Mostrando postagens com marcador Zoologia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Zoologia. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 28 de abril de 2015

Estudo indica que alteração comportamental de animais sinaliza, dias antes, a ocorrência de terremotos

Estudo realizado no Parque Nacional Yanachaga, no Peru, correlacionou mudanças de comportamento de aves e pequenos mamíferos com a ionização da atmosfera causada pelo atrito subterrâneo das rochas / foto TEAM Network; teamnetwork.org)

O dado de que alterações no comportamento dos animais sinalizam, com horas ou dias de antecedência, eventos como os terremotos já era conhecido. Especialmente noticiada foi a disparada dos elefantes asiáticos para terras altas por ocasião do terremoto seguido de tsunami de 26 de dezembro de 2004. Muitas vidas humanas foram salvas graças a isso. Mas tais eventos ainda não haviam sido documentados de maneira rigorosa e conclusiva. Nem fora estabelecida uma correlação de causa e efeito entre essa modificação do comportamento animal e fenômenos físicos mensuráveis.

Isso ocorreu agora em pesquisa realizada por Rachel Grant, da Anglia Ruskin University (Reino Unido), Friedemann Freund, da agência espacial Nasa (Estados Unidos), e Jean-Pierre Raulin, do Centro de Radioastronomia e Astrofísica Mackenzie (Brasil). Artigo relatando o estudo, “Changes in Animal Activity Prior to a Major (M=7) Earthquake in the Peruvian Andes”, foi publicado na revista Physics and Chemistry of the Earth.

O físico Jean-Pierre Raulin, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, participou do estudo no contexto do projeto de pesquisa “Monitoramento da atividade solar e da Anomalia Magnética do Atlântico Sul (AMAS) utilizando uma rede de receptores de ondas de muita baixa frequência (VLF) – SAVNET – South América VLF network”, apoiado pela FAPESP.

“Nosso estudo correlacionou alterações no comportamento de aves e pequenos mamíferos do Parque Nacional Yanachaga, no Peru, com distúrbios na ionosfera terrestre, ambos os fenômenos verificados vários dias antes do terremoto Contamana, de 7,0 graus de magnitude na escala Richter, que ocorreu nos Andes peruanos em 2011”, disse Raulin à Agência FAPESP.

Os animais foram monitorados por um conjunto de câmeras. “Para não interferir em seu comportamento, essas câmeras eram acionadas de forma automática no momento em que o animal passava na sua frente, registrando a passagem por meio de flash de luz infravermelha”, detalhou o pesquisador. Em um dia comum, cada animal era avistado de cinco a 15 vezes. Porém, no intervalo de 23 dias que antecedeu o terremoto, o número de avistamentos por animal caiu para cinco ou menos. E, em cinco dos sete dias imediatamente anteriores ao evento sísmico, nenhum movimento de animal foi registrado.

Nessa mesma época, por meio do monitoramento das propriedades de propagação de ondas de rádio de muito baixa frequência (VLF), os pesquisadores detectaram, duas semanas antes do terremoto, perturbações na ionosfera sobre a área ao redor do epicentro. Um distúrbio especialmente grande da ionosfera foi registrado oito dias antes do terremoto, coincidindo com o segundo decréscimo no avistamento dos animais.

Os pesquisadores propuseram uma explicação capaz de correlacionar os dois fenômenos. Segundo eles, a formação maciça de íons positivos, devido à fricção subterrânea das rochas durante o período anterior ao terremoto, teria provocado tanto as perturbações medidas na ionosfera quanto a alteração comportamental dos animais. A fricção é resultado da subducção ou deslizamento da placa tectônica de Nazca sob a placa tectônica continental.

É sabido que a maior concentração de íons positivos na atmosfera provoca, seja em animais, seja em humanos, um aumento dos níveis de serotonina na corrente sanguínea. Isso leva à chamada “síndrome da serotonina”, caracterizada por maior agitação, hiperatividade e confusão. O fenômeno é semelhante à inquietação, facilmente perceptível em humanos, que ocorre antes das tempestades, quando a concentração de elétrons nas bases das nuvens também provoca um acúmulo de íons positivos na camada da atmosfera próxima ao solo, gerando um intenso campo elétrico no espaço intermediário.

“No caso dos terremotos, cargas positivas formadas no subsolo devido ao estresse das rochas migram rapidamente para a superfície, resultando na ionização maciça de moléculas do ar. Em algumas horas, os íons positivos assim formados alcançam a base da ionosfera, localizada cerca de 70 quilômetros acima do solo. Esse aporte maciço de íons teria provocado as flutuações da densidade eletrônica na baixa ionosfera que detectamos. Por outro lado, durante o trânsito subterrâneo das cargas positivas, devido a uma espécie de ‘efeito de ponta’, a ionização tende a se acumular perto das elevações topográficas locais – exatamente onde estavam localizadas as câmeras. Nossa hipótese foi que, para se livrar dos sintomas indesejáveis da síndrome da serotonina, os animais fugiram para áreas mais baixas, onde a ionização não é tão expressiva”, explicou Raulin.

“Acreditamos que ambas as anomalias surgiram a partir de uma única causa: a atividade sísmica causando estresse na crosta terrestre e levando, entre outras coisas, à enorme ionização na interface solo-ar. Esperamos que nosso trabalho possa estimular ainda mais a investigação na área, que tem o potencial de auxiliar as previsões de curto prazo de riscos sísmicos”, declarou Rachel Grant, principal autora do artigo.

Independentemente da observação do comportamento animal, os resultados obtidos mostram que a previsão de terremotos poderia ser feita também mediante a detecção da ionização do ar, com o monitoramento do campo elétrico atmosférico. “Já temos detectores instalados no Brasil, no Peru e na Argentina. E pretendemos, em breve, instalar sensores de campo elétrico atmosférico nos lugares propícios a atividades sísmicas importantes. Isso daria uma previsibilidade da ordem de duas semanas ou até mais. Por ocasião do terremoto do Haiti, em janeiro de 2010, a rede SAVNET já tinha detectado flutuações na ionosfera com 12 dias de antecedência, com resultados publicados na revista NHESS – Natural Hazards and Earth System Sciences”, afirmou Raulin.

Por José Tadeu Arantes | Agência FAPESP

Publicado no Portal EcoDebate, 28/04/2015

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Aranha-marrom identifica pontos fracos de presa ao atacá-la

23 de fevereiro de 2015

Por Elton Alisson

Agência FAPESP – O revestimento espesso e rígido que recobre o corpo de alguns artrópodes (como insetos, crustáceos e aracnídeos) não funciona como uma armadura muito eficiente para o opilião Mischonyx cuspidatus se safar do ataque de uma aranha-marrom (Loxosceles gaucho).

Um estudo realizado por pesquisadores da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP), em colaboração com colegas da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), de Minas Gerais, demonstrou que a aranha-marrom é capaz de identificar regiões vulneráveis do corpo do Mischonyx cuspidatus, onde o exoesqueleto é mais flexível, para matar e devorar a presa.

Resultados da pesquisa, realizada no âmbito do projeto “Comunicação química em opiliões (Arachnida, Opiliones): morfologia, comportamento e química”, com apoio da FAPESP, foram descritos em um artigo que acaba de ser publicado na versão on-line da revista Animal Behaviour, da editora Elsevier.

“Constatamos que a aranha-marrom consegue evitar a armadura do opilião Mischonyx cuspidatus, identificando as regiões do corpo da presa mais vulneráveis e conseguindo, dessa forma, perfurá-lo mais facilmente”, disse Rodrigo Hirata Willemart, professor da EACH-USP e coordenador do projeto, à Agência FAPESP.

Os opiliões são aracnídeos da ordem Opiliones. A subordem mais comum no Brasil é a dos Laniatores, ao qual pertence a espécie Mischonyx cuspidatus.

De acordo com Willemart, eles têm diferentes estratégias de defesa para se desvencilhar de um ataque dessas aranhas – um de seus predadores, ao lado de algumas aves, mamíferos e anfíbios, entre outros animais. Uma delas é a liberação de secreções com cheiro forte, nas formas de gota ou em jato para afugentar o predador.

Os pesquisadores brasileiros descobriram, contudo, que essa estratégia de defesa química raramente é usada por alguns opiliões da subordem Laniatores contra espécies de aranhas da família das armadeiras, como a Enoploctenus cyclothorax e a Ctenus ornatus.

A hipótese levantada era a de que os opiliões Laniatores, por possuir um exoesqueleto rígido, já tivessem proteção contra as aranhas. Usar secreções contra esses predadores já tendo essa “armadura” talvez representasse um desperdício de “arma química”, com provável alto custo de produção para o aracnídeo, avaliaram.

“Apesar de essas duas aranhas serem muito mais fortes e maiores, elas não conseguem penetrar a armadura dos opiliões porque muitas vezes o ferrão das quelíceras [peças buçais que usam para picar] escorrega no exoesqueleto da presa e elas desistem de atacá-los”, disse Willemart. “Elas pulam em cima do opilião, tentam mordê-lo e logo perdem o interesse, porque a armadura do aracnídeo é muito dura.”

