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quinta-feira, 14 de julho de 2016

Jardins Filtrantes: Esgoto doméstico rural se transforma em adubo orgânico

Foto: Pedro Hernandes

No meio rural é comum um buraco simples cavado ao lado da casa servir de depósito para o esgoto doméstico, a chamada fossa negra. Com o tempo, os dejetos desaparecem e os usuários interpretam que o sistema é limpo e seguro. Longe disso, o material não desaparece, ele penetra em regiões mais profundas contaminando solo e lençóis freáticos. Ao usar água de poços próximos, a família começa a ficar doente.

A história acima é contada pelo pesquisador Wilson Tadeu Lopes da Silva, da Embrapa Instrumentação (SP), e ilustra uma lamentável realidade de grande parte das famílias que vivem no campo. “O esgoto doméstico jogado em fossas negras ou em córregos é um problema sério que afeta diretamente a qualidade da água”, aponta Silva.

Pensando nisso, o pesquisador desenvolveu um meio de levar saneamento básico à área rural e ainda transformar o esgoto doméstico em adubo orgânico. A solução foi desenvolver um tratamento complementar ao saneamento básico na zona rural. Trata-se de um conjunto de tecnologias batizado de jardim filtrante o qual inclui a fossa séptica biodigestora e o clorador Embrapa.

Como a fossa trata apenas o esgoto humano, o jardim filtrante surgiu como uma alternativa para dar um destino adequado à água cinza da residência, constituída de efluentes provenientes de pias, tanques, chuveiros e o efluente tratado da fossa. Apesar do seu poder contaminante ser bem menor que a água negra, a água cinza também merece atenção, já que vem impregnada de sabões e detergentes, bem como de restos de alimentos e gorduras.

A fossa séptica biodigestora é um sistema que o produtor rural pode fazer. O esgoto doméstico é desviado do vaso sanitário por meio de uma tubulação que vai até caixas de fibra de vidro praticamente enterradas no chão. Para uma família de cinco pessoas, a sugestão é instalar de três a quatro caixas de fibra de vidro. O adubo orgânico gerado pela fossa séptica biodigestora deve ser aplicado somente no solo, em pomares e outras plantas onde o biofertilizante não entre em contato direto com alimentos que sejam ingeridos crus.

O clorador Embrapa é um complemento do sistema de saneamento básico na área rural. Fácil de ser montado e de baixo custo. Com peças e conexões encontradas em casas de material de construção, o produtor pode montar o clorador, que é instalado entre a captação de água e o reservatório. Para clorar a água é preciso colocar uma colher rasa de café, de hipoclorito de cálcio, no receptor de cloro. Depois de 30 minutos, a água já está clorada, livre de germes e pronta para beber.

Em agosto de 2014, durante a Feira de Agricultura Familiar – Agrifam, em Lençóis Paulista (SP), a Embrapa assinou contrato para transferência de know-how do Jardim Filtrante com a empresa Ecosys, que comercializará a tecnologia.

Dia de Campo na TV apresenta os jardins filtrantes

O primeiro passo para a instalação do jardim filtrante é a escolha do local, depois abre-se uma cova com dez metros quadrados. Esse tamanho é ideal para uma família de cinco pessoas. A cova terá o fundo impermeabilizado com uma geomembrana de polietileno de alta densidade ou equivalente, preferencialmente protegida por mantas de bidim – manta geotêxtil de drenagem utilizada na construção civil.

Antes da entrada do jardim filtrante, o esgoto passa por uma caixa de retenção de sólidos e uma caixa de gordura. A saída do líquido tratado ocorre por uma tubulação em forma de cachimbo (conhecido popularmente como monge), que também regula o nível da água no jardim. A entrada e a saída serão instaladas em pontos opostos da caixa.

O local do jardim filtrante será preenchido com brita e areia grossa. Em seguida, é feita uma pequena curva de nível em torno do jardim, sob a geomembrana e o bidim, para evitar a entrada de enxurrada no sistema. O penúltimo passo é colocar a água. O jardim filtrante deve ficar saturado com água, mas deve-se evitar a formação de lâmina d´água, para não permitir a procriação de mosquitos.

Por último, são inseridas plantas macrófitas aquáticas que irão retirar nutrientes da água para depurá-la e proporcionar um ambiente visualmente agradável. Podem ser colocadas flores que suportem um meio saturado com água, como copo de leite e lírio-do-brejo e ornamentos com pedras. O Dia de Campo na TV sobre Jardim filtrante – saneamento básico na área rural foi produzido pela Embrapa Instrumentação (São Carlos/SP) e pela Embrapa Informação Tecnológica (Brasília/DF), unidades da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Publicado na revista XXI Ciência para a vida

Por Joana Silva (MTb 19554/SP)
Embrapa Instrumentação

in EcoDebate, 04/07/2016

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Resíduos orgânicos


Os RESÍDUOS ORGÂNICOS correspondem a mais de 50% do total de resíduos sólidos urbanos gerados no Brasil. Já imaginou 800 milhões de toneladas produzidas no planeta todos os anos?

Nas florestas e em outros ambientes naturais, a matéria orgânica se degrada naturalmente, reciclando os nutrientes nos processos da natureza. Mas quando gerados nas cidades (em nossas casas, comércios e indústrias) podem se constituir em um sério problema ambiental. Mas é possível reverter esse número e VOCÊ PODE AJUDAR.

Os processos mais comuns de reciclagem desses resíduos são a compostagem (degradação dos resíduos com presença de oxigênio) e a biodigestão (degradação dos resíduos com ausência de oxigênio). Esses tratamentos resultam na produção de fertilizantes orgânicos e condicionadores de solo, promovendo a reciclagem de nutrientes, a proteção do solo contra erosão e perda de nutrientes e diminuindo a necessidade de fertilizantes minerais. Faça a diferença para o meio ambiente.

Confira como fazer a compostagem doméstica ➡http://goo.gl/nCzUGI

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Pesquisa sobre os Resíduos Sólidos, Educação Ambiental e Responsabilidade Compartilhada – Resultados e análises 4

Este é o quarto e último artigo com os resultados e análises da pesquisa online sobre os resíduos sólidos, educação ambiental e responsabilidade compartilhada realizada no segundo semestre/2015 pelo Cenatec e o Projeto Escolas Sustentáveis – O futuro está presente! uma ação coletiva de responsabilidade ambiental e social voltada à capacitação dos educadores e comunidades escolares para o ensino/aprendizagem e o desenvolvimento de projetos integrados e contextualizados de educação ambiental nestas comunidades (http://www.cenatecbrasil.blogspot.com.br/2013/12/escolas-sustentaveis.html). Foram 284 participantes de todas as regiões do Brasil. O primeiro, segundo e terceiro artigos publicado no Portal EcoDebate analisam as primeiras sete questões propostas que identificam a) os participantes; b) o percentual por regiões brasileiras respectivas; c) as perspectivas e ações dos participantes em relação aos resíduos do consumo diário e d) as perspectivas e ações dos participantes em relação aos catadores de materiais recicláveis/reutilizáveis e à coleta seletiva e estão disponíveis nos links ao final deste texto.

A oitava questão de livre escolha da pesquisa solicitou que os participantes indicassem “Quanto aos resíduos tecnológicos, desgastados e/ou obsoletos (celulares, computadores, TVs, impressoras, eletrodomésticos, pilhas, lâmpadas, etc), em sua opinião, qual deve ser a atitude dos consumidores ao final da vida útil”? Foram 282 respostas com duas abstenções e os seguintes resultados:

– Descartá-los imediatamente em qualquer espaço possível, sem critérios: nenhuma resposta com 0%;

– Descartá-los junto com os outros resíduos domésticos para serem recolhidos pelos sistemas de limpeza pública: 02 respostas com 0,71%;

– Descartá-los em locais adequados, implantados especialmente para este fim (eco pontos), visando uma destinação final ambientalmente adequada: 175 respostas com 62,06%;

– Devolvê-los nas lojas e/ou locais em que foram adquiridos, visando uma destinação ambientalmente adequada: 105 respostas com 37,23%.

A terceira alternativa com a proposição dos eco pontos com 62,06% foi justificada por alguns participantes em seus comentários como a melhor opção por serem muitos eletroeletrônicos adquiridos pela internet, o que dificultaria o descarte através de outros sistemas. Possivelmente, este foi um dos principais argumentos para que a maioria dos participantes optasse por esta resposta. A devolução nas lojas ou locais de aquisição com 37,23% também demonstra a preocupação dos participantes com o descarte ambientalmente adequado e a logística reversa dos resíduos tecnológicos.

