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segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

É um erro escolarizar o conhecimento tradicional, avalia pesquisadora da USP

25/11/2013
 
Por Ewerton Martins Ribeiro.

As possibilidades de cooperação entre os cientistas acadêmicos e os chamados “conhecedores tradicionais” – em especial os indígenas – foram abordadas em conferência na UFMG da professora Maria Manuela Carneiro da Cunha, da Universidade de São Paulo (USP), no início deste mês. O evento integrou a programação do Colóquio Davi Kopenawa e a Hutukara: um encontro com a cosmopolítica Yanomami.

Para a professora, é um contrassenso tentar escolarizar o conhecimento tradicional. “Ele não é só conteúdo; são também formas de existência e de transmissão desse conteúdo. Assim, em vez de se pensar em escolarização, devemos propor programas de pesquisa de conhecimentos tradicionais estabelecendo pontes entre o conhecimento prático e o que se aprende na escola”, defendeu.

Na ocasião, Maria Manuela detalhou a proposta que submeteu ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação para a criação de programa focado na valorização do conhecimento tradicional e na criação de uma economia na Amazônia que seja compatível com o conceito de “floresta em pé”

“Fizemos a proposta ao Ministério, que parece ter gostado do projeto, e o incluiu no seu programa para o período de 2010-2014. A ideia é que o projeto resulte em editais anuais, e que fomente a distribuição equitativa de poder e de recursos”, explicou.

O Portal UFMG resumiu aspectos da conferência de Maria Manuela Carneiro da Cunha. Confira a seguir.

O contexto político

Formamos um conselho consultivo e propusemos ao MCTI um programa focado na importância da valorização dos conhecimentos tradicionais para o Brasil. O Ministério demonstrou interesse e pôs o programa na sua agenda para o período 2010-2014. Mas quiseram começar de uma forma mais prudente do que se poderia esperar. Encomendaram um estudo de três anos para avaliar a viabilidade e o formato de um programa permanente. É o que estamos fazendo atualmente. Mas sabemos que, quando mudam governo e secretário, mudam as políticas. E em 2014 teremos novas eleições. Portanto, não temos nenhuma segurança de que o programa vai se reverter em algo permanente. Mas estamos trabalhando para isso. Já foi um importante avanço tratar a questão no âmbito do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), em vez do Ministério da Educação (MEC).

Floresta em pé

O programa se chama Bases para um programa de pesquisas interculturais e fortalecimento do conhecimento tradicional e tem dois pilares principais. Um trata de fomentar a criação de um tipo de economia na Amazônia que seja compatível com a ideia de “floresta em pé”. Essa parte foi mais facilmente aceita. O segundo diz respeito à valorização dos conhecimentos tradicionais. Ou seja, de se reconhecê-lo e buscar o auxílio das populações tradicionais, que têm o know-how nesse tipo de manejo da floresta, para fomentar seu uso sustentável. Essa é uma ação que enfrenta mais resistência. Temos implantado projetos pilotos. São tentativas de demonstrar que é possível criar uma agricultura da “floresta em pé”, de que essa mudança de paradigma é interessante para todas as partes – populações tradicionais, cientistas das universidades e para a sociedade como um todo.

Contribuição do saber tradicional

Tenho trabalhado junto a especialistas solicitando levantamentos sobre as contribuições econômicas que os conhecimentos tradicionais podem oferecer. Mas temos de ter em mente que o mais importante não é mensurável. Não se pode medir o conhecimento tradicional pelo seu valor econômico; existem questões mais importantes. Um grande problema hoje é que, se o aspecto econômico não é mensurado, a contribuição oferecida pelo conhecimento tradicional não é apreciada, não é levada em conta, apesar de ser imprescindível para o trabalho. Pesquisadores fazem “descobertas” e não reconhecem o conhecimento tradicional embutido em seus trabalhos. Dizem: “não devo nada aos conhecimentos tradicionais”, quando, na verdade, devem muito.

Repartição equitativa

Até hoje não temos uma medida precisa para fazer essa avaliação. Mas estamos chegando a algum tipo de consenso de como deve ser feita a regulamentação desse reconhecimento. O Congresso Nacional está recebendo um projeto de lei que vai substituir medida provisória sobre o assunto. A ideia é estipular o pagamento equitativo, a recompensa, a “repartição equitativa de benefícios”; esse é o termo, porque essa recompensa pode até mesmo ser não monetária. Uma frente de trabalho tem sido a de colaborar para o estabelecimento de qual deve ser, do ponto de vista econômico, o aporte a ser feito em remuneração ao conhecimento tradicional embutido nos processos científicos. No entanto, cabe repetir: não se pode exigir uma justificativa estritamente econômica para preservar a diversidade de línguas, práticas e cantos. Reduzir tudo isso à questão do capital seria um absurdo.

Conhecimento em construção

Quando os cientistas apreciam o conhecimento tradicional, eles pensam o seguinte: “vamos fazer um levantamento e então guardar o recurso para futuras pesquisas”. O problema é que essa postura desconsidera que o conhecimento tradicional é fruto de um processo vivo, que está sempre em transformação. Ele depende da população que o gerou, depende dela para continuar se transformando, se aprimorando. Se você armazena cientificamente uma informação, ela não terá a mesma validade quando for retomada. Venho insistindo com o MCTI que não se deve pensar o conhecimento tradicional como algo pronto e consolidado, mas sim como conhecimento em constante construção, tal qual o conhecimento científico. Por incrível que pareça, isso é muito difícil de entrar na cabeça de biólogos, de cientistas acadêmicos.

O valor dos mateiros

Quando os cientistas vão adentrar a floresta, eles sempre precisam da orientação dos mateiros, oriundos da população local: são eles que conhecem a mata, os territórios, e que estão sempre descobrindo coisas novas, novos caminhos. Ainda assim eles são sempre depreciados nos institutos de pesquisa. Sempre são colocados como assistentes, sendo muito pouco valorizados no contexto da construção do conhecimento – e muito mal pagos. E a verdade é que os mateiros são os primeiros pesquisadores. Eles aprenderam no local e estão transmitindo esses conhecimentos para os pesquisadores científicos.

Desvalorização histórica

A história tradicional faz tudo para solapar o conhecimento tradicional. Por exemplo: a nossa escola, ao ser levada para essas comunidades, considera que o que a criança aprende em casa é algo sem valor. Faz com que esse conhecimento seja visto como de uma instância inferior. A escola atrapalha de várias maneiras: sua forma de elaborar seu calendário, seus horários… Por isso, as pessoas mais velhas dessas sociedades acabam se sentindo desvalorizadas quando em contato com a nossa. Em muitas dessas comunidades, eles são os responsáveis por passar certos conhecimentos de pai para filho. E a nossa escola canônica não entende ou aceita isso muito bem. A reação são as “escolas diferenciadas”, criadas pelas próprias comunidades indígenas – e que naturalmente vêm sofrendo muita resistência. São escolas que pensam seu calendário para que ele seja compatível com as atividades tradicionais da comunidade, que pensam a importância da língua, do conhecimento local, das tradições, das festas, da participação social. Aí está um aspecto muito importante a ser solucionado. É preciso que a escola se adapte à realidade dessas comunidades, no sentido de uma política de fortalecimento do conhecimento tradicional. Saber como fazer uma canoa, por exemplo, importa muito mais do que certos “conhecimentos” que as escolas acham importante disseminar.

Os riscos da ‘revolução verde’

Uma retomada histórica explica o desafio que se vive hoje na agricultura. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, houve uma “revolução verde”: uma ambiciosa tentativa de aumentar a produção agrícola no mundo inteiro e resolver o problema da fome. Foi algo muito importante. Entre as mais de sete mil espécies de plantas alimentícias existentes no mundo, as trinta mais produtivas foram selecionadas para formarem a base da alimentação da maioria. Mas as demais espécies dessa enorme variedade foram de certa forma esquecidas. Apesar de sua importância na época, foi uma medida política muito arriscada. Quando a base de alimentação mundial é tão pequena, crescem os riscos de escassez caso algo aconteça com alguma dessas espécies. É uma medida em que não se considera que as variedades são adaptadas a cada lugar, ao tipo de solo, à quantidade de sol e chuva, às pragas. Então resolveram o problema da não adaptação das espécies às pragas e às demais dificuldades dos novos ambientes com o uso maciço de fertilizantes e de defensivos agrícolas. E hoje o Brasil é um “campeão” no uso dos dois. Resolveu-se o problema. Mas a que custo? Tornamo-nos reféns dos fertilizantes e dos defensivos agrícolas. Ao custo do sacrifício das variedades locais. E o risco disso é enorme.

Cultivo on farm

Em algum momento, percebemos que o que se estava fazendo era uma política agrícola extremamente perigosa. Na Irlanda, por exemplo, aconteceu um desastre em função disso. Assim como na Bélgica, França, Alemanha, a base da alimentação no país era a batata, que havia sido domesticada pelos índios da América e levada para a Europa pelos espanhóis após a colonização. Os espanhóis levaram poucas espécies, as mais produtivas. Os irlandeses, em dado momento, estavam se alimentando só de duas espécies. Foi quando aconteceu uma praga que durou quatro anos e acabou com tudo. Um milhão de pessoas morreu de fome. Outro milhão migrou. É um exemplo de como é necessário guardar as variedades. Mas não basta fazer bancos de sementes como os da Embrapa, em que as sementes ficam em uma geladeira, mas não continuam se adaptando às mudanças do meio ambiente. O clima muda, o solo muda. Então, é preciso que as espécies continuem sendo cultivadas na roça, sendo cultivadas on farm, pois só se adaptam aquelas que continuam sendo cultivadas em campo. Isso é fundamental para a nossa segurança alimentar. E aí entra a questão dos conhecimentos tradicionais, dos índios, que tem o hábito de cultivar variedades.