Ao realizar estudos em campo os pesquisadores constataram, entretanto, que a aranha-marrom, que tem corpo e quelícera mais delicados, é capaz de matar e comer os opiliões.

“Encontrávamos frequentemente na mata carcaças de opiliões Laniatores em teias de aranha-marrom. Por isso, ela nos pareceu ser a espécie perfeita para entender como a armadura do opilião poderia ser superada.”

Experimentos em laboratório

A fim de descobrir como predam opiliões e avaliar em detalhe a estratégia de caça desses animais, os pesquisadores fizeram três experimentos em laboratório, com pares de aranhas-marrons e de opiliões Mischonyx cuspidatus.

No primeiro, avaliaram se a aranha-marrom usa as pistas químicas deixadas pelo opilião ao caminhar sobre uma superfície como indicação para selecionar o lugar onde deve permanecer para capturar o aracnídeo.

Eles mantiveram opiliões em um papel-filtro por 24 horas, para que os animais caminhassem sobre a superfície e impregnassem o papel com compostos químicos. Em seguida, introduziram o papel impregnado com compostos químicos do opilião em metade da área do terrário e deixaram a outra metade do recipiente sem pistas químicas para avaliar em qual lado as aranhas-marrons permaneciam por mais tempo.

Não houve diferença significativa de tempo em que as aranhas permaneceram nos lados com e sem pistas químicas dos opiliões no terrário.

“A aranha-marrom não usou as pistas químicas do opilião para escolher o lugar onde deveria permancer”, disse Willemart.

Já no segundo experimento, os pesquisadores avaliaram se as vibrações transmitidas por um substrato são importantes para a aranha-marrom localizar o opilião em um ambiente, uma vez que esse fator tem um papel importante na captura de presas por aranhas – e as aranhas-marrons não possuem visão acurada.

Eles colocaram aranhas-marrons e opiliões sobre um substrato que transmite vibração – um papel-filtro – e outra superfície que diminui muito as vibrações – uma pedra de granito – e avaliaram quanto tempo as aranhas levavam para atacar os opiliões em cada um desses diferentes substratos.

Os resultados do teste também indicaram que nos dois tipos de substratos as aranhas foram bem-sucedidas em capturar a presa.

“Isso não significa que a aranha-marrom não usa as vibrações transmitidas por um substrato para localizar a presa, mas que, com ou sem essa modalidade sensorial, ela consegue capturar o opilião”, disse Willemart.

No terceiro experimento, os pesquisadores avaliaram se as teias que a aranha-marrom tecem sobre o chão, parecidas com um lençol de seda, possibilitam capturar e manusear mais facilmente o opilião ao permitir que ela morda áreas mais vulneráveis da presa.

Nesse teste, a aranha-marrom foi igualmente bem-sucedida, capturando o aracnídeo com ou sem o lençol de teia.

“Achávamos que a aranha-marrom teria mais sucesso usando o lençol de teia. Mas, surpreendemente, não foi o que aconteceu”, disse Willemart.

Das 68 aranhas-marrons que os pesquisadores utilizaram nos testes, 51 encontraram uma maneira de capturar e, em seguida, matar e devorar os opiliões, contou o pesquisador. 

Golpe de judô

Para entender como a aranha-marrom supera as defesas de uma presa com uma armadura tão blindada, como o exoesqueleto do opilião, os pesquisadores gravaram vídeos e descreveram o comportamento do aracnídeo ao atacar a presa.

Segundo Willemart, inicialmente, a aranha-marrom se aproxima devagar e com cuidado do animal, tentando se colocar sempre na frente da presa para evitar a fuga.

Ao cercá-lo, a aranha começa a tatear o opilião repetidamente com as pernas, possivelmente procurando áreas vulneráveis e evitando se aproximar muito do corpo do aracnídeo, que também possui quelícera e espinhos afiados nas pernas.

Se o opilião fica imóvel ou movimenta-se pouco, a aranha-marrom pode aplicar um golpe que configuraria um ippon, no judô, em que o derruba de costas no chão.

Em seguida, desfere uma série de picadas venenosas nas articulações e nas partes distais das pernas (a porção mais afastada do corpo) – as regiões em que o exoesqueleto é mais mole para permitir a movimentação do aracnídeo.

“Analisamos 176 picadas desferidas por aranhas-marrons em opilões durante o estudo e em 100% dos casos elas ocorreram nas articulações ou nas partes distais das pernas”, afirmou Willemart.

Em nenhum dos ataques, os opiliões liberaram secreções químicas contra as aranhas-marrons.

Uma hipótese para explicar a decisão de não usar a defesa química é que os opiliões evitam utilizar as secreções defensivas contra aranhas, de forma geral, uma vez que, aparentemente, podem se proteger do ataque da maioria delas apenas por meio do exoesqueleto rígido.

Mas não contam com as habilidades da aranha-marrom de identificação dos “pontos fracos”.

“A aranha-marrom tem uma estratégia de caça de opilião que, em comparação com as usadas por outras espécies de aranhas, como algumas que pertencem ao grupo das armadeiras, funciona muito melhor”, avaliou Willemart.

“É como se as aranhas-marrons fossem lutadoras estrategistas, que exploram os pontos fracos dos oponentes, e as aranhas do grupo das armadeiras, lutadoras de rua, que atacam o opilião sem a técnica adequada”, comparou.

Os pesquisadores pretendem estudar, agora, se outros artrópodes com exolesqueleto rígido geram respostas similares ao serem atacados tanto por aranhas que caçam, como as do grupo das armadeiras, e por aranhas-marrons.

Os resultados do estudo, publicados no artigo “Delicate fangs, smart killing: the predation strategy of the recluse spider (doi: 10.1016/j.anbehav.2014.12.025), de Willemart e outros, podem ser lidos na revista Animal Behaviour em http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0003347214004783.
Aranha-marrom (à dir.) percebe regiões vulneráveis do corpo do opilião para matá-lo e devorá-lo, aponta estudo feito na USP e na Universidade Federal de Uberlândia (foto: Rodrigo Hirata Willemart)

Link:

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Dogs know that smile on your face

Date: February 12, 2015

Source: Cell Press

Summary:
Dogs can tell the difference between happy and angry human faces, according to a new study. The discovery represents the first solid evidence that an animal other than humans can discriminate between emotional expressions in another species, the researchers say.
This is the experimental set-up used to test whether dogs can discriminate emotional expressions of human faces.
Credit: Anjuli Barber, Messerli Research Institute

See more at:

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Patativa-tropeira (Sporophila beltoni): Nova espécie de ave é descoberta no Brasil e já está ameaçada

Ornitólogos descreveram a patativa-tropeira (Sporophila beltoni), ave que ocorre no Cerrado e nos campos de altitude associados à Floresta com Araucárias, ecossistema brasileiro quase extinto
A patativa-tropeira (Sporophila beltoni) é a mais nova espécie descoberta por meio do apoio da Fundação Grupo Boticário. Crédito: Márcio Repenning

Uma nova espécie de ave que só ocorre no Brasil foi descoberta por ornitólogos da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC/RS), com apoio da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza. O estudo, conduzido por Márcio Repenning e Carla Suertegaray Fontana, foi publicado no periódico norte-americano The Auk – American Ornithologists’ Union após mais de oito anos de pesquisas.

Até então se acreditava que a patativa-tropeira (Sporophila beltoni) era da mesma espécie que a já conhecida patativa-verdadeira (Sporophila plumbea). Porém, após uma pesquisa financiada também pela Fundação Grupo Boticário, percebeu-se que ela possuía características que a diferenciavam das outras, tratando-se de uma nova espécie. “A ave recém-descoberta possui plumagem e canto diferentes, além de usar seu habitat de forma própria”, explica Repenning. O nome popular da nova espécie é alusivo aos limites da área de reprodução e regiões por onde a ave migra. Essas áreas coincidem com as regiões da rota que os tropeiros utilizavam no Sul do país, desde o século XVIII, para conduzir rebanhos e carne seca que seriam comercializados no Sudeste brasileiro.

A patativa-tropeira ocorre desde o nordeste do Rio Grande do Sul até Minas Gerais, nos biomas Mata Atlântica e Cerrado. Porém, apesar de ter como distribuição uma extensão razoavelmente grande, incluindo diversos estados brasileiros, essa espécie já ‘nasce’ ameaçada. Um dos motivos dessa realidade é porque a reprodução da espécie acontece nos campos naturais em bom estado de conservação das regiões altas e montanhosas do Sul, como os Campos Gerais do Paraná, o Planalto Catarinense e os Campos de Cima da Serra do Rio Grande do Sul, sempre em áreas junto da Floresta com Araucárias, ecossistema bastante ameaçado.

