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quinta-feira, 23 de abril de 2015

Bijajica (slowfoodbrasil.com)

Publicado: 25 Junho 2014

Nome do produto: Bijajica

Categoria: Bolos e biscoitos
Descrição do Produto

A Bijajica é um bolo cozido no vapor composto de massa de mandioca crua, amendoim e açúcar, aromatizado com erva doce, cravo e canela. A preparação tem origem indígena, mas a receita atual é resultado da influência das famílias que migraram do Arquipélago dos Açores para o litoral do estado de Santa Catarina em meados do século XVIII.
(foto: Fernando Angeoletto)

História do produto e relação com cultura local

A origem indígena da Bijajica é revelada pelas matérias-primas essenciais que compõem sua receita: a mandioca e o amendoim. Estas espécies sempre foram e ainda são muito utilizadas pelos povos guarani no litoral catarinense e também por diversas etnias indígenas do território brasileiro. Os guaranis desidratavam a mandioca em trançados de palha chamados tipiti e socavam o amendoim em pilões de madeira. Após o processamento, mesclavam os dois produtos e coziam ou assavam a massa envolta em folhas de bananeira, ao vapor ou direto ao fogo. São inúmeras as variações alimentícias advindas destas práticas, sempre com a mesma base: massa crua de mandioca desidratada e amendoim pilado.
Bijajica sendo preparada (Foto: Neide Rigo)

A Bijajica encontrada hoje no litoral catarinense ganhou seu formato a partir de adaptações proporcionadas pela instalação de engenhos artesanais de farinha de mandioca na região. Estes engenhos se multiplicaram a partir da colonização de famílias vindas do Arquipélago dos Açores, ocorrida em meados do século XVIII. Durante dois séculos estes engenhos foram a principal estrutura produtiva da agricultura familiar neste território, atingindo o ápice da produção no final do século XIX. A base da produção e alimentação destas famílias sempre foi a chamada “farinha polvilhada”, mais clara e fina em relação àquelas produzidas em outras regiões do Brasil. Além da froma específica de preparo, as características especiais da farinha polvilhada do litoral de Santa Catarina estão relacionadas com as variedades de mandioca que ocorrem na região. As principais variedades identificadas pelos agricultores são as “Amarelinha”, “Roxinha” e “Branquinha”.
Bijajica (Foto: Neide Rigo)

A temporada de colheita e de processamento desta farinha chegava a durar 4 meses (maio, junho, julho e agosto), quando famílias e agregados se reuniam no interior do engenho para a execução das etapas do feitio, chegando a passar noites a fio trabalhando.

Nos engenhos de farinha tornou-se possível obter em quantidade e qualidade a massa crua da mandioca, fundamental para o preparo da Bijajica. No engenho também é produzido o açúcar mascavo, outro ingrediente utilizado na receita. Às adaptações proporcionadas pela colonização açoriana ao modo de fazer a Bijajica também associa-se o acréscimo do cravo e da canela. A técnica indígena do cozimento a vapor também passou por transformações passando a ser feito em panelas/formas de cerâmica chamadas de cuscuzeiras, utilizadas também no preparo do cuscus de milho. Apesar destas técnicas básicas de preparação, a receita da Bijajica e ingredientes acrescentados pode variar bastante de acordo com a localidade onde é preparada e consumida.
A bijajica pode ter diferentes cores de acordo com a variedade e a proporção dos ingredientes utilizados (Foto: Fernando Angeoletto)

Área histórica de produção

Historicamente, a Bijajica é encontrada da região sul do litoral do estado de Santa Catarina, compreendendo os municípios de Palhoça, Paulo Lopes, Garopaba e Imbituba.

O produto é tradicional da área de produção?

Sim, resultado da adaptação de uma receita ancestral indígena à influência da colonização européia na região.

O produto ainda é encontrado no mercado?

Sim. Os agricultores da Comunidade do Areais da Ribanceira, localidade do município de Imbituba, num processo de reconhecimento enquanto população tradicional, tornaram-se os atuais mantenedores da produção da Bijajica, que é celebrada e comercializada na Feira Da Mandioca, evento organizado pela ACORDI- Associação Comunitária Rural de Imbituba, que ocorre todos os anos durante o mês de agosto. Estima-se a existência de 160 produtores entre as comunidades do Areias do Ribanceira.

Aliada à feira, a manutenção de um engenho comunitário de farinha constitui as práticas locais de Manejo Comunitário de Biodiversidade. A feira teve início em 2004 com o intuito de divulgar a luta da comunidade para manter seus costumes e o uso da terra, além de ser uma fonte de recursos financeiros para a associação. Nela, ocorrem palestras, apresentações culturais e são comercializados diversos pratos típicos à base de mandioca. Já o engenho comunitário foi inaugurado em 2010 e possibilita que os agricultores processem coletivamente e com um custo menor a mandioca que é cultivada nas roças dos Areais. As práticas de manejo comunitário na região dos Areais foram de iniciativa da própria comunidade local, como uma forma de organização e luta por seus direitos de território.

Nesse contexto, destaca-se a importância da ACORDI- Associação Comunitária Rural de Imbituba para a preservação das matérias-primas e modo de fazer que permitem ainda hoje, a manutenção da produção da Bijajica.

Quantidade aproximada produzida

Estima-se a produção de 4.500 unidades por temporada, que dura de Junho a Novembro.
Por qual razão este produto está em perigo de desaparecer?

Atualmente, com a quase extinção dos engenhos de farinha e dos saberes tradicionais relacionados a eles, está em risco o modo de fazer a Bijajica, que deixou de ser transmitido através das gerações. Sua produção ficou restrita então à festas comunitárias e circuitos alternativos de comercialização.

O lapso de transmissão cultural entre gerações também ameaça a conservação das variedades de mandioca tradicionalmente utilizadas para o preparo da bijajica. Gradativamente as variedades são perdidas e/ou substituídas por variedades melhoradas geneticamente.

