terça-feira, 20 de outubro de 2026

Potencial terapêutico dos canabinoides no manejo das sequelas neurológicas da cinomose canina: revisão de literatura

Eloisa Ramos Da Costa – Medicina Veterinária - UNITAU

Gustavo José Rangel Gomes – Medicina Veterinária - UNITAU

INTRODUÇÃO

A cinomose canina é uma doença infectocontagiosa de elevada importância na medicina veterinária, causada pelo vírus da cinomose canina, pertencente à família Paramyxoviridae e ao gênero Morbillivirus. A enfermidade apresenta elevada contagiosidade, podendo provocar manifestações respiratórias, gastrointestinais, cutâneas e neurológicas. O comprometimento do sistema nervoso central é particularmente relevante, pois pode resultar em sinais clínicos graves e em sequelas neurológicas persistentes nos animais sobreviventes (SOUSA; VIANA, 2024). A revisão de Sousa e Viana caracteriza a enfermidade como altamente contagiosa, de elevada mortalidade e particularmente importante em animais jovens e não vacinados ou com protocolo vacinal incompleto.

Entre as principais manifestações neurológicas associadas à doença estão as mioclonias, convulsões, tremores e alterações da coordenação motora. Mesmo após a recuperação da fase aguda, alguns animais podem permanecer com sequelas neurológicas, cujo manejo representa um desafio na prática clínica veterinária. Nesse contexto, cresce o interesse por terapias complementares capazes de auxiliar no controle dos sinais clínicos e na melhoria da qualidade de vida desses animais. 

Entre as alternativas em investigação, destacam-se os compostos derivados de Cannabis sativa, especialmente o canabidiol (CBD) e o delta-9-tetrahidrocanabinol (THC). Relatos e trabalhos recentes têm investigado a utilização de produtos à base de canabinoides em cães com sequelas neurológicas decorrentes da cinomose (SANTOS; DUARTE; BRAGA, 2022; PRADO; OLIVEIRA; BLAITT, 2023; CARVALHO et al., 2021; CAVALCANTE et al., 2025). O trabalho de Santos, Duarte e Braga, publicado em 2022, destaca especificamente a utilização medicinal de derivados de Cannabis em sequelas da cinomose como área ainda carente de estudos.

Dessa forma, torna-se relevante discutir o potencial dos canabinoides como terapia complementar no manejo das sequelas neurológicas da cinomose canina, considerando os possíveis benefícios relatados, as limitações das evidências disponíveis e a necessidade de estudos que estabeleçam sua eficácia e segurança.

REVISÃO DE LITERATURA

Cinomose canina

A cinomose canina é uma enfermidade viral altamente contagiosa que acomete principalmente cães jovens, não vacinados ou com protocolo vacinal incompleto, embora possa ocorrer em animais de diferentes faixas etárias. O vírus apresenta distribuição mundial e pode comprometer diferentes sistemas orgânicos. A transmissão pode ocorrer por contato com animais infectados, objetos ou alimentos contaminados e pela dispersão de aerossóis (SOUSA; VIANA, 2024). 

Durante a evolução da doença, podem ser observadas manifestações respiratórias, gastrointestinais, cutâneas e neurológicas. Entre os sinais clínicos descritos estão alterações respiratórias e digestivas, enquanto o envolvimento do sistema nervoso central pode ocasionar manifestações neurológicas importantes (SOUSA; VIANA, 2024). 

O comprometimento neurológico merece especial atenção devido à gravidade das alterações e à possibilidade de persistência de sequelas. Entre as manifestações observadas podem ocorrer mioclonias, convulsões, tremores, alterações de coordenação motora, fraqueza muscular e distúrbios relacionados à postura e à locomoção.

As mioclonias são particularmente relevantes porque podem permanecer após o período agudo da enfermidade, comprometendo a qualidade de vida do animal. Deve-se considerar, entretanto, que mioclonias e convulsões representam alterações neurológicas distintas. Portanto, evidências relacionadas à ação anticonvulsivante de determinado composto não podem ser automaticamente interpretadas como evidências de eficácia contra as mioclonias decorrentes da cinomose.