A nona questão de livre escolha da pesquisa solicitou que os participantes indicassem sua opinião “Para a cooperação dos cidadãos quanto aos aspectos relacionados com os resíduos sólidos, o que considera mais eficiente”? Foram 283 respostas e uma abstenção e os seguintes resultados:

– Legislação, leis específicas, responsabilização dos geradores e regras para os consumidores: 63 respostas com 22,26%;

– Projetos, programas e ações de educação ambiental permanentes e/ou direcionados: 145 respostas com 51,24%;

– Campanhas voluntárias pontuais sobre problemas pré-existentes: 03 respostas com 1,06%;

– Uso da mídia (jornais, TVs, rádios, revistas) para alertar sobre aspectos ambientais relacionados aos resíduos sólidos: 72 respostas com 25,44%.

As ações permanentes e/ou direcionadas de educação ambiental com 51,24% foram a alternativa mais indicada pelos participantes. Esta é a questão em que os índices estiveram mais distribuídos, possivelmente por as alternativas não serem excludentes, sendo possível utilizá-las simultaneamente através de um planejamento adequado e integrado dos projetos de educação ambiental. Certamente a existência de legislação específica e a responsabilidade dos geradores com 22,26%, o uso de mídias com 25,44% e mesmo as campanhas pontuais com 1,06% são complementares aos projetos educativos permanentes e podem sinergicamente construir consciências pró ativas quanto à responsabilidade coletiva em relação aos resíduos sólidos. Alguns comentários dos participantes neste sentido confirmam esta

A décima questão, não utilizou-se da livre escolha, mas solicitou aos participantes que “Se desejar, deixe seus comentários e outras informações que considera importantes”. Foram 97 comentários como complementos às respostas, justificativas, descrição das realidades locais, sugestões, opiniões e observações relacionadas às diversas questões propostas. Alguns destes comentários foram selecionados e estão transcritos ao final de todos os artigos publicados com as análises e resultados desta pesquisa online sobre os resíduos sólidos, a responsabilidade compartilhada e a educação ambiental.

Alguns comentários dos participantes:

“Com relação ao lixo eletroeletrônico acredito que há mercado para empresas de coleta e destinação adequada deste tipo de lixo. Uma vez contratei uma empresa chamada Loop Logística Reversa em São Paulo e recebi uma proposta com valores nada altos […]. Eles emitiram nota fiscal de serviços e laudo de descarte correto e ainda laudo de economia ambiental. […]. Acho que pode ser uma solução, pois tentei retornar a lojas e fabricantes e embora tenham nos sites que fazem o serviço (alguns deles), na prática não fazem e tive que recorrer a esta empresa, e não me arrependo”. Participante nº 32, quinta feira, 23/07/2015, 12 h 21 min.

“Combater a máfia do lixo e obrigar as empresas a cumprirem com sua parte no ciclo”. Participante nº 28, quinta feira, 23/07/2015, 10 h 46 min.

“[…], a educação ambiental é um bom caminho. Porém sem cobrança devida dos órgãos do governo fica complicado, conversando com colegas de outros países vi que a melhoria em torno do assunto só ocorre por necessidade e porque mexe no bolso, paga quem não segrega, quem não tem a devida atitude”. Participante nº 54, terça feira, 11/08/2015, 18 h 08 min.

“Alguns itens adquiridos, na 8ª questão, são pela internet às vezes. Por isso optei pelos eco pontos”. Participante nº 55, quarta feira, 12/08/2015, 09 h 06 min.

“Na questão 9, considero o melhor e mais eficiente um planejamento que envolva as quatro alternativas”. Participante nº 193, sexta feira, 20/11/2015, 06 h 50 min.

“Foi um dos últimos projetos que realizamos em equipe em minha escola, depois aposentei. Separação dos materiais utilizados, em 2002…..” Participante nº 252, segunda feira, 12/12/2015, 17 h 41 min.

Observação: a inserção deste comentário é uma homenagem do Centro de Assessoria em Resíduos Sólidos e Educação Ambiental – Cenatec e Projeto Escolas Sustentáveis – O futuro está Presente! a todos os educadores ambientais do Brasil.

Antonio Silvio Hendges, Professor de Biologia e articulista no EcoDebate, Pós Graduação em Auditorias Ambientais, assessoria em Educação Ambiental e Resíduos Sólidos –

* Nota: Leiam, também, as partes anteriores da Pesquisa sobre os Resíduos Sólidos, Educação Ambiental e Responsabilidade Compartilhada – Resultados e análises:




in EcoDebate, 04/02/2016

Pesquisa sobre os Resíduos Sólidos, Educação Ambiental e Responsabilidade Compartilhada – Resultados e análises 3


Este é o terceiro artigo com os resultados e análises da pesquisa online sobre os resíduos sólidos, educação ambiental e responsabilidade compartilhada realizada no segundo semestre/2015 pelo Cenatec e o Projeto Escolas Sustentáveis – O futuro está presente! uma ação coletiva de responsabilidade ambiental e social voltada à capacitação dos educadores e comunidades escolares para o ensino/aprendizagem e o desenvolvimento de projetos integrados e contextualizados de educação ambiental nestas comunidades (http://www.cenatecbrasil.blogspot.com.br/2013/12/escolas-sustentaveis.html). Foram 284 participantes de todas as regiões do Brasil. O primeiro e o segundo artigos publicado no Portal EcoDebate analisam as primeiras cinco questões propostas que identificam a) os participantes; b) o percentual por regiões brasileiras respectivas e c) as perspectivas e ações dos participantes em relação aos resíduos do consumo diário e estão disponíveis nos links ao final deste texto.

A sexta questão de livre escolha da pesquisa solicitou que os participantes indicassem “Em relação aos catadores de materiais recicláveis, em sua opinião, qual alternativa descreve melhor as suas atividades”? Foram 283 respostas e uma abstenção com os seguintes resultados:

– Atrapalham o trânsito e a livre circulação, espalham os resíduos e não deve ser permitido este tipo de atividade: 04 respostas com 1,42%;

– Atrapalham o trânsito e a livre circulação, mas é uma atividade importante que deve ser permitida: nenhuma resposta com 0%;

– Realizam um trabalho importante, mas que muitas vezes atrapalha e resulta na dispersão dos resíduos. Devem ser mais eficientes e responsáveis: 31 respostas com 10,95%;

– Realizam um trabalho indispensável para a reciclagem e a reintrodução de diversas matérias primas nas cadeias produtivas. Devem ser capacitados, organizados em cooperativas/associações e incentivados em suas atividades: 248 respostas com 87,63%.

O reconhecimento da importância dos trabalhadores com materiais recicláveis e/ou reutilizáveis é amplo, com 87,63% das respostas indicando a quarta alternativa inclusive concordando com a capacitação e incentivos organizacionais que qualifiquem e profissionalizem as suas atividades. Se tomarmos como critério a importância, 98,58% dos participantes assim consideram esta atividade, embora existam ressalvas aos métodos pelos 10,95% que optaram pela segunda alternativa. Este resultado demonstra que o estabelecimento de políticas públicas de apoio e incentivo para estes trabalhadores, assim como a sua inserção nas cadeias de logística reversa pós-consumo, capacitação e profissionalização terão bons resultados com o apoio e adesão dos consumidores aos projetos e programas implantados.

A sétima questão de livre escolha da pesquisa solicitou aos participantes que indicassem “Quanto à coleta seletiva, se estiver disponível, qual sua opção”? Foram 282 respostas e duas abstenções com os seguintes resultados:

– Não mudar a forma como descarto meus resíduos: 01 resposta com 0,35%;

– Não mudar a forma como descarto meus resíduos, mas colaborar no que for possível e que não exija esforço: 01 resposta com 0,35%;

– Colaborar em parte, realizando uma separação básica dos resíduos mais volumosos e/ou pesados: 12 respostas com 4,26%;

– Colaborar de acordo com as orientações dos órgãos responsáveis, separando e acondicionando os resíduos corretamente, inclusive nos locais e horários adequados à coleta seletiva: 268 respostas com 95, 04%.

Na quarta alternativa apontada por 95,04% dos participantes está o índice mais alto de toda a pesquisa, indicando uma clara disposição dos consumidores para colaborarem com programas de coleta seletiva se estiverem disponíveis e organizados com instrumentos e regras adequadas ao descarte correto das embalagens pós-consumo e dos produtos obsoletos. Um índice que podemos considerar aproximado dos 87,63% – segundo maior índice da pesquisa – que na questão anterior consideraram indispensável às atividades e a profissionalização dos trabalhadores com materiais recicláveis.