Após o período de reprodução (de novembro a março), a chegada do frio mais rigoroso no Sul faz com que o capim utilizado pela patativa-tropeira não frutifique mais. Com a redução na disponibilidade do alimento, a ave migra temporariamente para o Bioma Cerrado, em áreas de Minas Gerais principalmente, permanecendo na região de abril a outubro.

Ecossistema onde a espécie se reproduz está quase extinto

Os campos de altitude associados à Floresta com Araucárias, onde a espécie se reproduz, vem sofrendo drasticamente em decorrência da contínua e rápida degradação e fragmentação dos ambientes naturais, bem como da substituição de espécies nativas por exóticas como o pinus (Pinus elliottii) e o barramento de rios para geração de energia. A própria Floresta com Araucárias tem apenas 3% de sua cobertura original, sendo alvo contínuo do avanço agrícola desordenado que destrói cada vez mais os ambientes naturais. Repenning explica que a patativa-tropeira depende desse ecossistema misto (em mosaico na paisagem), considerado praticamente extinto. “Ela necessita de áreas específicas para se reproduzir e que invariavelmente estão próximas a matas ciliares ou entremeadas com manchas de capões de florestas típicos dos campos com araucárias, por isso a necessidade de se conservar esse ecossistema tão ameaçado”, comenta.

Além disso, com base nas pesquisas, estima-se que haja cerca de 4.500 casais na natureza, número considerado baixo para aves. Outra dificuldade que a patativa-tropeira enfrenta e que a deixa vulnerável é a captura de indivíduos silvestres para abastecer o mercado clandestino de pássaros. “Por conta da somatória dessas situações, essa nova espécie já é considerada globalmente em perigo de extinção, conforme atualização da lista nacional de espécies ameaçadas de extinção que está em preparação”, destaca o pesquisador.

Habitats da espécie favoreciam sua descoberta

Por viver e se reproduzir exclusivamente em campos abertos com ausência de formação florestal, seja no Cerrado ou na Mata Atlântica, a ave já poderia ter sido descrita há muito tempo. “Isso não aconteceu por falta de pesquisa básica. Reconhecer e nomear espécies são alicerces para explorar questões mais complexas sobre a biodiversidade e os ecossistemas”, ressaltam os pesquisadores responsáveis pelo estudo.

De acordo com Malu Nunes, diretora executiva da Fundação Grupo Boticário, instituição apoiadora do projeto que descobriu a ave, fomentar o desenvolvimento científico é indispensável para ampliar o conhecimento da biodiversidade brasileira. “Só é possível conservar aquilo que conhecemos. Por isso, a pesquisa científica é um importante subsídio para o avanço na proteção dos ambientes naturais brasileiros, bem como da fauna que neles ocorrem”, destaca. Para Nunes, quando um projeto descobre uma espécie, viabiliza a proposição de estratégias adequadas de conservação, tanto dela como de seu habitat, facilitando a implementação de políticas públicas mais assertivas e eficientes para protegê-los. Em 24 anos, a Fundação Grupo Boticário já apoiou 1.398 projetos, contribuindo para a descrição de 70 novas espécies.

Edital busca novos projetos de conservação da natureza no Sul

Para ampliar o conhecimento dos ecossistemas ameaçados do Sul do país e proteger espécies como a própria patativa-tropeira, a Fundação Grupo Boticário abriu o Edital de Apoio a Projetos com foco nos ecossistemas sulinos. Podem se inscrever autores de pesquisas que busquem a conservação da biodiversidade no Bioma Pampa, exclusivo do Rio Grande do Sul, além daquelas com foco nos ecossistemas Floresta com Araucárias e Campos Sulinos Associados, ambos integrantes do Bioma Mata Atlântica e que ocorrem principalmente no três estados do Sul.

Sobre a Fundação Grupo Boticário – A Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza é uma organização sem fins lucrativos cuja missão é promover e realizar ações de conservação da natureza. Criada em 1990 por iniciativa do fundador de O Boticário, Miguel Krigsner, a atuação da Fundação Grupo Boticário é nacional e suas ações incluem proteção de áreas naturais, apoio a projetos de outras instituições e disseminação de conhecimento. Desde a sua criação, a Fundação Grupo Boticário já apoiou 1.398 projetos de 480 instituições em todo o Brasil. A instituição mantém duas reservas naturais, a Reserva Natural Salto Morato, na Mata Atlântica; e a Reserva Natural Serra do Tombador, no Cerrado, os dois biomas mais ameaçados do país. Outra iniciativa é um projeto pioneiro de pagamento por serviços ambientais em regiões de manancial, o Oásis. Na internet: www.fundacaogrupoboticario.org.br, www.twitter.com/fund_boticario e www.facebook.com/fundacaogrupoboticario.

EcoDebate, 04/08/2014

Link:

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Fauna e meio ambiente, artigo de Roberto Naime

Foto: PPWalldesktop

[EcoDebate] A fauna representa todo conjunto de espécies animais, que apresentam funções reguladoras extremamente importantes nos ecossistemas, especialmente na cadeia alimentar.

Cada animal é parte de uma cadeia biológica. Como exemplo, o tié-sangue (Rampfhocelusbresilius) é grande dispersor de árvores frutíferas, e sua retirada da natureza causa um grande impacto ambiental comprometendo significativamente a cadeia alimentar em seu sistema.

As grandes divisões dos ambientes ocupados pelos animais são as águas salgadas, as águas doces e a terra.

Os animais marinhos ecologicamente são separados por:

  1. Plâncton: Organismos que flutuam e são movidos passivamente pelos ventos, ondas e/ou correntes; tamanho pequeno ou microscópico; inclui protozoários e crustáceos;
  2. Nécton: Animais que nadam livremente; inclui lulas, peixes, serpentes marinhas, tartarugas, aves marinhas, focas, baleias, etc. Os animais do plâncton e nécton também são chamados de Pelágicos.
  3. Bentos. Animais que rastejam, se prendem ou cavam no substrato do fundo (Storer, 1991).

Os animais de água doce compreendem muitos protozoários, algumas esponjas, moluscos bivalves, vermes, crustáceos, larvas e adultos de insetos, e vertebrados de peixes a mamíferos.

Alguns macroinvertebrados bentônicos têm sido amplamente utilizados como bioindicadores de qualidade de água e saúde de ecossistemas por apresentarem as seguintes características:

  • Ciclos de vida longo, comparando-se com os organismos do plâncton que em geral tem ciclos de vida em torno de horas, dias, 1 ou 2 semanas; os macroinvertebrados bentônicos podem viver entre semanas, meses e mesmo mais de 1 ano, caracterizando-se como “organismos sentinelas”. Em geral, são organismos grandes (maiores que 125 ou 250 µm), sésseis ou de pouca mobilidade;
  • Fácil amostragem, com custos relativamente baixos;
  • Elevada diversidade taxonômica e de identificação relativamente fácil em nível de família e de alguns gêneros;
  • Organismos sensíveis a diferentes concentrações de poluentes nos meios em que vivem, fornecendo ampla faixa de respostas frente a diferentes níveis de contaminação ambiental.

Os animais terrestres são mamíferos, aves (todos que voam ou “vivem” no ar, voltam ao chão, a árvores ou a rochedos), répteis e insetos, em menor número, anfíbios, crustáceos, moluscos, vermes e protozoários. São todos móveis excetos alguns parasitas. Vivem na superfície da terra, nas plantas ou em pequenas profundidades no solo.

A identificação das espécies animais, que ocorre em um determinado ecossistema, por meio de levantamentos, é essencial para os diagnósticos ambientais e demais estudos de manejo, preservação e conservação.

O diagnóstico deve permitir a obtenção de informações, não apenas sobre a diversidade, mas também a densidade populacional das espécies, permitindo assim investigar a capacidade de suporte de um determinado habitat.

A presença de espécies estenóicas, ou seja, espécies dependentes de determinados ambientes, bem como a presença de espécies raras ou endêmicas, são fundamentais para a detecção do grau de primitividade do ambiente. As espécies eurióticas que são tolerantes a condições adversas são boas indicadoras dos diferentes níveis de alteração em um ecossistema. Um bom exemplo é a herpetofauna (répteis).

Nos ecossistemas terrestres, por exemplo, os mamíferos (mastofauna) representam o grupo que é mais vulnerável à perturbação ambiental, podem ser bons indicadores do grau de conservação de determinadas áreas, principalmente em função de deslocamento. Para muitas espécies a ocupação de novas áreas é impossível, não apenas por barreiras físicas, mas características comportamentais, habitat restrito ou grande territorialidade.

Impactos sobre a vegetação produzem efeitos diretos na fauna pela redução, aumento ou alteração de dois componentes básicos: alimentação e abrigo.

Os insetos também têm sido considerados bons indicadores ecológicos da recuperação ambiental, principalmente as formigas, os cupins, as vespas, as abelhas e os besouros. Em nível de solo nas áreas em processos de recuperação, há uma sucessão de organismos da meso e macrofauna que estão presentes em cada etapa da recuperação destas áreas, sugerindo que possam ser encontrados bioindicadores de cada uma destas etapas.

