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sábado, 30 de julho de 2016

Avaliação da Embrapa aponta que integração lavoura-pecuária-floresta proporciona mais lucros

Sistema tem como base lavoura-pecuária-floresta. Instituto avaliou quatro unidades de referência tecnológica e econômica
Na Fazenda Dona Isabina (MT), para cada um real investido pelo proprietário no sistema integrado, no período de 2005 a 2012, o lucro foi de R$ 0,53. Foto: Bruno Lobato/Embrapa

O retorno do investimento feito pelos produtores que adotam sistemas integrados de produção como a integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) é maior do que daqueles que utilizam apenas a lavoura ou pecuária. O resultado foi identificado na Embrapa Agrossilvipastoril por meio da avaliação de quatro Unidades de Referência Tecnológica e Econômica (URTE) em Mato Grosso.

Na Fazenda Dona Isabina, em Santa Carmem (MT), por exemplo, para cada um real investido pelo proprietário no sistema integrado, no período de 2005 a 2012, o lucro foi de R$ 0,53. Já a fazenda modal da região, com agricultura exclusiva, nesse mesmo período teve um prejuízo de R$ 0,31 por real investido. O lucro anual de cada hectare na ILPF foi de R$ 230, muito superior ao prejuízo anual médio de R$ 116 da sucessão soja e milho.

Trabalhando com ILPF, a Fazenda Brasil, em Barra do Garças (MT), também obteve resultados superiores aos da fazenda modal da região, com retorno de R$ 0,89 por real investido contra R$ 0,35 registrados na propriedade de comparação.

De acordo com Júlio, os dados avaliados mostram que a ILPF tem todas as condições de ser lucrativa, mas também reforçam a necessidade de planejamento e organização para tomar as decisões mais corretas no momento certo.

“Olhando nossos resultados é bem evidente que vale a pena adotar a ILPF. Mas é preciso ter muito claro que é um sistema que só apresenta resultados se o produtor tiver um nível de planejamento e organização muito grande. Se por um lado o sistema mostra um nível de retorno, receita e comportamento mais estável no tempo, isso é em decorrência do desempenho do produtor. Saber negociar no momento correto e entender as dinâmicas dos preços são questões fundamentais”, analisa o pesquisador da Embrapa.

A comprovação da importância da conjuntura para o resultado final está nos dados obtidos na Fazenda Certeza, em Querência, no leste do estado. A propriedade também trabalha com integração lavoura-pecuária e teve os resultados econômicos de 2008 a 2012 analisados. Naquele período, o mercado da soja já havia se recuperado, sobretudo com o estabelecimento da China como grande compradora do grão. Com isso, a fazenda modal de agricultura obteve resultados melhores do que a ILP. Mesmo assim, o sistema integrado ainda se mostrou viável.

Indicadores de rentabilidade

Mesmo levando-se em consideração as características de cada fazenda avaliada, todas as propriedades com alguma configuração de produção integrada tiveram resultados positivos. A maior parte delas, inclusive, supera com grande margem as áreas modais com as quais foram comparadas.

Para que seja possível comparar resultados de fazendas tão distintas, a equipe do projeto –composta por pesquisadores da Embrapa, professores e alunos da Universidade do Estado do Mato Grosso (Unemat), analistas do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) e da Rede de Fomento Integração Lavoura-Pecuária-Floresta – padronizou uma metodologia de análise de custos. Com esse método, é possível chegar a indicadores que auxiliam o produtor a visualizar os benefícios econômicos da ILPF.

Fonte: Portal Brasil, com informações do Ministério da Agricultura.

in EcoDebate, 25/07/2016

sábado, 25 de junho de 2016

Integração Lavoura Pecuária Floresta (iLPF): Tecnologia da Embrapa evita desmatamento de novas áreas para produção

“A tecnologia é capaz de dobrar a produtividade, quintuplicar a produção de pecuária sem alteração de custo e sem abertura de novas fronteiras agrícolas”, diz pesquisador da Embrapa. Foto: Divulgação Embrapa/ Breno Lobaro

A tecnologia aplicada na agricultura tem permitido que em uma mesma área sistemas integrados produzam até quatro safras por ano. Desenvolvido pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), os sistemas de integração envolvem a produção de grãos, fibras, madeira, energia, leite ou carne, em plantios em rotação, consorciação e/ou sucessão.

Tratada como a “revolução dos trópicos”, por um de seus criadores, o pesquisador da Embrapa Cerrados João Kluthcouski, a técnica funciona basicamente com o plantio, durante o verão, de culturas agrícolas anuais como arroz, feijão, milho, soja ou sorgo e de árvores, associado a espécies forrageiras (braquiária ou panicum). As combinações são variadas entre os componentes agrícola, pecuário e florestal e levam em consideração espaço e tempo disponíveis.

“Essa é a maior revolução dos trópicos, do cinturão tropical do mundo todo. Porque ela não é uma simples tecnologia, é um complexo tecnológico de fácil aplicação e entendimento, que permite recuperar áreas degradadas com alta sustentabilidade. Este é o sistema de integração: recuperação de áreas degradas, produção sustentável, quatro colheitas por ano que dependem apenas de chuva”, explica João Kluthcouski, conhecido como João K.

Ao integrar as atividades, evita a necessidade de desmatamento de novas áreas para o aumento da produção. A tecnologia resulta em diferentes sistemas integrados, como lavoura-pecuária-floresta (iLPF), lavoura-pecuária (iLP), silvipastoril (SSP) ou agroflorestais (SAF). A técnica de integração aceita todas as espécies vegetais, em áreas de a partir de 1 hectare de terra.

“A tecnologia é capaz de dobrar a produtividade, quintuplicar a produção de pecuária sem alteração de custo e sem abertura de novas fronteiras agrícolas”, disse João K.

O pesquisador foi o idealizador da implementação da tecnologia na Fazenda Santa Brígida, localizada em Ipameri (GO), a 200 km de Goiânia. Na ocasião, a proprietária Marize Porto Costa acabara de ficar viúva e a fazenda, até então administrada por seu marido, estava com dificuldades de manutenção.

“Quando nós assumimos a gestão da fazenda Santa Brígida em 2006, nós nos deparamos com pastos totalmente degradados, infestados de cupim e que não davam suporte para os animais que estavam aqui [na fazenda]. Quando fizemos o levantamento para ver quanto ficaria para recuperar esse espaço, nós vimos que da forma convencional era impossível fazer isso aí, era uma coisa cara e com retorno de logo prazo”, conta Marize, ao descrever o cenário da fazenda antes de procurar apoio técnico da Embrapa.

Visitada pela Agência Brasil*, a fazenda atua no sistema de integração lavoura-pecuária-floresta, com produção de gado, soja, milho, girassol e eucaliptos. Antes do sistema, a produção era de duas e meia arroba por hectare/ano. Atualmente, são 25 arrobas por hectare/ano. Com relação à soja, no começo, houve um empate de produção para uma evolução de 65 sacos por hectare/ano. A produção de milho, que era 90 sacos por hectare passou para projeção de 185 a 190 sacos por hectare.

Pecuária

Segundo o presidente da Embrapa, Maurício Lopes, o sistema representa um “novo paradigma de produção” da agricultura e pecuária brasileiras. A estatal trabalha no desenvolvimento de métricas que permitirão, ao associar a tecnologia de integração, o rastreamento da produção e a certificação da carne brasileira, em um sistema de chamado “Carbono Zero”.

Quando se cria uma métrica e um processo de rastreabilidade para a carne inserida num processo como esse, onde se tem soja, milho, árvore, pasto, o que acontece é que o sistema faz um ‘off-set‘ da emissão de metano. A Embrapa já tem dados seguros mostrando que é perfeitamente possível, quando se computa o carbono, que é incorporado pela pastagem, pelas lavouras”, explica Lopes.