Experiência no Rio Negro

Um desses projetos-pilotos de que falei está sendo desenvolvido às margens do Rio Negro, na Amazônia. Lá, a despeito das políticas governamentais que buscam consolidar a plantação apenas das poucas espécies mais produtivas, os índios estão plantando em seus roçados mais de cem variedades de mandioca, colaborando com a diversidade tão importante para a segurança de nosso sistema agrário. Hoje, 500 milhões de pessoas comem mandioca no mundo. É um alimento que tem enorme consumo na África, por exemplo. Se houvesse uma praga como a das batatas, teríamos hoje um problema enorme, a exemplo do que aconteceu na Irlanda. Esse caso da mandioca é um exemplo de como o conhecimento tradicional tem uma importância fundamental. Porque é o conhecimento tradicional dos índios que possibilita que lá, no Rio Negro, haja tanta variedade da espécie. Normalmente, a mandioca é plantada como “clone”; come-se a raiz e planta-se o caule. Mas a mandioca sabe dar flor, que tem semente. E, quando dá flor, é porque houve reprodução sexuada, de forma que essa semente não é um clone. A formiga gosta dessa semente, que é docinha. Então ela leva a semente para debaixo da terra. Essa é uma semente que só brota se houver fogo; só nasce na capoeira. Nesse sentido, ela tem brotado no Rio Negro em função do trabalho dos índios mais antigos, que gostam de cultivar as variedades e trabalham para que haja essa capoeira. As variedades também são fruto do trabalho das mulheres indígenas, que cultivam experimentalmente as sementes. Elas plantam em uma margem da roça algo que só vai dar a partir do segundo ou do terceiro ano. É um trabalho de colecionador. Essas mulheres de fato pesquisam para avaliar cada nova variedade e depois para cultivá-la. Há ainda a cultura de troca de sementes entre famílias e tribos, nas festas. Há um gosto pela coleção.

Virada política

Mesmo assim, ainda há hoje uma política do governo querendo disseminar o cultivo das espécies de mandioca entre as comunidades tradicionais, algo como “ensinar padre a rezar missa”. Insistem em focar nas espécies mais produtivas, ainda na lógica da revolução verde. E isso em um contexto em que o Brasil é signatário de um tratado que obriga o país a fomentar o cultivo de variedades na roça, de fomentar esse cultivo on farm, e não em bancos de sementes. O Brasil não está cumprindo esse tratado. Nesse sentido, nosso projeto-piloto visa transformar essas práticas tradicionais do Rio Negro em um sistema reconhecido como forma de conservação on farm valiosa e estratégica para o Brasil e para o mundo. É isso que a gente está construindo.


Foto: Foca Lisboa/UFMG
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sábado, 7 de dezembro de 2013

Incentivar imaginário da criança é saudável

Papai Noel é um senhor gordinho, bonachão, que tem a barba comprida e bem branca. Ele usa gorro e roupa vermelhas e vive no Polo Norte junto com a Mamãe Noel, duendes e renas voadoras. Toda noite de 24 de dezembro, ele voa com um saco bem grande repleto de presentes e os distribui para todas as crianças do mundo que foram boazinhas durante o ano. Difícil de acreditar? Não para a maioria dos pequenos, que esperam ansiosos pela visita do bom velhinho.

De acordo com Sérgio Dório de Carvalho, psicopedagogo e responsável pela Recreação Terapêutica do Hospital Criança Conceição (HCC), incentivar as crianças a crerem em figuras imaginárias, como a do Papai Noel, enriquece o imaginário e favorece a exploração do pensamento infantil. “Ele é norteado pelo mágico e fantasioso. É a forma que a criança tem de vivenciar aquele mundo novo que aparece para ela. É altamente saudável para o desenvolvimento cognitivo da criança, para que ela possa compreender a realidade”, explica o pedagogo. E acrescenta: “A fantasia, a brincadeira e a imaginação ajudam os pequenos a lidarem com os sentimentos. Ela naturalmente tem que passar por esta fase do pensamento mágico e, com os anos, ela vai tirar conclusões sobre a veracidade ou não daquilo”.

Brincadeira em família - “Escrevi cartinha para o Papai Noel junto com meus dois filhos, Artur e Elisa (4 e 2 anos). Envelopamos e adesivamos a carta e coloquei dentro da minha própria caixa do correio para eu poder guardar. Minha mãe conserva até hoje uma cartinha que eu escrevi quando criança, pedindo uma boneca do meu tamanho e uma vassoura. É muito bom relembrar este período tão cheio de fantasia. É fundamental este lado imaginário, é o período para cultivar a inocência. Eles contam histórias, esperam o Papai Noel. Acho esta imaginação importante para a criança ser criança ”, conta a analista administrativa da Secretaria de Atenção à Saúde Indígena (Sesai), Cidália Sant´Ana. “Como supostamente o Papai Noel só presenteia quem foi uma pessoa boa durante o ano, estimulei que cada um falasse o que fez de bom e de ruim. Acredito que é importante ensinar valores por meio do lúdico, ensinar limites e disciplina de maneira leve”, completa.

“Não há desvantagem alguma os pais estimularem a crença em figuras imaginárias. É importante entender que o Papai Noel é um arquétipo, que simboliza a Boa Nova. Remete a questões ligadas à solidariedade. Com o passar do tempo, a figura deixa de existir mas o conceito moral persiste”, observa Sérgio Dório.

Ajuda na recuperação - O psicopedagogo do HCC ressalta que entre as crianças internadas nos hospitais, a importância do Papai Noel é ainda mais forte. “Além de esperança, são traços muito fortes da figura do Papai Noel a caridade, solidariedade e união, pois a família se reúne durante o Natal”, destaca. “O Papai Noel é importante para o processo de recuperação, pois este vai muito além da medicação. A criança está afastada do convívio social e, mesmo assim, o Natal não deixou de fazer parte da vida dela. Ela acaba levando uma lembrança boa do período que ficou no hospital”, acrescenta.

E a boa vontade e alegria contagia até os adultos. Muitos profissionais da saúde e voluntários do hospital ajudam os pequenos pacientes a escrever cartinha para o Papai Noel. “Parcerias são criadas para realizar estes desejos. Uma vez uma das crianças queria conhecer um jogador de futebol que ele admirava. A movimentação do voluntariado foi tão grande que conseguiu levar o ídolo até ao hospital”, recorda Sérgio Dório.

Fonte: Ana Paula Ferraz / Comunicação Interna / Agência Saúde

Data 29.11.2013
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terça-feira, 26 de novembro de 2013

YouTube lança plataforma EDU com foco em vídeos educacionais

Projeto foi realizado em parceria com a Fundação Lemann

Alexandre Saconi, do R7

O Google, em parceria com a Fundação Lemann, lançou nesta quinta-feira (21) um novo espaço para aprendizado na internet. O YouTube EDU é uma nova plataforma em que alunos, professores eo público em geral poderão encontrar vídeos com conteúdos escolares de diversas disciplinas das várias etapas do ensino.

O projeto é resultado de uma parceria entre o maior portal de vídeos do mundo e a Fundação Lemann, criada pelo empresário brasileiro Jorge Paulo Lemann com objetivo de melhorar a qualidade dos alunos brasileiros. O objetivo do YouTube EDU é estimular os professores do Brasil a criarem conteúdos educacionais de qualidade usando a internet para oferecer este material de maneira democrática.

Jorge Paulo Lemann defende que o portal é uma das ferramentas para que o País seja uma potência educacional dentro de alguns anos.

— Espero que, em alguns anos, nós tenhamos um Brasil competitivo em questão de educação também.

Para isso, o novo portal trabalha com a seleção de vídeos de diversos canais entre os milhares que o compõem. Até agora, 26 canais fazem parte do YouTube EDU, com cerca de 8.000 vídeos. Para fazer parte do site, foi feita uma seleção de conteúdos considerados de qualidade, gratuitos e organizados de forma fácil e intuitiva.

Para conferir se os vídeos realmente possuem o conteúdo verídico, uma equipe da Fundação Lemann faz a curadoria do material.

O professor Jubilut, do canal Biologia Total, relata que é gratificante o retorno com as videoaulas que são exibidas no YouTube.

— O mais legal é ver como o meu trabalho está impactando na vida das pessoas. Uma menina me disse que foi bem em biologia no vestibular graças aos meus vídeos. 

Ensino médio

Neste primeiro momento do portal, são exibidos apenas conteúdos do ensino médio nas disciplinas de matemática, português, biologia, física e química. Em 2014, todas as matérias do ensino médio devem ser abrangidas, além dos conteúdos do ensino fundamental e do ensino superior.

Herman Voorwald, secretário de Educação do Estado de São Paulo, defende a importância deste foco inicial no Ensino Médio. Segundo o professor, é ali onde há o maior índice de evasão dos alunos, por isso a necessidade de reforço.