A análise destas duas questões indica que ao menos no âmbito desta pesquisa, que não analisa os aspectos culturais e de formação dos participantes limitando-se às questões básicas propostas, há uma ampla possibilidade para a colaboração e apoio da sociedade a projetos que tenham a coleta seletiva e a reciclagem como base para a gestão e gerenciamento dos resíduos sólidos. O uso adequado de programas de educação ambiental direcionados às realidades específicas dos consumidores e cidadãos pode impulsionar e consolidar esta tendência identificada entre os participantes.

Alguns comentários dos participantes:

“[…]. São inúmeros os objetos descartados que dariam para reaproveitar e simplesmente são jogados fora. A quantidade de lixo é enorme e cresce cada vez mais, os aterros sanitários lotados e as pessoas não param de consumir. Ao meu ponto de vista é urgente a questão da conscientização, em larga escala”. Participante nº 212, segunda feira, 23/11/2015, 09 h 51 min.

“Na pergunta sobre os catadores, nenhuma reflete minha percepção. Eles ajudam sim, mas existem ferramentas melhores. Gostaria de ter respondido: nenhuma das alternativas listadas”. Participante nº 11, quarta feira, 24/06/2015, 19 h 12 min.

“1. O gerador inicial do lixo é, em grande parte a indústria e o distribuidor do produto embalado. 2. A creche, a escola, a universidade são locais onde se deve ensinar a administração da coleta do lixo”. Participante nº 130, quarta feira, 04/11/2015, 09 h 59 min.

Antonio Silvio Hendges, Professor de Biologia e articulista no EcoDebate, Pós Graduação em Auditorias Ambientais, assessoria em Educação Ambiental e Resíduos Sólidos –


* Nota: Leiam, também, as partes anteriores da Pesquisa sobre os Resíduos Sólidos, Educação Ambiental e Responsabilidade Compartilhada – Resultados e análises:



in EcoDebate, 01/02/2016

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Pesquisa sobre os Resíduos Sólidos, Educação Ambiental e Responsabilidade Compartilhada – Resultados e análises 2

Este é o segundo artigo com os resultados e análises da pesquisa online sobre os resíduos sólidos, educação ambiental e responsabilidade compartilhada realizada no segundo semestre/2015 pelo Cenatec e o Projeto Escolas Sustentáveis – O futuro está presente! uma ação coletiva de responsabilidade ambiental e sócia voltada à capacitação dos educadores e comunidades escolares para o ensino/aprendizagem e o desenvolvimento de projetos integrados e contextualizados de educação ambiental nestas comunidades (http://www.cenatecbrasil.blogspot.com.br/2013/12/escolas-sustentaveis.html). Foram 284 participantes de todas as regiões do Brasil. O primeiro artigo publicado no Portal EcoDebate identifica a) os participantes e b) o percentual por regiões brasileiras respectivas e está disponível no link ao final deste texto.

A terceira questão de livre escolha da pesquisa solicitou que os participantes apontassem “Das alternativas, qual descreve melhor os resíduos do seu consumo diário?”. Foram 284 respostas com todos os participantes respondendo esta questão e os seguintes resultados:

– Lixo sem utilidade ou valor que precisa de descarte imediato e sem critérios: 03 respostas com 1,06%;

– Lixo sem utilidade em sua maioria, mas que contém alguns materiais que podem ser reciclados e/ou reaproveitados: 50 respostas com 17,61%;

– Resíduos compostos por materiais que podem ser reciclados, mas que não apresentam valor que torne viável este procedimento: 13 respostas com 4,58%;

– Resíduos que podem ser valorizados através da classificação e separação dos materiais, possibilitando a reutilização e/ou reciclagem e a fabricação de novos produtos: 218 respostas com 76,76%.

Nesta questão destaca-se a opção majoritária pela alternativa que citou a reutilização e a reciclagem dos resíduos do consumo diário, com 76,76% dos participantes identificando esta possibilidade como viável. Em oposição, os participantes que não identificaram estas possibilidades ou não consideraram viáveis foram 5,64% conforme identificados na primeira e terceira opções. Na segunda opção com 17,61% embora os participantes identifiquem alguns materiais como úteis, consideram sem utilidade a maioria dos seus resíduos. Nesta pesquisa não se consideram os hábitos de consumo e outros aspectos econômicos e culturais, que evidentemente estão relacionados às respostas individuais.

A quarta questão de livre escolha da pesquisa solicitou que os participantes indicassem “Como você descarta os seus resíduos?”. Foram 282 respostas com duas abstenções e os seguintes resultados:

– Todos misturados. Não adianta separar para a coleta, o destino de todos é o mesmo: 52 respostas com 18,44%;

– Todos misturados. Não é necessário separar o lixo orgânico dos papéis, plásticos, vidros, metais e outros materiais: 04 respostas com 1,42%;

– Separados em duas frações: resíduos orgânicos e secos: 175 respostas com 62,06%;

– Separados em todas as suas frações: orgânicos, papéis e papelões, plásticos, vidros, metais, etc.: 51 respostas com 18,09%.

Nesta questão solicita-se que os participantes identifiquem as suas atitudes e ações em relação aos resíduos do seu consumo, assim como as possíveis políticas públicas ou programas de educação ambiental que possam estar vinculados com estas ações justificando-as. Um exemplo é a primeira opção com 18,44% em que os participantes afirmam que não adianta separarem os resíduos visto que todos tem o mesmo destino, provavelmente lixões ou aterros (des)controlados, evidenciando ausência de políticas públicas responsáveis. A separação em duas frações, orgânicos e secos, com 62,06% demonstra que existe uma preocupação básica com os resíduos pós consumo, mesmo que em muitos casos provavelmente inexistam políticas públicas adequadas. A educação ambiental, formal ou não formal, possivelmente tenha influência nesta decisão. A separação em todas as suas frações, com 18,09% evidencia políticas públicas relacionadas, projetos e programas de educação ambiental e responsabilidade coletiva na gestão e gerenciamento dos resíduos pós consumo. Uma minoria de 1,42 não identificou a necessidade da separação básica, das relações externas e/ou relacionadas.

A quinta questão de livre escolha da pesquisa solicitou aos participantes que identificassem “Quem você considera responsável pelo destino dos resíduos e para onde devem ser enviados?”. Foram 282 respostas com duas abstenções e os seguintes resultados:

– A prefeitura que deve recolher e enviar para os lixões ou aterros sanitários: 02 respostas com 0,71%;

– A prefeitura, que deve recolher, separar o que pode ser reaproveitado e enviar os rejeitos para aterros sanitários: 17 respostas com 6,03%;

– Os consumidores que devem descartar de modo correto para a coleta seletiva e a reciclagem adequada: 33 respostas com 11,70%;

– Os fabricantes, distribuidores, comerciantes, consumidores e poderes públicos são igualmente responsáveis pelo descarte e destino adequado dos resíduos, possibilitando seu retorno às cadeias produtivas e destinação final ambientalmente adequada: 230 respostas com 81,56%.

A última alternativa que aponta para a responsabilidade compartilhada entre os diversos agentes econômicos e a logística reversa pós consumo e/ou obsolescência com 81,56% demonstra que os participantes em ampla maioria tem consciência das suas responsabilidades e das possibilidades de descarte adequado. Se somados aos 11,70% da alternativa anterior que se responsabilizam individualmente desde que existam programas de coleta seletiva e reciclagem, temos um percentual de 93,26% de participantes dispostos a colaborarem ativamente, se estiverem disponíveis políticas públicas adequadas de gestão e compromissos assumidos pelos agentes econômicos para a cadeia reversa pós consumo.

Alguns comentários dos participantes:

“O prazo estabelecido pela Política Nacional de Resíduos Sólidos para o descarte adequado já se cumpriu, no entanto, grande parte dos municípios não possui aterro adequado para esse fim, utilizando os lixões, além de não realizarem campanhas informando a forma certa de descartar, reutilizar e reciclar. […], vale fazer ao menos uma campanha que oriente separar lixo orgânico e lixo seco, pois esse material é recolhido por muitos catadores e seria uma forma de facilitar esse trabalho que contribui muito com o meio ambiente”. Participante nº 238, sábado, 5/12/2015, 20 h 43 min.

“Lamentavelmente meu lixo é misturado, pois em minha cidade não existe nenhum programa de coleta seletiva e o fim dado ao lixo orgânico é o mesmo dos demais. Portanto não adiantaria eu separar o lixo sendo que os responsáveis pelo destino dado a eles os misturam dentro do mesmo caminhão”. Participante nº 227, quarta feira, 25/11/2015, 12 h 53 min.

“Essa pesquisa é ótima, quando sair o resultado terá uma dimensão de ideia do que as pessoas pensam e do conhecimento em relação a esse assunto, o que possibilita criar políticas públicas”. Participante nº 213, segunda feira, 23 /11/2015, 10 h 45 min.