Lopes ressalta que o desafio do sistema é a falta de informações do produtor rural e o estímulo para adoção do sistema. Segundo o presidente, a estatal tem atuado na adaptação de modelos para média e pequena propriedade. Nestes casos, as possibilidades de integração são mais diversificadas, mas ainda desconhecidas por parte dos agricultores.

“Com este sistema, nós estamos mudando o conceito tradicional de sustentabilidade, que era o seguinte: use os recursos naturais de forma inteligente, segura e garanta que ele esteja bom para os seus filhos. Nós estamos trabalhando um outro conceito de sustentabilidade, vamos entregar um produto muito melhor para os nossos filhos. A gente está construindo estoques de carbono no solo”, afirma Lopes.

Segurança alimentar

Segundo Maurício Lopes, os sistemas integrados diminuem a necessidade do uso de agrotóxicos na produção e atuam em variações de clima e temperatura de maneira mais segura.

“Sistemas integrados em oposição a sistemas únicos ou uso massivo de uma espécie só, eles são sistemas naturalmente mais resilientes. Esses sistemas mantém uma vida biológica extremamente mais diversificada, isso facilita por exemplo, abrigo para inimigos naturais de pragas, o que não se encontra, geralmente, em grandes culturas. Você elimina o abrigo para aqueles que seriam os inimigos naturais das pragas. Quando se tem um sistema mais diversificado, aumenta a probabilidade de você ter abrigo e proteção para inimigos naturais”, explica Lopes.

Rede de Fomento

Paulo Herrmann, presidente da empresa de máquinas agrícolas John Deere Brasil e da Rede de Fomento à Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (iLPF) explica que a tecnologia integra produção e preservação da natureza.

Do ponto de vista ambiental, ela é um avanço no que nós temos hoje, porque se tem sempre o solo coberto, sempre há vegetação, vai ter menos emissões de carbono o tempo todo, menos aquecimento global. Se consegue produzir a mesma quantidade de elementos, de produtos, que você faria num sistema convencional, numa área seis vezes menor, com 55% menos emissões [de gases]”, aponta.

Hermann destaca o benefício social da tecnologia. “Como se trata de uma atividade mais intensa, se passa a ter uma atividade ao longo do ano e isso fixa mão de obra, gera mais emprego porque é mais intensiva, tem que ter mais gente especializada para trabalhar com máquina, com a parte de gado”.

O presidente da rede de fomento ressalta a mudança de paradigma como obstáculo para o uso da tecnologia no país. “A maior dificuldade é a quebra de paradigma, não é a dificuldade da pessoa em fazer. É ela colocar na cabeça que pode plantar duas coisas ao mesmo tempo sem ter prejuízo de produtividade. De uma maneira geral, não estamos preparados para esse tipo intensivo de trabalho”.

A Rede de Fomento ILPF foi criada em 2012, composta por uma parceria entre Embrapa e as empresas Cocamar, Dow AgroScience, John Deere, Parker, Syngenta. Atualmente, há 97 unidades de referencia Tecnológica distribuídas em todos os biomas brasileiros, que envolve a participação de 19 Unidades de Pesquisa da Embrapa para disseminar informações sobre a tecnologia.

*A repórter viajou a convite da John Deere Brasil 

Por Heloisa Cristaldo, da Agência Brasil, in EcoDebate, 21/06/2016

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Integração lavoura, pecuária e floresta, artigo de Roberto Naime

ILPF (Integração Lavoura-Pecuária-Floresta) . Foto: Embrapa

[EcoDebate] Numa primeira abordagem se conceitua atividades que integram lavoura, pecuária e florestamento como uma integração fundamental para a recuperação de áreas degradadas, pastagens enfraquecidas e solos empobrecidos. Mas é muito mais que isso. A sinergia propiciada pela integração dos diferentes ambientes produtivos, permite reestabelecer o equilíbrio homeostático natural, além de propiciar a produção de grãos, fibras, carne, leite e até a geração de agroenergia.

De imediato ocorre a melhoria dos solos, recuperados fisicamente e novamente enriquecidos com nutrientes fundamentais para a composição vegetal. A criação conta com melhores pastagens e o florestamento permite harmonizar as atividades. Sem falar que a produção diversificada, minimiza os riscos com eventos climáticos ou determinações de preço por fatores de mercado não previsíveis.

A integração entre estes vários elementos, tende a reduzir as necessidades de aplicação de agroquímicos, pois as fezes de animais recompõe os nutrientes que os solos necessitam, evitando a necessidade de abertura de novas áreas para extração pecuária de qualquer natureza, pois espaços para criação de animais de médio e grande porte são garantidos. As técnicas e sistemas de integração são extremamente variados (MACEDO, 2.009), mas sempre tendem a possibilitar melhor manejo da propriedade rural pela integração e complementariedade das atividades e aumento da biodiversidade.

Também os controles erosivos são beneficiados pela adoção de técnicas de plantio direto que protegem os solos da ação erosiva da água da chuva agindo diretamente sobre as partículas do terreno. Em sistemas que associam práticas conservacionistas com plantio direto, os sistemas de integração entre lavoura, pecuária e floresta são uma alternativa muito viável tanto em termos econômicos como sociais e ambientais, cumprindo as determinantes vetoriais da sustentabilidade.

Inegavelmente sustentabilidade é um tema atual e que veio para ficar. O Brasil tem passado por um grande ciclo de evolução no agronegócio e na agricultura familiar também, de forma que os produtos gerados no chamado “campo” tem grande importância hoje em todos os tipos de indicadores que se considere.

O agronegócio provê também atividades do mercado interno, mas hoje é grandemente associado a atividades de exportação, enquanto a agricultura familiar é mais relacionada com abastecimento interno. Mas independentemente da fonte geradora, ocorre no país além de elevação das exportações de grãos e proteínas animais, o aumento na oferta de alimentos com melhor qualidade e menor preço. Embora a segurança alimentar ainda esteja muito associada a renda da população.

No entanto, conforme assevera MACEDO (2.009), os gastos com excessivo preparo do solo e a prática de monoculturas e a degradação das áreas de pastagens são caracterizados. Já se falou que a resistência dos ecossistemas equivale ao somatório da resistência de suas espécies componentes, vegetais e animais. Ou seja, a reprodução do meio natural original. É como se fossem os elos constituintes de uma corrente. Não adianta todos serem de material resistente, se um elo é formado de material vulnerável. Neste elo arrebenta a corrente. Assim são os frágeis e muito vulneráveis, ecossistemas naturais.

Fazendo uma aliteração quase poética, os bons sistemas naturais são constituídos por todos os elementos vegetais e animais adaptados. Cachorro, gato, avenca, samambaia, boi, galinha, papagaio e mais tudo que se imaginar. A resistência de um elemento se transfere ao sistema e protege o conjunto. Os primitivos indígenas já sabiam isto. Por isso cultivavam pequenas hortas com todas as espécies misturadas. E por isto também, como destaca MACEDO (2.009), sistemas contínuos com monoculturas, aumentam a ocorrência de pragas e doenças, tais como percevejo castanho, nematoides ou ferrugem da soja. O mesmo autor destaca que a reversão deste cenário pode ser obtida pela implantação de técnicas de plantio direto associadas à rotação de culturas em sistemas de integração de lavoura com pecuária e porque não dizer, também com florestas.

As adequadas abordagens técnicas, como a realizada por MACEDO (2.009) que argumenta corretamente que as condições climáticas e edáficas tem que serem compatibilizadas com os tipos de palhadas remanescentes nos solos para obtenção da plenitude das condições de produção, não invalidam o fato de que está se tornando cada vez mais urgente a preocupação com a necessária reconstituição dos “habitats” naturais e a manutenção plena das condições de biodiversidade para a própria recomposição do equilíbrio dos biomas.