— O aluno da noite já chega atrasado, pois está trabalhando. Portanto, não tem a primeira aula. E não tem a última também, pois está cansado.

Segundo Denis Mizne, diretor executivo da Fundação Leman, a metodologia de ensino não é o que define se o vídeo será selecionado ou não.

— O que importa é se o conteúdo está correto ou não

O Brasil é o primeiro país após os EUA a ter uma iniciativa na linha do YouTube EDU.

Os interessados em ter seu canal no YouTube EDU podem preencher um formulário disponibilizado pelo Google, que será analisado pela Fundação Lemann para aceitação ou não na plataforma.

Todos os professores também podem ganhar dinheiro de acordo com alguns critérios determinados pelo Google, como a quantidade de exibições e o conteúdo original.

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quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Déficit de atenção tem solução, texto de Carin A.C.M. Primavesi Silveira

Carin A.C.M. Primavesi Silveira
Ex-engenheira civil, psicopedagoga, psicanalista, mantenedora de escola de educação infantil e autora do livro: “Déficit de atenção tem solução” 
A porcentagem de crianças, adolescentes e adultos que sofrem os efeitos do déficit de atenção com suas comorbidades está aumentando cada vez mais. Essas pessoas possuem baixa auto estima e baixa auto confiança, não conseguindo acompanhar a escola e as atividades exigidas ou só as conseguem com muita dificuldade.

Com uma experiência de 28 anos soluciona casos de hiperatividade, hipoatividade, dificuldade de raciocínio, falta de concentração e memorização, não só por meio de atitudes psicoeducativas, mas também com uma nova ferramenta: correção das deficiências minerais e vitamínicas relativas ao sistema nervoso, causa básica.

Muitos desses sintomas desaparecem ao se atentar a certas atitudes psicoeducativas:

1. Possuir sentimento de pertencer ao ambiente, de ser valorizado pelo educador. A aprendizagem é alterável pelo emocional. Aprende-se por amor a alguém, já dizia Freud. Necessitamos ser considerados. O déficit afetivo angustia, provoca um hiperestresse, aumentando o cortisol, inibindo os neurotransmissores benéficos à aprendizagem, podendo danificar células cerebrais e impedir armazenamento na memória. Um estado emocional abalado pode obstruir a aprendizagem.

2. Como na criança as conexões entre os neurônios ainda precisam se formar, o educando necessita de orientação, regras claras e definidas para construir uma boa rede neural sináptica. Não deve ser o filho quem dita as normas. O filho deve possuir rotina, disciplina e limites. A regularidade de hábitos, saber esperar, terminar o que se começou, obedecer, respeitar o educador, hierarquia entre educando e educador promovem a concentração.

Não segurar o desenvolvimento do filho, com atitudes que não o deixam amadurecer emocionalmente como: deixar dormir na cama dos pais, possuir objetos e atitudes de bebê após a fase escolar, retirar as frustrações normais da vida, -isso o deixa com ego fraco-, ou satisfazer todas suas vontades. É pela falta que surge o desejo de crescer, de aprender, já orientava Freud. Mas não pela falta de afeto.

Deve-se dar autonomia ao filho e não fazer tudo por e para ele, pois isso lhe dá o sentimento de que é incompetente para executar as coisas que já poderia fazer e torna-o preguiçoso. Os extremos, superproteção e abandono, acarretam o mesmo prejuízo emocional.

3. Crianças, adolescentes e adultos devem dormir cedo da noite. Dormindo, produz-se o hormônio do crescimento que também regenera o tecidos e protege o sistema neuro endócrino imunológico (CALLEGARO, 2006). Seu pico de produção se encontra entre 21h e 1 hora da manhã (TOUITOU,1999), o qual só acontece quando a pessoa está dormindo no escuro (ANDREWS, 2006). Durante o sono são armazenadas as informações adquiridas durante a vigília. A qualidade do sono influencia o sistema nervoso, a memória, a capacidade de aprendizagem, a hiperatividade ou a hipoatividade, a concentração e o equilíbrio emocional.(CALLEGARO, 2006)

4. A ingestão excessiva de açúcares e refinados como farinhas brancas degenera as proteínas do corpo (PERRICONE, 2007; CALLEGARO, 2006). E a camada que reveste o axônio do neurônio, a mielina, também possui em sua composição proteína, bem como, a hemoglobina do sangue, que deve levar oxigênio às células. Em um axônio bem mielinizado o impulso nervoso cumpre de maneira eficaz sua função. Já com mielina deteriorada o impulso nervoso corre devagar (NEUBAUER, 2004), podendo se dispersar no meio do caminho, estafando anormalmente as pessoas, promovendo dificuldades de aprendizagem. O açúcar desmineraliza, descalcifica, desvitaminiza (TRUCOM, 2007) e compete com as vitaminas B que são essenciais para um bom funcionamento neural (AMARAL, 1998).

5. Movimento e sol: pelo movimento formam-se mais conexões neurais, e as atividades do corpo e do pensamento são interdependentes aumentando a capacidade de aprendizagem (LEVIN, 2005). Na hiperatividade e na falta de concentração têm-se deficiência de dopamina e após 20 min de movimento contínuo, o corpo começa a produzir dopamina, serotonina, noradrenalina, endorfina e o recém descoberto irisim. Já o sol estimula a produção de vitamina D que estimula a dopamina que por sua vez estimula a produção da serotonina, hormônio da alegria. A alegria favorece a concentração e a vontade de viver.

Entretanto mesmo levando em conta todos esses cuidados a pessoa pode ter uma deficiência mineral e vitamínica, precisando-se fornecer vitaminas e minerais ao cérebro para eliminar os sintomas nefastos acima descritos.

6. O ser humano é um composto de minerais e vitaminas, provenientes dos alimentos que vêm do solo. Somente no sangue foram encontrados noventa elementos químicos entre macro, micro e traços de elementos (BOWEN,1966,p.81), que um ser humano saudável precisa no mínimo. Como atualmente a maioria dos alimentos é oriunda de solos exauridos, nossa alimentação não possui mais o que deveria conter para uma saúde desejada. Uma planta sadia possui 45 macro e micro elementos segundo o Serviço de Pesquisa Agrícola americano e inúmeros traços de elementos químicos, chegando em torno de 80 elementos nutrientes necessários à uma nutrição saudável. Assim, um organismo deficiente em nutrientes essenciais, fica predisposto a inúmeros riscos de saúde, entre eles o déficit de atenção.

No momento em que uma planta é atacada por uma praga é porque ela está deficiente de alguns minerais, os quais trabalham em rede, em proporções especificas entre si e a falta de um elemento desativa a absorção de uma série de outros elementos, mesmo estando disponíveis (PRIMAVESI, 2006). A praga serve para eliminar o que não serve para o consumo humano. No entanto, aplicam-se defensivos e aquela planta, não só com resíduos tóxicos mas deficiente em nutrientes, é posta nas prateleiras para o comércio. Com essa oferta de alimentos pobres nutricionalmente, faz se necessária uma suplementação vitamínica mineral.

Por exemplo, uma fruta sã por fora, mas podre por dentro possui deficiência de cálcio, uma fruta com polpa seca está deficiente de fósforo. Uma banana empedrada possui deficiência de boro, casca rachada é deficiência de cobre, casca de fruta muito grossa é deficiência de fósforo. Muita fina, de potássio.(PRIMAVESI, 2003)

Carência de boro, pode se manifestar como um nervosismo relacionado a ruídos diversos(MILANESE, 2007). O zinco é responsável pela eliminação de CO2 dos hematócitos, permitindo a oxigenação do sangue (PENLAND, 1999; PFEIFFER, 1978). As vitaminas B estão envolvidas em sínteses cruciais para o bom funcionamento cerebral, sua deficiência está associada à disfunção de memória e aprendizagem (ROSENBERG, 2007; HOMUTH, 2001/2002). Esses são alguns exemplos da importância de diversos elementos químicos necessários para uma boa constituição e funcionamento do sistema nervoso.

7. Verminoses: nosso cérebro possui por volta de cem bilhões de neurônios, enquanto o intestino, considerado nosso segundo cérebro, possui trezentos milhões de neurônios. 90% da serotonina (favorece o aprendizado por vários mecanismos) é produzida pelos neurônios do intestino. (CALLEGARO, 2006)

Entramos frequentemente em contato com vermes, mas esses só se instalam no organismo quando se tem alguma deficiência mineral (CALLEGARO, 2006). Portanto o combate à verminose é muito importante e posteriormente a reparação de minerais e vitaminas para deixar o organismo saudável. Muitos alunos conseguem se concentrar simplesmente após eliminação de parasitas intestinais.

Bibliografia

ANDREWS,S. “A nutrição do sono”. Época, 18/9/2006.

BOWEN,H.J.M. Trace Elements in Biochemistry. Londres: Academic Press, 1966, p.81.

CALLEGARO, J.N. Mente criativa: a aventura do cérebro bem nutrido. Petrópolis: Vozes,2006

HOMUTH,C. Melhorando a função cerebral. Cérebro e Mente, no.14, nov. 2001-mar. 2002.

LEVIN,E. “O corpo ajuda o aluno a aprender”, Nova Escola, jan.-fev. 2005.

MILANESE, F.E. Materia médica homeopática ampliada pela Antroposofia – Boro. São Paulo: (s.n), 2007.

