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quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Frutas pouco conhecidas têm alto poder anti-inflamatório e antioxidante

02.10.2017
Pesquisa indica que cinco frutas típicas da Mata Atlântica possuem propriedades bioativas



EDIÇÃO DE IMAGEM LUIS PAULO SILVA

As frutas conhecidas como bacupari-mirim, araçá-piranga, cereja-do-rio-grande, grumixama e ubajaí ainda não ganharam fama, nem espaço nos supermercados. Se depender de suas propriedades bioativas, em questão de tempo elas poderão estar não só disputando espaço nas gôndolas como ganhando posição no ranking dos alimentos da moda.

Além dos valores nutricionais, as cinco frutas nativas da Mata Atlântica têm elevadas propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. Foi o que verificou uma pesquisa desenvolvida na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP) em parceria com a Faculdade de Odontologia de Piracicaba (FOP) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Universidade de La Frontera, no Chile.

“Não havia muito conhecimento científico sobre as propriedades dessas frutas nativas. Agora, com os resultados do nosso estudo, a ideia é fazer com que elas sejam produzidas por agricultura familiar, ganhem escala e cheguem aos supermercados. Quem sabe elas não se tornam um novo açaí?”, disse Severino Matias Alencar, do Departamento de Agroindústria, Alimentos e Nutrição da Esalq, se referindo ao sucesso comercial da fruta amazônica com grande quantidade de antioxidantes e que hoje tem a polpa exportada pelo Brasil para vários países.
Os professores Severino Matias de Alencar (à esq.), da Esalq, e Pedro Luiz Rosalen, da FOP-Unicamp

O trabalho, com apoio da FAPESP, teve resultados publicados na revista PLOS ONE.

No estudo foram avaliados os compostos fenólicos – estruturas químicas que podem ter efeitos preventivos ou curativos – e os mecanismos anti-inflamatórios e antioxidantes do extrato de folhas, sementes e polpa de quatro frutas do gênero Eugenia e uma do gênero Garcinia: araçá-piranga (E. leitonii), cereja-do-rio-grande (E. involucrata), grumixama (E. brasiliensis), ubajaí (E. myrcianthes) e bacupari-mirim (Garcinia brasiliensis), todas típicas da Mata Atlântica.

Como elas são espécies difíceis de serem encontradas e algumas estão em risco de extinção, as plantas foram fornecidas por dois sítios localizados no interior de São Paulo. As duas propriedades comercializam as plantas com o objetivo de preservação da coleção. Um dos produtores possui a maior coleção de frutas nativas do Brasil, somando mais de 1,3 mil espécies plantadas.

“Começamos nosso estudo prospectando as propriedades bioativas das frutas, pois sabíamos que elas poderiam ter boa quantidade de antioxidantes, assim como são as chamadas ‘berries’ americanas, como o mirtilo, a amora e o próprio morango, muito conhecidas pela ciência. Mas nossas frutas nativas se mostraram ainda melhores”, disse Alencar.

De acordo com o estudo, as espécies do gênero Eugenia têm um vasto potencial econômico e farmacológico evidenciado não só pelo número de publicações científicas, mas também pela exploração comercial de suas frutas comestíveis, madeira, óleos essenciais e uso como plantas ornamentais.

Elas são exemplos de alimentos funcionais, que, além das vitaminas e valores nutricionais, têm propriedades bioativas como o combate aos radicais livres – átomos instáveis e altamente reativos no organismo que se ligam a outros átomos, provocando danos como envelhecimento celular ou doenças.

“O organismo tem naturalmente antirradicais livres, que neutralizam e eliminam os radicais livres do corpo, sem causar dano. Porém, fatores como idade, estresse e alimentação podem promover um desequilíbrio nessa neutralização natural. Nesses casos, é preciso contar com elementos exógenos, ingerindo alimentos que tenham agentes antioxidantes como os flavonoides, as antocianinas do araçá-piranga e das outras frutas do gênero Eugenia”, disse Pedro Rosalen, da Faculdade de Odontologia da Unicamp em Piracicaba.

O pesquisador ressalta que há cerca de 400 espécies pertencentes ao gênero Eugenia distribuídas pelo Brasil, incluindo várias espécies endêmicas. “Temos uma imensidão de frutas nativas com compostos bioativos que trariam benefícios para a saúde da população. É preciso estudá-las”, disse.

Alencar é um dos pesquisadores do projeto “Bioprospecção de novas moléculas anti-inflamatórias de produtos naturais nativos brasileiros”, coordenado pelo professor Rosalen, também autor do artigo publicado na PLOS ONE.

Campeão contra inflamação

As frutas estudadas no projeto com elevada atividade antioxidante para serem usadas em indústrias de alimentos e farmacêuticas também tiveram pesquisadas as capacidades anti-inflamatórias. A grande estrela foi a araçá-piranga, como demonstraram em artigo publicado no Journal of Functional Foods.

“A araçá-piranga, espécie ameaçada de extinção, teve a melhor atividade anti-inflamatória em comparação com a de outras frutas do gênero Eugenia”, disse Rosalen. “O mecanismo de ação também é muito interessante, pois ocorre de forma espontânea e logo no começo da inflamação, impedindo uma via específica do processo inflamatório. Ela age também no endotélio dos vasos sanguíneos, evitando que os leucócitos transmigrem para o tecido agredido, reduzindo a exacerbação do processo inflamatório”

Rosalen destaca que os antioxidantes não têm como função única combater o envelhecimento ou a morte celular, mas a prevenção de doenças mediadas por processo inflamatório crônico. “A ação oxidante dos radicais livres também significa o surgimento de doenças inflamatórias dependentes, como diabetes, câncer, artrite, obesidade, doença de Alzheimer”, disse.

“Não percebemos muitas dessas lesões provocadas pelos radicais livres. São as inflamações silenciosas. Por isso, é importante a ação de sustâncias antioxidantes, que podem neutralizar os radicais livres”, disse Rosalen.

As pesquisas colaborativas, apoiadas pela Fapesp e pela Universidad de La Frontera, também permitiram ampliar o conhecimento sobre espécies nativas do Chile. Em um dos estudos, os autores demonstraram a atividade antioxidante e vasodilatadora da murtilla (Ugni molinae), uma fruta nativa do país.

No estudo publicado na Oxidative Medicine and Cellular Longevity, os pesquisadores destacam que o uso de preparações alimentares obtidas a partir de frutas e folhas da murtilla pode ter efeitos benéficos na prevenção e, possivelmente, no tratamento de sintomas de doenças cardiovasculares.

Alencar destaca que conhecer melhor as propriedades pode se mostrar uma boa alternativa para estimular a produção das frutas nativas.

“Antes do projeto com a Universidad de La Frontera, eu e o professor Pedro Rosalen já estudávamos as frutas nativas, pois acreditamos que elas podem revelar ótimas soluções alimentares para a sociedade”, disse.

O artigo Antioxidant and Anti-Inflammatory Activities of Unexplored Brazilian Native Fruits, de Juliana Infante, Pedro Luiz Rosalen, Josy Goldoni Lazarini, Marcelo Franchin e Severino Matias de Alencar, pode ser lido em http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0152974.

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sábado, 13 de maio de 2017

Arroz e feijão também opções em sistemas de produção agroecológicos

Embrapa

Duas das principais culturas do país nas pequenas propriedades e presenças assíduas na mesa dos brasileiros, o arroz e o feijão são também opções em sistemas de produção agroecológicos, a exemplo de outras culturas, em especial, hortaliças.

Em Goiás, a inserção do cereal e da leguminosa em sistemas agroecológicos, ou seja, dentro da perspectiva da diversificação de cultivos, da redução da dependência de insumos externos às propriedades rurais, da manutenção dos recursos naturais e do desenvolvimento local sustentável, já mostra ser favorável para transformar a realidade dos agricultores familiares, mas ainda há muito a ser feito.

Esse trabalho vem sendo aprimorado pela Embrapa, por meio de atividades de pesquisa, a fim de demonstrar alternativas para a inserção do arroz e do feijão nos sistemas agroecológicos. O foco do trabalho no momento se concentra, principalmente, em corredores agroecológicos e técnicas para uso de fertilizantes orgânicos. No entanto, o melhoramento de feijão nesses sistemas e a busca de materiais crioulos são trabalhos com grande potencial de impacto nos próximos anos, além do controle biológico de doenças do arroz.

