quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Degradação ambiental ameaça a saúde humana e pode reverter conquistas obtidas nas últimas décadas

Avanços obtidos nas últimas décadas, como aumento da expectativa de vida, podem ser revertidos pela rápida e contínua perda da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos, indicam relatórios globais (foto: Wikimedia)

Por Elton Alisson | Agência FAPESP

A contínua e rápida degradação dos sistemas naturais observada em todo o planeta coloca em risco a saúde humana e pode reverter conquistas obtidas nas últimas décadas, como o aumento da expectativa de vida.

O alerta é de dois relatórios globais publicados simultaneamente nos últimos meses – um no fim de junho pelo Secretariado da Convenção da Diversidade Biológica (CDB) da Organização das Nações Unidas (ONU), em parceria com a Organização Mundial da Saúde (OMS), e o outro no mês seguinte pela Rockefeller Foundation, dos Estados Unidos, em colaboração com a revista Lancet, do Reino Unido.

As duas publicações foram lançadas no Brasil no dia 24 de setembro, durante o painel “Planetary health: a challenge for individual health”, realizado no campus da Universidade de São Paulo (USP) na capital paulista.

“Os dois relatórios se complementam e resumem o atual conhecimento científico sobre as relações entre saúde e meio ambiente”, disse Braulio Ferreira de Souza Dias, secretário executivo da CDB, em sua palestra durante o evento.

Intitulado Connecting Global Priorities: Biodiversity and Human Health, o relatório lançado pela CDB em colaboração com a OMS aponta que a degradação ambiental tem causado o declínio da biodiversidade e de serviços ecossistêmicos no mundo, como o fornecimento de água, alimentos e ar limpo.

O declínio desses serviços ecossistêmicos representa um risco crescente para a saúde humana e para a sustentabilidade econômica do planeta, avaliam os autores do documento.

“Diferentemente das mudanças climáticas, que podem se manifestar por meio de eventos extremos muito perceptíveis, como maior frequência de secas e inundações, a perda de biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos pela degradação ambiental é um processo lento, contínuo e pouco visível. Por isso, a maior parte das pessoas não se dá conta disso”, afirmou Dias.

O relatório indica que a contínua degradação ambiental já causou a perda de mais de 80% da vegetação herbácea, além de 90% de todas as áreas úmidas e dos estoques de peixes de maior porte no mundo.

Além disso, também resultou na perda de mais de 90% da variedade genética de espécies de trigo, arroz e frutas, como maçã, nas últimas décadas.

“A perda dessa diversidade de cultivares está tornando a população mundial mais vulnerável a surtos de pragas agrícolas e a um colapso na oferta de alimentos”, disse Dias.

Segundo ele, muitos dos fatores que estão causando a degradação ambiental mundialmente são os mesmos que estão levando à perda de qualidade da saúde humana.

Entre esses fatores estão as mudanças no uso da terra, sobre-explotação de recursos biológicos, poluição, dispersão de espécies exóticas e invasoras, além das mudanças climáticas e a acidificação dos oceanos.

Os desequilíbrios nos ecossistemas causados por essas formas de degradação ambiental provocam surtos de doenças, como as causadas por ebola e hantavírus, aponta o relatório.

“O empobrecimento de ecossistemas leva à proliferação de organismos que são hospedeiros ou vetores de doenças. Há, claramente, uma relação entre doenças e desequilíbrios de ecossistemas”, afirmou Dias.

Os barbeiros (Triatoma infestans), que transmitem a doença de Chagas, por exemplo, preferem se acomodar em palmeiras – plantas que se proliferam em áreas que sofreram degradação ambiental.

Ao desmatar uma área de floresta, as palmeiras rebrotam e facilitam a proliferação do inseto, explicou Dias.

Já o vibrião (Vibrio cholerae) responsável por causar a cólera está presente em todas as zonas costeiras do mundo inteiro, geralmente sem causar problemas.

A poluição resultante de eutrofização – excesso de nutrientes – que chega a zonas costeiras causa um fenômeno chamado maré vermelha e a destruição de microcrustáceos que habitavam aquela região, exemplificou Dias.

“O recente surto de ebola, na África, também está associado à quebra do equilíbrio da relação humana com os ecossistemas”, afirmou.

“O consumo de carne de animais silvestres por populações pobres no interior de áreas florestais, em razão da falta de opção de outros alimentos, está fazendo com que entrem em contato com a doença causada pelo vírus ebola e outras zoonoses”, avaliou.

Ações urgentes

O relatório Safeguarding human health in the Anthropocene epoch, da Rockefeller Foundation em parceria com a Lancet, ressalta que os perigos apresentados à espécie humana em razão da degradação ambiental exigirão uma ação coletiva urgente, tanto em nível global como local, e a cooperação será indispensável.

