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sexta-feira, 8 de abril de 2016

América Latina desperdiça até 348 mil toneladas de alimentos por dia

Com os alimentos que se perdem na região latino-americana anualmente seria possível alimentar 37% daqueles que sofrem com a fome em âmbito global, de acordo com a FAO.
Na América Latina, perde-se ou se desperdiça até 348 mil toneladas de alimentos por dia, cifra que precisa ser reduzida pela metade nos próximos 14 anos caso a região pretenda alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), apontou a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) na quarta-feira (30).

O terceiro boletim “Perdas e Desperdícios de Alimentos na América Latina e Caribe”, da FAO, lembrou que o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável número 12 (ODS 12) está justamente voltado para a necessidade de se garantir hábitos de consumo e produção sustentáveis.

Esse objetivo estabelece a meta de se reduzir pela metade, até 2030, o desperdício mundial de alimentos per capita tanto no momento da venda, quanto por parte dos consumidores, assim como nas cadeias de produção e distribuição.

De acordo com a agência da ONU, 36 milhões de pessoas da região poderiam suprir suas necessidades calóricas somente com os alimentos perdidos nos pontos de venda direta aos consumidores – número que representa um pouco mais que a população do Peru e é maior que o número de pessoas que ainda passam fome na América Latina.

A FAO e outras agências parceiras estão atualmente elaborando o Índice Global de Perdas e Desperdícios de Alimentos, que será importante para os países quantificarem as perdas e definirem suas estratégias para alcançar o ODS 12.

América Latina e Caribe se mobilizam para reduzir perdas

Cento e vinte e sete milhões de toneladas de alimentos, 223 quilos por cada habitante da região, são os montantes totais anuais de desperdícios na região da América Latina e Caribe.

Esses alimentos seriam suficientes para satisfazer as necessidades alimentares de 300 milhões de pessoas, cerca de 37% de todas as pessoas que passam fome em âmbito global.

A região já trabalha para reduzir esse desperdício. Com o apoio da FAO, durante 2015 os governos estabeleceram uma rede de especialistas, uma estratégia regional e uma aliança regional para a prevenção e redução de perdas e desperdícios de alimentos.

Na Costa Rica e na República Dominicana, foram criados comitês nacionais dedicados ao tema, e Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México, Peru, São Vicente e Granadinas e Uruguai estão discutindo iniciativas semelhantes.

A luta contra o desperdício de alimentos também faz parte do principal acordo de combate à fome na região, o Plano de Segurança Alimentar, Nutricional e Erradicação da Fome da Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos (CELAC). O plano considera a eliminação das perdas e desperdícios como uma condição fundamental para acabar com a fome até 2025.

Argentina desperdiça 12% da produção agroalimentar

O Programa Nacional de Redução de Perda e Desperdício de Alimentos da Argentina estima que o país não aproveite 16 milhões de toneladas de alimentos, cerca de 12,5% da produção nacional agroalimentar. Mais de 40% do volume desperdiçado correspondem a produtos hortifrúti.

A FAO está desenvolvendo um projeto de cooperação técnica com o governo argentino para desenhar uma metodologia de diagnóstico sobre o desperdício de alimentos. Também atua para aumentar o nível de conscientização do setor agroalimentar e dos consumidores por meio de manuais que ensinam como aproveitar ao máximo os alimentos.
Avanços no Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica e República Dominicana

No marco das políticas de segurança alimentar, o Brasil tem apresentado projetos de lei para criar uma rede nacional de especialistas, uma política nacional e uma estratégia coordenada para a redução de perdas e desperdícios. Outro projeto de lei busca regulamentar a doação de alimentos.

O Chile desenvolveu estudos preliminares para medir a perda de alface, pão, arroz, batata e produtos do mar, além de atividades de recuperação de alimentos em pontos de vendas e a criação de conselhos para prevenir o desperdício doméstico.

O governo da Colômbia solicitou apoio técnico da FAO para formular políticas públicas para abordar o tema no país. Já na Costa Rica, a Rede para a Diminuição de Perdas e Desperdícios de Alimentos – SAVE FOOD Costa Rica desenvolveu estudos nas cadeias de tomate e lácteos e realizou ações para diminuir os desperdícios em restaurantes e empresas.

O Comitê Dominicano para Evitar as Perdas e os Desperdícios de Alimentos trabalha com o setor público, privado, organismos internacionais e a sociedade civil. O país também desenvolveu um estudo para a consolidação de um Banco de Alimentos.

Da ONU Brasil, in EcoDebate, 05/04/2016

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Indústria e a cultura do desperdício, artigo de Reinaldo Dias

[EcoDebate] O conceito de sustentabilidade associado à dimensão tecnologia pode ter diversas abordagens, muitas vezes antagônicas. Duas delas são particularmente relevantes: o sistema de produção industrial linear e o circular.

Por muito tempo a tecnologia foi vista como inimiga do meio ambiente, não só pela exploração maciça de seus recursos, mas como destinação dos resíduos dos produtos tecnológicos. Esta perspectiva, no seu limite, provocou o surgimento de movimentos neoluditas, anti-tecnologia, com vários adeptos em todo mundo e que passam a ser avessos à utilização de produtos de alta tecnologia visando adotar posturas mais amigáveis com a natureza e tendência à demonização da indústria como a responsável pela crise ambiental atual.

No entanto, numa nova abordagem conceitual, a tecnologia e constitui numa ferramenta para o crescimento e o desenvolvimento de países como o Brasil, que almejam alcançar metas sustentáveis de crescimento. Nesta perspectiva a tecnologia deve contribuir, principalmente, através da inovação e alcançar maior eficiência nos processos produtivos sem prejuízos ao meio ambiente. Os avanços tecnológicos devem buscar o baixo custo e altas taxas de retorno na produção.

O sistema de produção atual e vigente na maioria dos países, está fundamentado na extração, fabricação, utilização e eliminação. É um sistema linear que permite converter em descartáveis a maioria dos produtos e incrementar a produção de resíduos. Este sistema linear nada prevê em relação à produção de lixo e, como vemos em nosso país, cada dia são maiores as dificuldades encontradas pelos municípios para sua disposição. Os produtos atuais têm uma vida útil curta, a possibilidade de repará-los é baixa ou pouco rentável para quem executa esse tipo de serviço, o que aumenta, ainda mais, os resíduos sem controle. Também as tendências da moda incentivam a eliminação de artigos de consumo, como resultado desse modelo.

No entanto, isso está mudando. As futuras empresas competitivas serão as que tem ciclos de produção com externalidades negativas mínimas, que em vez de gerar resíduos, os utiliza para devolvê-los ao ciclo e produzir mais e melhor. Isto implica uma mudança de cultura, modo de pensar e de esforços conjuntos entre universidades, indústria, tomadores de decisão políticos, autoridades e dos consumidores, para dar um novo alcance para a sustentabilidade.