Atualmente, não existe tratamento antiviral específico capaz de eliminar a infecção estabelecida pelo vírus da cinomose. O manejo clínico é direcionado aos sinais apresentados e às condições individuais do paciente. A revisão de Sousa e Viana destaca a ausência de tratamento específico e a importância da vacinação como principal medida preventiva (SOUSA; VIANA, 2024). 

Cannabis sativa e sistema endocanabinoide

A Cannabis sativa apresenta diversos compostos biologicamente ativos, entre os quais se destacam os fitocanabinoides CBD e THC. Esses compostos têm despertado crescente interesse científico e clínico em razão de sua interação com mecanismos relacionados ao sistema endocanabinoide.

O sistema endocanabinoide encontra-se presente nos mamíferos e está envolvido na regulação de diferentes funções fisiológicas. Santos, Duarte e Braga (2022) descrevem receptores canabinoides localizados, entre outros locais, no sistema nervoso central e no sistema imunológico, relacionando o sistema endocanabinoide a diferentes processos fisiológicos. 

Carvalho et al. (2021) também relacionam os canabinoides e o sistema endocanabinoide à homeostase neuronal e apresentam um relato de caso envolvendo a utilização de óleo contendo CBD e THC em uma cadela com sequelas neurológicas decorrentes da cinomose. 

Apesar do interesse crescente pelo uso veterinário de produtos derivados de Cannabis, é importante diferenciar o CBD do THC. Esses compostos apresentam características farmacológicas distintas e, portanto, não devem ser tratados como substâncias terapeuticamente equivalentes. Da mesma forma, resultados obtidos com formulações full spectrum, que apresentam mais de um componente, não devem ser atribuídos exclusivamente ao CBD sem evidência específica que permita essa conclusão.

Potencial dos canabinoides nas sequelas neurológicas da cinomose

O emprego de produtos derivados de Cannabis no tratamento complementar de alterações neurológicas em animais tem despertado interesse, particularmente em razão da possibilidade de atuação sobre algumas manifestações clínicas.

No caso das sequelas decorrentes da cinomose, existem relatos e trabalhos acadêmicos descrevendo a utilização de óleo de Cannabis. Santos, Duarte e Braga (2022), por exemplo, realizaram uma revisão de literatura relacionada ao emprego de derivados de Cannabis nas sequelas da cinomose e em quadros associados à epilepsia. Os próprios autores ressaltam a necessidade de estudos adicionais sobre os mecanismos de ação e a farmacodinâmica desses compostos em animais. 

Carvalho et al. (2021) apresentaram um relato de caso envolvendo uma cadela com histórico de cinomose, mioclonia e crises epilépticas submetida à terapia integrativa utilizando óleo full spectrum contendo CBD e THC, concomitantemente ao manejo de medicamentos anticonvulsivantes. O trabalho relatou evolução clínica favorável em relação às crises convulsivas durante o acompanhamento apresentado pelos autores. Entretanto, por se tratar de um relato de caso e envolver tratamento concomitante, os resultados não permitem estabelecer uma relação causal ou generalizar a eficácia da terapia para outros animais com a mesma condição. 

Prado, Oliveira e Blaitt (2023) também apresentaram um relato clínico de uma cadela com sequela neurológica decorrente da cinomose submetida a tratamento complementar com óleo de Cannabis full spectrum. Segundo o resumo disponibilizado no Repositório Institucional da Universidade de Sorocaba, o óleo foi empregado concomitantemente ao fenobarbital e ao brometo de potássio, e os autores relataram evolução clínica após a introdução dos fitocanabinoides. 

Esses resultados devem, porém, ser interpretados com cautela. Relatos de caso são relevantes para gerar hipóteses e documentar experiências clínicas, mas apresentam limitações importantes para demonstrar eficácia terapêutica, sobretudo pela ausência de grupos-controle, pelo pequeno número de indivíduos e pela possível utilização concomitante de outros medicamentos.

Outro trabalho relacionado ao tema é o de Cavalcante et al. (2025), direcionado ao uso de óleo de Cannabis em cães com sequelas de cinomose. Entretanto, a contribuição desse tipo de publicação deve ser analisada de acordo com o delineamento e o nível de evidência apresentado, evitando-se utilizar estudos preliminares como comprovação definitiva da eficácia clínica dos canabinoides.