A Cúpula das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, realizada este fim de semana na sede da ONU, em Nova York – em que os países passaram a adotar oficialmente os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) –, e a 21ª Conferência das Nações Unidas sobre o Clima (COP21), em Paris, no início de dezembro, representam uma janela de oportunidades para colocar em pauta a discussão sobre os impactos da degradação ambiental na saúde na agenda global, avaliam os autores do relatório.

“É necessário que os países se empenhem em atacar as causas das mudanças ambientais, promovendo padrões sustentáveis e equitativos de consumo, controlando o crescimento de suas populações e que usem o poder das novas tecnologias para promover mudanças”, disse Sir Andy Haines, professor da London School of Hygiene and Tropical Medicine, em sua palestra por videconferência durante o evento.

Algumas das medidas apontadas pelo relatório para diminuir os impactos da degradação ambiental na saúde humana são proteger os recursos hídricos, combater e reduzir o desperdício de alimentos, investir em planos escaláveis e modelos de financiamento para a implementação de energias renováveis e incentivar o investimento regional em infraestrutura de transporte urbano.

Os investimentos em transporte público urbano podem ser benéficos tanto para a saúde cardiovascular das populações como também para a saúde ambiental, ressaltam os autores do relatório.

“As soluções devem se basear na redefinição de prosperidade, com foco na melhoria da qualidade de vida e na promoção da saúde, juntamente com o respeito pela integridade dos ecossistemas”, disse Haines.

O encontro teve a participação de José Goldemberg, presidente da FAPESP, e de representantes da Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo, da USP e dos hospitais Sírio Libanês e Albert Einstein.

Na avaliação de Goldemberg, a pesquisa científica pode auxiliar muito na busca de soluções para a diminuição de causas da degradação ambiental, que, eventualmente, podem contribuir com outras áreas, além da saúde.

A descoberta de que a palha da cana-de-açúcar poderia ser usada para gerar eletricidade fez com que a prática da queima da planta para a colheita manual fosse substituída pela colheita mecanizada da cana crua nos canaviais no Estado de São Paulo, exemplificou.

“O aproveitamento desse subproduto da cana-de-açúcar contribuiu para diminuir a poluição, está ajudando a gerar lucros para as usinas e produzir eletricidade para o país”, avaliou Goldemberg.

“É preciso olhar para as causas e consequências da degradação ambiental, que podem resultar em soluções como essa”, afirmou.

O relatório Connecting Global Priorities: Biodiversity and Human Health pode ser acessado em www.cbd.int/health/stateofknowledge/default.shtml.

E o relatório Safeguarding human health in the Anthropocene epoch pode ser acessado em www.thelancet.com/commissions/planetary-health.

in EcoDebate, 29/09/2015

Projeto alia conservação da biodiversidade à geração de renda em três biomas brasileiros

Meta é capacitar pequeno produtor e agricultor familiar para uso sustentável dos recursos naturais. Foto: Arquivo/ABr

Foi oficialmente iniciado ontem (28) o projeto “Integração da conservação da biodiversidade e uso sustentável nas práticas de produção de produtos florestais não madeireiros e sistemas agroflorestais em paisagens florestais de usos múltiplos de alto valor para a conservação”, a ser desenvolvido em parceria entre a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), com recursos do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF). A sessão de apresentação aconteceu às 15 horas na Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia e contou com as presenças do diretor-executivo de TT da Embrapa, Waldyr Stumpf; do coordenador-residente do Sistema das Nações Unidas e representante do PNUD no Brasil, Jorge Chediek; do representante da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) no Brasil, Alan Bojanic; da Secretária de Biodiversidade e Florestas do Ministério do Meio Ambiente (MMA), Ana Cristina Barros; e do presidente da Anater, Paulo Cabral, entre outras autoridades.

O projeto: desafio em prol do agroextrativismo sustentável

A solenidade foi iniciada com a apresentação do projeto pelo pesquisador da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia Aldicir Scariot, que é o coordenador do projeto. Segundo ele, o cenário atual, que levou à necessidade de execução dessa iniciativa, é marcado por mudanças rápidas no uso da terra, perda de biodiversidade, exclusão social e ameaças ao modo de vida das comunidades que moram no campo. Aliados a esse cenário, existem gargalos como a insuficiência de dados e conhecimentos relacionados à conservação e uso sustentável da biodiversidade; escassez de tecnologia e capacitação, além da falta de visão em relação à importância de múltiplos usos para a terra. “É preciso que as pessoas entendam que conservar a biodiversidade e gerar renda não são atividades excludentes, muito pelo contrário, são complementares. E é exatamente isso o que esse projeto pretende estimular e fortalecer”, enfatizou Aldicir.

