quinta-feira, 16 de maio de 2013

O mundo e o risco de caos no clima, por Martin Wolf


“A humanidade está realizando uma gigantesca, descontrolada e quase certamente irreversível experiência climática na única casa que tem”, constata Martin Wolf, comentarista econômico, em artigo publicado no Financial Times e reproduzido pelo jornal Valor, 15-05-2013.

Segundo ele, “há muita preocupação e falatório, mas não há nenhuma ação efetiva. Para que isso mude devemos oferecer à humanidade um futuro muito melhor. Medo diante de um horror distante não é suficiente”.

Eis o artigo.

Na semana passada, foi anunciado que – pela primeira vez nos últimos 4,5 milhões de anos – a concentração de dióxido de carbono na atmosfera ultrapassou 400 partes por milhão. Além disso, essa concentração também continua subindo a cerca de 2 partes por milhão por ano. Nesse ritmo, a concentração poderá chegar a 800 partes por milhão até o fim do século. Ou seja, todas as discussões sobre mitigar os riscos de uma catástrofe climática mostraram ser apenas palavras vazias.

A humanidade resolveu bocejar e deixar os perigos acumularem-se. O professor Brian Hoskins, diretor do Instituto Grantham para a Mudança no Clima, no Imperial College, em Londres, observa que na última vez em que as concentrações foram tão altas “o mundo ficou mais quente, em média, três ou quatro graus Celsius do que hoje. Não havia nenhuma camada de gelo permanente na Groenlândia, os níveis do mar eram muito mais elevados e o mundo era um lugar muito diferente, embora nem todas essas diferenças possam estar diretamente relacionadas com os níveis de CO2 “.

Essa ressalva é apropriada. Mas o reconhecimento do efeito estufa é resultado de análise científica básica: é por causa dele que a Terra tem um clima mais agradável do que o da Lua. O CO2 é um gás conhecido por sua contribuição para o efeito estufa. Existem efeitos de realimentação positiva decorrentes da elevação das temperaturas, por intermédio, por exemplo, da quantidade de vapor de água na atmosfera. Em suma, a humanidade está realizando uma gigantesca, descontrolada e quase certamente irreversível experiência climática na única casa que tem.

Não há outro lugar para onde as pessoas possam ir e não há como reinicializar o sistema climático do planeta. Se vamos assumir uma abordagem prudencial nas finanças públicas, devemos assumir uma abordagem prudencial ante algo irreversível e muito mais caro.

O que torna a omissão mais notável é que temos ouvido tanta histeria sobre as terríveis consequências do acúmulo de um grande fardo de dívida pública sobre os ombros de nossos filhos e netos. Mas tudo o que está sendo legado é endividamento financeiro de algumas pessoas em relação a outras. Se o pior se concretizar, ocorrerá um colapso financeiro. Algumas pessoas serão infelizes. Mas a vida vai continuar. Em vez disso, deixar como herança um planeta num caos climático é uma preocupação bem maior. Não há outro lugar para onde as pessoas possam ir e não há maneira de reinicializar o sistema climático do planeta. Se vamos assumir uma abordagem prudencial em face das finanças públicas, devemos certamente assumir uma abordagem prudencial diante de algo irreversível e muito mais caro.

Então por que estamos nos comportando assim?

A primeira razão – e a mais profunda – é que, assim como a civilização da antiga Roma foi construída com base em escravos, a nossa é construída com base em combustíveis fósseis. O que aconteceu no início do Século XIX não foi uma “revolução industrial”, mas uma “revolução energética”. Lançar carbono na atmosfera é o que fazemos. Como argumentei em “Climate Policy” (Políticas Climáticas), o que era o estilo de vida de alta intensidade energética nos atuais países de alta renda tornou-se uma característica mundial. A convergência econômica entre países emergentes e países de alta renda está fazendo crescer a demanda por energia mais rapidamente do que o aperfeiçoamento da eficiência energética a está reduzindo. Não apenas as emissões mundiais de CO2, mas até mesmo das emissões per capita, estão crescendo. As emissões per capita são, em parte, resultado da dependência da China em relação à geração de energia elétrica a partir do carvão.

A segunda razão é a oposição a qualquer intervenção no mercado livre. Parte disso, sem dúvida, é motivada por interesses estritamente econômicos. Mas não subestime o poder das ideias. Admitir que uma economia de livre mercado gera um enorme custo externo mundial é admitir ser justificada uma regulamentação governamental em larga escala tantas vezes proposta pelos odiados ambientalistas. Para muitos libertários ou liberais clássicos, a própria ideia é inadmissível. É muito mais fácil negar a relevância do conhecimento científico.

Um sintoma disso é agarrar-se a fiapos. Diz-se, por exemplo, que as temperaturas médias no mundo não subiram em períodos recentes, embora estejam muito mais altas do que um século atrás. No entanto, períodos de quedas de temperatura em meio a uma tendência de alta já ocorreram anteriormente.

Uma terceira razão pode ser a pressão no sentido de reagir a crises imediatas que consumiram quase toda a atenção das autoridades governamentais nos países de alta renda desde 2007.