Responsáveis pela indicação

Gabriella Cristina Pieroni – guabijuba@gmail.com
Fabiano Gregório – fabianogregorio@hotmail.com
Contatos relevantes com os produtores:

Germias Valentim
+ 55 489608-4027
acordi@gmail.com

José Antônio Furtado e Rose Peters
Estrada Geral da Encantada s/n, Garopaba/SC, 88495000
+ 55 48 96678719

Inácia Nascimento da Silva
Estrada Geral das Três Barras s/n, Comunidade das Três Barras, Palhoça/SC
+ 55 48 32839046

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quarta-feira, 1 de outubro de 2014

UNESCO Culinary Heritage Sites (http://www.ediblegeography.com/)

By NICOLA | Published: FEBRUARY 9, 2010
IMAGE: Some pasta shapes, from L’Enciclopedia della Pasta.

UNESCO, the branch of the United Nations that is best known for its list of World Heritage Sites, also curates a number of other programs that aim to record and safeguard natural and cultural treasures. TheGlobal Geoparks Network, for example, seeks to promote and conserve Earth’s geological heritage, while the fantastically namedMemory of the World project was launched in 1992 “to guard against collective amnesia” by preserving and disseminating archive holdings worldwide.

Other UNESCO lists catalogue significant literary cities, biospheres,wetlands, and endangered languages. Amidst this variety, there isn’t a UNESCO list dedicated to designating and protecting outstanding examples of our global food heritage. Indeed, senior UNESCO official Cherif Khaznadar is on record as saying, “There is no category at UNESCO for gastronomy.”

Nonetheless, last week, the Mexican government submitted a proposal to UNESCO on behalf of the cuisine of Michoacán. Their hope is to have its tamales, guava paste, and cotija cheese added to the Intangible Heritage List, which recognises “practices, representations, and expressions, and knowledge and skills which are transmitted from generation to generation and which provide communities and groups with a sense of identity and continuity.”
IMAGE: The typical dishes of Michoacán, via Mexico Cooks! (left) tacos de borrego a la penca, (right) blackberry tamales.

Despite these broad criteria, there are currently no foods or culinary traditions on the Intangible Heritage List. Launched in 2003, the list has inscribed a grand total of 181 expressions of intangible heritage worthy of preservation, from Albanian Folk Iso-Polyphony to theTango, and from the Cultural Space of Jemaa el-Fna Square to theTraditional Design and Practices for Building Chinese Wooden Arch Bridges.

Thus far, however, French cuisine has been rejected twice, whileMexican cuisine has been turned down once already.

The benefits of recognition lie mainly in the boost to local pride and international renown, although there are some funds available for preservation efforts. Michoacán’s tourism secretary, Genovevo Figueroa, hopes that UNESCO recognition would correct common misperceptions of Mexican cooking as “lots of grease and spices.” Meanwhile, launching France’s second failed bid in February 2008, Nicolas Sarkozy declared that, “We have the best gastronomy in the world — at least from our point of view. We want it to be recognised among world heritage.”

Critics have been divided as to whether culinary traditions should be included on the Intangible Heritage List or not. Those arguing against tend to worry that labeling a cuisine as one of the treasures of human patrimony will have a stifling effect, discouraging innovation and marking the beginning of a slow, smug “mummification.” Their opponents counter that UNESCO is careful to define Intangible Heritage as “traditional and living at the same time,” and “constantly recreated,” and that formal recognition would help defend national cuisines under threat from globalisation and changing lifestyles.

IMAGE: China’s Intangible Cultural Heritage, (left) Chinese calligraphy, (right) dim sum
IMAGE: France’s Intangible Cultural Heritage, (left) Aubusson tapestry, via UNESCO, (right) a croissant.

Ultimately, it seems that UNESCO may yet accept that culinary traditions are a cultural expression as fundamental to identity and worthy of recognition as dance, theatre, or music. In 2009, the Section of Intangible Cultural Heritage held a special Expert Meeting on Culinary Practices, and in their October 2009 report on rejected nominations, the Bureau of the 4th Session of the Committee noted that many requests for inscription had failed due to incomplete applications, rather than fundamental ineligibility.

One day, perhaps, the traditions embodied in dim sum will take their place alongside Chinese calligraphy, and the artisanal craft ofcroissant-baking will be accorded the same respect now due toAubusson tapestry….

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quinta-feira, 24 de abril de 2014

A raw chocolate history

A Raw Chocolate History
by wond.
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Birthplace of the domesticated chili pepper identified in Mexico

Date: April 21, 2014

Source: University of California - Davis

Summary:
Combining historical language and ecological information, as well as genetic and archaeological data, scientists have identified Central-east Mexico as the likely birthplace of the domesticated chili pepper.
Peppers. Central-east Mexico gave birth to the domesticated chili pepper -- now the world's most widely grown spice crop -- reports an international team of researchers, led by a plant scientist at the University of California, Davis.
Credit: © duckman76 / Fotolia

Central-east Mexico gave birth to the domesticated chili pepper -- now the world's most widely grown spice crop -- reports an international team of researchers, led by a plant scientist at the University of California, Davis.

Results from the four-pronged investigation -- based on linguistic and ecological evidence as well as the more traditional archaeological and genetic data -- suggest a regional, rather than a geographically specific, birthplace for the domesticated chili pepper. That region, extending from southern Puebla and northern Oaxaca to southeastern Veracruz, is further south than was previously thought, the researchers found.

The region also is different from areas of origin that have been suggested for common bean and corn, which were presumably domesticated in Western Mexico.

The study findings will be published online April 21 in the Proceedings of the National Academy of Sciences,as part of a series of research papers on plant and animal domestication.

Crop domestication, the process of selectively breeding a wild plant or animal species, is of increasing interest to scientists.

"Identifying the origin of the chili pepper is not just an academic exercise," said UC Davis plant scientist Paul Gepts, the study's senior author. "By tracing back the ancestry of any domesticated plant, we can better understand the genetic evolution of that species and the origin of agriculture -- a major step in human evolution in different regions of the world," he said.

"This information, in turn, better equips us to develop sound genetic conservation programs and increases the efficiency of breeding programs, which will be critically important as we work to deal with climate change and provide food for a rapidly increasing global population," Gepts added.

Study co-author Gary P. Nabhan, an ethnobiologist and agroecologist at the University of Arizona's Southwest Center noted: "This is the first research ever to integrate multiple lines of evidence in attempts to pinpoint where, when, under what ecological conditions, and by whom a major global spice plant was domesticated.

