• Ana Julia Perrenoud - Medicina Veterinária - Universidade de Taubaté
• Mariana Silva Modesto de Almeida - Medicina Veterinária - Universidade de Taubaté
• Nicole da Silva de Oliveira - Medicina Veterinária - Universidade de Taubaté
• Stephani Christine Ferreira Espindola - Medicina Veterinária - Universidade de Taubaté
• Vitoria Mayara Costa dos Santos Pereira - Medicina Veterinária - Universidade de Taubaté
ORIENTADOR / DOCENTE:
Marcos Roberto Furlan - Departamento de Ciências Agrárias - Universidade de Taubaté
RESUMO
O estresse e a ansiedade são alterações
comportamentais frequentes em cães, podendo comprometer significativamente seu
bem-estar e qualidade de vida. Este trabalho teve como objetivo geral avaliar o
potencial do uso da Matricaria chamomilla
L. (camomila) como alternativa complementar no manejo do estresse em cães.
Especificamente, buscou-se descrever seus principais compostos bioativos e
possíveis mecanismos de ação, bem como analisar as evidências científicas
disponíveis sobre seus efeitos ansiolíticos e sua aplicabilidade na medicina
veterinária. A revisão bibliográfica foi realizada mediante consulta a artigos
científicos e bases de dados consolidadas, considerando estudos relacionados à
fitoterapia, ansiedade, manejo do estresse e comportamento animal.
1. INTRODUÇÃO
O estresse constitui uma resposta
fisiológica e comportamental complexa diante de estímulos estressores que
alteram a homeostase do organismo. Em cães, essa condição é frequentemente
desencadeada por mudanças ambientais, transporte, isolamento social, procedimentos
veterinários e alterações na rotina diária. O manejo adequado do estresse é
fundamental para preservar a saúde física, o bem-estar e a qualidade de vida
dos animais de companhia.
Nesse contexto, o emprego de plantas
medicinais e abordagens fitoterápicas como alternativas ou integrativas aos
tratamentos convencionais vem ganhando crescente relevância na medicina
veterinária. Entre as espécies vegetais estudadas, destaca-se a Matricaria chamomilla L. (camomila),
reconhecida historicamente por conter compostos bioativos com potenciais
propriedades ansiolíticas, sedativas e moduladoras do sistema nervoso central.
Estudos clínicos e experimentais indicam que flavonoides presentes na planta
atuam na redução de sintomas de ansiedade, demonstrando promissora atividade
farmacológica (AMSTERDAM et al., 2009).
Diante do exposto, o presente trabalho
busca responder ao seguinte problema de pesquisa: a Matricaria chamomilla L. apresenta potencial efetivo e seguro como
alternativa complementar no manejo do estresse em cães? Para responder a essa
questão, realiza-se uma revisão bibliográfica aprofundada sobre os principais
constituintes químicos da planta, seus mecanismos de ação e seus efeitos
comportamentais e fisiológicos. Adicionalmente, analisam-se as evidências
disponíveis e as limitações dos estudos específicos em caninos, contribuindo
para uma avaliação criteriosa de sua aplicabilidade clínica.
2. DESENVOLVIMENTO
A camomila é uma das plantas medicinais
mais difundidas mundialmente, sendo amplamente empregada na medicina humana
para o alívio da insônia, ansiedade e quadros depressivos leves. No universo
botânico, duas espécies principais destacam-se pelo valor terapêutico: a Anthemis nobilis L. (camomila-romana) e
a Matricaria recutita L. (sinônimo de
Matricaria chamomilla L., conhecida
como camomila-alemã), sendo esta última a mais estudada e expressiva quanto ao
perfil farmacológico (AMSTERDAM et al., 2012).
Conforme descrito por Lim (2014) e Santos
et al. (2019), a espécie pode ser utilizada sob diferentes formas
farmacêuticas, como infusões, óleos essenciais extraídos das inflorescências e
folhas, extratos secos, cápsulas e formulações dermatológicas. A planta possui
um amplo espectro de propriedades terapêuticas, incluindo ações calmante,
sedativa leve, antioxidante, cicatrizante, antiespasmódica, anti-inflamatória,
antidiarreica, antisséptica, antimicrobiana, além de potencial atividade
anti-helmíntica e antidepressiva.
2.1 Composição Química e Mecanismos de Ação
Aproximadamente 120 metabólitos
secundários já foram identificados na camomila. O óleo essencial, que
compreende a fração volátil, é rico em compostos sesquiterpênicos como o
α-bisabolol e seus óxidos, além de azulenos (como o chamazuleno). Juntamente com
os óleos essenciais, os compostos da classe dos flavonoides — com destaque para
a apigenina, luteolina e quercetina — constituem os principais responsáveis
pelas ações farmacológicas observadas (COSTA; DONI FILHO, 2002).
Do ponto de vista neurofisiológico, a
resposta ao estresse em cães envolve a ativação neuroendócrina do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal
(HHA), culminando no aumento da secreção de cortisol plasmático. A apigenina e
outros flavonoides presentes na camomila possuem afinidade por receptores
GABA_A no sistema nervoso central, exercendo um efeito modulador ansiolítico e
sedativo que reduz a excitabilidade neuronal e auxilia na atenuação da resposta
ao estresse (AKRAM et al., 2024).
2.2 Evidências Clínicas e Experimentais em Cães
Na medicina veterinária, estudos
específicos em cães têm demonstrado resultados promissores. Cassu, Andreazi e
Pereira (2011) avaliaram 18 cadelas submetidas a procedimentos cirúrgicos e
tratadas com placebo ou Matricaria
chamomilla na potenciação ultradiluída (CH12). Embora não tenham sido
observadas variações significativas nas concentrações de cortisol durante a
fase de isolamento social prévio, no período pós-operatório os animais tratados
com M. chamomilla CH12 apresentaram
níveis de cortisol consideravelmente mais estáveis em comparação ao grupo
placebo. Os autores concluíram que o tratamento preveniu a elevação acentuada
do cortisol pós-cirúrgico, sugerindo seu valor como adjuvante no controle do
estresse cirúrgico.
Além da administração oral/homeopática, a
estimulação olfativa também apresenta efeitos comportamentais relevantes.
Graham, Wells e Hepper (2005) observaram que a exposição ao odor de camomila em
cães abrigados em canis de proteção animal resultou em aumento significativo
nos tempos de repouso, acompanhado da redução da atividade motora excessiva e
das vocalizações estressantes.
2.3 Aspectos Toxicológicos e Segurança
Apesar dos benefícios fitoterápicos, o uso
da camomila requer cautela. A American
Society for the Prevention of Cruelty to Animals (ASPCA) classifica a
camomila como potencialmente tóxica para cães e gatos se consumida de forma
inadequada ou em doses elevadas, podendo provocar distúrbios gastrintestinais
(vômitos, diarreia), dermatites de contato e reações alérgicas (ASPCA, [s.d.]).
Estudos toxicológicos pré-clínicos com o
α-bisabolol, um dos constituintes majoritários do óleo essencial, estabeleceram
parâmetros de segurança em modelos experimentais. A Dose Letal 50% (DL₅₀) por
via oral foi de 15,1 mL/kg em camundongos e de 14,9 mL/kg em ratos,
observando-se sinais de sedação, ataxia, dispneia e apatia apenas sob elevadas
concentrações. Na avaliação de toxicidade subclínica (28 dias de
administração), o Nível Sem Efeito Adverso Observável (NOAEL - No Observed Adverse Effect Level) foi fixado
em 200 mg/kg/dia, indicando ampla margem de segurança e boa tolerabilidade
biológica quando administrado em doses adequadas (EDDIN et al., 2022).
3. CONCLUSÃO
As evidências científicas compiladas
indicam que a Matricaria chamomilla
L. possui um potencial promissor como alternativa complementar no manejo da
ansiedade e do estresse em cães. Seus compostos bioativos, especialmente os
flavonoides (como a apigenina) e os componentes do óleo essencial, demonstram
capacidade de modular respostas neuroendócrinas, atenuando a elevação do
cortisol e promovendo estados de relaxamento comportamental.
No entanto, ressalta-se que o corpo de
evidências clínicas específicas para a espécie canina ainda é restrito,
exigindo maior padronização em relação às posologias, vias de administração e
margens de segurança toxicológica. Portanto, a camomila deve ser empregada como
uma ferramenta terapêutica integrativa ou adjuvante, nunca substituindo as
condutas médicas veterinárias convencionais e o manejo ambiental adequado,
devendo seu uso ser sempre acompanhado por um médico-veterinário.
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