sábado, 15 de abril de 2017

Desmatamento no Cerrado pode resultar na extinção de 1140 espécies nos próximos 30 anos

Combinação de políticas pode evitar extinções de proporções históricas projetadas para o Cerrado

Estudo coordenado por brasileiros, publicado na Nature Ecology and Evolution, mostra que o Brasil pode perder até 1140 espécies, entre elas, bromélias e Arara-Azul
Lychnophora humillima – Foto: Fernando M. Fernandes-lpr

O avanço do desmatamento no Cerrado poderá resultar na extinção de 1140 espécies de plantas nos próximos 30 anos, um número oito vezes superior a todas as espécies de plantas registradas como extintas desde 1500 em todo o mundo, mostra um estudo internacional coordenador por brasileiros publicados nesta quinta-feira, 23, na Nature Ecology and Evolution. Por outro lado, os autores demonstram que este quadro é evitável sem prejudicar a agricultura, e apontam para uma série de políticas públicas e privadas já em implementação ou desenvolvimento que, caso coordenadas e com foco neste objetivo, poderiam evitar o quadro de extinções projetado.

Segundo Bernardo Strassburg, coordenador do estudo, Diretor Executivo do Instituto Internacional para a Sustentabilidade e Coordenador do Centro de Ciências para a Conservação e Sustentabilidade do Departamento de Geografia e Meio Ambiente da PUC-Rio, o Cerrado já perdeu praticamente metade de sua área, mas ainda reúne 4600 espécies de plantas que não existem em nenhum outro local do planeta. Se o ritmo do desmatamento continuar, daqui a 30 anos, o Cerrado ficará ainda menor, perdendo mais um terço do tamanho atual. Esse resultado será causado pelo desmatamento para a expansão da soja, cana de açúcar e pastagem. Nos últimos anos, o Cerrado já perdeu 88 milhões de hectares, 46% de sua cobertura nativa. Entre 2002 e 2011, as taxas de desmatamento na região (1% ao ano) foram 2,5 vezes mais altas do que na Amazônia.

Entre as espécies mais vulneráveis estão um fruto bem conhecido, o babaçu (Attalea brasiliensis), uma espécie de arnica (Lychnophora souzae e Lychnophora humílima), a canela-de-ema-gigante, da Serra do Cipó (Vellozia gigantea), uma espécie de sempre-viva (Actinocephalus cipoensis), além de várias bromélias e orquídeas. Entre os animais, as espécies que poderão desaparecer estão o Lobo-guará, Onça parda (Puma concolor), Tatu-canastra, Ariranha, Tamanduá-bandeira, Arara-Azul e a Anta. “O Cerrado brasileiro abriga uma coleção enorme de espécies únicas no mundo, que é a base deste bioma tão fundamental para a economia, segurança hídrica e energética do país. O que identificamos é que a progressão do desmatamento levará a um quadro de extinções de espécies de plantas em escala jamais registrada no mundo. Este quadro, irreversível e lamentável por si só por razões morais, teria impactos graves para a manutenção deste ecossistema fundamental para a economia e a sociedade brasileira”, diz ele.

É justamente na combinação de políticas públicas e privadas que reside o potencial maior para evitar o colapso do Cerrado. Os autores selecionam oito grandes áreas e políticas estratégicas já em implantação ou desenvolvimento pelo Ministério do Meio Ambiente e outro atores que, caso implementadas, financiadas apropriadamente e executadas com um foco também em evitar as extinções do cerrado, poderiam promover a conciliação entre a produção e a conservação. É o caso, por exemplo, da Moratória da Soja, uma história de sucesso na Amazônia, onde praticamente eliminou a conversão direta de floresta para a soja. Caso fosse estendida ao Cerrado, como defendido publicamente pelo Ministro de Meio Ambiente, Sarney Filho, seria um gigantesco passo para assegurar um futuro sustentável para a região. A demarcação de áreas protegidas, financiamento para conservação (inclusive relacionados às mudanças climáticas) e um foco em identificar áreas prioritárias para a conservação, restauração e expansão agrícola são outras medidas essenciais.

