Mostrando postagens com marcador Sustentabilidade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sustentabilidade. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Programa produtor de água estimula produtores rurais a adotar boas práticas para melhorar qualidade da água

Voluntários integram programa de preservação de rios e nascentes
Foto: Agência Brasil

Entre os programas do governo federal para promover a segurança hídrica do País, o Programa Produtor de Água, desenvolvido pela Agência Nacional de Águas (ANA), tem ganhado destaque.

O programa funciona por meio de adesão voluntária de produtores rurais que se proponham a adotar práticas e manejos conservacionistas em suas terras para conservação de solo e água. Atualmente, são 38 projetos em execução, abrangendo área de 400 mil hectares, dos quais 40 mil já recuperados.

Com o objetivo de reduzir a erosão e o assoreamento de mananciais no meio rural, a iniciativa propicia a melhoria da qualidade da água e o aumento das vazões médias dos rios em bacias hidrográficas de importância estratégica para o País.

O programa também presta apoio técnico e financeiro à montagem dos arranjos de pagamento por serviços ambientais e para a execução das ações de conservação de solo e água nos diversos projetos existentes.

Execução

De acordo com a ANA, a metodologia do programa foi criada em 2001, mas a primeira experiência prática foi implementada em 2006, na cidade Extrema, em Minas Gerais.

Ao todo, 42 projetos foram criados até hoje. Minas Gerais e São Paulo possuem cerca de 70% dos projetos Produtores de Água. Os demais estão no Acre (1), Bahia (1), Distrito Federal (1), Goiás (2), Mato Grosso (3), Mato Grosso do Sul (1), Paraná (1), Rio de Janeiro (2), Rio Grande do Sul (1), Santa Catarina (1), Sergipe (1) e Tocantins (1).

Como funciona

Ao aderir ao programa, o produtor passa a ser o principal ator na equação de produção de serviços ambientais. Ele se dispõe a liberar as áreas que precisam ser revegetadas, transforma-se no guardião de todas as ações executadas na sua propriedade, zelando pelo sucesso delas.

A ANA apoia tecnicamente todo o processo para estabelecer parcerias que garantam o pagamento pelos serviços ambientais, o fornecimento de assistência técnica e recursos para a realização das ações. Financia, também, as ações para as quais não se identificou parceiro capaz suprir essa necessidade.

Os benefícios dessas práticas ultrapassam as fronteiras das propriedades rurais e chegam aos demais usuários da bacia, por esse motivo o programa prevê a remuneração dos produtores participantes.

Segundo Flávio Hermínio de Carvalho, especialista em recursos hídricos da ANA, os pagamentos aos produtores rurais geralmente são semestrais ou anuais e concretizam-se por depósito em conta. Os valores atualmente variam entre R$ 120,00 e R$ 800,00 por hectare por ano a depender da área e do serviço ambiental prestado. As fontes pagadoras mais comuns são prefeituras e empresas de saneamento.

Investimentos futuros

A Agência Nacional de Águas destaca que o Produtor de Água é o maior e mais bem sucedido programa de pagamentos por serviços ambientais no Brasil. Trata-se de um enorme laboratório para teste de metodologias de valoração, pagamento e implementação de práticas em campo.

O governo tem adotado o Produtor de Água como modelo para futuros projetos ambientais e da forma como valorizar o trabalho do produtor rural.

Há previsão de investimentos de R$ 30 milhões em novos projetos produtores de água até o final de 2019.

Para participar do Programa Produtor de Água, é necessário ficar atento aos editais lançados pela ANA. As informações podem ser acompanhadas pelo site http://produtordeagua.ana.gov.br/.

Fonte: Portal Brasil, com informações da ANA e do Ministério do Meio Ambiente

in EcoDebate, 18/10/2016

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Atlas de Desenvolvimento Sustentável e Saúde. Brasil: 1991 a 2010

Fonte: Representação da Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS) no Brasi - Quinta-feira, 28 de Julho de 2016 


O Atlas de Desenvolvimento Sustentável e Saúde foi elaborado pela Representação da Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS) no Brasil, com o objetivo de descrever a magnitude e a evolução de importantes indicadores das dimensões econômica, social e ambiental e oferecer subsídios para o debate sobre as desigualdades no Brasil ao longo das últimas duas décadas, considerando o ponto de vista da saúde. Os indicadores referem-se aos anos de 1991, 2000 e 2010, e a todas as unidades federadas, tomando como base para a análise dos municípios brasileiros.

A realização do estudo foi motivada por uma frase-chave do documento final da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio +20), realizada no Rio de Janeiro, em 2012, que afirma: “[…] reconhecemos que a saúde é uma condição prévia, um resultado e um indicador das três dimensões do desenvolvimento sustentável”: a econômica, a social e a ambiental.

Foram selecionados indicadores incluídos nos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) que terão continuidade nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), pactuados pelos estados-membros das Nações Unidas para o período posterior a 2015.

São eles: taxa de mortalidade infantil e na infância, como indicadores da dimensão da saúde; proporção da população em condição de pobreza, como indicador da dimensão econômica; proporção da população analfabeta, como indicador da dimensão social; e proporção da população sem acesso à água encanada, como indicador da dimensão ambiental.

As análises realizadas evidenciam, em todas as unidades federadas do país, avanços positivos nas duas décadas estudadas (1991-2010), especialmente na última, no que se refere tanto à melhoria dos indicadores de desenvolvimento sustentável analisados quanto na redução de seus valores médios e das desigualdades entre as regiões e os municípios do país, sendo esse último muito importante de ser ressaltado.

O Brasil é hoje um país melhor e mais equitativo que há 20 anos. Sua população é mais saudável e goza de mais bem-estar, como demostrado contundentemente por esta publicação.

Na versão online, o atlas está dividido por estados brasileiros e você pode ter acesso aos dados clicando aqui

"Desenvolvimento sustentável e saúde” marca o início de uma nova era no estudo de desigualdades em saúde no Brasil. Graças a um esforço de décadas, os investimentos na qualidade e cobertura de nossas estatísticas vitais passaram a permitir novas formas de análises espaciais de iniquidades, que já são frequentes nos países de alta renda. Os resultados aqui apresentados mostram que, apesar de importantes progressos, erradicar as iniquidades em saúde persiste como um desafio fundamental para nossa sociedade. Com sua riqueza gráfica e clareza analítica, esta publicação não apenas servirá como referência essencial para futuros estudos acadêmicos, mas também para embasar políticas públicas em prol da equidade."

Cesar Victora
Centro Internacional de Equidade em Saúde, Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia, Universidade Federal de Pelotas. Rio Grande do Sul, Brasil.

"O Atlas de desigualdades em saúde agora à disposição dos profissionais de saúde, estudantes e docentes da área de Saúde nos país é uma iniciativa extremamente interessante na qual os autores selecionaram indicadores socioeconômicos e de saúde capazes de fornecer um bom retrato da situação de estados e municípios. A escolha das formas gráficas e dos mapas para retratar a evolução temporal dos indicadores também foi muito bem sucedida pois em pouco espaço foi possível fornecer muitas informações. Todos nós que trabalhamos em epidemiologia social e temos nossa área de pesquisa em Determinantes Sociais de Saúde saudamos a iniciativa e certamente faremos bom uso deste Atlas."

Rita Barradas Barata
Departamento de Saúde Coletiva Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa São Paulo (FCMSCSP). São Paulo, Brasil.

Link:

sábado, 30 de julho de 2016

Apenas três em cada dez brasileiros são consumidores conscientes, mostra pesquisa

Indicador abrange práticas financeiras, ambientais e sociais. Em meio à crise econômica, consumidor contem despesas e evita compras não planejadas

Com o objetivo de acompanhar as mudanças nos hábitos de compra e outras ações cotidianas e também compreender se os brasileiros caminham em direção ao consumo sustentável, o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), calcularam pelo segundo ano consecutivo o Indicador de Consumo Consciente (ICC), que atingiu 72,7%, permanecendo estável em relação a 2015, quando estava em 69,3%. O ICC pode variar de 0% a 100%: quanto maior o índice, maior é o nível de consumo consciente. Em uma escala de 1 a 10, os entrevistados dão nota média de 8,9 para a importância do tema consumo consciente, mas apenas três em cada dez brasileiros (32,0%) podem ser considerados consumidores conscientes de fato – um aumento de 10,2 pontos percentuais em relação a 2015, quando esse percentual era de 21,8%.


Apesar de ter apresentado melhora, o aumento do indicador foi discreto em relação a 2015. “O consumidor brasileiro ainda possui desempenho abaixo do que é considerado ideal, representando um consumidor em transição. Assim como em 2015, os entrevistados associam mais frequentemente o consumo consciente com atitudes relacionadas apenas a aspectos financeiros, ficando em um segundo plano as esferas ambientais e sociais”, explica a economista-chefe do SPC Brasil, Marcela Kawauti. O principal benefício percebido pelos entrevistados continua a ser o de economizar e fazer o dinheiro render mais (37,1%), prevalecendo a dimensão financeira do consumo consciente.
O estudo do SPC Brasil segmentou os consumidores em três categorias, de acordo com a intensidade da prática dos comportamentos considerados adequados: ‘consumidores conscientes’ – que apresentam frequência de atitudes corretas acima de 80% – ‘consumidores em transição’, cuja frequência varia entre 60% e 80% de atitudes adequadas e ‘consumidores nada ou pouco conscientes’, quando a incidência de comportamentos apropriados não atinge 60%.

Para elaborar o indicador, foi realizada uma pesquisa com uma série de perguntas para investigar os hábitos, atitudes e comportamentos que fazem parte da rotina dos brasileiros. Estas questões permearam as três dimensões que compõem o conceito de consumo consciente, e todas elas obtiveram resultados abaixo do desempenho ideal de 80%: práticas ambientais (72,5%), práticas financeiras (73,8%) e práticas sociais (70,6%). Apesar de apresentarem pequenos aumentos quando comparados a 2015, apenas a diferença percentual no subindicador relacionado às finanças é estatisticamente superior.
Antes de fazer novas compras, 90% avaliam o impacto no orçamento

O subindicador de Práticas Financeiras foi o único a apresentar um crescimento significativo, de 5,8 pontos percentuais em relação a 2015, ficando em 73,8% em 2016 ante 68,0% no ano passado. Este crescimento está possivelmente associado não a uma maior consciência dos consumidores, mas a restrições financeiras e receio do futuro, gerados pela crise econômica que o país atravessa.

“À primeira vista, este poderia ser um sinal de que o brasileiro está caminhando em direção a hábitos de consumo mais racionais, mas não se pode deixar de relacionar esses dados ao contexto econômico recessivo atual do país. O crescimento dos níveis de desemprego, inflação alta e as incertezas em relação ao futuro do país fazem com que o consumidor adote uma postura mais precavida em relação a suas finanças”, afirma Kawauti. Para a economista, por um lado o consumidor age com maior cautela nas compras e toma mais atitudes para economizar, no sentido de fazer seu orçamento render mais; por outro, ele parece mais pressionado a resistir às compras sem planejamento, pois entende que esse comportamento se torna ainda mais arriscado em tempos de crise.

O subindicador de práticas financeiras observa a habilidade do entrevistado para lidar com os apelos do consumismo e a capacidade de gerenciar as próprias finanças sem fazer dívidas ou comprometer o orçamento. Entre as 18 atitudes investigadas, 11 apresentaram crescimento significativo em 2016, quando comparado ao ano passado, sendo as mais praticadas a avaliação do impacto de compras no orçamento antes de realizá-las (90,2%), não ter vontade de fazer compras por ver os amigos com coisas novas que estão na moda (87,7%), sempre pesquisar preços (86,9%), priorizar a qualidade dos produtos e não as marcas (86,6%) e preferir consertar um produto que ainda pode ser utilizado a comprar um novo (86,0%, 80,9% em 2015).

Frear o impulso de realizar compras desnecessárias também tem sido um hábito comum do consumidor brasileiro: 82,9% garantem que geralmente quando sentem vontade de comprar um produto perguntam a si mesmos se realmente precisam e, caso contrário, preferem não comprar (contra 75,3% em 2015).

As atividades menos praticadas pelos entrevistados são: alugar ou pegar emprestado produtos que usa com pouca frequência em vez de comprar um novo (43,2%) e não arrepender de compras desnecessárias feitas (21,4%).

Prática ambiental mais adotada é doar produtos ao invés de jogar fora

O subindicador de práticas ambientais, relacionadas às preocupações e cuidados com o meio ambiente e consumo de água e luz, tem como objetivo investigar a disposição do consumidor para minimizar o impacto de suas ações e agir de modo a não causar danos ao meio ambiente, utilizando de forma racional os recursos que tem a seu dispor. Em 2016, o subindicador atingiu 72,5%, sem alteração estatística em relação a 2015 (71,7%).

Entre as atitudes mais praticadas estão a de doar ou trocar produtos que não precisa mais antes de jogar fora (87,1%), não usar carro para ir a qualquer lugar (76,3%) e evitar imprimir papeis para evitar gastos e cuidar do meio ambiente (75,6%). A preferência pelo álcool em detrimento da gasolina, além de ser a prática menos frequente, foi a única a apresentar queda significativa – de 41,4% em 2015 para 32,6% em 2016.

Em relação às práticas que abordam o uso da água, a maioria apresentou crescimento significativo na variação anual, sendo as mais adotadas fechar a torneira enquanto escova os dentes (94,3%, contra 90,4% em 2015), ensaboar

a louça com a torneira da pia fechada (89,1%, ante 79,1%), controlar o valor mensal da conta visando economizar (88,4%, ante 81,2%). Por outro lado, algumas práticas ainda encontram resistência, como ligar a máquina de lavar com a capacidade máxima (42,8%), fechar a torneira do chuveiro enquanto se ensaboa durante o banho (61,5%) e não lavar o carro com mangueira ou em lava a jatos (67,2%).

Já as práticas adequadas em relação ao uso de energia elétrica, as mais adotadas são apagar as luzes de ambientes não utilizados (96,2%), controlar o valor da conta mensalmente para economizar (crescimento de 5,5% em 2016 chegando ao patamar de 89,2%) e ter a maioria das lâmpadas na residência fluorescentes (87,9%). Já a menos adotada é tirar da tomada os eletrônicos que não estão sendo utilizados (54,9%).

Apenas 47% recusam a compra de produtos falsificados

O subindicador de práticas de engajamento social analisa a disposição do consumidor para pensar coletivamente, medindo as consequências de suas ações na sociedade, bem como a capacidade para incentivar os outros a também consumir de maneira responsável. Em 2016, o subindicador foi calculado em 70,6%, também sem alteração estatística em relação a 2015 (68,1%).

As práticas sociais mais adotadas são: incentivar as pessoas da casa a economizarem água e luz (90,9%), preferir passar o tempo livre com família e amigos a fazer compras (85,9%) e apoiar o controle da propaganda (77,4%). Já as práticas menos adotadas são relacionadas à compra de produtos falsificados: 47,3% afirmam que não compram esses itens mesmo se o preço for muito atrativo, enquanto 59,3% não o fazem porque não querem financiar o crime organizado.

Apenas dois dos nove comportamentos testados na pesquisa tiveram aumento significativo em 2016 em relação a 2015. São eles o incentivo às pessoas da casa a pechincharem nas compras (de 67,8% para 76,5%) e a reutilização de peças de roupas antigas (de 52,6% para 59,9%).

Esquecimento e falta de tempo são principais barreiras

Para os entrevistados pelo SPC Brasil e pela CNDL, o principal motivador para o consumo consciente de água e luz é o não desperdício (35,5%), porém o esquecimento (31,5%) e a falta de tempo (29,8%) são as principais barreiras encontradas pelos consumidores.

De acordo com o educador financeiro do SPC Brasil, José Vignoli, apesar dos consumidores reconhecerem a importância do consumo consciente e responsável, a grande maioria não vê as práticas sustentáveis como prioridade em seu dia a dia. “Ainda predomina a percepção de que os aspectos financeiros são mais importantes, ficando em segundo plano as implicações ambientais e sociais. É preciso que mais pessoas passem a enxergar o consumo de maneira mais ampla”, analisa Vignoli. “Ser um consumidor consciente é entender que pagar por um produto ou serviço é apenas uma parte da relação de consumo, e que esta ação sempre produz efeitos sociais e ambientais”.

Considerando os tipos de consumidores conscientes, em transição ou nada ou pouco conscientes, percebe-se que não há diferenças entre os grupos com relação ao sexo ou classe social. No entanto, percebe-se que os consumidores conscientes são relativamente mais jovens, com uma média de 38 anos, enquanto a média de idade dos nada ou pouco conscientes é de 45 anos.

Metodologia

O Indicador de Consumo Consciente (ICC) tem como objetivo medir os conhecimentos e níveis de práticas de consumo consciente pelo brasileiro em três esferas: financeira, ambiental e social. Para isso, foram entrevistados 600 consumidores nas 26 capitais mais Distrito Federal com idade igual ou superior a 18 anos, de ambos os sexos e de todas as classes sociais. A margem de erro é de no máximo 4,00 pp com margem de confiança de 95%.

Baixe a íntegra da pesquisa em https://www.spcbrasil.org.br/pesquisas

Colaboração de Renan Miret e Vinícius Bruno, in EcoDebate, 21/07/2016

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Economia verde e consumidores, artigo de Roberto Naime

[EcoDebate] A construção de uma economia verde só será possível quando houver mudança no modelo de produção adotado pela maioria das nações e no comportamento do consumidor de classe média.

Esta foi a conclusão resultou do Fórum Global de Crescimento Sustentável, que reuniu cerca de 300 líderes de seis países, em Copenhague, na Dinamarca.

Este é o reconhecimento tácito de que ou se muda a ideologia ou se altera a autopoiese sistêmica do arranjo de equilíbrio social.

A questão ambiental representa uma síntese dos impasses que o modelo atual de civilização acarreta, chamado de “crise civilizatória”.

Por isso se sabe que leis e normas não vão resolver os problemas. Mas são muito relevantes numa sociedade criada pela civilização humana que vive de direito positivado.

A civilização humana vai acabar determinando nova autopoiese sistêmica, na acepção livre das concepções de Niklas Luhmann e Ulrich Beck, que contemple a solução dos maiores problemas e contradições exibidas pelo atual arranjo de equilíbrio.

Que é um sistema instável, muito frágil e vulnerável. Para sua própria sobrevivência, o “sistema” vai acabar impondo uma nova metamorfose efetiva.

Outro mundo é possível, mesmo dentro da livre iniciativa. Ocorre enfatizar que nada é contra a livre-iniciativa. Que sem dúvida sempre foi e parece que sempre será o sistema que melhor recepciona a liberdade e a democracia.

Os movimentos sociais apresentam a distorção sistêmica de articular mudanças ideológicas como se fossem soluções para questões ambientais. Mas uma nova autopoise sistêmica para o arranjo social, é urgente e precisa ser desenvolvida pela civilização humana.

Nada foi mais nefasto na civilização humana do que as hecatombes ambientais produzidas pela falta de liberdade e práticas ambientalmente condenáveis geradas pela auto-suficiência de ditadores socialistas.

Esta mudança deve começar logo, juntando as lutas singulares, os esforços diários, os processos de auto-organização e as reformas para retardar a crise, com uma visão centrada numa mudança de civilização e uma nova sociedade em harmonia com a natureza.

Não é preciso esperar catástrofe ecológica ou hecatombe civilizatória para determinar nova autopoiese sistêmica. Como mencionado, nada foi mais deletério em causar a maior catástrofe ambiental do planeta do que a falta de liberdade e imprensa livre dos ditos regimes socialistas.

A primeira-ministra da Dinamarca, Helle Thorning Schmidt, disse que “a construção de economias verdes não é uma tarefa fácil, e que as nações precisam trabalhar juntas”. Garantir essa conexão é o que o fórum buscou fazer.

Governos de países desenvolvidos e em desenvolvimento, empresários, instituições financeiras e organizações da sociedade civil se debruçaram sobre os principais desafios para a construção de uma economia verde.

O ex-presidente do México e atual chefe da Comissão Global de Economia e Clima, Felipe Calderón, disse que quatro medidas precisam ser adotadas com urgência pelas nações, a redução na emissão de gases de efeito estufa, a busca de eficiência energética na indústria, o controle da urbanização e a proteção dos recursos naturais.

“Não é uma alternativa, é algo que precisa ser feito imediatamente”, disse. A boa notícia, segundo ele, é que é possível garantir crescimento econômico e, ao mesmo tempo, frear as mudanças climáticas, mas “para isso, grandes mudanças precisam ser feitas”.

O presidente do Conselho Mundial para o Desenvolvimento Sustentável, Peter Bakker, ressaltou que, se quiserem garantir um mundo melhor para as futuras gerações, as pessoas terão que reconsiderar alguns hábitos comuns.

“Ter um carro é mesmo a melhor opção? Ou dividir um carro é um modelo melhor? Os conceitos de propriedade, de compartilhamento, de viver bem, de felicidade, todos terão que ser reconsiderados”, ressaltou.

Criado em 2011, o Fórum Global de Crescimento Sustentável conta com a parceria de seis governos, Dinamarca, China, México, Etiópia, Quênia e Catar.

Grandes empresas multinacionais também são parceiras, além de organizações internacionais, como a Agência Internacional de Energia (IEA, da sigla em inglês), o Pacto Global das Nações Unidas e a Corporação Financeira Internacional do Banco Mundial (IFC, da sigla em inglês).

Tem sido registrado que quando a hecatombe afetar as finanças, a sociedade rapidamente desenvolve rápido novo arranjo de equilíbrio social. Não se lamenta a forma como isto vai ocorrer. O meio ambiente e a vida agradecem igual.

Referência:

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

in EcoDebate, 20/07/2016
"Economia verde e consumidores, artigo de Roberto Naime," in Portal EcoDebate, ISSN 2446-9394, 20/07/2016, https://www.ecodebate.com.br/2016/07/20/economia-verde-e-consumidores-artigo-de-roberto-naime/.

Economia Verde, artigo de Roberto Naime

[EcoDebate] DINIZ e BERMANN (2012) asseveram que a ideia de economia verde surgiu recentemente e ganha projeção cada vez mais acentuada. Para entender um pouco melhor, precisamos buscar a gênese do conceito, que se encontra na ideia de desenvolvimento econômico sustentável, também chamada de desenvolvimento sustentável.

A definição clássica de desenvolvimento sustentável, expressa no chamado Relatório Brundtland, é a da evolução que “satisfaz as necessidades do presente sem comprometer a possibilidade das gerações futuras satisfazerem suas próprias necessidades” (WORLD COMMISSION…, 1987).

Por trás desse conceito temos a necessidade de repensar o desenvolvimento econômico de uma nova forma, levando em conta a igualdade entre gerações. Até então, o desenvolvimento econômico tinha uma concepção um pouco mais restrita e normalmente considerava os determinantes fundamentais do crescimento econômico sem levar em conta o meio ambiente.

Esses determinantes fundamentais em última instância produziam alterações na acumulação de fatores de produção e na produtividade, que engloba o progresso tecnológico e as alterações na eficiência com que os fatores são empregados, além de influenciar a velocidade de crescimento do país.

DINIZ e BERMANN (2012) manifestam que correntes menos ortodoxas estudavam também problemas de distribuição de renda e outros temas, utilizando uma formalização menos rigorosa. Idéias menos ortodoxas são incorporadas em modelos econômicos, em grande parte pela disseminação de métodos matemáticos mais sofisticados na Economia (KRUGMAN, 1995).

A análise empírica de modelos de crescimento econômico também ganhou novo alento desde que o interesse nos modelos de crescimento econômico foi renovado, em meados da década de 1980.

A relação entre desenvolvimento econômico e meio ambiente se tornou mais explícita a partir da década de 1970, quando pesquisadores passaram a examinar quais seriam os limites do crescimento em um contexto onde os recursos naturais são finitos.

Na ocasião, diversas previsões preocupantes foram obtidas (MEADOWS et. al., 1972), as quais posteriormente foram relativizadas ao se incorporar na análise uma modelagem mais sofisticada contemplando o progresso tecnológico, a descoberta de novas jazidas e o uso de jazidas que anteriormente não eram economicamente viáveis.

O desenvolvimento sustentável é uma evolução em relação à antiga concepção de desenvolvimento ao incorporar a necessidade de uma igualdade entre gerações.

Essa eliminação da desigualdade entre gerações é um pouco mais ampla que a redução da desigualdade de renda. A desigualdade de renda dentro de um país pode ser reduzida, e os dados mostram que efetivamente isso aconteceu no mundo como um todo desde a primeira metade do século XIX (BOURGUIGNON & MORRISON, 2002).

A desigualdade entre gerações é algo mais amplo, que envolve uma medida de bem-estar, e não simplesmente uma comparação da renda (como em BECKER et al., 2005).

A questão da igualdade entre gerações sob a dimensão da sustentabilidade significa que cada geração deve ter o mesmo bem-estar, ou a mesma igualdade de oportunidades, que as demais.

Em termos do meio ambiente, não deve haver uma deterioração que impeça uma geração de alcançar o mesmo bem-estar que uma geração anterior. Logo, a preservação do meio ambiente surge como uma forma de evitar o aumento da desigualdade entre gerações.

Obviamente ninguém defende a preservação a qualquer custo, mas é necessário que haja critérios que norteiem o uso racional dos recursos naturais de modo sustentável.

A noção de economia verde é mais recente que o conceito de desenvolvimento sustentável. Pode-se definir economia verde como aquela que “resulta em melhoria do bem-estar humano e equidade social, ao mesmo tempo em que reduz significativamente os riscos ambientais e a escassez ecológica” (UNITED NATIONS…, 2011, p.16).

Uma economia verde possui baixas emissões de carbono, eficiência no uso de recursos naturais e inclusão social. Os autores dessa linha de pesquisa argumentam que a evidência empírica mostra que não há dilema entre sustentabilidade e crescimento econômico e a transição para uma economia verde pode ser feita tanto por países ricos quanto por países pobres.

A inexistência de um dilema entre sustentabilidade e crescimento econômico pode ser contestada pela evidência empírica que aponta para um dilema nas primeiras etapas do desenvolvimento e depois passa a ocorrer crescimento com redução das emissões de poluentes que é uma regularidade empírica conhecida como Curva Ambiental de Kuznets.

Dentro da dimensão macroeconomia, pode ser pesquisada a relação entre o meio ambiente e o desenvolvimento econômico. DINIZ e BERMANN (2012) assinalam que pode ser avaliada a existência ou não de uma Curva Ambiental de Kuznets para um dado poluente, e se a presença de poluentes interfere na convergência condicional dos países para uma renda “per capita” de equilíbrio e em sua velocidade de incremento.

Referências:

BECKER, G. S. et al. The Quantity and Quality of Life and the Evolution of World Inequality. American Economic Review, v. 95, 2005.

BOURGUIGNON, F.; MORRISON, C. Inequality Among World Citizens: 1820-1992. American Economic Review, v. 92, 2002.

KRUGMAN, P. The Fall and Rise of Development Economics. In: KRUGMAN, P. (Org.) Development, Geography, and Economic Theory. Cambridge, MA: MIT Press, 1995. p.1-29.

MEADOWS, D. H. et al. The limits to growth. New York: Universe Books, 1972.

UNITED NATIONS ENVIRONMENT PROGRAMME. Towards a green economy: pathways to sustainable development and poverty eradication. S. l.: Unep, 2011.

WORLD COMMISSION ON ENVIRONMENT AND DEVELOPMENT. Our Common Future. Oxford: Oxford University Press, 1987.

DINIZ, Eliezer M. e BERMANN, Célio – Economia verde e sustentabilidade Estud. Av. vol. 26 no. 74 São Paulo 2012.

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Celebração da vida [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

in EcoDebate, 19/07/2016
"Economia Verde, artigo de Roberto Naime," in Portal EcoDebate, ISSN 2446-9394, 19/07/2016, https://www.ecodebate.com.br/2016/07/19/economia-verde-artigo-de-roberto-naime/.

Atlas de Desenvolvimento Sustentável e Saúde. Brasil: 1991 a 2010


Fonte: Representação da Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS) no Brasi - Quinta-feira, 28 de Julho de 2016 


O Atlas de Desenvolvimento Sustentável e Saúde foi elaborado pela Representação da Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS) no Brasil, com o objetivo de descrever a magnitude e a evolução de importantes indicadores das dimensões econômica, social e ambiental e oferecer subsídios para o debate sobre as desigualdades no Brasil ao longo das últimas duas décadas, considerando o ponto de vista da saúde. Os indicadores referem-se aos anos de 1991, 2000 e 2010, e a todas as unidades federadas, tomando como base para a análise dos municípios brasileiros.

A realização do estudo foi motivada por uma frase-chave do documento final da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio +20), realizada no Rio de Janeiro, em 2012, que afirma: “[…] reconhecemos que a saúde é uma condição prévia, um resultado e um indicador das três dimensões do desenvolvimento sustentável”: a econômica, a social e a ambiental.

Foram selecionados indicadores incluídos nos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) que terão continuidade nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), pactuados pelos estados-membros das Nações Unidas para o período posterior a 2015.

São eles: taxa de mortalidade infantil e na infância, como indicadores da dimensão da saúde; proporção da população em condição de pobreza, como indicador da dimensão econômica; proporção da população analfabeta, como indicador da dimensão social; e proporção da população sem acesso à água encanada, como indicador da dimensão ambiental.

As análises realizadas evidenciam, em todas as unidades federadas do país, avanços positivos nas duas décadas estudadas (1991-2010), especialmente na última, no que se refere tanto à melhoria dos indicadores de desenvolvimento sustentável analisados quanto na redução de seus valores médios e das desigualdades entre as regiões e os municípios do país, sendo esse último muito importante de ser ressaltado.

O Brasil é hoje um país melhor e mais equitativo que há 20 anos. Sua população é mais saudável e goza de mais bem-estar, como demostrado contundentemente por esta publicação.

Na versão online, o atlas está dividido por estados brasileiros e você pode ter acesso aos dados clicando aqui

"Desenvolvimento sustentável e saúde” marca o início de uma nova era no estudo de desigualdades em saúde no Brasil. Graças a um esforço de décadas, os investimentos na qualidade e cobertura de nossas estatísticas vitais passaram a permitir novas formas de análises espaciais de iniquidades, que já são frequentes nos países de alta renda. Os resultados aqui apresentados mostram que, apesar de importantes progressos, erradicar as iniquidades em saúde persiste como um desafio fundamental para nossa sociedade. Com sua riqueza gráfica e clareza analítica, esta publicação não apenas servirá como referência essencial para futuros estudos acadêmicos, mas também para embasar políticas públicas em prol da equidade."

Cesar Victora
Centro Internacional de Equidade em Saúde, Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia, Universidade Federal de Pelotas. Rio Grande do Sul, Brasil.

"O Atlas de desigualdades em saúde agora à disposição dos profissionais de saúde, estudantes e docentes da área de Saúde nos país é uma iniciativa extremamente interessante na qual os autores selecionaram indicadores socioeconômicos e de saúde capazes de fornecer um bom retrato da situação de estados e municípios. A escolha das formas gráficas e dos mapas para retratar a evolução temporal dos indicadores também foi muito bem sucedida pois em pouco espaço foi possível fornecer muitas informações. Todos nós que trabalhamos em epidemiologia social e temos nossa área de pesquisa em Determinantes Sociais de Saúde saudamos a iniciativa e certamente faremos bom uso deste Atlas."

Rita Barradas Barata
Departamento de Saúde Coletiva Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa São Paulo (FCMSCSP). São Paulo, Brasil.

Link:

sábado, 25 de junho de 2016

Inovações Sustentáveis, artigo de Roberto Naime

[EcoDebate] Ricardo Abramovay assevera que precisamos de inovações sustentáveis.

Crítico do alarmismo, o professor Ricardo Abramovay defende divulgação de boas práticas ambientais para sensibilizar população. Em entrevista a Renato Grandelle afirma que “em qualquer setor, as empresas precisam conversar cada vez mais com os cientistas e ser sensíveis às mudanças das preferências dos consumidores”

Parece impossível discutir o futuro do planeta sem cair no pessimismo. As mudanças climáticas são tão flagrantes que teriam provocado o início de um novo período geológico.
A indústria ainda não consegue adaptar toda a sua cadeia de produção a práticas sustentáveis. O economista Ricardo Abramovay, da Universidade de São Paulo (USP) prefere não olhar para o abismo.

Existem estudos mostrando que até 80% do noticiário relacionado às mudanças climáticas é alarmista. Não é culpa dos meios de comunicação porque, quando alguém abre o jornal, as catástrofes chamam mais atenção. Então, é natural que ganhem mais ênfase.

É importante ressaltar que as ameaças não são inventadas. De fato vivemos uma situação preocupante. No entanto, acredito que, se quisermos sensibilizar a população, é importante expor exemplos e conquistas que permitam dizer que, apesar dos problemas, há condições de organizar a vida.

Indagado sobre quais são as consequências da comunicação baseada em catástrofes, arguiu, “se as pessoas têm a expectativa de que a vida vai piorar, elas acreditam que é melhor aproveitar enquanto há tempo. Você sabe o que está acontecendo, mas nada faz a respeito, porque não haverá um prejuízo imediato. Acredito que, se os gases de efeito estufa tivessem cor, nunca chegaríamos a esta situação. As pessoas se revoltariam contra a poluição. Infelizmente a destruição do sistema climático não é visível”.

Indagado porque tantos relatórios científicos também adotam um tom alarmista, mas ainda não convenceram os governos a estabelecer um acordo global assevera “a capacidade de comunicação da ciência é muito pequena. Aliás, ela parece avessa à comunicação. O discurso é hermético. Os relatórios são difíceis de compreender”.

Perguntado sobre onde os ambientalistas erram em seu discurso, manifesta que “um exemplo é o setor de transportes, hoje baseado em carros particulares, movidos a combustíveis fósseis. O discurso ambientalista convencional é “você não pode ter o automóvel que tanto almeja, porque ele é poluente”. Isso induz a uma reação, “como assim? Agora que eu quero (e posso), você me vem com esta história?”. O ideal é dizer: “Este carro não vai trazer o bem-estar que você quer”. Enquanto isso, devemos investir seriamente no transporte coletivo”.

Provocado a se manifestar sobre o setor energético, onde também há exagero quando se fala sobre a possibilidade de racionamentos no futuro, argumentou “nos Estados Unidos, alguns anos atrás, achava-se que seria necessário reduzir o uso de equipamentos elétricos e eletrônicos que são indispensáveis. O uso de tecnologias como a energia solar por um preço cada vez mais barato muda completamente este negócio. Mostra que a redução das emissões derivadas do consumo de energia não se traduz em mal-estar para as pessoas. Temos técnicas para assegurar que as mudanças exigidas à sociedade pelo aquecimento global sejam menos traumáticas do que pensávamos recentemente”.

Perguntado se acreditava que a crise hídrica tivesse sido uma lição para a sociedade sobre a fragilidade do fornecimento de energia, aduziu “a ocorrência dos eventos climáticos extremos coloca a sociedade em um clima de incerteza totalmente inédito. Não podemos dizer que fenômenos como este ocorrerão, por exemplo, a cada dez anos. Não há uma frequência correta. Falta uma campanha para mostrar à população que economizar energia continua sendo muito importante, mesmo com os avanços tecnológicos”.

O senhor também inclui o setor alimentício no rol daqueles que mais demandam mudanças radicais no relacionamento entre clima, empresas e consumidores. Manifestou convicto que “a indústria alimentícia é altamente dependente de insumos químicos.

Ao mesmo tempo, a explosão da epidemia de obesidade está fazendo com que as grandes empresas do setor agro-alimentar revejam os seus modelos de negócio.

Então, a forma de vender alimentos é cada vez mais contestada, tanto por organismos médicos como também pela opinião pública. Em qualquer setor, as empresas precisam conversar cada vez mais com os cientistas e ser sensíveis às mudanças das preferências dos consumidores. Do contrário, elas perdem sua legitimidade social, o que afeta seus lucros”.

Inquirido se as empresas estão preparadas para este diálogo, desenvolveu manifestações de que “ainda não. As empresas do século XXI são aquelas que conseguirão se organizar diante da preferência dos clientes, da rede de fornecedores, de políticas públicas e da concorrência. Elas sofrem pressões e devem reagir a elas. Já não investem mais em pesquisas que negam as mudanças climáticas, como faziam aquelas que exploram combustíveis fósseis”.

Em continuidade na entrevista, diante da questão que o senhor já escreveu artigos sobre o Antropoceno, um novo período geológico, o primeiro provocado pelo homem. Como nossa intervenção sobre o planeta tornou-se tão importante?

Respondeu que “cerca de 10 mil anos atrás, na Revolução Neolítica, o homem tornou-se uma força biológica, porque alterou ecossistemas com o surgimento da agricultura. Desde então, a temperatura do planeta não sofreu grandes alterações, oscilava cerca de 1 grau Celsius. Isso mudou a partir da Revolução Industrial, no fim do século XVIII, quando começamos a usar combustíveis fósseis.

O ser humano, em vez de força biológica, converteu-se em uma força geológica. Em tão pouco tempo, a temperatura já aumentou 0,8 grau Celsius. Além disso, vivemos uma explosão populacional. Durante o século XX, passamos de 1,6 bilhão para 6,1 bilhões de pessoas. Pela primeira vez, causamos a chegada de um novo período geológico. Este é o Antropoceno”.

Finalizando, diante do questionamento sobre o que pode ser feito a partir de agora, conclui “o Antropoceno não significa o fim do mundo. A questão é: como transformar o limão em limonada? Levando em consideração as transformações que provocamos sobre a Terra, o que significa uma vida digna? Precisamos aumentar a cooperação das pessoas, mudar a relação com o mundo natural.

Isso deve ser apoiado em revoluções tecnológicas. Precisamos de inovações sustentáveis, porque já é certo que as temperaturas globais aumentarão de 3 a 6 graus Celsius até o fim do século. O sistema produtivo precisa ser modificado”.

Aqui isto frequentemente tem sido denominado nova autopoiese sistêmica, na interpretação livre da semântica das acepções de Niklas Luhmann e Ulrich Beck, para um novo arranjo civilizatório.

Nada foi mais nefasto na civilização humana do que as hecatombes ambientais produzidas pela falta de liberdade e práticas ambientalmente condenáveis geradas pela auto-suficiência de ditadores socialistas.

Esta mudança deve começar logo, juntando as lutas singulares, os esforços diários, os processos de auto-organização e as reformas para retardar a crise, com uma visão centrada numa mudança de civilização e uma nova sociedade em harmonia com a natureza.

Não é preciso esperar catástrofe ecológica ou hecatombe civilizatória para determinar nova autopoiese sistêmica. Nada foi mais deletério em causar a maior catástrofe ambiental do planeta do que a falta de liberdade e imprensa livre dos ditos regimes socialistas.

Mas esta é a concepção resultante de convicções muito pessoais e personalizadas.

Referência:


Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Enlace de sustentabilidade, Parte II, Final, artigo de Roberto Naime

[EcoDebate] SILVA et. al. (2014) explicitam que a transição agroecológica deste assentamento passa por um processo importante através das atividades agrícolas desenvolvidas no assentamento, em que a maioria dos assentados se mostra conscientes em quanto ao enlace da sustentabilidade de uma maneira empírica.

Se percebe que por se tratar de um assentamento com mais de 20 anos existem poucos jovens envolvidos na continuação da agricultura, isso pode ser atribuído ao fato de que o campo seja visto como um local de atraso para eles e por oferecer poucas oportunidades para que eles cresçam em virtude da agricultura.

A fragilidade do processo organizacional e talvez de um planejamento mais especializado gere um pequeno atraso quando a formulação de um processo de educação no campo de maneira que, fosse facilitado o desenvolvimento da Transição Agroecológica.

Além disso, a produção sem uso de insumos agrícolas (herbicidas, fungicidas, inseticidas) e o manejo da vegetação remanescente, Caatinga, ao assentamento é outra circunstância relevante.

Os agricultores familiares são marginalizados, diante da necessidade da soberania alimentar não podendo garantir suas necessidades, alimentares no campo. A política pública de reforma agrária, de crédito, de investimento e de comercialização deve ir contra essa tendência à concentração da produção.

Isto, por sua vez, induziu a mudanças na estrutura produtiva a favor dos produtos com maior demanda no mercado (frutas, hortaliças, sementes, oleaginosas, produtos florestais e carnes de aves) e em detrimento de produtos tradicionais da região como trigo, café, açúcar, algodão e banana.

Neste pressuposto quanto à soberania alimentar observada no assentamento Soledade em suas realidades, nas famílias acompanhadas há disparidades quanto à produção, sendo que em parte do assentamento ainda se encontra em avanço no processo de desenvolvimento, de suas atividades produtivas, podendo ainda ser ampliado em grande parte o quintal produtivo, quanto à disponibilidade de produtos, fazendo assim, com que haja maior diversificação dos alimentos produzidos.

Em contrapartida outra área do mesmo assentamento acaba se sobressaindo com uma maior variedade de alimentos produzidos em seu quintal produtivo, dando margem à percepção da importância de se consumir um alimento saudável e de procedência, porém alguns agricultores ainda resistem à produção desses alimentos em suas terras, tornando claro uma falha na transição agroecológica.

O processo para o desenvolvimento da economia solidária, presente no Assentamento Soledade, ainda não abrange o assentamento como um todo. Para que o processo se desenrole é necessário o estabelecimento da transição agroecológica e da soberania alimentar, pilares do enlace da sustentabilidade.

Nas realidades vivenciadas no, entanto, é notável que há uma queda, no que diz respeito a comercialização dos produtos, por não existir políticas que incentivem a venda de forma justa e solidária, onde os assentados não dispõe de uma feira agroecológica para o escoamento da produção e outros projetos e políticas que estimulem o consumo de alimentos saudáveis, que venham a influenciar na ampliação de uma economia sustentável que cresça no assentamento, de forma positiva.

Assim como os produtos derivados ou secundários como a polpa e corante, que não funcionaram por falta de organização tanto do grupo em questão, quanto da dificuldade de levar esses produtos para outros centros de comercialização, evidenciando a falta de políticas públicas que agreguem valor, facilitando e motivando a atividade.

A partir do que foi observado no Soledade, evidencia-se o potencial da região, no desenvolvimento de uma agricultura de base agroecológica, Porém é de suma importância à consolidação de políticas, que estimulem a produção e a permanência de agricultor no campo, permitindo assim a conservação de sua identidade e o estabelecimento de um novo viés para a transição da agricultura familiar moderna, para uma agricultura de base agro-ecológica que acarrete inúmeros benefícios ao produtor e ao consumidor do produto final.

Outra dimensão de elevada importância, trata-se do trabalho desenvolvido pela ponte formada entre as universidades e entidades não governamentais, para melhor comunicação entre os agricultores, formando um conhecimento que se adapte a cada realidade.

Não adianta trazer tecnologias relacionadas a uma agricultura convencional ou ainda que não haja formação entre os agricultores, se essas não se enquadrarem com a situação vivida em cada assentamento e comunidades rurais e subvertam a autonomia.

Uma outra cosmovisão do mundo é necessária para resgatar a dignidade e a qualidade de vida de todas as populações.

Referências:

ESTEVÃO, P., CASTELA, E. F. de, SOUSA, D. N. de, MILAGRES, C. S. F. A. Extensão rural e sua trajetória histórica. VIII Congresso Latino-americano de Sociologia Rural, Porto de Galinhas, 2010.

TEIXEIRA, G., O agronegócio é ‘negócio’ para o Brasil? Presidente da ABRA – Associação Brasileira de Reforma Agrária, 2013

SILVA, Maria Janaina Nascimento, AGUIAR Kalianne Carla de Souza , LEMOS, Marcílio de, COSTA, Paula Alinne de Almeida. O Enlace da Sustentabilidade no Assentamento Soledade: Vivenciando e Construindo saberes agroecológicos. Cadernos de agroecologia, v. 9, n. 4, 2014

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

in EcoDebate, 08/06/2016
"Enlace de sustentabilidade, Parte II, Final, artigo de Roberto Naime," in Portal EcoDebate, ISSN 2446-9394, 8/06/2016,https://www.ecodebate.com.br/2016/06/08/enlace-de-sustentabilidade-parte-ii-final-artigo-de-roberto-naime/.

Projeto ‘Rural Sustentável’ financiará interessados em propriedades rurais sustentáveis na Amazônia

Produtores e técnicos rurais de 70 municípios da Amazônia e da Mata Atlântica que tenham interesse em reduzir as emissões de carbono e aumentar a sustentabilidade de suas propriedades podem se inscrever no projeto Rural Sustentável até o dia 19 de agosto deste ano.

O projeto vai selecionar 3,5 mil pequenas e médias propriedades nos estados de Mato Grosso, do Pará, de Rondônia, da Bahia, de Minas Gerais, do Paraná e do Rio Grande do Sul e financiar a transformação dessas áreas em unidades demonstrativas de agricultura de baixo carbono, com tecnologias como a integração lavoura-pecuária-floresta, a recuperação de áreas degradadas, o plantio florestal comercial e o manejo sustentável de florestas nativas.

Os selecionados vão receber apoio técnico e financeiro para adotar tecnologias agropecuárias sustentáveis que promovam a restauração florestal. Também há apoio financeiro para assistência técnica, inclusive com transferência de conhecimentos para melhorar a capacidade técnica de produtores.

As propostas técnicas devem ser enviadas por meio do portal Rural Sustentável.

As propriedades devem ter até 15 módulos fiscais, estar em um dos municípios da lista, e o inscrito precisa ter posse legal da área. Além disso, para se inscrever, é preciso estar classificado como unidade de produção familiar rural, população tradicional, assentado da reforma agrária ou pessoa física ou jurídica que representem associações e cooperativas.

Entre os objetivos do Rural Sustentável está a redução da pressão para desmatamento de novas áreas, a diminuição da emissão de gases do efeito estufa e a conservação da biodiversidade. O projeto também visa facilitar o acesso dos agricultores selecionados ao crédito rural oficial em programas como o ABC, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, uma linha de crédito que financia sistemas produtivos que contribuem para mitigar a emissão de gases do efeito estufa, e os programas Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) e Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp), entre outros, aumentando também a renda no meio rural.

O projeto é resultado de uma parceria entre os governos do Brasil, por meio do Ministério da Agricultura, e do Reino Unido, no âmbito de uma cooperação técnica entre os dois países de Agricultura de Baixo Carbono e Desmatamento Evitado para Reduzir a Pobreza no Brasi”, e é executado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). A iniciativa é financiada pelo Fundo Internacional para o Clima (International Climate Fund (ICF) do Ministério da Agricultura, da Alimentação, da Pesca e dos Assuntos Rurais do Reino Unido.

Por Maiana Diniz, da Agência Brasil, in EcoDebate, 10/06/2016

terça-feira, 7 de junho de 2016

Enlace de sustentabilidade, Parte I, artigo de Roberto Naime

[EcoDebate] SILVA et. al. (2014) asseveram que a agricultura passa por um processo transitório pelo qual os agricultores desenvolvem no campo uma forma sustentável de conduzir os recursos naturais com uma preocupação de preservação e ao mesmo tempo de aproveitamento para gerar uma maior qualidade de vida nos assentamentos.

Pode ser denominado este processo transitório de “Enlace da Sustentabilidade” que se compõe de três parâmetros, a transição agroecológica, a soberania alimentar e a economia solidária.

Para isso as vivências efetuadas no assentamento Soledade em Ipojucá, Pernambuco, no contexto da agricultura brasileira, em que a lógica do agronegócio predomina, é um exercício libertário.

Uma marcante transformação na agricultura foi a emergência de uma lógica que defendia o campo como um local de atraso desvalorizando o conhecimento do camponês, introduzindo a necessidade da aquisição de insumos agrícolas (sementes, fertilizantes, inseticidas, herbicidas) gerando um desequilíbrio social e ambiental gerados pela “Revolução Verde”.

Desta forma, a revolução verde agravou o potencial para a segurança alimentar no Brasil, principalmente através de programas de extensão que espalham essa lógica entre grande parte dos agricultores familiares, que em muitos casos deixaram de produzir por não conseguir se adequar a esta realidade (TEIXEIRA 2013).

Um fator importante é a forma como vem sendo produzida as pesquisas agropecuárias que não levam em consideração as características e conhecimentos dos agricultores, almejando um processo de artificialização da atividade, resultando numa crescente dependência de insumos agroquímicos, prejudiciais ao meio ambiente e a saúde dos agricultores e consumidores.

SILVA et. al. (2014) asseveram que o estudo e pesquisa estão distantes do campo sendo este voltado para meios artificiais de pesquisa, que se especializam em estudos teóricos gerado pelos médios e grandes produtores rurais desvalorizando o conhecimento do camponês e negligenciando sua vinculação com o campo.

Presencia-se também a fragilidade da formação agroecológica nos assentamentos pelos extensionistas, levando a uma agricultura um pouco distante dessa visão, onde a assistência técnica está pouco preparada para tal formação expondo para os agricultores uma lógica que retira a autonomia camponesa (ESTEVÃO, et al 2010).

Se percebe o andamento das dimensões, transição agroecológica, soberania alimentar e economia solidária. Planejando a construção de um novo paradigma formado da relação direta entre entidades, universidades e agricultores para que assim haja uma valorização adequada desta realidade.

Já foi organizado um grupo de mulheres que era denominado “Grupo de Mulheres Sertanejas” iniciado em 1997. Trabalhavam com a fabricação de corante feito do processamento do urucum e a produção de polpas de frutas como cajarana, goiaba, acerola, hoje existe a tentativa de reorganizar esse projeto que foi desenvolvido pelo Projeto Semeando Agroecologia/União Européia.

Desde 1998 esse assentamento deu prosseguimento ao trabalho de gênero até hoje. Já desenvolveram projetos que repercutiram de maneira positiva no assentamento, mostrando a importância da participação da assistência técnica nos assentamentos, para uma melhor formação e acompanhamento dos agricultores

Enlace de sustentabilidade requisita a união de transição agroecológica, soberania alimentar e economia solidária na construção de uma práxis agroecológica.

Referências:

ESTEVÃO, P., CASTELA, E. F. de, SOUSA, D. N. de, MILAGRES, C. S. F. A. Extensão rural e sua trajetória histórica. VIII Congresso Latino-americano de Sociologia Rural, Porto de Galinhas, 2010.

TEIXEIRA, G., O agronegócio é ‘negócio’ para o Brasil? Presidente da ABRA – Associação Brasileira de Reforma Agrária, 2013

SILVA, Maria Janaina Nascimento, AGUIAR Kalianne Carla de Souza , LEMOS, Marcílio de, COSTA, Paula Alinne de Almeida. O Enlace da Sustentabilidade no Assentamento Soledade: Vivenciando e Construindo saberes agroecológicos. Cadernos de agroecologia, v. 9, n. 4, 2014

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Celebração da vida [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

in EcoDebate, 07/06/2016
"Enlace de sustentabilidade, Parte I, artigo de Roberto Naime," in Portal EcoDebate, ISSN 2446-9394, 7/06/2016, https://www.ecodebate.com.br/2016/06/07/enlace-de-sustentabilidade-parte-i-artigo-de-roberto-naime/.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Desenvolvimento sustentável, Parte II, Final, artigo de Roberto Naime

[EcoDebate] GUEDES (2015) traz um comentário que endossa a visão de uma completa reformulação do “modus operandi” atual em busca da sustentabilidade:

“Desenvolvimento é uma palavra que, no conceito acima, está inscrita na ideia da produção e lucro, dos meios de produção, do contínuo progresso. Sendo assim inscrita, ela compactua e mantém o alicerce da estrutura hegemônica do pensamento capitalista, colocando um teor “sustentável” para poder dar conta da pressão global junto a degradação desenfreada que a humanidade sofre em todo o meio-ambiente. Sustentabilidade remete a uma nova maneira de pensar, fomenta uma racionalidade agregadora do sentido primordial do equilíbrio e respeito à natureza, a geração de uma nova mentalidade e percepção que possa abranger os campos do sensível e do inteligível, tendo como princípio a valorização das subjetividades culturais e regionais. Esta forma de pensamento ambiental rompe a ideia de totalidade, globalização, recursos naturais, conceitos inscritos no cerne da concepção de desenvolvimento sustentável.

Mais do que diferentes visões a respeito da questão do meio ambiente, há nas diferenças entre uma expressão e a outra, necessário observar o “porquê” das diferenças. A discussão é político-econômica, não apenas ambiental. Neste sentido, a educação ambiental para a sustentabilidade, precisa ser muito bem embasada e as pessoas seriamente comprometidas com as realidades. Senão, os caminhos epistemológicos que sugerem a manutenção da realidade através da disseminação da idéia do desenvolvimento sustentável, como sendo a mesma de sustentabilidade, vão se tornar hegemônicos”.

Isto se deve ao fato de que a questão ambiental representa uma síntese dos impasses que o modelo atual de civilização acarreta, chamada “crise civilizatória”.

Por isso se sabe que leis e normas não vão resolver os problemas. Mas são muito relevantes numa sociedade criada pela civilização humana que vive de direito positivado.

A civilização humana vai acabar determinando nova autopoiese sistêmica, na acepção livre das concepções de Niklas Luhmann e Ulrich Beck, que contemple a solução dos maiores problemas e contradições exibidas pelo atual arranjo de equilíbrio.

Que é um sistema instável, muito frágil e vulnerável. Para sua própria sobrevivência, o “sistema” vai acabar impondo uma nova metamorfose efetiva.

Outro mundo é possível, mesmo dentro da livre iniciativa. Ocorre enfatizar que nada é contra a livre-iniciativa. Que sem dúvida sempre foi e parece que sempre será o sistema que melhor recepciona a liberdade e a democracia. Mas uma nova autopoise sistêmica para o arranjo social, é urgente e precisa ser desenvolvida pela civilização humana.

Esta mudança deve começar logo, juntando as lutas singulares, os esforços diários, os processos de auto-organização e as reformas para retardar a crise, com uma visão centrada numa mudança de civilização e uma nova sociedade em harmonia com a natureza.

Não é preciso esperar catástrofe ecológica ou hecatombe civilizatória para determinar nova autopoiese sistêmica.

Neste contexto, a superação dos problemas acarretados exigirá mudanças profundas na concepção de mundo, de natureza, de poder e de bem-estar, tendo por base novos valores individuais e sociais. Faz parte desta nova visão de mundo, a percepção de que o homem não é o centro da natureza (BRASIL, 1996, p. 179). Tal situação é apresentada depois de PORTO-GONÇALVES (2013, p. 15) da seguinte forma:

“com a questão ambiental estamos diante de questões de claro sentido ético, filosófico e político. O que fazer com o nosso antropocentrismo quando olhamos do espaço nosso planeta e vemos o quão pequeno ele é e quando passamos a saber que, enquanto espécie humana, somos apenas uma entre tantas espécies vivas de que nossas vidas dependem?

Dizer que a problemática ambiental é, sobretudo, uma questão de ordem ética, filosófica e política é se desviar de um caminho fácil que nos tem sido oferecido: o de que devemos nos debruçar sobre soluções práticas, técnicas, para resolver os graves problemas de poluição, desmatamento, de erosão. Esse caminho nos torna prisioneiros de um pensamento herdado que é parte do problema a ser analisado. Existe uma crença não-crítica, de que sempre existe uma solução técnica isenta e desvinculada.”

Obviamente isto não é verdadeiro. Se poderia acrescentar o uso do enganador apanágio tecnológico, mas não interessa perder a continuidade da reflexão.

Melhorias duradouras nas condições de vida, baseadas na visão de sustentabilidade, focadas na busca de formas mais sustentáveis para a produção industrial e agropecuária, ações que incentivem a justiça social, uso racional dos recursos naturais e o combate ao consumo exagerado são os grandes desafios neste momento de crise civilizatória.

Um ponto importante nesta discussão é a disputa pela hegemonia teórica. Para HOEFFEL e REIS (2011, p. 126):

“a dimensão política da questão ambiental é dada justamente pela disputa entre os diferentes atores na busca de uma hegemonia teórica sobre a problemática do meio ambiente, base para a legitimação das práticas de apropriação dos recursos naturais pelos diferentes interesses em disputa.”

As contribuições de dois críticos ao conceito de desenvolvimento sustentável, que preferem a expressão “Sociedade Sustentável” é destacada:

“vejo a questão exatamente como você. Belo resumo do assunto. Estava aqui pesquisando e encontrei um artigo da Revista Plural, do Programa de Pós Graduação em Sociologia da USP que desenvolve a temática e nos coloca mais uma expressão para pensar (e eventualmente usar) “sociedade sustentável” (KANASHIRO, 2009).

Nessa concepção, segundo Lima (2003), prefere-se utilizar a expressão sociedade sustentável, salientando a autonomia política, a diversidade cultural e os valores éticos de respeito a vida. Na definição de DIEGUES (1992, p. 28): O conceito de “sociedades sustentáveis” parece ser mais adequado que o de “desenvolvimento sustentável”, na medida em que possibilita a cada uma das sociedades definir seus padrões de produção e consumo, bem como o de bem-estar a partir de sua cultura, de seu desenvolvimento histórico e de seu ambiente natural.”

O comentário do economista Ladislaw Dowbor ajuda-nos a compreender a relevância de ir além do “triple bottom line”:

“Um ponto de partida básico que nos ajuda a definir os rumos da gestão, é a visão que está se tornando aceita no planeta de que temos de assegurar um desenvolvimento que seja economicamente viável, socialmente justo, e ambientalmente sustentável. Ou seja, não se trata mais das empresas fazerem dinheiro, o Estado trazer o curativo, e os verdes protegerem as baleias. Toda empresa, qualquer projeto do Estado, e qualquer iniciativa das organizações da sociedade civil têm de buscar simultaneamente a articulação do econômico, do social e do ambiental. Esta visão do “triple bottom line”, na medida em que se popularizou, ajuda bastante. Mas na realidade, é insuficiente (DOWBOR, 2012, p. 1080).”

É preciso fazer um resgate do conceito de Desenvolvimento Sustentável que foi deturpado. Isto faz sentido se retomarmos o comentário de VEIGA (2013, p. 108) de que, em 1992, na época da Rio 92, essa “bizarra parábola dos ‘três pilares’ nem sequer havia sido inventada. Ela só começou a ser difundida a partir de 1997, e no contexto das empresas, não das nações”. Conhecer o histórico deste termo é essencial para um entendimento dos usos e deturpações nos discursos ambientais:

“Nas tentativas de encontrar uma definição de sustentabilidade condizente, ocorre se deparar com a afirmação de que a aplicabilidade da sustentabilidade pressupõe mudanças” (DOBSON, 1999, p. 12). “Relacionando a sustentabilidade com a noção de sociedade sustentável “a sociedade sustentável é uma sociedade utópica no sentido estrito do termo” (DOBSON, 1999 p. 13). “A utopia da sociedade sustentável é uma perspectiva política e a principal de suas definições possíveis é aquela que vive e se desenvolve integrada à natureza. Respeita a diversidade biológica e sócio-cultural da vida e está centrado no pleno exercício responsável da cidadania, com a distribuição equitativa da riqueza. Não utiliza mais recursos naturais do que pode ser renovado e favorece condições dignas de vida para as gerações atuais e futuras (RODRIGUES, 1997, p. 159)”.

Segundo HOEFFEL e REIS (2011, p. 125), “a julgar pelas controvérsias que a definição de sustentabilidade coloca é de se esperar que diferentes posições tenham surgido nos últimos anos. O conceito de sustentabilidade vem sendo amplamente utilizado dentro de diferentes abordagens teóricas, muitas vezes contraditórias”.

Para DRYZEK (2005) “existem modelos híbridos nestas tipologias, mas enfatiza que existem diversos discursos ambientais que em alguns casos se completam, mas que em geral competem entre si e por uma hegemonia na solução de questões ambientais e que a cada discurso é possível vincular distintas perspectivas para o termo sustentabilidade” (2006 apud HOEFFEL e REIS, 2011, p. 127).

O último comentário que se apresenta traz uma visão importante, que vai além das disputas sobre os significados dos conceitos, focando na inevitável situação “sine qua non” de mudança no modelo atual civilizatório, que nada mais é que nova autopoise, já que o socialismo foi um desastre ambiental:

“Sem chegar a uma conclusão fechada, cita-se a frase de Antoine Laurent de Lavoisier (Paris, 26 de agosto de 1743), que diz que “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, então, independente de se fazer conta, usando apenas esse raciocínio, se gastarmos mais do que o planeta tem como reserva, em certo momento as mesmas se esgotarão, seja energética, minerais, vegetais, animais, gases, enfim tudo. Uma coisa é garantida, sem água, calor, oxigênio e comida a vida humana na Terra terá fim. Equilibrar a balança entre o que temos e o que podemos gastar é o grande dilema. Temos que diminuir as desigualdades sociais, não apenas elevando as condições dos menos favorecidos, mas diminuindo o consumo e o desperdício desenfreado pelos mais abastados.”

A proposta é construir uma visão que demonstre a heterogeneidade nos discursos sobre os conceitos de Desenvolvimento Sustentável e Sustentabilidade, como destacado pelo SAUVÉ (2005):

“Quando se aborda o campo da educação ambiental, podemos nos dar conta de que apesar de sua preocupação comum com o meio ambiente e do reconhecimento do papel central da educação para a melhoria da relação com este último, os diferentes atores (pesquisadores, professores, pedagogos, animadores, associações e organismos), propõem diversas maneiras de conceber e de praticar a ação educativa neste campo. Cada um predica sua própria visão e inclusive, formam-se “igrejinhas” pedagógicas que propõem a maneira “correta” de influenciar, “o melhor” programa e o método mais “adequado” (SAUVÉ, 2005, p. 17).”

Referências:

CARSON, R. Silent spring. Boston (EUA): Houghton Mifflin, 1962.

CMMD (COMISSÃO MUNDIAL SOBRE O MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO). Nosso futuro comum. 2. ed. Rio de Janeiro: FGV, 1991.

DIEGUES, A. C. Desenvolvimento sustentável ou sociedades sustentáveis: da crítica dos modelos ao novo paradigma. São Paulo em Perspectiva, v. 6, n. 1 e 2, pp. 22-29, jan./jun. 1992.

DOBSON, A. Introducción. In: DOBSON, A. Pensamiento verde: una antologia. Madrid: Trotta, 1999, p. 11-20.

DOWBOR, L. Posfácio. In: PHILIPPI JR, A.; SAMPAIO, C. A. C.; FERNANDES, V. (eds.). Gestão de Natureza Pública e Sustentabilidade. Barueri, SP: Manole, 2012, pp. 1077-1083.

DRYZEK, J. The politics of the earth. Oxford: Oxford University Press, 2005.

GIANNELLA, L. O Discurso da Sustentabilidade: Contradições e Intencionalidades. Para onde!?, v. 3, n. 1, 2009.

HOEFFEL, J. L.; REIS, J. C. Sustentabilidade e seus diferentes enfoques: algumas considerações. Terceiro Incluído, v.1, n.2, p.124 –151, jul./dez./2011.

JACOBI, P. R. Poder Local, Políticas Sociais e Sustentabilidade. Saúde e Sociedade, v. 8, n. 1, pp. 175-183, 1999.

KANASHIRO, V. Por uma Sociologia do Conhecimento Científico da Questão Ambiental – A Produção Acadêmica Brasileira sobre Desenvolvimento Sustentável e Sustentabilidade: Resultados Preliminares. Plural, Revista do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da USP, São Paulo, v. 16, n. 1, pp. 175-188, 2009.

LAMIM-GUEDES, V. Consciência negra, justiça ambiental e sustentabilidade. Sustentabilidade em Debate, v. 3, p. 223-238, 2012. http://periodicos.unb.br/index.php/sust/article/view/8135

LAMIM-GUEDES, V.; INOCÊNCIO, A. F. Mulheres e sustentabilidade: uma aproximação entre movimento feminista e a educação ambiental. Educação Ambiental em Ação, v. 45, 2013. http://www.revistaea.org/artigo.php?idartigo=1559

LIMA, G. O debate da sustentabilidade na sociedade insustentável. Política & Trabalho, João Pessoa, v. 13, pp. 202-222, 1997.

LOPES, U. M.; TENÓRIO, R. M. Educação como fundamento da sustentabilidade. Salvador: EDUFBA, 2011. Disponível em <https://repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ri/5373/1/Educacao%20como%20fundamento%20da%20sustentabilidade.pdf>. Acesso em maio de 2015.

MATTAR, J. Web 2.0 e redes sociais na educação. São Paulo: Artesanato Educacional, 2013. 191 p.

BRASIL, MEC (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO). Parâmetros Curriculares Nacionais: meio ambiente. Brasília: MEC, 1996.

PORTO-GONÇALVES, C. W. A Globalização da Natureza e a Natureza da Globalização. 5. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013.

RODRIGUES, C. Frans Krajcberg: o intérprete da natureza. Rio de Janeiro: Maanaim, 2002.

RODRIGUES, V. Mãe compra um planeta pra mim? In: RODRIGUES, V. (Org.). Muda o mundo, Raimundo: educação ambiental no ensino básico do Brasil. Brasília: WWF/MMA, 1997, p. 157-160.

SACHS, I. Caminhos para o Desenvolvimento Sustentável. Rio de Janeiro: Garamond, 2002.

SACHS, I. Estratégias de transição para o século XXI. In: BURSZTYN, M (Org.). Para Pensar o Desenvolvimento Sustentável. São Paulo: Brasiliense, 1993. p. 29-56.

SAUVÉ, L. Uma cartografia das Correntes em educação ambiental. In: SATO, M.; CARVALHO, I. C. M. (org.). Educação Ambiental. Porto Alegre: Artmed. 2005, p. 17-45.

SCOTTO, G.; CARVALHO, I. C. M.; GUIMARÃES, L. B. Desenvolvimento sustentável. 4 ed. Petrópolis: Vozes, 2009.

VEIGA, J. E. A Desgovernança Mundial da Sustentabilidade. São Paulo: Editora 34, 2013.

GUEDES, Valdir Lamim – Desenvolvimento sustentável ou sustentabilidade? Educação Ambiental em Ação, Número 52, ano XIV, junho-agosto de 2015.
http://www.revistaea.org/artigo.php?idartigo=2047

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

in EcoDebate, 02/06/2016
"Desenvolvimento sustentável, Parte II, Final, artigo de Roberto Naime," in Portal EcoDebate, ISSN 2446-9394, 2/06/2016,https://www.ecodebate.com.br/2016/06/02/desenvolvimento-sustentavel-parte-ii-final-artigo-de-roberto-naime/.