Nesse sentido, embora existam resultados que justifiquem a continuidade das pesquisas, as evidências atualmente apresentadas na literatura selecionada não são suficientes para afirmar que CBD ou THC sejam eficazes especificamente no tratamento das mioclonias e demais sequelas neurológicas da cinomose canina.

Também não há, nessas referências, evidência suficiente para afirmar que esses compostos sejam capazes de regenerar neurônios lesionados pelo vírus da cinomose ou reverter definitivamente as alterações neurológicas estabelecidas. Assim, é mais adequado discutir seu uso como uma possível terapia complementar direcionada ao manejo de determinados sinais clínicos, e não como tratamento curativo das lesões neurológicas.

Além disso, efeitos adversos e questões relacionadas à dose, composição dos produtos, proporção entre CBD e THC, interações medicamentosas e segurança do uso prolongado devem ser considerados. Essas características reforçam a necessidade de acompanhamento médico-veterinário e de estudos experimentais e clínicos controlados que avaliem especificamente cães acometidos por sequelas neurológicas da cinomose.

CONCLUSÃO

Diante do exposto, os derivados de Cannabis sativa, especialmente as formulações contendo canabidiol (CBD), constituem uma área de interesse para investigação como terapia complementar no manejo de alterações neurológicas em cães. Relatos envolvendo animais com sequelas decorrentes da cinomose descrevem evolução clínica favorável em determinados casos; entretanto, o nível de evidência proporcionado por esses trabalhos ainda é limitado. 

Particularmente em relação à cinomose, ainda não existem evidências suficientes, entre as referências analisadas, para estabelecer a eficácia dos canabinoides no controle das mioclonias e demais distúrbios motores ou para afirmar que sejam capazes de promover a recuperação das lesões neurológicas provocadas pela enfermidade.

Dessa forma, os resultados disponíveis devem ser interpretados com cautela, especialmente porque parte significativa das evidências específicas para cinomose se baseia em relatos de caso e trabalhos preliminares. A utilização dos canabinoides deve, portanto, ser considerada como uma possível estratégia terapêutica complementar, sempre sob acompanhamento de médico-veterinário e sem substituir os tratamentos convencionais indicados para o quadro clínico do animal.

Conclui-se que são necessários estudos clínicos controlados, com maior número de animais e protocolos terapêuticos bem definidos, que avaliem parâmetros como frequência e intensidade das mioclonias e convulsões, função motora, qualidade de vida, ocorrência de efeitos adversos e possíveis interações medicamentosas. Esses estudos poderão contribuir para determinar com maior precisão a eficácia, a segurança, as limitações e as possíveis aplicações dos canabinoides no manejo das sequelas neurológicas da cinomose canina.

REFERÊNCIAS

CARVALHO, Gustavo Sá de; MENEZES, Liz Oliveira; SANTOS, Maria Yasmim Florentino dos; NUNES, Yade Farias. Uso do óleo de CBD e THC (full spectrum) como terapia integrativa no tratamento de sequela de cinomose em cão: relato de caso. In: SIMPÓSIO EM BEM-ESTAR ANIMAL (SIMBEA 21), 2021. Anais do Simpósio em Bem-estar Animal. Cangaceiro Vet, 2021. ISBN 978-65-5941-290-7. O registro da publicação informa data de publicação de 4 ago. 2021, modalidade Resumo Simples e meio digital. 

CAVALCANTE, Vitoria Gonçalves; PERNAMBUCO, Lorena Rodrigues; SILVA, Samantha Gomes da; BRITO, Stefani da Silva; ALVES, Mylena Santos da Silva; SILVA, Sheilla Nogueira Saraiva da. Uso de óleo de cannabis em cães com sequelas de cinomose. In: JORNADA CIENTÍFICA DO PROMIC, 2., 2025. Anais [...]. Centro Universitário Fametro (UNIFAMETRO), 2025.

PRADO, Ana Blandina Cintra de Almeida; OLIVEIRA, Elisângela França de; BLAITT, Regina Maria Nascimento Augusto. Uso de óleo de Cannabis no tratamento de sequela de cinomose: relato de caso. Sorocaba: Universidade de Sorocaba, 2023. Artigo/TCC, Curso de Medicina Veterinária. O Repositório Institucional da UNISO confirma o ano, título e natureza do documento. 