Outros animais considerados bons bioindicadores por sua relação com o habitat florestal, são as aves, pois a redução do número de espécies está associada com a redução da área em que habita. As espécies consideradas indicadoras de ambiente preservado são aquelas que ocorrem exclusivamente no habitat original, apenas eventualmente em áreas adjacentes. Os principais grupos ecológicos de aves afetados por uma redução do número de espécies são:

Frugívoros grandes das copas: aves que diminuem as ofertas alimentares e reprodutivas, a maioria necessita de troncos para nidificar;

Insetívoros corticícolas: necessitam de micro-habitats próprios para o local de uso de forrageiras para reprodução (troncos grossos);

Insetívoros grandes de solo e sub-bosque: provocam drásticas alterações na fauna de solo e nas condições do sub-bosque;

Insetívoros de brenhas: que são especializados em forragear em vegetação extremamente adensada.

Em menor escala, são afetadas as seguintes espécies que podem atuar como indicadores biológicos secundários:

  • Frugívoros do solo;
  • Carnívoros diurnos;
  • Insetívoros de estrato médio;
  • Insetívoros noturnos;
  • Nectarívoros;
  • Granívoros das bordas.

O número de indivíduos tende a aumentar substancialmente, com as modificações decorrentes de ações impactantes ou atividades antrópicas sobre o ambiente florestal. Entre estas espécies destacando-se os omnívoros de bordas de florestas e os insetívoros pequenos das copas

Já outras espécies animais tendem a permanecer inalteradas quando se modificam as condições do ambiente florestal, merecendo destaque os frugívoros de solo, os carnívoros diurnos, os insetívoros pequenos de sub-bosque e os insetívoros das bordas.

Em todos os demais grupos ecológicos, o número de indivíduos se reduz drástica ou sensivelmente em função das alterações nos ambientes florestais.

As aves de sub-bosque são as mais sensíveis às perturbações na estrutura florestal. São também as autênticas indicadoras do grau de regeneração de uma floresta, onde se pode evidenciar dois aspectos:

Há extinção gradual de certas espécies próprias das regiões alteradas;

A regeneração da avifauna de sub-bosque de uma área é inversamente proporcional à distância desta com outra área florestada próxima.

Estudos específicos ou até generalistas, com relação à fauna em geral e a avifauna em particular, são bastante apreciáveis como sugestões finais de uma avaliação de impacto ambiental. Estes estudos fornecerão subsídios para um monitoramento durante e depois da obra impactante, permitindo definições muito mais precisas das medidas necessárias para sua mitigação ou atenuação. Além disso, serão formas importantes de complementar os resultados de investigações paralelas dos diferentes impactos em um empreendimento.

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

EcoDebate, 03/07/2014

Link:

Biólogo entrega 160 mil assinaturas ao ICMBio pela preservação do tatu-bola

Fto: ICMBio

Estádios, obras de mobilidade e turismo são benefícios frequentemente citados como legados da Copa do Mundo no Brasil. Porém, mais que isso, um grupo de mais de 160 mil pessoas quer, como legado, um parque de conservação para o tatu-bola – animal que, na figura do Fuleco, virou símbolo do Mundial, e está na lista de espécies brasileiras ameaçadas de extinção.

Depois de produzir artigo científico em conjunto com outros pesquisadores, mostrando incoerência entre a escolha de uma espécie ameaçada, para dar cara ao maior evento esportivo do planeta, e a falta de investimento para conservar a espécie, o biólogo Felipe Melo, professor da Universidade Federal de Pernambuco, abriu abaixo-assinado para receber apoio da população para o pedido de criação de um parque nacional na Caatinga, dedicado à preservação do Tolypeutes tricinctus, o tatu-bola.

Em menos de um mês, o movimento conseguiu mais de 160 mil assinaturas, entregues hoje (2) ao diretor do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Sérgio Brant.

Para produzir o artigo, o grupo de pesquisadores fez uma expedição à Caatinga e constatou que a caça de tatu ainda faz parte da cultura regional. “A gente chegava nos lugares e perguntava para as crianças quem tinha comido tatu no último ano, e todo mundo levantava a mão”, segundo Felipe Melo. Isso, apesar de o tatu ser um reservatório de hanseníase, e comer a carne do bicho, além de poder levá-lo à extinção, ainda traz o risco de contrair a doença, alerta ele.

Segundo o professor, a Caatinga é um ecossistema que só existe no Brasil, e é o mais desprotegido de todo o país. Além da caça ao tatu, a destruição do bioma – habitat da espécie, juntamente com o Cerrado – também contribui para aumentar a ameaça de extinção da espécie de Fuleco.

Em seu ambiente natural, o tatu-bola tem o papel de movimentar os nutrientes da terra, de controlar a presença de formigas, e ainda são alimento para grandes felinos. Para Melo, a principal ferramenta para conservar o tatu é a criação de áreas naturais, protegidas por lei, para a manutenção de espécies e ecossistemas.

A Agência Brasil procurou o ICMBio para saber o posicionamento do órgão sobre a petição, mas até o fechamento da matéria não conseguiu resposta. Mês passado, o ICMBio criou um plano para a preservação do mascote da Copa do Mundo.

Por Aline Leal, da Agência Brasil

EcoDebate, 03/07/2014

Link:

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Ibama, ICMBio e Polícia Federal formam força-tarefa para salvar onça-pintada da extinção

Há apenas 200 exemplares do animal do Espírito Santo ao sul do Brasil
Crédito: André Pessoa

LUCIENE DE ASSIS

A onça-pintada (Panthera onça Linnaeus), um mamífero que pode atingir até 2,41 metros e pesar 158 quilos, está ameaçada de desaparecer da Mata Atlântica devido à caça predatória e à perda e degradação de seu habitat. Existem no bioma, entre o Espírito Santo e o Iguaçu, no Sul do Brasil, menos de 200 animais, fato que motivou a aprovação do Plano de Ação Nacional para Conservação da Onça-pintada, o PAN Onça-pintada, pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), conforme a Portaria nº 63/2014.

Para viabilizar essas ações emergenciais, a ministra do Meio Ambiente (MMA), Izabella Teixeira, determinou a criação de uma força tarefa com o objetivo de evitar a extinção do felino. O trabalho de coibir a caça à Panthera-onça e reduzir a vulnerabilidade do animal será coordenado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), com a colaboração do ICMBio, Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal.

Atualmente, as pequenas populações da onça-pintada, na Mata Atlântica, encontram-se encurraladas e isoladas em pequenas áreas, o que impede sua migração de um local para outro trecho de floresta, sem risco de abate e atropelamento. O PAN Onça-pintada, com prazo de vigência até junho de 2017 e monitoramento anual dos resultados, prevê a realização de estudos para reintrodução de onça no bioma e tentativa de reprodução em cativeiro, processo que envolverá uma série de instituições governamentais, de pesquisa e ONG, sob a coordenação do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (Cenap).

EQUILÍBRIO

Considerado o maior felino das Américas e o único representante atual do gênero Panthera no continente, a onça-pintada é, também, o maior predador das Américas, controla toda a cadeia alimentar e o equilíbrio ecológico dos ambientes onde ocorre. “Se for extinta, as consequências danosas para o homem e o meio ambiente serão incalculáveis”, alerta o responsável pela Coordenação Geral de Manejo para Conservação do ICMBio, Ugo Vercillo.

PRINCIPAIS AMEAÇAS 

A Mata Atlântica está localizada em regiões densamente povoadas, o que vem provocando, ao longo dos anos, a degradação da maior parte da sua floresta nativa. A vegetação remanescente é, hoje, conservada em pequenos fragmentos, principalmente no interior de unidades de conservação. A perda e a degradação do hábitat é uma das ameaças mais sérias enfrentadas pela espécie, influenciando negativamente na qualidade e capacidade de suporte do ambiente.

A destruição da vegetação impede a reprodução de outros animais, que servem de alimentos para a onça-pintada. Além dos problemas relacionados aos habitats, a onça costuma ser perseguida pelo homem, porque ameaça as criações domésticas.

OCORRÊNCIA

De hábitos predominantemente noturnos, essa espécie de onça também é encontrada na Amazônia, Caatinga, Cerrado, Pantanal e, ainda, do sul dos Estados Unidos ao centro-oeste da América do Sul (Colômbia e Equador), Peru e Bolívia (leste dos Andes), por todo o Paraguai e no norte da Argentina. Seu alimento preferido são os porcos-do-mato (queixadas e catetos), antas e capivaras.

Na Mata Atlântica, as onças-pintadas estão, praticamente, restritas às unidades de conservação, sendo que a área de ocupação é 30.382 quilômetros quadrados. Trata-se de um animal solitário, sendo que a interação entre machos e fêmeas ocorre apenas durante o acasalamento. A gestação varia de 90 a 100 dias, podendo nascer até quatro filhotes, mas a média é de dois filhotes por gestação.