Os corredores agroecológicos são uma estratégia de produção que combina cultivos alimentares intercalados e alternados com adubos verdes e plantas de cobertura do solo, dentre outros tipos de espécies vegetais. No caso da Embrapa em Goiás, o trabalho é feito com o estabelecimento de parcelas de arroz, feijão, crotalária e guandu. Como se trata de uma proposta de agricultura biodiversa, existe ainda a possibilidade de diferentes outras rotações como milho, mandioca, mucuna e milheto, por exemplo.

“A ideia dos corredores agroecológicos é viabilizar o equilíbrio ecológico de determinada área, conforme os interesses e possibilidades do agricultor. Tratos culturais e manejo poderão variar, mas a diversidade é buscada para facilitar o controle biológico de pragas e doenças, assim como o controle de plantas daninhas. A intenção é imitar o que existe na natureza”, afirmou o pesquisador responsável pelo trabalho, Agostinho Didonet, da Embrapa.

Além desses pontos destacados, um aspecto fundamental é a conservação de recursos naturais, principalmente, o solo. Todo manejo realizado com a inserção de adubos verdes está também voltado para o enriquecimento do solo com matéria orgânica e para o favorecimento da retenção de água, da reciclagem de nutrientes e do condicionamento químico, físico e biológico do solo.

Esse trabalho integra o projeto de pesquisa: “Corredores agroecológicos como estratégias para produção de alimentos e sementes, focados no manejo da agrobiodiversidade e sustentabilidade de pequenas propriedades familiares – Agrobio II”, coordenado pela Embrapa Cerrados, que abrange pequenas propriedades nos municípios de Catalão, Silvânia e Pirenópolis (GO).

Resíduo vira adubo

Complementar à estratégia de usar plantas que funcionam como adubos, os adubos verdes, para o manejo agroecológico do solo, a Embrapa vem estudando a viabilidade e o efeito de fertilizantes alternativos. O objetivo é ter opções que sejam de baixo custo e que proporcionem o reaproveitamento de resíduos já existentes nas propriedades, a fim de enriquecer o solo com nutrientes para as plantas crescerem e produzirem.

A pesquisadora da Embrapa, Flávia Alcântara, realiza estudos com fertilizantes orgânicos junto a propriedades familiares da região de Orizona (GO), buscando aproveitar como adubo resíduos advindos da pecuária leiteira, cultivos de grãos, hortaliças e fruteiras.

“A intenção é utilizarmos matérias primas locais, de preferência presentes nas próprias propriedades. A partir disso, avaliamos formulações e métodos de produção de composto orgânico. Em Goiás, especificamente, materiais muito comuns são esterco bovino, folhas de bananeira e capins diversos. Geralmente, utilizamos 25% de resíduos de origem animal para 75% de resíduos vegetais. As formulações também podem ser enriquecias com fontes minerais de fósforo, não sintéticas, como o termofosfato magnesiano, ou com pós de rocha”, disse Flávia.

Ela destacou ainda um dos diferenciais desse trabalho que é a participação dos agricultores. “Eles são experimentadores e, ao mesmo tempo, agentes de multiplicação dos métodos de produção e uso dos fertilizantes, capacitando outras pessoas em suas próprias propriedades, que se transformam em pólos irradiadores do conhecimento”, afirmou a pesquisadora.

Lourenço Sebastião de Mesquita, da Cooperativa de Agricultores Familiares de Buritizinho, município de Orizona, é uma dessas pessoas que participa do trabalho de pesquisa com fertilizantes orgânicos e acredita nos benefícios. “Eu creio que para o pequeno produtor seja uma das alternativas mais viáveis, porque há o aproveitamento de resíduos que existem na propriedade e, com isso, pode-se reduzir custos e melhorar a produção”, considerou Lourenço. As atividades com fertilizantes orgânicos das quais a pesquisadora Flávia coordena fazem parte do Projeto Compostar.

Mais de 400 participantes

No dia 17 de fevereiro, a Fazendinha Agroecológica da Embrapa, em Santo Antônio de Goiás (GO), recebeu mais de 400 pessoas interessadas em ver de perto os trabalhos com o plantio de diferentes espécies, buscando a segurança alimentar, o manejo de pragas e doenças; e a fertilidade e conservação de solo. Houve um dia de campo abordando os corredores agroecológicos, os fertilizantes orgânicos, e as variedades tradicionais e crioulas de arroz e de feijão para comunidades de agricultores.

Na ocasião, foram inaugurados o centro de treinamento da Fazendinha Agroecológica e a unidade de produção de fertilizantes orgânicos. Todas essas instalações foram conseguidas, a partir de emenda parlamentar aprovada pela senadora Lúcia Vânia que compareceu no dia de campo. Em pronunciamento, a senadora considerou que parte de seu trabalho é obter recursos para o desenvolvimento da pesquisa e da transferência de tecnologia no país e no Estado de Goiás, que tem vocação para o campo.

Por Rodrigo Peixoto, Embrapa Arroz e Feijão

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 06/03/2017

sábado, 15 de abril de 2017

Jovens agricultores do Piauí utilizam energia solar para cultivar produtos biofortificados

Com o objetivo de apresentar uma solução inovadora, que possibilite ao jovem rural uma fonte de renda segura que o mantenha no campo, a Embrapa, por meio do projeto Biofortificação de Alimentos (Biofort), implantou, em fevereiro de 2017, a primeira Unidade de Segurança Produtiva Solar, em Santo Inácio, na região Sul do Piauí.

Equipe na área de irrigação por meio de energia solar. Foto: Embrapa

Essas Unidades são pequenas áreas para cultivo em que são utilizadas todas as tecnologias necessárias para reduzir o risco de perda da produção em decorrência de alterações climáticas ou problemas no manejo.

O jovem produtor Henrique Lima César, egresso de Escola Família Agrícola, condição prioritária para a escolha, é um dos beneficiados com a implantação de uma Unidade de Segurança Produtiva Solar. Morador da comunidade Malhada do Juazeiro, em Santo Inácio, ele foi selecionado por meio da observância de aptidão e dedicação à produção agrícola e se a área em que produz apresenta riscos que impedem a efetiva produção agrícola, tais como ser em área de risco climático, acesso restrito a energia elétrica e composição familiar apta à produção agrícola.

Na área escolhida, o produtor tem água disponível para o cultivo irrigado por meio de gotejamento. O bombeamento da água é feito por meio de energia solar e ele utiliza tecnologias da Embrapa relacionadas a espaçamento e planta cultivares de feijão-caupi, batata-doce e macaxeira biofortificadas, com maior qualidade e melhor produtividade. “É um trabalho muito bom, pois tenho água durante dez horas por dia, o que dá uma média de 50 litros de água por dia para utilizar na irrigação. Com o kit de energia solar já estou ampliando meu projeto com mais produtos biofortificados e ampliando minha renda”, comenta.

A iniciativa pioneira na região é fruto de uma parceria entre a Embrapa, Fundação Dom Edilberto, Centro Educacional São Francisco de Assis (Cefas), Escola Família Agrícola de Santo Inácio e a Codevasf. Na ação, cada instituição parceira tem papel fundamental para a obtenção de resultados positivos. A Fundação Dom Edilberto realizou a perfuração de um poço tubular; a Escola Família Agrícola (EFA) promove a capacitação de jovens produtores; o Biofort propiciou o conjunto de bombeamento solar e as cultivares de batata-doce, feijão e macaxeira biofortificados; a Codevasf cedeu o kit de irrigação por gotejamento e o CEFAS promove a assistência técnica e acompanhamento ao produtor. Com a ação conjunta das instituições, o jovem produtor está satisfeito com a oportunidade, pois agora tem a garantia de que terá a colheita do que plantou.

