice de imigrantes chineses para o país, ao contrário do que se verificou com a imigração japonesa3. Os japoneses foram contratados para trabalhar nas plantações de café e, quando os contratos venceram, grande parte deles mudou-se para o interior paulista ou para a região litorânea. Entre 1910 e 1914, chegaram cerca de 14.200 imigrantes japoneses. Entre 1925 e 1935, já havia cerca de 140.000 e atualmente estima-se que a comunidade japonesa ultrapasse um milhão de pessoas. A comunidade chinesa, em contrapartida, é estimada em cerca de 190 mil habitantes4.

Foram, portanto, principalmente os imigrantes japoneses que introduziram a técnica médica oriental no país, a qual foi disseminada na classe médica pelo fisioterapeuta europeu naturalizado brasileiro Friedrich Johann Spaeth. Em 1958, Spaeth fundou a Sociedade Brasileira de Acupuntura e Medicina Oriental e começou e ensinar a acupuntura para profissionais da área de saúde. Em 1961, o médico vascular chinês Wu Tou Kwang deu um novo incentivo às técnicas médicas orientais no país que, entretanto, ainda contavam com a recusa do Conselho Federal de Medicina brasileiro em regularizar a prática como atividade médica. O embate ocorria devido à repercussão de tal medida para a corporação médica nacional.

O segundo fator que explica os rumos dessa técnica médica no Brasil remete à capacidade de tolerância ou aceitação nacional. Ao verificar a história da medicina brasileira, percebe-se que as ideias e os conhecimentos médicos aceitos e praticados provêm de influências diversas. A medicina brasileira foi influenciada pelos ibéricos, franceses, holandeses, jesuítas, indígenas e negros. Por volta de 1530, chegam os primeiros profissionais formados em medicina que trazem consigo a visão terapêutica ibérica da época, assim como chegam também os negros e, com eles, novas patologias e práticas de cura. Na terra em que tudo faltava, os jesuítas tornaram-se médicos e enfermeiros, adquiriram os conhecimentos da medicina indígena, identificaram vegetais terapêuticos, cultivaram, experimentaram e exportaram ervas variadas para a Europa, sendo algumas incorporadas à farmacopeia mundial. A medicina jesuítica foi, portanto, substituindo aos poucos o curandeirismo vigente.

As técnicas médicas brasileiras do período foram influenciadas por uma medicina mais avançada vinda da Europa, mas também tiveram de lidar com as limitações do ambiente em termos materiais ou culturais. A medicina europeia chegou, encontrou a medicina nativa, dela se utilizou, trouxe elementos novos e acabou gerando uma técnica tipicamente brasileira. O resultado foi uma medicina mesclada, composta de superstições e crendices populares, ao mesmo tempo em que tinha seu lado empírico, experimental, inspirado na manipulação da rica vegetação brasileira.

Os hábitos e as práticas médicas atuais desenvolvidas no Brasil sofreram influência desse período. O fato de o Brasil ter contado com uma medicina primitiva, que procurava tratamentos pelos meios naturais existentes, aproveitando-se da rica vegetação local, contribuiu para que não ocorresse um completo estranhamento perante as ideias trazidas pela medicina chinesa. Dessa forma, ao invés da introdução de uma arte médica completamente diferente, o que poderia causar maior choque, o que se vê é a penetração de uma técnica que encontra identificações dentro da cultura brasileira. O uso de plantas terapêuticas no Brasil e na China é baseado em princípios diferentes; entretanto, é possível identificar 24 espécies em comum que são utilizadas em ambos os países para finalidades médicas5. Assim, o processo de expansão da medicina chinesa poderia ser encarado como um retorno ao passado.

O terceiro fator insere-se em um momento amplo de crise do paradigma médico do Ocidente. O crescente uso da medicina chinesa poderia ser explicado, sobretudo, devido à crise dos sistemas de saúde, ou, por que não dizer, do próprio modo de vida do Ocidente. A busca de um tratamento médico com técnicas mais humanas e integradoras seria o reflexo do desgaste do crédito social da biomedicina.

Por fim, a globalização apresenta-se como o quarto motivo que explica o avanço da cultura médica oriental. Trata-se do contato espontâneo entre os povos, resultado de fluxos turísticos e migratórios ou da dinamização tecnológica. A globalização cultural refletia, anteriormente, a difusão dos valores ocidentais pelo mundo. Entretanto, atualmente, são os valores do Oriente que estão penetrando no Ocidente. A China, em especial, deixou seu legado cultural com invenções como a seda, a porcelana, o papel, a pólvora, a acupuntura, o macarrão. No século XXI, o Oriente vem sendo difundido por meio do alto padrão de comércio entre as nações, que também aproxima os hábitos e comportamentos.

Os impactos socioinstitucionais

De acordo com Marilene Cabral do Nascimento6, podem-se estabelecer três conjunturas bem definidas no processo de penetração da medicina chinesa no Brasil. Até a década de 1970, a acupuntura e as técnicas chinesas causaram polêmicas no país, oscilando entre taxações como técnicas de curandeiros e charlatanismo. Houve ainda certo nível de intolerância por parte dos conselhos de medicina que resultaram em ameaças, prisões e processos contra acupunturistas que não possuíam formação médica.

O movimento dos acupuntores, em contrapartida, não se intimidou e fez uma ofensiva contra os atos da classe médica. Frederich Spaeth, juntamente com o Instituto de Acupuntura de São Paulo, com a Associação Brasileira de Acupuntura e com a Federação Sul-Americana de Acupuntura, começou a procurar a imprensa nacional, argumentando que a existência de charlatões nesse meio era em decorrência da ausência de regulamentação dessa técnica médica. Spaeth alertava ainda sobre a legalização dessa prática em outros países e sua recomendação pela Organização Mundial da Saúde7.

A divulgação sobre a MTC permitiu o ingresso da acupuntura nas instituições brasileiras oficiais de saúde. Os constantes resultados positivos com o uso da medicina chinesa provocou uma adequação das instituições para a inserção dessas técnicas nos programas de atendimento nacional.

Em 1981, foi implantado o Departamento de Acupuntura no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco, tanto para atendimento da população como para trabalhos de pesquisa. Foi aberto, ainda, um curso técnico de acupuntura no estado de São Paulo, reconhecido pelo Ministério da Educação (MEC) e, em 1983, a Universidade de Pelotas abriu um polo de estudo da acupuntura na instituição. Nesse momento, houve uma dinamização crescente nas instituições para adequar essa arte médica aos seus programas. No Rio de Janeiro, foram oferecidos serviços de acupuntura em três hospitais. Em 1984, discutia-se sobre a introdução da acupuntura na rede hospitalar do Instituto Nacional de Assistência Médica e Previdência Social (atual INPS).

A principal controvérsia ocorreu, majoritariamente, sobre a questão da exclusividade médica para a prática da acupuntura. Divergências nesse campo provocaram uma divisão entre os acupuntores, fazendo com que alguns médicos acupunturistas abandonassem a Associação Brasileira de Acupuntura (ABA) e fundassem a Sociedade Médica Brasileira de Acupuntura (SMBA), em 1984. Os médicos da SMBA eram a favor da regulamentação da profissão apenas para médicos formados, ao que a ABA alegava que o fato de ser médico não determinava competência do profissional, mas apenas uma formação específica. A SMBA se dirigiu à mídia nacional para elencar os riscos do uso da acupuntura por profissionais que não fossem médicos, tais como a contaminação por doenças como a Aids e a hepatite em razão da falta de esterilização adequada do material e também lesões nos órgãos vitais pelo manuseio errado das agulhas.

Em 1990, debatia-se acerca da legitimação e da regulamentação da acupuntura. O reconhecimento pela corporação médica brasileira das práticas vindas do Oriente ocorreu devido ao aumento da sua popularidade, o que exigiu uma resposta da classe médica. A acupuntura foi reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina do Brasil como ato médico em 1992 e como especialidade médica em 1995. Elaborou-se um projeto para aprimorar a acupuntura, abrir novas linhas de investigação científica, criar padrões de qualidade na formação de especialistas e incrementar o intercâmbio científico, tecnológico e cultural entre o Brasil e a China. O projeto foi aprovado pela Superintendência de Cooperação Internacional do CNPq e possibilitou a participação de docentes chineses nos cursos universitários de especialização e nos programas de residência médica, mestrado e doutorado. Na época do projeto, praticamente toda a diretoria da SMBA visitou a China. Foram estabelecidos acordos e buscou-se compreender os mecanismos regulamentadores da prática e do ensino da acupuntura na China.

No âmbito de acordos internacionais firmados, os governos do Brasil e da China estabeleceram, em 1988, o Convênio sobre Cooperação no Domínio da Medicina e dos Fármacos Tradicionais e o Convênio de Cooperação Científica e Tecnológica na Área de Fármacos Destinados ao Combate das Grandes Endemias. Em 1996, na reunião de cooperação científica e tecnológica entre os dois países, o Brasil buscou soluções conjuntas para as seguintes questões: mecanismos de controle da qualidade dos produtos e serviços da medicina chinesa oferecidos em redes públicas e privadas de assistência à saúde; formas de implantar o uso rotineiro de medicamentos de origem vegetal pela população brasileira, especialmente da área rural; como realizar pesquisas científicas básicas e estudos clínicos, particularmente sobre a acupuntura. A farmácia chinesa é caracterizada pelo uso de emplastros, unções, pílulas, xaropes, granulados que provêm da sua flora diversificada. O Brasil também possui uma flora rica e abundante, o que gera uma grande expectativa de cooperação entre os países nesse campo.

A medicina tradicional chinesa no Brasil não evoluiu, portanto, para um choque cultural, mas provocou consequências sociais importantes que levaram os grupos sociais e o governo a buscar, na experiência asiática, soluções para suprir os desafios apresentados por esse contato. Os problemas relacionados às técnicas orientais não passam mais pelo questionamento da sua eficácia como prática terapêutica, mas por questões internas em relação à definição da profissão de acupunturista. A evolução desse contexto de expansão da medicina tradicional chinesa evidencia outras formas de influência e de destaque da China no mundo, as quais também exigem adaptações, canais de entendimento e cooperação entre os países.

Liliana Fróio é pesquisadora do Núcleo de Estudos de Política Comparada e Relações Internacionais da Universidade Federal de Pernambuco e professora do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal da Paraíba.

Notas

1. Organização Mundial de Saúde. Estrategia de la OMS sobre medicina tradicional: 2002-2005, p. 11.

2. Sournia, Jean-Charles. História da medicina. Tradução de Jorge Domingues Nogueira. Lisboa: Instituto Piaget, 1992, p. 140.

3. Os chineses se dirigiram para países em que já havia parentes instalados ou então países que já eram rota de migração e possuíam comunidades chinesas formadas. Na América Latina, os países que estavam na rota do coolie trade (Cuba, Peru, México, Panamá, Costa Rica, Honduras, Trinidad, Guiana) receberam uma maior quantidade desses imigrantes e, portanto, eram mais procurados pelos chineses que optavam livremente pela imigração.

4. Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo. A acupuntura no Brasil. Disponível em <http://www.cremesp.com.br/forum/viewtopic.php?p=826&> Acesso 07 jan 2008.

5. Matos, F. J. A.; Machado, M. I. L.; Alencar, J. W.; Matos, M. E. O.; Craveiro, A. A. Plants used in traditional medicine of China and Brazil. Mem. Ins. Oswaldo Cruz. Rio de Janeiro, v. 86, suppl. II, 1991, p. 13-15.

6. A autora fez um estudo sobre a acupuntura no Brasil, do período de 1974 a 1996, baseado em matérias de jornais de grande circulação do Rio de Janeiro e São Paulo.

7. Em 1979, a Organização Mundial de Saúde já reconhecia o uso da acupuntura como técnica terapêutica eficaz para mais de 40 doenças.

Referências bibliográficas

Amaro, Ana Maria. O mundo chinês: um longo diálogo de culturas. Lisboa: Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, 1998.

Barbier, René. Do pensamento chinês. In: Guimarães, Lytton L. (org). Ásia – América Latina – Brasil: a construção de parcerias. Brasília: Neasia/CEAM/Unb, 2003.

Beau, Georges. A medicina chinesa. Tradução de Maria Cristina Paschoal Basto e Maria Angela Calvão da Silva; Revisão de Hésio Cordeiro. Rio de Janeiro: Interciência, 1982.

Filho, Lycurgo Santos. História geral da medicina brasileira. São Paulo: Hucitec, 1977.

Le Goff, Jacques. Uma história dramática. In: Le Goff, Jacques. As doenças têm história. Tradução de Laurinda Bom. Lisboa: Terramar, 1985.

Matos, F. J. A.; Machado, M. I. L.; Alencar, J. W.; Matos, M. E. O.; Craveiro, A. A. Plants used in traditional medicine of China and Brazil. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz. Rio de Janeiro, v. 86, sup. 2, 1991.

Nascimento, Marilene Cabral do. De panacéia mística a especialidade médica: a acupuntura na visão da imprensa escrita. Rio de Janeiro: UERJ, IMS, 1997.

Nogueira, Maria Inês. “Entre a conversão e o ecletismo: de como médicos brasileiros tornam-se chineses”. 2003. 155 f. Tese (doutorado em saúde coletiva) – Instituto de Medicina Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2003.

Organização Mundial de Saúde. Estrategia de la OMS sobre medicina tradicional: 2002-2005.

Sournia, Jean-Charles. História da medicina. Tradução de Jorge Domingues Nogueira. Lisboa: Instituto Piaget, 1992.

Valadão, Roxana. Caminhos da acupuntura no Brasil (1970-1990). Anais do VI Seminário Nacional de História da Ciência e Tecnologia, n. 6, Rio de Janeiro, 1997.

Data: 10/04/2012
Veículo: comciencia.br
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terça-feira, 24 de setembro de 2013

A Enfermagem desde o Egito até a Era Cristão

Período Pré-Cristão

Neste período as doenças eram tidas como um castigo de Deus ou resultavam do poder do demônio. Por isso os sacerdotes ou feiticeiras acumulavam funções de médicos e enfermeiros. O tratamento consistia em aplacar as divindades, afastando os maus espíritos por meio de sacrifícios. Usavam-se: massagens, banho de água fria ou quente, purgativos, substâncias provocadoras de náuseas. Mais tarde os sacerdotes adquiriam conhecimentos sobre plantas medicinais e passaram a ensinar pessoas, delegando-lhes funções de enfermeiros e farmacêuticos. Alguns papiros, inscrições, monumentos, livros de orientações política e religiosas, ruínas de aquedutos e outras descobertas nos permitem formar uma idéia do tratamento dos doentes.

Egito

Os egípicios deixaram alguns documentos sobre a medicina conhecida em sua época. As receitas médicas deviam ser tomadas acompanhadas da recitação de fórmulas religiosas. Pratica-se o hipnotismo, a interpretação de sonhos; acreditava-se na influência de algumas pessoas sobre a saúde de outras. Havia ambulatórios gratuitos, onde era recomendada a hospitalidade e o auxílio aos desamparados.

Índia

Documentos do século VI a.C. nos dizem que os hindus conheciam: ligamentos, músculos, nervos, plexos, vasos linfáticos, antídotos para alguns tipos de envenenamento e o processo digestivo. Realizavam alguns tipos de procedimentos, tais como: suturas, amputações, trepanações e corrigiam fraturas. Neste aspecto o budismo contribui para o desenvolvimento da enfermagem e da medicina. Os hindus tornaram-se conhecidos pela construção de hospitais. Foram os únicos, na época, que citaram enfermeiros e exigiam deles qualidades morais e conhecimentos científicos. Nos hospitais eram usados músicos e narradores de histórias para distrair os pacientes. O bramanismo fez decair a medicina e a enfermagem, pelo exagerado respeito ao corpo humano - proibia a dissecação de cadáveres e o derramamento de sangue. As doenças eram consideradas castigo.

Assíria e Babilônia

Entre os assírios e babilônios existiam penalidades para médicos incompetentes, tais como: amputação das mãos, indenização, etc. A medicina era baseada na magia - acreditava-se que sete demônios eram os causadores das doenças. Os sacerdotes-médicos vendiam talismãs com orações usadas contra ataques dos demônios. Nos documentos assírios e babilônicos não há menção de hospitais, nem de enfermeiros. Conheciam a lepra e sua cura dependia de milagres de Deus, como no episódio bíblico do banho no rio Jordão. "Vai, lava-te sete vezes no Rio Jordão e tua carne ficará limpa".(II Reis: 5, 10-11)

China

Os doentes chineses eram cuidados por sacerdotes. As doenças eram classificadas da seguinte maneira: benignas, médias e graves. Os sacerdotes eram divididos em três categorias que correspondiam ao grau da doença da qual se ocupava. Os templos eram rodeados de plantas medicinais. Os chineses conheciam algumas doenças: varíola e sífilis. Procedimentos: operações de lábio. Tratamento: anemias, indicavam ferro e fígado; doenças da pele, aplicavam o arsênico. Anestesia: ópio. Construíram alguns hospitais de isolamento e casas de repouso. A cirurgia não evoluiu devido a proibição da dissecação de cadáveres.

Japão

Os japoneses aprovaram e estimularam a eutanásia. A medicina era fetichista e a única terapêutica era o uso de águas termais.

Grécia

As primeiras teorias gregas se prendiam à mitologia. Apolo, o deus sol, era o deus da saúde e da medicina. Usavam sedativos, fortificantes e hemostáticos, faziam ataduras e retiravam corpos estranhos, também tinham casas para tratamento dos doentes. A medicina era exercida pelos sacerdotes-médicos, que interpretavam os sonhos das pessoas. Tratamento: banhos, massagens, sangrias, dietas, sol, ar puro, água pura mineral. Dava-se valor à beleza física, cultural e a hospitalidade. O excesso de respeito pelo corpo atrasou os estudos anatômicos. O nascimento e a morte eram considerados impuros, causando desprezo pela obstetrícia e abandono dos doentes graves. A medicina tornou-se científica, graças a Hipócrates, que deixou de lado a crença de que as doenças eram causadas por maus espíritos. Hipócrates é considerado o Pai da Medicina. Observava o doente, fazia diagnóstico, prognóstico e a terapêutica. Reconheceu doenças como: tuberculose, malária, histeria, neurose, luxações e fraturas. Seu princípio fundamental na terapêutica consistia em "não contrariar a natureza, porém auxiliá-la a reagir". Tratamentos usados: massagens, banhos, ginásticas, dietas, sangrias, ventosas, vomitórios, purgativos e calmantes, ervas medicinais e medicamentos minerais.

Roma

A medicina não teve prestígio em Roma. Durante muito tempo era exercida por escravos ou estrangeiros. Os romanos eram um povo, essencialmente guerreiro. O indivíduo recebia cuidados do Estado como cidadão destinado a tornar-se bom guerreiro, audaz e vigoroso. Roma distinguiu-se pela limpeza das ruas, ventilação das casas, água pura e abundante e redes de esgoto. Os mortos eram sepultados fora da cidade, na via Ápia. O desenvolvimento da medicina dos romanos sofreu influência do povo grago.

O cristianismo foi a maior revolução social de todos os tempos. Influiu positivamente através da reforma dos indivíduos e da família. Os cristãos praticavam uma tal caridade, que movia os pagãos: "Vede como eles se amam". Desde o início do cristianismo os pobres e enfermos foram objeto de cuidados especiais por parte da Igreja.

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quarta-feira, 28 de agosto de 2013

O mundo invisível desvendado. A invenção do microscópio

Do blog: Xarope de letrinhas - http://netogeraldes.blogspot.com.br/
Ilustração do livro Micrographie de Robert Hooke
Ochiollino de Galileu (?)
 
A história da microscopia começa em meados do século XVII com as observações do holandês Antonie von Leeuwenhoek, embora os primeiros microscópios tivessem sido inventados provavelmente no final do século XVI. Há relatos de que os também holandeses Hans Jannsen e seu filho Zacharias construíram, na década de 1590, um instrumento que consistia em tubo cilíndrico com lentes nas extremidades, capaz de proporcionar um aumento de cerca de 10 vezes do objeto estudado. O célebre Galileu Galilei (1564-1642), em 1624 apresentou um aparelho, que vinha aperfeiçoando desde 1609 que aumentava o objeto cerca de 20 a 30 vezes e que chamou de ochiollino. A utilização do termo “microscópio” só apareceu em 1624, utilizada pelo alemão Giovanni Faber.
O microscópio de Leewenhoek

Antony Leewenhoek (1632-1723) era um comerciante de tecidos de Delft na Holandaque tinha grande aptidão para lidar com lentes. Acabou desenvolvendo seu próprio microscópio, que tinham apenas uma lente, construindo centenas deles. Os melhores chegaram a proporcionar aumentos de cerca de 200 vezes. Sua curiosidade levou-o a examinar com suas lentes tudo o que podia. 
O microscópio reconstruído*

Criterioso, descreveu espermatozoides, relatando a presença de animálculos no esperma, glóbulos vermelhos do sangue. Identificou um animálculo em suas próprias fezes, que mais tarde seria identificado como a Giardia lamblia. O mundo invisível estava sendo revelado e abrindo o caminho para novas descobertas. Os microscópios, lentes e observações de Leewenhoek alcançaram grande repercussão no seu tempo. Seus trabalhos tiveram repercussão na Real Academia de Medicina em Londres, onde alcançou o apoio de Robert Hooke.

Robert Hooke (1635-1703), por sua vez, deu grande impulso à microscopia, tanto por ter aperfeiçoado o instrumento, utilizando duas lentes (uma ocular e uma objetiva), como por suas experiências e observações. No seu livro Micrographie, que foi publicado em 1665, está registrada a descoberta da célula, que mais tarde viria a ser considerada a unidade estrutural da vida. Hooke examinou cortes finos de cortiça e verificou que existiam numerosos compartimentos vazios, a que chamou de cells.

Os aparelhos foram recebendo progressivos aperfeiçoamentos com o tempo. Na década de 1740 apareceram os microscópios de projeção que utilizavam a energia solar e que fizeram bastante sucesso. Na época eram frequentes espetáculos para apresentação desses instrumentos.

A progressão do conhecimento levou a um conhecimento cada vez maior das células, mas foi somente no século XIX, em 1838 que o botânico alemão Matthias Schleiden (1884-1881) demonstrou que todos os vegetais eram formados por células e em 1839 o zoólogo Theodor Schwann (1810-1882), também da Alemanha estabeleceu que o mesmo se aplicava aos animais e que a célula era a unidade fundamental da vida. Estava pavimentado o caminho para a criação da Teoria Celular. Ao criar condições técnicas para o estudo de microorganismos e das estruturas celulares, a invenção proporcionou um avanço formidável no conhecimento médico e a ruptura, não sem muita polêmica, com antigos e arraigados conceitos. 

* a ilustração refere-se a construção de uma réplica do microscópio de Leewenhoek, que pode ser vista aqui: http://www.microscopy-uk.org.uk/mag/indexmag.html?http://www.microscopy-uk.org.uk/mag/artjul07/hl-loncke2.html

Postado por Neto Geraldes
Data: 27.08.2013
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terça-feira, 6 de agosto de 2013

A peste e os médicos. Prevenção e tratamento na Idade Média

A peste chegou avassaladora na Europa em meados do século XIV, matando entre 25% e 50% da população do continente e causando pânico e profundas consequências sociais, políticas e culturais. Para combatê-la os médicos tentaram diversos tratamentos, baseados em diversas teorias.

Uma boa fonte para entendermos a tentativa de enfrentamento da epidemia pelos médicos da época é o Regimento Proueytoso Contra ha Pestenença, um incunábulo que, embora tenha sido impresso no final do século XV, foi baseado num texto de meados do século XIV escrito por um médico de Montpellier chamado Johannes Jacobi. Nesse texto, o autor esclarece que para combater a peste:

“(...) primeiro o homem deve se afastar do mal e inclinar-se ao bem e que homem primeiramente há de confessar seus pecados humildemente. Por isso, em tempo de pestilência, o grande remédio é a santa penitência e a confissão, que precedem e são muito melhores que todas as mezinhas”

A ideia de doença como castigo divino é muito presente na Idade Média. Assim, é reforçada a necessidade de evitar o pecado para estar bem com Deus e merecer a Sua clemência. Mas também mostra que é fundamental estar bem com a Igreja ao ressaltar a importância da confissão e das penitências, que são melhores que qualquer medicamento (mezinha).

Com a confissão e as penitências, a Igreja tem o poder de regenerar a alma, de controlar o comportamento. Ela é a intermediária obrigatória entre Deus e os homens e pode absolver os pecados e oferecer a salvação e interceder pela cura. 

Uma recomendação recorrente em vários textos da época para se livrar da epidemia é fugir do local apeçonhentado, porque a corrupção do ar, a podridão, o mau cheiro eram causas da peste. Quem não pudesse fugir, deveria evitar locais com mau cheiro, onde existissem corpos mortos, águas sujas. Novamente aponta a corrupção do ar, o mau cheiro, a podridão, como coisas a serem evitadas. Onde houvesse o mau cheiro, haveria o perigo da corrupção do ar. Deveria ser evitado a todo custo, o terrível vento que vinha do sul.

“Fechem-se, portanto, as frestas ou janelas que vão ou estão pera o sul até uma hora depois do meio-dia, e abram-se as que estão pera o norte”.

Claro que, se o mau cheiro corrompe a atmosfera e assim é causa de doença, o cheiro bom era percebido como tendo efeito inverso, de proteção, de combater a corrupção do ar. O autor do Regimento Proveitoso contra a Pestilência ensina, para a purificação das casas:

“E faça-se também com fumo de boas ervas aqui descritas, baga de louro, junípero, uberiorgano, que acharás nos apotecários. E de alosna, e hissope, e arruda, e artemísia, e com lenho de aloés, que é melhor que todos porém não se pode comprar por pequeno preço. E tal fumo deve entrar pela boca e pelo nariz porque assim endireitam as coisas de dentro.”
Alosna é a planta de cujas folhas é feito o absinto, bebida de grande teor alcoólico. O junípero (zimbro) é uma planta nativa do hemisfério norte, é utilizado como aromatizante no gim. O junípero ainda hoje é utilizado em fitoterapia e aromaterapia. A utilização de plantas para o tratamento de doenças é tão antiga quanto a História da Medicina. Entre as fontes que retratam a história dos medicamentos, uma das mais importantes é a Materia Medica de Pedanius Dioscorides, que viveu em Roma no tempo do imperador Nero. A Materia Medica foi a base do conhecimento farmacológico ensinado nas escolas de medicina do ocidente até o século XVII. Nela são descritas aplicações medicinais de cerca de 600 plantas, das quais algumas ainda hoje fazem parte de farmacopeias. É bem possível que no texto analisado exista a influência de Dioscorides. Outras recomendações eram a de se evitar aglomerações e banhos frequentes, possivelmente porque dilataria os poros e permitiria a entrada dos venenos do ar corrompido. Igualmente perniciosa era a luxúria, também causa de podridão. O ato sexual precisava ser evitado em tempos da peste.

Outro conselho do Regimento:
“Muito sã cousa é que se lave a boca, e os olhos, e as mãos frequentemente em cada dia com água rosada misturada com vinagre. (...) E também é grande remédio vazar o ventre. E se o ventre não se puder vazar naturalmente, toma um clister.”

A triaga ou teriaga era uma espécie de panaceia, em cuja composição se utilizavam a carne de víboras e diversos ingredientes, como a pimenta, ópio, gengibre, mirra. Tinha numerosas indicações, entre elas o tratamento das mordeduras de cobras, contra a peçonha. Era indicada como método de prevenir a peste. Da mesma forma era bom comer boas comidas e vinho puro, sem excessos. 


Na sociedade hierarquizada medieval, essa hierarquia também se estende aos tratamentos médicos. Os mais ricos podem conseguir melhores molhos e melhor proteção. Tem acesso aos condimentos e especiarias, mais caros e mais eficientes, segundo os médicos medievais. Os muitos pobres devem contentar-se com poucas ervas. Os médicos vendem seu trabalho e seu conhecimento. Cirurgiões e barbeiros também. Em época de peste proliferam charlatães, com seus conselhos e poções. Mas o pobre sabe que precisa permanecer no lugar onde Deus o colocou, a mesma hierarquia que existia nos Céus, existia na Terra. O homem medieval obedecia aos seus superiores, ao rei, aos prelados, ao seu senhor, aos chefes comunais. O valor da autoritas era imposto e eram múltiplas as autoridades às quais se devia obediência. Le Goff diz que foi justamente no século XIV (cenário deste Regimento) que o homem aprendeu a se revoltar em caso de necessidade. O Regimento proveitoso é claro:

“E com estas cousas busquem-se para os ricos muito boas salsas ou salseamentos. Porque, se forem pobres, contentem-se com arruda e salva, noz moscadas, perrexil, e tudo misturado com vinagre faz um molho muito bom. E se não forem muito pobres, tomem cominho e açafrão e misturem tudo com vinagre. E tal molho é muito bom e destrói, acaba ou tira toda a podridão.”

Links para outros posts sobre a Peste Negra :
A Peste Negra e o médico medieval Clique aqui
A Peste Negra do Século XIV aqui

Bibliografia consultada:

CZERESNIA, D. 1997. Do contágio à transmissão: uma mudança na estrutura perceptiva de apreensão da epidemia. História, Ciências, Saúde-Manguinhos. 1997, Vol. 4, 1, pp. 75-94.
BASCHET, J. A civilização feudal. Do ano mil à colonização da América. [trad.] M. REDE. São Paulo : Globo, 2006.
ARRIZABALAGA, J. 1991. La Peste Negra de 1348: los orígenes de la construcción como enfermedad de una calamidad social. Acta Hispanica ad Medicinae Scientiammque Historiam Illustrandam. 1991, Vol. 11, pp. 73-117.
ROSA, M.C. 2005. Em torno de dois textos médicos antigos. História, Ciência, Saúde-Manguinhos. 2005, Vol. 12, 3, pp. 771-774.
—. 2005. Regimento proueitoso contra ha pestenença: edição semi-diplomática. História, Ciências, Saúde-Manguinhos. 2005, Vol. 12, 3, pp. 801-820.
CUNHA, F.A.F.X. Panacéias nossas de cada dia- ontem e hoje. Cadernos de Cultura. 9, 1995, pp. 12-21.
LE GOFF, J. O homem medieval. [trad.] M.J.V. FIGUEIREDO. Lisboa : Editorial Presença, 1987. pp. 27-28.

ROSA, M. C. Regimento proueitoso contra a pestinencia: Glossário. Historia, Ciências, Saúde, Manguinhos. 2005, pp. 869-981.

Data: 22.07.2013
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segunda-feira, 8 de julho de 2013

Desde el pasado de la humanidad la farmacia ya formaba parte de la vida cotidiana

Publicado por Pedro PC el 2.7.13
Las excavaciones de algunos de los asentamientos más antiguos de la humanidad avalan el argumento de que los pueblos prehistóricos recogían plantas con fines medicinales. Si bien los curadores de las tribus, o chamanes a menudo guardaban en forma estricta para si solos estos conocimientos curativos el reconocimiento de las plantas medicinales, que algunas veces se usaban como alimentos, condimentos, hechizos, al parecer eran lo suficientemente amplios como para impedir la necesidad de una clase especial de recolectores y guardianes de drogas. Es probable que el arte de la farmacia primitiva estuviera dominado por todos aquellos que practicaban la medicina domestica de su familia.

Los curadores prehistóricos abordaban una enfermedad, ubicándola siempre dentro del contexto de su comprensión general del mundo a su alrededor que estaba lleno de espíritus malos y buenos, es decir que explicaban las enfermedades en términos sobrenaturales. 

Las pociones de cura mágicas eran parte de la tarea del chaman. Por lo general a cargo de todas o de la mayor parte de las cosas sobrenaturales en la tribu, el chaman diagnosticaba y trataba muchas enfermedades graves y crónicas. Si bien los pueblos primitivos descubrieron solo una pequeña cantidad de drogas eficaces, el concepto de poder influir en las funciones del cuerpo a través de una fuerza externa debe considerarse uno de los mayores avances de la humanidad. 

Para que se desarrolle más este concepto hizo falta el entorno y progreso de la civilización. Para prosperar, el tratamiento medico racional necesitaba de las herramientas que proporcionarían las culturas establecidas, como la escritura los sistemas de intercambio y los pesos y las medidas, sin dudad por estos motivos las practicas farmacéuticas dejaron de progresar. 

Estos cambios son evidentes entre los restos de las grandes civilizaciones de Mesopotámica y de Egipto del segundo milenio a.C., en cuyo caso las tablas de arcilla y los papiros documentan los comienzos del uso racional del fármaco.

Los documentos que perduraron de los egipcios demuestran una mayor sofisticación farmacéutica, con más preparados compuestos a partir de formulas más detalladas y una estrecha conexión entre la curación sobrenatural y la empírica. Las drogas vegetales eran el principal vehículo de poder curativo. Pero debieron pasar varios siglos hasta llegar a una profesión farmacéutica totalmente independiente. Las raíces de la profesión médica, en occidente provinieron de la floreciente civilización griega. "En los documentos más antiguos de Grecia se halla un concepto mixto similar de droga o pharmakon. Palabra que significaba hechizo, remedio o veneno, Homero en La Odisea, se refiere a la respetada sabiduría medica de Egipto." (Gennaro, 1750, p.11). 
Medicina Griega

La mayoría de los medicamentos griegos se preparaban a partir de las plantas y el primer estudio importante sobre las plantas en occidente fue llevado a cabo por un discípulo de Aristóteles, Teofrasto. El resumen de los conocimientos populares de fármacos realizado por éste medico griego, resulto ser la enciclopedia estándar de los fármacos durante muchos siglos siguientes, pero la medicina en la antigüedad clásica llego a su punto más alto con Galeno, médico griego que ejerció en roma durante el siglo II de nuestra era. Galeno ideó un complejo sistema que intentaba equilibrar los humores del individuo enfermo por medio de drogas de una naturaleza supuestamente opuesta.

Lograron esto por medio de la creación de un vehículo conceptual entre el ambiente y la humanidad y asociaron los cuatro elementos del primero, tierra, aire, fuego y agua con los cuatro humores que gobiernan el cuerpo, bilis negara, sangre, bilis amarilla y flema. (Gennaro A., 1750, p.11). 

En la edad media el uso de drogas para el tratamiento de las enfermedades experimento otro cambio a causa del cierre de los templos paganos, algunos de los cuales se había manejado bajo los métodos curativos grecorromanos. El tratamiento farmacológico racional declino en occidente, ante la enseñanza impartida por la iglesia de que el pecado y la enfermedad estaban íntimamente relacionados. 

Lo inverso ocurrió en el oriente, desde los lejanos puestos comerciales de avanzada de los árabes conquistadores llegaban los fármacos y condimentos a los centros de enseñanza. Los médicos árabes rechazaron la vieja idea de que los medicamentos con feo gusto actuaban mejor. En cambio dedicaron gran esfuerzo a hacer sus formulas agradables y apetitosas, por medio del laqueado de las píldoras y el uso de los jarabes. Estos nuevos medicamentos más refinados requieren de una preparación compleja y en la cosmopolita ciudad de Bagdad del siglo IX este trabajo era llevado a cabo por especialistas: son los antepasados de los farmacéuticos actuales. 

El renacimiento fue el inicio de la edad moderna. Los cambios que habían comenzado durante la edad media europea y habían sido estimulados por los contactos con otras culturas cobraron impulso. Había llegado el momento de desechar los viejos conceptos de Galeno sobre las enfermedades y las drogas. 
Plantas medicinales

Estaban llegando nuevas drogas de tierras lejanas, las cuales eran desconocidas de los antiguos. Los impresores después de cubrir los requerimientos de libros religiosos se volcaron a los trabajos médicos y farmacéuticos, en especial aquellos en que podían ser útiles las ilustraciones abundantes y detalladas. En cuanto a la farmacia, la impresión tuvo un notorio efecto en el estudio de las drogas vegetales, porque las ilustraciones de las plantas podían ser reproducidas fácilmente. 

Aproximadamente después de 1850, la disciplina científica de la farmacia comenzó a tornarse más profesionalizada en los colegios universitarios y respecto de las inquietudes para la elaboración con una posterior disminución de la ciencia del comercio de drogas los farmacéuticos interesados en la investigación dejaron el negocio por el laboratorio institucional En algunos estados europeos, la cantidad y la localización de las farmacia estaban limitadas por las leyes, como también lo estaban los requisitos para la capacitación y la autorización. 

Hacia el siglo XIX la combinación de la fama generada por las contribuciones científicas y las credenciales otorgadas por la sólida clase media alta elevaron a los farmacéuticos en gran parte de Europa a una posición social similar a la de los médicos.

Tis:

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Mercúrio e Guaiaco: como tratar a sífilis no século XVI

Mais um ótimo texto do blog Xarope de letrinhas (http://netogeraldes.blogspot.com.br)
Tratamento de casal com unguento de mercúrio, sec XV 

Quando a sífilis apareceu na Europa no final do século XV, na forma de uma violenta epidemia, fonte de intenso sofrimento, logo surgiram os primeiros tratamentos considerados "específicos" para o seu combate: o mercúrio e o guaiaco. 

Como as principais manifestações da sífilis eram cutâneas as primeiras tentativas de tratamento foram com medicamentos utilizados para outras doenças de pele. Dentre esses medicamentos estava o Ungüento Sarracênico, recomendado por Guy de Chauliac desde 1363, que tinha o mercúrio (argentum vivo) na sua fórmula. O uso do mercúrio como forma de tratamento de doenças já era conhecido por Rhazes ((850-925 d.C) e Ibn Sina (Avicena) (979-1037d.C.), expoentes da medicina árabe, de grande influência na medicina renascentista. Seu emprego era limitado pela gravidade dos efeitos colaterais que produzia.
Na falta de melhor opção e para fazer frente aos charlatães e empíricos que o empregavam largamente, o uso do mercúrio passou a ser feito sistematicamente pelos médicos, em doses cada vez maiores. Nos primeiros anos após o aparecimento da epidemia, as pomadas mercuriais eram empregadas de diversas formas principalmente como fricções e se tornou o tratamento preferido pela maioria dos médicos da época. Como o objetivo era expelir humores nocivos do organismo, os médicos incrementavam o tratamento promovendo situações que aumentavam a sudorese, como aplicar o mercúrio com a utilização de fornos e estufas. Uma das técnicas empregadas era untar todo o corpo do paciente com unguento mercurial em aposento superaquecido, por longo tempo. A utilização do mercúrio se devia às sua capacidade de provocar intensa salivação e diurese em doses tóxicas, proporcionando assim condições para que fossem eliminadas as matérias que corrompiam e desequilibravam os humores. (3). Utilizavam-se também as fumigações, que eram feitas em uma cabine muito aquecida utilizando-se principalmente o cinnabar – sulfureto de mercúrio. 

O genovês Johannis de Vigo (1460-1520), médico do papa Julio II publicou a obra “Practica in arte chirurgica copiosa” em que manifesta seu ceticismo quanto aos tratamentos sintomáticos preconizados por Galeno e Avicena, mas se mostra maravilhado quanto aos efeitos da aplicação de pequenas doses de mercúrio, que em uma semana era capaz de eliminar as dores, cicatrizar as úlceras e clarear as erupções. Foi possivelmente o introdutor do mercúrio na forma de emplastro, preparação que até pelo menos 1944, figurava ainda na farmacopéia brasileira, como nos relata o médico brasileiro Solis Torres em trabalho histórico sobre o mercúrio. 

Os graves efeitos colaterais dos unguentos mercuriais provocavam resistências: já em 1497, Alexandri Benedetto relatava paralisias, amolecimento e perda dos dentes, Gaspar Torrella em 1498 responsabilizava o mercúrio pela morte de pacientes ilustres. Francisco Lopes de Villalobos, era radicalmente contra o emprego do mercúrio, a ponto de chamar de idiotas os seus defensores, embora admitisse seu uso nas lesões e em doses baixas. O aumento da salivação, sinal de intoxicação pelo mercúrio, era vista como meio de se eliminar a substância nociva da doença. Botaldus, em 1563 chegou a preconizar a quantidade de saliva a ser produzida para um tratamento efetivo: inicialmente 1 chopine (465ml) aumentando para 1 pinte (930 ml) após 5 ou 6 dias. 

Quem também merece destaque como defensor do uso do mercúrio na sífilis é Philippus Theophrastus Aureplus Bombastus Von Hohenheim, auto-apelidado Paracelso, para ser comparado a Celso. Personagem importante do seu tempo, marcado por seu temperamento rebelde, místico, agressivo, que renegava o culto aos autores clássicos, tão caros aos médicos renascentistas, Paracelso foi pioneiro na tese de que as doenças poderiam ser causadas por agentes externos e que necessitavam de tratamentos específicos. Introduziu o uso de sais inorgânicos, metais e minerais nos tratamentos, argumentando que a dose empregada era o que definia se uma substância seria ou não tóxica. Empregou o mercúrio no tratamento do Mal Francês por via interna, não com o intuito de eliminar humores nocivos como preconizavam os métodos hipocráticos-galênicos, mas para combater diretamente o veneno causador da doença no organismo. Embora diversos historiadores apontem Paracelso como introdutor do mercúrio no tratamento da sífilis, na verdade o uso deste metal já era corrente quando ele apresentou suas teorias. Paracelso ainda tentou introduzir o arsênico como terapêutica específica, mas desistiu, pela ocorrência de reações fatais. Quase 400 anos depois, os sais de arsênico introduzidos por Paul Erlich representariam a primeira grande revolução no combate medicamentoso da sífilis.
Guáiaco - preparo e tratamento 

O guáiaco era o medicamento que chegou a concorrer com o mercúrio pela “especificidade” na cura da lues. A resina utilizada no tratamento era extraída do cerne (denominado Lignum vitae) de uma árvore nativa do Caribe, o Guaiacum officinale, que, justamente por causa dessa suposta propriedade terapêutica, foi chamada de Holy Wood, Pau Santo, Madeira da Vida. Na época, parte da popularidade do guáiaco advinha da crença de que a sífilis era doença enviada por Deus como castigo à luxúria dos homens e que Ele havia colocado a cura no mesmo local de onde viera a moléstia, ou seja no Novo Mundo, hipótese mais aceita na época para a origem da doença. O guáiaco era utilizado como sudorífico, capaz de eliminar os fluidos corrompidos do organismo.
O guaiaco 

Seu uso foi popularizado a partir de 1519, através de outro personagem importante da história da Sífilis, Ulrich Von Hutten, que relata que estava a ponto de suicidar-se pelo sofrimento, quando experimentou o tratamento com guáiaco e diz ter se recuperado. Von Hutten morreu aos 35 anos em conseqüência da sífilis. O próprio Girolamo Fracastoro, a quem se deve o nome sífilis, em 1530 acrescentou um novo livro aos dois já existentes do seu livro “Syphilis sives morbus gallicus” para apresentar as qualidades do pau-santo, o guáiaco, por influência do cardeal Bembo, secretário do papa Leão X. Ajudando a fomentar a divulgação do Pau Santo como tratamento do Mal Francês, os banqueiros Fugger conseguiram exclusividade de importação dessa madeira do Novo Mundo e obtiveram enormes lucros com sua comercialização.

Jacques de Bittencourt, francês de Rouen, um dos autores pioneiros, publicou em 1527 uma obra de extenso nome: Nova penitentialis quadragesima, necnon purgatorium, in morbum gallicum, sive venereum, una cum dialogo aquae argenti, ac ligni gaiaci colluctanctium, super dicti morbi curationis praelatura opus fructiferum. Neste trabalho, Bittencourt apresenta o mercúrio e o guáiaco como personagens que descrevem suas virtudes em diálogo com o autor, a quem pedem para decidir qual deles é o melhor. O veredicto de Bittencourt é pelo mercúrio, que considerava como capaz de curar. Além disso, a dieta empregada como coadjuvante no tratamento pelo mercúrio era menos danosa do que a preconizada para o guáiaco, que exigia um jejum de 40 dias. Essa dieta rigorosa era devida ao fato de que o guáiaco era tido também como um tratamento penitencial, para fazer frente a uma doença adquirida pela devassidão. 

O tratamento com mercúrio foi utilizado desde o aparecimento da doença na Europa, no final do século XV até meados do século XX. Foi o principal método de tratamento até 1910 quando Paul Ehrlich introduziu o Salvarsan. Girolamo Fracastoro, na primeira metade do século XVI, enfatizando os perigos do contágio do Morbo Galico por meio das relações sexuais já avisava, numa frase que ficou famosa:

"Uma noite com Vênus, o resto da vida com Mercúrio". 

Bibliografia consultada

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Posted by Neto Geraldes
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