sexta-feira, 6 de novembro de 2026

Silimarina e saúde do fígado em cães

 O potencial do cardo-mariano e os limites das evidências científicas

Ana Clara de Moraes Gonçalves; Joana do Carmo Souza; Larissa Castro Aquila da Silva; Luiza Salgado Ferreira

Universidade de Taubaté

O cardo-mariano é uma das plantas medicinais que despertam interesse nas pesquisas sobre proteção do fígado. De seus frutos se obtém a silimarina, mistura de compostos estudada por suas atividades antioxidantes e anti-inflamatórias. Na medicina veterinária, ela tem sido investigada como recurso complementar no cuidado de cães com doenças hepáticas.

Os resultados experimentais ajudam a compreender esse interesse, mas ainda há limitações para afirmar quanto a silimarina beneficia os animais na rotina clínica. Para interpretar seu potencial, é preciso conhecer a preparação utilizada, a doença investigada e o que cada estudo realmente avaliou.

Uma planta e diferentes preparações

Conhecido popularmente como cardo-mariano ou cardo-de-leite, Silybum marianum (L.) Gaertn. pertence à família Asteraceae. A matéria-prima empregada na obtenção dos extratos é principalmente o fruto maduro e seco, muitas vezes chamado de semente.

A silimarina reúne diferentes substâncias, entre elas a silibina, também denominada silibinina, a silicristina e a silidianina. Por isso, silimarina e silibina não são termos equivalentes: o primeiro designa uma mistura; o segundo, um de seus componentes.

Essa diferença tem consequências práticas. O fruto triturado, um extrato padronizado e uma formulação de silibina associada a fosfolipídios apresentam características distintas. Comparar produtos exige observar sua composição, sua concentração e a forma como seus componentes são absorvidos.

Por que o fígado precisa de atenção

O fígado participa do metabolismo dos nutrientes, produz bile e proteínas importantes para o organismo e transforma medicamentos e outras substâncias. As doenças que o afetam, chamadas hepatopatias, podem ter causas e evoluções muito diferentes.

Em cães, o comprometimento hepático pode estar relacionado, por exemplo, ao acúmulo de cobre, à exposição a substâncias tóxicas e a determinados medicamentos. Alterações biliares e vasculares também podem prejudicar o funcionamento do órgão. Identificar a causa orienta a escolha do tratamento.

Apatia, perda de apetite, vômitos e emagrecimento podem ocorrer nesses quadros, mas também aparecem em outras doenças. Alguns animais apresentam alterações nos exames antes de manifestar sinais perceptíveis. A avaliação depende da história clínica, do exame físico e de exames complementares definidos pelo médico-veterinário.

Como a silimarina pode atuar

Parte do interesse pela silimarina está relacionada ao estresse oxidativo. Esse processo ocorre quando a produção de moléculas reativas supera a capacidade das defesas antioxidantes, favorecendo danos às estruturas celulares.

Em modelos experimentais, a silimarina e seus constituintes apresentaram efeitos sobre a oxidação dos lipídios das membranas e sobre mecanismos de defesa celular. Também foram investigadas ações em vias de sinalização envolvidas na inflamação.

Outros estudos exploram possíveis efeitos sobre a deposição de colágeno e os processos de recuperação do tecido hepático. Esses achados ajudam a formular hipóteses de tratamento. Entretanto, não demonstram que a administração oral regenere o fígado ou reverta uma fibrose já estabelecida em cães.

O que os estudos em cães mostram

Em um estudo publicado em 1998, Schossler, Schossler e Silva avaliaram 15 cães com lesão hepática provocada experimentalmente por tetracloreto de carbono. Os animais foram distribuídos em três grupos: um sem tratamento com silimarina e dois que receberam a substância durante 15 dias.

Os grupos tratados apresentaram menores valores de alanina aminotransferase, conhecida pela sigla ALT, e menor sensibilidade na região hepática. Não houve diferença estatisticamente significativa entre as duas doses investigadas.

O resultado sugere um possível efeito nesse modelo de intoxicação. Como o estudo incluiu poucos animais e uma lesão induzida, ele não permite generalizar o benefício para todas as doenças hepáticas que surgem espontaneamente. Também não estabelece uma dose aplicável a qualquer paciente.

