quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Nerium oleander L. utilizada na arborização urbana e casos de intoxicação em animais

Luana Salim Amancio Silva - acadêmica de Medicina Veterinária da Universidade de Taubaté
Maiara Vitoria de Campos - acadêmica de Medicina Veterinária da Universidade de Taubaté
Marcos Roberto Furlan - Universidade de Taubaté

Nerium oleander L., conhecida popularmente por espirradeira ou oleandro, é uma espécie ornamental amplamente utilizada na arborização urbana, mas representa risco significativo de intoxicação para animais domésticos e de produção. A presença de glicosídeos cardíacos, como a oleandrina, provoca sinais clínicos graves, incluindo depressão, anorexia, arritmias, atonia ruminal, dispneia e lesões hepáticas e cardíacas, podendo levar à morte.

Casos fatais em equinos, bovinos e pequenos animais são amplamente relatados, reforçando a necessidade de manejo adequado da planta em áreas rurais e urbanas (Butler; Khan; Scarzella, 2016; Abdou; Basha; Khalil, 2019).

Butler, Khan e Scarzella (2016) descreveram a intoxicação de dois cavalos miniatura que apresentaram letargia, anorexia e arritmias após ingestão provável de oleandro; um animal morreu e o outro foi eutanasiado, com diagnóstico confirmado pela detecção de oleandrina no conteúdo gastrointestinal e digoxina no soro. Em um caso inédito, Pao-Franco et al. (2017) relataram intoxicação grave em uma cadela da raça Rhodesian Ridgeback, refratária a terapias convencionais, mas tratada com sucesso por anticorpos Fab específicos para digoxina, embora com lesões isquêmicas de prognóstico incerto.

Rubini et al. (2019) documentaram a morte de seis bovinos após ingestão de oleandro misturado à forragem, confirmada por análise toxicológica. Ceci et al. (2020) relataram um surto em 50 vacas lactantes, com 13 mortes em quatro dias, apresentando sinais como depressão, anorexia, atonia ruminal, diarreia e arritmias; necropsias revelaram necrose cardíaca e enterite grave, e oleandrina foi detectada em tecidos e produtos lácteos, indicando risco para consumidores. Lisuzzo et al. (2025) descreveram o primeiro caso de intoxicação por inalação da fumaça da queima de oleandro, resultando na morte de 76 bovinos em 30 horas, com lesões hepáticas e cardíacas confirmadas.

Esses relatos evidenciam a alta toxicidade do oleandro e a necessidade de monitoramento rigoroso em áreas urbanas e rurais, bem como políticas preventivas para evitar envenenamentos acidentais e impactos na saúde animal e humana.

Referências

ABDOU, Rania H.; BASHA, Walaa A.; KHALIL, Waleed F.. Subacute toxicity of Nerium oleander ethanolic extract in mice. Toxicological Research, [S.L.], v. 35, n. 3, p. 233-239, 15 jul. 2019. http://dx.doi.org/10.5487/tr.2019.35.3.233.

BUTLER, Jarrod; KHAN, Safdar; SCARZELLA, Gina. Fatal Oleander Toxicosis in Two Miniature Horses. Journal of The American Animal Hospital Association, [S.L.], v. 52, n. 6, p. 398-402, 1 nov. 2016. http://dx.doi.org/10.5326/jaaha-ms-6433.

CECI, Luigi; GIROLAMI, Flavia; CAPUCCHIO, Maria Teresa; COLOMBINO, Elena; NEBBIA, Carlo; GOSETTI, Fabio; MARENGO, Emilio; IARUSSI, Fabrizio; CARELLI, Grazia. Outbreak of Oleander (Nerium oleander) Poisoning in Dairy Cattle: clinical and food safety implications. Toxins, [S.L.], v. 12, n. 8, p. 1-11, 24 jul. 2020. http://dx.doi.org/10.3390/toxins12080471.

LISUZZO, Anastasia; SPADOTTO, Luca; MURARO, Michele; MAZZARIOL, Sandro; CENTELLEGHE, Cinzia; SORANZO, Elena; RUBINI, Silva; LOCATELLI, Carlo A.; DACASTO, Mauro; TAIO, Giorgia. Case Report: oleandrin intoxication by inhalation in beef cattle. Frontiers in Veterinary Science, [S.L.], v. 12, p. 1-7, 8 set. 2025. http://dx.doi.org/10.3389/fvets.2025.1666317.

PAO‐FRANCO, Amaris; HAMMOND, Tara N.; WEATHERTON, Linda K.; DECLEMENTI, Camille; FORNEY, Scott D.. Successful use of digoxin‐specific immune Fab in the treatment of severe Nerium oleander toxicosis in a dog. Journal of Veterinary Emergency and Critical Care, [S.L.], v. 27, n. 5, p. 596-604, 29 jul. 2017. http://dx.doi.org/10.1111/vec.1263

RUBINI, Silva; ROSSI, Sabina Strano; MESTRIA, Serena; ODOARDI, Sara; CHENDI, Sara; POLI, Andrea; MERIALDI, Giuseppe; ANDREOLI, Giuseppina; FRISONI, Paolo; GAUDIO, Rosa Maria. A Probable Fatal Case of Oleander (Nerium oleander) Poisoning on a Cattle Farm: a new method of detection and quantification of the oleandrin toxin in rumen. Toxins, [S.L.], v. 11, n. 8, p. 1-9, 25 jul. 2019. http://dx.doi.org/10.3390/toxins11080442.

terça-feira, 23 de setembro de 2025

Gênero Mentha no tratamento de cachorros

Ana Laura Teixeira Praniski de Oliveira - Medicina Veterinária - Universidade de Taubaté

Mirella Pires Nunes - Medicina Veterinária - Universidade de Taubaté

Sarah Junqueira Farah - Medicina Veterinária - Universidade de Taubaté

Introdução

O gênero Mentha é um dos mais conhecidos da família Lamiaceae, com mais de 25 espécies descritas. Originário principalmente da bacia do Mediterrâneo, estende-se pela Ásia, Europa, Austrália, América do Norte e Norte da África, sendo um símbolo de hospitalidade em diversas culturas. Essa planta foi amplamente utilizada em civilizações antigas, desde usos medicinais populares até aplicações não medicinais, como aromaterapia e culinária (YOUSEFIAN et al., 2023). O gênero Mentha possui grande importância econômica para a indústria e pode ser utilizado em animais como auxiliar no combate a parasitas, insetos, além de apresentar propriedades antimicrobianas e antioxidantes.