Fonte: MMA

EcoDebate, 02/07/2014

Link:

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Africa's poison 'apple' provides common ground for saving elephants, raising livestock

Date: June 23, 2014

Source: Princeton University

Summary:
Certain wild African animals, particularly elephants, could be a boon to human-raised livestock because of their voracious appetite for the toxic and invasive plant Solanum campylacanthum, or the Sodom apple, a five-year stud suggests. Just as the governments of nations such as Kenya prepare to pour millions into eradicating the plant, the findings present a method for controlling the Sodom apple that is cost-effective for humans and beneficial for the survival of African elephants.
The researchers set up 36 exclosures — which are designed to keep animals out rather than in — that fell within four types: one type open to all animals; another that excluded elephants; one in which elephants and impalas were excluded; and another off limits to all animals. The researchers used cameras to capture 30,000 hours of foraging activity by elephants (bottom), impalas (top right), small-dog-sized antelopes known as dik-diks (top left), and rodents. The Sodom apple proliferated with each group of animal that was excluded.
Credit: Photos courtesy of Robert Pringle, Department of Ecology and Evolutionary Biology

While African wildlife often run afoul of ranchers and pastoralists securing food and water resources for their animals, the interests of fauna and farmer might finally be unified by the "Sodom apple," a toxic invasive plant that has overrun vast swaths of East African savanna and pastureland.

Should the ominous reference to the smitten biblical city be unclear, the Sodom apple, or Solanum campylacanthum, is a wicked plant. Not a true apple, this relative of the eggplant smothers native grasses with its thorny stalks, while its striking yellow fruit provides a deadly temptation to sheep and cattle.

New research suggests, however, that certain wild African animals, particularly elephants, could be a boon to human-raised livestock because of their voracious appetite for the Sodom apple. A five-year study led by Princeton University researchers found that elephants and impalas, among other wild animals, can not only safely gorge themselves on the plant, but can efficiently regulate its otherwise explosive growth, according to a report in the journalProceedings of the Royal Society B. Without elephants ripping the plant from the ground, or impalas devouring dozens of its fruits at a time, the shrub easily conquers the landscape.

Just as the governments of nations such as Kenya prepare to pour millions into eradicating the plant, the findings present a method for controlling the Sodom apple that is cost-effective for humans and beneficial for the survival of African elephants, explained first author Robert Pringle, a Princeton assistant professor of ecology and evolutionary biology.

"The Holy Grail in ecology is these win-win situations where we can preserve wildlife in a way that is beneficial to human livelihoods," Pringle said. Similarly, Princeton researchers published two studies in 2011 that showed that allowing livestock to graze with wild animals such as zebras greatly improved the quality of the domesticated animals' diet.

"It's a nice example of how conservation needn't be about sacrifice. It often is -- let's be honest. But there are situations where you can get a win-win," Pringle said. "This opens the door for people whose main interest is cattle to say, 'Maybe I do want elephants on my land.' Elephants have a reputation as destructive, but they may be playing a role in keeping pastures grassy."

Elephants and impalas can withstand S. campylacanthum's poison because they belong to a class of herbivores known as "browsers" that subsist on woody plants and shrubs, many species of which pack a toxic punch, Pringle said. On the other hand, "grazers" such as cows, sheep and zebras primarily eat grass, which is rarely poisonous. These animals easily succumb to the Sodom apple. A 2011 study on sheep published in the journal Kenya Veterinarian showed that the plant caused emphysema, pneumonia, bleeding ulcers, brain swelling and death, among other effects.

As more African savanna is converted into pasture, the proliferation of the Sodom apple may only get worse, Pringle said, which means that the presence of elephants to eat it may become more vital to the ecosystem and livestock. The Sodom apple thrives on ecological mayhem, such as the stress of overgrazing put on the land, Pringle said: "Typically, people will overload the land with more cattle than it can support. Then they remove the animals that eat the plant."

Ricardo Holdo, a savanna ecologist and assistant professor of biological sciences at the University of Missouri, said that the researchers present enough data to potentially determine the amount of pastureland that wild Sodom-apple eaters would be able to keep free of the noxious plant. Holdo, who is familiar with the research but had no role in it, said that beyond removing the Sodom apple, animals such as elephants and impalas could potentially increase the food available to cattle. This is a departure from the conventional view in Africa that livestock and wild animals compete for the same scarce resources, he said.

"There is enough quantitative information in this paper that they can probably model this effect in a meaningful way," Holdo said. "When you add the wild [herbivores], they have a negative effect on the Solanum, so they're actually promoting a higher biomass of high-quality habitat for livestock. So, it's a win-win in the sense that you're creating a situation in which you can both have livestock and wild animals, and probably actually increase your yield for livestock."

The researchers report that they have presented one of the first studies to examine "functional redundancy" in land animals. Functional redundancy refers to the situation in which one species declines or goes extinct and another species steps in to fulfill the same ecological role. This consideration helps ecologists predict the overall effect of extinction on an entire ecosystem. In this case, the effect of large mammals such as elephants and impalas on the Sodom apple population -- and perhaps the populations of other plants -- is unlikely to be duplicated by another animal species, the researchers found.

"That's an important question because some species are quite vulnerable to extinction and others aren't," Pringle said. "The ones that go first tend to be the biggest, or the tastiest, or the ones with ivory tusks. We're trying to gauge how the world is changing, and we need to understand to what extent these threatened animals have unique ecological functions."

The majority of studies on functional redundancy have been conducted in aquatic systems because large land animals can be hard to control in an experiment, Holdo said. The Princeton-led study is made more robust by being unusually long by ecology standards, he said -- the researchers observed similar patterns year after year.

"A big part of the reason we don't understand functional redundancy very well in terrestrial ecosystems is because it's difficult to manipulate land species," he said. "Doing these experiments in the kind of environment like you have in Kenya is really challenging -- keeping elephants out of anything is really a huge challenge."

An unexpected feast: Elephants, impalas and a taste for Solanum

Pringle was roughly three years into a study about the effects of elephants on plant diversity when he noticed that the Sodom apple was conspicuously absent from some experiment sites. He and other researchers had set up 36 exclosures -- which are designed to keep animals out rather than in -- totaling nearly 89 acres (36 hectares) at the Mpala Research Center in Kenya, a multi-institutional research preserve with which Princeton has been long involved. There were four types of exclosure: one type open to all animals; another where only elephants were excluded; one in which elephants and impalas were excluded; and another off limits to all animals.

It was in the sites that excluded elephants and impala that the Sodom apple particularly flourished, Pringle said, which defied everything he knew about the plant.

"This study was really fortuitous. I had always thought that these fruits were horrible and toxic, but when I saw them in the experiment, I knew some animal was otherwise eating them. I just didn't know which one," Pringle said. "The question became, 'Who's eating the apple?' It's a very interesting and simple question, but once you get the answer it raises a lot of other questions."

Using the exclosures established for the original experiment, Pringle and his co-authors used cameras to document the zest with which wild African browsers will eat S. campylacanthum. Pringle worked with Corina Tarnita, a Princeton mathematical biologist and assistant professor of ecology and evolutionary biology, as well as with collaborators from the University of Wyoming, the University of Florida, the University of California-Davis, the Mpala Center and the University of British Columbia.

The researchers specifically observed the foraging activity of elephants, impalas, small-dog-sized antelopes known as dik-diks, and rodents. They captured about 30,000 hours of foraging using cameras they had focused on particular plants. The researchers also marked several hundred Sodom-apple fruit to track how many were eaten, and measured the average height, mortality and reproducibility of Sodom-apple plants in all the exclosures.

The Sodom apple proliferated with each group of animal that was excluded. At one point, the plant's density was three-times greater in areas restricted to all animals than those that permitted all of them, the researchers report. In February 2011, the researchers counted an average of less than one fruit per plant in the exclosure open to all animals, meaning that nearly every fruit produced by the plants was being consumed. In the plots closed to elephants, that average increased to three fruits per plant. When both impala and elephants were kept away, the average jumped to around 50 fruits per plant, and fruits were more likely to be eaten by insects rather than dik-diks or rodents.

There is a catch to the elephants' and impalas' appetite for the Sodom apple: When fruit goes in one end, seeds come out the other. Though some seeds are destroyed during digestion, most reemerge and are potentially able to germinate.

Pringle and Tarnita developed a mathematical model to conduct a sort of cost-benefit analysis of how the Sodom apple's ability to proliferate is affected by being eaten. The model weighed the "cost" to the plant of being partially consumed against the potential benefit of having healthy seeds scattered across the countryside in an animal's droppings. They then used the model to determine whether different animal species had an overall positive or negative influence on the population of Sodom-apple plants.

While elephants ate an enormous amount of Solanum seeds, they also often destroyed the entire plant, ripping it out of the ground and stuffing the whole bush into their mouths. The model showed that to offset the damage an elephant wreaks on a plant, 80 percent of the seeds the animal eats would have to emerge from it unscathed. On top of that, each seed would have to be 10-times more likely to take root than one that simply fell to the ground from its parent.

