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sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Transgênicos estão com os dias contados, diz especialista da CTNBio

Fonte: Cida de Oliveira, da Rede Brasil Atual - Segunda-feira, 04 de Dezembro de 2017 



São Paulo – Para o professor e ex-diretor do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Mohamed Ezz El-Din Mostafa Habib, o setor de biotecnologia – que basicamente projeta e desenvolve organismos geneticamente modificados, os transgênicos – está em decadência, o que pode alterar significativamente a atual situação, de ampla presença destas tecnologias sobretudo na agricultura.

A certeza do cientista de 75 anos – egípcio naturalizado brasileiro, que chegou por aquil como refugiado no começo da década de 1970 depois de viver na Europa –, vem da leitura de aspectos econômicos, científicos, sociais e comportamentais em âmbito internacional sobre o setor.

"A maior empresa de biotecnologia do planeta, a Monsanto, foi comprada pela Bayer. Os jornais chamam de fusão, venda, mas isso significa que a Monsanto faliu. Esses processos de fusão, em que uma empresa compra a outra, são na verdade tentativas de sobrevivência no setor", afirma Habib.

Ele lembra que até mesmo a Oxitec, empresa de origem britânica que desenvolveu os mosquitos transgênicos liberados no Brasil, foi comprada por um grupo maior, o Intrexon, dos Estados Unidos, depois de perder apoio da Universidade de Oxford, na Inglaterra, onde foi criada em uma incubadora de empresas. E que mesmo com a incorporação pelo grupo norte-americano, apresenta dados econômicos insatisfatórios – daí a pressão sobre políticos em diversos países para desovar os estoques dos famigerados mosquitos e atrair novos acionistas.

E não é só. A maioria das companhias do setor, segundo ele, está mergulhada em dívidas. "Em situação crítica, correm risco de falências. Eles pagam caro para fazer modificações genéticas nas plantas para torná-las resistentes a pragas ou herbicidas e, cinco anos depois, a natureza vence. As pragas e as plantas daninhas tornam-se resistentes. Já são 17 as plantas chamadas invasoras que criaram resistência ao glifosato, coisa que nós já vínhamos alertando há muito tempo. E o que eles fazem? Voltam a repetir o mesmo ciclo: inventam novas moléculas contra as quais os insetos não têm resistência e vão jogando mais veneno na lavoura e na natureza, quando a promessa da transgenia era diminuir o uso de venenos. E logo a natureza reage com a resistência dos insetos e plantas invasoras".

A intensidade da adesão à tecnologia dos transgênicos chega a ser desoladora para quem se preocupa com a preservação ambiental e a saúde pública do país. Mais de 83% do milho plantado no Brasil é geneticamente modificado. Da soja, o percentual é ainda maior: 95%. E do algodão, 66%. Sem contar as versões transgênicas do feijão, do eucalipto e da cana, que já foram liberadas para produção e comercialização.

Há ainda o Aedes aegypti – os chamados mosquitos transgênicos que há mais de dois anos vêm sendo liberados em Piracicaba (SP), mesmo sem comprovar eficácia na redução da população do animal original e selvagem – transmissor de infecções como dengue, chikungunya e zika – além das incertezas sobre ser seguro à saúde e ao meio ambiente. Por essas e outras, a tecnologia desenvolvida pela Oxitec está sendo questionada por entidades estrangeiras, como a britânica GeneWatch, que quer a proibição da soltura desse tipo de Aedes.

Há também uma infinidade de outros projetos em curso dentro do setor, como da laranja e do fumo geneticamente modificada, em avaliação na Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), colegiado criado para assessorar o governo federal em assuntos sobre transgênicos – e não para aprovar tudo sem critério científico algum, como sempre acontece.

Se ainda fosse pouco, empresas do setor, como as transnacionais Basf, Bayer, Dow, Du Pont, Monsanto e Syngenta, que financiam grande parte das pesquisas e seus pesquisadores, e da maioria dos parlamentares no Brasil, exercem poderoso lobby. A ameaça da vez é o relaxamento na legislação que obriga os fabricantes a incluir o símbolo dos transgênicos no rótulo dos alimentos – O T preto dentro do triângulo amarelo.

Apesar de não contemplar por completo os interesses da população, essa garantia de um mínimo de informação para que o consumidor possa fazer suas escolhas é uma pedra no sapato dos fabricantes, que não querem ter seus produtos visivelmente associados a uma biotecnologia envolta em riscos e incertezas que virou unanimidade entre os consumidores. Ninguém os quer justamente porque acha algo muito mal explicado.

Mas, apesar disso tudo, a situação tem tudo para mudar "logo, logo", segundo Mostafa Habib. O titular da cadeira na CTNBio reservada a especialistas em meio ambiente, onde cumpre seu primeiro mandato, está convicto: "Comecem a se animar, porque isso tudo vai mudar logo, logo", afirma.
Lei da natureza

Segundo Habib, os laboratórios que desenvolvem plantas, sementes e outros tipos de organismos geneticamente modificados têm custos altíssimos. São altos também os riscos aos investidores nas diferentes fases, desde a pesquisa, o desenvolvimento, o uso e depois do uso. E há carências e fragilidades científicas envolvendo o risco inerente à biotecnologia e à biossegurança. Ou seja: não funcionar e ainda causar danos ambientais.

Além disso, os recursos humanos envolvidos são altamente especializados, caríssimos, apesar de pobres no conhecimento das ciências básicas. Sem contar a disputa entre as empresas. "E apesar dos carteis, há o imenso risco de, ao ser lançado, o produto biotecnológico ser ultrapassado em pouquíssimo tempo, ou mesmo nem servir. Uma semente transgênica desenvolvida para ser resistente a herbicidas, ou as plantas transgênicas que contêm bactérias tóxicas, para matar os insetos que as atacam, têm vida muito curta, abreviada pela grande concorrência e sobretudo pela força da lei da natureza." 

Uma lei, segundo ele, que determina que em quaisquer contatos constantes entre a população de qualquer ser vivo e um fator que a coloque em risco de vida, vai resultar em um desenvolvimento de resistência a esse fator. "Nessa lei da natureza, as plantas que são atacadas por agrotóxicos passam a ser resistentes a eles, por isso aumentam as quantidades e a toxicidade. Do mesmo modo, as toxinas das plantas transgênicas vão deixando de ser mortais para os insetos alvo."

O resultado é uma das consequências da ultra especialização das biotecnologias. Um problema, conforme Habib, porque ao mesmo tempo em que os pesquisadores dominam um conhecimento bastante específico, perdem a visão holística da ciência e de como a vida como um todo funciona.

"O que acontece com essas indústrias é semelhante ao que acontece com a mídia comercial, que as apoia, inclusive. Elas perderam a credibilidade, e seguem pelo mesmo caminho", diz, traçando paralelo entre dívidas gigantes com os governos, inclusive pela sonegação de impostos, como no caso da Globo, e escândalos envolvendo manipulações de informações, corrupção de outros crimes praticados por empresas de transgênicos e agrotóxicos, como a Monsanto, por exemplo. "Tudo isso seguido pela desvalorização da marca e das ações em bolsas de valores."
A máscara caiu

"Os anúncios de novas invenções, que prometem uma planta capaz de ser resistente a mais de um herbicida e ainda sintetizar toxinas que combatem pragas, isso tudo é conversa para boi dormir. Não adianta criar inventos com múltiplas ações, que não resolve. Não pensem que, ao se adicionar mais um gene a uma semente de uma espécie vegetal, que tem mais de 40 mil genes, estaremos criando uma outra espécie, que vai durar para sempre. A natureza é mais forte do que a intervenção humana, que tem a pretensão de ser mais fortes do que a natureza."