De acordo com Marcos Jacob Almeida, analista da Embrapa Meio-Norte e articulador da ação, essa parceria entre as instituições visa demonstrar e promover um modelo produtivo capaz de gerar sustentabilidade econômica, social e ambiental, com potencial de tornar-se uma política pública em toda a região. “A sucessão familiar tem sido a maior ameaça à existência da agricultura familiar, os jovens estão buscando outras atividades devido aos elevados riscos para se produzir sob mesmas condições que seus pais trabalham. Sem que haja atrativos no meio rural como mecanismos que reduzam os riscos na produção, a tendência é chegarmos à condição futura de uma agricultura sem agricultores. Essa iniciativa é importante para que o jovem possa produzir e se manter no campo”, destaca Almeida.

Por Eugênia Ribeiro, jornalista
Embrapa Meio-Norte

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 04/04/2017

sábado, 1 de abril de 2017

Agricultura familiar e reforma agrária são os maiores produtores de orgânicos no Brasil

Fonte: RBA - Segunda-feira, 27 de Março de 2017 


São Paulo – Agricultores familiares e assentados da reforma agrária são os dois principais grupos responsáveis pelo aumento da produção de alimentos orgânicos no Brasil, que neste ano deve ultrapassar os 750 mil hectares registrados em 2016. Segundo a Coordenação de Agroecologia (Coagre) da Secretaria de Desenvolvimento Agropecuário e Cooperativismo (SDC) do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), no ano passado foram registradas 15,7 mil unidades com plantio orgânico no país, mais do que o dobro das 6,7 mil computadas em 2013.

“Os assentados da reforma agrária têm uma clara preferência em incentivar a produção orgânica. A ideia deles é produzir alimento com qualidade e preço acessível, não é uma visão elitista”, afirma Suiá Kafure da Rocha, especialista em políticas públicas e gestão governamental da Secretaria Especial de Agricultura Familiar e do Desenvolvimento Agrário (Sead). Segundo ela, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) está para se tornar o maior produtor de orgânicos do país, tendo como companhia a agricultura familiar. “O perfil dos agricultores familiares se encaixa com a agricultura orgânica. Junto com os assentados, são os dois pilares da revolução orgânica, é o público que mais produz.”

Criado em 2013, o Cadastro Nacional de Agricultores Orgânicos (CNPO) conta com cerca de 15 mil produtores inscritos, sendo quase 80% deles classificados como agricultores familiares. O sistema, entretanto, não permitir diferenciar quais são ligados a assentamentos da reforma agrária. “O cadastro dos produtores melhorou o acesso às informações sobre o número existente. Muitos agricultores vinham num processo de transição e adequação para a produção orgânica e agroecológica, e o aumento no número foi consequência do alcance do objetivo”, avalia a agrônoma Inês Claudete Burg, vice-presidente Regional Sul da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA).

Além dos assentados e dos agricultores familiares, completam o perfil dos produtores de alimentos orgânicos no Brasil os integrantes de ecovilas, normalmente formadas por jovens urbanos que vão para o meio rural, e a agricultura urbana e periurbana, desenvolvida por grupos que promovem hortas urbanas. Os diferentes perfis são unidos pelo desejo da alimentação saudável, combinada com uma visão de mundo comum. “Há também o discurso de voltar à terra, contra a semente transgênica e a agricultura industrializada, uma produção muito diferente do agronegócio, que é de monocultura, degrada a terra e os recursos naturais”, explica Suiá da Rocha.

De acordo com a Coagre, a região Sudeste é a que mais produz alimentos orgânicos, totalizando 333 mil hectares e 2.729 registros de produtores no Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos (CNPO). Na sequência estão as regiões Norte (158 mil hectares), Nordeste (118,4 mil), Centro-Oeste (101,8 mil) e Sul (37,6 mil). 

As razões do crescimento

Na opinião da especialista em políticas públicas e gestão governamental da Secretaria Especial de Agricultura Familiar e do Desenvolvimento Agrário (Sead), a explicação do grande aumento da produção de alimentos orgânicos no Brasil é consequência de uma série de ações, sendo a principal a preocupação com a alimentação saudável. “O principal fator é a saúde, tanto do trabalhador rural quanto dos consumidores. Do trabalhador, pelo uso de agrotóxicos; para os produtores, há esse estímulo, e os consumidores também passaram a ter uma desconfiança dos alimentos produzidos de modo tradicional e que causam uma série de doenças”, afirma Suiá da Rocha.

Para a agrônoma Inês Claudete Burg, o aumento é fruto de um longo trabalho, tanto em relação à prestação de assistência técnica especializada, como também às conquistas de políticas públicas que incentivam a produção orgânica e agroecológica. “Os consumidores de forma geral têm sido alertados da importância do consumo de alimentos produzidos em sistemas orgânicos e agroecológicos, pelos benefícios à saúde e ao meio ambiente, contribuindo assim com o aumento do consumo e da demanda na produção e diversificação da oferta”, explica a agrônoma.

A lei 10.831/2003, sancionada ainda no primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, regulamenta a produção orgânica no país. A partir da lei, diversas ações começaram a ser colocadas em prática para estimular a produção de alimentos orgânicos, como a criação, em 2007, do Sistema Brasileiro de Avaliação da Agricultura Orgânica e, principalmente, a instituição da Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Pnapo), em 2012, já no governo da ex-presidenta Dilma Rousseff.

No ano seguinte, o lançamento do 1º Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Planapo 2013-2015) investiu cerca de R$ 2,5 bilhões, com 125 ações e beneficiando em torno de 600 mil agricultores. “O Plano é a concretização de muita luta e representa a articulação das diversas frentes que trabalham com a produção agroecológica e orgânica no país”, afirma a representante da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA).

Atualmente, está em execução o 2º Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica, que abrangerá o período de 2016 a 2019, com programas e ações que tem como objetivo contribuir para o aumento da oferta. A meta é alcançar até um milhão de produtores agroecológicos, com assistência técnica e extensão rural.

“Os consumidores a cada dia têm mais preocupação com a qualidade de vida e uma alimentação saudável”, analisa Suiá da Rocha, destacando a relação entre oferta e demanda, responsável por existir hoje em torno de 600 feiras semanais de produtos orgânicos no país todo, além da maior entrada dos alimentos nos mercados. “Existem várias formas de comercialização, esse produto não fica parado, inclusive falta mais oferta, porque a demanda é muito grande.”

Compra garantida

Além do crescimento das feiras e do aumento das vendas nos mercados, os grandes incentivos à produção de alimento orgânico no Brasil são o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae). Ambos consistem em sistemas de compras institucionais do Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário (MDS) e os produtos orgânicos podem ter um acréscimo de até 30% em seu valor. O PAA é exclusivo para agricultores familiares, enquanto no Pnae esse índice é de 30%. “São programas que privilegiam a agricultura familiar e, portanto, a produção de base agroecológica”, explica Suiá da Rocha, especialista em políticas públicas e gestão governamental da Sead. “É a garantia da venda. Esses produtos vão para bancos de alimentos e pessoas com insegurança alimentar, tendo como destino creches, orfanatos, asilos, restaurantes populares.”

Apesar da importância dos dois programas no estímulo à produção de alimento orgânico no Brasil, o governo de Michel Temer efetuou um corte de 30% no orçamento de ambos para 2017, em comparação com o orçamento de 2016. “É uma pena que o PAA tenha tido um corte de 30% na lei orçamentária desse ano”, avalia Suiá da Rocha, lembrando que já havia ocorrido corte em 2015, mas o de agora foi superior. Antes de 2015, o valor investido vinha sendo maior a cada ano.

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sábado, 18 de fevereiro de 2017

Agricultores familiares produzem mais de 70% dos alimentos, diz estudo

IHU

Pesquisadores da UFPB e da USP revisam dados do Censo Agropecuário 2006 e dizem que estimativa do IBGE subestimou papel dos pequenos.

Os camponeses têm pouca terra, mas colocam bem mais que 70% dos alimentos na nossa mesa, defendem os autores do artigo “Quem produz comida para os brasileiros? 10 anos do Censo Agropecuário 2006”

A reportagem é de Inês Castilho, publicada por De Olho nos Ruralistas, 05-02-2017.

O Censo Agropecuário 2006 dizia que os agricultores familiares eram responsáveis pelo cultivo de 70% dos alimentos que chegam à nossa mesa. Foi o último censo realizado no país, e uma das principais referências sobre o campo. Dez anos depois, pesquisadores relançam a pergunta: “Quem produz os alimentos que compõem a cesta básica nacional?”