NEUBAUER,A.C. “Chaves da inteligência”. Revista Viver Mente e Cérebro. Tradução de Luciano V. Machado. São Paulo: Duetto, Nov. 2004.

PENLAND,J.G. “Zinc and speed of recall”. Agricultural Research, nov. 1999. E-mail: jpenland@gfhnrc.ars.usda.gov

PERRICONE, N. A dieta Perricone. São Paulo: Campus, 2007.

PFEIFFER, C. Zinc and another micro-nutrients. Keats: New Canaan, 1978.

PRIMAVESI, A. “Agroecologia: solo, planta, água, nutrição, saúde”. Anais do Encontro de Agroecologia. Campinas, nov. 2003.

_____, Manejo Ecológico do Solo, 18ª ed. São Paulo: Nobel, 2006.

ROSENBERG, I.H. “Boosting our knowledge of brain food”, Agricultural Research, nov./dez. 2007.

TOUITOU,Y. “Biological clocks”. International Congress on Chronobiology/Université Pierre et Marie Curie. Paris: Elsevier Science, 1999.

TRUCOM,C. “Açúcar: gostoso veneno ou doce ilusão?”Vegetarianos, n.13, 2007.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Oito mulheres que revolucionaram a educação

Do site
08/03/13 


A história da educação é construída por mulheres que, desde os primórdios, lutaram pela democratização da construção do conhecimento e por processos educativos que tivessem os alunos como sujeitos ativos. Neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher, o Portal Aprendiz reuniu uma lista com oito nomes importantes para a educação, que vão de pedagogas e psicólogas à ativistas sociais, nacionais e internacionais. Confira!

1. Sabina Spielrein

Uma das primeiras mulheres psicanalistas do mundo, Sabrina Spielrein foi pioneira no estudo do método voltado à infância. Russa e judia, revolucionou a educação infantil ao criar, em 1923 junto com Vera Schmidt, a primeira creche que utilizava noções de psicanálise, em Moscou, na então União Soviética. Conhecido como Berçário Branco, já que todas as paredes e mobiliários eram brancos, tinha como prioridade o amadurecimento crítico e analítico das crianças. A instituição foi fechada três anos depois por autoridades soviéticas com a acusação de que o local estimulava prática de “perversões sexuais”. O trabalho de Sabina influenciou o de Carl Gustav Jung, psiquiatra que a tratou com métodos freudianos quando foi diagnosticada com histeria durante a juventude e que, depois, foi seu amante.

2. Stefa Wilczynska

Filha de família judia, a pedagoga foi influenciada pelos pensamentos da Escola Nova, que defende que a educação deve se basear nas experiências dos indivíduos e que as instituições de ensino devem deixar de ser meros locais de transmissão de conhecimentos para tornarem-se pequenas comunidades. Ao lado de Janusz Korczak, pedagogo referência na criação da “Declaração Universal dos Direito das Crianças”, Stefa criou um orfanato em Varsóvia (Polônia) que instituía uma República das Crianças, organizado sobre os princípios da justiça, fraternidade, igualdade de direitos e obrigações. O local contava com confortáveis salas de estar e de refeições, biblioteca e dormitórios claros. Entretanto, esse ambiente acolhedor foi perdido quando a Gestapo – a polícia política do estado nazista – transferiu para uma pequena casa com quartos sujos, apertados e sem mobília. De lá, Korczak, Stefa e as 200 crianças foram levados para as câmaras de gás.

3. Maria Montessori

A primeira mulher a se formar em medicina na Itália foi também responsável por criar um método educacional, que leva o seu nome, e é aplicado até hoje em escolas públicas e privadas de todo o mundo. Maria Montessori criou, em 1907, a primeira Casa dei Bambini, colocando em prática a teoria que visava uma “educação para a vida” e a formação integral dos indivíduos. A educadora acreditava que as crianças eram capazes de conduzir o seu próprio aprendizado, cabendo ao professor apenas acompanhar esse processo. Nesse sentido, a função da educação seria estimular um impulso interior que se manifesta no trabalho espontâneo do intelecto. A pedagogia se insere no movimento da Escola Nova ao se opor aos métodos tradicionais que não respeitam as necessidades e os mecanismos evolutivos do desenvolvimento de meninos e meninas.

4. Rosa-María Torres

A linguista, educadora e ativista social participou de movimentos em defesa de uma educação de qualidade e assumiu cargos importantes em organismos internacionais da área. Durante 22 anos, foi diretora pedagógica da Campanha Nacional pelo Letramento, no Equador, e após a Conferência Mundial de Educação para Todos em 1990, tornou-se assessora educacional da Unicef em Nova York. Esteve à frente de programas para a América Latina e o Caribe na Fundação W.K. Kellogg (1996-1998), onde desenvolveu a iniciativa para o ensino fundamental denominada “Learning Community”, que levou para a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e continuou a desenvolver na instituição, de 1998 a 2000. Em 2003, assumiu o Ministério da Educação e Cultura do Equador.

5. Emília Ferreiro

A psicóloga e pedagoga argentina, radicada no México, desvendou os mecanismos pelos quais as crianças aprendem a ler e escrever, o que levou muitos educadores a rever radicalmente seus métodos. Seu nome passou a ser ligado ao construtivismo, campo de estudos inaugurado pelas descobertas de Jean Piaget. As pesquisas de ambos levam à conclusão de que as meninos e meninas têm um papel ativo no aprendizado, construindo seu próprio conhecimento – como já diz o nome construtivismo. Diante disso, Emilia inverteu a lógica tradicional de educadores que só se preocupavam com a aprendizagem quando o aluno parecia não aprender, transferindo o foco da alfabetização para o sujeito que aprende. Suas conclusões inspiraram políticas públicas educacionais em diversos estados brasileiros, a partir dos anos 1980.

6. Mariazinha Fusari

A arte-educadora Maria Felisminda de Rezende e Fusari, conhecida como Mariazinha Fusari, foi cofundadora do Núcleo de Comunicação e Educação, da USP (Universidade de São Paulo) e por meio de seus projetos de pesquisa no campo da relação entre mídia e infância colaborou para a ampliação do diálogo entre os campos de conhecimento da comunicação e da educação. É considerada até hoje um dos principais nomes da educomunicação no Brasil.

7. Êda Luiz

Coordenadora pedagógica do Cieja (Centro de Integração de Jovens e Adultos) do Campo Limpo, na zona sul de São Paulo, Êda Luiz transformou a instituição em um lugar onde o aprendizado é percebido e experimentado dentro e fora da sala de aula, extrapolando as disciplinas curriculares. Êda é responsável por tentar desenvolver um modelo de escola democrática: um espaço educativo aberto à comunidade, com acesso livre, sem trancas e de mútuo respeito entre as pessoas. A educadora assume influência de Paulo Freire, quem conheceu em um curso na PUC (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Protagonista de uma história de dedicação à educação, ela já foi também professora em escola rural e na antiga Febem (Fundação Estadual do Bem Estar do Menor).

8. Maria Teresa Mantoan

A pedagoga brasileira dedica-se, nas áreas de pesquisa, docência e extensão na faculdade de educação da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), ao direito incondicional de todos os alunos à educação escolar de nível básico e superior de ensino. Uma das maiores defensoras da educação inclusiva no Brasil, Maria Teresa Mantoan é crítica convicta das chamadas escolas especiais. Oficial na Ordem Nacional do Mérito Educacional no Grau de Cavaleiro, recebeu reconhecimento a contribuição à educação no Brasil.

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terça-feira, 6 de agosto de 2013

Rede social estimula leitura e ajuda estudantes a desenvolverem a escrita

Almanaque da Rede estimula a leitura e a escrita, e oferece ainda videoaulas de física, matemática e biologia para estudantes do ensino fundamental ao superior (Foto: Berkeley Lab/Creative Commons)

A redação é um dos vilões para os estudantes que se preparam para vestibulares e também para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Escrever exige, além do conhecimento sobre tema proposto, o domínio da língua portuguesa e a organização dos pensamentos.

Reunir tudo isso em um texto que em geral é de até 30 linhas não é uma tarefa fácil para boa parte dos alunos. Pensando nisso, a escritora Sônia Rodrigues desenvolveu a plataforma de ensino Almanaque da Rede, uma rede social que estimula a leitura e oferece meios para que os alunos melhorem a escrita. Os estudantes interagem dentro do site em uma dinâmica nos moldes do Facebook, podendo escrever textos, além de interagir, lendo e comentando as redações escritas pelos amigos.

A estrutura do Almanaque na Rede é dividida em jogos, que trabalham diferentes habilidades nos estudantes:

- Jogo das Narrativas: exercita a criatividade e ajuda a contar uma história em todas as etapas, desde criar uma boa trama até desenvolver cenários e personagens;

- Jogo dos Diálogos: propõe uma história em quadrinhos em que o aluno decide os rumos da história. Com este jogo o estudante aprende a analisar problemas e desenvolver pontos de vista com os personagens;

- Jogo dos Desafios: ensina a desenvolver a escrita em tipos diferentes de textos como dissertação, narração, mensagem e descrição;

- Jogo das Resenhas: o estudante é convidado a aliar a escrita à cultura, com a possibilidade de ganhar prêmios no processo pelos textos escritos;

Há, ainda, o espaço “Sei mais”, que oferece conteúdos específicos de Português, Biologia, Física e Matemática. Para cada uma destas atividades – ler, comentar, escrever redações ou assistir às videoaulas – os estudantes ganham pontos. “Tudo que ele (o estudante) faz no ambiente é recompensado, como uma forma de estímulo para que eles continuem a participar e se desenvolver”, explica Sônia.