Várias culturas tem sido utilizadas dentro da integração e inúmeros sistemas são detalhadamente descritos (MACEDO, 2.009) sendo referidas a soja, o milho, o milheto, o sorgo, o nabo forrageiro, o girassol e também algodão e diversas espécies de gramíneas forrageiras tropicais, se destacando as braquiárias, consorciadas ou não.

Os sistemas de integração possibilitam em muito a melhoria das condições ecossistêmicas, além de produção integrada. Os sistemas integrados possibilitam também a plena recuperação e manutenção das condições dos solos, tanto em termos físicos, quanto químicos e biológicos. Todo este conjunto melhora as condições de equilíbrio, a ocupação das populações e por consequência, melhora as condições de renda.

Se tem consciência que estas modificações de grande alcance não ocorrem da noite para o dia. Mas é preciso planejar e ir alterando esta realidade, para que se possa no futuro ter melhor qualidade ambiental e possibilitar melhor qualidade de vida para todos os agentes populacionais envolvidos.

MACEDO, M. C. M. Integração lavoura e pecuária: o estado da arte e inovações tecnológicas R. Bras. Zootec., v.38, p.133-146, 2009

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Celebração da vida [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

in EcoDebate, 13/08/2015
"Integração lavoura, pecuária e floresta, artigo de Roberto Naime," in Portal EcoDebate, 13/08/2015, http://www.ecodebate.com.br/2015/08/13/integracao-lavoura-pecuaria-e-floresta-artigo-de-roberto-naime/.

* Saiba mais sobre Integração Lavoura Pecuária Floresta (ILPF) clicando aqui

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Pastoreio Voisin – Informações x contrainformações, artigo de Jurandir Melado

Publicado em junho 4, 2015 por Redação


Em 2007 publiquei em site ambientalista artigo sobre pastagens sustentáveis (Ver Link). Relatava meu primeiro encontro com o Pastoreio Voisin ainda como estudante de Agronomia na Universidade Federal de Viçosa. Falava da aplicação dos ensinamentos de Voisin na Fazenda Ecológica em Nossa Senhora do Livramento MT. Os pastos, implantados sobre cerrados intactos, sem derrubadas, sem queimadas, sem arações, evoluíram para o que convencionei denominar “Pastagem Ecológica”. Vislumbrei largo e promissor caminho para a pecuária brasileira nas regiões tropicais. Englobado no conceito de produção sustentável, defendido por cientistas sérios e independentes e a sociedade civil em quase todos os países, esta experiência se consolidou. A produção sustentável, que na pecuária começa pelo manejo racional das pastagens, faz parte de programas de governo como estratégia de lucratividade de pequenos e grandes produtores e é fator decisivo nos esforços para mitigar e até zerar os Gases de Efeito Estufa. Pastagens só podem ser correta e racionalmente manejadas se forem seguidas as Quatro Leis enunciadas por Voisin, conforme atestam pecuaristas em todos os estados brasileiros e todos os países do continente, que trabalham com bovinos e búfalos de carne e leite, ovinos e caprinos nas mais diversas condições de clima e solo.

Desmistificando conceitos:

É comum, porém encontrarmos declarações atribuídas a técnicos (até mesmo entre os mais graduados), que demonstram sua ignorância sobre os fundamentos do Pastoreio Voisin e a falta de experiência própria com o sistema. Alguns dizem ainda que o Sistema Voisin está obsoleto ou que o mesmo se aplica apenas a casos específicos…

Estas críticas geralmente partem de quem jamais estudou, pesquisou ou aplicou na prática o sistema formalizado pelo Voisin. É o mesmo que digo sobre comer peixe cru:“não provei e não gostei”…

Fiquei muito feliz pela “Escolha do Leitor” da Revista AG, por uma matéria sobre Pastoreio Voisin e lisonjeado pelo convite do seu Editor para escrever o artigo… Mas também fiquei em um dilema: o que escrever que já não tenha sido exaustivamente explorado em artigos e reportagens anteriores? Optei então por não sobrecarregar o leitor com aspectos técnicos já publicados em inúmeros artigos (Veja abaixo links para alguns artigos), me restringindo a informações nem sempre encontradas de forma clara nos artigos técnicos…

Para orientar o leitor, gostaria de listar algumas generalidades sobre o Pastoreio Voisin:

O Pastoreio Voisin é regido pelas “4 leis universais do Pastoreio Racional” formuladas por André Voisin: Lei do repouso, Lei da ocupação, Lei da Ajuda e Lei dos Rendimentos Regulares. Estas leis podem ser facilmente encontradas em qualquer livro ou bom artigo técnico sobre o Pastoreio Voisin.

No PV uma recomendação básica (tema da 1ª lei) é sobre a necessidade de descansos variáveis das pastagens. O PV não pode, portanto ser confundido com o Pastoreio Rotativo Simples, com períodos fixos de descanso!

O Pastoreio Voisin recomenda que o período de ocupação de uma parcela (tema da 2ª lei) seja o menor possível. Ou seja, recomenda a maior intensificação possível: (maior número possível de animais, na menor parcela possível, pelo menor tempo possível)! São inúmeras e tão verdadeiramente incríveis as vantagens da intensificação, que este tema poderia ser objeto de um artigo exclusivo!

Não é possível com um número reduzido de parcelas se atenderem simultaneamente as duas primeiras leis universais, ou seja: período de repouso conveniente, com curtos períodos de ocupação. Então, quanto maior número de parcelas melhor! Não menos que 40 parcelas para cada módulo de pastoreio.

Com o uso de cercas elétricas móveis, podemos transformar um número relativamente reduzido de piquetes em grande número parcelas…

O PV é aplicável em qualquer escala. Podemos ter em manejo Voisin desde um lote com pouquíssimos animais até grandes lotes. Tudo depende da arquitetura e escala do projeto;

Adubar ou não Adubar as pastagens. O Pastoreio Voisin não proíbe a adubação das pastagens. Apenas afirma que em grande parte dos casos, a adubação química é desnecessária, em função da “parcagem”, ou seja, da adubação pela deposição concentrada dos dejetos do próprio gado, que estimula o desenvolvimento da “biocenose” (vida do solo) que atua na decomposição de restos vegetais e na disponibilização de nutrientes antes indisponíveis no solo. Devemos sempre lembrar que parte da mineralização e/ou suplementação dos animais é devolvida ao solo através dos dejetos. Ou seja, estamos permanentemente “adubando” indiretamente as pastagens através da mineralização do gado!

Adubos altamente solúveis (Ureia, p. ex.) devem ser evitados por que terem efeito danoso sobre a microvida do solo. Na realidade a adubação altamente solúvel é uma “injeção na veia da planta”, que não tem efeito na melhoria do solo, o que deve ser uma preocupação permanente nossa.

A utilização de estacas vivas de Gliricidia sepium (leguminosa arbórea) nas cercas dos projetos traz inúmeras vantagens: substitui uma estaca que seria comprada; promove sombra para o gado; incorpora ao solo o N atmosférico; as folhas e ramos servem de suplemento alimentar para o gado na época de escassez.

Estratégias para compensação das variações estacionais. No manejo Voisin, deve-se ter sempre em mente a grande diferença na produção de forragem nos períodos de chuva e de seca. Temos que prever estratégias para compensar esta variação. As principais armas são: diferimento de piquetes para uso na seca, o uso de feno e silagem e a utilização de “bancos mistos de forrageiras”, que formados com diversas espécies forrageiras para corte, substituem com vantagem as usuais “capineiras” com monocultura de capim elefante ou cana.

Curso de Manejo Sustentável de Pastagens: o que evitar, o que fazer, porque fazer e como fazer.