Para Marco Antonio Mitidiero Junior, Humberto Junior Neves Barbosa (ambos da Universidade Federal da Paraíba) e Thiago Hérick de Sá (da Universidade de São Paulo), a participação do campesinato é bem maior do que isso.

Para ver onde se concentram o volume e o valor dessa produção, eles trabalharam os dados do Censo 2006 a partir de outra metodologia. Eles dizem que as que foram usadas pelo IBGE para analisar os dados apurados pelo Censo “visaram esconder e deturpar o papel preponderante da pequena produção”.
Arroz, feijão e mistura

Os dados revelam que alimentos presentes no dia a dia à mesa dos brasileiros, em todo o país, são produzidos nos pequenos estabelecimentos rurais (área de 0 a 200 hectares). Várias espécies de feijão são cultivadas principalmente pelos pequenos: 88,1% do feijão-preto e 88,9% do feijão-fradinho, por exemplo.

O arroz em casca tem grande participação dos grandes – aqueles com propriedades acima de 1.000 hectares -, com 30% do total. Mas ainda assim a superioridade é dos pequenos: 42,3%. Os médios (200 a 1000 ha) produzem 27%.

Mais marcante é a supremacia da pequena produção na horticultura. Para citar os que mais frequentam nossa mesa: 98,2% do alface, 98,4% do repolho, 96% da berinjela, 95% da abobrinha, 86,8% da cenoura, 81,7% do tomate (estaqueado), 96,4% da pimenta, 90,8% da mandioca, 57% do milho, 94,1% da cebola, 73,3% do tomate (rasteiro) e 55,4% da batata inglesa são cultivados nos pequenos estabelecimentos rurais.

Quanto à carne, os pequenos são responsáveis por 88,7% da produção de aves, 84,3% da produção de suínos e 39,0% da de bovinos. “Até na criação bovina, palco das megafazendas e dos famosos fazendeiros pecuaristas que marcam o imaginário social, os pequenos produtores, com área até 200 ha, superam produtivamente as grandes áreas”, ressaltam os pesquisadores.
Menos terra, menos recursos, mais emprego

“Os sujeitos que produzem mais alimentos são os que possuem menos terra (geralmente terras menos favorecidas do ponto de vista da fertilidade, acesso à água, localização geográfica, etc.) e são menos assistidos pelo Estado”, sustentam os autores.

“Aqueles que detêm a maior parte das terras não são os maiores produtores de comida, porém são os que recebem a maior fatia dos recursos para financiamento. Ao contrário, os que possuem a menor porção das terras são os que mais produzem, contudo recebem bem menos financiamentos para produção”.

Os dados do IBGE mostram o peso da concentração agrária do país: pequenos produtores, 90,2% do total das unidades de produção, ocupam 29,9% da área total da agricultura do país. Já os grandes, 0,9% das propriedades rurais, dominam 45% da área. Os médios são 4% dos estabelecimentos, em 25,1% da área.

“Apesar disso, a agricultura familiar é responsável por 74,4% (12,3 milhões de pessoas) da ocupação laboral no campo, dominando a geração de trabalho/emprego”, apontam os pesquisadores.
Financiamento para os grandes

Os pesquisadores informam que os pequenos correspondem a 92,5% (849.754) dos estabelecimentos que receberam financiamento, embora tenham recebido apenas 36,7% do valor disponibilizado.

Os médios correspondem a 3,7% (34.443) dos estabelecimentos que receberam financiamento. Mas receberam 18,9% dos recursos.

Os grandes abocanharam 44,1% dos recursos oferecidos, embora representem apenas 0,9% (8.444) dos estabelecimentos que receberam financiamento.

Cada estabelecimento pequeno que recebeu financiamento teve, em média, R$ 9.252 reais. Essa média aumenta mais de dez vezes no caso dos médios, que receberam R$ 117.138, e mais de cem vezes no caso dos grandes: R$ 1.117.433.

(EcoDebate, 08/02/2017) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Produção caseira de feijão

Texto:
Maria Beatriz da Silva Pereira - acadêmica de agronomia - Universidade de Taubaté

Os feijões representam uma ótima escolha para os jardineiros iniciantes que buscam estilo de plantio caseiro, por ser planta de fácil plantio, manutenção e colheita. O feijão comum (Phaseolus vulgaris) é cultivado para a obtenção e o consumo de suas sementes. Deve sua alta aceitabilidade ao fato de apresentar alto valor nutritivo. 

Cultivado no continente americano desde a antiguidade, o feijão é, atualmente, uma das mais populares sementes destinadas à alimentação, sendo cultivado praticamente no mundo todo. Existem milhares de cultivares, as quais podem ser agrupadas em diferentes, tipos de acordo com a coloração, o sabor, a forma e o tamanho. 

Basicamente, existem dois tipos gerais de feijões: os feijões de corda e os feijões de vagem. A diferença entre eles é que os feijões de corda devem ser primeiramente removidos da vagem para depois serem consumidos, enquanto os feijões de vagem são consumidos dentro da vagem. Ambos podem crescer, tanto em rama quanto em arbusto. 

PREPARANDO-SE PARA PLANTAR: 

1. Escolha do local de plantio: os feijões são plantas flexíveis, capazes de crescer tanto sob o sol quanto à sombra. Quando possível, deve ser feita a escolha de um local do jardim sob luz solar total ou parcial. No entanto, em regiões com maior intensidade de radiação solar, pode ficar parcialmente sombreado por plantas mais altas cultivadas na mesma área. 

2. Saiba quando plantar: os feijões devem ser plantados após o último período de friagem, geralmente nos meses de primavera, de setembro a outubro. A temperatura deve ficar entre 15°C e 30°C durante todo o ciclo de cultivo da planta, sendo ideais as temperaturas entre 18°C e 25°C. 

3. Saiba quanto plantar: os feijões são uma das poucas espécies que não devem ser plantadas em mudas e posteriormente transplantadas, pois possui estrutura de raízes muito delicada e que não sobrevive ao transplantio. Por isso, as sementes devem ser plantadas diretamente no chão quando entrar a primavera. 

4. Preparo do solo: os feijões crescem melhor em solo bem drenado, fértil, rico em matéria orgânica e com pH ideal entre 5,5 a 6,5. Para preparar seu solo, recomenda-se misturar composto para jardim e solo vegetal no local do plantio. Deve-se usar enxada para quebrar qualquer grumo de argila e, então, deixar a terra pronta para receber as sementes. 

PLANTIO: 

1. Semeie as sementes diretamente no local definitivo, a profundidade de 3 a 7 cm. Profundidades menores para solos mais pesados e profundidades maiores para os mais leves. Recomenda-se optar pela colocação de uma semente por cova, para evitar a competição por nutrientes entre as mudas, à medida que crescem. Cubra cada semente com cerca de 2 a 5 cm de terra vegetal. 

2. Logo após o plantio, as sementes devem ser regadas para ajudar na germinação. Depois de plantar, deve-se regar regularmente a área plantada, uma vez a cada 2 a 3 dias. Manter sempre o solo úmido, mas nunca encharcado, pois o excesso de água no solo favorece o apodrecimento das raízes. A germinação ocorre normalmente em até duas semanas. 

MANUTENÇÃO: 

1. Cobertura vegetal: feita a partir de compostos orgânicos, a cobertura vegetal é uma camada de cascas e nutrientes adicionadas à terra do jardim assim que as primeiras sementes brotam do solo. É uma ferramenta extremamente útil com a finalidade de bloquear as ervas daninhas e evitar a perda de umidade no solo, duas coisas boas para plantas em crescimento. Espalha-se uma camada de cobertura vegetal de 2,5 cm de profundidade sobre o solo do jardim depois que as sementes tenham crescido alguns centímetros de altura. 

2. Tratos culturais: fazer regularmente a limpeza da área retirando as plantas invasoras que estiverem concorrendo por recursos e nutrientes, especialmente no primeiro mês de cultivo. 