No combate ao carrapato

Rhipicephalus sanguineus, prevalente em cães, representa uma ameaça à saúde de caninos e humanos, atuando como vetor de diversas doenças parasitárias transmitidas pelo sangue em cães, incluindo Ehrlichia canisHepatozoon canis e Babesia canis. Para conter seus efeitos nocivos, produtos químicos são aplicados nos cães e em seus ambientes. No entanto, esses tratamentos são frequentemente mal utilizados, com dosagens incorretas e duração imprópria, o que pode afetar a saúde ambiental, tanto humana quanto animal, além de favorecer o desenvolvimento de resistência dos carrapatos aos produtos (VUI, 2024).

Portanto, é necessário descobrir novos tratamentos que garantam o controle dos danos causados pelos carrapatos, protegendo a saúde de animais de estimação e humanos. Nesse contexto, estudos indicam que óleos essenciais derivados de plantas são eficazes contra larvas e carrapatos adultos (VUI, 2024).

Segundo VUI (2024), o óleo essencial de Mentha spicata foi capaz de eliminar larvas e reduzir a capacidade reprodutiva de carrapatos adultos. Essa atividade larvicida e o impacto na reprodução das fêmeas ingurgitadas podem ser atribuídos aos compostos químicos presentes no óleo, que possuem propriedades larvicidas, ou ao efeito sinérgico de diversos compostos bioativos, contribuindo para aumentar a atividade larvicida e diminuir a reprodução de carrapatos adultos.

Terapêutica na odontologia veterinária

Doença periodontal e halitose são comuns em cães. O uso de óleos essenciais do gênero Mentha, como o mentol, apresenta potencial terapêutico na odontologia veterinária. Em cães, a aplicação tópica de um gel contendo mentol, timol e antioxidantes demonstrou reduzir significativamente o mau hálito após a limpeza profissional inicial. Essa melhora foi atribuída à ação antimicrobiana dos compostos voláteis do hortelã, que atuam contra bactérias gram-negativas envolvidas na formação de compostos sulfurados voláteis, principais responsáveis pela halitose (LOW, 2014).

Atividade antiparasitária

Diversos estudos demonstraram o efeito in vitro de óleos essenciais contra helmintos. Albani et al. (2014) avaliaram a eficácia in vitro da hortelã (Mentha x piperita) contra a proliferação celular de Echinococcus granulosus, observando uma redução de 77% na viabilidade dos protoescólices. Também foram constatadas reduções no número de células compatíveis, com a presença de muitas células mortas e detritos celulares.

Conclusão

Diante do exposto, observa-se que o gênero Mentha apresenta potencial relevante na medicina veterinária, tanto no controle de parasitas quanto na terapêutica odontológica. Seus óleos essenciais demonstraram eficácia contra diferentes estágios do desenvolvimento de carrapatos, além de possuir propriedades antimicrobianas que auxiliam na redução da halitose em cães. De igual forma, os estudos sobre sua ação antiparasitária reforçam a importância de novas pesquisas, que poderão consolidar a hortelã como uma alternativa promissora e natural no manejo de doenças em animais. Assim, fica evidente que o uso de plantas medicinais aliado ao conhecimento científico contribui para tratamentos mais seguros e sustentáveis.

Bibliografia

ALBANI, Clara María; DENEGRI, Guillermo María; ELISSONDO, María Celina. Effect of different terpene-containing essential oils on the proliferation of Echinococcus granulosus larval cells. BioMed Research International, [S. l.], 2014. Disponível em: https://doi.org/10.1155/2014/746931. Acesso em: 18 out. 2024.

LOW, Samuel B.; PEAK, R. Michael; SMITHSON, Christopher W.; PERRONE, Jeanne; GADDIS, Bert; KONTOGIORGOS, Elias. Evaluation of a topical gel containing a novel combination of essential oils and antioxidants for reducing oral malodor in dogs. American Journal of Veterinary Research, v. 75, n. 7, p. 653-657, 2014.

VUI, N. V.; LINH, N. T.; QUYEN, N. T. K.; NANG, K.; VIET, H. V. The utility of Ocimum basilicumPerilla frutescens, and Mentha spicata essential oils to control larvae and engorged female Rhipicephalus sanguineus ticks on dogs. J Vet Med Sci. 2024 Dec 1;86(12):1237-1242. doi: 10.1292/jvms.24-0288. Epub 2024 Oct 8. PMID: 39384378; PMCID: PMC11612241.

YOUSEFIAN, Shirin; ESMAEILI, Fazileh; LOHRASEBI, Tahmineh. A comprehensive review of the key characteristics of the genus Mentha, natural compounds and biotechnological approaches for the production of secondary metabolites. Iranian Journal of Biotechnology, Teerã, v. 21, n. 4, p. e3605, 1 out. 2023. DOI: 10.30498/ijb.2023.380485.3605. Recebido em 09 jan. 2023. Aceito em 16 jul. 2023.