Ao longo de um período de 15 anos de consultoria a programas voltados para o desenvolvimento sustentável e a conservação do Meio Ambiente, desenvolvemos um “Curso de Capacitação em Manejo Sustentável de Pastagens” voltado para técnicos e produtores. Esse curso se tornou a principal estratégia para a divulgação do Manejo de Pastagem Ecológica – Sistema Voisin Silvipastoril o que considero a “missão de vida”. O conteúdo do curso é dividido para melhor compreensão em 4 partes:

O que evitar ou substituir na pecuária convencional: São apresentados os procedimentos convencionais que são prejudiciais às pastagens como p.ex. o uso do fogo, e o manejo com pastoreio contínuo;

O que fazer: Nesta parte são apresentados os conceitos e procedimentos do Pastoreio Voisin e do Manejo de Pastagem Ecológica, que são as tecnologias que mais favorecem o Manejo Sustentável das Pastagens;

Porque fazer: São mostrados e discutidos nesta parte as principais vantagens e resultados técnicos, ambientais e econômicos obtidos com a aplicação das tecnologias recomendadas;

Como fazer: Para ser completo, um curso de capacitação tem que também mostrar “como fazer” o que se é ensinado… Nesta parte do curso, iminentemente prática, é mostrado e ensinado como se implanta na pratica um projeto de manejo sustentável de pastagem com o uso da “Cerca Elétrica padrão Fazenda Ecológica”. São utilizadas ferramentas exclusivas e demonstrado na prática a confecção de peças artesanais, que substituem com vantagens funcionais e econômicas algumas onerosas peças fabricadas pela indústria.

O Pastoreio Voisin favorece e estimula a cooperação.

O Pastoreio Voisin estimula a cooperação entre todos os fatores envolvidos. Com o PV se consegue um equilíbrio dinâmico positivo entre o solo, a pastagem e o gado, com cada fator exercendo um efeito positivo sobre os outros dois. Costumo dizer que com o Pastoreio Voisin convertemos o gado de elemento predador a colaborador do meio ambiente… Ou seja: o bandido do filme é convertido em mocinho!

Esta cooperação reflete também entre os estudiosos e simpatizantes do Pastoreio Voisin, entre os quais a disposição para parcerias e a cooperação é a ordem geral.

Aproveitando esta deixa, registro algumas declarações sobre o Pastoreio Voisin, de colegas que contam com minha admiração e respeito:

Em comunicação recente por e-mail, o André Sorio (Eng. agrônomo e consultor voisinista de grande sucesso) se referia assim ao Pastoreio Voisin: ”O consumidor moderno exige, além de um produto com alta qualidade intrínseca, também responsabilidade social e ambiental no processo produtivo. Assim, o Pastoreio Voisin se apresenta como o modo de produção intensiva que é capaz de fornecer a carne que este consumidor almeja – respeito às peculiaridades do ecossistema de pastagens, maior rentabilidade ao pecuarista e menor dependência de insumos externos à propriedade. É o manejo ecológico das pastagens, com alto desempenho produtivo e econômico. Por estes motivos, a adoção do sistema é crescente, tendo se intensificado fortemente em anos recentes.”

Há muitos anos, durante visita à Fazenda Ecológica, Jean Dubois (Eng. Florestal, fundador da REBRAF – Rede Brasileira Agroflorestal e autor do “Manual Agroflorestal para a Amazônica”) usou pela primeira vez a expressão “Sistema Voisin Silvipastoril”para se referir à Pastagem Ecológica, contribuindo assim para a nomenclatura usada a partir daí: Manejo de Pastagem Ecológica – Sistema Voisin Silvipastoril.

Nilo Ferreira Romero, Eng. Agrônomo e produtor rural de Bagé RS, pioneiro na implantação do Pastoreio Voisin no Brasil, lúcido com seus 92 anos de idade, em e-mail recente fala sobre o meio século de Pastoreio Voisin na Fazenda Conquista “sempre com muito êxito” de 1963 até os dias de hoje. Menciona também os milhares de visitantes anuais, de diversas partes do mundo, que vieram conhecer o projeto Voisin pioneiro, deixando registradas suas declarações impressionadas nos inúmeros livros de visita. O Projeto Voisin da Fazenda Conquista, registra uma média histórica de 300 kg/ha/ano de ganho de peso vivo dos animais em engorda, quando nos campos no entorno da Fazenda, manejados convencionalmente, se alcança resultados médios de apenas 70 kg/ha/ano.

Humberto Sorio Junior é um colega muito querido o qual considero o principal consultor de Pastoreio Voisin existente. Recentemente o Humberto foi finalista doPrêmio Consultor – Profissional de Campo do Beef Summit Sul 2014 e concedeu uma entrevista ao site BeefPoint com a seguinte conclusão:

“BeefPoint: Qual seu recado para os pecuaristas?

Humberto Sorio: A pecuária é atividade rentável e ecologicamente sustentável em todas as regiões brasileiras. Pois, para dobrar e até triplicar seus rebanhos não há necessidade de desmatamentos e incorporações de novas áreas de pastagens, mas sim em utilizá-las de forma intensiva e racional, como já atestam milhares de projetos de pastoreio Voisin em curso no Brasil, nas mais variadas condições de clima, solo e espécies de pastos.

Recomendações básicas: planejem e administrem melhor suas fazendas, tracem metas viáveis e progressivas, gastem tempo e recursos para treinar sua mão de obra, vinculem-se estreitamente com eficiente assistência e nunca a dispensem, porque é o insumo mais barato e de maior retorno econômico.”

A integra da entrevista poderá ser encontrada na internet no linK:


Manejo de Pastagem Ecológica – Sistema Voisin Silvipastoril: uma evolução do Pastoreio Voisin.

Tenho afirmado que o Pastoreio Racional Voisin é o mais perfeito sistema de manejo de herbívoros a campo. E também que qualquer sistema que apresentasse melhores resultados que o PV, deveria ser fatalmente uma aplicação ou aperfeiçoamento deste. É assim que considero o MPE – Sistema Voisin Silvipastoril.

O Manejo de Pastagem Ecológica pode ser assim formalizado:

Manejo de pastagens em qualquer região onde se verifique:

Diversificação de forrageiras;

Arborização adequada;

Manejo segundo os preceitos do Pastoreio Voisin;

Exclusão de alguns procedimentos considerados prejudiciais, como:

Manejo com fogo,

Adubação com adubos altamente solúveis;

Roçadas sistemáticas.

A experiência tem mostrado que uma pastagem qualquer pode ser convertida em uma Pastagem Ecológica no curso de poucos anos, com aplicação dos conceitos acima.

Links para artigos sobre Pastoreio Voisin na Internet;

Artigo: Pastoreio Voisin e Pastagem Ecológica: bases para uma pecuária sustentável – Jurandir Melado: http://www.fazendaecologica.com.br/www/lt_produto/lt_view.asp?id_lt_produto=27 ;

Pastagem Ecológica e Serviços Ambientais da Pecuária Sustentável – Jurandir Melado (Revista Brasileira de Agroecologia):

Sustentabilidade nos sistemas de produção de bovinos – Visão administrativa sobre o método Voisin – André Sorio:

Pastagens Sustentáveis: um sonho possível – Jurandir Melado:

(*) Jurandir Melado é Eng. Agrônomo, Professor aposentado da UFMT, consultor e autor de livros e artigos sobre Manejo Sustentável de Pastagens.


Fotografias relacionadas:
Área recuperada na Fazenda Ecológica: Antes e depois do Manejo de Pastagem Ecológica
Gado em Pastoreio Voisin na Pastagem Ecológica – Fazenda Ecológica – MT

Publicado no Portal EcoDebate, 04/06/2015
"Pastoreio Voisin – Informações x contrainformações, artigo de Jurandir Melado," in Portal EcoDebate, 4/06/2015, http://www.ecodebate.com.br/2015/06/04/pastoreio-voisin-informacoes-x-contrainformacoes-artigo-de-jurandir-melado/.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Manejo de Pastagem Ecológica e a produção de água, artigo de Jurandir Melado

Manejo de Pastagem Ecológica e a produção de água.