"In fact, this may be the only crop-origins research to have ever predicted the probable first cultivators of one of the world's most important food crops," Nabhan said.

To determine crop origins, scientists have traditionally studied the plants' genetic makeup in geographic areas where they have observed high diversity among the crop's wild ancestors. More recently, they have also examined archaeological remains of plants, including pollen, starch grains and even mineralized plant secretions.

For this chili pepper study, the researchers used these two traditional approaches but also considered historical languages, looking for the earliest linguistic evidence that a cultivated chili pepper existed.

They also developed a model for the distribution of related plant species, to predict the areas most environmentally suitable for the chili pepper and its wild ancestors.

The genetic evidence seemed to point more to northeastern Mexico as the chili pepper's area of domestication; however there was collectively more evidence from all four lines of study supporting the central-east region as the area of origin.

Other researchers on the study were Kraig H. Kraft and Robert J. Hijmans, both of UC Davis; Cecil H. Brown of Northern Illinois University in DeKalb, Ill.; Eike Luedeling of the World Agroforestry Centre in Nairobi, Kenya; José de Jesús Luna Ruiz of the Universidad Autónoma de Aguascalientes in Aguascalientes, Mex.; and Geo Coppens d'Eeckenbrugge of the Centre National de la Recherche Scientifique in Montpellier, France.

Story Source:

The above story is based on materials provided by University of California - Davis.Note: Materials may be edited for content and length.

Journal Reference:
Kraig H. Kraft, Cecil H. Brown, Gary P. Nabhan, Eike Luedeling, José de Jesús Luna Ruiz, Geo Coppens d’Eeckenbrugge, Robert J. Hijmans, and Paul Gepts.Multiple lines of evidence for the origin of domesticated chili pepper, Capsicum annuum, in Mexico. PNAS, April 21, 2014 DOI:10.1073/pnas.1308933111

Cite This Page:

University of California - Davis. "Birthplace of the domesticated chili pepper identified in Mexico." ScienceDaily. ScienceDaily, 21 April 2014. <www.sciencedaily.com/releases/2014/04/140421093925.htm>.

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quarta-feira, 9 de abril de 2014

sábado, 27 de abril de 2013

Regimen Sanitatis Salernitanum- Comidas saudáveis na Idade Média

Mais um excelente texto do Neto Geraldes, médico e historiador
Blog: Xarope de letrinhas
Os versos do Regimen Sanitatis Salernitanum apresentam aconselhamentos e conceitos em que é possível ter uma boa ideia do pensamento médico da época em que foi feito, provavelmente entre os séculos XII e XIII da era cristã.

Juntei alguns destes conselhos e conceitos relacionados à alimentação. A dieta é ponto capital da medicina hipocrático-galênica, que norteou grande parte dos ensinamentos do Regimen.

Pêssegos, maçãs, peras, leite, queijo, carnes salgadas, carne de veado, coelho, cabra são melancólicos e prejudiciais para o doente.

Ovos frescos, vinhos tintos e molhos ricos são recomendados, uma vez que eles são nutritivos da natureza.
O pão não deve ser nem quente nem muito velho. Deve ser fermentado, crescido, bem cozido, moderadamente salgado, e escolhidos entre os melhores grãos.

Não coma a crosta, uma vez que provoca cólera ardente. Pão que é salgado, fermentado, bem cozido, puro e saudável, deve ser de grande benefício para você.

Aqui, o termo cólera refere-se ao temperamento relacionado à teoria dos quatro humores, então a teoria fisiopatológica hegemônica. O calor, a queimação estariam relacionadas com o fogo, um dos quatro elementos primordiais e este relacionado com o humor bile amarela, responsável pelo temperamento colérico.*

O pão era o alimento de todas as classes. Era feito de trigo, cevada ou centeio. A fermentação era natural, o fermento só seria inventado no século XVI.

Se você comer carne de porco sem vinho, é pior do que a carne de carneiro. Se você adicionar o vinho à carne de porco, então é comida e remédio.

O flanco dos porcos é bom, o resto é ruim. Os intestinos de porcos são bons, aqueles de outros animais são ruins. Vitela é muito nutritivo.

Beber e comer ao mesmo tempo pode ser prejudicial, pois a água esfria o estômago e a comida pode permanecer sem ser digerida. 

Peixes macios devem ser consumidos quando eles são de grande tamanho; se os peixes são duros, são mais nutritivos quando são pequenos.

Comer enguias é ruim para a voz

Como aqueles que sabem alguma coisa sobre medicina atestarão que queijo e enguia são prejudiciais quando consumidos juntos em grande quantidade, a menos que você beba vinho com frequência.

Queijo e pão são bons alimentos para um homem saudável; se um homem não é saudável, então queijo sem pão é bom.

Os médicos ignorantes dizem que queijo é prejudicial, no entanto eles não sabem por que ele deveria fazer mal. Queijo traz ajuda para um estômago fraco. Comido após outro alimento, acaba corretamente a refeição. Aqueles que não são ignorantes da medicina atestarão estas coisas.

Galinha, pato, rola, etorninho, pombo, codorna, melro, faisão, tordo, perdiz, tentilhão, orex, alvéola e aves aquáticas são nutritivas.

O leite de cabra é saudável, a seguir, o leite de camela, mas mais nutritivo de todos é o leite de jumenta; o leite de vaca também é nutritivo e também o leite de ovelha. Se existe febre ou dor de cabeça, o leite não é muito saudável.

Manteiga mole é úmida e atua como um laxante, quando não há nenhuma febre.

Depois de cada ovo beba outro copo de vinho; depois de peixes deve haver nozes, depois de carne, sirva queijo.

Um tipo de noz é bom, um segundo é prejudicial, um terceiro tipo traz a morte.

A pereira produz nossos peras. Sem vinho as peras são veneno; se as peras são veneno, então maldita seja a pereira! Cozidas, as peras são um antídoto, mas não cozidos são um veneno. Após a pera, beba vinho, após a maçã, esvazie suas entranhas. O vinho moderado é sempre apresentado como benéfico.  

De comer a cereja, você vai obter grandes benefícios: ela limpa o estômago, remove sua pedra nos rins. E a partir de sua polpa virá sangue bom

O figo gera piolhos e luxúria, mas resiste a qualquer coisa.

