sexta-feira, 6 de novembro de 2026

Silimarina e saúde do fígado em cães

 O potencial do cardo-mariano e os limites das evidências científicas

Ana Clara de Moraes Gonçalves; Joana do Carmo Souza; Larissa Castro Aquila da Silva; Luiza Salgado Ferreira

Universidade de Taubaté

O cardo-mariano é uma das plantas medicinais que despertam interesse nas pesquisas sobre proteção do fígado. De seus frutos se obtém a silimarina, mistura de compostos estudada por suas atividades antioxidantes e anti-inflamatórias. Na medicina veterinária, ela tem sido investigada como recurso complementar no cuidado de cães com doenças hepáticas.

Os resultados experimentais ajudam a compreender esse interesse, mas ainda há limitações para afirmar quanto a silimarina beneficia os animais na rotina clínica. Para interpretar seu potencial, é preciso conhecer a preparação utilizada, a doença investigada e o que cada estudo realmente avaliou.

Uma planta e diferentes preparações

Conhecido popularmente como cardo-mariano ou cardo-de-leite, Silybum marianum (L.) Gaertn. pertence à família Asteraceae. A matéria-prima empregada na obtenção dos extratos é principalmente o fruto maduro e seco, muitas vezes chamado de semente.

A silimarina reúne diferentes substâncias, entre elas a silibina, também denominada silibinina, a silicristina e a silidianina. Por isso, silimarina e silibina não são termos equivalentes: o primeiro designa uma mistura; o segundo, um de seus componentes.

Essa diferença tem consequências práticas. O fruto triturado, um extrato padronizado e uma formulação de silibina associada a fosfolipídios apresentam características distintas. Comparar produtos exige observar sua composição, sua concentração e a forma como seus componentes são absorvidos.

Por que o fígado precisa de atenção

O fígado participa do metabolismo dos nutrientes, produz bile e proteínas importantes para o organismo e transforma medicamentos e outras substâncias. As doenças que o afetam, chamadas hepatopatias, podem ter causas e evoluções muito diferentes.

Em cães, o comprometimento hepático pode estar relacionado, por exemplo, ao acúmulo de cobre, à exposição a substâncias tóxicas e a determinados medicamentos. Alterações biliares e vasculares também podem prejudicar o funcionamento do órgão. Identificar a causa orienta a escolha do tratamento.

Apatia, perda de apetite, vômitos e emagrecimento podem ocorrer nesses quadros, mas também aparecem em outras doenças. Alguns animais apresentam alterações nos exames antes de manifestar sinais perceptíveis. A avaliação depende da história clínica, do exame físico e de exames complementares definidos pelo médico-veterinário.

Como a silimarina pode atuar

Parte do interesse pela silimarina está relacionada ao estresse oxidativo. Esse processo ocorre quando a produção de moléculas reativas supera a capacidade das defesas antioxidantes, favorecendo danos às estruturas celulares.

Em modelos experimentais, a silimarina e seus constituintes apresentaram efeitos sobre a oxidação dos lipídios das membranas e sobre mecanismos de defesa celular. Também foram investigadas ações em vias de sinalização envolvidas na inflamação.

Outros estudos exploram possíveis efeitos sobre a deposição de colágeno e os processos de recuperação do tecido hepático. Esses achados ajudam a formular hipóteses de tratamento. Entretanto, não demonstram que a administração oral regenere o fígado ou reverta uma fibrose já estabelecida em cães.

O que os estudos em cães mostram

Em um estudo publicado em 1998, Schossler, Schossler e Silva avaliaram 15 cães com lesão hepática provocada experimentalmente por tetracloreto de carbono. Os animais foram distribuídos em três grupos: um sem tratamento com silimarina e dois que receberam a substância durante 15 dias.

Os grupos tratados apresentaram menores valores de alanina aminotransferase, conhecida pela sigla ALT, e menor sensibilidade na região hepática. Não houve diferença estatisticamente significativa entre as duas doses investigadas.

O resultado sugere um possível efeito nesse modelo de intoxicação. Como o estudo incluiu poucos animais e uma lesão induzida, ele não permite generalizar o benefício para todas as doenças hepáticas que surgem espontaneamente. Também não estabelece uma dose aplicável a qualquer paciente.

O consenso do American College of Veterinary Internal Medicine sobre hepatite crônica em cães, publicado em 2019, reconhece que a documentação de benefícios dos derivados do cardo-mariano permanece inconclusiva. Diferenças entre compostos, doses e formulações dificultam a comparação das pesquisas.

Melhorar as enzimas não conta toda a história

A ALT é um marcador associado à lesão dos hepatócitos, as principais células funcionais do fígado. Sua redução pode ser um achado favorável, mas, isoladamente, não comprova recuperação da estrutura ou da função do órgão.

Essa distinção aparece em uma pesquisa de Rezende (2003), realizada com camundongos submetidos à intoxicação experimental. A silimarina melhorou determinados marcadores sanguíneos nas primeiras avaliações, sem demonstrar redução significativa da área de necrose hepática atribuível ao tratamento.

A interpretação dos resultados deve reunir informações sobre o estado clínico, os exames e a evolução do animal. Demonstrar melhora sustentada da saúde exige mais do que observar a mudança de um único marcador.

Formulação e segurança também fazem diferença

A absorção oral da silimarina convencional é limitada. Formulações que associam silibina a fosfolipídios podem aumentar sua disponibilidade no organismo. Ainda assim, uma maior absorção não garante, por si só, melhores resultados clínicos.

A origem vegetal também não dispensa a avaliação de segurança. São descritas possibilidades de interferência em enzimas e transportadores envolvidos no processamento de medicamentos, embora a importância clínica dessas interações precise ser avaliada em cada situação. O cuidado é especialmente relevante quando o animal recebe vários fármacos.

A escolha da preparação e do esquema de uso deve considerar a condição do paciente, os demais tratamentos e a qualidade do produto. Doses de pesquisas experimentais não devem ser transformadas automaticamente em orientações para uso doméstico.

O lugar da silimarina no cuidado veterinário

A silimarina apresenta mecanismos de ação que justificam a continuidade das pesquisas. Há resultados favoráveis em determinados modelos experimentais, mas faltam evidências clínicas consistentes para definir seu benefício nas diferentes hepatopatias caninas.

Seu eventual uso como complemento deve integrar um plano de cuidado orientado pelo médico-veterinário, com diagnóstico da causa da doença e acompanhamento da resposta ao tratamento. O conhecimento sobre plantas medicinais contribui para esse cuidado quando vem acompanhado de identificação correta, preparações bem caracterizadas e avaliação crítica das evidências.

Referências e leituras

SCHOSSLER, D. R.; SCHOSSLER, J. E.; SILVA, C. F. Avaliação clínica e enzimática de cães com hepatite tóxica aguda tratados pela silimarina. Revista Brasileira de Ciência Veterinária, v. 5, n. 3, 1998. https://doi.org/10.22409/rbcv.v5i3.1097

WEBSTER, C. R. L. et al. ACVIM consensus statement on the diagnosis and treatment of chronic hepatitis in dogs. Journal of Veterinary Internal Medicine, v. 33, n. 3, p. 1173–1200, 2019. https://doi.org/10.1111/jvim.15467

EUROPEAN MEDICINES AGENCY. Silybi mariani fructus. Monografia e documentos de avaliação sobre os frutos do cardo-mariano. https://www.ema.europa.eu/en/medicines/herbal/silybi-mariani-fructus

REZENDE, R. J. Efeitos da silimarina (Silybum marianum), alcachofra (Cynara scolymus), mel, aminoácidos com levulose e aminoácidos com proteolisados de fígado na hepatotoxicidade aguda induzida por tetracloreto de carbono em camundongos. 2003. Dissertação (Mestrado em Ciências Veterinárias) — Universidade Federal de Uberlândia. https://repositorio.ufu.br/entities/publication/4b3f9d1c-4b24-48af-a6ae-06dd4facdbae

SURAI, P. F. Silymarin as a natural antioxidant: an overview of the current evidence and perspectives. Antioxidants, v. 4, n. 1, p. 204–247, 2015. https://doi.org/10.3390/antiox4010204

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Efeitos terapêuticos da lavanda na aromaterapia em cães e gatos: revisão integrativa de literatura

Letícia Queiroz dos Santos; Luísa de Castro Silva; Mel Pesseti Marcondes; Samara dos Santos Silva Sampaio; Vitoria Aparecida Galhardo Calazans da Costa e Yasmim Mello Rodrigues – Acadêmicas de Medicina Veterinária - Universidade de Taubaté

Profª. Angela Akamatsu - Universidade de Taubaté

RESUMO

A aromaterapia tem se destacado como abordagem complementar na Medicina Veterinária, especialmente no manejo comportamental e na promoção do bem-estar de cães e gatos. Essa prática utiliza óleos essenciais extraídos de plantas aromáticas, capazes de influenciar respostas fisiológicas e emocionais por meio da estimulação do sistema olfativo e do sistema límbico. O presente trabalho teve como objetivo reunir e discutir, por meio de revisão de literatura, os efeitos da utilização de óleos essenciais em cães e gatos, com ênfase no óleo essencial de Lavandula angustifolia, no controle do estresse, ansiedade e modulação do comportamento. A metodologia consistiu em revisão bibliográfica descritiva e qualitativa, baseada na análise de artigos científicos, revisões sistemáticas, dissertações e livros publicados entre 2010 e 2025, obtidos em bases como PubMed, ScienceDirect, Google Acadêmico e NCBI Bookshelf. Os estudos analisados demonstraram que a lavanda está associada à redução de sinais comportamentais e fisiológicos de estresse, incluindo diminuição da agitação, vocalização excessiva e atividade locomotora, além do aumento do tempo de repouso em cães. Entretanto, observou-se grande variabilidade metodológica entre os estudos, principalmente quanto às concentrações, formas de aplicação e tempo de exposição. Conclui-se que os óleos essenciais apresentam potencial como estratégia complementar no manejo do estresse animal, podendo contribuir para o bem-estar e para a prática clínica veterinária. Contudo, ainda são necessários estudos adicionais e maior padronização dos protocolos de uso para garantir segurança e eficácia.

1.  INTRODUÇÃO

Nos últimos anos, observa-se um crescimento significativo no interesse por terapias complementares na medicina veterinária, especialmente aquelas voltadas à promoção do bem-estar animal (FREEMAN et al., 2019; AHN; KIM, 2024). Dentre essas abordagens, a aromaterapia destaca-se pelo uso de óleos essenciais extraídos de plantas, os quais apresentam propriedades terapêuticas capazes de influenciar respostas comportamentais e fisiológicas dos animais (AROMATHERAPY…, 2025; ESSENTIAL OILS…, 2024).

A crescente preocupação com o estresse em animais domésticos, particularmente em ambientes clínicos veterinários, tem impulsionado a busca por métodos que minimizem respostas negativas durante procedimentos como consultas, exames e internações (FRONTIERS IN VETERINARY SCIENCE, 2020). O estresse pode desencadear alterações comportamentais e fisiológicas, incluindo aumento da frequência cardíaca, liberação de cortisol e respostas de medo, o que pode comprometer tanto o bem-estar animal quanto a qualidade do atendimento clínico (INHALATION…, 2022).

Nesse contexto, a aromaterapia surge como uma alternativa não invasiva, que atua principalmente por meio da inalação de compostos voláteis capazes de estimular o sistema olfativo e, consequentemente, o sistema límbico, região do cérebro responsável pelo controle das emoções e respostas ao estresse (ELSEVIER, 2026; ESSENTIAL OILS…, 2015). Estudos recentes têm demonstrado que determinados óleos essenciais, como o de Lavandula angustifolia, apresentam efeitos ansiolíticos, promovendo relaxamento e redução de sinais de estresse em cães (CAVANAGH; WILKINSON, 2002; SAYORWAN et al., 2012; GRAHAM; WELLS; HEPER, 2005).

Entretanto, apesar dos benefícios relatados, o uso da aromaterapia na medicina veterinária ainda apresenta limitações, especialmente no que se refere à padronização de protocolos e à segurança em diferentes espécies, como os gatos, que possuem particularidades metabólicas que aumentam o risco de toxicidade (COURT, 2010; BISCHOFF; GUALTIERI, 2018; KHAN et al., 2016).

2.  DESENVOLVIMENTO

2.1  Mecanismos de ação e sistema olfativo

A aromaterapia baseia-se na utilização de compostos voláteis presentes nos óleos essenciais, cujos efeitos ocorrem principalmente por meio da via olfatória (ESSENTIAL OILS…, 2024; ELSEVIER, 2026). Após a inalação, essas moléculas são captadas pelo epitélio olfatório, onde interagem com receptores específicos e são convertidas em impulsos nervosos. Esses sinais são então transmitidos ao bulbo olfatório, responsável pelo processamento inicial das informações odoríferas, e posteriormente encaminhados ao sistema límbico, especialmente à amígdala e ao hipocampo, regiões diretamente relacionadas à regulação das emoções, memória e comportamento (INHALATION…, 2022).

Essa conexão direta entre o sistema olfatório e estruturas límbicas permite que os estímulos odoríferos desencadeiem respostas rápidas e, em grande parte, inconscientes, influenciando tanto o estado emocional quanto respostas fisiológicas. Nesse contexto, a aromaterapia tem sido associada à modulação do sistema nervoso autônomo, promovendo redução da atividade simpática — relacionada ao estresse — e aumento da atividade parassimpática, responsável por respostas de relaxamento. Como consequência, observam-se efeitos como diminuição da frequência cardíaca, redução da ansiedade e sensação de bem-estar (SAYORWAN et al., 2012; AROMATHERAPY…, 2025).

Além da ativação dessas estruturas cerebrais, os óleos essenciais também atuam na modulação de neurotransmissores no sistema nervoso central. Compostos como o linalol, presente em óleos como o de lavanda, exercem ação sobre o sistema GABAérgico, considerado o principal sistema inibitório do cérebro, promovendo aumento da atividade do GABA e redução da excitabilidade neuronal, o que resulta em efeitos ansiolíticos e sedativos (LINCK et al., 2009; CAVANAGH; WILKINSON, 2002). Paralelamente, há evidências de redução da atividade de neurotransmissores excitatórios, como o glutamato, contribuindo para o equilíbrio entre estímulos excitatórios e inibitórios (ESSENTIAL OILS…, 2024). Também se observa modulação indireta do sistema serotoninérgico, associado à regulação do humor e do bem-estar (AROMATHERAPY…, 2025).

Outro mecanismo relevante envolve a atuação sobre o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA), responsável pela resposta fisiológica ao estresse. A exposição a óleos essenciais pode reduzir a ativação desse eixo, levando à diminuição da liberação de cortisol e, consequentemente, à atenuação das respostas ao estresse e à manutenção da homeostase (INHALATION…, 2022).

2.2  Mecanismos neurológicos e fisiológicos

Além da modulação do sistema GABAérgico, evidências experimentais demonstram que o linalol, um dos principais componentes do óleo essencial de lavanda, também atua sobre o sistema glutamatérgico, responsável pela principal via excitatória do sistema nervoso central (CAVANAGH; WILKINSON, 2002; ESSENTIAL OILS…, 2024).

Estudos in vitro conduzidos por Elisabetsky et al. demonstraram que o linalol é capaz de inibir a liberação de glutamato em preparações neuronais. Nesse trabalho, foram utilizados modelos experimentais com tecido nervoso exposto a estímulos despolarizantes, e observou-se que a presença do linalol reduziu significativamente a liberação de neurotransmissores excitatórios, sugerindo ação pré-sináptica direta (ELISABETSKY et al., 1995).

Posteriormente, Re et al. (2000) investigaram os efeitos do linalol sobre a neurotransmissão glutamatérgica e demonstraram que sua ação está associada à modulação de canais de cálcio dependentes de voltagem. Nesse estudo, foi observado que o linalol reduziu o influxo de íons cálcio (Ca²⁺) nos terminais pré-sinápticos, mecanismo essencial para a liberação de glutamato, levando à diminuição da transmissão excitatória (RE et al., 2000).

Além disso, evidências obtidas por Linck et al. (2009) indicam que o linalol também exerce efeitos sobre receptores glutamatérgicos do tipo NMDA. Em modelos experimentais com roedores, os autores observaram que a administração de linalol resultou em redução da excitabilidade neuronal e em efeitos comportamentais compatíveis com ação ansiolítica, como diminuição da atividade locomotora e aumento do tempo em áreas seguras em testes como o labirinto em cruz elevado (LINCK et al., 2009).

2.3  Aplicações veterinárias e efeitos da lavanda

A aromaterapia tem sido utilizada na medicina veterinária como abordagem complementar no manejo do estresse e da ansiedade em animais, especialmente em cães. Sua aplicação está relacionada à capacidade dos compostos voláteis dos óleos essenciais de influenciar o comportamento e respostas fisiológicas por meio da estimulação do sistema olfativo, previamente descrito (FRONTIERS IN VETERINARY SCIENCE, 2020; FREEMAN et al., 2019).

A via inalatória é considerada a principal forma de uso na prática veterinária, por ser menos invasiva e permitir exposição controlada aos compostos voláteis (ESSENTIAL OILS…, 2015). Nessa abordagem, os óleos essenciais são introduzidos no ambiente por meio de difusores ou aplicação em materiais próximos ao animal, como tecidos, algodões ou superfícies, permitindo exposição indireta.

Um dos estudos mais relevantes nessa área foi conduzido por Graham, Wells e Heper (2005)., no qual foram avaliados os efeitos da exposição a diferentes óleos essenciais no comportamento de cães. Nesse experimento, os animais foram mantidos em um ambiente controlado e expostos a odores específicos, incluindo lavanda, camomila, hortelã e alecrim, durante períodos determinados. A difusão dos óleos foi realizada no ambiente, permitindo exposição indireta. Os pesquisadores observaram que, durante a exposição à lavanda, houve redução significativa da atividade locomotora e aumento do tempo de repouso, indicando efeito calmante (GRAHAM; WELLS; HEPER, 2005). Em contraste, odores como hortelã e alecrim estiveram associados ao aumento da atividade, sugerindo efeito estimulante.

De forma semelhante, Wells avaliou o impacto de estímulos olfativos no comportamento de cães mantidos em canis. Nesse estudo, os odores foram introduzidos por meio de materiais impregnados e posicionados no ambiente dos animais, sendo cada estímulo apresentado por períodos controlados. O comportamento foi avaliado por observação direta, incluindo parâmetros como vocalização, movimentação e postura. Os resultados demonstraram que a lavanda esteve associada à redução de vocalizações e comportamentos relacionados ao estresse, como agitação e movimentação excessiva (WELLS, 2004; WELLS, 2006).

2.4  Dosagem, segurança e limitações

A determinação de dosagens adequadas para o uso de óleos essenciais na aromaterapia representa um dos principais desafios para sua aplicação clínica, especialmente na medicina veterinária. Diferentemente de fármacos convencionais, os óleos essenciais não possuem protocolos padronizados amplamente estabelecidos, sendo comum a variação entre estudos quanto às concentrações, volumes utilizados, tempo de exposição e forma de administração (POSADZKI; ALOTAIBI; ERNST, 2012; HAVERBEKE et al., 2024).

Em humanos, estudos experimentais frequentemente utilizam concentrações baixas e controladas. No estudo conduzido por Sayorwan et al., voluntários saudáveis foram submetidos à aplicação de óleo essencial de lavanda por meio de massagem aromática. Nesse experimento, o óleo foi diluído em uma base vegetal em concentrações próximas a 2% e aplicado na pele durante sessões de aproximadamente 30 minutos. Os pesquisadores avaliaram parâmetros fisiológicos antes e após a intervenção, incluindo frequência cardíaca, pressão arterial e variabilidade da frequência cardíaca. Os resultados demonstraram redução da frequência cardíaca e aumento da atividade parassimpática, sugerindo efeito relaxante sistêmico (SAYORWAN et al., 2012).

Embora os óleos essenciais sejam frequentemente considerados produtos naturais, seu uso não é isento de riscos, especialmente quando não há controle adequado da dose e da forma de aplicação (BISCHOFF; GUALTIERI, 2018; KHAN et al., 2016).

Entre os principais efeitos adversos descritos estão irritação cutânea, reações alérgicas, toxicidade sistêmica e, em alguns casos, efeitos neurológicos, como depressão do sistema nervoso central ou, em situações de exposição excessiva, excitação paradoxal (POSADZKI; ALOTAIBI; ERNST, 2012).

2.5  Outras essências

Além do óleo essencial de lavanda, diversos outros óleos essenciais são utilizados na aromaterapia, apresentando diferentes propriedades terapêuticas de acordo com sua composição química (ESSENTIAL OILS…, 2024). Esses óleos podem exercer efeitos calmantes, estimulantes ou moduladores do sistema nervoso central, sendo empregados tanto em humanos quanto na medicina veterinária

Entre os óleos essenciais com propriedades calmantes, destaca-se o óleo essencial de camomila, amplamente associado à redução da ansiedade e indução de relaxamento. Seus efeitos estão relacionados à presença de compostos como o bisabolol e flavonoides, que podem atuar na modulação do sistema nervoso central, contribuindo para a diminuição da excitabilidade neuronal (AROMATHERAPY…, 2025).

Por outro lado, alguns óleos essenciais apresentam propriedades estimulantes. O óleo essencial de hortelã-pimenta, rico em mentol, está associado ao aumento do estado de alerta e à estimulação cognitiva. Estudos indicam que sua inalação pode promover aumento da atividade mental e da atenção, sendo utilizado em contextos que exigem maior desempenho cognitivo (ESSENTIAL OILS…, 2024).

De forma semelhante, o óleo essencial de alecrim tem sido relacionado a efeitos estimulantes sobre o sistema nervoso central. Seus principais componentes, como o 1,8-cineol, estão associados à melhora da memória e da concentração. Em estudos experimentais, a exposição ao aroma de alecrim demonstrou efeitos positivos sobre o desempenho cognitivo e o estado de alerta (AROMATHERAPY…, 2025).

2.6  Material e métodos

O presente trabalho consiste em uma revisão de literatura de caráter descritivo, com objetivo de analisar os efeitos da aromaterapia, com ênfase no óleo essencial de lavanda, na medicina veterinária.

A coleta de dados foi realizada por meio de busca em bases científicas, incluindo PubMed, SciELO e Google Scholar. Foram utilizados descritores como “aromaterapia”, “óleo essencial de lavanda”, “linalol”, “ansiedade”, “cães” e “medicina veterinária”, em português e inglês.

Foram incluídos artigos científicos publicados preferencialmente nos últimos anos, que abordassem os mecanismos de ação, aplicações, dosagens e efeitos dos óleos essenciais em humanos e animais. Também foram considerados estudos clássicos relevantes para a compreensão do tema.

Como critérios de exclusão, foram descartados trabalhos que não apresentavam relação direta com o tema, artigos duplicados e publicações sem respaldo científico adequado.

A busca por materiais científicos foi realizada em bases de dados eletrônicas nacionais e internacionais, sendo eles: PubMed (National Library of Medicine), NCBI Bookshelf, ScienceDirect, Repositório Institucional do Centro Paula Souza (RIC-CPS) e Google Acadêmico. Essas plataformas foram escolhidas por reunirem publicações revisadas por pares e literatura científica relevante sobre o uso terapêutico dos óleos essenciais.

As informações extraídas foram analisadas de forma descritiva e integrativa, com o objetivo de sintetizar o conhecimento disponível sobre os efeitos e benefícios da aromaterapia, especialmente com o uso do óleo essencial de lavanda, tanto em humanos quanto em animais. Em vez de organizar os dados em tabelas ou categorias temáticas, optou-se por uma abordagem narrativa, na qual os resultados de cada estudo foram apresentados, estabelecendo relações entre os achados.

Essa análise permitiu compreender de forma ampla os potenciais efeitos calmantes, ansiolíticos e terapêuticos da aromaterapia, além de discutir suas aplicações práticas e limitações relatadas na literatura, contemplando aspectos fisiológicos, comportamentais e terapêuticos. A síntese final foi estruturada de modo a correlacionar os resultados obtidos em humanos com as aplicações na medicina veterinária, destacando as potencialidades da aromaterapia para promover o bem-estar e equilíbrio emocional dos animais.

3.  CONCLUSÃO

A análise crítica da literatura evidencia que a aromaterapia, com destaque para o uso do óleo essencial de lavanda (Lavandula angustifolia), apresenta potencial relevante como abordagem complementar na modulação do comportamento e na redução do estresse, tanto em humanos quanto na medicina veterinária. Os efeitos observados ao longo dos estudos analisados demonstram consistência, especialmente no que se refere à redução da ansiedade, promoção de relaxamento e alterações em parâmetros fisiológicos associados à atividade do sistema nervoso autônomo.

Do ponto de vista mecanístico, os achados sugerem que tais efeitos estão diretamente relacionados à ação dos principais constituintes da lavanda, como o linalol e o acetato de linalila, que atuam sobre o sistema nervoso central por meio da modulação de sistemas neurotransmissores, incluindo o sistema GABAérgico e, possivelmente, o sistema glutamatérgico. Essa atuação contribui para a redução da excitabilidade neuronal e para o equilíbrio entre vias excitatórias e inibitórias, refletindo-se em respostas comportamentais e fisiológicas compatíveis com estados de relaxamento e diminuição do estresse.

No entanto, apesar da coerência geral dos resultados, a análise dos estudos evidencia limitações importantes que devem ser consideradas. Observa-se uma significativa heterogeneidade metodológica, especialmente no que diz respeito às formas de aplicação, tempo de exposição e, principalmente, às dosagens utilizadas. Em muitos estudos, sobretudo na medicina veterinária, a administração ocorre por via inalatória indireta, sem controle preciso da concentração efetivamente absorvida pelos animais, o que dificulta a padronização dos protocolos e a reprodutibilidade dos resultados.

Além disso, a extrapolação dos dados obtidos em humanos para animais deve ser realizada com cautela, uma vez que existem diferenças marcantes no sistema olfativo entre as espécies. Cães, por exemplo, apresentam número significativamente maior de receptores olfatórios e maior sensibilidade a compostos voláteis, o que implica que concentrações consideradas baixas para humanos podem representar estímulos intensos para esses animais. Essa particularidade reforça a necessidade de abordagens específicas para cada espécie, evitando generalizações inadequadas.

Outro ponto relevante refere-se à segurança do uso dos óleos essenciais. Embora a lavanda seja frequentemente descrita como segura, a ausência de padronização nas concentrações e formas de uso pode resultar em riscos potenciais, especialmente em aplicações tópicas sem diluição adequada ou em casos de exposição prolongada. Dessa forma, a utilização desses compostos deve ser conduzida de maneira criteriosa, considerando fatores individuais e respeitando limites de segurança.

Adicionalmente, observa-se que muitos estudos apresentam limitações metodológicas, como tamanhos amostrais reduzidos, ausência de grupos controle rigorosos e dificuldade na mensuração objetiva da dose efetivamente administrada. Esses fatores impactam diretamente a qualidade das evidências disponíveis e reforçam a necessidade de pesquisas mais robustas, com delineamentos experimentais padronizados e controle mais preciso das variáveis envolvidas.

Diante desse contexto, conclui-se que a aromaterapia com óleo essencial de lavanda apresenta potencial promissor como ferramenta auxiliar no manejo do estresse e de alterações comportamentais, incluindo sua aplicação na medicina veterinária. No entanto, sua utilização clínica ainda se encontra limitada pela falta de padronização dos protocolos e pela escassez de estudos mais aprofundados, especialmente em animais.

Portanto, torna-se fundamental o desenvolvimento de novas pesquisas que estabeleçam parâmetros claros e reprodutíveis, especialmente no que se refere às dosagens, formas de aplicação e avaliação de segurança. Somente com o avanço do conhecimento científico será possível consolidar o uso da aromaterapia como prática terapêutica baseada em evidências, garantindo maior eficácia e segurança na sua aplicação tanto em humanos quanto na medicina veterinária.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AHN, J. H.; KIM, M.Effects of aromatherapy on anxiety in patients with cancer: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. European Journal of Integrative Medicine, v. 65, p. 102323, 2024.

AROMATHERAPY: physiological and clinical effects. Complementary Therapies in Medicine, 2025. Disponível em: https://www.sciencedirect.com.Acesso em: 18 abr. 2026.

BISCHOFF, K.; GUALTIERI, A. Toxicity of essential oils in pets. Veterinary Medicine: Research and Reports, v. 9, p. 145–156, 2018. Disponível em: https://www.dovepress.com. Acesso em: 18 abr. 2026. 

CAVANAGH, H. M. A.; WILKINSON, J. M. Biological activities of lavender essential oil. Phytotherapy Research, v. 16, n. 4, p. 301–308, 2002. Disponível em: https://doi.org/10.1002/ptr.1103 Acesso em: 05 maio 2026.

CLINICAL       effects       of        aromatherapy. PubMed       Central       (PMC),  2020. Disponível   em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/ Acesso em: 18 abr. 2026.

COURT, M. H. Feline drug metabolism and glucuronidation deficiency. American Journal of Veterinary Research, v. 71, n. 12, p. 1449–1456, 2010. Disponível em: https://doi.org/10.2460/ajvr.71.12.1449 Acesso em: 18 abr. 2026.

ELSEVIER. Volatilization. Science Direct Topics. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/topics/biochemistry-genetics-and-molecular-biology/volatilization Acesso em: 7 abr. 2026.

ESSENTIAL oils for clinical aromatherapy: mechanisms and evidence-based use. Journal of Ethnopharmacology, 2024. Disponível em: https://www.sciencedirect.comAcesso em: 18 abr. 2026.

ESSENTIAL oils used in aromatherapy: methods of application. Asian Pacific Journal of Tropical Biomedicine, 2015. Disponível em: https://www.sciencedirect.com Acesso em: 18 abr. 2026.

FERNANDES, A. J. B. Efeito do óleo essencial de Lavandula angustifolia no bem-estar de cães durante exame clínico. 2024. 96 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Veterinárias) — Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Seropédica, 2024.

FREEMAN, M. et al. Aromatherapy and Essential Oils: A Map of the Evidence.Washington (DC): Department of Veterans Affairs, 2019. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/ Acesso em: 18 abr. 2026.

FRONTIERS IN VETERINARY SCIENCE. Use of essential oils in veterinary medicine: benefits and risks. Frontiers in Veterinary Science, 2020. Disponível em: https://www.frontiersin.org Acesso em: 18 abr. 2026.

GRAHAM, L.; WELLS, D. L.; HEPER, P. G.The influence of olfactory stimulation on the behaviour of dogs housed in a rescue shelter. Applied Animal Behaviour Science, v. 91, n. 1–2, p. 143–153, 2005. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.applanim.2004.08.006 Acesso em: 05 maio 2026.

HAVERBEKE, A. et al.Dose-dependent responses: a preliminary investigation into the olfactory effects of essential oil concentrations on canine behavior. Veterinary Research Communications, v. 48, p. 3387–3396, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.1007/s11259-024-10123-0 Acesso em: 18 abr. 2026.

INHALATION    aromatherapy    and    brain    pathways. PubMed    Central    (PMC), 2022. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/ Acesso em: 18 abr. 2026.

KHAN, S. A. et al. Essential oil toxicosis in dogs and cats. Journal of Veterinary Emergency and Critical Care, v. 26, n. 6, p. 793–804, 2016. Disponível em: https://doi.org/10.1111/vec.12448 Acesso em: 18 abr. 2026.

LEHRNER, J. et al. Ambient odors of orange and lavender reduce anxiety and improve mood in a dental office. Physiology & Behavior, v. 86, n. 1–2, p. 92–95, 2005. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.physbeh.2005.06.031 Acesso em: 05 maio 2026.

LINCK, V. M. et al. Inhaled linalool-induced sedation in mice. Phytomedicine, v. 16, n. 4, p. 303–307, 2009. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.phymed.2007.04.007 Acesso em: 05 maio 2026. 

MERCK & CO., INC. Toxicoses from essential oils in animals. MSD Veterinary Manual. Disponível em: https://www.msdvetmanual.com/toxicology/toxicoses-from-household-hazards/toxicoses-from-essential-oils-in-animals Acesso em: 7 abr. 2026. 

POSADZKI, P.; ALOTAIBI, A.; ERNST, E.Adverse effects of aromatherapy: a systematic review of case reports. Evidence-Based Complementary and Alternative Medicine, 2012, p. 1–10. Disponível em: https://doi.org/10.1155/2012/569410 Acesso em: 18 abr. 2026. 

SAYORWAN, W. et al.The effects of lavender oil inhalation on emotional states, autonomic nervous system, and brain electrical activity. Journal of the Medical Association of Thailand, v. 95, n. 4, p. 598–606, 2012. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22550886/ Acesso em: 05 maio 2026.

SILVA, C. D. M.; BRAGATTO, H. D.; OLIVEIRA, J. T. S.Utilização de óleos essenciais para repelir o carrapato Rhipicephalus sanguineus. Centro Paula Souza, São Paulo, 2019.

WELLS, D. L.A review of environmental enrichment for kennelled dogs, Canis familiaris. Applied Animal Behaviour Science, v. 85, p. 307–317, 2004. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.applanim.2003.11.005 Acesso em: 05 maio 2026.

WELLS, D. L.Aromatherapy for travel-induced excitement in dogs. Journal of the American Veterinary Medical Association, v. 229, n. 6, p. 964–967, 2006. Disponível em: https://doi.org/10.2460/javma.229.6.964 Acesso em: 18 abr. 2026.