O projeto, iniciado em 2009, já teve a participação de 15 mil jovens e oferece conteúdos desde o ensino fundamental até o superior. Atualmente, o almanaque da Rede trabalha em parceria com as Bibliotecas-Parque da Rocinha e Manguinhos ou da Biblioteca Pública de Niterói, no Rio de Janeiro. A evolução dos estudantes é acompanhada de perto e os resultados, segundo Sônia Rodrigues, são sempre positivos. “A avaliação externa que mostra que conseguimos eliminar, em quatro meses, o analfabetismo funcional dos alunos de ensino médio”, comemora.

Os vídeos do “Sei mais física”, com aulas de física e matemática, também podem ser encontrados no Youtube. O canal do projeto tem 235 videoaulas, e já foi visualizado mais de 4,5 milhões de vezes. Em breve, o Portal EBC também vai publicar alguns desses vídeos para os estudantes que se preparam para o Enem.

O site tem, ainda, um espaço para que professores deem sugestões de atividades e interajam com os alunos. Escolas interessadas em fazer capacitações com os professores também podem procurar o Almanaque da Rede, que oferece oficinas presenciais ou online para grupos de educadores.

Matéria de Ana Elisa Santana, do Portal EBC, publicada pelo EcoDebate, 06/08/2013
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domingo, 4 de agosto de 2013

Entrevista com José Pacheco, da Escola da Ponte: “O professor deve ser um mediador de conhecimentos”

Leia matéria sobre o Projeto Âncora, coordenado pelo educador português José Pacheco, e em seguida, uma entrevista com ele.


Não temos séries, nem ciclos, nem classes, nem nada…

Projeto Âncora segue metodologia da Escola da Ponte, com orientação do português José Pacheco, educando cerca de 350 crianças de baixa renda gratuitamente

Por Adriana Delorenzo e Renato Rovai
(Fotos: Adriana Delorenzo)

Ao entrar no projeto Âncora nem parece que se está numa escola. A iniciativa, localizada no município de Cotia (SP), está longe de ser uma proposta tradicional. Inspirada pela Escola da Ponte, de Portugal, lá não há séries, provas e as salas de aula comuns, com um professor falando para alunos organizados em fileiras. Tenda de circo, pista de skate, muita área verde e salas sem divisões compõem o espaço.

A história começou em 1995, quando o empresário Walter Steurer passeava pela região onde morava e viu um terreno à venda. “Ele foi um empresário de muito sucesso e, quando se aposentou, vendeu a empresa, e tinha a ideia de continuar fazendo coisas. Quando comprou o terreno pretendia fazer um condomínio de casas”, conta a esposa Regina Steurer. Mas o destino da área acabou sendo outro. “Ele decidiu empregar o dinheiro que já tinha ganhado em algo que fizesse sentido. Walter tinha claro que o Brasil tinha dado para a família dele tudo que eles tinham, era uma família austríaca, que chegou aqui fugida da Primeira Guerra. Ele pensou: ‘Tenho que devolver ao Brasil o que o país me deu’”, lembra Regina, que fundou o projeto Âncora ao lado do marido.

Quinze dias antes de Walter Steurer falecer, em 2011, o educador português José Pacheco entrou em contato dizendo que aceitara o convite para orientar o Âncora e transformar o projeto numa comunidade de aprendizagem. Reparem a sutileza. Comunidade de aprendizagem, e não uma escola. Pacheco já tinha conhecido o projeto cerca de cinco anos antes, quando tinha feito uma palestra no local. A iniciativa foi criada com três núcleos: de educação infantil, com período integral, para crianças entre 2 anos e a idade de entrar no ensino fundamental; o ensino complementar, que recebia adolescentes da escola pública no contraturno escolar; e cursos profissionalizantes, para jovens e a comunidade.

“O nosso sonho era ter a escola de ensino fundamental para ficar com as crianças o dia inteiro, mas não poderia ser uma escola qualquer”, explica Regina. Conhecida como um marco pedagógico, a Escola da Ponte, localizada em S. Tomé de Negrelos, no distrito do Porto, em Portugal, desenvolveu um método pedagógico no qual é valorizado o conhecimento do aluno. “Não temos séries, nem ciclos, nem classes, nem nível, nem nada, porque isso não tem fundamento cientifico”, afirma Pacheco.

Quem explica como funciona o Projeto Âncora é a garotinha Allanys, de 10 anos. São sempre os alunos que levam os visitantes para conhecer o local. E é impressionante o envolvimento das crianças com o projeto. Allanys conta que é a própria criança quem define seu planejamento. No dia da visita da Fórum, entre os conteúdos que ela iria estudar, estavam o sistema solar e a história da princesa Isabel. Quando o aluno sente que já sabe o conteúdo, solicita ao professor uma avaliação. O professor conversa com o aluno e, se sentir que ainda é preciso aprender mais, orienta o aluno a procurar mais informações. Nesse caso, incentiva-se o aluno a buscar informações nos livros, internet e com os colegas. Em vários locais há uma lista onde, em uma coluna, se inscreve quem pode ajudar, e na outra quem precisa de ajuda. Cada aluno tem um tutor, que é um professor responsável por um grupo de alunos. São feitas assembleias a cada 15 dias para debater problemas da escola.

Para José Pacheco, o professor deve ser um “mediador de conhecimentos”. Segundo ele, esse modelo da Ponte é bem mais barato que as escolas tradicionais e apresenta melhores resultados. De acordo com o educador, em Portugal os alunos da Ponte conseguem melhores notas que os de outras escolas quando chegam ao ensino médio.

Hoje, já são mais de mil com projetos semelhantes no mundo que seguem as práticas adotadas na Ponte. “Não é clonagem, as escolas não são réplicas, mas se inspiraram na Ponte, e cada uma faz um melhor trabalho do que fazia antes, mudando sua forma de trabalhar”, diz Pacheco.

“Gostaria que todas as crianças do Brasil tivessem o que as nossas têm”, afirma a gestora do Âncora, Suzana de Camargo Ribeiro. Hoje, estudam no Âncora cerca de 350 alunos gratuitamente. Para entrar na escola, é preciso morar na comunidade e as famílias têm que ter renda de até três salários mínimos. “A gente prioriza que todos os irmãos estejam na escola. Isso é o que é hoje, mas não é o que a gente sonha. Sonhamos para todos”, complementa Regina.

O maior desafio do Âncora, segundo os gestores, é o financeiro. No início, o empresário Walter mantinha o projeto. Conforme o diretor do projeto Fábio Zsigmond, hoje a iniciativa se sustenta por meio de doações de associados (30%) e de fundos incentivados, do imposto de renda de pessoas físicas e jurídicas. O orçamento anual é em torno de 1,5 milhão de reais. “A gente não tem um fundo estável, todo ano tem de ir atrás”, finaliza.

As escolas brasileiras são como usinas que engolem gente e vomitam bagaço
O educador José Pacheco é idealizador da Escola da Ponte, localizada a 30 quilômetros de Porto, em Portugal. Lá ele conseguiu colocar em prática, desde 1976, métodos que fogem das escolas tradicionais. Sem séries, ciclos, provas, paredes e muros, sua proposta, como ele faz questão de dizer, não é feita só com um professor, conta com a participação de toda a equipe, que se mobiliza para ousar e fazer uma educação diferente. Para Pacheco, já está provado que a forma como o Brasil está educando as suas crianças e jovens não deu certo. Crítico, ele defende que, em vez de avaliações e rankings, sejam criadas comunidades de aprendizagem, onde os alunos vão construindo seu conhecimento, uns com os outros. Para ele, não dá mais para se pensar em salas de aula com um professor falando para os alunos enfileirados. Morando no Brasil, onde coordena o projeto Âncora, Pacheco afirma que a Ponte pode servir de “protótipo” para outras escolas, mas cada uma deve encontrar o seu jeito de fazer. Leia a seguir a entrevista com Pacheco, que é autor de diversos livros entre elesCaminhos para a Inclusão (Artmed) e Escola da Ponte (Vozes).

Revista Fórum – O senhor é crítico em relação à forma como o Brasil tem desenvolvido seu projeto educacional e costuma dizer que não estudamos nem aplicamos os ensinamentos de grandes educadores como Paulo Freire, Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira. O que está errado no projeto de educação no Brasil?