Antonio Silvio Hendges, Professor de Biologia e Articulista no EcoDebate, Pós Graduação em Auditorias Ambientais, assessoria em Educação Ambiental e Resíduos Sólidos –

Nota: Leiam, também, a primeira parte da análise:


in EcoDebate, 28/01/2016

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Pesquisa sobre os Resíduos Sólidos, Educação Ambiental e Responsabilidade Compartilhada – Resultados e análises 1

O Centro de Assessoria em Resíduos Sólidos e Educação Ambiental – Cenatec Ltda. coordena uma ação coletiva de responsabilidade ambiental e social – Projeto Escolas Sustentáveis, o futuro está presente! voltada à capacitação das comunidades escolares para o ensino/aprendizagem contextualizado da educação ambiental, o diálogo e a colaboração entre a educação ambiental formal e não formal conforme estabelecido na Lei 9.795/1999 que constitui a Política Nacional de Educação Ambiental.

Um dos objetivos deste projeto é o desenvolvimento de pesquisas que possibilitem o desenvolvimento de projetos integrados à cidadania e responsabilidade socioambiental, estabelecendo metodologias pedagógicas que respeitem e estimulem as representações sociais positivas sobre o meio ambiente, seja nas comunidades escolares ou na sociedade, contribuindo para a construção de um país sustentável, com livre iniciativa de ações e pensamentos, diálogo e colaboração permanente entre a educação pública e o conjunto dos atores sociais e econômicos, todos legalmente responsáveis pelo desenvolvimento da educação ambiental no Brasil.

No segundo semestre/2015, o Cenatec e Projeto Escolas Sustentáveis realizaram uma pesquisa sobre os resíduos sólidos, a educação ambiental e a responsabilidade compartilhada pós consumo. Este é o primeiro artigo com análises e avaliações dos resultados obtidos. Ao final deste e dos próximos artigos, estarão inseridos alguns comentários dos participantes da pesquisa considerados relevantes como informações adicionais. Para a captação das respostas utilizou-se um serviço especializado em questionários online para acesso às dez questões, sendo nove de múltipla escolha e uma opcional e descritiva para informações e comentários complementares considerados importantes pelos participantes. O período de realização foi de 23 de junho a 22 de dezembro de 2015, com 284 participantes dos quais 97 deixaram comentários e observações.

A primeira questão de múltipla escolha solicitou que os participantes se identificassem como segmento consumidor com as seguintes opções: Cidadã/cidadão; Empresa; ONG/Oscip; Associação/cooperativa/sindicato; Órgão público; Escola pública/comunitária/privada. Nesta questão, foram 282 respostas com 02 participantes que não responderam, com os seguintes resultados:

– Cidadã/cidadão: 221 respostas com 78,37%;
– Empresa: 16 respostas com 5,67%;
– ONG/Oscip: 08 respostas com 2,84%;
– Associação/cooperativa/sindicato: 05 respostas com 1,77%;
– Órgão público: 17 respostas com 6,03%;
– Escola pública/comunitária/privada: 15 respostas com 5,32%.

Portanto, os participantes optaram majoritariamente por responderem à pesquisa individualmente como cidadãos com 78,37% das respostas identificadas com esta alternativa. Uma opção que poderia ter sido acrescentada são os condomínios, considerando que aproximadamente 10% da população brasileira vivem nestes espaços de acordo com o Censo Demográfico 2010 do IBGE, mas provavelmente isso não alteraria significativamente os resultados.

A segunda questão de múltipla escolha solicitou que os participantes identificassem a região geográfica brasileira em que estavam localizados. Foram 283 respostas com 01 participante que não respondeu e os seguintes resultados:

– Centro Oeste: 31 respostas com 10,95%;
– Nordeste: 37 respostas com 13,07%;
– Norte: 14 respostas com 4,95%;
– Sudeste: 119 respostas com 42,05%;
– Sul: 82 respostas com 28,98%.

A Região Sudeste destaca-se com um número bem superior de participantes em relação às outras regiões com 119 respostas e 42,05%. A Região Sul em segundo lugar com 82 respostas e 28,98% obteve o mesmo número de participantes das outras três regiões, Centro Oeste, Nordeste e Norte, que juntas obtiveram também 82 respostas e o mesmo índice percentual. Estas diferenças regionais estão relacionadas com os aspectos econômicos, acesso às tecnologias digitais, quantidade de equipamentos disponíveis, qualidade das conexões de internet, projetos de inclusão digital, formação e capacitação dos recursos humanos, deficiências de infra estrutura, evidenciando uma acentuada diferença de acesso e disponibilidade às informações em uma ampla área do Brasil.

Alguns comentários dos participantes:

“Trabalhar a Educação Ambiental é um item essencial para o mundo em que vivemos, temos que atingir o público de maneira fácil e direta. […] ter a capacidade de pelo menos ajudarmos com a separação em casa, ajudando assim todo o processo e tornar dessa atividade uma coisa rotineira enquadrando de vez isso em nossas vidas”. Participante nº 31, quinta feira, 23 de julho de 2015, 11 h 39 min.

“Educação Ambiental em todos os níveis e o cumprimento da PNRS”. Participante nº 36, quinta feira, 23 de julho de 2015, 20 h 21 min.

“Campanhas educativas massivas que estimulem a compreensão dos 3R, redução, reutilização e reciclagem; normatização e difusão da legislação sobre logística reversa e responsabilidade com a mesma”. Participante nº 47, quarta feira, 29 de julho de 2015, 15 h 45 min.

Antonio Silvio Hendges, Professor de Biologia e articulista no EcoDebate, pós graduação em Auditorias Ambientais, assessoria em educação ambiental e resíduos sólidos

in EcoDebate, 22/01/2016

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Resíduo: o que fazer com ele?


Resíduo: o que fazer com ele? Este é o tema desta publicação que apresenta o princípio dos 3Rs – #Reduzir, #Reutilizar e #Reciclar e as atitudes relacionadas aos hábitos de consumo que colaboram para a redução dos resíduos. Os 3 Rs também são objetivos da Política Nacional de Resíduos Sólidos - #PNRS, Lei 12.305/2010. 🔎Acesse o arquivo em PDF: http://goo.gl/igBpx8#MaisAcessadas

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Gestão compartilhada ajuda no gerenciamento de resíduos

Por Valéria Dias - valdias@usp.br
Publicado em 2/dezembro/2015
Modelo de gestão integrada de resíduos foi implantado no Instituto Butantan

O gerenciamento integrado de resíduos sólidos pode proporcionar uma série de vantagens para as instituições, como a economia de custos, a melhora na gestão de recursos, a adequação às normas e legislações, além de uma série de benefícios ao meio ambiente. A gestora ambiental Neuzeti Maria dos Santos pôde comprovar isso em sua dissertação de mestrado pela Faculdade de Saúde Pública (USP) da USP ao analisar o projeto de gerenciamento de resíduos implantado no Instituto Butantan, um dos principais centros de pesquisa biomédica do País, ligado à Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo.

Neuzeti ajudou a implantar um modelo que propõe a gestão integrada, compartilhada e participativa envolvendo todos os colaboradores locais no gerenciamento dos resíduos sólidos gerados no Instituto (de saúde, de construção, de poda de árvores, e de reciclagem). Com essa gestão participativa, não foi necessário contratar pessoal de fora para implantar o projeto. Um outro resultado positivo foi a publicação de um Guia Prático de Descarte de Resíduos. “A ideia era desenvolver algo que pudesse ser aplicado em outros locais”, conta. A pesquisa teve orientação da professora Wanda M. Risso Günther, da FSP.

O projeto foi iniciado em 2012 com a criação de uma comissão composta por uma equipe multidisciplinar de 13 pessoas. Eles realizaram um diagnóstico de como era o gerenciamento de todos os tipos de resíduos produzidos no Instituto. “Na época, de 40 requisitos legais, apenas 2 eram atendidos plenamente, 13 eram atendidos parcialmente e 25 não eram atendidos”, informa Neuzeti. Era necessário atender a diversas normas de vários órgãos como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), e Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), além de Leis Municipais. “Atualmente, o Instituto consegue atender a 90% de todas as normas da legislação”, comemora a gestora ambiental.

Foi realizado também um levantamento aprofundado, durante 3 meses, em que constatou-se que havia geração de resíduos de serviço de saúde em 70% do Instituto e que a maioria dos envolvidos desconhecia os tipos de resíduos gerados.