COLHEITA: 

A colheita depende da variedade cultivada e das condições de cultivo, sendo feita geralmente de 80 a 100 dias após a germinação. As vagens que se encontram secas, podem ser colhidas manual e individualmente no plantio caseiro, diferente de maiores plantações em que a colheita só é realizada quando 90% das vagens se encontram secas. Também é possível colher antecipadamente, quando as vagens ainda estão amareladas, e então, deixar as plantas cortadas ou arrancadas secarem completamente ao sol.
Foto da autora: feijão colhido no quintal.


terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Consciência Negra: mais valor à agricultura familiar de comunidades quilombolas

Fonte: CONSEA - Segunda-feira, 28 de Novembro de 2016 


Este mês de novembro marca as comemorações pelo Dia Nacional da Consciência Negra (20 de novembro). A data lembra a morte de Zumbi dos Palmares, ocorrida no ano de 1695. Zumbi foi um dos líderes do Quilombo dos Palmares, que lutou pela libertação dos negros escravizados durante o período colonial no Brasil.

Além de importantes na luta e resistência à escravidão, os quilombos também foram espaços de preservação da cultura afro-brasileira, inclusive na área alimentar. E muitos não acabaram com a morte de Zumbi, persistindo até os dias atuais.

Atualmente existem mais de 2.600 comunidades quilombolas certificadas pela Fundação Cultural Palmares, órgão do Ministério da Cultura. Os estados brasileiros com a maior quantidade de comunidades são Maranhão, Bahia, Pará, Minas Gerais e Pernambuco. 

Agricultura familiar

A agricultura familiar representa uma importante fonte de renda para os quilombolas. Artesanato, extrativismo, produção cultural, turismo social e venda de produtos feitos pelas comunidades também são alternativas para complementar a renda. Na comunidade rural quilombola Chácara Buriti, localizada a 27 quilômetros de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, a economia local vem da produção de hortaliças. Alface, salsinha, cebolinha, coentro, rúcula, repolho, almeirão, pimentão, tomate, berinjela, milho, mandioca e quiabo são alguns dos alimentos produzidos pelo quilombo.

“Com mais de 76 anos de existência e reunindo 20 famílias, a comunidade Quilombola Chácara Buriti está em pleno desenvolvimento por meio de sua agricultura familiar. Hoje, a produção da comunidade é comercializada por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), em mercados e em fazendas da região”, afirma o coordenador-geral das Comunidades Negras Rurais Quilombolas do Estado e morador da comunidade, Antônio Borges dos Santos.

As comunidades quilombolas brasileiras contam com uma série de ações do Governo Federal para fortalecer a valorização e preservação cultural, a produção regional e o desenvolvimento sustentável. Entre elas, está o Selo Quilombos do Brasil que identifica os produtos agrícolas, artesanais e alimentícios produzidos por essas comunidades tradicionais. 

De acordo com Antônio Borges, a comunidade Chácara Buriti foi a primeira a receber do então Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), que passou a ser a Secretaria Especial de Agricultura Familiar e do Desenvolvimento Agrário (Sead), o selo Quilombos do Brasil. “Com o selo, ficou muito mais fácil a comercialização das mercadorias, além de agregar valor ao produto também é um instrumento importante para o reconhecimento da identidade quilombola”, destaca.

Identidade cultural

O Selo Quilombos do Brasil, criado no âmbito do Programa Brasil Quilombola (PBQ), é um certificado de origem que tem como objetivo atribuir identidade cultural aos produtos de procedência quilombola. Para o presidente da Fundação Palmares, Erivaldo Oliveira, a certificação agrega valor aos produtos e resgata a cultura quilombola. “O selo é de fundamental importância porque a gente quer transformar todas as comunidades quilombolas em autossustentáveis. O certificado de origem vai fortalecer cada vez mais e beneficiar os grupos de produção agrícola familiar”, reforça. 

Erivaldo comenta que em suas viagens pelo Brasil ele tem observado que muitas comunidades quilombolas estão perdendo as suas características. “Com este selo, queremos valorizar a produção e resgatar a identidade étnica e cultural dessas comunidades. O certificado também estimula os quilombolas que ainda não estão organizados a se organizarem para incorporarem o selo na sua produção”. Segundo ele, uma das vantagens é a possibilidade de aumentar a renda dessas famílias. 

Acordo de cooperação

Com o intuito de promover e consolidar o Selo Quilombos do Brasil está previsto a assinatura de um acordo de cooperação técnica entre a Fundação Palmares e a Sead. “Este acordo de cooperação é de grande importância para o desenvolvimento agrícola do nosso país. A previsão é que a assinatura seja realizada nos próximos dias. Vamos divulgar o selo na Virada Cultural, em Salvador (BA), que acontece entre os dias 9 e 11 de dezembro”, frisa. 

Para requisitar o selo Quilombos do Brasil, o solicitante precisa comprovar que o produto é sustentável, agrega valores étnicos e culturais, além de ser feito com matérias-primas locais. A partir da solicitação, a Sead terá até 60 dias para se manifestar quanto à aprovação. A certificação terá validade de cinco anos e será permitida para a identificação de produtos como verduras, legumes, polpas de frutas e laticínios, artesanato, geleias e doces, entre outros. 

Dia da Consciência Negra 

O presidente Erivaldo Oliveira aproveitou a ocasião para destacar que o Dia da Consciência Negra para a Palmares são todos os dias. “A gente luta diariamente pela valorização da nossa cultura, a salvaguarda de nossas manifestações culturais, a produção de nossas culturas. 

No dia 20 de novembro é dia de celebração ao nosso herói maior, que foi Zumbi dos Palmares. Precisamos cada vez mais fortalecer essa luta pelos direitos quilombolas. E a Fundação Palmares conta com o apoio de todos os ministérios para implementar políticas públicas em benefício das comunidades quilombolas”, finaliza.

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Banco Mundial ajuda 40 mil agricultores de Santa Catarina a aumentar produtividade

Fonte: ONU BR - Sexta-feira, 16 de Dezembro de 2016 


Em Santa Catarina, 40 mil pequenos agricultores são atendidos por uma parceria entre o governo do estado e o Banco Mundial. Os beneficiários recebem capacitação para aumentar a produtividade dos negócios. Iniciativa também promove a inserção dos alimentos desses fazendeiros nos mercados regionais. Entre os produtores participantes, 4,8 mil são indígenas e 1,3 mil são jovens.

A agência da ONU lembra que, no mundo, 70% das pessoas pobres trabalham no campo. O cenário exige mais investimentos e políticas para retirar essa população da miséria.

Criada há 30 anos, a iniciativa SC Rural é resultado de uma cooperação entre as autoridades públicas e o Banco Mundial. O organismo financeiro considera o projeto uma experiência de sucesso, capaz de indicar caminhos de desenvolvimento para a agricultura em outras partes do mundo.

Uma recente avaliação de impacto revelou que, em cinco anos, a renda dos catarinenses atendidos pelo programa aumentou 118%, enquanto a dos agricultores não beneficiados subiu 56%. O números são fruto de uma combinação de investimentos, que se dividem entre a formação da juventude campesina e de novos empreendedores no campo e a melhoria da infraestrutura estadual.

Capacitação

Com o que aprendeu em oito meses num curso para jovens agricultores, Adriano Heerdt conseguiu aumentar a produção de leite, diminuir o custo, melhorar as pastagens e resolver alguns problemas de saúde das vacas de que cuida.

A capacitação, oferecida pelo SC Rural, combina aulas com atividades práticas, no campo, para levar informações de confiança a um público que nem sempre tem acesso a educação formal, televisão ou internet.

“Fui aplicando as técnicas que me ensinavam e via que dava certo. Hoje, cada vez mais procuro me aperfeiçoar porque tudo dá retorno para a gente”, conta Adriano.

O Banco Mundial aponta que o conhecimento sobre as melhores práticas produtivas, bem como o acesso a novas tecnologias e oportunidades de mercado são elementos-chave para que agricultores familiares possam competir no mercado de alimentos e aumentar a renda.

“Em Santa Catarina, o foco deixou de ser somente em produção agrícola e passou a incluir o agronegócio (ou seja, produção e processamento) e os jovens rurais. Isso deveria ser uma estratégia a seguir no resto do Brasil e no mundo em desenvolvimento”, comenta o economista do organismo financeiro, Diego Arias.

