quinta-feira, 22 de maio de 2014

As mudanças climáticas e o novo xadrez mundial. Entrevista com Oswaldo Lucon

“Há uma agenda de competividades econômicas e, nesse sentido, existem vários discursos, alguns bonitos, de que precisamos salvar o Planeta, mas, no fundo, o debate econômico permeia a discussão e fica essa queda de braço nas negociações”, avalia o engenheiro.
Oswaldo Lucon é um dos pesquisadores brasileiros que participa da elaboração do relatório de mitigações do IPCC, o qual trata de como deve ser feito o abatimento das emissões, e é categórico na sua avaliação: a redução das emissões depende da “redução no consumo de combustíveis fósseis”. Entretanto, destaca, como “está havendo uma mudança no xadrez mundial”, há vários interesses econômicos por trás das discussões climáticas.

Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por telefone, Lucon informa que o Brasil é um dos países que ainda investe 80% dos recursos financeiros em energia fóssil. “Esse perfil de investimento mostra o caminho que estamos seguindo.” O pesquisador esclarece que, apesar de o Brasil ter reduzido o desmatamento para contribuir com os efeitos das emissões de gás carbônico, as políticas brasileiras em relação às mudanças climáticas ainda são ineficientes.

Segundo ele, “elas são fortemente baseadas na seguinte narrativa: o Brasil é um país limpo, tem a matriz energética limpa, a maioria das nossas emissões vem do desmatamento, mas nós conseguimos controlá-lo, fizemos mais do que todos os países, estamos muito bem na foto, portanto, os outros países não venham nos cobrar”.

Esse discurso, contudo, “precisa ser visto com cuidado, porque a emissão mitigada pela queda do desmatamento só acontece uma vez. Depois que você mantém a árvore em pé, ela tem de ficar em pé para sempre, ao passo que, quando se constrói uma nova termelétrica, ela vai continuar emitindo gás carbônico durante 50 anos”. E acrescenta: “Então, a fotografia das políticas brasileiras acaba em 2020 e ninguém conta como vai ser o filme depois. (…) As metas brasileiras são muito lenientes e, de fato, o Brasil não tem nenhuma meta de emissão que implique algum esforço adicional”.

Oswaldo Lucon é graduado em Engenharia Civil e em Direito pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo – USP, mestre In Clean Technology pela University of Newcastle Upon Tyne, Reino Unido, e doutor em Energia pelo Programa Interunidades em Energia, Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo. Atualmente é Assessor Técnico de Gabinete da Secretaria de Meio Ambiente do Estado de São Paulo e professor do Instituto de Energia e Ambiente da USP.

Confira a entrevista.
IHU On-Line – O que é possível evidenciar no quinto relatório do IPCC em relação aos anteriores e quais são as principais conclusões do relatório de mitigações do IPCC, lançado este ano?

Oswaldo Lucon - Os três últimos relatórios são muito mais robustos tecnicamente do que os anteriores: houve mais dados, a informação melhorou muito e isso aconteceu por conta da pressão da evidência do aquecimento global. O nível de dúvida sobre o aquecimento global ser ou não ser causado pelo homem é inferior a 5%. Então, a chance de não ser causado pelo homem é baixíssima. Lembrando que não temos outro planeta para fugir, esses relatórios devem ser levados muito a sério.

O primeiro relatório diz que existe um espaço na atmosfera que ainda pode ser ocupado por emissões, mas esse espaço é muito pequeno, cerca de 1.000 a 1.200 gigatoneladas de gás carbônico equivalente, ou seja, um trilhão de toneladas de gás carbônico equivalente até o fim do século por todos os países. Se considerarmos as emissões de todos os países do jeito que estão emitindo hoje, estamos indo numa rota provável de quatro graus a mais na temperatura da Terra, apesar de os países terem acordado, na conferência de Durban, naÁfrica do Sul, que o aumento máximo e tolerável na temperatura seria de dois graus. As janelas de oportunidades para a mitigação, segundo o relatório, estão se fechando, quer dizer, as possibilidades de se atingir essa meta dos dois graus são cada vez mais difíceis; estamos diante de um desafio. O IPCC não usa a palavra urgência, mas a situação vai ficando muito mais difícil, porque há uma urgência de fato.