O consenso do American College of Veterinary Internal Medicine sobre hepatite crônica em cães, publicado em 2019, reconhece que a documentação de benefícios dos derivados do cardo-mariano permanece inconclusiva. Diferenças entre compostos, doses e formulações dificultam a comparação das pesquisas.

Melhorar as enzimas não conta toda a história

A ALT é um marcador associado à lesão dos hepatócitos, as principais células funcionais do fígado. Sua redução pode ser um achado favorável, mas, isoladamente, não comprova recuperação da estrutura ou da função do órgão.

Essa distinção aparece em uma pesquisa de Rezende (2003), realizada com camundongos submetidos à intoxicação experimental. A silimarina melhorou determinados marcadores sanguíneos nas primeiras avaliações, sem demonstrar redução significativa da área de necrose hepática atribuível ao tratamento.

A interpretação dos resultados deve reunir informações sobre o estado clínico, os exames e a evolução do animal. Demonstrar melhora sustentada da saúde exige mais do que observar a mudança de um único marcador.

Formulação e segurança também fazem diferença

A absorção oral da silimarina convencional é limitada. Formulações que associam silibina a fosfolipídios podem aumentar sua disponibilidade no organismo. Ainda assim, uma maior absorção não garante, por si só, melhores resultados clínicos.

A origem vegetal também não dispensa a avaliação de segurança. São descritas possibilidades de interferência em enzimas e transportadores envolvidos no processamento de medicamentos, embora a importância clínica dessas interações precise ser avaliada em cada situação. O cuidado é especialmente relevante quando o animal recebe vários fármacos.

A escolha da preparação e do esquema de uso deve considerar a condição do paciente, os demais tratamentos e a qualidade do produto. Doses de pesquisas experimentais não devem ser transformadas automaticamente em orientações para uso doméstico.

O lugar da silimarina no cuidado veterinário

A silimarina apresenta mecanismos de ação que justificam a continuidade das pesquisas. Há resultados favoráveis em determinados modelos experimentais, mas faltam evidências clínicas consistentes para definir seu benefício nas diferentes hepatopatias caninas.

Seu eventual uso como complemento deve integrar um plano de cuidado orientado pelo médico-veterinário, com diagnóstico da causa da doença e acompanhamento da resposta ao tratamento. O conhecimento sobre plantas medicinais contribui para esse cuidado quando vem acompanhado de identificação correta, preparações bem caracterizadas e avaliação crítica das evidências.

Referências e leituras

SCHOSSLER, D. R.; SCHOSSLER, J. E.; SILVA, C. F. Avaliação clínica e enzimática de cães com hepatite tóxica aguda tratados pela silimarina. Revista Brasileira de Ciência Veterinária, v. 5, n. 3, 1998. https://doi.org/10.22409/rbcv.v5i3.1097

WEBSTER, C. R. L. et al. ACVIM consensus statement on the diagnosis and treatment of chronic hepatitis in dogs. Journal of Veterinary Internal Medicine, v. 33, n. 3, p. 1173–1200, 2019. https://doi.org/10.1111/jvim.15467

EUROPEAN MEDICINES AGENCY. Silybi mariani fructus. Monografia e documentos de avaliação sobre os frutos do cardo-mariano. https://www.ema.europa.eu/en/medicines/herbal/silybi-mariani-fructus

REZENDE, R. J. Efeitos da silimarina (Silybum marianum), alcachofra (Cynara scolymus), mel, aminoácidos com levulose e aminoácidos com proteolisados de fígado na hepatotoxicidade aguda induzida por tetracloreto de carbono em camundongos. 2003. Dissertação (Mestrado em Ciências Veterinárias) — Universidade Federal de Uberlândia. https://repositorio.ufu.br/entities/publication/4b3f9d1c-4b24-48af-a6ae-06dd4facdbae

SURAI, P. F. Silymarin as a natural antioxidant: an overview of the current evidence and perspectives. Antioxidants, v. 4, n. 1, p. 204–247, 2015. https://doi.org/10.3390/antiox4010204