Todos esses fatores, conforme o professor, indicam que a máscara dessas indústrias caiu. "E isso precisa ficar claro para todos nós. Hoje em dia, em vários estados brasileiros, cresce o número de agricultores que está abandonando os transgênicos. E daqueles que nunca usaram essas sementes, agora é que não querem mesmo usar. Está mais do que provado que a transgenia é uma tecnologia que já nasceu morta, fracassada, que repete erros cometidos anteriormente e que não funciona. O que muda é a embalagem, a apresentação. Tanto é um fracasso comprovado que essas empresas vivem à procura de alternativas. O problema é: quem vai pagar esse estrago todo?" 

Ao fracasso da tecnologia em aumentar a produtividade, que leva à sua rejeição entre os agricultores, e os riscos à saúde e ao meio ambiente, que levam manifestantes às ruas na Europa e nos Estados Unidos e Canadá, apontam para o sistema agrícola tão antigo quanto a humanidade. E fortalecem o conhecimento ancestral, dos povos tradicionais, que passa de geração em geração.

"Nós vamos aprender a cultivar em nossos quintais, como foi feito nas piores crises do Império Romano. Foi o conhecimento tradicional, das técnicas mais antigas, que sustentou a todos, e ainda hoje sustenta famílias de refugiados quando chegam a outros países. Foi assim comigo, quando deixei o Egito, há mais de 50 anos. Não é o trabalho intelectual, especializado, de engenheiro, advogado. Não sobrevivi trabalhando como professor universitário em um país que quando cheguei ainda não sabia falar o idioma, mas sim pelas habilidades manuais", conta o professor.

Para Mohamed Habib, nunca é demais dizer que a agricultura com base altamente tecnológica e mecanizada não produz a comida que chega à mesa das pessoas em todo o mundo. "Só serve pra produzir matéria prima e energia. Só. Essas tecnologias não produzem arroz e feijão. Hortaliças? Não. Então, nós vamos sobreviver sim. Eles é que vão desaparecer. A inviabilidade econômica de um produto, para eles, é suficiente para saírem do mercado."

E como essas biotecnologias são criadas unicamente para ganhar dinheiro, ele não tem dúvida de que uma crise prolongada pode até antecipar o fim do império dos transgênicos. "Eu não tenho dúvidas de que, com esse cenário de resistência crescente ao transgênicos e agrotóxicos, e a persistência de dificuldades econômicas no Brasil, eles deixarão o barco como fazem os ratos, que abandonam o navio que afunda. Serão os primeiros a ir embora".

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quarta-feira, 1 de junho de 2016

Fritjof Capra e os transgênicos, parte 6/6, Final, artigo de Roberto Naime

Fritjof Capra (Viena, Áustria, 1 de fevereiro de 1939) é um físico teórico e escritor que desenvolve trabalho na promoção da educação ecológica. Foto e informações da Wikipedia

[EcoDebate] A energia eólica tem estabilidade de preços em longo prazo e independência energética. Não há Organização de Países Produtores de Petróleo (OPEP) para os ventos, porque eles se espalham.

A capacidade total de geração de energia eólica no mundo é agora de 23.000 megawatts, o suficiente para satisfazer as necessidades de eletricidade de 23 milhões de pessoas, quase dois terços da população do Canadá.

Nas próximas décadas a Europa sozinha planeja aumentar em três vezes este valor. Mesmo com este dramático crescimento, a aplicação da energia eólica está ainda no começo.

Outra fonte valiosa de energia e especialmente de combustível líquido, é a biomassa, em particular o álcool destilado de grãos ou frutas. O problema é que, mesmo sendo uma fonte renovável, o solo onde cresce não é.

Podemos certamente esperar produções significativas de álcool de certas safras, mas um programa em grande escala para isso, seguramente destruiria o solo com a mesma velocidade que estamos agora destruindo outros recursos naturais.

Entretanto, a boa notícia é que na agricultura e no reflorestamento sempre se produz sobra, a grande maioria pode ser coletada e convertida em energia.

Uma simples estação de colheitas no estado de Nebraska nos Estados Unidos produz uma quantidade de grão de baixa qualidade que não pode ser comercializado, tal “resíduo” poderia produzir etanol suficiente para movimentar 10% dos carros do estado por um ano e ainda mantendo a atual disponibilidade de eficiência energética.

Com carros igualmente eficientes, as sobras das plantações nos campos da França ou Dinamarca movimentariam a metade da frota daqueles países por um ano. Outras sobras da agricultura, como cascas, sementes de frutas, óleos vegetais não digeríveis e restos de algodão, poderiam ser usados igualmente.

Tudo isso junto, esta riqueza oriunda da agricultura e do tratamento das florestas, poderiam, provavelmente, fornecer combustível líquido de forma sustentável para o setor de transporte.

Estes exemplos, aos quais outros tantos poderiam se somar, ensinam duas lições. O primeiro é que um programa eficiente de energia renovável deve ser diversificado e adaptado às condições locais. Sempre terá que ser uma combinação de fontes locais de energia renovável, energia solar, eólica, biomassa, hidro-energia, e outros.

A segunda lição é que, mesmo a melhor combinação possível entre as fontes de energias renováveis não serão suficientes a não ser que as usemos de maneira eficiente.

Capra reforça novamente que os recentes desenvolvimentos no campo da conservação de energia têm sido extremamente encorajadores. Os projetistas ambientais acreditam que uma impressionante redução de 90% hoje na energia e nos materiais é possível apenas com a tecnologia existente sem causar nenhuma redução no padrão de vida.

A razão para esta possibilidade realista de tal aumento na produtividade das fontes assenta-se na ineficiência concentrada e no desperdício que são características da maioria dos projetos industriais atuais.

As práticas sustentáveis mencionadas por Capra na energia e agricultura são apenas alguns exemplos da revolução do “ecodesign” que está agora ocorrendo.

Suas novas tecnologias e práticas incorporam princípios básicos de ecologia e, portanto, têm características em comum. Elas tendem a ser pequenas, com muita diversidade, eficientes energeticamente, não poluentes, orientadas para a comunidade, intensivas com relação ao trabalho e geradoras de empregos.

As tecnologias agora disponíveis fornecem fortes evidências que a transição para um futuro sustentável não é mais um problema técnico ou conceitual. É um problema de valores e desejo político.

Referências:


Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

Nota da redação: Sugerimos que leiam, também, os artigos anteriores desta série:






in EcoDebate, 31/05/2016
"Fritjof Capra e os transgênicos, parte 6/6, Final, artigo de Roberto Naime," in Portal EcoDebate, ISSN 2446-9394, 31/05/2016,https://www.ecodebate.com.br/2016/05/31/fritjof-capra-e-os-transgenicos-parte-66-final-artigo-de-roberto-naime/.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Fritjof Capra e os transgênicos, parte 5/6, artigo de Roberto Naime

Fritjof Capra (Viena, Áustria, 1 de fevereiro de 1939) é um físico teórico e escritor que desenvolve trabalho na promoção da educação ecológica. Foto e informações da Wikipedia

[EcoDebate] Felizmente há uma alternativa ecologicamente aprovada e muito bem documentada para os transgênicos. Nova e que esta lentamente tomando conta da agricultura mundial numa revolução silenciosa.

É conhecida como “agricultura orgânica”, “agricultura sustentável” ou “agroecologia”. Quando os agricultores plantam safras organicamente, eles usam tecnologia baseada no conhecimento ecológico e não no químico ou na engenharia genética para aumentar seus campos, o controle das pestes e promover fertilidade no solo.

Quando o solo é cultivado organicamente, seu conteúdo de carbono aumenta, e assim a agricultura orgânica contribui para reduzir o aquecimento global. De fato, tem-se estimado que aumentando o conteúdo de carbono nos solos empobrecidos do planeta a níveis plausíveis absorveria quantidade de carbono equivalente àquelas emitidas pelas atividades humanas.