A premissa básica do projeto, que conta também com o apoio dos ministérios do Meio Ambiente (MMA), Desenvolvimento Social (MDS), Desenvolvimento Agrário (MDA) e Agricultura (Mapa), além da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Serviço Florestal Brasileiro (SFB) e organismos da sociedade civil, é promover “uma associação íntima entre agroextrativismo e biodiversidade. O agroextrativismo é uma oportunidade ímpar para aliar uso sustentável da terra e a conservação”, frisou o pesquisador.

Os objetivos principais são: ampliar a participação dos agroextrativistas, reduzir as desigualdades sociais, manter as famílias no campo, assegurar o modo de vida das comunidades locais, reconhecer e fortalecer sua cultura e investir em tecnologias simples e de baixo custo.

As ações envolverão seis (6) Territórios da Cidadania – Alto Acre e Capixaba, Alto Rio Pardo, Marajó, Sobral e Sertão do São Francisco – abrangendo três biomas brasileiros: Cerrado, Caatinga e Amazônia.

De acordo com Aldicir, esses biomas foram definidos em conjunto entre as instituições parceiras com base nos seguintes dados: alto impacto para a biodiversidade, baixo IDH, populações tradicionais e agricultura familiar.

O projeto será desenvolvido a partir de planos de trabalho anuais para cada Território da Cidadania envolvido, com base em sinergias com políticas e programas públicos, que valorizem os seguintes pilares: tecnologia, socioeconomia, capacitação de multiplicadores e disseminação de conhecimento, crédito/financiamento e conservação da biodiversidade.

Além da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia e do Departamento de Transferência de Tecnologia (DTT), que são os mentores e articuladores do projeto, participam outras 11 unidades de pesquisa da Embrapa, atuantes nos três biomas que fazem parte da iniciativa.

Projeto tem DNA brasileiro e enxerga a sustentabilidade em sentido amplo

O coordenador-residente do Sistema das Nações Unidas e representante do PNUD no Brasil, Jorge Chediek, afirmou que esse projeto é muito especial para o PNUD e tem “DNA brasileiro”. Prestes a sair do Brasil para assumir a chefia da cooperação sul-sul em Nova York, Chediek ressaltou a importância dessa iniciativa e da parceria entre o PNUD e a Embrapa. “Esse projeto nasceu na Rio 92 e se consolidou na Rio+20. O ponto forte é o fato de enxergar a sustentabilidade no sentido amplo, não apenas do ponto de vista ecológico, mas social, mas também do social e do econômico”, enfatizou.

Essa também é a opinião da secretária de Biodiversidade e Florestas do MMA, Ana Cristina Barros, que destacou a importância de “romper a dicotomia da visão da conservação”. Segundo ela, é preciso transcender essa visão radical de floresta protegida e não protegida e enxergar a importância do homem nesse processo. “É fundamental considerar a floresta e o ser humano como aliados e não como antagonistas. O uso adequado da biodiversidade depende de tecnologia e, principalmente, da sua transferência para as comunidades”, complementou a Secretária.

Para o representante da FAO no Brasil, Alan Bojanic, um dos pontos mais importantes do projeto é valorizar a exploração sustentável de produtos florestais não madeiráveis. É preciso identificar os produtores e estimular o trabalho que desenvolvem em prol da melhoria da sua qualidade de vida no campo. “Precisamos fazer com que esse projeto seja lembrado pela sua grandeza e não me refiro apenas ao plano ideológico, mas territorial”, constatou Bojanic, lembrando que o fato de o projeto abranger três biomas é desafiador, mas muito importante para o desenvolvimento do País.

O presidente da Anater, Paulo Cabral, também destacou a importância de levar tecnologia aos Territórios da Cidadania que compõem o projeto. Muitos deles, como Marajó, por exemplo, são desafiadores, pois possuem municípios com os IDHs mais baixos do Brasil. Mas, segundo ele, a única forma de conservar a biodiversidade é usá-la de forma adequada. Ele ressaltou ainda o papel da Anater nessa parceria, pois cabe a ela a tarefa de transferir as tecnologias geradas pela Embrapa e outras instituições públicas e privadas aos pequenos produtores.

O diretor de TT da Embrapa, Waldyr Stumpf, ressaltou a magnitude do projeto, lembrando que vai permitir à sociedade conhecer melhor uma área na qual a Embrapa é muito atuante, mas que poucos conhecem: a de agricultura familiar e comunidades tradicionais. Segundo Waldir, existem hoje na Empresa mais de 50 projetos de pesquisa voltados a pequenas comunidades tradicionais, quilombolas e povos indígenas, entre outros. “É fundamental que a sociedade conheça e compreenda melhor a importância que a Embrapa dá a esses segmentos”, ressaltou o diretor. Todas essas ações, incluindo o projeto em parceria com o PNUD que começa agora, evidenciam que a construção de soluções tecnológicas é o único caminho capaz de gerar renda, com inclusão produtiva sustentável.

Por Fernanda Diniz e Irene Santana, Embrapa, in EcoDebate, 29/09/2015