SANTOS, Aline Viana dos; DUARTE, Raiany Borges; BRAGA, Ísis Assis. Uso de óleo de Cannabis spp. em sequelas da cinomose canina: uma terapia integrativa promissora. In: COLÓQUIO ESTADUAL DE PESQUISA MULTIDISCIPLINAR, 2022. Anais do Colóquio Estadual de Pesquisa Multidisciplinar. 2022. Resumo simples. ISSN 2527-2500. 

SOUSA, Raquel Silva e; VIANA, Joaquim Albuquerque. Cinomose canina: revisão de literatura. Research, Society and Development, v. 13, n. 11, e80131147381, 2024. DOI: 10.33448/rsd-v13i11.47381. 

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Potencial da camomila como alternativa complementar no manejo do estresse em cães

• Ana Julia Perrenoud - Medicina Veterinária - Universidade de Taubaté

• Mariana Silva Modesto de Almeida - Medicina Veterinária - Universidade de Taubaté

• Nicole da Silva de Oliveira - Medicina Veterinária - Universidade de Taubaté

• Stephani Christine Ferreira Espindola - Medicina Veterinária - Universidade de Taubaté

• Vitoria Mayara Costa dos Santos Pereira - Medicina Veterinária - Universidade de Taubaté


ORIENTADOR / DOCENTE:
Marcos Roberto Furlan - Departamento de Ciências Agrárias - Universidade de Taubaté

RESUMO

O estresse e a ansiedade são alterações comportamentais frequentes em cães, podendo comprometer significativamente seu bem-estar e qualidade de vida. Este trabalho teve como objetivo geral avaliar o potencial do uso da Matricaria chamomilla L. (camomila) como alternativa complementar no manejo do estresse em cães. Especificamente, buscou-se descrever seus principais compostos bioativos e possíveis mecanismos de ação, bem como analisar as evidências científicas disponíveis sobre seus efeitos ansiolíticos e sua aplicabilidade na medicina veterinária. A revisão bibliográfica foi realizada mediante consulta a artigos científicos e bases de dados consolidadas, considerando estudos relacionados à fitoterapia, ansiedade, manejo do estresse e comportamento animal.

1. INTRODUÇÃO

O estresse constitui uma resposta fisiológica e comportamental complexa diante de estímulos estressores que alteram a homeostase do organismo. Em cães, essa condição é frequentemente desencadeada por mudanças ambientais, transporte, isolamento social, procedimentos veterinários e alterações na rotina diária. O manejo adequado do estresse é fundamental para preservar a saúde física, o bem-estar e a qualidade de vida dos animais de companhia.

Nesse contexto, o emprego de plantas medicinais e abordagens fitoterápicas como alternativas ou integrativas aos tratamentos convencionais vem ganhando crescente relevância na medicina veterinária. Entre as espécies vegetais estudadas, destaca-se a Matricaria chamomilla L. (camomila), reconhecida historicamente por conter compostos bioativos com potenciais propriedades ansiolíticas, sedativas e moduladoras do sistema nervoso central. Estudos clínicos e experimentais indicam que flavonoides presentes na planta atuam na redução de sintomas de ansiedade, demonstrando promissora atividade farmacológica (AMSTERDAM et al., 2009).

Diante do exposto, o presente trabalho busca responder ao seguinte problema de pesquisa: a Matricaria chamomilla L. apresenta potencial efetivo e seguro como alternativa complementar no manejo do estresse em cães? Para responder a essa questão, realiza-se uma revisão bibliográfica aprofundada sobre os principais constituintes químicos da planta, seus mecanismos de ação e seus efeitos comportamentais e fisiológicos. Adicionalmente, analisam-se as evidências disponíveis e as limitações dos estudos específicos em caninos, contribuindo para uma avaliação criteriosa de sua aplicabilidade clínica.