“Não é preciso reinventar a roda, as políticas necessárias já existem e foram usadas com sucesso na Amazônia no passado recente. O necessário agora é ter também como foco prioritário evitar este quadro preocupante. Há espaço suficiente para conciliar o aumento da produção agrícola e a conservação e restauração do que sobrou do Cerrado. Não é simples, mas com um esforço concentrado dos atores públicos e privados envolvidos, e a pressão adequada da sociedade para que as políticas tenham o apoio e o financiamento necessários, o Brasil pode reverter um gigantesco desastre em uma grande história de sucesso”, explica Strassburg.

A baixa proteção formal – menos de 10% do Cerrado é coberto por Unidades de Conservação – e alta aptidão agrícola colocam os remanescentes de cerrado como a grande fronteira de expansão do agronegócio. Aliado a isso, a região ainda atrai poucos investimentos diretos em conservação, embora seja fundamental para os recursos hídricos e até para as metas nacionais e internacionais de combate as mudanças climáticas: o desmatamento projetado levaria a emissão de 8,5 bilhões de toneladas de CO2, o equivalente a duas vezes e meia tudo o que o Brasil deixou de emitir com a grande queda do desmatamento da Amazônia entre 2005 e 2013.

“Esses números colocariam em risco a reputação internacional do Brasil como líder em economia verde ou desenvolvimento sustentável. Colocaria também o agronegócio brasileiro como responsável por uma das maiores tragédias já registradas para a biodiversidade mundial, justamente em um momento onde os principais mercados consumidores estão construindo metas de exclusão de cadeias associados ao desmatamento e degradação ambiental”, complementa Strassburg.

Os pesquisadores mostram que é possível conciliar todo o aumento previsto de soja, cana e pecuária em áreas já desmatadas, e ainda liberar áreas para a recuperação da vegetação nativa exigida no código florestal. Aumentando a produtividade das áreas já dedicadas a pecuária de 35% para 61% de seu potencial sustentável, seria possível encaixar os mais de 15 milhões de hectares de expansão de soja e cana e ainda 6,4 milhões de hectares para a recuperação da vegetação nativa. “A chave para destravar um future sustentável para o Cerrado está no potencial para aumentar a taxa de lotação das pastagens, abrindo espaço para a expansão prevista de culturas agrícolas e ao mesmo tempo poupando e restaurando ambientes naturais para a notável biodiversidade da região. Com um apoio politico robusto, este desastre pode ser evitado”, diz o Professor Andrew Balmford da Universidade de Cambridge, e co-autor do estudo.

“O aumento da produtividade da pecuária pode ser feito através das técnicas que já existem como pastejo rotacional ou suplementação alimentar. Porem vários obstáculos, como escassez de mão de obra e aspectos financeiros, devem ser superados para acompanhar os produtores nessa transição” complementa Agnieszka Latawiec, Diretora Executiva do Instituto Internacional para Sustentabilidade e Coordenadora do Centro para Ciência de Conservação e Sustentabilidade da PUC-Rio.

Esta recuperação da vegetação nativa tem papel fundamental para evitar o colapso: se for realizada em áreas prioritárias para a biodiversidade, poderiam evitar até 83% das extinções projetadas. “A nova Política Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa, criada por decreto presidencial no mês passado, pode auxiliar na promoção desta restauração em áreas prioritárias”, diz Carlos Alberto de Mattos Scaramuzza, Diretor de Conservação de Ecossistemas do Ministério do Meio Ambiente e um dos autores do artigo.

Espécies que poderão ser extintas no Cerrado até 2030, caso o desmatamento continue no ritmo atual (Foto cedida ao CNCFlora por uma licença de uso de imagem. Crédito nas foto)

Flora:
Palmito
Araucária
Jacarandá-da-bahia (Dalbergia nigra)
Vellozia gigantea (canela-de-ema-gigante, da Serra do Cipó)
Podocarpus barretoi e Podocarpus brasiliensis (gimnospermas, parentes dos pinheiros, e muito ameaçados)
Actinocephalus cipoensis (uma espécie de sempre-viva)
Lychnophora souzae e Lychnophora humílima (espécie de arnica)

Animais:
Lobo-guará
Onça parda (Puma concolor)
Tatu-canastra
Ariranha
Tamanduá-bandeira
Arara Azul
Anta

Fruto 
Babaçu (Attalea brasiliensis)