O renascimento da agricultura orgânica é um fenômeno mundial. Agricultores em mais de 130 países produzem atualmente alimento orgânico para comercializar. A área total que está sendo trabalhada de forma sustentável é estimada em mais de sete milhões de hectares e o mercado do alimento orgânico tem crescido numa estimativa de U$ 22 bilhões ao ano.

Há evidência abundante que agricultura orgânica é uma alternativa ecológica saudável à química e à tecnologia genética da indústria da agricultura. A agricultura orgânica aumenta a produtividade de forma viável econômica e socialmente além de ambientalmente benigna.

Numa sociedade sustentável, todas as atividades humanas, assim como os processos industriais devem utilizar energia solar exatamente como fazem os ecossistemas.

Em virtude do papel crítico que o carbono tem sobre as alterações globais, fica evidente que o uso de combustíveis sólidos é insustentável em longo prazo. Portanto, mudar para uma sociedade sustentável centralmente inclui mudar o modelo energético baseado em combustíveis fóssil, principal fonte de energia da Era Industrial, para a energia solar.

O sol tem fornecido energia a este planeta por bilhões de anos; virtualmente todas as formas de energia, madeira, carvão, petróleo, gás natura, vento, hidro-energia e assim por diante, são formas de energia solar.

Entretanto, nem todas são renováveis. No debate atual sobre energia, o termo “energia solar” é aplicado mais especificamente para referir-se a formas de energia que vêm de fonte inesgotáveis ou renováveis, a luz do sol para aquecimento solar e eletricidade fotovoltaica, vento, hidro-energia e biomassa (matéria orgânica).

A tecnologia solar mais eficiente envolve equipamentos pequenos, a serem usados pelas comunidades locais e que geram uma ampla variedade de postos de trabalho. Portanto, o uso da energia solar reduz a poluição ao mesmo tempo em que aumenta a demanda de trabalho.

Nas décadas anteriores, depositava-se muita esperança que a energia nuclear pudesse ser o combustível ideal para substituir o carvão e o óleo, nas logo tornou-se aparente que ela trazia enormes riscos e custos e que não era uma solução viável.

Os riscos começam com a contaminação das pessoas e do meio-ambiente com substâncias radioativas causadoras de câncer, durante todos os estágios do ciclo deste combustível. Juntando-se a isso, há a emissão inevitável de radiação em acidentes nucleares e mesmo durante operações rotineira de manutenção dos equipamentos.

Há também o insolúvel problema de segurança na estocagem do resíduo do material radioativo, a ameaça de terrorismo nuclear e a possibilidade de perda de direitos civis básicos numa “economia totalitária do plutônio”.

Todos estes riscos combinados aumentam o custo de operação de estações de geração de energia nuclear a um nível que as tornam altamente não-competitivas.

Hoje, a energia nuclear é a fonte energética de menor crescimento, caindo para um mero percentual de crescimento em 1996, sem nenhuma perspectiva de melhoramento. De acordo com o jornal inglês “The Economist“, nenhuma estação de geração de energia nuclear no mundo tem mais sentido comercial.

A energia solar, por oposição, é o setor que mais cresce desde a última década. O uso de células solares (células fotovoltaicas que convertem a luz solar em eletricidade) cresceu perto de 17% ao ano nos anos 90.

Uma estimativa mostra que mais de meio milhão de lares no mundo, a maioria em vilarejos remotos que não estão ligados à energia elétrica, agora obtém energia de células solares.

A recente invenção de telhas solares no Japão promete levar uma nova explosão na eletricidade fotovoltaica. Estas placas-telhas são capazes de transformar os telhados em pequenas estações geradoras de energia e que muito provavelmente revolucionarão a geração de energia.

A utilização de energia eólica tem crescido ainda mais espetacularmente. Durante a década de 90 cresceu perto de 24% e em 2001 a capacidade de geração de energia eólica cresceu espantosamente para próximo a 31%. Desde 1995 esta energia cresceu mais de cinco vezes enquanto o carvão diminuiu 8%.

Referências:


Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Celebração da vida [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.
Nota da redação: Sugerimos que leiam, também, os artigos anteriores desta série:





in EcoDebate, 27/05/2016

Fritjof Capra e os transgênicos, parte 4/6, artigo de Roberto Naime

Fritjof Capra (Viena, Áustria, 1 de fevereiro de 1939) é um físico teórico e escritor que desenvolve trabalho na promoção da educação ecológica. Foto e informações da Wikipedia

[EcoDebate] Humanizar o desenvolvimento do mundo, segundo Capra, significa a introdução de valores da dignidade humana e da sustentabilidade ecológica para dentro do processo de desenvolvimento.

Isto é o que os lideres da sociedade civil global têm proposto no Fórum Social Mundial. A visão alternativa proposta por esta sociedade civil, ou movimento de justiça global vê o desenvolvimento como um processo criativo, característico de toda vida, um processo de aumento de capacitação, onde a coisa mais importante que se precisa fazer é exercer controle sobre os recursos locais.

Nesta visão, o processo de desenvolvimento não é puramente um processo econômico.

É também um processo social, ecológico e ético, um processo multidimensional e sistêmico. Os atores primários do desenvolvimento são instituições da sociedade civil, baseadas na vizinhança ou em interesses comuns.

Porque as pessoas são diferentes e os lugares onde vivem são diferentes, nós podemos esperar que o desenvolvimento produza diversidade cultural de todos os tipos.

O processo por onde isso ocorrerá será muito diferente do atual sistema de comércio global. Será baseado na mobilização de recursos locais para satisfazer necessidades locais e alimentado pela dignidade humana e sustentabilidade ecológica.

Na agricultura, uma coalizão em escala mundial de ONGs foi formada para resistir a apressada e descuidada introdução de transgênicos e para promover a prática de uma agricultura sustentável.

À medida que a lacuna entre os anúncios da indústria biotécnica e as realidades da alimentação biotecnológica tornam-se ainda mais aparente nos últimos anos, a resistência contra os alimentos transgênicos cresceu e transformou-se num movimento político mundial.

Os anúncios da biotecnologia desenham um bravo novo, um mundo no qual a agricultura não mais dependerá de químicos e assim não mais danificará o meio ambiente. Alimentação será a melhor e mais segura do que foi antes, a fome mundial desaparecerá. Não se fala em redistribuição de riqueza. Deverá haver alguma mágica no meio do caminho.

Uma linguagem similar foi usada pelas mesmas corporações agro-químicas quando promoveram uma nova era de químicos para agricultura alardeada como “Revolução Verde” décadas atrás.

Desde aquela época o lado escuro da agricultura tornou-se dolorosamente evidente. Hoje é bem sabido que aquela revolução não ajudou nem agricultores, nem a terra, nem consumidores.

Os efeitos em longo prazo do uso excessivo da química na agricultura tem sido um desastre para a saúde do solo e para saúde humana, para as nossas relações sociais e para todo ambiente natural sobre o qual nosso bem estar e futura sobrevivência dependem.

Os proponentes da biotecnologia freqüentemente argumentam que as sementes de transgênicos são cruciais para alimentar o mundo. Entretanto, as agências de desenvolvimento sabem há muito tempo que as raízes da causa da fome ao redor do mundo não estão relacionadas com a produção de alimentos.

São a pobreza, a desigualdade e falta de acesso a alimento e terra. Se essas causas estruturais não forem abordadas, a fome persistirá pouco importando que tecnologia será utilizada. Mesmo nos Estados Unidos, hoje existem entre 20 e 30 milhões de pessoas mal alimentadas!

A verdade simples é que a maioria das inovações relativas a alimentos biotecnológicos tem sido orientada pelo lucro, não pela necessidade. Por exemplo, grãos de soja sofreram intervenção da engenharia para resistir especificamente ao herbicida glifosato, produzido pelas própria empresas de sementes.