Impalas, on the other hand, can have a positive overall effect on the plants, the researchers found. Impalas ate the majority of the fruit consumed -- one impala ate 18 fruit in just a few minutes. But they do not severely damage the parent plant while feeding and also spread a lot of seeds in their dung. Of the seeds eaten by an impala, only 60 percent would need to survive, and those seeds would have to be a mere three-times more likely to sprout than a seed that simply fell from its parent.

"A model allows you to explore a space you're not fully able to reach experimentally," said Tarnita, who uses math to understand the outcome of interactions between organisms. "Once you've explored it, however, the conclusions and predictions need to be confronted with reality. This model helped us conclude that although it is theoretically possible for elephants to benefit the plant, that outcome is extremely unlikely."

Story Source:

The above story is based on materials provided by Princeton University. Note: Materials may be edited for content and length.

Journal Reference:
R. M. Pringle, J. R. Goheen, T. M. Palmer, G. K. Charles, E. DeFranco, R. Hohbein, A. T. Ford, C. E. Tarnita. Low functional redundancy among mammalian browsers in regulating an encroaching shrub (Solanum campylacanthum) in African savannah. Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences, 2014; 281 (1785): 20140390 DOI: 10.1098/rspb.2014.0390

Cite This Page:

Princeton University. "Africa's poison 'apple' provides common ground for saving elephants, raising livestock." ScienceDaily. ScienceDaily, 23 June 2014. <www.sciencedaily.com/releases/2014/06/140623131401.htm>.

Link:

terça-feira, 17 de junho de 2014

Para driblar a extinção, tatu-bola ganha um plano nacional de conservação

O tatu-bola, escolhido como mascote da Copa no Brasil, é um animal em extinção devido à destruição de seus habitats na Caatinga e no Cerrado, além de sofrer com a caça. O pequeno mamífero também está correndo o risco de perder um importante reforço na luta por sua preservação. O trabalho desenvolvido pela Fundação Museu do Homem Americano (FUMDHAM) no Parque Nacional Serra da Capivara, no Piauí, está ameaçado por falta de recursos.

De acordo com a professora Rute Maria Gonçalves de Andrade, do conselho fiscal da FUMDHAM, todo o trabalho que vem sendo realizado em mais de 40 anos está ameaçado, além das espécies animais que ficarão desamparadas, mais de100 pessoas podem ficar desempregadas. “Infelizmente a fundação não tem recebido os recursos do ICMBio, nem do IPHAN já que o Parque é declarado pela UNESCO como Patrimônio Natural e Histórico da Humanidade, em quantidade suficiente e nos prazos devidos para fazer esta gestão”, desabafou.

Por meio de sua Divisão de Comunicação, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) informou que “não houve nenhuma interrupção de repasses para a Fundação Museu do Homem Americano. Em 2014, foram repassados R$ 400 mil de recursos de compensação ambiental e há a previsão de mais R$ 300 mil, oriundos de emenda parlamentar”. Já o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), órgão do Ministério da Cultura (MinC), não se pronunciou até o fechamento desta edição por conta de uma greve de seus funcionários.

Desde os anos 90, a equipe da FUMDHAM, liderada por sua presidente a arqueóloga Niède Guidon desenvolve ações de preservação da fauna local, o que tem sido decisivo para manter o equilíbrio da densidade populacional no parque de muitos vertebrados. Este trabalho consiste em manter limpos e cheios os reservatórios naturais de água existentes no Parque conhecidos como caldeirões, além de outros que foram construídos, para que os animais tivessem água na época da seca.

Para Rute esse é o momento ideal para chamar a atenção para os esforços de preservação da fauna e flora brasileira. “Talvez fosse importante que a partir da Copa fosse lançada uma grande campanha nacional em favor das Unidades de Conservação que preservam a duras penas o tatu-bola”, sugeriu.

Até o momento o trabalho de conservação do tatu-bola – cujo nome científico é Tolypeutestricinctus – está dando bons resultados. Segundo a professora Rute ele é um dos animais que compõem a fauna do Parque. “Após a fiscalização relativa à caça e o trabalho de fornecimento de água na época da seca possibilitaram manter a população desta espécie de mamífero, endêmico do Bioma caatinga”, afirmou.

Plano Nacional de Conservação – O biólogo Leandro Jerusalinsky, coordenador do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Primatas Brasileiros (CPB/ICMBio), em João Pessoa (PB), faz parte do Plano de Ação Nacional para a Conservação do Tatu-bola (PAN Tatu-bola). A ideia é consolidar uma estratégia para diminuir o risco de extinção de duas espécies. “O plano tem como objetivo geral a redução do risco de extinção do Tolypeutestricinctus, que habita a Caatinga e o Cerrado, para a categoria Vulnerável e avaliação adequada do estado de conservação do Tolypeutes matacus, encontrado no Pantanal e Cerrado, em cinco anos”, explicou.

Ainda segundo Jerusalinsky, o PAN Tatu-bola vai ajudar na conservação destas espécies por estabelecer de forma clara quais são as ações prioritárias para reverter ou atenuar os principais impactos sobre elas, que consistem na perda e fragmentação de habitats, caça e falta de conhecimento. “Desta forma, as diversas instituições envolvidas em pesquisa, fiscalização e licenciamento ambiental, por exemplo, poderão adotar essas ações em sua atuação, ajudando a conhecer e a proteger os tatus-bola”, detalhou.

O PAN foi elaborado por um conjunto de especialistas nestas espécies, sediados em instituições de ensino e pesquisa como a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade Federal de Sergipe (UFS), Universidade de São Paulo (USP), Universidade do Vale do Rio São Francisco (UNIVASF), Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Universidade Estadual do Mato Grosso (UNEMAT), EMBRAPA Pantanal, além do próprio ICMBio.

(Edna Ferreira)

Fonte: Jornal da Ciência, SBPC, JC e-mail 4973

EcoDebate, 17/06/2014

Link:

segunda-feira, 26 de maio de 2014

"Os pássaros são tão capazes quanto nós"

26/05/2014
Premiado cientista na área de Psicologia Biológica, Onur Güntürkün afirma que o cérebro das aves pode ter design mais eficiente que o dos mamíferos (foto: Heiner Bayer)

Por Karina Toledo

Agência FAPESP – Durante muito tempo predominou entre os neurocientistas a ideia de que o cérebro havia evoluído de forma linear. De acordo com a teoria proposta em meados do século 19 pelo neurologista alemão Ludwig Edinger (1855-1918), os peixes seriam os animais com o cérebro mais primitivo. Em seguida viriam os anfíbios, as aves e, finalmente, os mamíferos.

O cérebro dos mamíferos, segundo a teoria de Edinger, não apenas continha todas as estruturas existentes nos cérebros precedentes na escala evolutiva como também apresentava uma novidade que lhe proporcionava uma capacidade cognitiva superior e inédita: o neocórtex.

Mais desenvolvido nos primatas, o neocórtex é uma espécie de capa que recobre a parte externa do cérebro. Nos seres humanos, ele é dividido em seis camadas e apresenta uma grande quantidade de sulcos repletos de neurônios que comandam funções complexas como percepção sensorial, coordenação motora, raciocínio espacial e linguagem.

Para Edinger, como os pássaros não são dotados de neocórtex, jamais poderiam ser treinados como cachorros e gatos nem desenvolver habilidades cognitivas complexas, como usar ferramentas. Mas, no início do século 21, um grupo de cientistas demonstrou que essa teoria estava errada em artigo publicado no The Journal of Comparative Neurology.

Entre os autores estava Onur Güntürkün, professor da Ruhr-Universität Bochum, na Alemanha. Em outra pesquisa divulgada na revista PLoS Biology, Güntürkün mostrou que as gralhas são capazes de se reconhecer no espelho – algo que a maioria dos mamíferos não consegue fazer e que requer um certo grau de autoconsciência.

Por seu pioneirismo na área de Psicologia Biológica, Güntürkün, nascido na Turquia, recebeu em 2013 o Prêmio Gottfried Wilheim Leibniz, considerado o Nobel alemão. Em 2014, foi o ganhador do Communicator Award, oferecido anualmente pela Deutsche Forschungsgemeinschaft (DFG) e pela Stifterverband für die Deutsche Wissenschaft a cientistas com boa habilidade de comunicar os resultados de sua pesquisa para um público amplo, fora da esfera científica.

No dia 20 de maio, Güntürkün esteve na sede da FAPESP para apresentar a palestra “Cognition without Cortex: The convergent evolution of avian and mammalian forebrains”, na qual contou que, a partir de seus experimentos com as gralhas, foi possível concluir que as aves teriam uma estrutura cerebral comparável ao neocórtex dos mamíferos.

“As aves possuem uma estrutura cerebral com as mesmas especificidades do neocórtex, a mesma bioquímica e o mesmo padrão de comunicação. A diferença é que não é dividida em camadas”, disse.