José Pacheco – Não é justo que se faça isso e que se continue a promover um modelo de escola do século XIX, com o professor sozinho na sala de aula. Não encontro explicação para os 30 milhões de analfabetos que o Brasil tem, por isso é preciso ousar. Mas com responsabilidade, não estou falando de oba-oba. No Brasil, como em Portugal e em outros países, continuamos a ensinar jovens do século XXI com professores do século XX e um paradigma do século XIX. Esse é o principal problema. Com ou sem novas tecnologias, aliás as novas tecnologias até podem contribuir para aprofundar a crise se forem usadas em função do paradigma velho. E quando falo isso é porque sei que há alternativas. O que acontece no Brasil é que, para além de se desperdiçar recursos, basta dizer que o último relatório da Fiesp [Relatório Educação: gastos públicos e propostas de melhorias,da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, de outubro de 2010], sobre dez anos de desempenho do Ministério da Educação, mostra que o sistema educativo brasileiro desperdiça por ano 56 bilhões de reais, isso é inconcebível. Hoje, o custo aluno/ano do Brasil é um dos maiores do mundo. Estamos em um momento em que é preciso dizer: Essa escola com origem na França, na Prússia, na Inglaterra da Revolução Industrial, acabou há mais de cem anos. O Caetano de Campos já falava isso no Império. A questão é por que o poder público mantém esse monstro. Será que é porque convém a alguém? Por que convém a indústria do cursinho? Será que é porque convém que haja desigualdade, que haja marginalidade, porque convém que haja tráfico? A questão é mesmo essa. Pergunto muitas vezes a mim mesmo como, perante as evidências dos rankings e das violências múltiplas que vivemos, dentro e fora do ambiente escolar, como se consegue manter uma coisa dessas. Como diria João Cabral de Melo Neto, as escolas brasileiras são como usinas que engolem gente e vomitam bagaço. Ele escreveu isso há 50 anos, e continua assim. Eu sou um crítico, um crítico desses titulares do poder público que continuam a fomentar o desperdício, a infelicidade e a ignorância. Porque é possível de outras maneiras. E é possível sem ir comprar do estrangeiro. As soluções estão aqui dentro. Fico muito revoltado, a palavra é essa, revoltado, quando vou às faculdades de Pedagogia e não vejo nas bibliotecas nenhum livro do Lauro de Oliveira Lima, ou de outros de sua geração, nem da Maria Nilde [Mascellani], nem de Nilza Silveira. Vejo os Piagets, os Vygotskys e toda essa inutilidade europeia e norte-americana ou asiática, porque o Vygotsky é da Rússia.

Mas o que fazemos aqui no Âncora poderá servir de protótipo, porque nada se repete, para provar a possibilidade de eu ter crianças e jovens das classes D e E com excelência acadêmica e inclusão social. Se nós provarmos isso, sem ter um centavo do poder público, com crianças “jogadas fora” das outras escolas no município com o mais baixo Índice de Desenvolvimento de Educação Básica [Ideb] do Estado de São Paulo, que é Cotia, eu quero ver o que o Estado brasileiro vai fazer. O que as prefeituras vão fazer. Se vão continuar a investir no desperdício ou se vão reconsiderar e perceber que esses professores que temos aqui, esses educadores, são da mesma calha, com a mesma formação, com a mesma cultura. E com eles se constrói uma coisa assim.
No Projeto Âncora, as carteiras não são dispostas em filas, mas em baias. E os alunos fazem seu programa de estudo do dia. E os professores são tutores

Quando eu escuto certos responsáveis pelo Ministério da Educação falar da Finlândia, eu pergunto se falam da mesma Finlândia que eu. Porque quando os vejo introduzindo mais provas, mais exames… a Finlândia acabou com os exames. Quando os vejo não respeitando o artigo 15º, a Lei de Diretrizes e Bases, que concede às escolas sua total autonomia, eles esquecem que na Finlândia as escolas são todas autônomas. Quando eles engordam o Ministério da Educação, esquecem que na Finlândia enxugaram o Ministério ao mínimo.

Fórum – O senhor tem falado muito da questão da avaliação, que se tornou modismo no Brasil. Mas também há a moda do apostilamento. E atualmente muitas prefeituras têm adquirido métodos apostilados. Isso também não é deletério para a educação?

Pacheco – Passo grande parte do meu tempo entrando em escolas e o que eu vejo é sistema apostilado, caro e quase sempre com um dinheiro por fora para alguém que contrata. Já ouvi certos relatos que me deixam enojado, é este o termo, de ver tanta máfia, tanta corrupção envolvendo educadores. Vejo esses livros todos utilizados como consumidores de currículos e tornando professores em papagaios. Enquanto vejo nos arquivos os livros que o Ministério da Educação manda fazer e distribuir de graça para as escolas. Estão lá, dentro dos plásticos, dentro das caixas, ninguém os usa. E usam esse sistema apostilado. A pergunta é: Por quê?

Quando você me fala de avaliação, eu pergunto: Qual avaliação? Eu não vejo avaliação nenhuma. Que me perdoe a Fundação Getúlio Vargas ou outra, onde está a avaliação nesse País? Qual avaliação? O que é o Ideb? O Ideb não é o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica. É o índice de “decoreba” na educação básica. Vamos aplicar a mesma prova passando alguns meses e vamos ver se o resultado é o mesmo.

Segundo, fluxo escolar, defasagem, por que há defasagem? Por que há ano letivo? Por que há ciclos? Por que há séries? Se nada disso tem fundamento científico. Por que é que se faz avaliação sobre o critério desses indicadores? Ou seja, o que existe é classificação, e malfeita, rankings que ignoram variáveis fundamentais, como a origem social, por exemplo. No Brasil, não há uma cultura de avaliação, há uma cultura de ranking leviano. O que me espanta é que gente que está na faculdade e que forma professores na área da avaliação entre nessa indústria.

Avaliação, nesse País, é muito simples fazer, basta verificar que aqueles que saem do curso de Direito com um diploma não conseguem aprovação no Exame da Ordem dos Advogados. Ou engenheiros que saem das faculdades brasileiras e são substituídos por engenheiros estrangeiros, porque os brasileiros não têm qualificação profissional para os cargos. Isso é avaliação? Avaliação é saber que 4 milhões de brasileiros em idade escolar estão fora da escola, o que é quase a metade da população de Portugal. Isso é avaliação. Avaliação é perguntar: Você sabe raiz quadrada? E perceber que, em cada cem, só três ou quatro crianças sabem. Ou seja, não apreenderam. Avaliação é saber que, mesmo “papagaiando” e utilizando apostilas, as crianças não aprendem, fazem decoreba, vomitam em prova e se esquecem logo depois. Isso é avaliação. O resto é o faz de conta na avaliação. O resto são milhões de reais gastos em pseudoavaliações. O resto é alimentar um sistema que não reconhece os erros, porque as avaliações que se fazem já estão comprometidas com os próprios parâmetros, critérios e indicadores.

Fórum – Isso não tem muito a ver com a lógica conservadora da escola, não só com a questão política, não é verdade? Essa dinâmica de giz, lousa e o professor sendo autoridade suprema está incorporada à escola há alguns séculos e, por isso mesmo, os educadores parecem ter dificuldade em abrir mão disso. 

Pacheco – No Brasil, muito mais, porque nós temos uma herança jesuítica. Não tenho nada contra os jesuítas, grandes obras fizeram, mas legaram uma herança cartesiana, positivista, que é pior. E temos um outro problema: a universidade brasileira é uma das mais conservadoras que conheço. O Pierre Lévy dizia que a universidade perdeu o monopólio do saber e apenas mantém o monopólio da creditação do diploma. E esse é um problema sério. Quando me convidaram, ainda em Portugal, para trabalhar na universidade, diziam: “Na Ponte é possível, mas não é possível na universidade”. Perdoai a arrogância, mas eu provei que era possível.
Os estudantes ficam em tempo integral no Projeto Âncora e almoçam no local

Mas o que mais me chocou quando entrei foi perceber que era uma Faculdade de Educação e de Psicologia e que estudavam Vygotsky, uma visão construtivista, e que estudavam toda a psicogênese, tudo que era filosofia, pedagogia, sociologia da educação. Percebiam a desmontagem feita por Foucault, Bourdieu, da escola que temos. Compreendiam isso tudo, no domínio, no conceitual, e eu entrava nos espaços deles e era cadeirinha atrás de cadeirinha, aluno olhando a nuca da frente e o professor papagaiando aquilo que qualquer um deles poderia ler em um livro em casa, sem precisar ir à faculdade. Eu perguntava: Onde é que está a coerência? Nós temos uma universidade que é um monstro, e a universidade é a matriz. O modo como o professor aprende é o modo como o professor ensina. Se ele é formado escutando aula, ele vai dar aula. E onde é que está o Vygotsky? Um dia, um doutor da faculdade me disse que tinha doutorado em Vygotsky. E eu perguntei: “Por acaso você leu o mesmo Vygotsky que eu li?”. É impossível considerar que, tendo estudado até o doutoramento, Vygotsky continuasse a dar aula, porque é contraditório.

A universidade continua com essas práticas sacerdotais, da posse e venda do saber, esquecendo que um professor não ensina aquilo que diz, transmite aquilo que é. Então eles transmitem essa velha cultura, de O nome da rosa [romance de Umberto Eco].

Fórum – O senhor tem feito isso na Ponte, e agora aqui no Âncora. Professor, qual é a receita da mudança? 

Pacheco – Não tem receita. Há uma atitude. Dentro dessas universidades que eu critico, tem gente muito bem equipada intelectualmente, gente sábia, gente boa. Eu não vou dizer nomes da universidade brasileira para não criar constrangimentos, mas da portuguesa posso dizer: Antonio Nova, Manuel Sarmento, Rui Canário, são as natas das natas da educação. No Brasil, também há muitos, o Brasil tem tudo que precisa e a universidade também. O que é preciso é coragem e responsabilidade. Coragem para ser coerente com aquilo em que se acredita. Ou seja, escolas são pessoas. Pessoas têm os seus valores, os valores transformados em princípios fazem desenvolver projetos. Falta coragem para fazer, coerência entre teoria e prática. Uma práxis coerente. E responsabilidade, porque tudo isso depende também de conhecimento, ou seja, tem de ser muito bem fundamentando e tem de estar enquadrado numa lei que o Darcy deixou em 1996, e que é quase perfeita: a Lei de Diretrizes e Bases na educação brasileira. Cumprir aquilo que está na Lei de Diretrizes e Bases já é revolucionário.

