Nathalia Chelotti de Araújo¹; Maria Julia Mendes Azevedo²; Julia Carmo de Paula³; Tiffany Ayumi Takao Nogueira⁴; Laura Borges Ramos Pinto⁵; Marcos Roberto Furlan⁶
RESUMO
A cistite bacteriana constitui uma das causas de doença do trato urinário inferior dos felinos, embora seja pouco frequente em gatos jovens e saudáveis. Este artigo tem como objetivo sintetizar os principais fatores predisponentes, agentes etiológicos, mecanismos de infecção, métodos diagnósticos e aspectos terapêuticos dessa afecção. Trata-se de uma revisão narrativa elaborada com base na literatura reunida para um trabalho de conclusão de curso. A ocorrência da infecção está associada ao comprometimento dos mecanismos de defesa do trato urinário, à presença de comorbidades e à instrumentação urinária. Entre os agentes envolvidos, destaca-se Escherichia coli, cujos fatores de virulência favorecem a adesão, a colonização e a persistência no uroepitélio. Como as manifestações clínicas se assemelham às de outras afecções urinárias, o diagnóstico requer a avaliação integrada da anamnese, do exame físico, da urinálise e da urocultura, interpretadas no contexto clínico. O teste de sensibilidade aos antimicrobianos auxilia na escolha do tratamento, enquanto a distinção entre cistite bacteriana e bacteriúria subclínica contribui para evitar prescrições desnecessárias. Conclui-se que a investigação microbiológica, associada à identificação e ao manejo dos fatores predisponentes, é fundamental para orientar a conduta terapêutica e promover o uso racional de antimicrobianos.
Palavras-chave: cistite bacteriana; felinos; Escherichia coli; urocultura; resistência antimicrobiana.
1. INTRODUÇÃO
As doenças do trato urinário inferior dos felinos (DTUIF) compreendem afecções de diferentes etiologias, entre as quais se destacam a cistite idiopática, a urolitíase, os tampões uretrais e as infecções bacterianas. Essas condições frequentemente apresentam manifestações clínicas semelhantes, o que dificulta sua diferenciação apenas pela avaliação dos sinais clínicos (Sousa et al., 2016).
A cistite bacteriana é pouco frequente em gatos jovens e saudáveis. Características da urina, como elevada concentração de solutos e ureia, associadas à integridade do uroepitélio e ao esvaziamento vesical, contribuem para dificultar a colonização bacteriana (Bíscaro, 2021). Entretanto, o comprometimento desses mecanismos de defesa, a presença de comorbidades e as intervenções no trato urinário podem favorecer o estabelecimento da infecção (Killian, 2022).
A semelhança entre os sinais de cistite bacteriana e os de outras DTUIF reforça a necessidade de investigação etiológica antes da instituição da antibioticoterapia. Nesse contexto, a urocultura e o teste de sensibilidade aos antimicrobianos são ferramentas importantes para fundamentar a conduta clínica e reduzir o uso inadequado desses medicamentos (Weese et al., 2019).
Este artigo tem como objetivo sintetizar os fatores predisponentes e os aspectos etiológicos, fisiopatológicos, diagnósticos e terapêuticos da cistite bacteriana felina, com ênfase no uso racional de antimicrobianos.
2. DESENVOLVIMENTO
2.1. Fatores predisponentes e agentes etiológicos
A ocorrência de cistite bacteriana está associada à idade, ao sexo, à presença de comorbidades e às alterações anatômicas ou funcionais do trato urinário. Gatos idosos, especialmente aqueles com mais de dez anos, fêmeas e animais com condições que comprometem as defesas urinárias apresentam maior suscetibilidade à infecção (Bernardo; Vargas; Almeida, 2022).
A retenção urinária, a presença de urólitos e a sondagem uretral também podem favorecer a colonização bacteriana e o desenvolvimento de infecções (Killian, 2022). Embora os machos apresentem maior predisposição à obstrução uretral em razão de suas características anatômicas, essa condição não deve ser interpretada como predisposição direta à cistite bacteriana. A obstrução e as intervenções necessárias ao seu tratamento, contudo, podem contribuir para o risco de infecção (Costa et al., 2022; Killian, 2022).
Entre os agentes isolados em infecções urinárias de felinos, destacam-se Escherichia coli, Enterococcus faecalis e Staphylococcus felis (Santa Rosa, 2010). Embora E. coli integre a microbiota intestinal, determinadas cepas extraintestinais, incluindo as uropatogênicas, apresentam fatores que possibilitam a colonização do trato urinário e o desenvolvimento de infecção (Soares, 2021).
A via ascendente constitui um importante mecanismo de infecção: bactérias presentes nas regiões perineal e periuretral podem alcançar a bexiga pela uretra, especialmente quando os mecanismos locais de defesa estão comprometidos (Killian, 2022).
2.2. Fisiopatologia e manifestações clínicas
O estabelecimento da infecção envolve a adesão bacteriana ao uroepitélio, a multiplicação dos microrganismos e o desencadeamento de uma resposta inflamatória na mucosa vesical. Cepas de E. coli uropatogênica, denominadas UPEC, podem apresentar fatores de virulência, como fímbrias, outras adesinas, toxinas e sistemas de aquisição de ferro, que favorecem a colonização e a persistência no hospedeiro (Soares, 2021; Souza, 2021).
Entre esses mecanismos, as fímbrias do tipo 1 podem mediar a adesão a receptores do uroepitélio, incluindo uroplacinas. Outras estruturas, como as fímbrias curli, podem contribuir para a adesão e a formação de biofilmes. Entretanto, a presença e a expressão desses fatores variam entre as cepas, não devendo ser consideradas características universais dos isolados de origem felina (Souza, 2021).
As manifestações clínicas incluem hematúria, polaciúria, disúria e estrangúria, podendo ocorrer alterações na coloração e no aspecto da urina (Killian, 2022). Esses sinais, entretanto, não são específicos de infecção bacteriana e também podem estar presentes na cistite idiopática, na urolitíase e em outras afecções do trato urinário inferior. Dessa forma, sua ocorrência, isoladamente, não justifica o diagnóstico de cistite bacteriana nem a prescrição de antimicrobianos (Iha, 2023; Weese et al., 2019).
2.3. Diagnóstico
O diagnóstico deve integrar anamnese, exame físico e exames complementares. A investigação deve considerar episódios urinários anteriores, comorbidades, uso prévio de antimicrobianos e procedimentos de instrumentação do trato urinário (Killian, 2022).
A urinálise permite avaliar a densidade e o pH urinários, além de identificar hematúria, piúria, bacteriúria e outras alterações do sedimento. Contudo, esses achados não confirmam, isoladamente, a etiologia bacteriana, e a ausência de alterações no sedimento não exclui completamente a infecção (Sousa et al., 2016; Weese et al., 2019).
Para a investigação microbiológica, recomenda-se, sempre que clinicamente viável, a coleta por cistocentese, preferencialmente antes do início da antibioticoterapia, por reduzir o risco de contaminação da amostra. A urocultura quantitativa permite identificar o microrganismo e mensurar o crescimento bacteriano, cuja interpretação deve considerar o método de coleta, o processamento da amostra e as manifestações clínicas (Killian, 2022; Weese et al., 2019).
O teste de sensibilidade aos antimicrobianos, também denominado antibiograma, avalia a suscetibilidade in vitro do isolado e auxilia na seleção do tratamento. Seus resultados devem ser interpretados segundo critérios laboratoriais apropriados e em conjunto com as características do paciente e da infecção (Weese et al., 2019).
É necessário distinguir a cistite bacteriana da bacteriúria subclínica, caracterizada pela identificação de bactérias na urocultura na ausência de sinais clínicos atribuíveis à infecção urinária. Uma cultura positiva, isoladamente, não estabelece o diagnóstico de cistite bacteriana nem determina a necessidade de antibioticoterapia (Weese et al., 2019).
A radiografia e a ultrassonografia podem complementar a investigação de urólitos e alterações estruturais. Entretanto, os achados de imagem não confirmam a etiologia bacteriana e devem ser interpretados em conjunto com os resultados clínicos e laboratoriais (Santa Rosa, 2010).
2.4. Tratamento e resistência antimicrobiana
A antibioticoterapia deve ser fundamentada, sempre que possível, nos resultados da urocultura e do teste de sensibilidade aos antimicrobianos. A escolha do medicamento também deve considerar a localização da infecção, as comorbidades, o histórico terapêutico e as características farmacológicas do agente selecionado (Soares, 2021; Weese et al., 2019).
A duração do tratamento deve ser individualizada conforme a apresentação clínica e a ocorrência de episódios esporádicos, reinfecções ou infecções persistentes. Nos casos recorrentes, é fundamental investigar as condições que favorecem a manutenção ou o restabelecimento da infecção, evitando a repetição empírica de antimicrobianos sem reavaliação diagnóstica (Weese et al., 2019).
O acompanhamento deve priorizar a evolução clínica. A repetição da urocultura pode ser indicada em situações específicas, especialmente diante de persistência ou recorrência dos sinais, mas um resultado positivo após a resolução clínica não implica, automaticamente, a necessidade de prolongar ou reiniciar a antibioticoterapia (Weese et al., 2019).
O uso inadequado de antimicrobianos favorece a seleção de microrganismos resistentes e pode restringir as opções terapêuticas. Segundo a definição internacional proposta por Magiorakos et al. (2012), a multirresistência corresponde à não suscetibilidade adquirida a pelo menos um agente de três ou mais categorias de antimicrobianos, respeitadas as particularidades do microrganismo e do painel avaliado.
A instrumentação urinária também exige atenção. O uso profilático rotineiro de antimicrobianos durante a manutenção de cateteres urinários não é recomendado como estratégia de prevenção de infecções, pois pode favorecer a seleção de bactérias resistentes. A prevenção deve enfatizar a técnica asséptica, o manejo adequado do sistema de drenagem e a redução do tempo de permanência do cateter ao período clinicamente necessário (Weese et al., 2019).
Além do tratamento da infecção, o manejo deve contemplar a identificação e a correção dos fatores predisponentes. Medidas de suporte, como estímulo à ingestão hídrica e adequação das condições ambientais e sanitárias, podem integrar a abordagem individualizada do paciente, sem substituir a investigação etiológica e a terapia específica quando indicada (Killian, 2022).
3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A cistite bacteriana é pouco frequente em gatos jovens e saudáveis, mas deve ser considerada especialmente em animais idosos, com comorbidades ou submetidos à instrumentação urinária. Como suas manifestações clínicas se assemelham às de outras doenças do trato urinário inferior, o diagnóstico exige avaliação integrada dos achados clínicos e laboratoriais.
A urocultura e o teste de sensibilidade aos antimicrobianos contribuem para direcionar a conduta terapêutica. Entretanto, seus resultados devem ser interpretados no contexto clínico, distinguindo-se a cistite bacteriana da bacteriúria subclínica, para evitar tratamentos desnecessários.
A identificação e o manejo dos fatores predisponentes, associados ao acompanhamento individualizado, são fundamentais para o controle da infecção, a redução de recorrências e a promoção do uso racional de antimicrobianos.
REFERÊNCIAS
BERNARDO, I. C. F.; VARGAS, M. E. B.; ALMEIDA, C. B. Doenças do trato urinário inferior dos felinos. Revista Científica Unilago, v. 1, n. 1, 2022.
BÍSCARO, I. S. Doença do trato urinário inferior dos felinos: aspectos etiológicos e abordagens terapêuticas. 2021. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Medicina Veterinária) – Centro Universitário do Sul de Minas, 2021.
COSTA, J. P. et al. Relação da orquiectomia com o desenvolvimento de afecções urinárias em felinos domésticos. Brazilian Journal of Animal and Environmental Research, v. 5, n. 4, p. 3583–3592, 2022.
IHA, L. N. Doença do trato urinário inferior de felinos (DTUIF) obstrutiva – dos sinais clínicos ao diagnóstico: revisão bibliográfica. 2023. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Medicina Veterinária) – Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Botucatu, 2023.
KILLIAN, L. F. S. Cistite bacteriana: uma abordagem com foco em diagnóstico, tratamento e resistência antimicrobiana – revisão de literatura. 2022. Trabalho de Conclusão de Curso – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, 2022.
MAGIORAKOS, A. P. et al. Multidrug-resistant, extensively drug-resistant and pandrug-resistant bacteria: an international expert proposal for interim standard definitions for acquired resistance. Clinical Microbiology and Infection, v. 18, n. 3, p. 268–281, 2012. DOI: 10.1111/j.1469-0691.2011.03570.x.
SANTA ROSA, L. S. de. Doença do trato urinário inferior felino. 2010. Trabalho acadêmico (Curso de Medicina Veterinária) – Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, Fundação Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Campo Grande, 2010.
SOARES, M. T. Caracterização de Escherichia coli uropatogênicas isoladas de cães e gatos. 2021. Dissertação (Mestrado Profissional em Clínicas Veterinárias) – Centro de Ciências Agrárias, Universidade Estadual de Londrina, Londrina, 2021.
SOUSA, G. A. S. de; MAIA, V.; ALVES, F. dos S.; PAZ, G. de M.; ANDRADE, M. B.; COELHO, N. das G. D. Doenças do trato urinário inferior dos felinos. Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, Belo Horizonte, n. 82, 2016.
SOUZA, H. D. F. de. Produção fenotípica de betalactamases de amplo espectro em Escherichia coli associada às infecções no trato urinário de cães, gatos e humanos. 2021. Dissertação (Mestrado em Medicina Veterinária) – Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Seropédica, 2021.
WEESE, J. S. et al. International Society for Companion Animal Infectious Diseases (ISCAID) guidelines for the diagnosis and management of bacterial urinary tract infections in dogs and cats. The Veterinary Journal, v. 247, p. 8–25, 2019. DOI: 10.1016/j.tvjl.2019.02.008.