Segundo Güntürkün, é como se a natureza tivesse criado duas soluções diferentes para o mesmo problema (capacidade cognitiva avançada), em eventos distintos e independentes da história evolutiva.

“É possível que o design do cérebro das aves seja até mais eficiente do que o dos mamíferos, pois permite habilidades cognitivas complexas mesmo com um volume muito menor. No entanto, o cérebro das aves é pequeno demais para competir com o nosso”, avaliou.

Em entrevista concedida à Agência FAPESP, Güntürkün contou mais detalhes sobre suas pesquisas voltadas a entender as origens e a evolução do pensamento. Falou ainda sobre a importância da comunicação científica e sobre seus estudos relacionados às diferenças de gênero no cérebro.

Agência FAPESP – Qual é o motivo de sua visita ao Brasil? 

Onur Güntürkün – Vim a convite da DFG para apresentar a “Palestra Leibniz” [formato desenvolvido para titulares do prêmio com o intuito de estimular o diálogo tanto com as comunidades científicas no exterior quanto com a sociedade em geral] e conversar com colegas cientistas do Brasil. O Brasil é um país muito importante, não apenas em termos de economia e política, mas também em termos de ciência. A Alemanha tem uma longa tradição em ciência, mas precisa planejar seu futuro de forma apropriada e, para isso, precisa pensar quais serão as grandes nações na área da ciência no futuro e como fomentar o relacionamento entre cientistas alemães e internacionais. Penso que o conceito da DFG é muito sábio: não são os diretores ou ministros que devem ser os embaixadores da ciência, mas os próprios cientistas. A única forma de isso ocorrer é possibilitando a interação entre eles, para que descubram interesses em comum. Dessa forma, é possível descobrir que, do outro lado do Atlântico, há uma ótima pessoa interessada nos mesmos assuntos que você e com quem você pode cooperar. Essa é a ideia.

Agência FAPESP – Como surgiu seu interesse pela evolução do cérebro e do pensamento? 

Güntürkün – Só conseguimos entender alguma coisa quando conhecemos sua história. Só posso entender a mim mesmo quando sei algo sobre meu passado. O mesmo vale para o cérebro e a cognição. Se entendermos em quais condições evolutivas surgiram a cognição e o pensamento, podemos entender por que pensamos o que pensamos. Esta é a razão básica. Não me recordo de um momento de minha vida em que não estava interessado nesse assunto, então não há um ponto zero. Quando eu era criança já fazia ciência, realizava experimentos. Claro que eram simples e errados, sem conhecimento da literatura. Mas era ciência e foi um momento decisivo da minha existência. Muito do que faço hoje também deve estar errado e eu ainda não tenho consciência disso.

Agência FAPESP – Como forma e função estão relacionadas no cérebro? Até que ponto a estrutura cerebral define a capacidade de cognição? 

Güntürkün – Se a arquitetura de nosso cérebro fosse diferente, nossa cognição seria diferente? A resposta é sim e não. Se perdêssemos um pedaço de nosso cérebro e nossa arquitetura fosse alterada, nossa cognição mudaria de forma radical. Há, no entanto, diferentes tipos de cérebros, com arquiteturas completamente diferentes, possivelmente capazes de criar o mesmo tipo de cognição. É como se você estivesse dirigindo um carro e perdesse uma parte do motor e ele deixasse de funcionar. Mas há outros tipos de motores que podem impulsionar um carro. Há diferentes soluções para o mesmo problema. Por isso, quando me perguntam se a estrutura define a cognição, minha resposta é sim e não. Sim – há diferentes soluções – e não – dentro de uma solução específica, todos os componentes precisam estar lá para o sistema funcionar. Essa é uma questão profunda de neurociência cognitiva. Podemos entender a evolução da cognição usando esse conhecimento como pano de fundo. Há diferentes organismos e diferentes tipos de cérebro. Eles pensam como nós ou possuem formas completamente diferentes de pensar que ainda não conhecemos? Isso é material suficiente para uma vida inteira de pesquisa.

Agência FAPESP – Em sua palestra, o senhor disse que as aves têm capacidades cognitivas comparáveis às dos mamíferos, embora não possuam o neocórtex. Isso ocorre com todas as aves ou apenas um grupo especial? E como isso é possível? 

Güntürkün – Acredito que nem todas as aves conseguem fazer isso, apenas algumas, como as gralhas e os corvos. E não sabemos por que as outras não têm essa habilidade. Mas o mesmo ocorre com os mamíferos. Os cachorros não se reconhecem no espelho, nem os gatos e nem mesmo os macacos rhesus. Apenas alguns mamíferos e alguns pássaros são capazes disso e ainda não sabemos ao certo a razão. O que há de especial no cérebro da gralha que o difere do cérebro do pombo? O que há de especial no cérebro do chimpanzé que lhe dá a capacidade de se reconhecer no espelho que o rhesus não tem? Não sabemos ainda. É uma questão profunda, pois, se o autorreconhecimento é uma pista para a consciência, poderemos entender melhor a consciência se formos capazes de entender como essas diferenças entre os animais aparecem.

Agência FAPESP – Teriam as aves uma espécie de neocórtex primitivo? 

Güntürkün – Não é primitivo. É como se a natureza tivesse inventado a roda duas vezes, de forma independente uma da outra. No cérebro das aves há uma estrutura interior virtualmente idêntica ao córtex pré-frontal humano. No entanto, ela não é dividida em camadas como o nosso córtex. Me parece que, em duas situações distintas na evolução, um grupo de animais precisou desenvolver altas capacidades cognitivas e terminou com o mesmo tipo de solução básica para esse problema. Mas um grupo desenvolveu o neocórtex e, o outro, um tipo diferente de estrutura cerebral. As invenções, porém, são absolutamente idênticas. É como ir a Marte e descobrir espécies completamente diferentes, com uma origem completamente diferente, mas, ao analisar profundamente, descobrir que alguns aspectos do cérebro dessas criaturas são virtualmente idênticos ao seu. É uma grande descoberta, pois sugere que não há duas soluções para um grande problema. Sempre se acaba inventando o mesmo tipo de roda quando se deseja criar um carro.

Agência FAPESP – O senhor sugeriu que o design do cérebro das aves talvez seja até mais eficiente que o dos mamíferos. Por quê? 

Güntürkün – É possível. De outra forma seria difícil entender como pequenos cérebros conseguem ser tão poderosos em termos cognitivos como o cérebro grande dos mamíferos. No entanto, o cérebro das aves nunca conseguiu ficar tão grande como o nosso. Não existe um único pássaro ou réptil que tenha sido capaz de desenvolver um cérebro de vários quilos. Não há nem sequer um réptil cujo cérebro pese mais do que 100 gramas. Não sabemos o porquê. Desde há mais de 300 milhões de anos, répteis e aves tiveram a chance de desenvolver um cérebro grande e nunca conseguiram. O argentinossauro, descoberto na Argentina, foi provavelmente o maior ser vivo que já habitou o planeta. Era enorme e tinha o cérebro do mesmo tamanho que o de um pássaro. O cérebro desses animais é restrito em termos de tamanho absoluto, enquanto nosso cérebro com a arquitetura cortical pode ficar grande. Essa foi a vantagem evolutiva que tivemos. De outra forma, estaríamos na gaiola e seríamos os animais de estimação das aves.

Agência FAPESP – O fato de o neocórtex corresponder a 76% do volume cerebral humano pode ser a explicação para sermos os animais mais inteligentes? 

Güntürkün – Sim. É possível que tenhamos apenas um cérebro de primata muito grande. Simplesmente possuímos maior número de neurônios no neocórtex que qualquer outro animal do planeta. Há animais com cérebros maiores, como algumas baleias, elefantes, mas eles têm número menor de neurônios. Possivelmente nossa superioridade tenha razões quantitativas. É como os computadores. Colocamos mais memória, melhoramos outras especificações e, de repente, a máquina fica mais rápida, mais poderosa e capaz de calcular mais coisas.

Agência FAPESP – Somos, então, apenas primatas com um cérebro grande? 

Güntürkün – Sim. Sou orgulhoso por ser um primata.

Agência FAPESP – O que já se conhece sobre o neocórtex e suas funções? 

Güntürkün – Sabemos muito sobre o neocórtex, é uma das neuroestruturas mais bem estudadas. Por outro lado, entendemos muito pouco o cérebro dos pássaros. Obviamente, como somos mamíferos, acreditamos por centenas de anos que apenas com o neocórtex seria possível ter capacidades cognitivas avançadas, então havia um grande interesse em estudar o neocórtex. Agora que descobrimos que pássaros são tão capazes quanto nós, temos que trabalhar fortemente para preencher essa falta de conhecimento sobre as estruturas cerebrais das aves.

Agência FAPESP – Estudar o cérebro é sempre um grande desafio, pois não se pode simplesmente tirar um pedaço de tecido e analisar sob o microscópio sem grande consequências. Quais metodologias o senhor usa? 