Fórum – O Projeto Âncora não adota o sistema de séries. Como é que se dá a passagem de ciclos? Como é o sistema de avaliação? Como se sabe se um aluno está preparado para sair na nona série? 

Pacheco – Não temos séries nem ciclos, nem classes, nem nível, nem nada, porque isso não tem fundamento científico. E como não tem fundamento científico, como educador considero um insulto praticar isso. Se o Ministério tivesse vergonha, não o faria também. Quando as crianças atingem a idade de passar para outros ciclos, nesse momento, até muito antes, eles adquiriram toda a grade curricular nacional, mais todo o chamado domínio não cognitivo, se é que há algum domínio não cognitivo, pois as duas coisas estão juntas. Mas há quem diga isso, pode ser que se refiram às atitudes do domínio socioemocional, moral, ético, estético.

Essas crianças, esses jovens estão aptos a sair como em qualquer outra escola, ou melhor, melhor que em outras escolas. A avaliação acontece quando o aluno sente que cumpriu determinada tarefa, que alcançou determinado objetivo, que aprendeu determinado conteúdo, que cumpriu determinado projeto. E a partilha daquilo que produziu enquanto conhecimento é a avaliação. Eu consigo transformar a informação em conhecimento, e ao transformar a informação em conhecimento, num contexto de projeto, pego o conhecimento e vou colocá-lo em ação, ou seja, desenvolver com crianças.

Avaliação é quando o aluno quer, quando o aluno sente que é capaz de partilhar conhecimento construído. Prova não é avaliação. E posso provar isso. É um mau momento de deseducação, que também posso provar.

Fórum – A escola da Ponte já deve ter uma serie de resultados que permitem comparações em relação a outras escolas da rede em Portugal. O que esses resultados demonstraram, professor? 

Pacheco – Os relatórios são realizados, as avaliações são realizadas, a pedido do Ministério da Educação, e são realizadas por uma equipe de avaliadores independentes, nomeados pelo ministério, que às vezes está até interessado em acabar com o projeto da Ponte. Tudo é avaliado por alguém externo, enviado pelo ministro da Educação. O que se tira dos relatórios é que no domínio cognitivo, no estudo diacrônico e comparativo, ou seja, comparando as notas dos ex-alunos da Ponte, quando foram para outra escola, com as notas de cerca de dez escolas da região, o resultado é este: em todas as disciplinas as melhores notas são dos alunos da Ponte. Segundo, em relação às atitudes, quando vão para outra escola, eles ensinam os outros a pesquisar, ajudam os outros a aprender, formam associações de estudantes, participam ativamente. São pessoas que colaboram, sabem pedir a palavra. No domínio da relação escola-família, é a comunidade que dirige a escola, não pode haver maior integração ou maior relação. Há vários parâmetros. A pergunta que faço é aquela que me fazem muitas vezes: Se a Ponte é assim, por que é que o Ministério da Educação, de Portugal, não torna todas as escolas como a Ponte? Ainda bem que não o fazem. Porque nada poder vir por decreto. A questão tem de ser outra, o Ministério da Educação tem de pedir conta para as outras escolas do porquê não fazem aquilo que a Ponte consegue fazer, com a vantagem de que a Ponte é a escola mais barata do meu País. A mais barata. E recebe alunos que as outras escolas jogam fora, e os recupera. Aluno que não aprende em outra escola, ou aluno que põe professor em estado de coma em outra escola, vai para a Ponte. Aluno da Febem de lá vai pra Ponte. Enquanto isso, as outras escolas produzem a defasagem, uma classe de reforço, outra classe de aceleração. E na classe de recuperação vai se dar mais do mesmo do que já foi dado. As pessoas não entendem que continuando a dar aula vão continuar a reproduzir esse déficit de darwinismo social. Como não percebem isso? Não percebem que, quando expulsam um jovem, esse jovem vai voltar, passado alguns anos, com um fuzil apontado para sua cabeça, não entendem isso. E que isso é despesa, isso é prejuízo, isso é desperdício. Então, por que é que não fazem uma Ponte? Porque essas escolas, nem os sistemas educativos, são geridos pela Pedagogia e para o bem da criança, são geridos por burocratas.

Fórum – Há escolas em São Paulo que se inspiram no projeto da Ponte, imagino que em Portugal devem ter outras tantas. 

Pacheco – Sim, vale lembrar que a maior parte não é projeto de escolas, são projetos de professores dentro da escola. E muitos desses professores foram meus alunos na Universidade, e agora estou me vingando, porque eles fazem a diferença. Mas mesmo aqueles que não foram, o espírito da Ponte os captou. Portanto, há muita gente muito boa fazendo um bom trabalho, normalmente são criticados, são perseguidos, mas há quem resista. No Brasil, há mais de cem escolas, que eu conheça, inspiradas na Ponte. Não são a Ponte, não são uma clonagem, não são réplicas, mas se inspiraram na Ponte. E cada uma faz um melhor trabalho do que fazia antes.

No mundo, que eu saiba, são mais de mil. E isso me assusta muito, porque há a ideia de oba-oba, do vamos deixar de ter aula, vamos deixar de ter série. E isso me preocupa, porque as pessoas têm de ter o bom senso de perceber que a Ponte faz o que faz porque fundamenta. As pessoas têm de ir devagar, porque grandes metas fazem-se com pequenos espaços. Porque a criança não é cobaia e merece respeito. E muitas vezes, em nome da Ponte e de muitas Pontes, fazem-se atrocidades. Tenho muito medo dessa expansão rápida e não defendo a alta escala. Defendo o modelo de contágio, porque acredito nos professores, na bondade e na inteligência dos professores. E acredito no tempo. Não sou otimista, sou esperançoso. O otimismo é da natureza do tempo, enquanto a esperança é da natureza da eternidade.

Fórum – Professor, o senhor acha que esse tipo da educação que se aplica aqui no Projeto Âncora pode ajudar a melhorar o ambiente social, pode contribuir para diminuir a violência na escola e fora dela?

Pacheco – Quando se fala da indisciplina dentro da escola, eu pergunto se ela não é filha do autoritarismo e da permissividade. Vou falar da nossa experiência no Projeto Âncora. Esses jovens que apareceram aqui no ano passado, jogados fora por outras escolas, vinham com esses sintomas, de extrema violência, de desrespeito total, porque eles tinham sido violentados e desrespeitados. Se eles não sabiam ler quando chegaram aqui, com 10, 11, 12 anos, é porque não foram respeitados. Isso é um exemplo de uma violência extrema, que foi condená-los ao analfabetismo. Será que as escolas não vêm produzindo isso? Será que as famílias continuarão a produzi-los? Será que é inevitável que nós tenhamos um país assim? Onde a juventude é assassinada por aí? É preciso que a escola pense qual é a sua responsabilidade no meio disso tudo.

Fórum – E qual é a responsabilidade da escola?

Pacheco – É decisiva. A escola é a instituição de transição. Ou seja, se a família os produz assim, a última hipótese que eles têm de ser gente é a escola. Mas a escola, como ela funciona, com projetos discricionários, com violência simbólica, organização prussiana, não tem sentido nenhum. O que fazem dentro da escola, os jovens no fundo das salas com os fones nos ouvidos enquanto os professores papagaiam a aula? Isso não pode ser. E os intervalos, que são exibições de bullying gratuito, das quais o professor foge para não se intrometer, porque também pode ser agredido, o que é isso? É uma insanidade. E continua a se perpetuar isso na escola e, acima dela, na sociedade. Até porque a escola é o modelo da sociedade.
Allanys, Ketlyn e Laysa: as alunas que apresentaram o Âncora para a reportagem

Fórum – O senhor já trabalhou em projetos municipais? É possível implantar esse tipo de projeto em uma cidade ou em um estado? 

Pacheco – Essa questão me é colocada, em geral, de outra forma. E dito normalmente assim: “Você não sabe o que diz porque nunca esteve no poder”. E aí eu respondo que fui prefeito da minha cidade. Sei que é possível fazê-lo por meio do poder. Eu fui prefeito, fui vereador, eu sei. Eu fui ajudar a fazer a Revolução dos Cravos, eu sei. Quando é preciso, faça-se. Quando se tem poder, exerça-se. Preciso dizer que em várias cidades e municípios onde eu vou, solidariamente, fraternalmente, há prefeitos e secretários que já entenderam e estão a alcançar, cada um a seu modo, processos de mudança que vão ser uma surpresa para o Brasil. Ao mesmo tempo, o Âncora vai partilhar aquilo que está construindo, e isso vai permitir que venham gente dessas cidades, dessas prefeituras, para partilhar conosco o que aqui fazemos, que se chama comunidade de aprendizagem. E que não é mais um conceito para fazer tese de doutoramento, é uma visão de sociedade. E é o futuro. Precisamos de comunidades de aprendizagem. Fixai a expressão. Não as comunidades de aprendizagem que já andam por aí, mas as comunidades de aprendizagem que sejam vizinhanças solidárias, que partam das necessidades concretas e dos sonhos e promovam um desenvolvimento humano sustentável. É disso que se trata. A escola, está lá dentro.

