quinta-feira, 3 de abril de 2025

CBD em cães: resultados de pesquisas

Paulo Augusto Lombardi Ferreira Filho – Universidade de Taubaté

Sabrina Demaria Santos – Universidade de Taubaté

Giulia Volodka Osorio – Universidade de Taubaté

Yasmim de Paulo Leite Galcez – Universidade de Taubaté

Marcos Roberto Furlan – Universidade de Taubaté

INTRODUÇÃO

O canabidiol (CBD), um composto não psicoativo derivado da Cannabis sativa ou Cannabis indica, tem atraído atenção por seus potenciais efeitos terapêuticos, oferecendo benefícios sem os efeitos adversos comumente associados ao tetrahidrocanabinol (THC). Estudos preliminares e relatos de casos sugerem que o CBD pode auxiliar no tratamento de diversas condições em cães, como dor crônica, inflamação, ansiedade e convulsões, além de melhorar a qualidade de vida de cães com osteoartrite.

Segundo Costa (2024), a suplementação de CBD em cães é geralmente bem tolerada, com poucos efeitos adversos leves semelhantes aos observados com placebo. No entanto, alguns estudos indicam uma elevação da fosfatase alcalina associada ao uso de CBD, o que pode sinalizar alterações na função hepática. Embora essa elevação nem sempre indique lesão grave, é importante monitorar os níveis hepáticos durante o uso prolongado. A autora observa que doses orais diárias de 4 mg/kg de peso corporal são bem toleradas pelos cães.

Ensaios clínicos randomizados e controlados são essenciais para avaliar a eficácia e segurança do CBD em cães. Esses estudos reduzem vieses metodológicos e permitem diferenciar os efeitos reais dos psicológicos (placebo), além de identificar possíveis efeitos adversos específicos. Eles oferecem uma validação científica robusta que assegura a aplicabilidade dos resultados em diferentes populações caninas.

O uso de cannabis medicinal em animais é uma área de interesse crescente; contudo, há uma quantidade limitada de ensaios clínicos e estudos farmacocinéticos envolvendo canabinoides na medicina veterinária. Embora mais pesquisas sejam necessárias para compreender completamente os mecanismos do CBD e seu potencial terapêutico, os resultados iniciais indicam uma perspectiva promissora para o manejo de condições complexas na medicina veterinária. 

Relato de pesquisas

Farmacocinética do CBD em cães saudáveis (Bartner et al., 2018):

O estudo comparou três formulações de CBD em 30 cães. O óleo oral mostrou maior biodisponibilidade, com meia-vida de 199,7 ± 55,9 minutos (75 mg) e 127,5 ± 32,2 minutos (150 mg). A exposição sistêmica foi proporcional à dose, confirmando superioridade do óleo oral.

Eficácia em epilepsia refratária (McGrath et al., 2024):

Em um ensaio clínico com 26 cães, o grupo CBD (2,5 mg/kg, 2x/dia) teve redução de 33% na frequência de convulsões, comparado ao placebo. Dois cães foram excluídos por ataxia. Apesar da redução, a proporção de cães com melhora ≥ 50% foi similar entre os grupos. Níveis plasmáticos mais altos de CBD correlacionaram-se com maior eficácia, sugerindo que doses elevadas podem otimizar resultados.

CBD na osteoartrite canina (Verico et al., 2020): 

Doses de 50 mg/dia de CBD puro e 20 mg/dia de CBD lipossomal reduziram significativamente a dor em cães de grande porte, com efeitos prolongados. O placebo e 20 mg/dia de CBD puro não mostraram eficácia.

CBD/CBDA na dermatite atópica (Loewinger et al., 2022):

Apesar de não melhorar lesões cutâneas (CADESI-04), o CBD/CBDA (2 mg/kg/dia) reduziu o prurido (pVAS) em 28 dias. O aumento da fosfatase alcalina em 23,5% dos cães tratados reforça a necessidade de monitoramento hepático.

Conclusão

O CBD é promissor para dor crônica e prurido, mas respostas variam conforme a dose, formulação e condição tratada.

Estudos de longo prazo são necessários para validar segurança e eficácia.

Referências

BARTNER, Lisa R; MCGRATH, Stephanie; RAO, Sangeeta; HYATT, Linda K; A WITTENBURG, Luke. Pharmacokinetics of cannabidiol administered by 3 delivery methods at 2 different dosages to healthy dogs. Canadian Journal of Veterinary Research, [s. l], v. 82, n. 3, p. 178-183, 2018. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC6038832/pdf/cjvr_07_178.pdf. Acesso em: 16 jan. 2025.

COSTA, Patrícia Sofia Carlos. O uso de canábis em animais de companhia: experiência profissionalizante na vertente de investigação e farmácia comunitária. 2024. 87 f. Tese (Doutorado) - Curso de Ciências Farmacêuticas, Faculdade de Ciências de Saúde, Universidade da Beira Interior, Covilhã, 2024.

LOEWINGER, Melissa; WAKSHLAG, Joseph J.; BOWDEN, Daniel; PETERSKENNEDY, Jeanine; ROSENBERG, Andrew. The effect of a mixed cannabidiol and cannabidiolic acid based oil on clientowned dogs with atopic dermatitis. Veterinary Dermatology, [S.L.], v. 33, n. 4, p. 329, 29 maio 2022. Wiley. http://dx.doi.org/10.1111/vde.13077.