Relatório de Mitigações

“A curva de emissões é crescente, é mais acelerada nos últimos dez anos do que nos anteriores”

O relatório do qual eu participei trata das mitigações, de como deve ser feito esse abatimento das emissões, o qual passa, principalmente, pela redução no consumo de combustíveis fósseis, pela redução do desmatamento, mas, principalmente, pela redução do consumo de carvão, petróleo e gás no mundo, que continua muito acelerado, apesar dos ganhos de eficiência que foram obtidos até agora.

Esses ganhos de eficiência não conseguiram contrabalançar o aumento no consumo, porque, em parte, mais pessoas têm acesso aos bens de consumo, o que gera um aspecto de justiça, mas existe muito desperdício também, o que gera um aspecto de injustiça. Então, esse aumento das emissões mais do que anulou os ganhos de eficiência obtidos até agora.

O perfil de emissões mudou muito: quando a convenção do clima foi assinada, em 1992, havia uma divisão no mundo entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento. A China era irrelevante para a economia mundial, mas isso mudou. Hoje a China é o maior emissor de gás de efeito estufa e segue em direção de ser a maior economia do mundo. Dentro de algumas décadas, a China deve ultrapassar os Estados Unidos em relação ao PIB. Ao se falar em PIBper capita, realmente o chinês emite muito menos, mas ele está aumentando rapidamente. Agora, esse nivelamento entre as condições dos países não consegue ocorrer em um tempo compatível com a estabilização da temperatura; fisicamente não dá. Ou seja, não dá para esperar que todos os chineses, indianos e brasileiros tenham o seu carro para depois começar a reverter a situação.

Algo muito importante desse relatório do IPCC é o efeito de travamento da infraestrutura, de comprometimento da infraestrutura com o projeto carbono intensivo: exploração de petróleo, termelétricas a carvão, rodovias, automóveis que duram dez anos, automóveis pesados, de carga, que duram 20 anos ou mais. Esse comprometimento tem reflexos no longo prazo; então, se licenciar uma indústria poluente hoje, ela vai durar 50 anos, ao fazer uma edificação ineficiente, ela vai durar 100 anos, e depois é muito difícil reverter esse curso.

IHU On-Line – Houve uma crítica forte aos países desenvolvidos, nos anos 1990, por conta de se negarem a assinar Kyoto, mas nos anos 2000 percebe-se que países em desenvolvimento como China, Índia e Brasil assumem posturas semelhantes ao vetarem informações das suas implicações na emissão de gás carbônico, a exemplo do que foi feito no SPM. Em relação às mudanças climáticas, ainda é válida a crítica de que os países desenvolvidos são os grandes culpados das mudanças climáticas e que os em desenvolvimento devem assumir acordos mais brandos? Quais são, nesse sentido, as ações que vêm sendo desenvolvidas pelos países desenvolvidos e pelos em desenvolvimento, no sentido de reduzir as emissões?

Oswaldo Lucon – Hoje, o mundo não tem essa divisão entre países desenvolvidos e em desenvolvimento; existem várias nações emergentes de grande porte, como China, Índia,Brasil, Indonésia, México. A Rússia tinha diminuído as emissões por causa da crise, mas agora aumentou novamente. Há os países menos desenvolvidos que também estão crescendo, como a África, que está se desenvolvendo bastante. Então, está havendo uma mudança no xadrez mundial, e há vários interesses, muitos deles são econômicos, de competitividade da economia.

Os Estados Unidos, por exemplo, não querem nenhuma limitação em relação às emissões e querem vender tecnologia para os demais países. Os países emergentes também não querem nenhuma limitação; alguns, como a China, querem vender tecnologia, e outros, como o Brasil, querem vender commodities básicas. O Brasil vende commodities básicas — petróleo, minério de ferro, produtos agrícolas —, mas também está vulnerável ao aquecimento global. Quando há uma quebra de safra ou quando falta água, o custo é imenso. O Brasil, que já foi o maior produtor mundial de etanol, hoje está importando etanol de milho dos Estados Unidos — olha como isso é grave! Então, há uma agenda de competividades econômicas e, nesse sentido, existem vários discursos, alguns bonitos, de que precisamos salvar o Planeta, mas, no fundo, o debate econômico permeia a discussão e fica essa queda de braço nas negociações.
“Os ganhos tecnológicos evitaram emissões maiores, mas não evitaram o aumento perigoso das emissões”

Então, existem os grandes grupos, como a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE, de que participam os países desenvolvidos, os quais já envelheceram, já maturaram o seu perfil de desenvolvimento, já construíram toda a sua infraestrutura; os emergentes, que estão ficando velhos antes de se desenvolverem; e os países mais pobres, que precisam de ajuda financeira, e aí existe toda uma retórica importante em relação a eles.