Tecnologias como estas aumentam a dependência dos agricultores sobre produtos que são patenteados e protegidos por “direitos de propriedade intelectual”, o que faz as velhas práticas da agricultura de reprodução, estocagem e divisão de sementes uma prática ilegal.

Há fortes indicações que uso descontrolado de colheitas transgênicas não irá apenas falhar na solução do problema da fome, mas, ao contrário, poderá perpetuá-la e agravá-la.

Se sementes transgênicas continuarem a ser desenvolvidas e manipuladas exclusivamente por corporações privadas, agricultores pobres não poderão adquiri-las. Se a indústria biotécnica continuar a proteger seus produtos através de patentes que impeçam de estocar e comercializar sementes, os pobres se tornarão, no futuro, dependentes e marginalizados. Sem falar no que pode acontecer potencialmente com os ecossistemas.

Os riscos da atual biotecnologia na agricultura são uma conseqüência direta da falta de uma perspectiva ecológica dentro da indústria biotécnica. Modificações genéticas de colheitas são feitas com uma pressa inacreditável e transgênicos são plantados maciçamente sem testes apropriados de curto e longo prazo dos impactos sobre os ecossistemas e sobre a saúde humana.

Estas colheitas de transgênicos, não-testadas e potencialmente perigosas espalham-se por todo planeta criando riscos irreversíveis; infelizmente estes riscos são freqüentemente colocados de lado pelos geneticistas cujo conhecimento e treinamento ecológico é mínimo.

Nas suas tentativas de patentear, explorar e monopolizar todos os aspectos da biotecnologia as grandes corporações agro-químicas tem comprado semente e empresas biotécnicas e tem se re-estilizado como “corporações da ciência da vida”.

As fronteiras tradicionais entre as indústrias farmacêuticas, agro-químicas e biotecnológicas estão desaparecendo rapidamente na medida que se fundem para formar conglomerados gigantescos sob a bandeira da ciência da vida. O que todas estas chamadas “corporações da ciência da vida” tem em comum é o reduzido conhecimento da vida baseado numa crença errada que a natureza pode estar sujeita ao controle humano.

Ignoram a autogeração e a auto-organização dinâmica, que é a essência da vida, e ao invés disso redefinem organismos vivos como máquinas que podem ser manuseadas de fora, patenteadas e vendidas como recursos industriais. Assim, a própria vida tornou-se a última “commodity” (mercadoria).

Em anos recentes, os problemas de saúde causados pela engenharia genética assim como seus problemas sociais, ecológicos e éticos tornaram-se todos muito aparentes, e há agora um movimento global crescente muito rápido que rejeita esta forma de tecnologia.

Referências:


Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

Nota da redação: Sugerimos que leiam, também, os artigos anteriores desta série:




in EcoDebate, 24/05/2016

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Fritjof Capra e os transgênicos, parte 3/6, artigo de Roberto Naime

Fritjof Capra (Viena, Áustria, 1 de fevereiro de 1939) é um físico teórico e escritor que desenvolve trabalho na promoção da educação ecológica. Foto e informações da Wikipedia

[EcoDebate] O conceito de desenvolvimento como é aplicado hoje tem dois significados. Para os biólogos desenvolvimento é uma característica fundamental para toda a vida. Sistemas vivos, os organismos, ecossistemas ou sistemas sociais se desenvolvem.

Crescem, amadurecem e criam novas formas e novos padrões de comportamento. As ciências da vida também nos ensinam que o desenvolvimento de um sistema vivo, tipicamente inclui um período de rápido crescimento físico.

Este é um período pertinente a um organismo jovem. Nos ecossistemas esta é a fase inicial que é caracterizada pela expansão rápida e pela colonização do território.

Este rápido crescimento é sempre seguido por um crescimento mais lento, pela maturação, e finalmente pelo declínio e decadência ou, nos ecossistemas, chamado de sucessão.

Quando nós estudamos a natureza podemos ver muito claramente que crescimento indefinido e irrestrito é insustentável. Por exemplo, há rápido crescimento com células cancerosas, mas não se sustenta porque as células morrem quando o organismo hospedeiro morre.

Vemos que, embora crescimento seja uma característica fundamental da vida, crescimento indefinido não é sustentável. Mas é importante notar que mesmo sem expansão física, pode haver desenvolvimento porque pode haver aprendizado e maturação ocorrendo sem crescimento físico.

O segundo significado do desenvolvimento é aquele usado por economistas e políticos, sendo muito diferente. A primeira coisa que percebemos é o diferente uso gramatical do verbo “desenvolver”.

Nas ciências da vida é usado como um verbo intransitivo todos os sistemas vivos desenvolvem-se; organismos vivos desenvolvem-se; pessoas desenvolvem-se. Há um senso de desdobramento, de percepção do nosso potencial.

Economistas usam o verbo “desenvolver” como verbo transitivo, “pessoas desenvolvem as coisas”. Há uma categoria completa de pessoas de negócios que se proclamam desenvolvimentistas e saem por aí desenvolvendo coisas. Desenvolvem propriedades, como sítios, terras, edifícios e outros.

O outro fenômeno extraordinário é a categorização do mundo inteiro numa única dimensão. Países e pessoas são “desenvolvidos” ou eles estão “se desenvolvendo” ou eles são “subdesenvolvidos”.

É exatamente como a tabela de um campeonato de futebol, com os países ricos figurando em primeiro e antes de todos os Estados Unidos e os países pobres no final.

Não é de espantar que 25% das crianças americanas agora vivem abaixo da linha de pobreza; que os EUA gastam mais em prisão do que em educação superior, e que é o único país industrial que tem a pena de morte.

A gigantesca diversidade da existência humana agora está concentrada numa simples dimensão chamada “desenvolvimento” a qual é freqüentemente medida simplesmente em receita “per capita”.

É um conceito absolutamente assustador que pessoas inteligentes vivendo neste mundo espantosamente diverso, tenham permitido que tal construto intelectual se tornasse tão poderoso.

Quando nós olhamos detalhadamente para o conceito de desenvolvimento econômico podemos observar três características básicas:

1. Desenvolvimento é um conceito do hemisfério norte. A tabela de classificação entre “desenvolvido/em desenvolvimento/subdesenvolvido”, está arquitetada conforme um critério do hemisfério norte. Os países que são desenvolvidos são aqueles que adotaram o estilo de vida industrial do hemisfério norte. Assim, desenvolvimento é um conceito profundamente monocultural. Ser um país em desenvolvimento significa obter sucesso nas suas aspirações de se tornar como os do hemisfério norte.

2. Desenvolvimento significa desenvolvimento econômico. Não há outras aspirações sociais ou valores culturais permitidos a entrar no caminho deste desenvolvimento. Se puderem co-existir com o desenvolvimento melhor, se não puderem serão exterminados.

3. O desenvolvimento econômico é um processo de cima para baixo, descendente. Decisão e controle encontram-se firmemente na mão de especialistas, administradores do capital internacional, burocratas de governos, do banco mundial, do Fundo Monetário Internacional (FMI), e outros.

Em resumo existem três características do desenvolvimento na forma como é correntemente representada no palco mundial, é nortista, puramente econômico e descendente.

Referências:


Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Celebração da vida [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

Nota da redação: Sugerimos que leiam, também, os artigos anteriores desta série:



in EcoDebate, 19/05/2016
"Fritjof Capra e os transgênicos, parte 3/6, artigo de Roberto Naime," in Portal EcoDebate, ISSN 2446-9394, 19/05/2016, https://www.ecodebate.com.br/2016/05/19/fritjof-capra-e-os-transgenicos-parte-36-artigo-de-roberto-naime/.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Fritjof Capra e os transgênicos, parte 2/6, artigo de Roberto Naime

Fritjof Capra (Viena, Áustria, 1 de fevereiro de 1939) é um físico teórico e escritor que desenvolve trabalho na promoção da educação ecológica. Foto e informações da Wikipedia

[EcoDebate] A eco-alfabetização e eco-concepção são definições que implicam que a construção de comunidades sustentáveis deve ser tornar-nos “alfabetizados ecologicamente” e compreender os princípios organizativos que os ecossistemas têm desenvolvido para sustentar a teia da vida.