O coração de todos os animais é lento para digerir e difícil de excretar. Similarmente, o estômago é difícil de digerir.

Língua dá uma boa nutrição medicinal.

O pulmão é facilmente digerido e é expelido rapidamente.

O cérebro de galinhas é melhor do que o de qualquer outro animal.

A semente de erva-doce solta gás.

O prato de sal deve ser colocado em cima da mesa na hora das refeições. Sal elimina o veneno, e acrescenta sabor à comida de um homem. Para o alimento que é servido sem sal não tem gosto bom. Alimentos muito salgados ferem os olhos, diminuem o esperma, e gera sarna, prurido ou vigor.

Caldo de repolho tem efeito laxante.

Os médicos não parecem concordar com cebolas. Galeno diz que elas não são boas para aqueles de humor colérico, mas ensina que eles são muito saudáveis para os fleumáticos. E especialmente bom para o estômago e a pele. Por muitas vezes esfregar os carecas com cebolas pode restaurar a cabeleira.

(Aqui uma referência aos quatro temperamentos hipocrático-galênicos: sanguíneo, colérico, melancólico e fleumático).

No Regimen, este trecho aponta a importância que a medicina dava à dieta na preservação da saúde, conceito que já tinha mais de 1500 anos na época em que foi feito e que ainda perduraria por muito tempo:

Eu prescrevo uma dieta regular para todas as pessoas:
Eu recomendo manter essa dieta a menos que seja necessário alterá-la.
Hipócrates diz que a doença pode resultar do contrário.
Uma dieta adequada é um dos objetivos mais importantes da medicina;

* Para ler mais sobre a teoria dos quatro humores, clique aqui
Para ler mais sobre o Regimen Sanitatis Salernitanum clique aqui

Posted by Neto Geraldes
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terça-feira, 29 de janeiro de 2013

ALIMENTAÇÃO Do fast-food à identidade nacional


Pela primeira vez o Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp sediou um evento em que o tema alimentação foi discutido à luz da história, do gênero e da cultura material. No início de novembro, um seminário internacional voltado a alunos de graduação e pós-graduação reuniu, no auditório da instituição, representantes de centros de ensino e pesquisa brasileiros e de Portugal em torno de uma série de temas relacionados aos saberes (e aos sabores) das práticas culinárias em diferentes épocas, do Egito Antigo à São Paulo novecentista, contemplando ainda o Brasil colonial.
Organizado pela historiadora e docente do IFCH Leila Mezan Algranti, o encontro expôs o interesse crescente das ciências humanas pela temática alimentar. Recentemente e de forma inédita em uma universidade pública paulista, o curso de graduação em História da Unicamp passou a oferecer uma disciplina intitulada História da Alimentação.
A iniciativa teve como inspiração a disciplina de pós-graduação Sociologia e História da Alimentação, ministrada no IFCH por Leila e por Carlos Alberto Dória, sociólogo e pesquisador do Instituto, e que também integrou uma das mesas-redondas do seminário. Ambos participam da entrevista a seguir, em que o tema central é o debate sobre a construção de uma identidade nacional a partir do que sai das panelas para os pratos nas mesas brasileiras.
Jornal da Unicamp – É possível, em um país com a história de colonização, a dimensão e as diferenças como as existentes no Brasil, estabelecer um símbolo culinário representativo de sua cultura gastronômica?
Carlos Dória – De verdade, não vejo porque se deveria estabelecer símbolos culinários representativos de uma determinada gastronomia. O valor gastronômico na atualidade reside justamente na diversidade, nos múltiplos caminhos do comer. A sociedade de massas, especialmente na sua fase globalizada, é desenraizada. É isso, aliás, que o fast food nos apresenta como espetáculo: cozinha chinesa, japonesa, italiana, brasileira, árabe. Somos todos comedores mundializados no gosto.
 
Leila Algranti – Durante a colonização, um dos grandes problemas a enfrentar na América portuguesa dizia respeito à alimentação enquanto necessidade básica para a sobrevivência. Isso é válido não só no dia-a-dia dos colonos, mas igualmente fundamental nas longas travessias marítimas e durante as expedições terrestres de reconhecimento do território. Sem víveres, seria impossível um empreendimento de tal porte. É por isso que os cronistas portugueses e demais observadores sempre descreveram com detalhes a natureza americana, a fim de informarem sobre a disponibilidade de alimentos que pudessem garantir e ao mesmo tempo incentivar a vinda dos colonos para esse lado do Atlântico. 
É certo que os problemas enfrentados diferiram de região para região, assim como o sucesso ou não da aclimatação de produtos apreciados pelos europeus, pois por mais que os reinóis tenham consumido alimentos locais, sempre preferiram aqueles com os quais estavam acostumados. 
Nesse sentido, não temos uma cozinha única no período colonial e sim cozinhas no plural, pois a culinária dependia do intercâmbio entre saberes europeus e aqueles relativos aos produtos americanos transmitidos pelos índios. Assim, se a mandioca foi durante muito tempo associada ao Nordeste, devido à sua abundância, e o milho ao Sudeste e aos bandeirantes, é preciso lembrar que durante os séculos XVII e XVIII a capitania de São Paulo, por exemplo, exportava trigo para as demais regiões.  Ou seja, sempre houve um conjunto de produtos importantes na alimentação colonial. 
Desde essa época, portanto, é difícil falar em um símbolo culinário para o Brasil. Porém, a partir do século XVIII com a difusão do feijão ou dos feijões, talvez pudéssemos pensar em um produto que paulatinamente foi se tornando representativo de diversas regiões. Até porque são muitas as espécies de feijões e, segundo os especialistas, em cada região se consome hoje um feijão diferente considerado “típico”: feijão preto, roxinho, mulatinho, rajado, verde, etc. Com feijão se faz: feijão com arroz, feijão com farinha (de milho ou de mandioca) cujas combinações originam alguns pratos típicos, como o angu de feijão, o feijão tropeiro, o tutu de feijão, o acarajé, o baião de dois e por aí vai.
JU – Quais são os alimentos ou pratos que melhor representariam a cozinha tipicamente brasileira? Quais são os critérios para essas escolhas?
Carlos Dória – Eu não sei o que é cozinha “típica” brasileira. A não ser que recorramos aos níveis mitológicos da realidade. É preciso muita mediação histórica e política para se chegar a um conceito como esse. Tomemos Câmara Cascudo como exemplo: ele parte da noção pré-concebida de que somos um mix de heranças indígenas, negras e portuguesas. Essa é uma ideia que os Modernistas da Semana de Arte de 1922 propagandeavam. Isso foi há um século e é muito difícil amarrarmos nosso burro numa coisa tão distante. Nestes 90 anos decorridos, o modo brasileiro de comer mudou imensamente! 
 