A convenção do clima tem um pecado original, que se chama “princípios das responsabilidades comuns, porém diferenciadas e respectivas capacidades”. Trata-se de um nome comprido que, se cortarmos em pedacinhos, diz o seguinte: quando se trata das responsabilidades comuns, o americano, o europeu e o japonês dizem que todos têm de contribuir para reduzir as emissões; no que se refere ao termo “diferenciadas”, China, Índia e o Grupo dos 77 dizem que não têm culpa das mudanças climáticas, e que se fizerem algo para reduzi-las devem ser pagos por isso — o problema é que ninguém vai pagar; no que se refere às “respectivas capacidades”, os países mais pobres dizem que eles só podem fazer algo se forem mais capacitados, se tiverem acesso à tecnologia, porque, do contrário, nem que eles queiram poderão fazer algo.

Uma alimentação viciada em petróleo, artigo de Esther Vivas

[EcoDebate] Comemos petróleo, ainda que não pareça. O atual modelo de produção, distribuição e consumo de alimentos é viciado em “ouro negro”. Sem petróleo, não poderíamos comer como o fazemos. Num cenário onde vai ser cada vez mais difícil extrair petróleo e este ficará mais caro, como nos vamos alimentar?

A agricultura industrial tornou-nos dependentes do petróleo. Precisamos dele, desde o cultivo, à colheita, passando pela comercialização e até o consumo. A revolução verde, as políticas que nos disseram que modernizariam a agricultura e acabariam com a fome, e que foram implementadas entre os anos 40 e 70, converteram-nos em “yonquis/1” deste combustível fóssil, em parte graças ao seu preço relativamente barato. A mecanização dos sistemas agrícolas e o uso intensivo de fertilizantes e pesticidas químicos são o melhor exemplo. Estas políticas significaram a privatização da agricultura, deixando-nos, camponeses e consumidores, nas mãos de um punhado de empresas do agronegócio.

Apesar da revolução verde ter prometido que aumentaria a produção de comida e, em consequência, acabaria com a fome, a realidade não foi assim. Por um lado, é verdade que a produção por hectare cresceu. Segundo dados da FAO, entre os anos 70 e 90, o total de alimentos per capita a nível mundial subiu cerca de 11%. No entanto, isto não se repercutiu, como assinala Jorge Riechmann na sua obra ‘Cuidar a (T)terra’, numa diminuição real da fome, já que o número de pessoas famintas no planeta, nesse mesmo período e sem contar com a China ,cuja política agrícola se regia por outros parâmetros, ascendeu, também, em 11%, passando de 536 milhões para 597.

Por outro lado, a revolução verde teve consequências muito negativas para pequenos e médios camponeses e para a segurança alimentar a longo prazo. Em concreto, aumentou o poder das empresas agroindustriais em toda a cadeia produtiva, provocou a perda de 90% da agro e da biodiversidade, reduziu massivamente o nível freático, aumentou a salinidade e a erosão do solo, deslocou milhões de agricultores do campo para os bairros de lata urbanos, desmantelando os sistemas agrícolas tradicionais, e converteu-nos em dependentes do petróleo.

Uma agricultura ‘yonqui’

A introdução de maquinaria agrícola em grande escala foi um dos primeiros passos. Nos Estados Unidos, por exemplo, em 1850, como indica o relatório Food, Energy and Society, a tração animal era a principal fonte de energia no campo, representava cerca de 53% do total, seguida da força humana, com cerca de 13%. Cem anos mais tarde, em 1950, ambas somavam apenas 1%, devido à introdução de máquinas de combustível fóssil. A dependência da maquinaria agrícola (tratores, ceifeiras-debulhadoras, caminhões…) é enorme, e ainda é mais necessária tratando-se de grandes plantações e monoculturas. Desde a produção, a agricultura está “dependente” do petróleo.

O sistema agrícola atual com o cultivo de alimentos em grandes estufas, independentemente da sazonalidade e do clima, aumenta também a necessidade de derivados do petróleo e o elevado consumo energético. Desde mangueiras passando por contentores, acolchoados, redes até tetos e coberturas, tudo é plástico. O Estado espanhol, segundo dados do Ministério da Agricultura e do Meio Ambiente, está à cabeça do cultivo sob plástico na Europa mediterrânica com 66 mil hectares cultivados, a maior parte na Andaluzia, e em particular em Almeria, seguida, a distância, de Múrcia e Canárias. E, que fazer com tanto plástico uma vez acabada a sua vida útil?