Esta nova tendência é um componente importante da “nova revolução industrial” e pode ser vista como uma resposta ao desperdício de grandes somas de dinheiro ao impactar negativamente o meio ambiente. Neste aspecto, os empresários são levados a um outro nível de compreensão de seus processos, basicamente, entendendo melhor o que e como fazem evitando ou diminuindo seus efeitos negativos ao meio ambiente.

Para os empresários é essencial assumir mudanças significativas no uso eficiente dos recursos e promover a aplicação de boas práticas e de conhecimentos já existentes para minimizar os impactos ambientais. Além disso, devem compreender que não é necessário deixar de lado o conceito de “negócio”, para ser responsável com o meio ambiente.

Esta revolução significa que os sistemas de produção devem mudar, alcançar maior eficiência e progredir na aprendizagem, porque alguns podem fazer algumas coisas melhor do que outros, compartilhar, e colaborar com os demais, não produzir resíduos ou lixo, e entender o que realmente significa valor. As empresas inteligentes começarão a partir de agora a acomodar-se nesse novo modelo de produção circular, que resultará na geração zero de resíduos ou perto de zero, porque tudo vai voltar ao sistema produtivo. Mudará a lógica da produção em escala, e serão feitos bons produtos para os consumidores, sem desperdiçar recursos gerando resíduos e lixo prejudiciais ao meio ambiente.

Como país devemos melhorar a compreensão dos impactos da indústria, delinear um amplo programa de pesquisa e educação para a solução de problemas e explorar novos modelos para que o Brasil atinja melhores padrões de sustentabilidade na sua produção industrial. Passar do sistema de produção linear ao circular não é um modismo passageiro, é o inevitável caminho a ser percorrido pelas indústrias para melhorar sua competitividade e sobrevivência no mercado global.

*Reinaldo Dias é professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, campus Campinas. Doutor em Ciências Sociais e Mestre em Ciência Política pela Unicamp. É especialista em Ciências Ambientais.

in EcoDebate, 11/02/2016
"Indústria e a cultura do desperdício, artigo de Reinaldo Dias," in Portal EcoDebate, 12/02/2016, http://www.ecodebate.com.br/2016/02/12/industria-e-a-cultura-do-desperdicio-artigo-de-reinaldo-dias/.

domingo, 13 de setembro de 2015

A luz do lixo




Sinopse: No coração do Vidigal, uma favela do Rio de Janeiro, moradores descontentes com o caos provocado por um lixão, transformam este espaço num sitio ecológico, de forma autônoma. O que antes era um problema passou a ser uma solução e fonte de vida, criando novas possibilidades da ação com lixo e com o meio ambiente. O projeto pode ser visto como um laboratório de experiências inovadoras de um novo mundo possível.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

SP: Prefeitura cria ‘sacola verde’ para reciclagem, que substitui sacolinhas de supermercado proibidas por lei

O prefeito Fernando Haddad regulamentou a lei 15.374/2011, que proíbe a distribuição gratuita ou a venda de sacolas plásticas nos estabelecimentos comerciais da capital e recentemente foi considerada válida pela Justiça. Os comerciantes têm até 5 de fevereiro para se adaptar às novas regras, que autorizam a distribuição ou a venda de uma nova sacola padronizada, verde, para ser reutilizada apenas para descartar lixo reciclável. A regulamentação está prevista no Decreto 55.827, publicada nesta quarta-feira (7) no Diário Oficial do Município.
“O que nós procuramos fazer é conciliar interesses contraditórios. É um modelo que atende a todos os envolvidos: a indústria produtora das sacolas que corria o risco de demitir trabalhadores, o consumidor que quer comodidade para carregar suas compras e o meio ambiente que não pode continuar a ser degradado”, afirmou Haddad.

As sacolinhas descartáveis, que atualmente são distribuídas principalmente nos supermercados, estão proibidas. Já a nova sacolinha verde será usada pelo consumidor para carregar as compras e depois deverá ser reutilizada para descartar o lixo reciclável, que será enviado a uma das centrais de triagem mecanizadas ou manuais nas cooperativas. A sacola verde não poderá ser usada para o descarte do lixo orgânico, que deverá ser depositado em sacos plásticos.

O novo padrão de sacola foi desenvolvido para adequar-se à coleta seletiva. É feita de cana de açúcar, um material renovável. Suporta carregar até 10 quilos e é cerca de 40% maior que as sacolas atualmente distribuídas nos supermercados. Terá resistência maior e permitirá, por exemplo, o transporte de até três garrafas PET cheias. As novas sacolas serão verdes e apresentarão orientações sobre o acondicionamento adequado dos resíduos recicláveis. Estima-se que o custo para os estabelecimentos é equivalente ao do modelo utilizado atualmente. O novo modelo foi definido em diálogo com os comerciantes e com os produtores das sacolas plásticas.

Segundo o secretário Simão Pedro (Serviços), também estão sendo preparados novos modelos de sacolas nas cores marrom e cinza, adequadas ao descarte de lixo orgânico para compostagem e de inservíveis, resíduos que não podem ser reciclados.A utilização das sacolinhas plásticas convencionais para o descarte dos resíduos não-recicláveis dificulta o manejo dos aterros sanitários.

“Não é apenas a questão de levar plástico para o aterro sanitário. A sacolinha é um vilão porque cria dificuldade em fazer a acomodação das camadas de resíduos e de solo. Dificulta a estruturação por criar bolsões de ar e desequilibrar o aterro”, explicou o secretário Wanderley Meira do Nascimento (Verde e Meio Ambiente). De acordo com o secretário, o uso das sacolas também será acompanhado de um trabalho de educação ambiental, principalmente com as crianças.

Com as novas regras, a população passará por um período de adaptação, em que receberá orientações sobre a maneira mais adequada de utilizar e descartar as sacolas, tanto nos estabelecimentos quanto pelo poder público.

“O descumprimento [das novas regras] é uma infração administrativa ambiental, com punição estabelecida pela legislação federal”, disse o secretário Simão Pedro.

A fiscalização do uso das sacolas verdes será realizada pela Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente. Pelo decreto publicado hoje no Diário Oficial da Cidade, as penas são determinadas pelo decreto federal 6514, de 22 de julho de 2008. O comerciante que desrespeitar a lei poderá receber uma multa de R$ 500 a R$ 2 milhões, de acordo com a gravidade e o impacto do dano provocado ao meio ambiente. Já o cidadão que não cumprir as regras poderá receber advertência e, em caso de reincidência, poderá ter que pagar uma multa com valor entre R$ 50 e R$ 500. De acordo com a lei 13.478, apresentar lixo para coleta regular em recipiente inadequado pode gerar uma multa de R$ 63,22.