O artigo intitulado “Moment of truth for the Cerrado hotspot” foi escrito por pesquisadores do Brasil (Centro de Ciências para Conservação e Sustentabilidade do Rio, Departamento de Geografia e Meio Ambiente, PUC-Rio; Instituto Internacional para a Sustentabilidade; Universidades Federais do Rio de Janeiro (UFRJ), Minas Gerais (UFMG) e Goiás (UFG), do Centro Nacional de Conservação da Flora e da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável), do Reino Unido (Universidade de Cambridge) e da Suíça (União Internacional para a Conservação da Natureza;

Autores:

Bernardo B. N. Strassburg, Thomas Brooks, Rafael Feltran-Barbieri, Alvaro Iribarrem, Renato Crouzeilles, Rafael Loyola, Agnieszka E. Latawiec, Francisco J. B. Oliveira Filho, Carlos A. de M. Scaramuzza, Fabio R. Scarano, Britaldo Soares-Filho e Andrew Balmford

Colaboração de Claudia Moreira, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 24/03/2017

Jovens agricultores do Piauí utilizam energia solar para cultivar produtos biofortificados

Com o objetivo de apresentar uma solução inovadora, que possibilite ao jovem rural uma fonte de renda segura que o mantenha no campo, a Embrapa, por meio do projeto Biofortificação de Alimentos (Biofort), implantou, em fevereiro de 2017, a primeira Unidade de Segurança Produtiva Solar, em Santo Inácio, na região Sul do Piauí.

Equipe na área de irrigação por meio de energia solar. Foto: Embrapa

Essas Unidades são pequenas áreas para cultivo em que são utilizadas todas as tecnologias necessárias para reduzir o risco de perda da produção em decorrência de alterações climáticas ou problemas no manejo.

O jovem produtor Henrique Lima César, egresso de Escola Família Agrícola, condição prioritária para a escolha, é um dos beneficiados com a implantação de uma Unidade de Segurança Produtiva Solar. Morador da comunidade Malhada do Juazeiro, em Santo Inácio, ele foi selecionado por meio da observância de aptidão e dedicação à produção agrícola e se a área em que produz apresenta riscos que impedem a efetiva produção agrícola, tais como ser em área de risco climático, acesso restrito a energia elétrica e composição familiar apta à produção agrícola.

Na área escolhida, o produtor tem água disponível para o cultivo irrigado por meio de gotejamento. O bombeamento da água é feito por meio de energia solar e ele utiliza tecnologias da Embrapa relacionadas a espaçamento e planta cultivares de feijão-caupi, batata-doce e macaxeira biofortificadas, com maior qualidade e melhor produtividade. “É um trabalho muito bom, pois tenho água durante dez horas por dia, o que dá uma média de 50 litros de água por dia para utilizar na irrigação. Com o kit de energia solar já estou ampliando meu projeto com mais produtos biofortificados e ampliando minha renda”, comenta.

A iniciativa pioneira na região é fruto de uma parceria entre a Embrapa, Fundação Dom Edilberto, Centro Educacional São Francisco de Assis (Cefas), Escola Família Agrícola de Santo Inácio e a Codevasf. Na ação, cada instituição parceira tem papel fundamental para a obtenção de resultados positivos. A Fundação Dom Edilberto realizou a perfuração de um poço tubular; a Escola Família Agrícola (EFA) promove a capacitação de jovens produtores; o Biofort propiciou o conjunto de bombeamento solar e as cultivares de batata-doce, feijão e macaxeira biofortificados; a Codevasf cedeu o kit de irrigação por gotejamento e o CEFAS promove a assistência técnica e acompanhamento ao produtor. Com a ação conjunta das instituições, o jovem produtor está satisfeito com a oportunidade, pois agora tem a garantia de que terá a colheita do que plantou.

De acordo com Marcos Jacob Almeida, analista da Embrapa Meio-Norte e articulador da ação, essa parceria entre as instituições visa demonstrar e promover um modelo produtivo capaz de gerar sustentabilidade econômica, social e ambiental, com potencial de tornar-se uma política pública em toda a região. “A sucessão familiar tem sido a maior ameaça à existência da agricultura familiar, os jovens estão buscando outras atividades devido aos elevados riscos para se produzir sob mesmas condições que seus pais trabalham. Sem que haja atrativos no meio rural como mecanismos que reduzam os riscos na produção, a tendência é chegarmos à condição futura de uma agricultura sem agricultores. Essa iniciativa é importante para que o jovem possa produzir e se manter no campo”, destaca Almeida.

Por Eugênia Ribeiro, jornalista
Embrapa Meio-Norte

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 04/04/2017