O uso intensivo de adubos e pesticidas químicos são mais um exemplo de como o modelo alimentar é viciado em petróleo. A comercialização de adubos e pesticidas aumentou 18% e 160%, respectivamente, entre os anos 1980 e 1998, segundo o relatório Eating oil: food suply in a changing climate. O sistema agrícola dominante precisa de elevadas doses de adubos fabricados a partir do petróleo e do gás natural, como amoníaco, ureia, etc., que substituem os nutrientes do solo. Multinacionais petrolíferas, como Repsol, Exxon Mobile, Shell, Petrobras contam na sua carteira com investimentos na produção e comercialização de fertilizantes agrícolas.

Os pesticidas químicos sintéticos são outra fonte importante da dependência deste combustível fóssil. A revolução verde, como analisávamos, generalizou o uso de pesticidas e, em consequência, a necessidade de petróleo para os fabricar. E tudo isto, sem mencionar o impacto ambiental do uso desses agrotóxicos, a contaminação e esgotamento de solo e águas, e o impacto na saúde de camponeses e consumidores.

Alimentos viajantes

A necessidade de petróleo notamo-la, também, nas longas viagens que os alimentos percorrem desde onde são cultivados até ao lugar em que são consumidos. Calcula-se que a comida viaje em média cerca de 5 mil quilômetros do campo até ao prato, segundo um relatório de Amigos da Terra, com a consequente necessidade de hidrocarbonetos e com o impacto ambiental. Estes “alimentos viajantes”, segundo esse relatório, geram quase 5 milhões de toneladas de CO2 por ano, contribuindo para o agravamento das alterações climáticas.

A globalização alimentar na corrida ao máximo lucro, deslocaliza a produção de alimentos, como fez com tantos outros ramos da economia produtiva. Produz-se em grande escala nos países do Sul, aproveitando as condições laborais precárias e uma legislação ambiental inexistente, e vende-se a mercadoria, posteriormente aqui a um preço competitivo. Ou produz-se no Norte, graças a subvenções à agricultura nas mãos de grandes empresas, para depois se comercializar essa mercadoria subvencionada na outra ponta do planeta, vendendo abaixo do preço de custo e fazendo concorrência desleal à produção autóctone. Aqui reside o porquê dos alimentos quilométricos: máximo lucro para uns poucos; máxima precariedade, pobreza e contaminação ambiental para a maioria.

No ano de 2007, importaram-se mais de 29 milhões de toneladas de alimentos no Estado espanhol, 50% mais do que em 1995. Três quartos foram cereais, preparados de cereais e rações para a criação industrial de gado, a maior parte provindos de Europa e América Central e do Sul, como indica o relatório Alimentos quilométricos. Inclusive alimentos típicos, como o grão de bico ou o vinho, acabamos por consumi-los a milhares de quilômetros de distância. 87% do grão de bico que comemos aqui vem do México, no Estado espanhol o seu cultivo caiu abruptamente. Que sentido tem esta viagem internacional de alimentos de um ponto de vista social e ambiental? Nenhum.

Uma comida típica dominical da Grã-Bretanha com batatas de Itália, cenouras da África do Sul, feijões da Tailândia, carne de vaca da Austrália, brócolis da Guatemala e sobremesa com morangos da Califórnia e mirtilos da Nova Zelândia gera, segundo o relatório Eating oil: food suply in a changing climate, 650 vezes mais gases de efeito de estufa, devido ao transporte, que se esta comida tivesse sido cultivada e comprada localmente. O número total de quilômetros que o conjunto destes “alimentos viajantes” somam do campo até à mesa é de 81 mil, o equivalente a duas voltas inteiras ao planeta terra. Algo irracional, se tivermos em conta que muitos destes produtos são cultivados no território. A Grã-Bretanha importa grandes quantidades de leite, porco, borrego e outros alimentos básicos, apesar de exportar quantidades semelhantes dos mesmos. Aqui, em Espanha, passa-se o mesmo.