Histórico da lei

Após a Lei 15.374/2011 ter sido sancionada em maio de 2011, o Sindicato da Indústria de Material Plástico do Estado de São Paulo ingressou com um pedido no Tribunal de Justiça de São Paulo para suspender sua aplicação. O desembargador Luiz Pantaleão concedeu uma liminar suspendendo a lei no mês seguinte. A entidade também ingressou com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) contra a lei. Com isso, a legislação foi impedida entrar em vigor, como era previsto, a partir de janeiro de 2012. A Prefeitura recorreu para suspender a liminar, mas o Tribunal manteve a decisão no ano passado. No último dia 7 de outubro, o Órgão Especial do TJ-SP considerou improcedente a ação movida pelo sindicato e cassou a liminar que mantinha a aplicação da lei. Após a confirmação da constitucionalidade de lei, a Prefeitura ficou responsável por sua regulamentação.

Reciclagem

As diretrizes para a gestão de resíduos sólidos na cidade estão organizadas no Plano de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos da Cidade de São Paulo (PGIRS), documento elaborado de maneira participativa com entidades e cooperativas. Em 2014, a Prefeitura inaugurou duas centrais mecanizadas, com capacidade para processar 500 toneladas de recicláveis por dia, em processo pioneiro na América Latina. Até 2016, serão instaladas mais duas centrais mecanizadas, na Vila Maria e em São Mateus, atingindo a marca de cerca de 1.250 toneladas diárias. A meta é aumentar o percentual de coleta seletiva em São Paulo de 2% para 10%, até 2016.

Na capital, em 2014, dez novos distritos passaram a contar com coleta seletiva e mais 40 tiveram a coleta universalizada. No total, 85 distritos têm coleta de recicláveis. Atualmente, a Amlurb tem cadastradas para triagem manual 22 cooperativas e associações de catadores, que juntas processam manualmente cerca de 250 toneladas por dia. Na agenda ambiental da cidade está ainda a reutilização dos resíduos orgânicos por compostagem, para redução da quantidade de materiais enviados aos aterros sanitários.

O que pode e o que não pode a partir de 5 de fevereiro:

1- Posso usar a sacola verde para jogar o lixo do banheiro ou da cozinha?
Não. A lei não permite que resíduos orgânicos ou não-recicláveis, como papel higiênico, fraldas ou restos de alimentos, sejam descartados na sacola verde. A nova sacolinha que o supermercado oferecer somente pode ser usada para o lixo reciclável, como embalagens de papel, plástico e vidro, por exemplo.

2- Só posso jogar o lixo reciclável se for na sacola verde?
Não. O lixo reciclável também pode ser descartado de outras maneiras, em sacos de lixo comuns ou em sacolinhas convencionais, por exemplo.

3- O que acontece se jogar o lixo comum na sacola verde?
O cidadão pode ser advertido e até multado. O objetivo da lei é evitar que as novas sacolinhas sejam despejadas nos aterros junto com os resíduos que não são reciclados. Se enviadas aos aterros, as sacolas deixam de ser reutilizadas pela reciclagem, prejudicam o meio ambiente e podem provocar acidentes por dificultar o depósito dos resíduos.

4- Sou obrigado a usar a sacola verde, mesmo que o supermercado cobre?
Não. O consumidor pode escolher qual embalagem é mais conveniente. Algumas possibilidades são as sacolas de tecido e lona, carrinhos ou caixas de papelão, por exemplo. Caso decida transportar os produtos na sacola verde, terá que descartá-la na coleta seletiva.

Foto
Crédito: Fábio Arantes /SECOM

Fonte: Prefeitura de São Paulo

Publicado no Portal EcoDebate, 08/01/2015

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Pagamos tanto por lixo quanto por alimentos, artigo de Raimundo Nonato Brabo Alves

Quando a maioria das prefeituras não cumpriu o prazo para o cumprimento da Política Nacional de Resíduos Sólidos a sociedade continua a ser a crescente mina de rejeitos
[EcoDebate] Este assunto já foi tema de crônica anterior de minha autoria em A SOCIEDADE PLASTIFICADA em que relato minha experiência com a transição da vida simples numa cidade considerada periférica – sem produção de lixo – para a sociedade “de consumo”.

Segundo conceitos de marketing, o primeiro impulso de consumo do homem é visual e as embalagens representam hoje um componente importante de valorização de um produto, podendo mesmo representar o seu sucesso ou insucesso de vendas no mercado, exercendo forte influencia no comportamento do consumidor. A importância das embalagens aumentou mais ainda quando as empresas perceberam que havia um mercado espetacular ávido por consumo até então inexplorado: o mercado infantil.

As embalagens deveriam ser um meio e não um fim pelo fato de não ser o produto em si, mas apenas um recipiente do produto final, este sim objeto das necessidades e desejos do consumidor. Contudo a maioria dos consumidores não sabe que embutido no preço do produto, vai uma parcela significativa dos custos equivalente as embalagens, algumas vezes superando o valor do produto propriamente dito. Com o consumo exacerbado, o que o consumidor não sabe é que o preço desta conta é pago em dobro: pelo valor da embalagem diretamente embutida no custo do produto e pela coleta do lixo decorrente do descarte desta embalagem.

O fracionamento de produtos eleva o seu custo. Por exemplo, o consumo de um produto em frascos de 100 a 300 ml pode ficar até 10% mais caro, que se consumido em frascos de 1.000 a 5.000 ml. Um exemplo é o consumo de água mineral. Além de elevar o custo aumenta a produção de lixo com as embalagens “descartáveis”.

As embalagens “modernas” permitiram que a produção de alimentos passasse ao controle de poucas empresas no mundo, eliminando a prática salutar da maioria dos pequenos agricultores de fornecer seus produtos diretamente aos consumidores, como era feito no passado. Embalagens provocativas que estimulam de imediato o consumo, muitas vezes de produtos não tão saborosos e nutritivos como os anúncios dizem ser, permitiram sua distribuição nas regiões mais remotas da Amazônia. Hoje no meio rural e nas pequenas cidades da região o lixo já é um fato e a obesidade um problema de saúde pública.

Vejamos o que acontece com os produtos de consumo massificados. No refrigerante de R$ 3,00, 90% é custo do líquido, 10% é embalagem. Na água mineral com preço de R$ 1,00, 20% é custo do líquido 80% é embalagem. Uma grande embaladora de leite afirma que a embalagem corresponde a 17% do custo de um litro do leite longa vida.

Segundo afirma Andrea Vialli em matéria no Estado de São Paulo, a produção de lixo no Brasil cresceu em 2010 6,8% em relação a 2009, enquanto que a coleta seletiva apenas 1,6%. A consequência é o descarte inadequado do lixo em aterro a céu aberto. Em plena região metropolitana de Belém, o lixão do Aurá é uma verdadeira bomba relógio, ameaçando com a contaminação de chorume os mananciais que abastecem de água toda a região metropolitana.

Pagamos um preço muito caro pelas embalagens, considerando a efemeridade em que elas nos são útil e seu longo período para degradação no meio ambiente. Principalmente agora com a ameaça a saúde dos seres vivos com uma substância componente dos plásticos conhecida como Bisfenol A, já proibida no Canadá, Dinamarca, Costa Rica e em alguns estados nos Estados Unidos. Segundo pesquisas esta substância de tamanho nanométrico entra na corrente sanguínea e se confunde com o estrogênio, confundindo todo o sistema hormonal do ser humano. As mesmas pesquisas revelam que os peixes também confundem o Bisfenol A com o plâncton no mar.

De copos descartáveis a sacolas plásticas de supermercados. Do isopor de proteção de geladeiras a fibras sintéticas de proteção de eletrodomésticos. É muito lixo gerado diariamente nas grandes cidades, onerando o orçamento das prefeituras, subtraindo investimentos em saúde e educação. A concepção moderna de um plano de marketing deve continuar levando em conta todos os impulsos do consumidor. Mas principalmente uma nova condição biodegradável da embalagem deve ser objeto de pesquisas, considerando a sua adequação ao meio ambiente, evidentemente sem deixar de perseguir a redução de seu custo no produto final. A coleta seletiva é cara e de difícil organização logística e a reciclagem é consumidora de energia.

Raimundo Nonato Brabo Alves é Pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental

Publicado no Portal EcoDebate, 10/11/2014

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Maior parte do lixo produzido no Brasil é orgânico e poderia ser aproveitada

Somente na cidade de São Paulo, mais de 5 mil toneladas de resíduos orgânicos domésticos são enviados diariamente para aterros sanitários. Resíduos podem ser aproveitados na forma de adubo orgânico.

Mais da metade de todo lixo produzido no Brasil é composto por resíduos orgânicos que inclui restos de alimentos como frutas, legumes e folhagens que consumimos diariamente. Essas sobras que, muitas vezes, vão para aterros sanitários e lixões, podem ser transformados em adubo orgânico para serem utilizados em hortas, parques, praças e jardins.

São Paulo acaba de lançar um projeto para compostagem doméstica, que deverá distribuir 2 mil composteiras para reutilização de resíduos orgânicos.

O projeto contempla uma das propostas defendidas há anos pelos catadores. O objetivo dos trabalhadores desse ramo é chegar a um patamar de 100% de reciclagem, como defendeu Alex Cardoso, do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), em recente entrevista à Radioagência BdF.

“Nós temos hoje no Brasil um potencial de 53 a 56% de materiais passíveis de reciclagem. E na nossa parte é que tenha investimento para fazer a compostagem e a partir da compostagem fazer biodigestores. E a partir dos biodigestores produzir a biomassa para geração de energia. E o reaproveitamento dos resíduos da construção civil para que se possa construir ruas e blocos para fazer pavimentação.”

Nos aterros sanitários, os resíduos orgânicos causam problemas ambientais, como por exemplo, a formação de chorume tóxico, ao se misturar a outras substâncias, que pode infiltrar-se no solo e contaminar a água subterrânea.

Diariamente, em São Paulo, são enviados para o aterro sanitário 18 mil toneladas de resíduos, sendo 10 mil toneladas de origem doméstica. Somente na capital paulista, mais de 5 mil toneladas de resíduos orgânicos domésticos são enviados todos os dias para aterros sanitários.

De São Paulo, da Radioagência BdF, Leonardo Ferreira.

EcoDebate, 07/07/2014

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sexta-feira, 4 de julho de 2014

Relatório apoiado pela ONU traça as origens e as causas do desperdício global de alimentos

Nesta quarta-feira (02), um painel de especialistas apoiados pelas Nações Unidas apresentou o relatório Desperdício e perda de alimentos no contexto de sistemas alimentares sustentáveis que traça as origens e as causas do desperdício de alimentos e que recomenda algumas ações possíveis para reduzir as 1,3 bilhão de toneladas de comida que são perdidas anualmente em todo o mundo.

“A perda e desperdício de comida são consequência do modo com que os sistemas de alimentos funcionam atualmente, em nível técnico, cultural e econômico”, explicou o Painel de Alto Nível de Especialistas do Comitê sobre Segurança Alimentar Mundial, a mais importante plataforma internacional e intergovernamental para discussões e definição de agenda sobre questões relacionadas com a segurança alimentar global.

Segundo a Organização para Alimentação e Agricultura (FAO), o desperdício adquiriu alta visibilidade: “cerca de um terço de toda a comida produzida para consumo humano acaba perdido”, prejudicando a segurança nutricional das populações e a sustentabilidade do sistema alimentar – que garante a disponibilidade de comida para as atuais e futuras gerações.

Valendo-se de uma perspectiva sistêmica, o relatório analisou os impactos da perda de alimentos com base em uma ampla lista de causas. “Reduzir as perdas e o desperdício é essencial para melhorar a segurança alimentar e diminuir a pegada ecológica dos sistemas de produção de alimentos”, afirma o documento.

Fonte: ONU Brasil

EcoDebate, 04/07/2014
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quarta-feira, 25 de junho de 2014

O meu lixo?

Reciclagem de resíduos sólidos: a propaganda é bonita, mas o processo explora os catadores. Entrevista com Alex Cardoso

“A Política Nacional de Resíduos Sólidos optou por fazer reciclagem investindo nas pessoas, gerando riqueza e conhecimento a partir dos resíduos para incluir e não para excluir”, diz coordenador do Fórum de Catadores de Porto Alegre.
Foto: manosso.nom.br

Quatro anos depois da publicação da Política Nacional de Resíduos Sólidos – PNRS, “menos de 40 municípios contrataram catadores para realizar a coleta seletiva” e apenas 34% deles fizeram um Plano Municipal de Gerenciamento Integrado de Resíduos Sólidos, informa Alex Cardoso em entrevista à IHU On-Line, concedida por telefone.

Na avaliação dele, a implantação da PNRS está caminhando a passos lentos, “porque os gestores municipais e estaduais não estão enxergando os benefícios ambientais e sociais que a política traz”. Além disso, pontua, “as prefeituras subestimam as pessoas, pensando que a pobreza está interligada à questão da inteligência. Elas pensam que, porque as pessoas estão em uma situação de exclusão e de extrema pobreza, são burras. (…) A lupa de visão delas é outra e, dessa forma, por exemplo, a prefeitura de Porto Alegre entrega a coleta seletiva para uma empresa privada pela bagatela de meio milhão de reais por mês, e outros municípios, a exemplo de Caxias do Sul, pagam 400 mil reais por mês para uma empresa fazer a coleta seletiva, sem enxergar o trabalho que os catadores podem desenvolver com muito mais qualidade e eficiência”. Para ele, a discussão e a propaganda feita em torno dos benefícios da reciclagem de resíduos sólidos “é muito bonita”, mas o processo de reciclagem no país está sendo feito com base na “extrema exploração dos catadores, ferindo inclusive os direitos humanos, porque está sob o controle de meia dúzia de empresas, formando quase que um ‘cartel’”.

Membro do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis, Cardoso diz que, para cumprir as determinações da PNRS, o processo de reciclagem precisa de “estruturação e organização”. Como proposta, sugere a expansão da Reciclagem Popular, que reconhece e valoriza o trabalho do catador como protagonista desse processo. “Nessa perspectiva, defendemos que as prefeituras façam contratos com as cooperativas de reciclagem, garantindo parte da infraestrutura, que o governo do estado pague pelos serviços ambientais que os catadores desenvolvem e que o governo federal seja responsável pela infraestrutura necessária para garantir a prestação de serviço, como a compra de máquinas, equipamentos, construção de galpão, como tem sido nos últimos anos”, explica.

Como exemplo de uma rede de cooperativas que está desempenhando um trabalho satisfatório em relação à reciclagem, Cardoso menciona a atividade desenvolvida por aproximadamente 480 catadores durante a Copa do Mundo. “Esse é um exemplo do que estamos desenvolvendo nacionalmente: mais de 840 catadores estão dentro dos estádios das cidades-sede da Copa do Mundo, incluindo as Fan Fest, com gerenciamento integrado de resíduos sólidos. Eles foram contratados, valorizados e estão recebendo, diariamente, mais ou menos 80 reais. Durante este mês da Copa do Mundo, a renda deles, que varia entre 600 e 800 reais, vai passar para aproximadamente dois mil reais”, conclui.

Alex Cardoso é membro do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis – MNCR, integrante da Coordenação do Fórum de Catadores de Porto Alegre – FCPOA e daCooperativa dos Catadores de Materiais Recicláveis do Loteamento Cavalhada – ASCAT.

Confira a entrevista.
Foto: fld.com.br

IHU On-Line – Qual é a posição do movimento nacional dos catadores em relação à reciclagem de resíduos sólidos e como o movimento vê a discussão acerca da incineração de resíduos?

Alex Cardoso - A reciclagem, no que se refere à propaganda ou divulgação, é uma coisa muito bonita e parece que só tem benefícios. Mas a forma como a reciclagem está sendo organizada é baseada na extrema exploração dos catadores, ferindo inclusive os direitos humanos, porque está sob o controle de meia dúzia de empresas, formando quase que um “cartel”. Além disso, muitos ferros-velhos estão comprando materiais recicláveis a preço que eles colocam, e os catadores estão sem infraestrutura adequada, trabalhando nas ruas. Para sobreviver, acabam tendo de se sujeitar a essas situações.

Nossa primeira preocupação é em relação à organização desse setor produtivo em cooperativa. Com isso, queremos que toda a riqueza gerada a partir da reciclagem possa ser dividida em partes quase ou iguais entre as pessoas, para que cresça economicamente o coletivo e não apenas alguns indivíduos. No que se refere à questão social, gostaríamos de envolver um milhão de catadores e as suas comunidades, porque a partir do momento em que se faz um investimento direto nas pessoas, as comunidades também podem se desenvolver. O Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis – MNCR vê que a reciclagem – para cumprir a própria Política Nacional de Resíduos Sólidos – PNRS –, necessita de estruturação e organização por parte do setor produtivo da reciclagem. Nossa proposta é aplicar o que chamados de “Reciclagem Popular”, que consiste em um processo de reconhecer e valorizar o trabalho do catador como protagonista da reciclagem. Nessa perspectiva, defendemos que as prefeituras façam contratos com as cooperativas de reciclagem, garantindo parte da infraestrutura, que o governo do estado pague pelos serviços ambientais que os catadores desenvolvem – cada tonelada de papel que se recicla, economiza o corte de 24 árvores –, e que o governo federal seja responsável pela infraestrutura necessária para garantir a prestação de serviço, como a compra de máquinas, equipamentos, construção de galpão, como tem sido nos últimos anos.

No Brasil, onde se formam os aglomerados de catadores, se formam as vilas, e a base econômica dessas vilas é a reciclagem. Então, quando se investe em catadores, automaticamente está se investindo nas suas comunidades.

Outra preocupação dos catadores é a questão ambiental. Hoje, sem equipamento e na condição em que nos encontramos, conseguimos ser campeões mundiais na reciclagem de latinha, reciclando quase 99% das latinhas, 60% de pet e 45% de papelão. Com investimento e infraestrutura, com certeza conseguiríamos alcançar índices muito maiores. Se hoje os catadores atingem todos esses índices de reciclagem utilizando suas próprias mãos, empurrando carrinho ou puxando uma carroça, imagina se estivéssemos equipados, formados e qualificados para prestar este serviço, contratados e pagos.
“A incineração é a contramão da reciclagem”

segunda-feira, 23 de junho de 2014

A Agropecuária e o Plano Estadual de Resíduos Sólidos do RS, artigo de Antonio Silvio Hendges

[EcoDebate] Com as Audiências Públicas para a elaboração do Plano Estadual de Resíduos Sólidos do Estado do Rio Grande do Sul, é fundamental que o setor agropecuário se mobilize na defesa da implantação de políticas públicas que considerem as áreas rurais na elaboração dos diagnósticos e soluções específicas de tratamento e/ou disposição final dos resíduos orgânicos e inorgânicos produzidos nesta atividade e outras como as agroindústrias primárias associadas. É indispensável a análise das principais culturas agrícolas e criações de animais como bovinos de corte e leite, suínos e aves em uma perspectiva de valorização dos resíduos orgânicos, como por exemplo, a biomassa e a logística reversa das embalagens, medicamentos veterinários, fertilizantes, agrotóxicos, lâmpadas, pilhas, baterias, lubrificantes, equipamentos obsoletos pelos revendedores, distribuidores e fabricantes, além do recolhimento periódico dos resíduos do consumo diário dos estabelecimentos agrícolas pelo serviço público municipal de limpeza, sejam dos trabalhadores ou atividades desenvolvidas.

Com a aprovação e regulamentação do Plano Estadual de Resíduos Sólidos do RS, os municípios também terão que adaptarem-se através dos planos municipais e regionais de resíduos e nesta etapa também é fundamental participar das audiências públicas e acompanhar a elaboração, implantação e revisão, inclusive com sugestões e acordos com partes interessadas para que as áreas rurais dos municípios também tenham políticas públicas de gestão e gerenciamento dos resíduos sólidos orgânicos e inorgânicos.

Os itens abaixo são indispensáveis para as políticas estaduais e municipais de gestão e gerenciamento dos resíduos sólidos nas áreas rurais e nas agroindústrias relacionadas com as atividades agropecuárias. Também são fundamentais programas e projetos formais de educação ambiental nas escolas públicas e informais através das empresas, sindicatos, cooperativas e outras entidades, direcionados às populações rurais com orientações claras e que capacitem para o entendimento e a colaboração com as diretrizes, objetivos e metas estabelecidas no plano estadual e planos regionais e municipais. Apoios técnicos e incentivos econômicos também devem disponibilizados às propriedades rurais que elaborarem seus próprios planos de gerenciamento e gestão dos resíduos.

Resíduos orgânicos:

- Apoio técnico para o tratamento dos resíduos orgânicos provenientes das propriedades rurais, principalmente relacionados com a criação de bovinos, suínos, aves e outros animais com importância na economia gaúcha, inclusive com incentivo e apoio à pesquisa de soluções técnicas e economicamente viáveis;

- Apoio e incentivos para o aproveitamento energético dos resíduos da biomassa de culturas como o arroz e outras culturas agrícolas;

- Apoio e incentivos para o aproveitamento dos resíduos animais através da biodigestão e a implantação individual ou consorciada de biodigestores nas propriedades rurais;

- Políticas públicas estaduais e municipais de recuperação e manutenção da fertilidade dos solos através de apoios e incentivos à compostagem, inclusive dos resíduos orgânicos urbanos;

- Políticas públicas estaduais e municipais de saneamento básico e tratamento dos efluentes nas propriedades e áreas rurais.

Resíduos inorgânicos:

- Logística reversa de embalagens e medicamentos veterinários vencidos, fertilizantes, lubrificantes e outros produtos utilizados como insumos na produção agropecuária com modelo semelhante ao das embalagens de agrotóxicos recolhidas pelo INPEV que atinge 95% de eficiência no Brasil – Lei 7.974/2000 e Decreto 4.074/2002;

- Logística reversa de eletroeletrônicos, lâmpadas, pilhas, baterias, equipamentos obsoletos e/ou danificados com responsabilidade dos consumidores, revendedores, distribuidores e fabricantes quanto à destinação ambientalmente adequada;

- Extensão dos serviços públicos de limpeza às áreas rurais para o recolhimento e destino ambientalmente adequado dos resíduos inorgânicos do consumo ou atividades produtivas nas propriedades rurais.

Informações complementares, as datas e locais das Audiências Públicas sobre o Plano de Resíduos Sólidos do RS podem ser encontradas no site: www.pers.rs.gov.br, email: pers-rs@sema.rs.gov.br

Antonio Silvio Hendges, Articulista do EcoDebate; Professor de Ciências e Biologia; Pós Graduação em Auditorias Ambientais; Assessoria em Sustentabilidade e Educação Ambiental –www.cenatecbrasil.blogspot.com.br

EcoDebate, 23/06/2014

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segunda-feira, 26 de maio de 2014

‘O futuro nos leva para o lixo zero, para a economia circular, a reutilização total’. Entrevista com Rodrigo Sabatini

“O futuro nos leva para o lixo zero, para a economia circular, para a reutilização total, por isso, precisamos de profissionais que pensem em mudar o processo de produção, mudar o conceito do produto e a aplicação dele, ou seja, remodelar o sistema”, diz o engenheiro civil.
“Apesar da Política Nacional de Resíduos Sólidos – PNRS ter dado um caráter profissionalizante para o processo de coleta seletiva dos resíduos — porque nós tínhamos um movimento muito amador —, nesses quatro anos pouco se fez para a profissionalização das pessoas que trabalham com o lixo”, adverteRodrigo Sabatini na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por telefone.

Na avaliação dele, os catadores, determinados pela PNRS como responsáveis pela coleta seletiva do lixo nos municípios brasileiros, ainda não foram “aparelhados” com tecnologias. “Eles precisam de instrução, de possibilidades. E sobre o aspecto humano da questão, digo que ninguém merece botar a mão no lixo de ninguém. É uma questão de humanidade, de dignidade. Uma pessoa que se sujeita a coletar lixo para sustentar outra é uma pessoa muito digna, mas uma sociedade que permite que alguém viva do seu lixo é uma sociedade indigna”, frisa.

Entre as metas da PNRS, estava a de erradicar os lixões até agosto deste ano, mas provavelmente ela não será cumprida, porque apenas “30% das prefeituras já entregaram seus planos”, informa. Segundo ele, apesar de a PNRS ser uma das legislações ambientais mais modernas do mundo, “o Brasil estava totalmente despreparado para a lei”.

Segundo ele, entre as dificuldades, há a falta de preparo dos municípios: “85% dos municípios brasileiros têm menos de 50 mil habitantes, então a infraestrutura é muito pequena. No caso dos municípios com uma população maior, são muito complexos para implementar a política em dois anos”.

Na avaliação de Sabatini, com o desenvolvimento da PNRS, a principal meta deve ser a de alcançar índice de lixo zero, a exemplo do que já fazem outras cidades, como São Francisco, na Califórnia, que “encaminha para o aterro apenas 18% de todo o lixo que produz, quer dizer, 82% dos resíduos da cidade são tratados, encaminhados e voltam para a cadeia produtiva”.

Rodrigo Sabatini é Engenheiro Civil formado pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. Atualmente é conselheiro do Instituto Lixo Zero Brasil e presidente da Novociclo Ambiental.

Confira a entrevista.
IHU On-Line – Como você avalia a falta de ação dos municípios frente à Política Nacional de Resíduos Sólidos, já que a maioria dos munícipios não tem Plano de Gestão?

segunda-feira, 12 de maio de 2014

“Lixões” desafiam Política Nacional de Resíduos Sólidos

11 DE MAIO DE 2014
Lixão da Estrutural em Brasília: situação crítica

Dois mil municípios ainda mantêm montanhas de detrito brutas. Prefeitos querem prorrogar sua existência. Entidade retruca: falta vontade política para extingui-los

No Ecod

O Brasil não deveria mais ter lixões a céu aberto em funcionamento a partir de 3 de agosto, conforme determinação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), em vigor desde 2010. Contudo, a três meses do prazo, a meta não deverá ser cumprida, pois ao menos 2 mil equipamentos desse tipo ainda recebem resíduos em todo o país, segundo estimativa da Confederação Nacional dos Municípios (CNM).

A CNM, inclusive, já pediu ao governo a prorrogação do prazo do Plano Nacional. Entre as cidades que não foram capazes de cumprir a meta nos últimos quatro anos, há três capitais: Porto Velho, Belém e o Distrito Federal. Um estudo feito pela Associação Brasileira de Limpeza Públicas e Resíduos Especiais (Abrelpe) mostra que 40% de todo o lixo produzido no Brasil têm destinação inadequada.

Como os lixões não têm tratamento ambiental, a decomposição dos resíduos sólidos contamina o solo e, consequentemente, lençóis subterrâneos de água. Além do vazamento do chorume, o lixo produz gases poluentes e facilita a reprodução de insetos transmissores de doenças.
A PNRS prevê que as cidades desenvolvam planos de gestão do lixo em que os catadores sejam incluídos de forma digna no sistema de coleta seletiva por meio de cooperativas. Prefeitos de municípios que não conseguiram se adaptar à lei federal temem entrar na mira do Ministério Público a partir de agosto. Eles podem ser processados por Crime Ambiental.

Prazo adiado?

Para evitar que isso ocorra, a CNM tem pedido para o governo federal adiar o prazo referente ao encerramento das atividades dos lixões, alegando que as cidades não tiveram tempo, nem receita suficiente para construir aterros sanitários e planos de coleta seletiva. O Ministério do Meio Ambiente, por sua vez, já sinalizou que não pretende mudar a data.

A situação mais crítica no país é do Lixão da Estrutural, em Brasília, o maior da América Latina, um terreno com o tamanho de 170 campos de futebol e uma montanha de lixo de 50 metros de altura onde cerca de 2 mil catadores de material reciclável trabalham 24 horas por dia.

Questão “secundária”

O governo do Distrito Federal pretende fechar o equipamento até o fim do ano, quando deve entrar em funcionamento um aterro sanitário em Samambaia, a 20 quilômetros da capital federal. Outros três aterros devem ser construídos em parceria com os governos de seis municípios vizinhos. Depois de ser fechado, o terreno terá que passar por um processo de recuperação. Duas propostas estão sendo estudadas. O custo deve variar entre R$ 300 milhões e R$ 420 milhões, em um trabalho que pode levar até 30 anos.

O diretor-presidente da Abrelpe, Carlos Silva Filho, concorda que a sociedade, em geral, está mais interessada em discutir temas relacionados à destinação adequada do lixo. Para ele, porém, os políticos demoraram a se dar conta da importância do tema: “Muitos administradores públicos têm a visão de que a questão dos resíduos sólidos é uma questão secundária.

Na visão deles, desativar um lixão e implementar a coleta seletiva não tem capital político, não traz voto, nem tira. E isso fica em segundo plano”, afirmou Silva Filho ao jornal O Globo. Ele cobra mais engajamento da sociedade. “A lei prevê avanços que devem ser conjugados entre indústrias, municípios e cidadãos. Se o cidadão produz menos lixo, separa o material, também ajuda.”

Belém, no Pará, é outra capital que chegará a agosto sem cumprir a meta da PNRS. Cerca de 1,6 mil catadores trabalham no Lixão do Aurá, que deve ter as portas fechadas dentro de um ano, segundo o secretário municipal de Saneamento, Luiz Otávio Mota Pereira: “Acho que antes da lei dos resíduos sólidos, muitos administradores estavam empurrando com a barriga e não se preocupavam com o assunto. Mas chega uma hora que temos que levar isso a sério. É o que estamos fazendo”, garantiu Pereira.

A prefeitura de Porto Velho, em Rondônia, também deve levar um ano para encerrar as atividades do Lixão da Capital, atualmente único local utilizado para destinação dos resíduos sólidos.

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terça-feira, 8 de abril de 2014

Para onde vai o lixo?

Política Nacional de Resíduos Sólidos prevê fechamento dos lixões até agosto, mas somente metade dos municípios brasileiros chegaram a elaborar seus planos de gestão de resíduos

Por Elisa Batalha, na Revista Radis, Número: 139, Abril/2014

É lei desde 2010. A partir de 3 agosto de 2014, não será permitido descartar lixo em vazadouros a céu aberto — os lixões — sob pena de multa. Segundo a Lei 12.305, que instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), o material reciclável deve ser coletado separadamente, e o que não tiver aproveitamento deve ser levado a aterros sanitários. Apesar da proximidade do prazo, grande parte dos municípios não elaborou o seu Plano de Gestão de Resíduos Sólidos, com soluções ambiental e socialmente adequadas para o problema do lixo. Conforme levantamento da Confederação Nacional dos Municípios (CNM), apenas 9% dos municípios haviam elaborado o plano até 2012, quando venceu o prazo dado pela lei para essa etapa. Segundo dados da última Pesquisa Nacional de Saneamento Básico, do IBGE, de 2008, o país conta com 2.906 lixões, onde o lixo é depositado sem tratamento, em 2.810 municípios, mais da metade do total de municípios do país. O problema é mais grave em cidades de pequeno porte e na Região Nordeste. “Estimamos que, hoje, 51% dos municípios tenham elaborado o plano, mas acredito que é extremamente difícil, especialmente para os municípios pequenos, cumprir o prazo de fechamento dos lixões”, diz o coordenador nacional da CNM, Valtenir Bruno Goldmeier. Segundo ele, a confederação encaminhou pedido de postergação do prazo de apresentação dos planos para até 2015.
O fechamento dos lixões é uma — a mais urgente — das medidas determinadas pela Política Nacional de Resíduos Sólidos (que tramitou por quase 20 anos no Congresso antes de ser sancionada). Ações como realização de coleta seletiva, responsabilização compartilhada de empresas, poder público e consumidores sobre o lixo produzido fazem parte da agenda (Radis 102). Segundo estimativas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplica (Ipea), de 2010, apenas 2,4% de todo o serviço de coleta de resíduos sólidos urbanos no Brasil são realizados de forma seletiva.

quarta-feira, 12 de março de 2014

A Água, o Lixo e a Vida! artigo de Geraldo Moisés Martins

“LOUVADO SEJAS, MEU SENHOR, PELA IRMÃ ÁGUA QUE É MUITO ÚTIL, PRECIOSA E CASTA!”
(Francisco de Assis, Cântico das Criaturas)

Vinte e dois de março!
Dia do mineral mais precioso do Planeta: A ÁGUA.

[EcoDebate] Podemos viver sem diamantes, mas jamais viveríamos sem a água. Cantareira está provando isso para os paulistas da capital. Temos somente um dia do ano para nos lembrar de que a água doce vem se tornando cada vez mais escassa e de pior qualidade. Principalmente para a maior parcela da população mundial, constituída por países e pessoas pobres. Mas a crise atinge também os ricos. Na verdade, todos os seres vegetais, animais e humanos estão com as suas vidas ameaçadas.

Lamentavelmente, para uma grande maioria de indivíduos esse problema não causa preocupação devido ao desconhecimento e à cegueira diante da realidade. Muitos outros têm consciência, mas por comodismo e omissão, preferem fechar os olhos e cruzar os braços. Por isso, todos nós, cristãos ou não, somos desafiados a tomar uma atitude firme e permanente em defesa da água, desde a sua formação, as suas nascentes, os seus cursos até o seu encontro com o mar.

Com esse objetivo, a Pastoral da Ecologia da Diocese da Campanha sugere um tema para reflexão e ação nesse dia: “A ÁGUA, O LIXO E A VIDA”!

Mas, o que o lixo tem a ver com a água? Muitíssimo, pois esses três elementos estão entrelaçados. Em especial, nos tempos atuais porque o modelo econômico em que vivemos tem por base o consumismo desenfreado que exige uma exploração, em escala avassaladora, dos bens que a natureza dispõe de forma limpa e harmônica. Esses bens, depois de utilizados, são devolvidos ao meio ambiente de forma contaminada, poluída e quase irrecuperável. Demoram dezenas e centenas de anos para a decomposição necessária ao retorno ao ciclo natural de renovação da vida. A natureza não produz lixo! Sua alarmante degradação é consequência desse consumo desenfreado e da quantidade de lixo produzido pelo atual modo de vida irracional e suicida dos humanos.

Ninguém nega que mais água e menos lixo é igual a mais vida saudável. Infelizmente, essa equação está invertida. A cada dia, temos mais lixo, menos água e piores condições de vida.

Será possível reverter esse processo destrutivo? Claro que sim! Mas não basta ter consciência desse drama! É preciso agir com determinação e urgência. Mas isso é muito mais difícil do que se possa imaginar. Há barreiras intransponíveis. Quem estaria, por exemplo, disposto a renunciar aos padrões apelativos e prazerosos do consumo supérfluo?

A inclusão do lixo nessa questão é necessária por estar na ordem do dia em todos os municípios que ainda não equacionaram o problema dos resíduos sólidos. Terão até agosto desse ano para dar uma destinação correta ao descarte do lixo urbano. Não dá mais para esperar e prorrogar uma solução que a natureza reclama há dezenas e dezenas de anos.

Existe, obviamente, a má vontade dos governos. Bastaria, por exemplo, um pequeno percentual do que se esbanjou ou está se esbanjando na farra das obras para a Copa para resolver as carências de saneamento em todos municípios em situação precária. O benefício seria patrioticamente maior que a conquista circense do título de hexacampeão mundial. O País estaria derrotando a vergonha da poluição dos solos, das águas e da atmosfera.

Também, muitas administrações municipais preferem priorizar a recuperação de ruas, praças, monumentos e obras eleitoreiras. Elas até podem ser importantes, mas não têm a mesma prioridade diante do quadro de emergência e de penúria medieval em se encontra o tratamento do lixo e do esgoto em muitas de nossas cidades.

A solução está numa pequena palavra: VONTADE! Basta a população querer, as lideranças civis, as organizações empresariais e religiosas apoiarem e os governos municipais cumprirem suas responsabilidades legais perante o bem comum.

É possível encontrar formas comunitárias e cooperativas de coleta seletiva, separando-se o lixo orgânico do lixo sólido (papel, vidros, metais, plásticos e outros). O primeiro para a compostagem e produção de fertilizantes e o segundo para a triagem do material reciclável. Alguns municípios mais comprometidos com a sustentabilidade já construíram boas soluções que geram empregos e trazem algum retorno para as prefeituras.

Mas o maior bem que essas iniciativas proporcionam é o de garantir uma vida saudável. Essa é a primeira condição para um viver feliz. Uma cidade suja e poluída será sempre uma cidade doente, infeliz e amarga.

Vê-se que os elos entre a água, o lixo e a vida são muito fortes. Tornar essa equação positiva é construir um município sustentável. Somente uma cidade limpa e saudável é uma “cidade feliz”! É o reconhecimento que se deseja para todas as cidades brasileiras.

Lambari, março de 2014

Geraldo Moisés Martins
Coordenador Diocesano da Pastoral da Ecologia
Diocese da Campanha

EcoDebate, 12/03/2014

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segunda-feira, 10 de março de 2014

A armadilha do PET 2 – Garrafas PET não são aprovadas para serem reutilizadas para bebidas, por Norbert Suchanek


[EcoDebate] O Carnaval acabou – o lixo e o problema da reciclagem de milhares de toneladas de plástico provenientes das fantasias, embalagens, sacos, copos e garrafas plásticas ficam. O meu artigo “A armadilha do PET”, originalmente publicado no portal EcoDebate e no Diário Liberdade algumas semanas antes do Carnaval, foi um grande sucesso. Ele atraiu milhares de leitores e fans e foi copiado em dezenas de sites do World Wide Web. Mas a temática Garrafa de PET não acaba com ele.

“Ar condicionado em minutos: faça o seu com garrafa PET”, “Luminária feita com garrafa PET“, “Tomateiro em garrafa PET“, “Coruja de garrafa PET”, “Palco de garrafas PET”, “Como fazer uma horta com garrafa PET”, “Prancha feita de garrafa PET”,… Milhares de websites e jornais com a bandeira “verde” ensinam milhares de possibilidades de reutilizar garrafas de PET. Mas o pior uso de uma garrafa de PET é reutilizá-la como garrafa para água ou outras bebidas. E o pior do pior é usá-la para bebidas alcoólicas, como a nossa tradicional cachaça. Garrafas de PET são em geral produzidas para serem utilizadas uma única vez, são garrafas descartáveis. Por isto o material só é aprovado para ser usado, no máximo, uma vez para bebida de consumo humano. Já o primeiro uso mostra um risco de contaminação com elementos químicos da produção de PET, um risco que as autoridades de vigilância sanitária e da saúde do país ainda acham mínimo ou desprezível.

Mas cada reutilização da garrafa com uma nova bebida aumenta o risco. Substâncias tóxicas como o plastificante no PET podem entrar no líquido e em seguida podem causar doenças, como o câncer. Especialmente quando o líquido está com um grau de álcool acelerado, como na cachaça, com uma média de 40 graus de álcool, o risco é ainda mais alto. Porque o álcool superior à 20% é mais agressivo e pode absorver os pequenos elementos tóxicos do plástico, como a substância orgânica Bisfenol-A (BPA), entre outras.

Para pessoas que gostam de uma boa cachaça de alambique de Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo ou do Nordeste, reutilizar garrafas de PET é uma maldição. Muitos pequenos produtores deixaram de colocar a pinga num garrafão de vidro em troca da mais barata e mais leve garrafa de plástico. Mas além de criar um risco à saúde do consumidor – beba com moderação! – o PET não é um material inerte como o vidro. PET comum tem um risco alto de alterar o sabor da bebida e na verdade estraga a cachaça.

Espero que este artigo chegue as mãos dos produtores de cachaça, para salvar este patrimônio brasileiro e seus consumidores.

Norbert Suchanek, Correspondente e Jornalista de Ciência e Ecologia, é colaborador internacional do EcoDebate.

EcoDebate, 10/03/2014
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quinta-feira, 6 de março de 2014