Nas décadas vindouras a sobrevivência da humanidade dependerá da nossa eco-alfabetização, nossa habilidade de compreender os princípios básicos da ecologia e viver em conformidade.

Isso significa que alfabetização ecológica deve tornar-se uma habilidade crítica para nossos políticos, lideres de negócios e profissionais em todas as esferas. Da escola elementar à universidade, assim como da educação contínua e do treinamento de profissionais.

Precisamos ensinar aos nossos filhos os fatos fundamentais da vida, que as sobras de uma espécie são o alimento de outra; que a matéria circula continuamente através da teia da vida; que a energia que move os ciclos ecológicos vem do sol; que a diversidade garante a resistência, que a vida, desde o seu primórdio há três bilhões de anos atrás não tomou este planeta pelo combate, mas pela cooperação em rede.

Todos esses princípios da ecologia estão intimamente relacionados. Eles são aspectos diferentes de um singelo padrão fundamental de organização que tem permitido a natureza sustentar a vida por bilhões de anos. A natureza sustenta a vida criando e alimentando comunidades.

Nenhum organismo pode existir no isolamento. Animais dependem da fotossíntese das plantas para suas necessidades de energia, as plantas dependem do dióxido de carbono produzido pelos animais como também do nitrogênio colocado pelas bactérias em suas raízes.

Juntos, plantas, animais e microrganismos, regulam toda biosfera e mantém as condições que conduzem à vida.

Sustentabilidade não é uma propriedade individual, mas características que emergem de uma complexa rede de relações. Sempre envolve comunidades completas. Esta é uma lição profunda que precisamos aprender com a natureza; a forma de sustentar a vida conecta-se à construção e à manutenção de comunidades.

Uma comunidade humana sustentável interage com outras comunidades, humanas e não-humanas, de modo que as capacita a viver e a desenvolver-se de acordo com sua natureza.

Sustentabilidade não significa que as coisas não se alteram. É um processo dinâmico de co-evolução mais do que um estado estático.

No reino humano sustentabilidade inclui o respeito pela integridade cultural e o direito básico das comunidades de autodeterminação e auto-organização. Isto significa que a sustentabilidade ecológica e a justiça econômica são interdependentes. Dois lados de uma mesma moeda

Sustentação da vida significa reconhecer que somos uma parte inseparável da teia da vida, das comunidades humanas e não-humanas e que ampliar a sustentabilidade e a dignidade de qualquer uma delas ampliará todas as outras.

Ser ecologicamente alfabetizado significa compreender como esses valores e princípios de organização estão interconectados. Este é o primeiro passo na estrada da sustentabilidade.

Segue um projeto, um planejamento ecológico. Precisamos aplicar nosso conhecimento ecológico para uma fundamental reformulação de nossas tecnologias e instituições sociais, de forma a cobrir a lacuna atual entre o design humano e os sistemas naturais ecologicamente sustentáveis.

Design, no seu sentido mais amplo, consiste em formatar fluxo de energia e material para propósitos humanos. O design ecológico é um processo no qual nossos propósitos humanos são cuidadosamente mesclados com padrões e fluxos mais amplos do mundo natural.

Os princípios do design ecológico refletem os princípios de organização que a natureza criou para sustentar a teia da vida.

Para exercer projetos neste contexto é necessária uma mudança fundamental em nossa atitude em relação à natureza, uma mudança sobre como descobrir o que podemos extrair da natureza e o que podemos aprender com ela.

Em anos recentes tem havido um aumento dramático de altitudes e projetos ecologicamente orientados, todos estão agora muito bem documentados.

Mais do que nunca, um outro mundo é possível e necessário, compatibilizado com a livre iniciativa. Ocorre enfatizar que nada é contra a livre-iniciativa.

Que sem dúvida sempre foi e parece que sempre será o sistema que melhor recepciona a liberdade e a democracia. Mas uma nova autopoise sistêmica para o arranjo social, é urgente e premente.

Referências:


Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

Nota da redação: Sugerimos que leiam, também, o artigo anterior desta série:


in EcoDebate, 18/05/2016
"Fritjof Capra e os transgênicos, parte 2/6, artigo de Roberto Naime," in Portal EcoDebate, ISSN 2446-9394, 18/05/2016, https://www.ecodebate.com.br/2016/05/18/fritjof-capra-e-os-transgenicos-parte-26-artigo-de-roberto-naime/.

Fritjof Capra e os transgênicos, parte 1/6, artigo de Roberto Naime

Fritjof Capra (Viena, Áustria, 1 de fevereiro de 1939) é um físico teórico e escritor que desenvolve trabalho na promoção da educação ecológica. Foto e informações da Wikipedia

[EcoDebate] A eco-alfabetização e eco-concepção são definições que implicam que a construção de comunidades sustentáveis deve ser tornar-nos “alfabetizados ecologicamente” e compreender os princípios organizativos que os ecossistemas têm desenvolvido para sustentar a teia da vida.

Nas décadas vindouras a sobrevivência da humanidade dependerá da nossa eco-alfabetização, nossa habilidade de compreender os princípios básicos da ecologia e viver em conformidade.

Isso significa que alfabetização ecológica deve tornar-se uma habilidade crítica para nossos políticos, lideres de negócios e profissionais em todas as esferas. Da escola elementar à universidade, assim como da educação contínua e do treinamento de profissionais.

Precisamos ensinar aos nossos filhos os fatos fundamentais da vida, que as sobras de uma espécie são o alimento de outra; que a matéria circula continuamente através da teia da vida; que a energia que move os ciclos ecológicos vem do sol; que a diversidade garante a resistência, que a vida, desde o seu primórdio há três bilhões de anos atrás não tomou este planeta pelo combate, mas pela cooperação em rede.

Todos esses princípios da ecologia estão intimamente relacionados. Eles são aspectos diferentes de um singelo padrão fundamental de organização que tem permitido a natureza sustentar a vida por bilhões de anos. A natureza sustenta a vida criando e alimentando comunidades.

Nenhum organismo pode existir no isolamento. Animais dependem da fotossíntese das plantas para suas necessidades de energia, as plantas dependem do dióxido de carbono produzido pelos animais como também do nitrogênio colocado pelas bactérias em suas raízes.

Juntos, plantas, animais e microrganismos, regulam toda biosfera e mantém as condições que conduzem à vida.

Sustentabilidade não é uma propriedade individual, mas características que emergem de uma complexa rede de relações. Sempre envolve comunidades completas. Esta é uma lição profunda que precisamos aprender com a natureza; a forma de sustentar a vida conecta-se à construção e à manutenção de comunidades.

Uma comunidade humana sustentável interage com outras comunidades, humanas e não-humanas, de modo que as capacita a viver e a desenvolver-se de acordo com sua natureza.

Sustentabilidade não significa que as coisas não se alteram. É um processo dinâmico de co-evolução mais do que um estado estático.

No reino humano sustentabilidade inclui o respeito pela integridade cultural e o direito básico das comunidades de autodeterminação e auto-organização. Isto significa que a sustentabilidade ecológica e a justiça econômica são interdependentes. Dois lados de uma mesma moeda

Sustentação da vida significa reconhecer que somos uma parte inseparável da teia da vida, das comunidades humanas e não-humanas e que ampliar a sustentabilidade e a dignidade de qualquer uma delas ampliará todas as outras.

Ser ecologicamente alfabetizado significa compreender como esses valores e princípios de organização estão interconectados. Este é o primeiro passo na estrada da sustentabilidade.

Segue um projeto, um planejamento ecológico. Precisamos aplicar nosso conhecimento ecológico para uma fundamental reformulação de nossas tecnologias e instituições sociais, de forma a cobrir a lacuna atual entre o design humano e os sistemas naturais ecologicamente sustentáveis.

Design, no seu sentido mais amplo, consiste em formatar fluxo de energia e material para propósitos humanos. O design ecológico é um processo no qual nossos propósitos humanos são cuidadosamente mesclados com padrões e fluxos mais amplos do mundo natural.

Os princípios do design ecológico refletem os princípios de organização que a natureza criou para sustentar a teia da vida.

Para exercer projetos neste contexto é necessária uma mudança fundamental em nossa atitude em relação à natureza, uma mudança sobre como descobrir o que podemos extrair da natureza e o que podemos aprender com ela.

Em anos recentes tem havido um aumento dramático de altitudes e projetos ecologicamente orientados, todos estão agora muito bem documentados.

Mais do que nunca, um outro mundo é possível e necessário, compatibilizado com a livre iniciativa. Ocorre enfatizar que nada é contra a livre-iniciativa.

Que sem dúvida sempre foi e parece que sempre será o sistema que melhor recepciona a liberdade e a democracia. Mas uma nova autopoise sistêmica para o arranjo social, é urgente e premente.

Referências:


Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

Nota da redação: Sugerimos que leiam, também, o artigo anterior desta série:


in EcoDebate, 18/05/2016
"Fritjof Capra e os transgênicos, parte 2/6, artigo de Roberto Naime," in Portal EcoDebate, ISSN 2446-9394, 18/05/2016, https://www.ecodebate.com.br/2016/05/18/fritjof-capra-e-os-transgenicos-parte-26-artigo-de-roberto-naime/.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Agrotóxicos-transgênicos: um rolo compressor está sendo passado sobre o direito do consumidor, artigo de Sucena Shkrada Resk

Enquanto o cenário político brasileiro enfrenta uma de suas maiores crises na história democrática no país, nos bastidores, a orquestração no Congresso de grupos políticos, que representam predominantemente interesses de mercado, consegue aprovar projetos que prejudicam o direito do consumidor de acesso ao conhecimento e poder de escolha, além de facilitar a maquiagem verde de produtos que consumimos nas gôndolas, potencialmente prejudiciais à nossa saúde. Esse retrocesso de conquistas está passando despercebido por grande parte da população.

Agrotóxicos

Uma das decisões polêmicas recentes foi a aprovação pela representação brasileira no Parlamento do Mercosul, no último dia 22 de março, do Projeto de Lei do Senado 680/2015, que substitui a expressão “agrotóxicos” por “produtos fitossanitários” no texto da Lei 7.802/1989. O argumento do autor da proposta, o senador Álvaro Dias (PV-PR), que foi retirada por ele e arquivada no Senado posteriormente a esta aprovação, no dia 30 de março, era absurda, fazendo parecer que todos os estudos científicos a respeito dos efeitos maléficos dos agrotóxicos à saúde são algo ardiloso para prejudicar o setor rural. Segundo ele, o simples uso da palavra agrotóxico moldurando os produtos fitossanitários, já representa uma campanha de marketing negativa para o segmento.

Isso quer dizer que toda a toxidade destes produtos e o mau uso dos mesmos são banais? E que os trabalhadores que utilizam os “produtos fitossanitários” e nós, consumidores finais, temos de ser expostos e nos alimentar de algo que parece pela nomenclatura de negociação de mercado, totalmente inofensivo? Quem monitora toda esta cadeia e seus efeitos e nos assegura o acesso contínuo a todas estas informações?

O que torna este quadro ainda mais complexo é o fato de o Brasil ser o maior importador no mundo destes produtos, com pelo menos 5,2 litros per capita por habitante. Atualmente o país consome 14 que já foram proibidos na Europa e em outros países. Essas constatações revelam o descaso com essa pauta tão relevante e fundamental para a segurança alimentar e a saúde pública.

Grupo de estudos da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), sob coordenação do professor Wanderlei Pignati, por exemplo, levantou diferentes tipos de agrotóxicos em 62 amostras de leite materno, de mães que pariram entre 2007 e 2010. O Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA) tem um posicionamento institucional a respeito dos efeitos dos agrotóxicos na saúde humana, que merece uma leitura atenta. Outras importantes fontes são o Dossiê da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e o Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos (PARA) da Anvisa.

Transgenia

E se alguém pensa que as ameaças ao direito do consumidor param por aí, está enganado. Outro projeto aprovado, no ano passado, na Câmara e que agora tramita no Senado, é o 34/2015, de autoria do deputado Luís Carlos Heinze (PP-RS), que dispensa o símbolo da transgenia em rótulos de produtos, com quantidade inferior a 1% de sua composição final. Ao mesmo tempo, a proposta mantém regra do atual decreto que permite o uso da rotulagem “livre de transgênicos”.

Vale fazer uma retrospectiva e observar que a Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática (CCT) do Senado rejeitou, em outubro passado, a retirada do rótulo em qualquer circunstância. Como será o procedimento da Casa agora com relação a esta pauta? O projeto, sob relatoria do senado Ronaldo Caiado (DEM), seguiu em março, para a Comissão de Agricultura e Reforma Agrária da Casa.

É preciso mais transparência e clareza sobre estes processos para a sociedade, como também uma fiscalização mais rigorosa. Temos o direito de saber se o que nos comercializam para consumo tem ou não agrotóxicos ou é transgênico, para podermos optar ou não. Temos de reavivar sempre a “Primavera Silenciosa”, da bióloga Rachel Carson, de 1962, e exigir que estudos técnicos e científicos sejam permanentes e nos deem respostas mais concretas que façam que o setor público não titubeie perante a força e pressão do mercado e invista em pesquisas para alternativas não agressivas à saúde ecossistêmica.

Sucena Shkrada Resk é jornalista, formada há 24 anos, pela PUC-SP, com especializações lato sensu em Meio Ambiente e Sociedade e em Política Internacional, pela FESPSP, e autora do Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk (http://www.cidadaosdomundo.webnode.com), desde 2007, voltado às áreas de cidadania, socioambientalismo e sustentabilidade.

in EcoDebate, 15/04/2016
"Agrotóxicos-transgênicos: um rolo compressor está sendo passado sobre o direito do consumidor, artigo de Sucena Shkrada Resk," in Portal EcoDebate, ISSN 2446-9394, 15/04/2016, https://www.ecodebate.com.br/2016/04/15/agrotoxicos-transgenicos-um-rolo-compressor-esta-sendo-passado-sobre-o-direito-do-consumidor-artigo-de-sucena-shkrada-resk/.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Pesquisa indica que transgênicos podem oferecer riscos para a biodiversidade

Os organismos geneticamente modificados (OGMs) podem promover a redução da biodiversidade, uma vez inseridos no meio ambiente. A hipótese é sustentada na tese de doutoramento do matemático Rinaldo Vieira da Silva Júnior, defendida no Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (IMECC) da Unicamp, sob a orientação da professora Solange da Fonseca Rutz. A partir de um primeiro cenário, de interação apenas entre as variantes transgênica e original, um modelo matemático foi desenvolvido especificamente para sustentar o estudo. Ao aplicar a ferramenta, o autor concluiu que, sendo competidoras puras, mesmo no caso de coexistência estável entre as variantes, haveria decréscimo de produção mais severo para a variante natural.

Rinaldo Júnior explica que o seu trabalho, que é um estudo teórico, e não um modelo baseado em dados, levou em consideração alguns pressupostos. Primeiro, que os organismos transgênicos e convencionais sejam da mesma espécie. Segundo, que as plantações das duas culturas ocupem áreas contíguas. Terceiro, que o mecanismo de dispersão de sementes (como o vento, por exemplo) tenha velocidade e direção uniformes.

Quarto, que a competição entre os indivíduos não provoque a eliminação dos organismos mais frágeis, embora isso seja não somente possível, mas provável. Ele lembra que os organismos são competidores puros e que indivíduos de uma mesma espécie concorrem pelos mesmos recursos. “Devemos acrescentar que estas simplificações compõem um primeiro estudo, e modelos mais complexos poderão ser desenvolvidos no futuro. A partir de modelos analíticos desenvolvidos para a Mata Atlântica, já se planeja o estudo do impacto de transgênicos no meio ambiente de forma geral”, adianta.

De acordo com o matemático, o método que deu sustentação à pesquisa é denominado Trofodinâmica Analítica. “Quando este método, aplicado de forma bem sucedida a diversas áreas da biologia, considera também ruído e mecanismos de difusão, geramos então sistemas de Equações Diferenciais Parciais [EDP’s]”, diz. Dito de modo simplificado, as EDP’s permitem que a matemática construa representações dos modelos encontrados na natureza. São considerados, nesse caso, diferentes variáveis, entre elas espaço, tempo e ambiente. “Em outras palavras, a matemática simplifica a realidade, para poder investigá-la”, observa Rinaldo Júnior. “Apesar dessa simplificação, trata-se de um poderoso instrumento, que permite estudar o comportamento de sistemas complexos fora do equilíbrio”, acrescenta.

O matemático revela que um dos possíveis próximos passos do estudo seria buscar a parceria de especialistas das áreas da agronomia para investigar o comportamento do modelo matemático a partir de um cenário real. “No caso de parâmetros muito variáveis, dependendo da direção e da intensidade do vento e da localização das plantações, outro modelo, que admita que a mistura dos organismos geneticamente modificados com os naturais pode se dar de maneiras diversas, deverá ser elaborado a partir do estudo já feito. Mas os dados de campo poderão já ser considerados no atual modelo, tomando-se médias e produzindo assim as constantes consideradas no estudo,” infere.

Além disso, conforme o pesquisador, outros mecanismos de dispersão, que possam promover a difusão das sementes geneticamente modificadas fora do âmbito local, deverão ser considerados no estudo em relação ao meio ambiente geral. No momento, Rinaldo Júnior ocupa uma cadeira de professor na Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Lá, ele dá seguimento às investigações, agora fazendo o que os especialistas classificam como “perturbação das equações”. Por meio desse método, os matemáticos procuram encontrar respostas aproximadas para problemas cuja solução exata ainda é desconhecida.

Rinaldo Júnior acredita no desenvolvimento de modelos dinâmicos nesta linha de pesquisa, que ainda é inicial, poderá ajudar os produtores a planejar seus cultivos. A tese de doutorado do matemático contou com a colaboração do professor Peter Louis Antonelli, pesquisador emérito da Universidade de Alberta (Canadá) e criador do método da trofodinâmica analítica, e com coorientação do professor Pedro José Catuogno, integrante do grupo de pesquisa de sistemas dinâmicos estocásticos do IMECC.

Histórico

O cultivo de organismos geneticamente modificados no Brasil foi marcado por muita polêmica. As primeiras sementes de soja transgênica entraram ilegalmente no país na década de 1990, contrabandeadas da Argentina. Elas foram plantadas por produtores gaúchos. O governo federal impediu inicialmente a colheita, mas depois voltou atrás, por meio de uma Medida Provisória. A autorização para o plantio de OGMs em território nacional veio somente em 2005, com a aprovação, pelo Congresso Nacional, da Lei de Biossegurança.

Atualmente, o Brasil é o segundo maior produtor de grãos transgênicos no mundo [principalmente soja, milho e algodão], ficando atrás somente dos Estados Unidos. De acordo com o relatório de 2015 do Serviço Internacional para a Aquisição de Aplicações em Biotecnologia (ISAAA, na sigla em inglês), que trabalha com dados consolidados de 2014, o país cultivou 42,2 milhões de hectares no ano considerado, contra 40,3 milhões no período anterior.

Ainda segundo o levantamento do ISAAA, Brasil e Argentina, na América Latina; Índia e a China, na Ásia; e África do Sul, na África, que respondem por 41% da população mundial, cultivaram 47% das variedades transgênicas do planeta. Embora os defensores dos transgênicos considerem esses organismos como a solução para a ampliação da produção de alimentos e a superação da fome em nível global, os ambientalistas afirmam que os OGMs têm promovido o aumento do uso de agrotóxicos e comprometido de forma significativa a biodiversidade e a saúde da população nos países onde são produzidos.

Publicação

Tese: “Análise matemática do impacto ambiental de plantações transgênicas”
Autor: Rinaldo Vieira da Silva Júnior
Orientadora: Solange da Fonseca Rutz
Unidade: Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (IMECC)

Texto: Manuel Alves Filho
Fotos: Antoninho Perri / Divulgação
Edição de Imagens: André Vieira

Do Jornal da Unicamp Nº 651, in EcoDebate, 11/04/2016

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Royalties pelo uso de transgênicos, artigo de Roberto Naime

[EcoDebate] O que mais impressiona nos transgênicos é a capacidade de gestão e de convencimento demonstrada pelas empresas. Mesmo com menor produção, com maior uso de agrotóxicos e com riscos desconhecidos, os agricultores ainda acham boa alternativa pagar royalties pelas sementes.

Transgênicos são alimentos modificados geneticamente, com a alteração do código genético. São inseridos no organismos genes proveniente de outro. Esse procedimento pode ser feito até mesmo entre organismos de espécies diferentes como inserção de um gene de um vírus em uma planta. O procedimento pode ser realizado com plantas, animais e micro-organismos.

Qualquer inovação tecnológica tem como estimulação, os benefícios que podem ser gerados. Embora possam ter trajetória tão diferenciada quanto são as intenções e predisposições de toda humanidade.

Assim, todos os procedimentos merecem isenção e avaliações em cada caso, e não condenações gerais de qualquer natureza, que respondam a anseios dogmáticos ou políticos.

Conforme já se referiu, mesmo que não se apregoe qualquer restrição às evoluções científicas que inegavelmente são representadas por incrementos na transgenia ou por aprimoramentos de moléculas na indústria química, não custa nada prevenir a todas as partes interessadas que é preciso ter um pouco de humildade.

Procedimentos que podem até interferir na seleção natural, são temerários, sem compreender todas as relações implícitas ou explícitas, e não lineares ou cartesianas da homeostase dos ecossistemas.

Logo parece um pouco pretensioso na atual fase de conhecimentos da civilização humana, implementar estes incrementos sem considerar os princípios de precaução e sem mobilizar tentativas mais sistêmicas e holísticas de se apropriar da realidade.

As espécies transgênicas são protegidas por patentes, o que significa que o agricultor que decidir utilizá-las, terá de pagar royalties para a empresa detentora da tecnologia. A consequência mais imediata será o aumento da dependência do agricultor das empresas transnacionais do setor.

Isto por que, por regra contratual, o agricultor não pode utilizar as sementes do plantio anterior, assim terá que comprar as sementes transgênicas a cada safra. Além disso, é muito difícil o agricultor “se livrar” totalmente das plantas transgênicas, o que pode ocorrer com qualquer plantação, já que, caso ele não queira mais plantá-las, a chance de ainda nascer uma planta transgênica na plantação convencional existe. Caso isso ocorra, ele poderá ser compelido a pagar uma multa e mais royalties.

Além disso, existe o risco da contaminação. A contaminação pode ocorrer por meio de insetos ou até mesmo por meio do vento. É o caso do milho. Assim, se não existir um espaçamento adequado entre as lavouras transgênicas e convencionais, a contaminação pode ocorrer, pegando de surpresa o agricultor no momento da venda. Ocorre com freqüência a perda de contrato desses agricultores, já que o comprador estava interessado em um produto não transgênico.

Quando se insere um gene de um ser em outro, novos compostos podem ser formados nesse organismo, como proteínas e aminoácidos. Se este organismo modificado geneticamente for um alimento, seu consumo pode provocar alergias em parcelas significativas da população, por causa dessas novas substâncias.

No Instituto de Nutrição de York, Inglaterra, em 1999, uma pesquisa constatou o aumento de 50% na alergia a produtos à base de soja, afirmando que o resultado poderia ser atribuído ao consumo de soja geneticamente modificada.

Outra preocupação é que se o gene de uma espécie que provoca alergia em algumas pessoas for usado para criar um produto transgênico, esse novo produto também pode causar alergias, porque há uma transferência das características daquela espécie. Foi o que aconteceu nos Estados Unidos: reações em pessoas alérgicas impediram a comercialização de uma soja que possuía gene de castanha-do-pará, que é um famoso alergênico.

Para se certificar de que a modificação genética “deu certo”, os cientistas inserem genes (chamados marcadores) de bactérias resistentes a antibióticos. Isso pode provocar o aumento da resistência a antibióticos nos seres humanos que ingerem esses alimentos. Em outras palavras, pode reduzir ou anular a eficácia dos remédios à base de antibióticos, o que é uma séria ameaça à saúde pública.

Existem plantas e micróbios que possuem substâncias tóxicas para se defender de seus inimigos naturais, os insetos, por exemplo. Na maioria das vezes, não fazem mal ao ser humano. No entanto, se o gene de uma dessas plantas ou de um desses micróbios for inserido em um alimento, é possível que o nível dessas toxinas aumente muito, causando mal às pessoas, aos insetos benéficos e aos outros animais.

Isto já foi constatado com o milho transgênico “Bt”, que pode matar lagartas de uma espécie de borboleta, a borboleta monarca, que é um agente polinizador. Sequer a toxicidade das substâncias inseridas intencionalmente nas plantas foi avaliada adequadamente. Estas substâncias estão entrando nos alimentos com muito menos avaliação de segurança que qualquer aditivo, corante, pesticida ou medicamento.

Com a inserção de genes de resistência a agrotóxicos em certos produtos transgênicos, as pragas e as ervas-daninhas poderão desenvolver a mesma resistência, tornando-se “super-pragas” e “super-ervas”. Consequentemente, haverá necessidade de aplicação de maiores quantidades de veneno nas plantações, o que representa maior quantidade de resíduos tóxicos nos alimentos que nós consumimos.

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) autorizou em 2004 o aumento em cinquenta vezes do limite de glifosato permitido em alimentos a base de soja. Os prejuízos para o meio ambiente também serão graves: maior poluição dos rios e solos e desequilíbrios incalculáveis nos ecossistemas.
A inserção de genes de resistência a agrotóxicos em certos produtos transgênicos faz com que as pragas e as ervas-daninhas desenvolvam a mesma resistência, tornando-se “super-pragas” e “super-ervas”.

Haverá ainda desequilíbrios nos ecossistemas a partir da maior resistência desenvolvida, ao longo dos anos, pelas pragas e ervas-daninhas. Para o Brasil, detentor de uma biodiversidade ímpar, os prejuízos decorrentes da poluição genética e da perda de biodiversidade são outros graves problemas relacionados aos transgênicos.

Referência:


Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

in EcoDebate, 08/04/2016
"Royalties pelo uso de transgênicos, artigo de Roberto Naime," in Portal EcoDebate, ISSN 2446-9394, 8/04/2016, http://www.ecodebate.com.br/2016/04/08/royalties-pelo-uso-de-transgenicos-artigo-de-roberto-naime/.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Agrotóxicos, transgênicos e o princípio da precaução, artigo de Roberto Naime

[EcoDebate] O uso de agrotóxicos e fertilizantes já é a segunda causa de contaminação da água no Brasil. Só perde para a destinação de esgoto doméstico.

Ao comprar uma maçã, por exemplo, é impossível detectar o banho de dezenas de pesticidas que ela recebeu. A intensa utilização de produtos químicos na produção de alimentos afeta o ar, o solo, a água, os animais e as pessoas.

Os agrotóxicos podem promover a intoxicação progressiva dos consumidores e afetar a saúde de trabalhadores do campo que muitas vezes não estão preparados para lidar com esses agentes tóxicos.

Os transgênicos são organismos geneticamente modificados em laboratório que tiveram genes estranhos, de qualquer outro ser vivo (vegetal ou animal), inseridos em seu código genético visando a obtenção de características específicas. Assim, uma semente é modificada para ter tolerância (resistência) a um herbicida. Então a empresa de biotecnologia vende a semente patenteada (cobrando royalties do agricultor) e vende o agrotóxico também.

Acredita-se que os transgênicos podem causar alergias alimentares e diminuir ou anular o efeito dos antibióticos no organismo, entre outras consequências desconhecidas para a saúde humana a longo prazo.A resistência a agrotóxicos pode levar ao aumento das doses de pesticidas aplicadas nas plantações.

Todo profissional que apreende e incorpora princípios básicos do evolucionismo em suas áreas de trabalho, sabem que, quando determinados antídotos sintetizados ou moléculas de natureza química, são ministrados para populações visando sua eliminação, tendem a sobreviver apenas indivíduos resistentes a esta substância e portanto com melhor aptidão para sobrevivência.

Até que sejam eliminados por novas versões de antídotos químicos, pesquisados, sintetizados e desenvolvidos especialmente para esta finalidade. Numa espiral que se conhece o começo, mas não tem fim. Qualquer médico sabe que quando determinado vírus ou bactéria se torna resistente a um antibiótico, é preciso lançar mão de uma a geração mais moderna de substâncias químicas, numa espiral sem fim.

O GREENPEACE se opõe ao uso de transgênicos na alimentação humana e animal. Para a ONG, os resultados são imprevisíveis, incontroláveis e desnecessários. O GREENPEACE mantém em seu site um Guia do Consumidor para consulta de produtos.

Segundo o Princípio da Precaução, quando uma atividade representa ameaças de danos ao meio ambiente ou à saúde humana, medidas de precaução devem ser tomadas, mesmo se algumas relações de causa e efeito não forem plenamente estabelecidas cientificamente. Afinal, é melhor prevenir do que remediar.

Os principais transgênicos plantados no mundo são soja (61%), milho (23%), algodão (11%) e canola (5%). A maioria dos europeus rejeita os produtos transgênicos e grande parte dos agricultores alemães são contrários aos transgênicos.

Insetos, pássaros e até mesmo o vento podem transportar o pólen de plantas transgênicas e contaminar plantações convencionais vizinhas, ainda que localizadas a grandes distâncias. A contaminação também pode ocorrer pelo uso comum de equipamentos de movimentação e armazenagem e no comércio.

Pela evidente dificuldade técnica em proteger os plantios convencionais e orgânicos da contaminação transgênica, muitas regiões e alguns países da União Europeia foram declarados por suas autoridades como Zonas Livres de Transgênicos. Tal precaução não coloca em risco a saúde dos consumidores, o meio ambiente e é um enorme diferencial competitivo no mercado internacional. Saiba mais sobre transgênicos no vídeo “Invasoras Resistentes” do Globo Rural.

Os alimentos transgênicos comercializados como grãos, óleos, leite e carne de animais alimentados com transgênicos, devem ser devidamente rotulados para garantir o direito de escolha do consumidor. Isto é o mínimo que se pode esperar das autoridades dos governos, além de informações esclarecedoras para a população. Existem campanhas por um Brasil livre de transgênicos.

Referências:


* No EcoDebate, as tags Agrotóxicos e Transgênicos

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Celebração da vida [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

in EcoDebate, 18/02/2016