MCGRATH, Stephanie; BARTNER, Lisa R.; RAO, Sangeeta; PACKER, Rebecca A.; GUSTAFSON, Daniel L.. Randomized blinded controlled clinical trial to assess the effect of oral cannabidiol administration in addition to conventional antiepileptic treatment on seizure frequency in dogs with intractable idiopathic epilepsy. Journal of The American Veterinary Medical Association, [S.L.], v. 254, n. 11, p. 1301-1308, 1 jun. 2019. http://dx.doi.org/10.2460/javma.254.11.1301.

VERRICO, Chris D.; WESSON, Shonda; KONDURI, Vanaja; HOFFEREK, Colby J.; VAZQUEZ-PEREZ, Jonathan; BLAIR, Emek; DUNNER, Kenneth; SALIMPOUR, Pedram; DECKER, William K.; HALPERT, Matthew M.. A randomized, double-blind, placebo-controlled study of daily cannabidiol for the treatment of canine osteoarthritis pain. Pain, [S.L.], v. 161, n. 9, p. 2191-2202, 24 abr. 2020. Ovid Technologies (Wolters Kluwer Health). http://dx.doi.org/10.1097/j.pain.0000000000001896.

sexta-feira, 28 de março de 2025

CANABIDIOl: APLICAÇÕES NA CLÍNICA VETERINÁRIA

Juliano Lacerda Tapajós - Medicina Veterinária - Universidade de Taubaté 
Juliana de Camargo Januário - Medicina Veterinária - Universidade de Taubaté 
Lívia Patto Gonçalves Soares - Medicina Veterinária - Universidade de Taubaté 

Resumo 

O uso da cannabis na medicina veterinária tem ganhado destaque devido às suas propriedades terapêuticas. Estudos demonstram que os canabinoides, como o canabidiol (CBD) e o tetraidrocanabinol (THC), atuam no sistema endocanabinoide dos animais, oferecendo benefícios no tratamento de dores crônicas, epilepsia, inflamações e distúrbios comportamentais. No entanto, o uso veterinário ainda enfrenta desafios regulatórios e riscos de toxicidade, especialmente relacionados à ingestão acidental de THC. Este artigo analisa o potencial terapêutico da cannabis na medicina veterinária, seus mecanismos de ação, indicações clínicas e as precauções necessárias para um uso seguro. 

Palavras-chave: Cannabis, Canabinoides, Medicina Veterinária, Terapia, Sistema Endocanabinoide.

Introdução 

O interesse no uso medicinal da cannabis tem crescido nos últimos anos, tanto na medicina humana quanto na veterinária. No Brasil, a regulamentação ainda é limitada, mas pesquisas demonstram seu potencial terapêutico para diversas condições clínicas em cães e gatos (Ramalho, 2023). Este artigo explora as aplicações da cannabis na prática veterinária, destacando seus benefícios, riscos e desafios.

Desenvolvimento 

A Cannabis sativa contém compostos bioativos chamados fitocanabinoides, sendo os principais o tetraidrocanabinol (THC) e o canabidiol (CBD). Esses compostos atuam no sistema endocanabinoide (SEC), que está presente em mamíferos e regula funções como dor, inflamação, humor e apetite. 

O SEC é composto por receptores específicos: 
CB1: Predominante no sistema nervoso central, influencia processos neurológicos e comportamentais.
CB2: Relacionado ao sistema imunológico, possui efeitos anti-inflamatórios e analgésicos. 

A ativação desses receptores pode ser útil no manejo da dor, epilepsia e distúrbios comportamentais em animais de companhia (Ramalho, 2023). O CBD, em particular, apresenta diversas propriedades terapêuticas, incluindo: 
Controle da dor e inflamação. 
Redução da frequência e gravidade de convulsões em casos de epilepsia. 
Modulação de distúrbios comportamentais.
Possível efeito antitumoral, inibindo a proliferação celular e induzindo apoptose em células tumorais (Ramalho, 2023). 

Apesar dos benefícios, o uso da cannabis na medicina veterinária exige cautela. O THC, por exemplo, tem alto potencial psicoativo e pode causar toxicidade em animais, especialmente em cães e gatos. Sintomas de intoxicação incluem ataxia, letargia, incontinência urinária e, em casos graves, crises convulsivas (Amissah et al., 2022). 

Riscos do THC: 
Possui efeitos psicoativos e pode causar intoxicação grave. 

Segurança do CBD: Geralmente bem tolerado, mas requer monitoramento da dose para evitar efeitos adversos. 

Conclusão 

O uso da cannabis na medicina veterinária apresenta um grande potencial terapêutico, especialmente no manejo da dor, epilepsia e inflamação. No entanto, é essencial que sua administração seja baseada em evidências científicas e regulamentada para garantir a segurança dos animais. Mais pesquisas são necessárias para estabelecer protocolos de dosagem seguros e eficazes. 

Referências 

Amissah, R. Q., Vogt, N. A., Chen, C., Urban, K., & Khokhar, J. (2022). Prevalence and characteristics of cannabis-induced toxicoses in pets: Results from a survey of veterinarians in North America. PLOS ONE, 17(4), e0261909. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0261909 

Blasius, R. K., Tamura, V. S. B., & Sprada, A. G. (2021). Aplicação de canabinoides em cães e gatos: Uma revisão sistemática. Anais Eletrônico XII EPCC, UNICESUMAR. 

Ramalho, J. P. L. (2023). Potencial terapêutico da Cannabis na Medicina Veterinária. Centro Universitário do Planalto Central Apparecido dos Santos - UNICEPLAC.