Comendo plástico

E quando os alimentos chegam ao supermercado, que sucede? Plástico e mais plástico, com derivados do petróleo. Assim, encontramos uma embalagem primária que contém o alimento, um pacote secundário que permite uma atraente exibição no estabelecimento e, finalmente, sacos para o levar do “super” a casa. Na Catalunha, por exemplo, dos 4 milhões de toneladas de resíduos anuais, 25% correspondem a embalagens de plástico. Os supermercados empacotam tudo, a venda a granel passou à história. Um estudo encomendado pela Agência Catalã do Consumo concluiu que comprar no comércio de proximidade gera menos 69% de resíduos, do que fazendo-o num supermercado ou numa grande superfície.

Uma estória pessoal ilustra bem esta tendência. Em pequena, em minha casa comprava-se água engarrafada em grandes garrafas de vidro de oito litros, hoje quase toda a água que se comercializa é engarrafada em embalagens de plástico. E tornou-se moda, inclusive, comprá-la em embalagens de seis unidades de litro e meio. Não é de estranhar, pois, que dos 260 milhões de toneladas de resíduos de plástico do mundo, a maior parte sejam embalagens de garrafas de água ou leite, como indica a Fundação Terra. O Estado espanhol, segundo essa fonte, é o principal produtor na Europa de sacos de plástico de um só uso e o terceiro consumidor. Calcula-se que a vida útil de um saco de plástico é de 12 minutos em media, mas a sua decomposição pode demorar 400 anos. Tirem conclusões.

Vivemos num planeta de plástico, como retratava brilhantemente o austríaco Werner Boote no seu filme ‘Plastic Planet‘ (2009), onde afirmava: “A quantidade de plástico que produzimos desde o princípio da idade do plástico é suficiente para envolver até seis vezes o planeta com sacos”. E não só isso, que impacto tem na saúde a sua omnipresença na nossa vida quotidiana? Um depoimento nesse filme dizia: “Comemos e bebemos plástico”. E, como denuncia o documentário, tarde ou cedo, pagaremos a fatura.

A grande distribuição não só generalizou o consumo de enormes quantidades de plástico, mas também o uso do carro para ir às compras. A proliferação de hipermercados, grandes armazéns e centros comerciais fora das cidades obrigou ao uso do carro privado para a deslocação até estes estabelecimentos. Se tomarmos como exemplo a Grã-Bretanha, como indica o relatório Eating oil: food suply in a changing climate, entre os anos 1985/86 e 1996/98 o número de viagens de carro por semana e por pessoa para fazer compras passou de 1,7 para 2,4. O total da distância percorrida, também, aumentou, dos 14 km por pessoa por semana para 22 km, uma subida de 57%. Mais quilômetros, mais petróleo e mais CO2, em detrimento, além disso, do comércio local. Se no ano de 1998, existiam no Estado espanhol 95 mil lojas, em 2004 este número tinha-se reduzido para 25 mil.

Que fazer?

Segundo a Agência Internacional da Energia, a produção de petróleo convencional atingiu o seu pico em 2006. Num mundo, onde o petróleo escasseia, o que vamos comer e como? Em primeiro lugar, é necessário ter em conta que quanto mais agricultura industrial, intensiva, quilométrica, globalizada, maior dependência do petróleo. Ao contrário, um sistema camponês, agroecológico, local, sazonal, menos “dependência” dos combustíveis fósseis. A conclusão, creio, é clara.

É urgente apostar num modelo de agricultura e alimentação antagônico ao dominante, que ponha no centro as necessidades da maioria e o ecossistema. Não se trata de uma volta romântica ao passado, mas sim da imperiosa necessidade de cuidar da terra e garantir comida para todos. Ou apostamos na mudança ou quando não houver mais remédio senão mudar, outros, como tantas vezes, vão fazer negócio com a nossa miséria. Não deixemos que se repita a história.

*Artigo publicado em Publico.es em 5 de maio de 2014. Tradução: Esquerda.net.
1/ Viciados e dependentes.

**Esther Vivas, Colaboradora Internacional do Portal EcoDebate, é ativista e pesquisadora em movimentos sociais e políticas agrícolas e alimentares, autora de vários livros, entre os quais “Planeta Indignado”. Esther Vivas é licenciada em jornalismo e mestre em Sociologia. Seus principais campos de pesquisa passam por analisar as alternativas apresentadas por movimentos sociais (globalização, fóruns sociais, revolta), os impactos da agricultura industrial e as alternativas que surgem a partir da soberania alimentar e do consumo crítico.


EcoDebate, 22/05/2014

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