(*) Jurandir Melado

[EcoDebate] Como os pecuaristas podem contribuir na produção de água e de passagem recuperar e aumentar a produtividade das pastagens, melhorar a saúde e bem-estar dos animais e se livrar da pecha de inimigos do Meio Ambiente.

O verão 2014-2015 provavelmente ficará marcado como o período em que a consciência da população brasileira despertou definitivamente para necessidade de se tratar com mais seriedade a questão da água.

Quase que diariamente aparecia no noticiário a crise hídrica da maior cidade do país onde, parecendo capítulos de uma novela de suspense, era divulgado o nível cada vez mais baixo dos reservatórios do Sistema Cantareira, principal abastecedor de água da cidade de São Paulo. Com o início da utilização dos “volumes mortos” – reservas existentes abaixo do nível normal de captação dos reservatórios -, a preocupação só aumentou. O que fazer para se evitar um possível colapso do abastecimento d´água, com todas as suas terríveis consequências?

A imprensa tem dado ênfase às inúmeras medidas e atitudes oficiais e da população que podem contribuir para diminuir o problema. Melhorias nos sistemas de captação, tratamento e distribuição da água tratada é tema constante. E não sem razão, já que historicamente no Brasil cerca de 30 % da água tratada se perde antes que tenha o seu uso previsto. Outro ponto de aceitação pacífica é a necessidade de racionalização do uso da água, em todos os setores da sociedade, com mudanças de atitude visando formas mais eficientes de uso da água e exclusão de hábitos perdulários. A armazenagem e utilização da água das chuvas, o reuso das águas servidas nas residências e empresas e o tratamento do esgoto prevendo o reuso da água são também alternativas bastante discutidas.

Pouco se fala, porém de uma coisa que considero da maior importância: a produção de água. Sabemos que a produção de água é afetada por inúmeros fatores que vão desde consequências do aquecimento global a períodos cíclicos de seca ou diminuição do índice de chuvas em determinadas regiões causadas seja por fenômenos naturais ou atitudes equivocadas da “civilização moderna”.

O problema da falta d’água às vezes se apresenta de forma tão grave e generalizada – como tem ocorrido nos últimos tempos -, que alguns até acham que a única alternativa é rezar e rogar à divindade pela solução…

Devemos sim, “rezar” pela solução do problema, mas com atitudes concretas que contribuam. E existem atitudes que a nível local e regional podem contribuir muito para a uma melhor produção de água. Estou convencido de que a melhor atitude possível é buscar uma melhor cobertura vegetal do solo, adotando-se práticas agrícolas que contribuam para isto.

Qualquer pessoa com mais de 60 anos, com conhecimento da área rural, há de se lembrar como os córregos e rios que conheceu na sua infância e juventude eram mais caudalosos… Alguns que não tiveram o privilégio de presenciar pessoalmente devem ter ouvido de algum parente mais velho, “causos” que relatam quanta água tinham os rios que conhecemos, alguns deles hoje em estágio agonizante… Eu gostava muito de ouvir de meu saudoso pai, histórias de quando ele era rapaz e foi canoeiro em Itapina, distrito de Colatina ES, levando de um lado para outro do “imenso” Rio Doce, em sua canoa, a carga e os arreios das “tropas” de mulas enquanto os tropeiros as faziam passar a nado para o outro lado… Hoje em muitos lugares, o antigo majestoso Rio Doce permite que seja atravessado à pé.

Ainda sobre o Rio Doce, eu já tinha escrito este artigo até este ponto, quando participei em 11/03/15 no auditório da Rede Gazeta em Vitória ES, do Fórum SOS Rio Doce que teve a finalidade de divulgar o “Projeto Olhos d’água”, do Instituto Terra, uma organização criada em Aimorés MG pelo casal Sebastião Salgado e Lélia Wanick(www.institutoterra.org). O Sebastião Salgado dispensa apresentações, pois ele é simplesmente o mais famoso fotógrafo, com reportagens fotográficas realizadas em 150 países… Já o Projeto Olhos d´água, é ao mesmo tempo simples e extremamente ambicioso. Utilizando práticas pouco onerosas e de simples aplicação, o projeto tem o objetivo de recuperar e proteger TODAS as nascentes do Rio Doce. Este projeto iniciado há 5 anos, que já recuperou cerca de 1000 nascentes, apoia principalmente duas ações muito simples: cercar a área de CADA UMA das nascentes, para evitar que o gado contamine a água e compacte o solo e reflorestar a área entorno das nascentes, para ajudar a reter e manter a umidade e, também instalar fossas sépticas nas residências de TODAS propriedades rurais para evitar a contaminação do solo e da água pelos dejetos humanos.

Na sua fala o Sebastião enfatizou, como também já afirmei no início do artigo, a necessidade de que haja uma boa cobertura do solo, para manter a umidade. E fez uma divertida analogia com sua conhecida “deficiência capilar”: se ele e uma pessoa com bastante cabelo molhassem a cabeça, qual secaria primeiro? A sua ou a do cabeludo?

Agora voltando ao que realmente nos interessa, em que situação teremos maior absorção e retenção da umidade (água das chuvas): um solo degradado, com rala cobertura vegetal ou um solo com excelente cobertura vegetal, em 3 estratos: o rasteiro, o arbustivo e o arbóreo?
Pastagem degradada em pastoreio convencional no Sul do Espírito Santo: a situação mais comum! 

Pastagem em Pastoreio Voisin – Fazenda P.U. de João R. de Arruda Sampaio – Urutaí – Goiás


A pergunta que eu faria ao Sebastião Salgado é a seguinte: não seria também muito interessante, se fosse possível, que além da proteção e recuperação das nascentes, promover também a recuperação das pastagens degradadas, que na maior parte dos casos, é o ambiente que fica no entorno das nascentes? Aumentando assim a absorção das águas das chuvas e sua retenção no solo, abastecendo os lençóis freáticos que alimentam as nascentes?

A resposta seria provavelmente um sonoro e retumbante SIM! Mas como fazer isto se as técnicas normalmente recomendadas para a recuperação de pastagens degradadas são complicadas e muito onerosas? Realmente, as técnicas convencionais para recuperação de pastagens degradadas incluem quase sempre a mecanização e adubação do solo com replantio das espécies forrageiras. Estes procedimentos são impraticáveis técnica e economicamente para grande parte dos produtores rurais.

Eu tenho, porém uma boa notícia: existe um processo de recuperação das pastagens degradadas de forma natural, econômica e eficiente. Trata-se de fazer oposto do que provocou a degradação das pastagens: evitar o pastoreio contínuo e implantar sistema de manejo que leve em conta tanto as necessidades da pastagem quanto do gado. Ou seja, necessitamos promover a rotação racional das pastagens com aplicação dos conceitos do Pastoreio Voisin!

A Rotação das pastagens não é uma técnica desenvolvida pelo homem, mas sim uma regra natural e universal, que vem possibilitando, p. ex., a manutenção das pastagens em grandes regiões da África, permitindo a existência, há milênios, que imensas manadas de herbívoros bem alimentados sobrevivam sem que haja degradação destas pastagens! Os animais se agrupam em grandes rebanhos que estão sempre em constante movimento (rotação), por vontade própria a procura de melhores pastos e de forma forçada para melhor se defenderem de seus predadores. Com a rotação natural, as pastagens de cada setor têm o REPOUSO necessário para seu desenvolvimento adequado, proporcionando a sua sustentabilidade.

Foi em meados do século passado que o cientista francês André Voisin através de observação deste e de outros processos naturais, de longos estudos e 12 anos de experimentação em sua fazenda, formalizou e publicou em sua obra-prima“Produtividade do pasto”, os fundamentos do Pastoreio Racional, que hoje, em sua homenagem, é conhecido por Pastoreio Voisin.