2. DESENVOLVIMENTO

A camomila é uma das plantas medicinais mais difundidas mundialmente, sendo amplamente empregada na medicina humana para o alívio da insônia, ansiedade e quadros depressivos leves. No universo botânico, duas espécies principais destacam-se pelo valor terapêutico: a Anthemis nobilis L. (camomila-romana) e a Matricaria recutita L. (sinônimo de Matricaria chamomilla L., conhecida como camomila-alemã), sendo esta última a mais estudada e expressiva quanto ao perfil farmacológico (AMSTERDAM et al., 2012).

Conforme descrito por Lim (2014) e Santos et al. (2019), a espécie pode ser utilizada sob diferentes formas farmacêuticas, como infusões, óleos essenciais extraídos das inflorescências e folhas, extratos secos, cápsulas e formulações dermatológicas. A planta possui um amplo espectro de propriedades terapêuticas, incluindo ações calmante, sedativa leve, antioxidante, cicatrizante, antiespasmódica, anti-inflamatória, antidiarreica, antisséptica, antimicrobiana, além de potencial atividade anti-helmíntica e antidepressiva.

2.1 Composição Química e Mecanismos de Ação

Aproximadamente 120 metabólitos secundários já foram identificados na camomila. O óleo essencial, que compreende a fração volátil, é rico em compostos sesquiterpênicos como o α-bisabolol e seus óxidos, além de azulenos (como o chamazuleno). Juntamente com os óleos essenciais, os compostos da classe dos flavonoides — com destaque para a apigenina, luteolina e quercetina — constituem os principais responsáveis pelas ações farmacológicas observadas (COSTA; DONI FILHO, 2002).

Do ponto de vista neurofisiológico, a resposta ao estresse em cães envolve a ativação neuroendócrina do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA), culminando no aumento da secreção de cortisol plasmático. A apigenina e outros flavonoides presentes na camomila possuem afinidade por receptores GABA_A no sistema nervoso central, exercendo um efeito modulador ansiolítico e sedativo que reduz a excitabilidade neuronal e auxilia na atenuação da resposta ao estresse (AKRAM et al., 2024).

2.2 Evidências Clínicas e Experimentais em Cães

Na medicina veterinária, estudos específicos em cães têm demonstrado resultados promissores. Cassu, Andreazi e Pereira (2011) avaliaram 18 cadelas submetidas a procedimentos cirúrgicos e tratadas com placebo ou Matricaria chamomilla na potenciação ultradiluída (CH12). Embora não tenham sido observadas variações significativas nas concentrações de cortisol durante a fase de isolamento social prévio, no período pós-operatório os animais tratados com M. chamomilla CH12 apresentaram níveis de cortisol consideravelmente mais estáveis em comparação ao grupo placebo. Os autores concluíram que o tratamento preveniu a elevação acentuada do cortisol pós-cirúrgico, sugerindo seu valor como adjuvante no controle do estresse cirúrgico.

Além da administração oral/homeopática, a estimulação olfativa também apresenta efeitos comportamentais relevantes. Graham, Wells e Hepper (2005) observaram que a exposição ao odor de camomila em cães abrigados em canis de proteção animal resultou em aumento significativo nos tempos de repouso, acompanhado da redução da atividade motora excessiva e das vocalizações estressantes.

2.3 Aspectos Toxicológicos e Segurança

Apesar dos benefícios fitoterápicos, o uso da camomila requer cautela. A American Society for the Prevention of Cruelty to Animals (ASPCA) classifica a camomila como potencialmente tóxica para cães e gatos se consumida de forma inadequada ou em doses elevadas, podendo provocar distúrbios gastrintestinais (vômitos, diarreia), dermatites de contato e reações alérgicas (ASPCA, [s.d.]).

Estudos toxicológicos pré-clínicos com o α-bisabolol, um dos constituintes majoritários do óleo essencial, estabeleceram parâmetros de segurança em modelos experimentais. A Dose Letal 50% (DL₅₀) por via oral foi de 15,1 mL/kg em camundongos e de 14,9 mL/kg em ratos, observando-se sinais de sedação, ataxia, dispneia e apatia apenas sob elevadas concentrações. Na avaliação de toxicidade subclínica (28 dias de administração), o Nível Sem Efeito Adverso Observável (NOAEL - No Observed Adverse Effect Level) foi fixado em 200 mg/kg/dia, indicando ampla margem de segurança e boa tolerabilidade biológica quando administrado em doses adequadas (EDDIN et al., 2022).

3. CONCLUSÃO

As evidências científicas compiladas indicam que a Matricaria chamomilla L. possui um potencial promissor como alternativa complementar no manejo da ansiedade e do estresse em cães. Seus compostos bioativos, especialmente os flavonoides (como a apigenina) e os componentes do óleo essencial, demonstram capacidade de modular respostas neuroendócrinas, atenuando a elevação do cortisol e promovendo estados de relaxamento comportamental.

No entanto, ressalta-se que o corpo de evidências clínicas específicas para a espécie canina ainda é restrito, exigindo maior padronização em relação às posologias, vias de administração e margens de segurança toxicológica. Portanto, a camomila deve ser empregada como uma ferramenta terapêutica integrativa ou adjuvante, nunca substituindo as condutas médicas veterinárias convencionais e o manejo ambiental adequado, devendo seu uso ser sempre acompanhado por um médico-veterinário.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AKRAM, Wasim et al. An updated comprehensive review of the therapeutic properties of Chamomile (Matricaria chamomilla L.). International Journal of Food Properties, v. 27, n. 1, p. 133-164, 2024. DOI: 10.1080/10942912.2023.2293661. Disponível em: https://doi.org/10.1080/10942912.2023.2293661. Acesso em: 24 ago. 2026.

AMERICAN SOCIETY FOR THE PREVENTION OF CRUELTY TO ANIMALS (ASPCA). Chamomile. [S. l.]: ASPCA, [s. d.]. Disponível em: https://www.aspca.org/pet-care/aspca-poison-control/toxic-and-non-toxic-plants/chamomile. Acesso em: 22 ago. 2026.

AMSTERDAM, Jay D. et al. A randomized, double-blind, placebo-controlled trial of oral Matricaria recutita (chamomile) extract for generalized anxiety disorder. Journal of Clinical Psychopharmacology, v. 29, n. 4, p. 378-382, 2009.

AMSTERDAM, Jay D. et al. Chamomile (Matricaria recutita) may have antidepressant activity in anxious depressed humans. Alternative Therapies in Health and Medicine, v. 18, n. 5, p. 44-49, 2012.

CASSU, Renata Navarro; ANDREAZI, Cibele Damião; PEREIRA, Liliane. Efeito da Matricaria chamomilla CH12 na resposta de estresse em cães. Colloquium Agrariae, Presidente Prudente, v. 7, n. 2, p. 1-7, 2011. DOI: 10.5747/ca.2011.v07.n2.a067. Disponível em: https://journal.unoeste.br/index.php/ca/article/view/492. Acesso em: 24 ago. 2026.

COSTA, M. A. D.; DONI FILHO, L. Aspectos do Processo de Produção Agrícola na Cultura da Camomila [Chamomilla recutita (L.) Rauschert] no Município de Mandirituba, Paraná. Dissertação (Mestrado em Agronomia) – Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2002. Acesso em: 17 ago. 2026.

EDDIN, Lujain Bader et al. Health benefits, pharmacological effects, molecular mechanisms, and therapeutic potential of α-bisabolol. Nutrients, v. 14, n. 7, p. 1370, 2022. DOI: 10.3390/nu14071370. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9002489/. Acesso em: 21 ago. 2026.

GRAHAM, Lynne; WELLS, Deborah L.; HEPPER, Peter G. The influence of olfactory stimulation on the behaviour of dogs housed in a rescue shelter. Applied Animal Behaviour Science, v. 91, n. 1-2, p. 143-153, 2005. DOI: 10.1016/j.applanim.2004.08.024. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.applanim.2004.08.024. Acesso em: 24 ago. 2026.

LIM, T. K. Matricaria chamomilla. In: Edible Medicinal and Non-Medicinal Plants. v. 7. Dordrecht: Springer, 2014. p. 397-431.

SANTOS, D. S. dos et al. Phytomedicines containing Matricaria species for the treatment of skin diseases: a biotechnological approach. Fitoterapia, v. 138, p. 104281, 2019. Acesso em: 17 ago. 2026.