A quarta é uma comovente confiança em que, caso o pior venha a se concretizar, a engenhosidade humana encontrará alguma maneira esperta de administrar os piores resultados da mudança climática.

A quinta é a complexidade para firmar acordos internacionais eficazes e aplicáveis ao controle das emissões por tantos países.

Uma sexta razão é a indiferença em face dos interesses de pessoas que nascerão em um futuro relativamente distante. Como diz um velho comentário: “Por que devo me preocupar com as futuras gerações? O que elas já fizeram por mim”?

Uma razão final é a necessidade de encontrar um equilíbrio justo entre países pobres e países ricos, entre aqueles que emitiram a maior parte dos gases causadores do efeito estufa no passado e aqueles que os emitirão.

Então, o que poderia alterar esse curso? Minha opinião é, cada vez mais, de que cobranças morais não fazem nenhum sentido. As pessoas não agirão nessa escala porque preocupam-se com os outros, inclusive até mesmo com seus próprios descendentes mais remotos.

A maioria das pessoas hoje acredita que a economia de baixo carbono criaria um mundo de privação universal. Elas nunca aceitarão tal situação. Isso é verdade tanto para as pessoas nos países de alta renda, que querem manter o que têm, com para as pessoas no resto do mundo, que querem desfrutar o que as pessoas dos países de alta renda têm. Assim, uma condição necessária, embora não suficiente, é uma visão politicamente vendável de uma economia de baixo carbono próspera. Recursos substanciais precisam ser investidos em tecnologias que, com credibilidade, produzam tal futuro.

Mas isso não é tudo. Se uma oportunidade assim parecer efetivamente mais crível, também precisarão ser desenvolvidas instituições capazes de concretizá-lo.

Neste momento, inexistem tanto as condições institucionais como tecnológicas. Não há vontade política para fazer algo real a respeito do processo que orienta a condução de nossa experiência com o clima. Há muita preocupação e falatório, mas não há nenhuma ação efetiva. Para que isso mude devemos oferecer à humanidade um futuro muito melhor. Medo diante de um horror distante não é suficiente.

(Ecodebate, 16/05/2013) publicado pela IHU On-line, parceira estratégica do EcoDebate na socialização da informação.

[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

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Pico histórico de 400 ppm de concentração de CO2 se tornará média anual, dizem meteorologistas

“Curva de Keeling”, que mostra a evolução das concentrações atmosféricas de CO2 ano a ano ao longo das últimas cinco décadas.

A OMM (Organização Meteorológica Mundial) avaliou que, após superado o limite histórico de concentração de dióxido de carbono na atmosfera na semana passada, este pico pode se tornar a média anual mundial. Matéria da AFP, no UOL Notícias.

“No ritmo de aumento atual, a média anual mundial de concentração de CO2 superará o limite das 400 partes por milhão (ppm) em 2015 ou 2016″, informou a agência da ONU em comunicado.

Um observatório situado no vulcão de Mauna Loa, no Havaí, registrou na última quinta-feira (9) uma concentração de CO2 de 400,03 ppm, segundo a Agência Norte-Americana Oceânica e Atmosférica (NOAA, na sigla em inglês).

Embora se trate de uma medida pontual, segundo especialistas, a média anual de 2013 superará sem dúvida a de 400 ppm, um número simbólico que marca uma tendência inquietante do planeta rumo ao aquecimento.

A última vez que o planeta registrou uma concentração de CO2 na atmosfera superior às 400 ppm foi entre 3 milhões e 5 milhões de anos atrás, durante a era do Plioceno. A temperatura era, então, de 3 a 4 graus acima da atual.

A encarregada da ONU (Organização das Nações Unidas) para o Clima, Christiana Figueres, advertiu na última segunda-feira (13) que a concentração de CO2 na atmosfera põe o planeta em uma “zona de perigo”.

Christiana assegurou que “ainda há uma oportunidade para evitar os piores efeitos das mudanças climáticas” e fez um apelo à comunidade internacional para que dê uma “resposta política capaz de enfrentar este desafio”.

O objetivo fixado pela comunidade internacional em 2009 é manter o aquecimento global a um máximo de +2 graus Celsius em relação aos níveis de antes da era industrial. Se este patamar for superado, os cientistas consideram que o planeta entrará em um sistema climático marcado por fenômenos extremos.

Com uma média anual de 400 ppm de concentração de CO2, o aquecimento global previsto será de pelo menos 2,4°C, segundo o último relatório dos especialistas da ONU sobre o clima (IPCC, na sigla em inglês). As emissões de CO2 na atmosfera não param de aumentar e, se a tendência se mantiver, a temperatura pode aumentar entre 3 graus Celsius e 5 graus Celsius.

O próximo grande encontro será a cúpula climática da ONU, que será realizada na França em 2015. Mas estas negociações, que envolvem os grandes poluidores do planeta, com China e Estados Unidos à frente, não serão fáceis. A última tentativa de implementar um acordo desse tipo, feita em 2009, durante a reunião em Copenhague, na Dinamarca, fracassou.

EcoDebate, 16/05/2013

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