Juventude no campo

Atualmente, 9,6 milhões de jovens entre 15 e 29 anos vivem da agricultura nos 20 países latino-americanos. Somente no Brasil, eles somam 2,3 milhões. O total regional caiu 20% na última década, segundo o estudo Juventude Rural e Emprego Decente na América Latina, publicado este ano pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

O documento explica que, embora pareça haver um “fenômeno de jovens empreendedores rurais que conseguem fazer um negócio decolar”, tal conquista não é fácil e esbarra nas dificuldades de infraestrutura do campo. Uma das iniciativas apontadas como necessárias são incentivos na forma de programas de orientação e financiamento para a juventude.

No SC Rural, foi exatamente esse apoio que Jaqueline Grapiglia, de 25 anos, encontrou para expandir os negócios da família. Quando o pai conseguiu montar uma padaria em casa por meio do programa, a jovem viu a oportunidade de voltar para o campo.

Formada em administração e pós-graduada em gestão estratégica, ela também fez o curso de empreendedorismo para jovens, que financia as melhores ideias elaboradas pelos alunos. Como projeto final, criou uma loja de quitutes e agora sonha em abrir um café colonial. “O agricultor só vai ficar no campo se tiver perfil para empreender”, aposta Jaqueline.

Simplicidade inovadora

O Banco Mundial lembra que, com tecnologias simples, já dá para aumentar o rendimento, ter um produto de melhor qualidade, trabalhar menos tempo e poupar a saúde dos agricultores. Novas ferramentas, como radares e drones, também ajudam fazendeiros a enfrentar as mudanças climáticas e poupar recursos naturais.

Esses utensílios de ponta já são utilizados por grandes produtores, mas ainda são uma realidade distante para a agricultura familiar. Para reverter esse cenário, Santa Catarina criou o Núcleo de Inovação Tecnológica para Agricultura Familiar, organismo que cria pontes entre camponeses e startups locais para levar tecnologia ao campo a preço e escala acessíveis.

“Meu sonho é ver o pessoal usando a nossa tecnologia, que é nacional e nasceu na universidade”, comenta o diretor-executivo da Q Prime Engenharia, Vitor Miranda. A empresa foi criada na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Atualmente, a companhia está adaptando para os pequenos produtores catarinenses uma máquina de secagem de alimentos, muito usada para erva-mate e outras. O equipamento deixa o produto mais homogêneo e economiza energia. “Como é complicado chegar até os agricultores porque é muita gente espalhada pelo estado, o SC Rural pode facilitar esse contato”, conclui Miranda.

Acesso a mercados

Quando Andreia Colle e o marido tiveram de fechar o próprio aviário por não terem condições de cumprir as exigências da grande empresa para a qual vendiam, encontraram no SC Rural a chance de recomeçar com um trabalho mais rentável.

Com apoio do programa, estruturaram e equiparam uma pequena agroindústria de embutidos de porco, de onde saem salames, torresmos, lombos e outros produtos oferecidos tanto no comércio local quanto na merenda escolar das escolas públicas.

Nos últimos quatro anos, também fizeram cursos que, segundo Andreia, ajudaram os Colle a encontrar seu público-alvo, produzir com mais qualidade e a gerenciar o negócio de forma profissional. O próximo desafio é aumentar a quantidade de pontos de venda, mas sem perder de vista o jeito colonial dos itens produzidos pela família.

Outro tema importante na discussão sobre acesso a mercados são os desafios da infraestrutura local. O SC Rural melhorou 400km de trechos de estradas rurais para que os agricultores possam escoar a produção com mais facilidade, além de aprimorar também as telecomunicações do campo.

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Parlamento latino-americano adota lei modelo para promoção da agricultura familiar

Fonte: ONU Brasil - Segunda-feira, 19 de Dezembro de 2016 

Os membros do Parlamento Latino-Americano e Caribenho (Parlatino) aprovaram de forma unânime uma lei modelo de agricultura familiar, a qual inclui recomendações e diretrizes para que os países fortaleçam esse setor-chave para a segurança alimentar, afirmou na segunda-feira (12) a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

A lei foi votada em 3 de dezembro durante a 32ª Assembleia Geral do Parlatino realizada na Cidade do Panamá, e seu texto reconhece que “a agricultura familiar é chave para obter a erradicação da fome por sua capacidade de prover alimentos saudáveis e nutritivos para toda a população”.

Segundo a FAO, a nova lei modelo estabelece princípios básicos, definições e obrigações que os Estados nacionais podem utilizar como base para criar ou aperfeiçoar suas leis, políticas e estratégias de agricultura familiar. A lei será enviada pelo Parlatino aos legisladores dos 23 países-membros desse organismo regional, entre eles o Brasil.

“Esta lei regional promove a pesquisa agropecuária, a assistência técnica e o assessoramento e transferência de tecnologia para os agricultores familiares”, explicou a presidente do Parlatino, a senadora mexicana Blanca Alcalá.

O Parlatino já conta com duas outras leis ligadas à segurança alimentar e nutricional: a lei marco do direito à alimentação, segurança e soberania alimentar de 2012, e a lei marco de alimentação escolar, aprovada em 2013.

A República Dominicana baseou-se nelas para criar seu Sistema Nacional para a Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (SINASSAN). “(A lei) nos deu uma visão regional e os argumentos necessários para sustentar a lei no Congresso dominicano”, explicou Guadalupe Valdez, ex-deputada da República Dominicana e embaixadora especial fome zero da FAO.

Para a FAO, esta nova legislação representa um passo decisivo para a região, consagrado no objetivo principal da lei marco: que os Estados garantam de forma permanente e com caráter de prioridade nacional a preservação, promoção e desenvolvimento da agricultura familiar, a partir do reconhecimento de sua importância como modo de vida e atividade produtiva.
Respeitar os direitos de indígenas, mulheres e jovens

O texto aprovado pelo Parlatino destaca que o desenvolvimento da agricultura familiar inclui o uso de conhecimentos, tecnologia e boas práticas que respeitem a cultura, as tradições e os hábitos das comunidades, e contribuam para seu crescimento e desenvolvimento.

A nova lei coloca ênfase especial na atenção específica que deve ser dada às pessoas em estado de vulnerabilidade, como mulheres e jovens.

Segundo o Parlatino, o fortalecimento da produção agrícola familiar rural supõe o direito ao acesso equitativo a todos os recursos naturais e seu uso sustentável, respeitando e priorizando os direitos das comunidades tradicionais indígenas.

A lei também destaca como uma de suas diretrizes básicas o fato de que a busca da suficiência alimentar dos núcleos familiares rurais deve ser complementada com o direito a uma efetiva e justa redistribuição dos excedentes e demais produtos que comercializarem.
A agricultura familiar e a segurança alimentar e nutricional

Segundo a FAO, a agricultura familiar é chave para erradicar a fome e a má-nutrição na América Latina e no Caribe, além de ser importante fonte do emprego agrícola e rural. Em alguns países latino-americanos e caribenhos, os agricultores familiares produzem até 70% dos alimentos que compõem a cesta básica.

No entanto, o setor ainda enfrenta sérias limitações em termos de acesso a recursos produtivos, serviços sociais, infraestrutura básica, serviços financeiros e de extensão.

Em reconhecimento à importância que esse setor tem para a erradicação da fome, muitos países da região aumentaram seu apoio, potencializando sua institucionalidade e fortalecendo suas capacidades.

Segundo a nova lei modelo do Parlatino, esse setor da agricultura frequentemente desenvolve atividades agrícolas diversificadas, o que lhe outorga um papel fundamental na hora de garantir a sustentabilidade do meio ambiente e a conservação da biodiversidade.

“A agricultura em pequena escala deve estar no centro das políticas agrícolas, ambientais e sociais dos governos”, disse a senadora mexicana Luisa María Calderón da Comissão de Agricultura, Pecuária e Pesca do Parlatino.

Luisa María Calderón é também membro das Frentes Parlamentares contra a Fome (FPH), que reúne parlamentares de toda a região e que faz parte de uma aliança estratégica com o Parlatino e a FAO, cujo objetivo é que os países gerem políticas nacionais e regionais para erradicar a fome e a má-nutrição na região.

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segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Tradição que conserva


Campinas, 02 de dezembro de 2016 a 18 de dezembro de 2016 – ANO 2016 – Nº 677

Pesquisa aponta importância do papel das populações tradicionais nas ações de combate à erosão genética vegetal

Texto: Manuel Alves Filho Fotos: Divulgação Antonio Scarpinetti Edição de Imagens: André Vieira
No Brasil, assim como no restante do mundo, os bancos de germoplasma, unidades que armazenam recursos genéticos de plantas, não constituem instrumentos de conservação da agrobiodiversidade se não estiverem associados a outras ações de preservação que levem em conta o papel das populações tradicionais e os seus sistemas de cultivo. A constatação faz parte da tese de doutorado da antropóloga Laura Rodrigues Santonieri, defendida em 2015 no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, sob a orientação do professor Mauro William Barbosa de Almeida. De acordo com o trabalho, a circulação do material genético contido nessas coleções obedece principalmente à lógica comercial, que produz mais homogeneidade que diversidade. A pesquisa foi contemplada recentemente com o Prêmio Capes de Tese, na Área de Antropologia e Arqueologia.

A conquista do Prêmio Capes, conforme Laura, foi um importante reconhecimento ao trabalho. “Fiquei muito feliz com a premiação, visto que o desenvolvimento da pesquisa foi muito desafiador”, relata. A antropóloga procurou identificar a interface entre os sistemas agrícolas tradicionais, as instituições públicas de pesquisa e as políticas científicas que operam sobre a diversidade agrícola do país. Ela queria entender qual era o papel desempenhado por esses atores no combate ao crescente processo de erosão genética vegetal. “Um aspecto que pude constatar é que a relação entre esses segmentos frequentemente é marcada pelo conflito”, revela.

A falta de entendimento ocorre, acredita a antropóloga, pela própria tradição da ciência agrícola, que foi criada sob os auspícios do conceito do desenvolvimentismo e do discurso do combate à fome mundial. “Isso vem desde a criação da FAO [Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura], em 1945. Os pesquisadores que atuam na área têm compromisso com metas e resultados que contribuam para o cumprimento de objetivos como o desenvolvimento de cultivares melhoradas de alto rendimento capazes de aumentar a escala de produção. Desse modo, poucos pesquisadores possuem interesse em conhecer e investigar mais profundamente os sistemas agrícolas tradicionais. Normalmente, eles se limitam a coletar material e só”, explica.

Do lado dos agricultores familiares e tradicionais e grupos de pesquisa parceiros, acrescenta Laura, também há resistência em relação aos cientistas de instituições de pesquisa agrícola como a Embrapa, que normalmente são classificados numa única categoria: a de prepostos dos interesses do agronegócio. “Existe uma clara falta de diálogo entre os atores envolvidos com o tema da agrobiodiversidade. Penso que é preciso construir pontes que permitam uma interlocução mais efetiva entre eles, tendo a conservação da agrobiodiversidade como um objetivo comum e possível”, considera a autora da tese.

Em seu trabalho, Laura desenvolveu uma pesquisa etnográfica na Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, instalada em Brasília. Lá, ela entrevistou pesquisadores e conheceu alguns dos estudos desenvolvidos na unidade. Além disso, a antropóloga também realizou uma ampla revisão bibliográfica sobre o tema “Aquela unidade da Embrapa é muito fechada e muito permeável a questões políticas porque dispõe da coleção de base do país e é responsável por coordenar as atividades de todos os bancos de germoplasma do Sistema Nacional de Pesquisa Agropecuária, que é bastante diversificado. É a partir dos bancos de germoplasma (só a Embrapa tem 46 unidades) que são desenvolvidas novas variedades e cultivares lançadas no país. Ocorre que as tecnologias geradas a partir das sementes armazenadas estão voltadas principalmente às necessidades da indústria da agricultura. As pesquisas são, em boa medida, orientadas por um interesse marcadamente comercial”, aponta.
Esse interesse comercial se revela, com frequência, na cooperação com empresas nacionais e estrangeiras que investem recursos no desenvolvimento de sementes mais resistentes e produtivas, mas que são inférteis [híbridas]. “Ou seja, as plantas originárias dessas sementes não geram sementes que possam ser utilizadas para a produção de outra safra. Isso obriga o agricultor a comprar mais sementes para fazer um novo plantio. Por outro lado, ao favorecer a monocultura em escala industrial, esse processo gera homogeneidade. É por isso que um banco de germoplasma não pode ser considerado, por si só, um recurso contra a erosão genética”, reforça.

Ao questionar os pesquisadores da Embrapa sobre esse ponto, a autora da tese ouviu de boa parte deles que o principal compromisso da estatal é garantir a segurança alimentar e combater a fome no Brasil. “Não duvido que isso esteja sendo feito e nem da importância desse posicionamento. Ocorre, porém, que esses objetivos não estão sendo alcançados. Dados recentes revelam que 3/4 das pessoas que passam fome no mundo vivem no campo, o que é uma imensa contradição, visto que essas pessoas são agricultores”, destaca.

Ainda em relação ao banco de germoplasma, Laura lembra que as coleções nele contidas estão disponíveis somente às instituições pesquisa e empresas. “As comunidades e populações tradicionais dificilmente conseguem ter acesso às sementes. Esse acesso seria importante e ajudaria a conservar a agrobiodiversidade, uma vez que essas comunidades fazem as variedades circular. Em algumas comunidades do Rio Negro, por exemplo, quando a mulher se casa e muda de localidade, ela ‘ganha uma roça de mandioca da sogra’. Só depois de um tempo ela busca a ‘sua roça’. As dinâmicas locais são importantes porque a circulação ajuda a gerar diversidade e assim garantir a sobrevivência de muitas espécies”.

Ademais, as variedades melhoradas a partir das plantas e sementes coletadas em determinadas regiões há dez ou quinze anos nem sempre apresentam bom desempenho em relação às condições locais quando são reinseridas, como alerta Laura. De acordo com ela, assim que uma planta é coletada, ela cessa sua evolução. “Essa planta deixa de dar seguimento, por exemplo, ao processo de adaptação às mudanças climáticas, ao contrário do que ocorre quando ela está sob cultivo. É esse processo evolutivo que assegura a sua adaptabilidade e resistência. Nada garante que uma semente melhorada a partir de uma planta que não passou por esse processo terá condições de sobreviver na região da coleta daqui a dez anos”, compara.

A lógica desenvolvimentista que influenciou ciência agronômica, contínua a autora da tese, tende a encarar o mundo como se ele fosse uma máquina. “O que a comunidade científica afirma é que sem a tecnologia agrícola não seria possível garantir a segurança alimentar e o combate à fome. Entretanto, caminhos alternativos jamais foram testados em larga escala. O discurso que defende unicamente essa visão, no meu entender, deixa de fazer uma reflexão crítica sobre os processos que estão sendo gerados por esse modelo de pesquisa. Uma coisa é usar a ciência para fazer o melhoramento genético de uma variedade de milho, de modo que ela se adapte às características de uma colhedeira. Outra é usar a ciência para fazer o melhoramento do milho com o objetivo de aumentar o seu valor nutritivo com vistas ao incremento da alimentação humana, sem inferir na sua fertilidade”, pondera.

Apesar de criticar na tese a visão utilitarista da ciência, Laura volta a ressalvar que nem todos os pesquisadores da Embrapa defendem uma mesma posição. “Muitos deles estão de fato preocupados com a conservação da agrobiodiversidade e reconhecem a importância do papel dos sistemas agrícolas tradicionais. Da mesma forma, temos muitas ONGs, como o ISA [Instituto Socioambiental] e o CAA/NM [Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas], que atuam igualmente nessa frente. O grande obstáculo ao avanço dessa visão, vale reafirmar, está na combinação da forte tradição da ciência agrícola, da qual é muito difícil se desvencilhar, com a falta de conexões que permitam um diálogo profícuo entre os setores envolvidos com a conservação da agrobiodiversidade”, diz.

Ainda no que toca à questão mercadológica da ciência agronômica, Laura cita que no interior das próprias instituições de pesquisa agrícola há diferentes valorações relativas ao tipo de investigação realizada. “Quem trabalha com biotecnologia e melhoramento costuma ter mais prestígio do que quem faz pesquisa básica. O cientista que faz pesquisa básica não tem, por exemplo, contato direto com fontes de financiamento privado. Ele está na outra ponta, coletando semente, fazendo caracterização, acompanhando o ciclo de desenvolvimento da planta. Institucionalmente, ele não tem tanto reconhecimento. Isso também é paradoxal, dado que não é possível ter pesquisa aplicada sem antes ter a pesquisa básica”, observa a antropóloga, que contou com bolsa de estudo concedida pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e com apoio financeiro da Fondation pour la Recherche sur la Biodiversité, da França. Atualmente, a antropóloga integra o grupo de pesquisa Populações Locais, Agrobiodiversidade e Conhecimentos Tradicionais Associados, registrado no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Publicação

Tese: “Agrobiodiversidade e conservação ex situ: reflexões sobre conceitos e práticas a partir do caso da Embrapa/Brasil”
Autora: Laura Rodrigues Santonieri
Orientador: Mauro William Barbosa de Almeida
Unidade: Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH)
Financiamento: Fapesp e Fondation pour la Recherche sur la Biodiversité (França)

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sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Agricultura familiar, prioridade contra a fome na América Latina

Fonte: Mariana Kaipper Ceratti - Quarta-feira, 27 de Julho de 2016 


A cada dia, 27 milhões de latino-americanos e caribenhos, cerca de 5,5% da população regional, acordam sem ter o que comer. É um número ainda colossal, mas bem menor do que a média de 58 milhões registrada pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) no período entre 1990 e 1992. À época, 14,7% dos moradores da América Latina e do Caribe sofriam com a desnutrição.

Por isso, pode-se dizer que a América Latina e o Caribe cumpriram a missão — estabelecida nos Objetivos do Milênio — de diminuir pela metade, entre 1990 e 2015, a proporção de pessoas que sofrem com a fome. As Nações Unidas ainda consideram que a região está entre as que fizeram progressos mais rapidamente, devido ao ótimo desempenho econômico e agrícola e às políticas de proteção social adotadas no período. Entre elas, os programas de alimentação escolar e apoio à agricultura familiar.

Mas um olhar mais a fundo revela como os progressos foram desiguais e o quanto determinadas sub-regiões terão de evoluir para a América Latina e o Caribe como um todo alcançarem a meta número 2 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU em 2030: acabar com a fome, conquistar a segurança alimentar e promover a agricultura com sustentabilidade.

A maior parte dos avanços feitos pela região foi feita pela América do Sul, segundo a FAO. Nela, foi possível diminuir a desnutrição em 75% desde 1990, fazendo com que a prevalência registrada em 2015 fosse de menos de 5%. Já a América Central reduziu o problema em 38,2% no período. Exatamente 6,6% dos centro-americanos sofriam de desnutrição no ano passado.

No Caribe, a queda foi ainda menor: 26,6% entre 1990 e 2015, resultado puxado principalmente pelo Haiti, país de economia frágil, que enfrenta desastres naturais constantes e baixa disponibilidade de comida para atender ao crescimento da população. Quase 20% dos caribenhos ainda lutavam contra a desnutrição em 2015.

Cereais e nutrição

O desafio de acabar com a fome até 2030 será grande não só na América Latina, mas também no resto do mundo. O percentual de desnutrição caiu quase pela metade em todo o planeta, de 19% para 11%, nos últimos 25 anos. No entanto, ainda há 795 milhões de pessoas desnutridas no mundo hoje, a maior parte delas em países de baixa renda, como os da África Subsaariana.

O relatório Indicadores de Desenvolvimento Global 2016, do Banco Mundial, acrescenta que será difícil cumprir a segunda meta dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável se o ritmo atual de queda continuar. Para acelerá-lo, é fundamental elevar a produtividade agrícola das famílias de baixa renda, já que 70% dos pobres do mundo trabalham no campo.

Outro motivo para apostar na produtividade agrícola — em especial a de cereais — é o fato de ela influenciar diretamente os números de forme e desnutrição. De 2000 a 2012, quando houve aumento médio anual de 2,6% na produção de cereais nos países de baixa renda, a pobreza e a desnutrição caíram 2,7% ao ano. Já entre 1990 e 1999, quando a produção ficou estagnada nos países mais pobres do mundo, houve pouca melhora nos índices de pobreza e saúde nutricional.

Os programas de proteção social que permitiram à América Latina e ao Caribe avançar nos Objetivos do Milênio também podem ser uma inspiração para o resto do mundo. Ao aumentar a produtividade e reduzir a vulnerabilidade dos pequenos agricultores, bem como melhorar a qualidade da nutrição das crianças em idade escolar, eles vêm contribuindo significativamente para melhorar a segurança alimentar na região.

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quinta-feira, 28 de julho de 2016

Agricultura familiar, prioridade contra a fome na América Latina

Fonte: Mariana Kaipper Ceratti - Quarta-feira, 27 de Julho de 2016 


A cada dia, 27 milhões de latino-americanos e caribenhos, cerca de 5,5% da população regional, acordam sem ter o que comer. É um número ainda colossal, mas bem menor do que a média de 58 milhões registrada pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) no período entre 1990 e 1992. À época, 14,7% dos moradores da América Latina e do Caribe sofriam com a desnutrição.

Por isso, pode-se dizer que a América Latina e o Caribe cumpriram a missão — estabelecida nos Objetivos do Milênio — de diminuir pela metade, entre 1990 e 2015, a proporção de pessoas que sofrem com a fome. As Nações Unidas ainda consideram que a região está entre as que fizeram progressos mais rapidamente, devido ao ótimo desempenho econômico e agrícola e às políticas de proteção social adotadas no período. Entre elas, os programas de alimentação escolar e apoio à agricultura familiar.

Mas um olhar mais a fundo revela como os progressos foram desiguais e o quanto determinadas sub-regiões terão de evoluir para a América Latina e o Caribe como um todo alcançarem a meta número 2 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU em 2030: acabar com a fome, conquistar a segurança alimentar e promover a agricultura com sustentabilidade.

A maior parte dos avanços feitos pela região foi feita pela América do Sul, segundo a FAO. Nela, foi possível diminuir a desnutrição em 75% desde 1990, fazendo com que a prevalência registrada em 2015 fosse de menos de 5%. Já a América Central reduziu o problema em 38,2% no período. Exatamente 6,6% dos centro-americanos sofriam de desnutrição no ano passado.

No Caribe, a queda foi ainda menor: 26,6% entre 1990 e 2015, resultado puxado principalmente pelo Haiti, país de economia frágil, que enfrenta desastres naturais constantes e baixa disponibilidade de comida para atender ao crescimento da população. Quase 20% dos caribenhos ainda lutavam contra a desnutrição em 2015.

Cereais e nutrição

O desafio de acabar com a fome até 2030 será grande não só na América Latina, mas também no resto do mundo. O percentual de desnutrição caiu quase pela metade em todo o planeta, de 19% para 11%, nos últimos 25 anos. No entanto, ainda há 795 milhões de pessoas desnutridas no mundo hoje, a maior parte delas em países de baixa renda, como os da África Subsaariana.

O relatório Indicadores de Desenvolvimento Global 2016, do Banco Mundial, acrescenta que será difícil cumprir a segunda meta dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável se o ritmo atual de queda continuar. Para acelerá-lo, é fundamental elevar a produtividade agrícola das famílias de baixa renda, já que 70% dos pobres do mundo trabalham no campo.

Outro motivo para apostar na produtividade agrícola — em especial a de cereais — é o fato de ela influenciar diretamente os números de forme e desnutrição. De 2000 a 2012, quando houve aumento médio anual de 2,6% na produção de cereais nos países de baixa renda, a pobreza e a desnutrição caíram 2,7% ao ano. Já entre 1990 e 1999, quando a produção ficou estagnada nos países mais pobres do mundo, houve pouca melhora nos índices de pobreza e saúde nutricional.

Os programas de proteção social que permitiram à América Latina e ao Caribe avançar nos Objetivos do Milênio também podem ser uma inspiração para o resto do mundo. Ao aumentar a produtividade e reduzir a vulnerabilidade dos pequenos agricultores, bem como melhorar a qualidade da nutrição das crianças em idade escolar, eles vêm contribuindo significativamente para melhorar a segurança alimentar na região.

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