Grupos de Trabalho

A partir daí, foram criados cinco Grupos de Trabalho: GT Infectantes, GT Carcaças, GT Químicos, GT Comuns, Recicláveis e Outros e um outro GT para educação (pensando na capacitação dos envolvidos). Esses grupos eram compostos por 1 membro da comissão, mais 5 pessoas, além de participantes ligados a cada uma das áreas. Tanto a comissão como os grupos de trabalho receberam capacitação especifica. E, a partir daí, foi elaborado um plano de gestão para os resíduos, que foi implantado em 2013, e sempre com a participação integrada das pessoas.

Ainda em 2012, as capacitações foram aplicadas para 108 participantes — chamados de facilitadores. Atualmente já são 180. Foram realizados treinamentos em 2012, 2013, 2014 e 2015, com duração de 4 horas cada. “Implementamos sempre uma inovação a cada encontro”, destaca Neuzeti. No primeiro ano, foram abordados aspectos ligados à legislação e a coleta de resíduos, e realizado por palestrantes externos. No segundo, houve a participação dos membros da comissão e, ao final do curso, os facilitadores passaram por uma avaliação para verificar a retenção de conhecimentos. No terceiro ano, a inovação foi uma visita técnica a uma unidade de tratamento de resíduos de serviços de saúde, localizada no bairro do Jaguaré, em São Paulo. O Programa de capacitação passou a contar também com os alunos de pós-graduação de outras universidades que realizam pesquisas no Instituto.

Guia prático e premiações

O GT Educação desenvolveu, em 2013, um Guia Prático Online sobre o Descarte de Resíduos. O material passou a ser impresso em 2014. Também foram apresentados vários trabalhos em Congressos relatando a experiência.

O projeto recebeu em 2013 o prêmio “Amigo do Meio Ambiente”, concedido pela Secretaria de Estado da Saúde, pela destinação de materiais para reciclagem em atendimento às legislações municipais, estaduais e federais. Um novo prêmio foi concedido em 2014, por conta do gerenciamento de resíduos mercuriais.

A pesquisadora conta que uma outra forma de compartilhar todo esse conhecimento adquirido com o projeto é a participação no curso de gerenciamento de resíduos de saúde que desde 2014 é oferecido pelo Butantan. Neste ano, os alunos do curso realizaram uma visita no sistema de tratamento de resíduos da vacina da gripe do Instituto, único na América do Sul. “É uma forma de compartilhar conhecimento com a comunidade no caminho de gerenciamento adequado de resíduos para a redução dos impactos ao meio ambiente, atendimento legal e melhor utilização dos recursos financeiros. Quando a gestão é realizada os benefícios e resultados são mensuráveis e perceptíveis.”

O Butantan faz parte a Rede Brasileira de Produção Pública de Medicamentos para distribuição pelo Ministério da Saúde e integra o Programa Nacional de Imunização, sendo responsável pela produção de 80% dos soros e vacinas utilizados no Brasil.
Foto: Marcos Santos / USP Imagens

Mais informações: email neuzeti.santos@butantan.gov.br, com Neuzeti Santos

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terça-feira, 28 de abril de 2015

Iniciativa da FAO quer reduzir o desperdício de alimentos no Brasil

O objetivo da FAO na América Latina e Caribe é montar uma rede de entidades com o propósito de reduzir a perda na produção e na pós-colheita dos alimentos.

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) estuda a criação de uma rede em torno da cadeia produtiva de alimentos no Brasil para conter o desperdício. O país é considerado um dos dez que mais desperdiçam comida em todo o mundo, com cerca de 30% da produção praticamente jogados fora na fase pós-colheita.

A redução das perdas será objeto de debates na oficina que a Embrapa Agroindústria de Alimentos promove no próximo dia 30, no Rio de Janeiro, em contribuição à 5ª Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, que será realizada em Brasília, em novembro próximo.

O objetivo da FAO na América Latina e Caribe é montar uma rede de entidades com organizações não governamentais (ONGs), universidades e institutos de pesquisa com o propósito de reduzir a perda na produção e na pós-colheita dos alimentos. Ao governo caberia providenciar a melhoria de fatores como infraestrutura para transporte dos alimentos, como existe nos Estados Unidos.

“O que se tem que fazer no Brasil é uma rede de formadores que possa, junto com o governo, empresas privadas e ONGs, trabalhar nisso tudo”, afirma o engenheiro agrônomo da Embrapa Indústria de Alimentos, Murilo Freire. O governo brasileiro entraria com a legislação, com infraestrutura e armazenamento adequados, explicou.

Integrante do Comitê de Especialistas em Redução de Perdas e Desperdícios para a América Latina e Caribe da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o pesquisador disse que o problema ocorre em toda a cadeia produtiva, que tem deficiência de infraestrutura, manuseio, plantio errado, doenças, embalagem, transporte e armazenamento.

Segundo Freire, os produtos são desperdiçados porque ou estão fora do prazo de validade ou não foram consumidos por serem identificados como malformados ou fora do padrão estabelecido pela legislação do Ministério da Agricultura. A meta do comitê é montar uma rede na região para diminuir as perdas na produção desses alimentos.

“O desperdício ocorre quando o alimento produzido é jogado fora, ou seja, ele não chega a quem necessita”, disse Freire. Um exemplo disso, segundo o engenheiro, é o caso dos frutos feios, que não são padronizados nem têm um apelo de venda comercial elevado, mas têm as proteínas, vitaminas e sais minerais de um produto normal. Esse é o desperdício. São alimentos produzidos, mas não usados”.

As perdas no Brasil correspondem em média a 30% dos alimentos pós-colheita no caso dos frutos, e 35% das hortaliças. “Os países desenvolvidos desperdiçam mais do que os países em desenvolvimento. Estes últimos perdem 60% antes da porteira, da produção, e desperdiçam 40%. Nas nações desenvolvidas, a perda ocorre mais na ponta e inverte a projeção”.

A FAO considera que a população mundial está em elevado nível de insegurança alimentar, uma vez que um terço do que é produzido é perdido. Isso corresponde a cerca de 1,7 bilhão de toneladas de alimentos. Na África, as perdas alcançam 60%. “São 50% só na fase de produção. Perdem mais 5% na distribuição, que eles não têm, e 5% na parte do consumidor”, disse o pesquisador. Na Alemanha, o desperdício é mínimo.

Uma lei em tramitação no Congresso há dez anos – a chamada Lei do Bom Samaritano – penaliza o doador de alimentos. Um industrial, produtor ou mesmo restaurantes não podem doar alimentos porque, se alguém passar mal, o doador acaba acusado de ser o responsável. “Isso ocorre aqui no Brasil. Nos outros países, não”, disse Freire,

“Não há armazenamento adequado para grãos e hortaliças no Brasil”. Freire criticou o financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) a obras que melhorem a infraestrutura em outros países, em detrimento de projetos necessários no Brasil. Em relação à tecnologia, disse que existem muitas disponíveis no país, como a refrigeração, por exemplo, cujo uso é conhecido, mas não é adotado.

Outra falha apontada é na embalagem dos produtos. A atenção a esses fatores pode diminuir as perdas no final da cadeia. Falta informação que chegue ao produtor, ao atacadista e ao consumidor, disse Murilo Freire. Se tudo que é desperdiçado fosse aproveitado, haveria maior oferta, o produtor ganharia mais e o consumidor pagaria menos pelos alimentos.

Por Alana Gandra, da Agência Brasil.

Publicado no Portal EcoDebate, 27/04/2015

segunda-feira, 30 de março de 2015

Resíduos de laranja e banana podem contribuir para a produção de etanol

27 de março de 2015

Por José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – Laranja e banana, as duas frutas mais cultivadas no Brasil, podem vir a ser também – devido aos seus resíduos – importantes fontes complementares para a produção de bioetanol veicular. Esse é o objetivo da pesquisa “Produção de bioetanol utilizando cascas de banana e laranja por cofermentação de Zymomonas mobilis e Pichia stipitis”, apoiada pela FAPESP.

O estudo foi coordenado por Crispin Humberto Garcia Cruz, professor titular da Universidade Estadual Paulista (Unesp), no campus de São José do Rio Preto, e desenvolvido pela doutoranda Michelle Cardoso Coimbra, bolsista da FAPESP.

“Claro que as respostas obtidas em laboratório não podem ser simplesmente extrapoladas para um processo industrial em grande escala. Mas elas permitem uma estimativa. Com base nos valores obtidos em escala laboratorial, se todos os resíduos resultantes das culturas de laranja e banana fossem convertidos em etanol, teríamos uma produção anual de 658 milhões de litros”, disse Garcia Cruz àAgência FAPESP.

Cardoso Coimbra descreveu, passo a passo, o processo realizado em laboratório. “Inicialmente, as cascas são secas e trituradas. Depois, passam por um pré-tratamento de hidrólise ácida, realizada com ácido sulfúrico a 5% (existem outras alternativas de pré-tratamento, como a hidrólise alcalina, a explosão a vapor etc.). O material pré-tratado é misturado com enzimas em solução por cerca de 24 horas.

Após a hidrólise enzimática, a mistura é filtrada e desintoxicada com carvão ativado para a retirada de compostos inibidores que podem ser formados na etapa da hidrólise ácida. O material é, então, utilizado como substrato para fermentação, realizada por culturas de Zymomonas mobilis e Pichia stipitis, produzindo o etanol”.

“Com a utilização da cultura consorciada de Zymomonas mobilis e Pichia stipitis, a produtividade foi maior, em comparação com os processos baseados em apenas um dos microrganismos. Isso ocorre porque, com os dois microrganismos, tanto as pentoses quanto as hexoses liberadas com a hidrólise das cascas podem ser transformadas em etanol”, comentou Garcia Cruz.

A produção brasileira de etanol de cana-de-açúcar, anidro e hidratado, é de aproximadamente 27 bilhões de litros por ano. O etanol de resíduo de laranja e banana corresponderia a 2,5% desse volume. Considerando apenas o etanol de cana-de-açúcar hidratado, que é o utilizado como combustível, a produção anual brasileira é de 15 bilhões de litros. Neste caso, o percentual do aporte do etanol de resíduo de laranja e banana subiria para 4,3%.

A maior parte desse aporte viria da citricultura.

12 milhões de toneladas de resíduos

O Brasil é, atualmente, o maior produtor de laranja do mundo, com uma produção anual da ordem de 18 milhões de toneladas. “Mais ou menos 50% do peso da laranja é formado pela casca e pelo bagaço, que são seus principais resíduos. Podemos estimar, portanto, 9 milhões de toneladas de resíduo de laranja por ano, que poderiam, idealmente, ser convertidos em 570 milhões de litros de etanol”, informou Michelle Cardoso Coimbra.

A banana, a segunda fruta mais cultivada no país, tem uma produção anual de aproximadamente 7 milhões de toneladas. Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), de cada 100 quilos de bananas colhidas, 46 quilos não são aproveitados por não atenderem aos padrões de consumo. Apenas a produção rejeitada gera ao redor de 3 milhões de toneladas de resíduos por ano. “Também idealmente, esse montante poderia ser convertido em 88 milhões de litros de etanol”, acrescentou a pesquisadora.

Somando-se os 570 milhões de litros provenientes da laranja com os 88 milhões de litros resultantes da banana, chega-se ao valor total de 658 milhões de litros/ano.

Os números são, por enquanto, puramente teóricos. Não existe no Brasil nenhuma usina de produção de etanol associada à fruticultura. Tais usinas teriam de ser instaladas preferencialmente próximas às áreas de cultivo dessas frutas, ou adaptações nas unidades atuais precisariam ser feitas. Além disso, a captação e o aproveitamento dos resíduos de frutas dependem de vários fatores. Um deles é que a geração desses resíduos ocorre em diferentes fases dos ciclos da laranja e da banana: colheita, transporte, revenda e pós-consumo.

O outro fator, ainda mais importante, é que a produção de etanol a partir de resíduos de frutas depende da chamada tecnologia de segunda geração, que consiste na quebra das cadeias de celulose e de hemicelulose por meio da hidrólise enzimática e no aproveitamento dos açúcares resultantes.

Custo das enzimas

“Um dos principais gargalos é o alto valor das enzimas necessárias para a liberação dos açúcares na etapa de hidrólise da celulose e da hemicelulose. Outro é o uso de microrganismos geneticamente modificados ou culturas consorciadas de microrganismos que possam fermentar as hexoses e pentoses liberadas com a hidrólise, aumentando assim o rendimento da produção de etanol de segunda geração”, explicou Garcia Cruz.

A primeira usina de etanol de cana-de-açúcar de segunda geração entrou em operação comercial no país no final do ano passado, em São Miguel dos Campos, Alagoas. Essa usina está localizada perto de outras três, que produzem açúcar e etanol de primeira geração, e que vendem parte do resíduo de sua produção (palha e bagaço de cana) para a usina de segunda geração. Tal arranjo, fundamental para a redução de custos com o transporte, não ocorreria, no curto prazo, no caso dos resíduos de frutas.

Apesar desses senões, os pesquisadores consideram o etanol de resíduos de frutas uma opção comercialmente promissora. Ainda mais que existiriam subprodutos. “A queima dos resíduos resultantes das várias etapas da produção do etanol poderia gerar energia elétrica. Além disso, para a utilização das cascas de laranja, seria recomendada a extração dos óleos essenciais, compostos principalmente por limoneno, subproduto de interesse para indústrias alimentícias”, afirmou Garcia Cruz. 
Pesquisa realizada na Unesp oferece um destino útil para a grande quantidade de sobras geradas nos ciclos dessas frutas, da colheita ao pós-consumo (foto:Wikimedia)

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terça-feira, 17 de março de 2015

Produção de energia com resíduos da agropecuária

Briquetes prontos para gerar energia em indústrias e fábricas que utilizam caldeiras. Foto: Eliana Cezar

O Brasil possui condições vantajosas para produzir energia, mas a recomendação é de que não sejamos dependentes de fontes não renováveis como o petróleo, o gás natural, o urânio ou do carvão mineral. Necessitamos buscar fontes renováveis de energia. No Brasil, a biomassa é a principal fonte de energia renovável. Ela gera calor, energia elétrica e pode ser transformada em biocombustível sólido como briquetes, resultante da compactação de resíduos vegetais, por exemplo. Como somos um dos maiores produtores agrícolas e florestais do mundo, a quantidade gerada de biomassa residual pode e deve ser melhor aproveitada, especialmente na forma de briquetes e péletes.

Os briquetes podem ser produzidos a partir de qualquer resíduo vegetal, explica o pesquisador da Embrapa Agroenergia, José Dilcio Rocha, que participa da Dinapec 2015. Em sua apresentação feita para um público formado por professores, universitários, estudantes, produtores e empresários ele explica em detalhes como os briquetes são feitos, suas vantagens, utilização e investimento para produção.

Dentre os materiais utilizados para produzir os briquetes o pesquisador cita a serragem e restos de serraria, casca de arroz, sabugo e palha de milho, palha e bagaço de cana-de-açucar, casca de algodão, casca de café, soqueira de algodão, feno ou excesso de biomassa de gramíneas forrageiras, cascas de frutas, cascas e caroços de palmáceas, folhas e troncos das podas de árvores nas cidades. Os briquetes possuem diâmetro superior a 50 mm e substituem a lenha em muitas aplicações, inclusive em residências (lareiras e churrasqueiras), hotéis (geração de vapor) em indústrias (uso em caldeiras) e estabelecimentos comerciais como olarias, cerâmicas, padarias, pizzarias, lacticínios, fábricas de alimentos, indústrias químicas, têxteis e de cimento. Do ponto de vista econômico, o pesquisador alerta para a realização de um plano de negócio, já do ponto de vista ambiental ele afirma que a tendência é se tornar um bom ou excelente investimento.

No Brasil são produzidos cerca de 1,2 milhão de toneladas de briquetes por ano. Destes, 930 mil toneladas são de madeira e 272 mil toneladas de resíduos agrícolas. A taxa de crescimento da demanda de briquete é de 4,4% ao ano, o que demonstra a importância potencial no mercado de energia renovável, atesta o pesquisador. Ele afirma também que nosso país possui condições vantajosas para produzir com sucesso briquetes como também péletes, outro substituto da lenha em muitas aplicações. “A prática é excelente opção para vários setores produtivos agregarem valor aos resíduos que hoje são subaproveitados”.

Fábrica de briquetes demonstra linha de produção para visitantes

A oficina sobre briquetes incluiu a visita a uma empresa de Campo Grande, MS, que produz briquetes, a Eco Esfera Indústria e Comércio de Artefatos de Madeiras. No local os visitantes tiveram a oportunidade de acompanhar a linha de produção, ver o funcionamento das máquinas, etapas da fabricação e tirar dúvidas com o proprietário Glauco Silva, um adepto da preservação do ambiente. O briquete tem alto poder calorífico e produz pouca fumaça, diz Glauco. “É um produto 100% reciclado e é feito de madeira com baixo teor de umidade. Produzimos o industrial feito em forma de bolachas e o em forma de tarugos de 5 a 10 centímetros de diâmetro e 40 centímetros de comprimento, para utilização em fornos de padarias e pizzarias e também para uso doméstico. É um combustível ecologicamente correto, substituindo a lenha”. Segundo ele, o poder de calor do briquete é de 5000 Kcal/kg e o da lenha 750 kcal/kg e 1tonelada de brinquete corresponde a três árvores altas preservadas ou 7 metros cúbicos de madeira.

Participantes da oficina de briquetes na Dinapec ficaram satisfeitos com as apresentações e a programação do evento. “Divulgar esta tecnologia de aproveitamento de resíduos é importante”, disse Brenda Farias, estudante de zootecnia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, que igualmente com outras 12 universitárias ficaram surpresas com a visita à fábrica Eco Esfera. “Foi muito bom assistir a palestra e ver de perto o processo de fabricação dos briquetes, disse Brenda, que não sabia da existência em Campo Grande de uma fabrica de lenha ecológica”. Fábio Alexandre, gerente da Agropecuária AGRO HB, também saiu da Dinapec com boa impressão. “Fiz a inscrição nesta oficina porque tenho interesse em fazer este tipo de aproveitamento na fazenda”. Já o engenheiro mecânico e professor da Universidade Federal da Grande Dourados, Antonio Carlos de Souza, lamentou não ter divulgado mais o evento entre os colegas. Ele aproveitou para levar uma publicação técnica da Embrapa sobre produção de briquetes e uma amostra do produto para apresentar aos seus alunos do curso de engenharia de energia.

O pesquisador da Embrapa Agroenergia, José Dilcio, que ministrou a oficina de briquetes pela primeira vez na Dinapec gostou da receptividade do público. Disse que a Dinapec é aconchegante e uma feira tecnológica interessante e que a Embrapa tem tudo para dar um salto ainda maior neste tipo de ação.

Por Eliana Cezar (DRT 15410 SP), Embrapa Gado de Corte

Publicado no Portal EcoDebate, 17/03/2015

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Lixo da indústria de alimentos pode virar energia limpa

Pesquisadores do Cempeqc/Unesp desenvolvem metodologia para produzir hidrogênio a partir de águas residuárias do beneficiamento da laranja (fotos: divulgação e Wikimedia)

Por Karina Toledo

Agência FAPESP – Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Araraquara (SP) estudam a viabilidade de usar a água residuária da indústria de suco de laranja para produzir hidrogênio – uma fonte de energia renovável, inesgotável e não poluente.

A pesquisa, apoiada pela FAPESP, está em andamento no Centro de Monitoramento e Pesquisa da Qualidade de Combustíveis, Biocombustíveis, Petróleo e Derivados (Cempeqc) do Instituto de Química da Unesp.

“A vantagem de produzir hidrogênio a partir de águas residuárias é aproveitar, de maneira sustentável, uma fonte de carbono que hoje está sendo descartada”, argumentou Sandra Imaculada Maintinguer, pesquisadora do Cempeqc.

De acordo com a pesquisadora, a proposta é reaproveitar a energia gerada localmente, na própria indústria, para abastecer as bombas dos sistemas de tratamento biológico, por exemplo.

“O método poderia beneficiar não apenas o setor citrícola, como o sucroalcoleiro, indústrias de refrigerantes, cervejas e de outros alimentos”, afirmou Maintinguer.

O hidrogênio, explicou a pesquisadora, é quase três vezes mais energético que os hidrocarbonetos e que o metano e quatro vezes mais que o etanol. No entanto, em razão do custo ainda elevado de armazenamento e transporte, seria inviável usar o gás, por exemplo, para substituir a energia hidrelétrica – ainda muito barata no Brasil.

O grupo de pesquisadores do Cempeqc está estudando três diferentes resíduos do beneficiamento da laranja cedidos por uma empresa situada em Matão (SP): o melaço, a vinhaça e a água residuária.

Embora o melaço e a vinhaça apresentem concentrações mais elevadas de açúcares (40 a 150 g glicose/L), testes preliminares sugerem que a água residuária (12g glicose/L) é a mais indicada para a produção biológica de hidrogênio.

“Quando a concentração de substrato é muito elevada, pode ocorrer a inibição do crescimento dos microrganismos que quebram os açúcares em moléculas menores, como ácidos orgânicos e hidrogênio. Existe uma faixa ideal, que parece ser a da água residuária”, disse Maintinguer.

Além da glicose, os pesquisadores também encontraram outras fontes de carbono na água residuária, como frutose e ácidos orgânicos, além de impurezas como óleos e detergentes usados no processo industrial.

“Fizemos os testes usando a água residuária com todas as impurezas e, mesmo assim, os resultados foram muito promissores. Conseguimos transformar cerca de 65% desse resíduo em hidrogênio. Como os microrganismos usam os nutrientes para crescer e se multiplicar em primeiro lugar, a produção nunca chega a 100%”, explicou a pesquisadora.

Arqueas metanogênicas

Os ensaios, em escala de bancada, foram feitos em reatores anaeróbios (frascos de vidro hermeticamente fechados), para evitar que o contato com o oxigênio inibisse a produção da enzima hidrogenase, extremamente importante na produção biológica de hidrogênio.

Na água residuária foi inoculado um conjunto de microrganismos de diferentes classes coletado em sistemas de tratamento biológico de esgotos sanitários. De acordo com a pesquisadora, o inóculo também pode ser obtido a partir do próprio lodo formado nos sistemas biológicos de tratamento industrial.

Porém, é necessário um pré-tratamento para eliminar as chamadas arqueas metanogênicas, um tipo de microrganismo capaz de consumir o hidrogênio produzido para formar metano, algo indesejável nesse caso.

“O processo biológico anaeróbio tem várias etapas e, em cada uma delas, atua uma classe diferente de microrganismo. Os carboidratos são quebrados em açúcares, ácidos orgânicos, acetato, hidrogênio e, se o processo não for interrompido, em metano”, disse a pesquisadora.

Para evitar que isso aconteça, o inóculo é submetido a um choque térmico e o pH do meio é reduzido para 5,5. O pré-tratamento causa a eliminação das arquéias metanogênicas, enquanto as bactérias úteis para o processo apenas entram em estado vegetativo, voltando a se multiplicar quando as condições se tornam favoráveis.

“É um método fácil e barato e só é necessário fazê-lo uma vez. Depois posso reaplicar o inóculo em outra amostra quando acabar o substrato no reator. Por enquanto, estamos usando apenas a configuração de reator em batelada (frascos com quantidades limitadas onde a reação ocorre até o substrato acabar e depois é preciso reabastecer). O próximo passo é testar em um reator de fluxo contínuo”, disse Maintinguer.

Além do hidrogênio, resultam do processo alguns ácidos graxos voláteis – como o ácido butírico e o ácido acético – também passíveis de serem transformados em hidrogênio por bactérias fotoheterotróficas.

“Elas consomem esses ácidos na presença da luz e liberam mais hidrogênio, elevando assim o rendimento”, explicou a pesquisadora.

Na avaliação de Maintinguer, o Brasil tem um grande potencial para ser referência em tecnologia do hidrogênio e é beneficiado pelo fato de ser um país tropical, com temperaturas médias anuais em torno de 25ºC – favorável ao desenvolvimento de bactérias.

“Em países como Holanda e Alemanha é preciso aquecer os reatores para que o processo seja bem sucedido”, comentou.

O Ministério de Minas e Energia tem planos para introduzir o hidrogênio na matriz energética do país até 2025, inclusive como combustível automotivo. Uma das metas do governo brasileiro é que, após 2020, toda a produção do gás seja obtida a partir de fontes renováveis.

Publicado no Portal EcoDebate, 15/01/2015

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Reaproveitamento do óleo residual de fritura: Menos resíduos, mais energia!

Embrapa Agroenergia, Caesb e Ubrabio mostram na Semana de C&T como produzir biodiesel a partir de óleo de fritura
Gordura jogada na pia entope canos da rede de esgoto e polui o meio ambiente. Foto: Cidade Verde

Coletar o óleo de fritura usado (OFU) pode colaborar para a redução dos danos a tubulações de esgoto da empresas de saneamento, a preservação do meio ambiente e para a inclusão e transformação social. Esse cenário se desenha a partir do reaproveitamento do óleo residual de fritura como matéria–prima para a produção de biodiesel, alternativa que já é uma realidade em usinas brasileiras e será um dos temas apresentados no estande da Embrapa durante a 11ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT), que acontece entre 13 e 19 de outubro, no pavilhão do Parque da Cidade, em Brasília/DF.

No Distrito Federal, a Embrapa Agroenergia, a Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb) e a União Brasileira do Biodiesel e Bioquerosene (Ubrabio) estruturaram o projeto M.O.V.E.R. – Meu Óleo Vira Energia Renovável, para a cadeia produtiva do biodiesel no país e a importância do aproveitamento do óleo residual como matéria-prima para a produção de biodiesel. Por meio da coleta e da reutilização propostas pelo projeto, o óleo deixa de ser um problema ambiental, que polui as águas e provoca entupimentos na rede de esgoto, para tornar-se uma solução em energia renovável. O óleo coletado no DF será transformado em biodiesel em uma usina demonstrativa que está em fase final de montagem, com recursos da Finep, dentro do projeto Biofrito, liderado pela Embrapa Agroenergia em parceria com a Caesb.

Durante a Semana de C&T, o projeto M.O.V.E.R. estará no estande da Embrapa, que vai funcionar de forma interativa. Os visitantes da feiras poderão juntos com os cientistas da Embrapa e representantes da Caesb e Ubrabio produzir biodiesel. “Nas ações que temos realizado com estudantes, mostramos a importância de não jogar o óleo de fritura no ralo ou na pia: o recolhimento contribui para reduzir os gastos públicos com a manutenção das redes de esgoto; a produção transforma um passivo ambiental em energia limpa e diminui a poluição das águas. Além disso, o uso do biodiesel em mistura com o diesel reduz a emissão de gases poluentes gerados pela queima de combustíveis fósseis”, ressalta Sérgio Beltrão, diretor executivo da Ubrabio.

De acordo com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) esta Semana, que acontece em todos os estados brasileiros, é uma grande oportunidade para vincular a produção científica aos desafios sociais. “O biodiesel produzido a partir do óleo de fritura se integra perfeitamente em arranjos produtivos locais seja no meio rural, urbano ou nas cidades inteligentes.O MCTI vem propondo debates entre os cientistas e a sociedade” de forma a se explorar mais estas alternativas, destaca Rossano Gambetta, pesquisador da Embrapa Agroenergia e responsável por esta ação.

Em 2014, o tema da Semana Nacional de C&T é “Ciência e Tecnologia para o Desenvolvimento Social”, uma grande oportunidade para discutir um referencial democrático que valorize os avanços da ciência e tecnologia e, ao mesmo tempo, os pontos de vista e conhecimentos locais praticados há gerações.

Impactos socioeconômicos e ambientais

O descarte incorreto do óleo degrada o meio ambiente e gera impactos econômicos ao bolso do cidadão. De acordo com a Caesb, no DF são gastos cerca de R$ 500 mil todos os anos para filtrar o óleo doméstico que é descartado no ralo depois do preparo de, por exemplo, uma simples porção de batatas fritas.

Enquanto o Brasil já recicla 98% das latinhas de alumínio que utiliza, apenas 2% do óleo de fritura é reaproveitado. Nesse cenário, o biodiesel brasileiro é um aliado na eliminação do óleo de fritura como passivo ambiental.

A fabricação de biodiesel a partir de óleos e gorduras residuais (OGR) é sustentável e transforma esses passivos ambientais – que poluem as águas, geram entupimento nas redes de esgoto e gastos com manutenção -, em energia limpa e renovável.

Além produção ecológica a partir de resíduos, o uso do biodiesel reduz a emissão de gases de efeito estufa (GEE) gerados pela queima de combustíveis fósseis. A mistura obrigatória B7 (7% de biodiesel adicionado ao diesel fóssil), recentemente aprovada pelo Congresso Nacional, evita a emissão de aproximadamente 9 toneladas de CO2/ ano, o equivalente ao plantio de cerca de 60 milhões de árvores/ano.

Biodiesel recicla mais de 30 milhões de litros de óleo

Até 2012, o OFU integrava a fatia de 4% de representatividade na cadeia de produção do biodiesel, juntamente com gordura de porco e frango, ácido graxo de óleo de soja, e espécies vegetais como a macaúba, a canola, a palma e o nabo-forrageiro. Em 2013, essa representatividade cresceu, e o óleo de fritura usado passou a responder por 1% da produção do biodiesel nacional.

Hoje, o Brasil utiliza cerca de 30 milhões de litros de óleo reciclado para produzir biodiesel. Com o aumento da mistura obrigatória de biodiesel ao diesel fóssil (B7), há potencial para aumentar ainda mais essa participação.

(Estagiária: Stephane Paula)

Por Daniela Garcia Collares (MTb/114/01 RR), da Embrapa Agroenergia

Publicado no Portal EcoDebate, 14/10/2014

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Lodo de esgoto é matéria-prima de fertilizantes

Por Da Redação - agenusp@usp.br
Publicado em 23/setembro/2014 

Keite Marques, da Assessoria de Comunicação da EESC
imprensa@sc.usp.br

A ideia empreendedora de produção de fertilizantes orgânicos com base no tratamento do esgoto destacou três alunos do curso de Engenharia Ambiental da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) da USP, e ficou entre os trabalhos selecionados para o evento Spin2014 do programa IDEup que será realizado na Cidade do México, nos dias 28 e 29 de outubro. O programa está enquadrado no RedEmprendia — uma rede universitária ibero-americana que tem por objetivo incentivar a transferência de conhecimento, o desenvolvimento tecnológico e o empreendedorismo responsável — em parceria com a Universidad Nacional Autónoma de México, o Instituto Politécnico Nacional, o Tecnológico de Monterrey, a Universia e o Banco Santander por intermédio de sua Divisão Global Santander Universidades.
Ideia empreendedora: produzir fertilizantes orgânicos com base no tratamento do esgoto

Atualmente a rede é constituída por 24 universidades de sete países — Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Espanha, México e Portugal. O desafio do IDEup foi selecionar e promover as melhores ideias inovadoras orientadas para o empreendedorismo dos universitários da Ibero-América. Os estudantes Petry Carvalhal Melo, Bruno da Silva Amorim e Guilherme Flandoli Romeiro da EESC apresentaram o trabalho “Biossólido”, que se baseia no desenvolvimento de um sistema de tratamento do lodo gerado em Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs), o qual permite sua reutilização como fertilizante orgânico com uma alta capacidade nutritiva, capaz de colaborar no desenvolvimento da biota vegetal, sendo que a principal atuação será no setor agrícola.

“Existe uma grande dificuldade na disposição final desse resíduo por parte das ETEs, e muitas vezes não recebe o fim adequado em termos ambientais, pois são despejados no solo, rios e córregos sem nenhum tratamento prévio. Devido a isso, desenvolveu-se um sistema de tratamento do lodo, para obter um valor comercial e solucionar um grande problema que envolve esse setor”, explica Romeiro.

Biossólido

O “Biossólido” concorreu com mais de 360 propostas de 14 países e ficou entre os 20 finalistas, resultado de um trabalho em desenvolvimento há cerca de um ano e que contou com um grande apoio e incentivo do professor Luiz Antônio Daniel, do Departamento de Hidráulica e Saneamento da EESC, para prosseguir com a ideia. A partir de pesquisas realizadas no Clube de Empreendedorismo de São Carlos, do qual fazem parte, os estudantes viram no programa uma oportunidade de avançar a construção do projeto. “O interesse nasceu devido à possibilidade de aprendermos sobre ferramentas de design 3D e, principalmente, pela chance de desenvolver um protótipo para a nossa ideia”, destacou o grupo.

Até o dia da final, os selecionados participarão da fase “Melhore a sua ideia” do IDEup, na qual irão seguir um intenso programa de formação on-line e presencial concebido para aperfeiçoar as inovações, construir protótipos físicos e virtuais dos projetos e aproximá-los do mercado. O programa inclui a “FabLab Experience”, uma série de sessões teóricas e práticas sobre concepção e fabrico digital, fabrico a laser e impressão 3D, todas ministradas no México. Além disso, as equipes selecionadas poderão usufruir da rede do FabLab – laboratórios de fabricação digital – nos países de origem para colocarem em prática os conhecimentos adquiridos.

Os concorrentes também participarão do “3Days2Spin” – 26, 27 e 28 de outubro –, três dias em que poderão partilhar experiências com empreendedores de toda a Ibero-América, participar em workshops especialmente oferecidos a eles, ou assistirem a palestras de conceituadas figuras do panorama empreendedor internacional.

Um júri internacional de peritos escolherá as três melhores ideias, para receberem o prêmio de USD 5 mil e a oportunidade de aderirem aos programas de apoio ao empreendedorismo da RedEmprendia. “A expectativa para o dia do evento é muito grande. Esperamos estar capacitados para sermos os vencedores da competição, além disso, estamos muito ansiosos para aprender com as palestras e a possibilidade de realizar um networking com pessoas de diversas partes do mundo”, ressalta Romeiro.

Foto: Wikimedia Commons

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