Leila Algranti – Além dos pratos feitos com feijão, temos muitos outros pratos considerados típicos: a moqueca, o vatapá, o caruru, a tapioca, o acarajé, o barreado, o frango ao molho pardo, o virado a paulista, o cuscuz, a maniçoba, e ainda numerosos doces feitos com frutos tropicais e açúcar, para citar apenas alguns. Todos esses pratos representam a nossa cozinha muito bem. 
Porém, para falar de critérios de escolha ou como cada um foi alçado ao papel de prato típico é preciso estudar suas origens e sua história. Há trabalhos já desenvolvidos nesse sentido e há muito ainda por fazer. Mas é preciso também não esquecer que assim como o nacionalismo, as identidades culinárias e ou gastronômicas resultam de longos processos de construção, nos quais múltiplos aspectos e interesses políticos entram em jogo. 
JU – Como é possível pensar sobre a possível construção de identidade nacional baseada em hábitos alimentares, visto que a culinária brasileira reflete a influência de um mosaico sociocultural formado por processos migratórios e pela apropriação de elementos de outras culturas?
Carlos Dória – De onde vem a ideia de que identidade é refratária a trocas culturais com outros povos? Por acaso os imigrantes conspurcaram um corpo nacional “puro” que não existe mais? De modo algum! Somos o que somos justamente porque estamos “no mundo”, não como uma definição prévia, fora do tempo. 
Somente no período de formação da nação, entre 1822 e mais ou menos 1890 esse tipo de postura, de fechamento da nação sobre si mesma, fazia sentido. Afinal, os intelectuais se perguntavam: uma nação ex-colônia está condenada a repetir a história da sua antiga metrópole? Esse é o drama de Euclides da Cunha, Silvio Romero e tantos outros. No plano da culinária, surgiu nos anos 1870 o Cozinheiro Nacional, livro que basicamente se perguntava se seria possível fazer uma cozinha nacional equivalente à francesa pela simples substituição dos ingredientes importados por ingredientes brasileiros como, por exemplo, trocar a alcachofra pela taioba. Em síntese, a identidade se faz e refaz constantemente, e para ser fértil, conectar o país com a civilização mundial, não pode se atrelar à tradição imutável.
 
Leila Algranti – Como já explicitado na pergunta, trata-se da construção de uma identidade e, para isso, antes de mais nada, é preciso haver um país independente e uma nação, algo  que no caso do Brasil,  só aconteceu no século XIX. Antes disso não temos um país chamado Brasil e tampouco uma cozinha ou cozinhas ditas nacionais. A história da edição dos livros de cozinha no Brasil talvez ajude a entender o papel da culinária na construção da identidade nacional e pode ser apenas um entre outros elementos utilizados para esse fim, tais como a existência de uma história oficial ou memória dos feitos da nação.  
No caso da culinária, o primeiro livro considerado “brasileiro” publicado no Brasil intitula-se Cozinheiro Imperial; é uma obra anônima da década de 1840. Trata-se de uma compilação de receitas de dois livros portugueses dos séculos XVII e XVIII, embora no prefácio o autor enfatize a necessidade de uma publicação com características da culinária local. Contudo, só uma entre as dezenas de receitas de doces disponíveis nesse livro foi proposta com um fruto tropical. As demais evocam produtos europeus. 
O segundo livro “brasileiro” de cozinha, no entanto, chama-se Cozinheiro Nacional e foi editado às vésperas da proclamação da República (estima-se entre 1874/1888). Essa obra traz várias receitas com produtos tropicais ou locais, e essas possuem títulos alusivos ao Brasil. Um caso semelhante e já estudado aconteceu com a Bélgica. Nos anos 1900-1940, para reforçar sua identidade nacional, os restaurantes e menus passaram a nomear pratos antes fortemente marcados por uma influência francesa com novos nomes, todos eles referentes a cidades, regiões ou especialidade belgas, como por exemplo, “frango assado de Bruxelas”, “arroz de carneiro à nossa moda” ou “frango a Rubens”. 
Assim, influência portuguesa, italiana e alemã no caso da culinária no Brasil, ou francesa no caso da Bélgica, leva-nos a perguntar: seria possível uma cultura que não tivesse se apropriado de elementos de alguma outra?
JU – Sabendo que a alimentação é determinada a partir de condições sociais, geográficas e econômicas, é correto dizer que o Brasil não tem uma identidade nacional por causa da existência de várias cozinhas regionais (como a gaúcha, a amazonense e a baiana, por exemplo), cada uma com suas particularidades e identificadas com as especificidades de suas regiões e de seus grupos populacionais, e que acabam constituindo identidades alimentares regionais distintas?
 Carlos Dória – Mesmo num país como a França, com uma centralização política forte e precoce, os regionalismos culinários permanecem e, inclusive, são hoje revalorizados dentro de uma perspectiva conservadora, como testemunhos da “velha França rural”. Mas há também uma leitura moderna, uma nouvelle cuisine de terroir, que valoriza de um modo diferente o passado. 
Quero dizer com isso que sem diversidade não é possível estabelecer a dinâmica moderna da nação, que é um processo incessante de resignificação do que existe. Procurei mostrar num artigo recente (“Beyond rice neutrality: beans as Patria, Locus and Domus in the Brazilian Culinary system”, in Richard Wilk & Livia Barbosa (orgs.), Rice and Beans. A unique dish in a hundred places, NY, Berg, 2012), como um produto tão simples como o feijão, em sua diversidade biológica e de modos de fazer, permite que os cidadãos se situem na pátria, na região ou no lar. Vários produtos nos permitem esses trânsitos, mostrando que não há qualquer contradição entre identidade e diversidade.
Leila Algranti – Os autores que se dedicaram ao estudo dessa questão consideram que o nacional engloba o regional. Dito de outra maneira, a identidade regional estaria contida na identidade nacional. Para os adeptos do Manifesto Regionalista de 1926 a questão que se colocava, e poderíamos dizer que ainda hoje suscita debates, é: a afirmação de uma identidade nacional passa primeiro pela construção de uma identidade regional? Partindo-se dessa premissa, no caso da culinária, a paçoca confeccionada com farinha e carne pilada, hoje considerada um prato típico nordestino, não deixaria de ser um “prato brasileiro” ou representativo da culinária do Brasil, mesmo que preparado e consumido primordialmente no Nordeste.
  JU – A historiografia da alimentação no Brasil e os novos estudos sobre as práticas alimentares têm permitido contestar o discurso construído pelo movimento modernista da década de 1920 de que a culinária brasileira descendeu da mistura harmônica de hábitos de índios, negros e brancos. Como então se delineou historicamente a gastronomia brasileira?
Carlos Dória – Gastronomia, é bom que se diga, é a busca incessante do prazer ao comer. Uma diretriz hedonista que tem muito de subjetivo e do espírito de uma época. Ela muda sempre e, mais importante, não tem uma dinâmica determinada claramente pela política, pelo nacionalismo. Há momentos nacionalistas, é certo, mas eles não conseguem perdurar por muito tempo. A ideia modernista era generosa, sobretudo em relação aos negros. Dizia-nos que os negros também pertenciam à nação. Daí a ênfase na “contribuição” negra à culinária, o que é um exagero, pois escravos não eram senhores do próprio nariz, comiam o que lhes era oferecido numa espécie de ração animal. 
Como então influenciariam o mundo do colonizador? De verdade, a própria culinária do Recôncavo Baiano, que nasce nos terreiros, só aparece organizada em sistema no final do século XIX, após a Abolição e com a unificação dos cultos religiosos. Os índios? Bem, estes já haviam sido dizimados há séculos...
 
Leila Algranti – Essa é uma questão bem interessante. Certamente vamos encontrar na culinária brasileira elementos das práticas alimentares indígenas, africanas e portuguesas, mas também de outros povos e culturas. Dizer que a nossa comida é uma mistura das três raças ou que esta foi a base da nossa alimentação é simplificar um processo bem mais complexo de trocas e de relações culturais que ocorreram ao longo da colonização entre conquistadores e conquistados. Além do fato de ignorar conflitos e tensões. 
Essa ideia de que uma “pitada” de cada uma das três raças é que teria resultado em uma cozinha híbrida ou mestiça, não satisfaz totalmente. Vamos encontrar na culinária colonial, substituições de alguns produtos e incorporações de outros, mas também transformações na forma de processar os alimentos. Então não basta apenas captar o produto final desse intercâmbio, até porque não houve ao longo da colonização um sistema único alimentar, mas sim convivência e justaposição de regimes alimentares distintos. Se ocorreram substituições, como no caso da mandioca pelo pão de trigo, sinal de incorporação de hábitos e técnicas, também houve resistências. 
Ao invés de atentar apenas aos resultados desse intercâmbio, a historiografia sobre a alimentação tem destacado a necessidade de se compreender o processo de constituição do que chamaríamos de culinária brasileira, e mesmo assim só a partir de finais do século XIX.
JU – O conhecimento dos hábitos alimentares na sociedade colonial brasileira está contribuindo para a definição de uma identidade nacional? O que já foi possível se trazer à tona acerca da constituição da cozinha brasileira, sobretudo em relação à incorporação dos hábitos alimentares europeus no Brasil e à adoção de alimentos originários daqui pelos portugueses?
Carlos Dória – Não creio que o conhecimento do passado alimente a culinária. Essa é uma perspectiva duvidosa, pois a cozinha é algo vivo, algo que se pratica, não o que se rememora. A idéia de “resgate”, defendida por uma historiografia e uma antropologia muito pobres teoricamente, só encontra eco no Estado, isto é, naqueles setores da sociedade sempre prontos para “monumentalizar” a vida. 
Quanto aos ingredientes, é claro que os portugueses foram o povo que mais difundiu espécies pelo mundo, através do “comércio de leva e traz”. Isso aconteceu desde o século XVI. Garcia d´Orta, um cristão novo estabelecido em Goa, formou um pomar de onde se difundiu pelo mundo português dezenas de espécies. Inversamente, as “drogas do sertão” brasileiro se espalharam pelo mundo. As coisas se difundiam por serem úteis para todos. Dessa perspectiva é dificil estabelecer fronteiras. Por mais que nos identifiquemos com a manga, a jaca, ou a carambola, elas são frutas asiáticas. 
Em relação aos pratos propriamente ditos, me chama a atenção a proximidade técnica entre a antiga cozinha portuguesa de origem rural e a cozinha indígena. Ambas eram fartas em caldos, cozidos, o que deve ter facilitado muito o diálogo. Depois vieram outros povos, cuja culinária ficou confinada em guetos e demorou décadas para ser assimilada, como é o caso dos japoneses, que chegaram no final do século XIX e só impuseram sua culinária na capital paulista por volta dos anos 1970.
 
Leila Algranti – Tenho estudado as práticas alimentares no período colonial – as quais, sempre é bom lembrar, não se resumem à comida, pois alimentação é bem mais do que comida – a fim de melhor compreender a colonização portuguesa na América. Interessam-me a sociedade e a cultura desse período, e a alimentação se apresenta como uma chave, uma categoria explicativa que ajuda na aproximação com os agentes históricos. Os historiadores começaram a explorar a temática bem mais recentemente do que outros cientistas sociais. 
Os antropólogos, por exemplo, desde o surgimento da Antropologia como disciplina, prestam muita atenção aos hábitos alimentares das comunidades que estudam. Por outro lado, nas áreas biológica e tecnológica a produção de conhecimento sobre a alimentação é também anterior.  Não tenho me detido na questão da culinária como construção da identidade nacional, nem na questão dos saberes culinários em termos de patrimônio imaterial.  De qualquer forma, são temas recorrentes na historiografia. 
Trabalhei mais de perto com a doçaria colonial e não creio hoje que tenha ocorrido uma simples substituição de produtos aliada às técnicas portuguesas. Surgiram novos doces, houve criação e transformação, além de incorporações, o que seria inevitável. Em termos dos temperos (especiarias, ervas secas ou naturais), por sua vez, os portugueses incorporaram vários produtos americanos tanto na culinária como na botica para fins medicinais. Este é um segmento da alimentação colonial (os temperos) que estou estudando no momento. Apresentei no Colóquio da Unicamp alguns resultados dessa pesquisa. 
JU – O Brasil é um país privilegiado em manifestações culinárias e gastronômicas. Entretanto, a gastronomia aparentemente não recebe a devida importância nas estratégias de promoção turística dos destinos brasileiros. Não haveria aí um paradoxo no aproveitamento dessa riqueza turística? Por que isso ocorre? Como mudar essa situação?
Carlos Dória – É verdade. O Estado brasileiro está de costas para a culinária. Se olharmos o Plano Nacional de Turismo só encontraremos lá uma única menção a comida. Mas não só o turismo. Os organismos de financiamento a pesquisas ainda acham que o tema é uma “frescura”, isto é, não pertence ao campo do que é culturalmente relevante. 
É que as elites brasileiras sempre comeram olhando as mesas européias, parisienses, e olhar para dentro é mesmo uma heresia desse ponto de vista. É uma tradição distinta daquela das elites mexicanas ou peruanas. O México, graças à revolução de 1910, levou as elites a sentirem um certo “orgulho” da cultura pré-colombiana. Isso não houve no Brasil. 
Por outro lado, o modelo turístico brasileiro tem sido nocivo à vida comunitária. Onde chegam os grandes pólos, como resorts, o que se vê é só desolação: especulação imobiliária, proletarização, falta de infraestrutura urbana, prostituição infantil, criminalidade. Há muitos estudos que demonstram isso. Então o paradoxo é mais profundo: se destrói quando se pensa “valorizar”.
 
Leila Algranti – Tendo a discordar dessa posição. Cada vez mais a gastronomia é um aspecto de interesse, haja vista o espaço que conquistou na mídia com programas na TV e canais especializados, além de cadernos semanais em periódicos importantes. As pessoas têm interesse e curiosidade em experimentar pratos típicos, mesmo sem viajar. Na chamada alta gastronomia os produtos nacionais estão cada vez mais em destaque. 
O problema, me parece, não é com a gastronomia, mas com o turismo como um todo no país, onde é difícil e muito caro viajar. As facilidades de transporte dos produtos, as mudanças nos hábitos de consumo dos brasileiros e a velocidade nos meios de comunicação permitem um intercâmbio de conhecimentos até pouco tempo impensável. Porém, viajar para vivenciar essas experiências é certamente outra coisa.
JU – A valorização da gastronomia nacional não passa necessariamente pelo seu reconhecimento como bem patrimonial que merece ser protegido como expressão da cultura nacional? Por que isso não acontece? A falta de políticas públicas para o setor também ajuda a explicar porque a culinária brasileira ainda não tem o devido reconhecimento como bem cultural?
Carlos Dória – A valorização da culinária brasileira passa pela reforma do seu marco institucional. A legislação sanitária, por exemplo, é toda feita segundo o figurino da grande indústria. O artesanato não tem vez, pois não consegue atender às exigências descabidas no Estado no plano sanitário. É o caso do queijo Canastra, em Minas Gerais. Então, proteger significa, em primeiro lugar, elaborar um estatuto próprio de funcionamento dessa economia baseada na pequena agricultura, que aproxime produtor e consumidor sem a mediação dos processos industriais. 
Esse quadro de exclusão está em contradição com os esforços internacionais por preservar modos de fazer, ingredientes e produtos ligados à pequena propriedade agrícola. A Unesco tem promovido esforços nesse sentido, visando à preservação cultural da diversidade. O mesmo em relação ao slow food. São pressões sobre o Estado e a sociedade e acabarão por produzir resultados, mas isso demorará.
Leila Algranti – Não penso que devamos ir transformando saberes culinários e alimentos em bens culturais ou patrimônios nacionais velozmente. Há excelentes estudos e especialistas que advertem sobre essa tendência patrimonializadora. Tivemos uma mesa-redonda no evento sobre História da Alimentação, na Unicamp, dedicada a essa questão do patrimônio. O tema é polêmico e foi defendida a posição de que um saber culinário deve ser entendido para além de seu valor identitário.  Muitas vezes esses saberes são formas de sobrevivência para muitas famílias e é isso que deve ser estimulado: a vivência, a dinamização de uma região, a tradição do modo de fazer e a sobrevivência desse envolvimento humano com a natureza e com a terra. Tendo a concordar com tal posição no momento e penso que é mesmo importante perguntarmos: o que desejamos preservar? O que se teme perder?
 
JU – Associada à imagem de charme e glamour, a gastronomia transformou-se em um fenômeno de massa no Brasil atualmente. A culinária ocupa espaços em dezenas de programas de televisão, cresce o número de cursos superiores na área e chefes de cozinha são elevados ao patamar de celebridades. A que atribuir esse aumento de interesse do brasileiro pelo assunto? Em que medida isso contribuiu (ou não) para a melhor percepção do valor cultural da alimentação na vida cotidiana?
Carlos Dória – É verdade. Nunca se falou tanto em comida no mundo. Talvez porque nunca, como agora, as pessoas estiveram tão desenraizadas de um conhecimento sobre alimentação e nutrição. Nos EUA, uma família só se reúne em torno da mesa umas 4 horas por semana. O resto do tempo é cada um por si. O Brasil segue esse caminho, e nos estratos superiores de renda, 50% dos gastos com alimentação já são efetuados fora de casa. 
Quem ensina essa gente a comer? Ainda não é a escola. Então, surge a grande oportunidade para os meios de comunicação, para a glamourização dos chefs como a personificação de cozinhas sem cara e assim por diante. É um fenômeno mundial, com seus reflexos no Brasil. Mas falar sobre comida é um traço cultural melhor do que não falar sobre comida. Estamos nesse caminho, e podemos nutrir esperanças de que formaremos gerações culinariamente mais cultas do que somos.
Jornal da UNICAMP
Campinas, 03 de dezembro de 2012 a 09 de dezembro de 2012 – ANO 2012 – Nº 548

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sábado, 5 de janeiro de 2013

Ervas aromáticas e tempêros

Publicado a 31 de Agosto de 2012

Nesta “coisa” das papas as ervas aromáticas são tema fulcral.

Muito antes de surgir a escrita o homem já usava ervas para fins alimentares e medicinais.

Nas suas experiências descobriu as qualidades de cada uma: alimento, medicamento, veneno, alucinógeno e outras.

Ainda hoje sacerdotes de sociedades não letradas usam determinadas plantas para provocar alucinações ou para curar o paciente.

O documento médico mais antigo que refere as propriedades medicinais das plantas é um tratado datado de 3.700 AC, da China, escrito por Shen Wung um imperador sábio que fazia experiências com as plantas. Nele escreveu que para cada enfermidade havia uma planta que seria um remédio natural. Conforme a lenda, ele podia observar os efeitos de seus preparados no organismo por ter o abdômen transparente.

Seguiram-se os egípcios, que deixaram papiros preciosos.Neles podemos ver que utilizavam ervas aromáticas na medicina, cosmética, culinária e, sobretudo, em sua técnica, nunca superada, de embalsamento. Eram de uso comum plantar as ainda hoje conhecidas e usadas: tomilho, anis, coentro, cominho, papoula, alho, cebola e outros.
Mas vamos por partes e com (algum…) sistema.

Carl von Linné, Lineu, como é mais conhecido (1707 1778),naturalista sueco, médico do rei, professor universitário, desenvolveu o sistema binário de classificação botânica das plantas que rapidamente se impôs no mundo inteiro. Hoje os nomes dos vegetais estão identificados em latim.

Começo com o Açafrão.

Ao que se diz Zeus, Rei dos deuses da Grécia antiga, dominado por insaciáveis apetites sexuais, chegou a dormir num colchão forrado com açafrão, na esperança de que a odorífera planta, cujas virtudes corriam o Olimpo, lhe exaltasse as paixões.

O «Crocus sativus», a bela planta bulbosa da família das iridáceas, também designada por açafroeira ou açaflor, de flor lilás, cujos estigmas, finíssimos e de cor vermelha, e parte dos estiletes dão uma especiaria preciosa – a mais cara do mundo – de perfume e sabor requintados, utilizada também, desde tempos remotos, como remédio e pigmento.

O nome científico da planta deve-se à aldeia de Krokos, situada na Macedónia Ocidental,na Grécia, origem de um dos maiores volumes de produção no Ocidente.

Originário da Ásia, este tempero é muito usado na Europa, na Índia e em países árabes. Por ser muito caro, o seu uso é um pouco restrito. O açafrão é obtido dos pistilos de uma planta e enriquece os pratos com sua cor e sabor característicos. Pode ser vendido em pistilos desidratados ou em pó.

Por cá, confunde-se frequentemente açafrão com curcuma, conhecida por açafrão-das-Índias, produto que se popularizou nos últimos 30 anos. Nos Açores usa-se ainda um outro produto de baixa qualidade: a açafroa ou cártamo, da qual também é extraído um óleo.

Se se pensar que são necessárias cerca de 100 mil flores para se obter 1 kg de açafrão e que a colheita, efectuada entre Outubro e Novembro, é inteiramente feita à mão, o mesmo acontecendo com a monda (operação que consiste em separar os estigmas da flor), percebe-se por que motivo os preços do açafrão são muitas vezes comparados aos do ouro.

João Reboredo

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quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Archaeologists Find Ancient Evidence Of Cheese-Making

by Adam Cole; Helen Thompson

http://www.npr.org

As any cheese maker will tell you, it's not that hard to make cheese. You just take some fresh milk, warm it up a bit, and add something acidic to curdle it. Then, once it has cooled, you drain off the whey — the liquid part — and you're left with cheese.

But when did we figure out how to do this? According to a new paper in the journal Nature, at least 7,000 years ago. Since then, the process hasn't changed much.
Melanie Salque is the paper's lead author and a chemist at Bristol University in England. She says some of the first clues of Neolithic cheese-making were a bunch of strange clay vessels unearthed by archaeologists in the 1970s in Northern Europe. "They were very peculiar because they had very small holes in them," says Salque.

Peter Bogucki, a Princeton archaeologist who dug up these pots, says they baffled him and his colleagues. Some thought the sieves might have been used to hold hot coals, or strain honey, or prepare beer. But Bogucki wondered if maybe they had something to do with cheese.

For decades there was no way to prove his pots were ancient cheese strainers. Now new techniques have finally allowed researchers to analyze residue that had seeped into the clay. And they found that its chemical signature matched cow's milk.

The simple ancient cheese was an important step in the development of modern civilization. For people who were just beginning to leave hunting behind and beginning to rely on crops that often failed, dairy products had the potential to get them the nutrition they needed. And they were a food source that didn't require killing highly prized livestock.

"Milk is a superfood — it's probably the ultimate superfood," says Mark Thomas, a evolutionary geneticist at University College London who has studied the DNA of these early cheese makers. But he says Neolithic Europeans had a problem — like most modern humans, they were lactose intolerant.

"Very few or none of the people at that time would have been able to digest the sugar in milk," says Thomas.

But the process of making cheese removes a lot of this sugar — the lactose. It would have been dissolved in the whey and drained off by those ancient cheese strainers so the farmers could get their daily dose of dairy without the intestinal problems. Richard Evershed, a chemist at the University of Bristol in the U.K. and another author on the study, has found milk residues in pottery shards from southwestern Libya, which suggests prehistoric people were also producing yogurt in the same period.

"Milk gave us something — some extra edge in terms of survival," says Thomas.

And that edge meant we had more time and energy to improve farming methods, invent new tools, develop cooking techniques, and eventually perfect the cheese blintz.

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http://pakagri.blogspot.com.br/2012/12/archaeologists-find-ancient-evidence-of.html?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed:+blogspot/Farming+(Agriculture+and+Farming)