Güntürkün – Claro que em humanos não podemos fazer experimentos invasivos, mas podemos gravar um eletroencefalograma, colocar nossos voluntários em uma máquina de ressonância magnética funcional e avaliar a atividade cerebral. Quando os pacientes têm má sorte ou genes ruins que resultam em uma alteração da estrutura cerebral, há sempre uma alteração correspondente nas habilidades cognitivas que podemos estudar. E, obviamente, fazemos experimentos comportamentais e coisas desse tipo. Nos animais, como os pombos que tenho usado muito no meu laboratório, podemos, mediante autorização, fazer experimentos invasivos, como implantar pequenos eletrodos no cérebro para gravar a atividade.

Agência FAPESP – O senhor tem estudos relacionados ao beijo e à tendência de os casais virarem a cabeça para a direita quando estão se beijando. Por que estudou esse tema? 

Güntürkün – É preciso deixar claro que não estudei o beijo para entender o beijo e sim para compreender a assimetria do cérebro humano. Tudo começou com a descoberta de que as aves têm um cérebro assimetricamente organizado. Essa assimetria aparece mesmo antes de saírem do ovo, quando viram a cabeça para o lado direito. Isso proporciona maior estimulação de luz no olho direito do embrião, que fica voltado para a casca do ovo. Então descobri, pela literatura, que humanos também viram a cabeça, desde antes de nascer, na maioria das vezes para o lado direito. E continuamos apresentando essa tendência por vários meses após o parto. Tenho uma teoria maluca de que isso, de alguma forma, modula nossos circuitos cerebrais. Se sou um recém-nascido, olho quase sempre para a direita, vejo minha mão direita e começo a fazer alguma atividade com a mão direita. E faço menos atividades com a mão esquerda. Então o fato de ser destro poderia ter sido influenciado por minha tendência de olhar para a direita.

Agência FAPESP – O senhor conseguiu comprovar essa teoria? 

Güntürkün – Formulei essa teoria e meus colegas me disseram que era bobagem, pois os bebês param de olhar para a direita por volta de 3 ou 4 meses de idade. E a destreza manual se manifesta muitos anos depois. Há um intervalo de tempo entre os dois eventos. Mas eu não acreditava nisso e pensei que talvez o padrão de movimentação dos bebês seja apenas muito complexo para que vejamos com clareza a tendência de virar a cabeça para a direita. Se essa tendência realmente nunca desaparece, nós, adultos, também devemos manifestá-la de alguma forma. Certo dia, eu estava sentado no sofá de minha casa e, de repente, me ocorreu: o beijo. Durante o ato de beijar não posso ficar com a cabeça reta, é preciso virá-la para um dos lados. Decidi observar casais em aeroportos enquanto eles estão esperando seus amados. O experimento foi feito em grandes aeroportos internacionais, de três diferentes continentes, para reduzir a possibilidade de qualquer viés cultural. Descobri que humanos têm a tendência de virar a cabeça para a direita em proporção absolutamente idêntica entre adultos e recém-nascidos: dois terços. Essa tendência não muda durante toda a vida e possivelmente ela modula a destreza manual nos humanos.

Agência FAPESP – No caso das aves, de certa forma, há uma relação com a estimulação do olho direito pela luz. E com os humanos? 

Güntürkün – Isso não acontece porque nossa visão é frontal. Minha teoria é que viramos a cabeça na tentativa de visualizar os próprios membros. Mas ainda não descobrimos o que mais é afetado por esse padrão de virar a cabeça além da destreza manual. É apenas um dos aspectos da assimetria cerebral que estamos estudando atualmente em meu laboratório.

Agência FAPESP – É verdade que há um lado do cérebro que controla emoções e habilidades com a música e outro lado responsável por atividades mais relacionadas com a razão? 

Güntürkün – Isso é folclore existente na área de Psicologia e Neurociência. Precisamos de todo o cérebro para tocar uma música ou para raciocinar. Há algumas especializações relevantes. Para a música, por exemplo, nossa habilidade de compreender o ritmo é mais dominante no hemisfério direito. Então há um aspecto da música mais relacionado ao lado direito do cérebro. Depois que o famoso compositor [Maurice] Ravel teve um derrame no hemisfério direito, embora ainda fosse capaz de ouvir música, ele não conseguia mais compreendê-la, pois perdeu a habilidade de computar o ritmo. O raciocínio, porém, é algo que requer todo o cérebro. Muitos desses folclores possuem algum fundo de verdade, mas nem todos os fatos envolvidos são verdadeiros.

Agência FAPESP – Também é folclore que os homens têm mais neurônios do que as mulheres? 

Güntürkün – Isso é verdade. Os homens têm entre 10% e 15% mais neurônios, mesmo se o cálculo for proporcional ao tamanho do corpo. Mas a diferença na prática, francamente, ainda não sabemos. A inteligência de homens e mulheres é possivelmente idêntica. Há alguns cientistas que defendem que o QI [coeficiente de inteligência] é um pouco mais elevado nos homens. Se isso for verdade, no entanto, o efeito prático seria pequeno. Há outros estudos que não foram capazes de mostrar qualquer diferença. Minha teoria é que homens e mulheres são idênticos em termos de inteligência. Assumo essa premissa porque a maior parte da literatura mostra que, se há uma diferença, ela é muito pequena e não é importante. No entanto, é possível que exista diferença em termos de conhecimento. Homens aparentemente podem guardar um número de fatos cerca de 10% a 15% maior. Pode ser que o córtex seja um grande armazém e, se você tem um armazém maior, pode guardar mais itens dentro dele. Esta é minha teoria preferida e estamos elaborando estudos para analisá-la.

Agência FAPESP – Mas por que os homens precisariam de um armazém maior? 

Güntürkün – Não tenho ideia. Não faz sentido em termos evolutivos. A pressão evolutiva de seleção, no que se refere ao conhecimento, atua sobre homens e mulheres de maneira igual. Por que os homens precisariam ter mais neurônios? Realmente não sei. Vamos morrer com muitas questões a serem respondidas. Mas, pelo menos, eu gostaria de descobrir se, de fato, existe uma relação entre ter mais neurônios e conseguir armazenar mais conhecimento. Aí uma questão ainda mais profunda apareceria: por quê? Fico ansioso de pensar que nunca vou saber.

Agência FAPESP – O senhor ganhou o Communicator Award de 2014, o que demonstra seu interesse em comunicar os resultados de sua pesquisa também a um público leigo. Por que acredita que a comunicação científica é importante? 

Güntürkün – Estou muito honrado por ter sido escolhido. De acordo com o júri, sou capaz de me comunicar muito bem com a mídia e com o público em geral. Penso que isso é algo que todos nós, cientistas, temos de fazer. Precisamos falar sobre nossas pesquisas com a mídia, o público leigo e com outros cientistas e estudantes. E temos de fazer isso de forma que todos possam entender. É algo que considero meu dever, pois sou financiado pelos impostos dos contribuintes. Esses impostos garantem o melhor emprego do planeta a um número muito pequeno de pessoas: os cientistas. Trabalhamos naquilo que nos interessa, com quem desejamos e com as técnicas que escolhemos. Somos livres e podemos brincar com nossas ideias e isso é algo absolutamente fantástico. Ao mesmo tempo, somos rodeados por alunos brilhantes e muitas pessoas interessantes de todas as partes do mundo. Em troca, os contribuintes têm o direito de saber o que você está fazendo. E quando falo com esses trabalhadores não devo usar palavras que dificultem o entendimento. É meu dever.

Agência FAPESP – De forma geral, os cientistas cumprem bem esse dever? Como melhorar? 

Güntürkün – Acredito que, de maneira geral, os cientistas estão cientes desse dever e fazem um bom trabalho. Mas há algumas limitações. Há um imenso interesse em ciência por parte do público. Na televisão, não há apenas esportes e telenovelas, mas também programas sobre novas descobertas, animais e muitos outros aspectos relacionados à ciência. Jornalistas me procuram com frequência e a muitos de meus colegas. Fazem isso, obviamente, porque o jornalismo científico desperta interesse nas pessoas. Mas há uma responsabilidade dupla. Aos cientistas cabe não ter vergonha de falar com a mídia e ser claro. E a mídia tem a responsabilidade de divulgar a ciência da forma como ela é realmente, e não divulgar apenas escândalos, invenções fantásticas e coisas desse tipo.

Agência FAPESP – O senhor já teve problemas com a mídia? 

Güntürkün – Eu aprendi muito sobre a interação com a mídia ao longo de minha vida e tive algumas experiências difíceis. A maioria das pessoas da mídia realmente tenta fazer um bom trabalho. Mas, às vezes, os mecanismos internos da imprensa fazem com que as mensagens sejam muito simplificadas. Acho que esse é um problema que tanto cientistas quanto jornalistas precisam tentar solucionar de alguma forma. 

Link: