quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Cistite bacteriana em felinos: fatores predisponentes, diagnóstico e abordagem terapêutica

Nathalia Chelotti de Araújo¹; Maria Julia Mendes Azevedo²; Julia Carmo de Paula³; Tiffany Ayumi Takao Nogueira⁴; Laura Borges Ramos Pinto⁵; Marcos Roberto Furlan⁶

¹ Graduanda em Medicina Veterinária, Universidade de Taubaté (UNITAU). E-mail: chelottinathalia@gmail.com
² Graduanda em Medicina Veterinária, Universidade de Taubaté (UNITAU). E-mail: mjmendes2004@gmail.com
³ Graduanda em Medicina Veterinária, Universidade de Taubaté (UNITAU). E-mail: jucarmo31@gmail.com
⁴ Graduanda em Medicina Veterinária, Universidade de Taubaté (UNITAU). E-mail: tiffanyayumitakao1710@gmail.com
⁵ Graduanda em Medicina Veterinária, Universidade de Taubaté (UNITAU). E-mail: lauraallvv@gmail.com
⁶ Mestre e doutor em Agronomia. Docente do curso de Medicina Veterinária da Universidade de Taubaté (UNITAU). E-mail: furlanagro@gmail.com

RESUMO

A cistite bacteriana constitui uma das causas de doença do trato urinário inferior dos felinos, embora seja pouco frequente em gatos jovens e saudáveis. Este artigo tem como objetivo sintetizar os principais fatores predisponentes, agentes etiológicos, mecanismos de infecção, métodos diagnósticos e aspectos terapêuticos dessa afecção. Trata-se de uma revisão narrativa elaborada com base na literatura reunida para um trabalho de conclusão de curso. A ocorrência da infecção está associada ao comprometimento dos mecanismos de defesa do trato urinário, à presença de comorbidades e à instrumentação urinária. Entre os agentes envolvidos, destaca-se Escherichia coli, cujos fatores de virulência favorecem a adesão, a colonização e a persistência no uroepitélio. Como as manifestações clínicas se assemelham às de outras afecções urinárias, o diagnóstico requer a avaliação integrada da anamnese, do exame físico, da urinálise e da urocultura, interpretadas no contexto clínico. O teste de sensibilidade aos antimicrobianos auxilia na escolha do tratamento, enquanto a distinção entre cistite bacteriana e bacteriúria subclínica contribui para evitar prescrições desnecessárias. Conclui-se que a investigação microbiológica, associada à identificação e ao manejo dos fatores predisponentes, é fundamental para orientar a conduta terapêutica e promover o uso racional de antimicrobianos.

Palavras-chave: cistite bacteriana; felinos; Escherichia coli; urocultura; resistência antimicrobiana.

1. INTRODUÇÃO

As doenças do trato urinário inferior dos felinos (DTUIF) compreendem afecções de diferentes etiologias, entre as quais se destacam a cistite idiopática, a urolitíase, os tampões uretrais e as infecções bacterianas. Essas condições frequentemente apresentam manifestações clínicas semelhantes, o que dificulta sua diferenciação apenas pela avaliação dos sinais clínicos (Sousa et al., 2016).

A cistite bacteriana é pouco frequente em gatos jovens e saudáveis. Características da urina, como elevada concentração de solutos e ureia, associadas à integridade do uroepitélio e ao esvaziamento vesical, contribuem para dificultar a colonização bacteriana (Bíscaro, 2021). Entretanto, o comprometimento desses mecanismos de defesa, a presença de comorbidades e as intervenções no trato urinário podem favorecer o estabelecimento da infecção (Killian, 2022).

A semelhança entre os sinais de cistite bacteriana e os de outras DTUIF reforça a necessidade de investigação etiológica antes da instituição da antibioticoterapia. Nesse contexto, a urocultura e o teste de sensibilidade aos antimicrobianos são ferramentas importantes para fundamentar a conduta clínica e reduzir o uso inadequado desses medicamentos (Weese et al., 2019).

Este artigo tem como objetivo sintetizar os fatores predisponentes e os aspectos etiológicos, fisiopatológicos, diagnósticos e terapêuticos da cistite bacteriana felina, com ênfase no uso racional de antimicrobianos.

2. DESENVOLVIMENTO

2.1. Fatores predisponentes e agentes etiológicos

A ocorrência de cistite bacteriana está associada à idade, ao sexo, à presença de comorbidades e às alterações anatômicas ou funcionais do trato urinário. Gatos idosos, especialmente aqueles com mais de dez anos, fêmeas e animais com condições que comprometem as defesas urinárias apresentam maior suscetibilidade à infecção (Bernardo; Vargas; Almeida, 2022).

A retenção urinária, a presença de urólitos e a sondagem uretral também podem favorecer a colonização bacteriana e o desenvolvimento de infecções (Killian, 2022). Embora os machos apresentem maior predisposição à obstrução uretral em razão de suas características anatômicas, essa condição não deve ser interpretada como predisposição direta à cistite bacteriana. A obstrução e as intervenções necessárias ao seu tratamento, contudo, podem contribuir para o risco de infecção (Costa et al., 2022; Killian, 2022).

Entre os agentes isolados em infecções urinárias de felinos, destacam-se Escherichia coli, Enterococcus faecalis e Staphylococcus felis (Santa Rosa, 2010). Embora E. coli integre a microbiota intestinal, determinadas cepas extraintestinais, incluindo as uropatogênicas, apresentam fatores que possibilitam a colonização do trato urinário e o desenvolvimento de infecção (Soares, 2021).

A via ascendente constitui um importante mecanismo de infecção: bactérias presentes nas regiões perineal e periuretral podem alcançar a bexiga pela uretra, especialmente quando os mecanismos locais de defesa estão comprometidos (Killian, 2022).

2.2. Fisiopatologia e manifestações clínicas

O estabelecimento da infecção envolve a adesão bacteriana ao uroepitélio, a multiplicação dos microrganismos e o desencadeamento de uma resposta inflamatória na mucosa vesical. Cepas de E. coli uropatogênica, denominadas UPEC, podem apresentar fatores de virulência, como fímbrias, outras adesinas, toxinas e sistemas de aquisição de ferro, que favorecem a colonização e a persistência no hospedeiro (Soares, 2021; Souza, 2021).

Entre esses mecanismos, as fímbrias do tipo 1 podem mediar a adesão a receptores do uroepitélio, incluindo uroplacinas. Outras estruturas, como as fímbrias curli, podem contribuir para a adesão e a formação de biofilmes. Entretanto, a presença e a expressão desses fatores variam entre as cepas, não devendo ser consideradas características universais dos isolados de origem felina (Souza, 2021).

As manifestações clínicas incluem hematúria, polaciúria, disúria e estrangúria, podendo ocorrer alterações na coloração e no aspecto da urina (Killian, 2022). Esses sinais, entretanto, não são específicos de infecção bacteriana e também podem estar presentes na cistite idiopática, na urolitíase e em outras afecções do trato urinário inferior. Dessa forma, sua ocorrência, isoladamente, não justifica o diagnóstico de cistite bacteriana nem a prescrição de antimicrobianos (Iha, 2023; Weese et al., 2019).

2.3. Diagnóstico

O diagnóstico deve integrar anamnese, exame físico e exames complementares. A investigação deve considerar episódios urinários anteriores, comorbidades, uso prévio de antimicrobianos e procedimentos de instrumentação do trato urinário (Killian, 2022).

A urinálise permite avaliar a densidade e o pH urinários, além de identificar hematúria, piúria, bacteriúria e outras alterações do sedimento. Contudo, esses achados não confirmam, isoladamente, a etiologia bacteriana, e a ausência de alterações no sedimento não exclui completamente a infecção (Sousa et al., 2016; Weese et al., 2019).

Para a investigação microbiológica, recomenda-se, sempre que clinicamente viável, a coleta por cistocentese, preferencialmente antes do início da antibioticoterapia, por reduzir o risco de contaminação da amostra. A urocultura quantitativa permite identificar o microrganismo e mensurar o crescimento bacteriano, cuja interpretação deve considerar o método de coleta, o processamento da amostra e as manifestações clínicas (Killian, 2022; Weese et al., 2019).

O teste de sensibilidade aos antimicrobianos, também denominado antibiograma, avalia a suscetibilidade in vitro do isolado e auxilia na seleção do tratamento. Seus resultados devem ser interpretados segundo critérios laboratoriais apropriados e em conjunto com as características do paciente e da infecção (Weese et al., 2019).

É necessário distinguir a cistite bacteriana da bacteriúria subclínica, caracterizada pela identificação de bactérias na urocultura na ausência de sinais clínicos atribuíveis à infecção urinária. Uma cultura positiva, isoladamente, não estabelece o diagnóstico de cistite bacteriana nem determina a necessidade de antibioticoterapia (Weese et al., 2019).

A radiografia e a ultrassonografia podem complementar a investigação de urólitos e alterações estruturais. Entretanto, os achados de imagem não confirmam a etiologia bacteriana e devem ser interpretados em conjunto com os resultados clínicos e laboratoriais (Santa Rosa, 2010).

2.4. Tratamento e resistência antimicrobiana

A antibioticoterapia deve ser fundamentada, sempre que possível, nos resultados da urocultura e do teste de sensibilidade aos antimicrobianos. A escolha do medicamento também deve considerar a localização da infecção, as comorbidades, o histórico terapêutico e as características farmacológicas do agente selecionado (Soares, 2021; Weese et al., 2019).

A duração do tratamento deve ser individualizada conforme a apresentação clínica e a ocorrência de episódios esporádicos, reinfecções ou infecções persistentes. Nos casos recorrentes, é fundamental investigar as condições que favorecem a manutenção ou o restabelecimento da infecção, evitando a repetição empírica de antimicrobianos sem reavaliação diagnóstica (Weese et al., 2019).

O acompanhamento deve priorizar a evolução clínica. A repetição da urocultura pode ser indicada em situações específicas, especialmente diante de persistência ou recorrência dos sinais, mas um resultado positivo após a resolução clínica não implica, automaticamente, a necessidade de prolongar ou reiniciar a antibioticoterapia (Weese et al., 2019).

O uso inadequado de antimicrobianos favorece a seleção de microrganismos resistentes e pode restringir as opções terapêuticas. Segundo a definição internacional proposta por Magiorakos et al. (2012), a multirresistência corresponde à não suscetibilidade adquirida a pelo menos um agente de três ou mais categorias de antimicrobianos, respeitadas as particularidades do microrganismo e do painel avaliado.

A instrumentação urinária também exige atenção. O uso profilático rotineiro de antimicrobianos durante a manutenção de cateteres urinários não é recomendado como estratégia de prevenção de infecções, pois pode favorecer a seleção de bactérias resistentes. A prevenção deve enfatizar a técnica asséptica, o manejo adequado do sistema de drenagem e a redução do tempo de permanência do cateter ao período clinicamente necessário (Weese et al., 2019).

Além do tratamento da infecção, o manejo deve contemplar a identificação e a correção dos fatores predisponentes. Medidas de suporte, como estímulo à ingestão hídrica e adequação das condições ambientais e sanitárias, podem integrar a abordagem individualizada do paciente, sem substituir a investigação etiológica e a terapia específica quando indicada (Killian, 2022).

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A cistite bacteriana é pouco frequente em gatos jovens e saudáveis, mas deve ser considerada especialmente em animais idosos, com comorbidades ou submetidos à instrumentação urinária. Como suas manifestações clínicas se assemelham às de outras doenças do trato urinário inferior, o diagnóstico exige avaliação integrada dos achados clínicos e laboratoriais.

A urocultura e o teste de sensibilidade aos antimicrobianos contribuem para direcionar a conduta terapêutica. Entretanto, seus resultados devem ser interpretados no contexto clínico, distinguindo-se a cistite bacteriana da bacteriúria subclínica, para evitar tratamentos desnecessários.

A identificação e o manejo dos fatores predisponentes, associados ao acompanhamento individualizado, são fundamentais para o controle da infecção, a redução de recorrências e a promoção do uso racional de antimicrobianos.

REFERÊNCIAS

BERNARDO, I. C. F.; VARGAS, M. E. B.; ALMEIDA, C. B. Doenças do trato urinário inferior dos felinos. Revista Científica Unilago, v. 1, n. 1, 2022.

BÍSCARO, I. S. Doença do trato urinário inferior dos felinos: aspectos etiológicos e abordagens terapêuticas. 2021. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Medicina Veterinária) – Centro Universitário do Sul de Minas, 2021.

COSTA, J. P. et al. Relação da orquiectomia com o desenvolvimento de afecções urinárias em felinos domésticos. Brazilian Journal of Animal and Environmental Research, v. 5, n. 4, p. 3583–3592, 2022.

IHA, L. N. Doença do trato urinário inferior de felinos (DTUIF) obstrutiva – dos sinais clínicos ao diagnóstico: revisão bibliográfica. 2023. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Medicina Veterinária) – Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Botucatu, 2023.

KILLIAN, L. F. S. Cistite bacteriana: uma abordagem com foco em diagnóstico, tratamento e resistência antimicrobiana – revisão de literatura. 2022. Trabalho de Conclusão de Curso – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, 2022.

MAGIORAKOS, A. P. et al. Multidrug-resistant, extensively drug-resistant and pandrug-resistant bacteria: an international expert proposal for interim standard definitions for acquired resistance. Clinical Microbiology and Infection, v. 18, n. 3, p. 268–281, 2012. DOI: 10.1111/j.1469-0691.2011.03570.x.

SANTA ROSA, L. S. de. Doença do trato urinário inferior felino. 2010. Trabalho acadêmico (Curso de Medicina Veterinária) – Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, Fundação Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Campo Grande, 2010.

SOARES, M. T. Caracterização de Escherichia coli uropatogênicas isoladas de cães e gatos. 2021. Dissertação (Mestrado Profissional em Clínicas Veterinárias) – Centro de Ciências Agrárias, Universidade Estadual de Londrina, Londrina, 2021.

SOUSA, G. A. S. de; MAIA, V.; ALVES, F. dos S.; PAZ, G. de M.; ANDRADE, M. B.; COELHO, N. das G. D. Doenças do trato urinário inferior dos felinos. Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, Belo Horizonte, n. 82, 2016.

SOUZA, H. D. F. de. Produção fenotípica de betalactamases de amplo espectro em Escherichia coli associada às infecções no trato urinário de cães, gatos e humanos. 2021. Dissertação (Mestrado em Medicina Veterinária) – Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Seropédica, 2021.

WEESE, J. S. et al. International Society for Companion Animal Infectious Diseases (ISCAID) guidelines for the diagnosis and management of bacterial urinary tract infections in dogs and cats. The Veterinary Journal, v. 247, p. 8–25, 2019. DOI: 10.1016/j.tvjl.2019.02.008.

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Potencial terapêutico dos canabinoides no manejo das sequelas neurológicas da cinomose canina: revisão de literatura

Eloisa Ramos Da Costa – Medicina Veterinária - UNITAU

Gustavo José Rangel Gomes – Medicina Veterinária - UNITAU

INTRODUÇÃO

A cinomose canina é uma doença infectocontagiosa de elevada importância na medicina veterinária, causada pelo vírus da cinomose canina, pertencente à família Paramyxoviridae e ao gênero Morbillivirus. A enfermidade apresenta elevada contagiosidade, podendo provocar manifestações respiratórias, gastrointestinais, cutâneas e neurológicas. O comprometimento do sistema nervoso central é particularmente relevante, pois pode resultar em sinais clínicos graves e em sequelas neurológicas persistentes nos animais sobreviventes (SOUSA; VIANA, 2024). A revisão de Sousa e Viana caracteriza a enfermidade como altamente contagiosa, de elevada mortalidade e particularmente importante em animais jovens e não vacinados ou com protocolo vacinal incompleto.

Entre as principais manifestações neurológicas associadas à doença estão as mioclonias, convulsões, tremores e alterações da coordenação motora. Mesmo após a recuperação da fase aguda, alguns animais podem permanecer com sequelas neurológicas, cujo manejo representa um desafio na prática clínica veterinária. Nesse contexto, cresce o interesse por terapias complementares capazes de auxiliar no controle dos sinais clínicos e na melhoria da qualidade de vida desses animais. 

Entre as alternativas em investigação, destacam-se os compostos derivados de Cannabis sativa, especialmente o canabidiol (CBD) e o delta-9-tetrahidrocanabinol (THC). Relatos e trabalhos recentes têm investigado a utilização de produtos à base de canabinoides em cães com sequelas neurológicas decorrentes da cinomose (SANTOS; DUARTE; BRAGA, 2022; PRADO; OLIVEIRA; BLAITT, 2023; CARVALHO et al., 2021; CAVALCANTE et al., 2025). O trabalho de Santos, Duarte e Braga, publicado em 2022, destaca especificamente a utilização medicinal de derivados de Cannabis em sequelas da cinomose como área ainda carente de estudos.

Dessa forma, torna-se relevante discutir o potencial dos canabinoides como terapia complementar no manejo das sequelas neurológicas da cinomose canina, considerando os possíveis benefícios relatados, as limitações das evidências disponíveis e a necessidade de estudos que estabeleçam sua eficácia e segurança.

REVISÃO DE LITERATURA

Cinomose canina

A cinomose canina é uma enfermidade viral altamente contagiosa que acomete principalmente cães jovens, não vacinados ou com protocolo vacinal incompleto, embora possa ocorrer em animais de diferentes faixas etárias. O vírus apresenta distribuição mundial e pode comprometer diferentes sistemas orgânicos. A transmissão pode ocorrer por contato com animais infectados, objetos ou alimentos contaminados e pela dispersão de aerossóis (SOUSA; VIANA, 2024). 

Durante a evolução da doença, podem ser observadas manifestações respiratórias, gastrointestinais, cutâneas e neurológicas. Entre os sinais clínicos descritos estão alterações respiratórias e digestivas, enquanto o envolvimento do sistema nervoso central pode ocasionar manifestações neurológicas importantes (SOUSA; VIANA, 2024). 

O comprometimento neurológico merece especial atenção devido à gravidade das alterações e à possibilidade de persistência de sequelas. Entre as manifestações observadas podem ocorrer mioclonias, convulsões, tremores, alterações de coordenação motora, fraqueza muscular e distúrbios relacionados à postura e à locomoção.

As mioclonias são particularmente relevantes porque podem permanecer após o período agudo da enfermidade, comprometendo a qualidade de vida do animal. Deve-se considerar, entretanto, que mioclonias e convulsões representam alterações neurológicas distintas. Portanto, evidências relacionadas à ação anticonvulsivante de determinado composto não podem ser automaticamente interpretadas como evidências de eficácia contra as mioclonias decorrentes da cinomose.

Atualmente, não existe tratamento antiviral específico capaz de eliminar a infecção estabelecida pelo vírus da cinomose. O manejo clínico é direcionado aos sinais apresentados e às condições individuais do paciente. A revisão de Sousa e Viana destaca a ausência de tratamento específico e a importância da vacinação como principal medida preventiva (SOUSA; VIANA, 2024). 

Cannabis sativa e sistema endocanabinoide

A Cannabis sativa apresenta diversos compostos biologicamente ativos, entre os quais se destacam os fitocanabinoides CBD e THC. Esses compostos têm despertado crescente interesse científico e clínico em razão de sua interação com mecanismos relacionados ao sistema endocanabinoide.

O sistema endocanabinoide encontra-se presente nos mamíferos e está envolvido na regulação de diferentes funções fisiológicas. Santos, Duarte e Braga (2022) descrevem receptores canabinoides localizados, entre outros locais, no sistema nervoso central e no sistema imunológico, relacionando o sistema endocanabinoide a diferentes processos fisiológicos. 

Carvalho et al. (2021) também relacionam os canabinoides e o sistema endocanabinoide à homeostase neuronal e apresentam um relato de caso envolvendo a utilização de óleo contendo CBD e THC em uma cadela com sequelas neurológicas decorrentes da cinomose. 

Apesar do interesse crescente pelo uso veterinário de produtos derivados de Cannabis, é importante diferenciar o CBD do THC. Esses compostos apresentam características farmacológicas distintas e, portanto, não devem ser tratados como substâncias terapeuticamente equivalentes. Da mesma forma, resultados obtidos com formulações full spectrum, que apresentam mais de um componente, não devem ser atribuídos exclusivamente ao CBD sem evidência específica que permita essa conclusão.

Potencial dos canabinoides nas sequelas neurológicas da cinomose

O emprego de produtos derivados de Cannabis no tratamento complementar de alterações neurológicas em animais tem despertado interesse, particularmente em razão da possibilidade de atuação sobre algumas manifestações clínicas.

No caso das sequelas decorrentes da cinomose, existem relatos e trabalhos acadêmicos descrevendo a utilização de óleo de Cannabis. Santos, Duarte e Braga (2022), por exemplo, realizaram uma revisão de literatura relacionada ao emprego de derivados de Cannabis nas sequelas da cinomose e em quadros associados à epilepsia. Os próprios autores ressaltam a necessidade de estudos adicionais sobre os mecanismos de ação e a farmacodinâmica desses compostos em animais. 

Carvalho et al. (2021) apresentaram um relato de caso envolvendo uma cadela com histórico de cinomose, mioclonia e crises epilépticas submetida à terapia integrativa utilizando óleo full spectrum contendo CBD e THC, concomitantemente ao manejo de medicamentos anticonvulsivantes. O trabalho relatou evolução clínica favorável em relação às crises convulsivas durante o acompanhamento apresentado pelos autores. Entretanto, por se tratar de um relato de caso e envolver tratamento concomitante, os resultados não permitem estabelecer uma relação causal ou generalizar a eficácia da terapia para outros animais com a mesma condição. 

Prado, Oliveira e Blaitt (2023) também apresentaram um relato clínico de uma cadela com sequela neurológica decorrente da cinomose submetida a tratamento complementar com óleo de Cannabis full spectrum. Segundo o resumo disponibilizado no Repositório Institucional da Universidade de Sorocaba, o óleo foi empregado concomitantemente ao fenobarbital e ao brometo de potássio, e os autores relataram evolução clínica após a introdução dos fitocanabinoides. 

Esses resultados devem, porém, ser interpretados com cautela. Relatos de caso são relevantes para gerar hipóteses e documentar experiências clínicas, mas apresentam limitações importantes para demonstrar eficácia terapêutica, sobretudo pela ausência de grupos-controle, pelo pequeno número de indivíduos e pela possível utilização concomitante de outros medicamentos.

Outro trabalho relacionado ao tema é o de Cavalcante et al. (2025), direcionado ao uso de óleo de Cannabis em cães com sequelas de cinomose. Entretanto, a contribuição desse tipo de publicação deve ser analisada de acordo com o delineamento e o nível de evidência apresentado, evitando-se utilizar estudos preliminares como comprovação definitiva da eficácia clínica dos canabinoides.

Nesse sentido, embora existam resultados que justifiquem a continuidade das pesquisas, as evidências atualmente apresentadas na literatura selecionada não são suficientes para afirmar que CBD ou THC sejam eficazes especificamente no tratamento das mioclonias e demais sequelas neurológicas da cinomose canina.

Também não há, nessas referências, evidência suficiente para afirmar que esses compostos sejam capazes de regenerar neurônios lesionados pelo vírus da cinomose ou reverter definitivamente as alterações neurológicas estabelecidas. Assim, é mais adequado discutir seu uso como uma possível terapia complementar direcionada ao manejo de determinados sinais clínicos, e não como tratamento curativo das lesões neurológicas.

Além disso, efeitos adversos e questões relacionadas à dose, composição dos produtos, proporção entre CBD e THC, interações medicamentosas e segurança do uso prolongado devem ser considerados. Essas características reforçam a necessidade de acompanhamento médico-veterinário e de estudos experimentais e clínicos controlados que avaliem especificamente cães acometidos por sequelas neurológicas da cinomose.

CONCLUSÃO

Diante do exposto, os derivados de Cannabis sativa, especialmente as formulações contendo canabidiol (CBD), constituem uma área de interesse para investigação como terapia complementar no manejo de alterações neurológicas em cães. Relatos envolvendo animais com sequelas decorrentes da cinomose descrevem evolução clínica favorável em determinados casos; entretanto, o nível de evidência proporcionado por esses trabalhos ainda é limitado. 

Particularmente em relação à cinomose, ainda não existem evidências suficientes, entre as referências analisadas, para estabelecer a eficácia dos canabinoides no controle das mioclonias e demais distúrbios motores ou para afirmar que sejam capazes de promover a recuperação das lesões neurológicas provocadas pela enfermidade.

Dessa forma, os resultados disponíveis devem ser interpretados com cautela, especialmente porque parte significativa das evidências específicas para cinomose se baseia em relatos de caso e trabalhos preliminares. A utilização dos canabinoides deve, portanto, ser considerada como uma possível estratégia terapêutica complementar, sempre sob acompanhamento de médico-veterinário e sem substituir os tratamentos convencionais indicados para o quadro clínico do animal.

Conclui-se que são necessários estudos clínicos controlados, com maior número de animais e protocolos terapêuticos bem definidos, que avaliem parâmetros como frequência e intensidade das mioclonias e convulsões, função motora, qualidade de vida, ocorrência de efeitos adversos e possíveis interações medicamentosas. Esses estudos poderão contribuir para determinar com maior precisão a eficácia, a segurança, as limitações e as possíveis aplicações dos canabinoides no manejo das sequelas neurológicas da cinomose canina.

REFERÊNCIAS

CARVALHO, Gustavo Sá de; MENEZES, Liz Oliveira; SANTOS, Maria Yasmim Florentino dos; NUNES, Yade Farias. Uso do óleo de CBD e THC (full spectrum) como terapia integrativa no tratamento de sequela de cinomose em cão: relato de caso. In: SIMPÓSIO EM BEM-ESTAR ANIMAL (SIMBEA 21), 2021. Anais do Simpósio em Bem-estar Animal. Cangaceiro Vet, 2021. ISBN 978-65-5941-290-7. O registro da publicação informa data de publicação de 4 ago. 2021, modalidade Resumo Simples e meio digital. 

CAVALCANTE, Vitoria Gonçalves; PERNAMBUCO, Lorena Rodrigues; SILVA, Samantha Gomes da; BRITO, Stefani da Silva; ALVES, Mylena Santos da Silva; SILVA, Sheilla Nogueira Saraiva da. Uso de óleo de cannabis em cães com sequelas de cinomose. In: JORNADA CIENTÍFICA DO PROMIC, 2., 2025. Anais [...]. Centro Universitário Fametro (UNIFAMETRO), 2025.

PRADO, Ana Blandina Cintra de Almeida; OLIVEIRA, Elisângela França de; BLAITT, Regina Maria Nascimento Augusto. Uso de óleo de Cannabis no tratamento de sequela de cinomose: relato de caso. Sorocaba: Universidade de Sorocaba, 2023. Artigo/TCC, Curso de Medicina Veterinária. O Repositório Institucional da UNISO confirma o ano, título e natureza do documento. 

SANTOS, Aline Viana dos; DUARTE, Raiany Borges; BRAGA, Ísis Assis. Uso de óleo de Cannabis spp. em sequelas da cinomose canina: uma terapia integrativa promissora. In: COLÓQUIO ESTADUAL DE PESQUISA MULTIDISCIPLINAR, 2022. Anais do Colóquio Estadual de Pesquisa Multidisciplinar. 2022. Resumo simples. ISSN 2527-2500. 

SOUSA, Raquel Silva e; VIANA, Joaquim Albuquerque. Cinomose canina: revisão de literatura. Research, Society and Development, v. 13, n. 11, e80131147381, 2024. DOI: 10.33448/rsd-v13i11.47381.