O Pastoreio Voisin é baseado em quatro Leis Universais, duas voltadas para o pasto e duas voltadas para o gado. Neste contexto nos interessa particularmente as duas“Leis do Pasto”: Lei do Repouso, que determina que após cada período de ocupação a pastagem passe por um período de repouso que lhe permita atingir novamente as condições ideais de desenvolvimento e Lei da Ocupação, que recomenda que o período de ocupação da pastagem pelo gado seja o menor possível. A simples aplicação destas duas leis ocasiona a interrupção do processo de degradação e promove uma gradativa recuperação e melhoria da pastagem.

Quando associamos o Pastoreio Voisin com o Sistema Silvipastoril (consórcio de árvores com pastagens) e também buscamos uma diversidade das forrageiras, obtemos o sistema que denominei Manejo de Pastagem Ecológica – Sistema Voisin Silvipastoril. Este sistema, ao incorporar e potencializar as vantagens do Pastoreio Voisin e do Sistema Silvipastoril, permite que tenhamos uma pastagem de alta produtividade, sustentável e mais próxima possível de um ambiente natural, que proporcionará além de abundante alimentação para os animais, inúmeros “serviços ambientais” extremamente desejáveis. Por isto o MPE pode ser considerado o melhor sistema de manejo de gado a campo atualmente existente.

O Manejo de Pastagem Ecológica tem efeitos positivos sobre o gado, a pastagem, o solo, o meio ambiente e também sobre organização e a rentabilidades da propriedade. Dos benefícios ou vantagens alguns são obtidos a curto e médio prazo e alguns em longo prazo:

São benefícios e resultados obtidos a curto e médio prazo:

Recuperação das pastagens em diferentes graus de degradação. A degradação das pastagens é interrompida com o início do manejo e arecuperação progressiva pode ser notada já durante o primeiro ano.

Aumento da capacidade de suporte (nº de animais por hectare). Já no primeiro ciclo de manejo, o número de animais poderá ser 50 % superior ao usado no sistema convencional. O aumento da capacidade é progressivo, podendo chegar a 3 vezes a capacidade alcançada no sistema de pastoreio contínuo. A rentabilidade líquida da atividade pecuária, que é influenciada também por outros fatores afetados pelo projeto, pode chegar a cinco vezes a da propriedade que apresentasse anteriormente um quadro de pastagens degradadas e manejo convencional.

Aumento da docilidade ou mansuetude dos animais, que implica em maior facilidade no manejo dos animais, redução na mão de obra e do índice de acidentes na propriedade e no transporte dos animais;

Redução da mão de obra, principalmente pela maior facilidade de manejo do gado e a diminuição da necessidade de suplementação dos animais que passam a retirar diretamente dos piquetes toda ou quase toda a alimentação que necessita.

São benefícios e resultados obtidos em longo prazo:

Redução do processo de erosão laminar (perda superficial de solo). Com o tempo a cobertura do solo fica cada vez mais densa, impedindo ou reduzindo drasticamente a erosão laminar, evitando a perda de fertilidade do solo e o assoreamento de corpos d’água.

Melhoria das condições físicas do solo, como a permeabilidade, o aumento do índice de matéria orgânica do solo e a capacidade de absorver e reter água.

A melhor cobertura do solo dificulta a movimentação das águas de chuva, ajudando na retenção das águas e facilitando sua absorção pelo solo;

Ocorre um aumento progressivo da profundidade das raízes das forrageiras das pastagens. Quando uma planta morre, suas raízes se decompõem, originando canais que permitem que as águas das chuvas penetrem com mais facilidade no solo.

O aumento progressivo do índice de matéria orgânica do solo melhora a capacidade de absorver e reter a água por mais tempo. A matéria orgânica decomposta originária das raízes em constante processo de reciclagem constitui uma eficiente forma de fixar o carbono no solo.

Aumento da vasão das nascentes e cursos d’água influenciados pelo projeto de Manejo de Pastagem Ecológica. Este aumento é uma consequência das melhorias descritas no item anterior que facilitam o abastecimento dos lençóis freáticos.

Aumento progressivo da fertilidade do solo, em função da volumosa e concentrada deposição dos dejetos do gado (cerca de 40 kg/animal/dia) e da ativação da biocenose (vida do solo) que através de processos bioquímicos ajudam na decomposição dos restos vegetais e na disponibilização de nutrientes anteriormente indisponíveis do solo;

No seu clímax de desenvolvimento, um projeto de Manejo de Pastagem Ecológica, transforma a pastagem convencional numa “Pastagem Ecológica”,que corresponde a uma maior aproximação possível de um ambiente natural, uma pastagem em multi-estrato em que convivem em harmonia diversas espécies forrageiras no primeiro estrato, milhares arbustos forrageiros num segundo estrato arbustivo além de dezenas de árvores num terceiro estrato arbóreo. Se esta situação tem a propriedade de modificar o microclima local, sua repetição em escala regional, numa situação ideal, poderá modificar para melhor o clima de toda uma região, incluindo o índice de chuvas.

Acredito que o mundo todo acabará por entender que as tecnologias com maior potencial para resolver os graves problemas ambientais mundiais, são exatamente aquelas que a própria natureza nos ensina (tecnologias de processos) e não fabulosas tecnologias baseadas em complexos produtos industriais artificiais e poderosas máquinas (tecnologias de insumo).

A utilização de conceitos simples, mas com enorme potencial de resolver problemas, cresce em todo o mundo. Um exemplo marcante, que também é baseado nos ensinamentos de André Voisin é o chamado “Holistic Management” desenvolvido por Allan Savory (www.savoryinstitute.org) que num impactante vídeo/palestra de 20 minutos (com legenda em português) mostra como a desertificação avança pelo mundo e como é possível reverter este processo que é uma das principais causas das mudanças climáticas globais. Vejam o vídeo no link:https://www.ted.com/talks/allan_savory_how_to_green_the_world_s_deserts_and_reverse_climate_change?language=pt-br.

Inúmeros outros vídeos sobre o Holistic Management podem ser encontrados noYoutube. Aqui no Brasil temos o trabalho do Engenheiro Agrônomo Alberto Miguel(albertomiguel@shaw.ca), totalmente envolvido com Gerenciamento Holístico (HM em português) cujo blog: www.gerenciamentoholistico.blogspot.com e o grupo no Facebook: “Manejo Holístico de Pastagem” vem trazer esta importante ferramenta aos brasileiros.

Outra tecnologia produtora de água que vale a pena conhecer é o CBZ “Conceito Base Zero” desenvolvida pelo Eng. José Artur Padilha da Fazenda Caroá em Afogados de Ingazeira PE, que com simples barragens artesanais em cursos de água intermitentes, propicia o armazenamento subterrâneo de água para utilização o ano todo. É imperdível o vídeo do Programa Globo Rural a respeito do CBZ: https://www.youtube.com/watch?v=UF3zT7rJM4g .

O Manejo de Pastagem Ecológica é uma dessas tecnologias de processo, em que fazemos uma parte ou “damos um toque” e a natureza faz o resto! Necessitamos inicialmente dividirmos as pastagens ou implantar os piquetes para o manejo Voisin. A partir daí, já com a pastagem em evolução positiva, iniciam-se os procedimentos relativos à diversificação das forrageiras e à arborização. É importante que todas estas fases sejam realizadas a partir de projetos técnicos bem elaborados.

Em nossos cursos de capacitação em Manejo de Pastagem Ecológica, costumamos dividir o conteúdo em quatro partes: 1) O que evitar; 2) O que fazer; 3) Porque fazer?; 4) COMO FAZER. Esta última parte, quase sempre pouco valorizada pelos consultores, é uma garantia de sucesso. Utilizando um padrão de cercas elétricas próprio, com ferramentas exclusivas e peças artesanais que substituem com vantagens funcionais e econômicas onerosos produtos industriais, a “Cerca Elétrica padrão Fazenda Ecológica” possibilita a implantação de projetos de forma prática, eficiente e econômica.

Os benefícios ambientais do Manejo de Pastagem Ecológica são tantos, que pode parecer que os benefícios e vantagens econômicas para a pecuária são menos importantes. Pelo contrário, o aumento da produtividade, a economia em insumos, remédios e suplementos para o gado, o menor gasto com mão de obra, refletem numa melhor rentabilidade líquida da propriedade, trazendo benefícios diretos para o bolso do produtor!

O Manejo de Pastagem Ecológica, a partir do ano 2000, foi adotado por diversos programas Institucionais e/ou governamentais com diferentes objetivos: Programa Amazônia Sem Fogo – MMA e Cooperação Italiana (Alternativa ao uso do fogo na Amazônia); Programa VidAmazônia – PRONATURA/PNUD (Manutenção da biodiversidade); Programa Corredores Ecológicos – (MMA e Cooperação Alemã);Programa de Conservação da Amazônia – TNC (Pecuária Sustentável); Projeto Assentamentos Sustentáveis na Amazônia – IPAM (Pecuária Sustentável); Curso de Capacitação em Sistemas de Tecnologia Agroflorestal – Embrapa Amazônia Oriental – RETAF (Curso de capacitação em MPE); Projeto Cerrado Jalapão – MMA e Cooperação Alemã (Alternativa ao uso do fogo no Cerrado).

Recentemente, concorrendo com tecnologias ofertadas por grandes Universidades e Centros de Pesquisas, o Manejo de Pastagem Ecológica foi selecionado e está sendo utilizado por importantes programas voltados para a produção de água, como oProjeto Semeando Água – Instituto IPE e Petrobras Ambiental – Sistema Cantareira (SP) e o Projeto de Desenvolvimento Rural Sustentável – Microbacias II – Secretarias de Meio Ambiente e de Agricultura de SP e Banco Mundial – Bacia do Rio Paraíba do Sul – (SP).

É com grande satisfação que vejo que uma tecnologia cuja formalização se iniciou em 1987 a partir de num trabalho despretensioso voltado para a “formação ecológica de pastagens no cerrado” realizado na nossa Fazenda Ecológica(www.fazendaecologica.com.br) já se transformou em uma política pública.

Jurandir Melado é Eng. Agr., Professor Da UFMT (aposentado), Consultor e autor de livros sobre Manejo Sustentável de Pastagens.

Fotografias relacionadas:
Área recuperada na Fazenda Ecológica: Antes e depois do Manejo de Pastagem Ecológica
Gado em Pastoreio Voisin na Pastagem Ecológica – Fazenda Ecológica – MT

Publicado no Portal EcoDebate, 25/05/2015

"Manejo de Pastagem Ecológica e a produção de água, artigo de Jurandir Melado," in Portal EcoDebate, 25/05/2015, http://www.ecodebate.com.br/2015/05/25/manejo-de-pastagem-ecologica-e-a-producao-de-agua-artigo-de-jurandir-melado/.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Divulgadas informações que avaliam esforços para uma pecuária sem desmatamento na Amazônia

Por Daniela Torezza/ICV

Foram lançados nesta semana um site e um estudo com informações e análises para subsidiar a discussão sobre a pecuária e sua relação com o desmatamento da floresta amazônica. Tanto o site quanto o estudo, destacam a resposta da cadeia de pecuária com relação aos acordos sobre desmatamento zero na Amazônia brasileira.

O site traz informações sobre a criação e comércio de gado na Amazônia, e os acordos para o desenvolvimento de uma cadeia de produção com desmatamento zero, enquanto que o estudo apresenta uma análise detalhada das conquistas e limitações atuais dos sistemas de rastreabilidade da cadeia de pecuária com vistas a redução do desmatamento.

As informações do site apontam para soluções e oportunidades existentes na busca da redução do desmatamento impulsionado pela expansão da pecuária na Amazônia brasileira. Contudo, ressalta que, atingir esse objetivo, em escala, exigirá um apoio coordenado de toda a cadeia de valor.

Na página web há também um guia que apresenta uma visão geral das iniciativas público-privadas, certificação e instrumentos técnicos de rastreabilidade para ajudar a promover uma cadeia de produção com desmatamento zero. Na parte de rastreabilidade aparece o Programa Novo Campo, desenvolvido por um grupo de parceiros, coordenados pelo Instituto Centro de Vida (ICV), na região norte de Mato Grosso. O Programa vai testar, nos próximos meses, um sistema inédito para monitorar fornecedores diretos e indiretos da pecuária, através de informações fornecidas pelas fazendas participantes do Programa que passarão por uma verificação quanto à conformidade legal. Na parte de soluções técnicas, é apresentado o guia de Boas Práticas Agropecuárias (BPA) da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). As BPAs formam um conjunto de princípios orientadores, métodos e técnicas para mitigar os riscos e permitir que a pecuária seja economicamente viável, ambientalmente adequada e socialmente justa.

Já o estudo, conduzido por Holly Gibbs, na Universidade de Wisconsin-Madison, com a parceria de pesquisadores dos Estados Unidos e do Brasil, foi publicado nesta semana no jornal Conservation Letters. As principais conclusões são baseadas no mapeamento das fazendas que vendem gado para frigoríficos da multinacional JBS, antes e após os acordos de controle do desmatamento, com pesquisas de campo e análises estatísticas.

Com relação aos frigoríficos, a conclusão é de que houve uma mudança nos critérios de compra, monitorando os fornecedores diretos e evitando gado produzido em fazendas com desmatamento. Por seu lado, os pecuaristas fizeram o Cadastro Ambiental Rural (CAR) informando os principais dados de composição das propriedades.

Entretanto, de acordo com o estudo, apesar dessas conquistas, os resultados para a conservação da floresta amazônica são limitados pelo escopo dos acordos, que não abrangem todos os aspectos, o que abre a porta para vazamentos.

Entre as soluções necessárias para apoiar a melhoria contínua e assegurar, totalmente, a produção de gado com desmatamento zero estão: a implantação de sistemas de monitoramento para todos os frigoríficos; a necessidade de abranger todas as fazendas envolvidas na cadeia de fornecimento; e o investimento na qualidade e transparência das informações públicas por parte da indústria e do governo.

Saiba mais sobre o Programa Novo Campo aqui

Publicado no Portal EcoDebate, 18/05/2015

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Pecuária Verde alavanca lucro de fazendas no Pará

Por Caio Albuquerque, da Esalq em Piracicaba - caioalbuquerque@usp.br
Publicado em 25/novembro/2014 
Projeto Pecuária Verde tirou Paragominas da lista negra do Ministério do Meio Ambiente

Em 2011, o professor Ricardo Ribeiro Rodrigues, do Departamento de Ciências Biológicas da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em Piracicaba, colocou em prática o projeto Pecuária Verde, na cidade de Paragominas (PA). Entre 2008 e 2010, o município paraense esteve na incômoda lista negra do Ministério do Meio Ambiente (MMA), como umas das cidades que mais promovem desmatamento e desrespeitam as leis ambientais no âmbito da Floresta Amazônica. Isso por conta do modelo extensivo da atividade pecuária e a exploração desmedida por parte do setor madeireiro.

Em 2009, Rodrigues foi convidado pela prefeitura local e pela The Nature Conservancy (TNC) para tentar equalizar a questão e ajudar Paragominas a sair da lista negra do MMA. Sem sucesso na tentativa de convencer pecuaristas a diminuírem a área de pasto e plantarem árvores nativas próximas aos leitos dos rios, o pesquisador modificou seu plano de atuação e instituiu o projeto Pecuária Verde. “Na cultura tradicional dos produtores da região era impossível conceber uma realidade diferente daquela, mesmo com uma rentabilidade baixa por hectare. Foi então que propomos um projeto mais amplo, que envolvesse adequação ambiental e agrícola que resultasse em ganho líquido acima da média local”.

Segundo o professor da Esalq, um dos problemas que mais preocupava os produtores no início do projeto era o tamanho do pasto invadindo Área de Proteção Permanente (APP) e reserva legal (RL) de suas propriedades, que imaginavam ser grandes. “A ideia de que seria preciso gastar muito na recuperação dessas áreas assustava muitos produtores. No entanto, o levantamento realizado utilizando imagens de satélite e muita checagem de campo revelou que o passivo ambiental nas propriedades era muito menor do que se imaginava, sendo possível equacioná-los com baixo custo e mais que isso, não iria comprometer significativamente a atividade de produção”.

Ainda segundo Rodrigues, no caso das APPs, em nenhuma das seis fazendas do projeto, o passivo ambiental chegou a 2,5% do tamanho da propriedade, estando em média 1,2%. “O quadro mostrou-se ainda mais favorável devido às condições da Amazônia, com muitas florestas na paisagem regional, clima muito favorável para crescimento das espécies – sol e chuva constante – e atividade agrícola não muito tecnificada [pecuária]”. Em quase todas as propriedades a recuperação das APPs está sendo feita principalmente com restauração passiva. “Isso significa apenas promover o abandono da área [sem roçar e sem passar herbicida], sem necessariamente ter que isolar essa área do gado, reduzindo fortemente os custos com construção de cercas, que é um dos principais custos da recuperação e com plantio de mudas”. Completando, o docente explica que, em poucos casos, está sendo necessário o plantio de espécies nativas na recuperação dessas áreas.

Manejo do pasto

Para garantir rentabilidade superior a que estavam acostumados, pecuaristas de Paragominas passaram a ser auxiliados por um outro professor da Esalq, Moacyr Corsi, docente sênior do Departamento de Zootecnia (LZT). Logo que chegou, Corsi identificou a qualidade precária das pastagens naquela região e propôs manejo intensivo, baseado na rotação de pastagens. “Por esse sistema, dividimos o rebanho em grupos e a área em lotes. Assim cada grupo pasteja por alguns dias em cada lote, de modo que o capim se recupera mais rapidamente e com melhor qualidade”, explica Corsi. Com o vigor do capim reconquistado e com mais cabeças por hectare, os fazendeiros inseridos no Pecuária Verde viram sua rentabilidade subir de R$ 70,00 para mais de R$ 700,00 por hectare ao ano.

Reserva legal

No caso das áreas de reserva legal, o professor Rodrigues afirma que a maioria das propriedades já apresentavam a porcentagem de reserva legal superior àquela exigida na legislação vigente. “Algumas poucas com déficit de RL tinham dentro da propriedade áreas de pastagem, mas que foram implantadas em situações de baixa aptidão agrícola, tendo por isso baixa produtividade e por isso foram destinadas para complementar a reserva legal”. Nas áreas de reserva legal foi implantada ainda uma grande inovação, que foi o enriquecimento com espécies nativas frutíferas e madeireiras para serem regularmente exploradas economicamente, com manejo florestal de baixo impacto. “A diversificação da propriedade de pecuária resultou uma fonte adicional de renda ao produtor, que passou a produzir também frutas e madeiras nativas, dando uma destinação mais aceitável da reserva legal, já que o sentimento anterior era de perda de até 50% da sua propriedade com a reserva legal”, complementa Rodrigues.

Coordenadas pelo professor Ricardo Ribeiro Rodrigues, ações de capacitação foram implementadas pela equipe do Laboratório de Ecologia e Restauração Florestal (Lerf) junto aos técnicos, gerentes e proprietários das fazendas do Pecuária Verde. “Assim encerramos um ciclo, de forma a viabilizar a implantação da regularização ambiental nas propriedades”, finaliza.

Foto: Pedro Bolle / USP Imagens

Mais informações: (19) 3429.4109/4485/4477 e 3447.8613
Link:

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Produtos naturais são alternativas para melhorar piscicultura


A utilização de plantas medicinais para melhorar as condições de saúde dos peixes criados em piscicultura é tema de pesquisas desenvolvidas pela Embrapa Amazônia Ocidental (Manaus-AM), unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. Plantas como cipó-alho, cravo-da-índia e alfavaca estão sendo testadas para desenvolvimento de tecnologias, que melhorem a sustentabilidade ambiental da atividade. Essas soluções estão sendo testadas para boas práticas de manejo na piscicultura, que possam reduzir riscos ambientais na produção de pescado e prevenir danos à saúde humana.

A proposta dessas pesquisas com plantas medicinais é proporcionar alternativas naturais para substituir produtos químicos que tenham potencial tóxico, quando utilizados na piscicultura. Um exemplo da utilização de produtos naturais para o manejo dos peixes é o eugenol, uma substância encontrada no cravo da índia e também em algumas plantas nativas da Amazônia.

O pesquisador da Embrapa Amazônia Ocidental, Luiz Inoue, desenvolveu pesquisa em que várias plantas foram testadas como anestésico de peixes e para minimizar problemas no transporte desses animais, principalmente de tambaqui e mantrinxã, peixes originários da Amazôniam que passaram a ser cultivados em várias regiões do Brasil, principalmente por ter boa aceitação comercial.

“Durante o manejo, os peixes podem se machucar e, consequentemente, isso pode favorecer a manifestação de doenças e morte de animais, alguns dias depois”, explica o pesquisador. “O uso dos anestésicos naturais reduz a movimentação excessiva dos animais e o estresse dos peixes, aumentando as chances de sucesso da prática de manejo, eliminando o risco de intoxicação do trabalhador e dos animais”, explica. Esse estudo faz parte de projeto da Embrapa, com apoio do CNPq.

Outra pesquisa diz respeito à prospecção de efeitos medicinais do alho e do cipó alho para a prevenção de doenças do tambaqui, quando criado em gaiolas. A pesquisadora da Embrapa Amazônia Ocidental, Cheila Boijink, explica que a disseminação de problemas relacionados à saúde dos peixes nas estações de piscicultura está relacionada às quantidades e densidade de peixes mais elevadas que as encontradas naturalmente nos rios e lagos. Nessas condições, os peixes são afetados por microrganismos parasitos oportunistas e com isso os produtores vêm aumentando o uso de produtos químicos para o controle e prevenção de doenças.

A preocupação com os riscos de intoxicação aos consumidores e a poluição dos mananciais de água motivou as pesquisas em busca de alternativas nas plantas medicinais. A pesquisa também avalia o uso de imunoestimulantes naturais, presentes no alho e cipó-alho, para aumentar a atividade do sistema de defesa dos peixes e protegê-los contra doenças infecciosas e parasitárias.

Os estudos relacionados aos sistemas de cultivo com as plantas medicinais e extratos fitoterápicos são conduzidos pelo pesquisador da Embrapa Amazônia Ocidental, Francisco Célio Chaves. “A proposta de uso de produtos naturais com conhecida característica medicinal parece ser alternativa interessante para amenizar esses problemas, proporcionando ainda melhor qualidade do pescado, livre de produtos químicos”, afirma a pesquisadora Cheila Boijink, da área de fisiologia e sanidade de peixes.

Outra vantagem na utilização desses produtos naturais é o menor risco ambiental e redução de custos na compra de medicamentos. “Acreditamos ainda que no futuro próximo os mercados internacionais de peixes vão solicitar cada vez mais alimentos que não tiveram nenhum contato com produtos químicos”, acrescenta a pesquisadora.

Síglia Regina / Jornalista
Embrapa Amazônia Ocidental - Manaus/AM
Tel.: (92) 3303-7852 / 3303-7860 / 3303-7854
siglia.regina@cpaa.embrapa.br

Data da reportagem: 02.07.2012