Fórum – Pelo que conversamos esse modelo também não é caro. 

Pacheco – Esses projetos são mais baratos, mais eficientes, mais eficazes.

Fórum – Falando em recursos, os salários dos professores no Brasil são baixos. Os salários daqui do Projeto Âncora são os mesmos da rede?

Pacheco – Aqui o salário também é baixo porque estamos a lutar com algumas dificuldades, mas presumo que dentro de dois a três anos, todos – e quando eu digo todos falo desde o coordenador ao cozinheiro, passando pelo jardineiro e o professor – ganhem o mesmo e ganhem talvez o triplo do que qualquer professor da escola pública. Isso é possível. Aliás, é possível que os professores brasileiros ganhem muito mais do que ganham. E que tenham um estatuto social menos depreciado. Basta enxugar despesas e dar autonomia à escola. Por exemplo, não é preciso livro didático nem uniforme, nem pagamento suplementar a diretor, nem é preciso diretor, nem é preciso ponto, nem é preciso coordenador, nem é preciso merenda escolar ou transporte escolar, não é preciso nada disso, nem é preciso consumos, nem é preciso papel higiênico, nem é preciso edifícios de escola. Eu não estou dizendo para derrubar os edifícios de escola ou tirar papel higiênico do banheiro, não é isso que eu estou dizendo, é que tudo isso pode ser enxugado. E tudo isso poderia ser feito desfazendo-se o edifício burocrático que se chama MEC, que é cheio de gente que não faz nada, que não produz conhecimento, não ajuda a melhorar a aprendizagem. Então, se nós tivéssemos a possibilidade de enxugar tudo isso, eu penso que os professores brasileiros ganhariam entre 15 a 20 mil reais cada. Enquanto continuar o desperdício, eles vão continuar a ganhar miseravelmente. Vão precisar ir de escola em escola ganhar o pão de cada dia. Mas a responsabilidade também é do professor. A responsabilidade também é dos órgãos de representação dos professores, que vivem numa perspectiva corporativista. Enquanto os professores não se afirmarem como pedagogos, enquanto se deixarem governar por burocratas, vão continuar à mercê daquilo que têm: baixo salário e um estatuto social depreciado. 

Data: 31.07.2013
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sexta-feira, 5 de abril de 2013

Diversidade de saberes marcam pesquisas em educação


Por Rúvila Magalhães - ruvila.avelino@usp.br
A análise de artigos científicos na área da educação publicados entre 2000 e 2010 reforça a ideia de que não se pode falar em conceitos absolutos sobre o tema. Não há lugar para verdades definitivas sobre a infância, mas para uma grande diversidade de saberes e pontos de vista. A conclusão é de uma pesquisa realizada pela pedagoga Lilian Alboz, na Faculdade de Educação (FE) da USP. Investigações sobre o poder exercido sobre as crianças e sobre a infância, no geral, também foram detectadas nas publicações estudadas.
Lilian iniciou sua pesquisa devido ao seu interesse no trabalho com crianças
Sob a orientação da professora Maria Letícia Barros Pedroso Nascimento, Lilian embarcou em sua pesquisa devido ao seu interesse no trabalho com crianças e a sua experiência profissional com educação infantil e ensino fundamental I, que abarca crianças de várias faixas etárias. Dentre as diferentes possibilidades de investigação que sua experiência profissional lhe possibilitaria, Lillian optou por buscar e estudar a produção acadêmica e científica sobre a educação. “Tal empreitada ajudaria a melhor compreender as teorias pós-críticas, seus propósitos e contribuições para se pensar a infância e sua educação”, afirma Lilian.
A teoria pós-crítica do currículo escolar, dentre seus vários objetos de estudo e vertentes, estuda também a multiculturalidade em suas origens, buscando garantir um aproveitamento educacional igualitário independentemente das diferenças culturais. Essa teoria lança questionamentos sobre a desvalorização da cultura de alguns grupos étnicos em detrimento de outros, assim como questiona alguns conceitos da modernidade como a razão e a ciência. A pós-crítica é baseada também no pós-estruturalismo que acredita que o conhecimento é algo incerto e indeterminado.
Foram escolhidos artigos de periódicos científicos na área da educação publicados no período de 2000 a 2010.
O objetivo do estudo foi entender de que forma se dava a produção acadêmica da educação pós-crítica sobre a infância, especialmente os trabalhos inspirados na obra do filósofo francês Michel Foucault, durante o período analisado. Para atender aos objetivos do trabalho foram escolhidos artigos de periódicos com referencial bibliográfico foucaultiano, observando se as temáticas envolviam crianças ou a infância e se nos resumos havia referências a conceitos desenvolvidos por Foucault. O filósofo é conhecido por, entre outros feitos, estudar as relações entre poder e conhecimento. Para ele, o conhecimento tem sempre uma finalidade, que é a vontade de dominar, logo, buscar a verdade seria uma forma de atingir o poder. Não há poder sem o saber e ambos residem nas relações sociais, segundo sua teoria.
Como o tema  ”educação na infância” é marcado pela diversidade de opiniões, sempre havendo discordâncias em relação à caracterização ou homogeneização da teoria da pós-crítica, buscou-se montar esse apanhado de pontos em comum escolhidos a partir da leitura de estudiosos do assunto. Foi possível identificar que tais produções colocam em xeque as relações poder/saber envolvendo a infância. A fidelidade dos questionamentos pós-críticos dessas obras também são estudados. No entanto, o objetivo final da pesquisa não é estabelecer conceitos, mas apresentar um olhar analítico sobre as produções estudadas.
Resultados
Por meio da análise dos artigos selecionados, foi possível perceber que os autores dos artigos estudados buscam entender como o poder se exerce sobre a infância, cada um a sua maneira, com um diferente objeto de análise. A partir de uma análise geral, pode-se concluir que a prática do poder ocorre por meio de uma rede de poderes, saberes, aparatos e tecnologias, todos eles em permanente deslocamento devido à resistências encontradas no caminho. Ao mudar uma forma de poder ou saber, a influência das linhas de força acaba por modificar-se, gerando linhas de fuga e consequentemente produzindo novos modos de visibilidade e interpretação no que diz respeito à infância.

Um exemplo pode ser encontrado no ambiente da sala de aula. O professor tem o saber que o aluno não tem, consequentemente ele é o portador do poder nesse ambiente, validado pela instituição escolar e as tradições que ela carrega. Quando o professor encontra a necessidade de mudar a estratégia de aula diante do choro de um aluno ou de uma situação de conflito, esse aluno exerce o poder sobre o professor. A mesma situação pode ocorrer por meio do carinho ou pela persuasão.
“Fica evidente, na análise dos textos, que a escola, a pedagogia, as políticas educacionais funcionaram e continuam operando como potentes máquinas na fabricação da infância”, conclui Lilian. Por fim, a dissertação Sobre infância e poder: o que diz a produção acadêmica de periódicos científicos da educação de 2000 a 2010? constitui uma referência teórica para pesquisadores interessados no tema.
Imagem: Marcos Santos / USP Imagens
Mais informações: email liliorpe@terra.com.br, com a pesquisadora Lilian Alboz
Link:
http://www.usp.br/agen/?p=130929

Novo Jogo Coma Bem - INCTMN/CMDMC, UNESP, UFSCAR


A equipe do portal Ludo Educa Jogos acaba de lançar seu mais novo game totalmente gratuito, intitulado “Coma Bem - uma aventura nutritiva”. Este game possui visual atraente e colorido com sonoridade agradável tendo como objetivo incentivar de forma lúdica, interativa e dinâmica, a alimentação saudável de crianças, jovens e adultos.

O jogador pode, ainda, escolher o sexo do personagem ao iniciar sua aventura. 

O game trata de um assunto em alta não somente no Brasil, mas no mundo, a reeducação alimentar. 

Uma alimentação saudável permite eliminar calorias em excesso e ter uma vida melhor, evitando doenças. 

Este game mostra que não é necessário deixar de comer o que gostamos mas, sim, balancearmos nossa alimentação de forma inteligente, para que possamos comer de tudo sem exageros e, assim, manter uma alimentação mais equilibrada. 

O jogo é o primeiro projeto da equipe focado na Educação Alimentar e deverá se estender com novos jogos com esta temática. Segundo o coordenador do projeto Ludo Educa Jogos, Prof. Elson Longo, games deste gênero podem ajudar a geração que está nascendo agora a se tornarem mais conscientes e terem uma alimentação mais regrada e saudável. 

A equipe, composta atualmente por Bruno Silva Rangel, Júlio César Carrega, Rener da Silva Baffa e Rodrigo Bareato, desenvolveu o game utilizando tecnologia HTML 5, evitando assim a necessidade de instalação de plugins adicionais para ser jogado e aumentando disponibilidade de execução, bastando que o jogador tenha seu navegador de Internet atualizado. Este projeto foi desenvolvido em parceria com a empresa Aptor Games e conta com o apoio e suporte de instituições importantes, sendo elas o CMDMC da FAPESP e o INCTMN do CNPq. 

Para acessar e também aprender a se alimentar divertindo-se, acesse o jogo no endereço: http://www.ludoeducajogos.com.br/site/jogos/coma-bem e também aproveite para conhecer e se divertir com os outros jogos do portal do Ludo Educa Jogos no endereço: