O potencial do cardo-mariano e os limites das evidências científicas
Ana
Clara de Moraes Gonçalves; Joana do Carmo Souza; Larissa Castro Aquila da
Silva; Luiza Salgado Ferreira
Universidade de Taubaté
O cardo-mariano é uma das plantas
medicinais que despertam interesse nas pesquisas sobre proteção do fígado. De
seus frutos se obtém a silimarina, mistura de compostos estudada por suas
atividades antioxidantes e anti-inflamatórias. Na medicina veterinária, ela tem
sido investigada como recurso complementar no cuidado de cães com doenças
hepáticas.
Os resultados experimentais ajudam a
compreender esse interesse, mas ainda há limitações para afirmar quanto a
silimarina beneficia os animais na rotina clínica. Para interpretar seu
potencial, é preciso conhecer a preparação utilizada, a doença investigada e o
que cada estudo realmente avaliou.
Uma planta e diferentes preparações
Conhecido popularmente como cardo-mariano
ou cardo-de-leite, Silybum marianum
(L.) Gaertn. pertence à família Asteraceae. A matéria-prima empregada na
obtenção dos extratos é principalmente o fruto maduro e seco, muitas vezes
chamado de semente.
A silimarina reúne diferentes substâncias,
entre elas a silibina, também denominada silibinina, a silicristina e a
silidianina. Por isso, silimarina e silibina não são termos equivalentes: o
primeiro designa uma mistura; o segundo, um de seus componentes.
Essa diferença tem consequências práticas.
O fruto triturado, um extrato padronizado e uma formulação de silibina
associada a fosfolipídios apresentam características distintas. Comparar
produtos exige observar sua composição, sua concentração e a forma como seus
componentes são absorvidos.
Por que o fígado precisa de atenção
O fígado participa do metabolismo dos
nutrientes, produz bile e proteínas importantes para o organismo e transforma
medicamentos e outras substâncias. As doenças que o afetam, chamadas
hepatopatias, podem ter causas e evoluções muito diferentes.
Em cães, o comprometimento hepático pode
estar relacionado, por exemplo, ao acúmulo de cobre, à exposição a substâncias
tóxicas e a determinados medicamentos. Alterações biliares e vasculares também
podem prejudicar o funcionamento do órgão. Identificar a causa orienta a
escolha do tratamento.
Apatia, perda de apetite, vômitos e
emagrecimento podem ocorrer nesses quadros, mas também aparecem em outras
doenças. Alguns animais apresentam alterações nos exames antes de manifestar
sinais perceptíveis. A avaliação depende da história clínica, do exame físico e
de exames complementares definidos pelo médico-veterinário.
Como a silimarina pode atuar
Parte do interesse pela silimarina está
relacionada ao estresse oxidativo. Esse processo ocorre quando a produção de
moléculas reativas supera a capacidade das defesas antioxidantes, favorecendo
danos às estruturas celulares.
Em modelos experimentais, a silimarina e
seus constituintes apresentaram efeitos sobre a oxidação dos lipídios das
membranas e sobre mecanismos de defesa celular. Também foram investigadas ações
em vias de sinalização envolvidas na inflamação.
Outros estudos exploram possíveis efeitos
sobre a deposição de colágeno e os processos de recuperação do tecido hepático.
Esses achados ajudam a formular hipóteses de tratamento. Entretanto, não
demonstram que a administração oral regenere o fígado ou reverta uma fibrose já
estabelecida em cães.
O que os estudos em cães mostram
Em um estudo publicado em 1998, Schossler,
Schossler e Silva avaliaram 15 cães com lesão hepática provocada
experimentalmente por tetracloreto de carbono. Os animais foram distribuídos em
três grupos: um sem tratamento com silimarina e dois que receberam a substância
durante 15 dias.
Os grupos tratados apresentaram menores
valores de alanina aminotransferase, conhecida pela sigla ALT, e menor
sensibilidade na região hepática. Não houve diferença estatisticamente
significativa entre as duas doses investigadas.
O resultado sugere um possível efeito nesse
modelo de intoxicação. Como o estudo incluiu poucos animais e uma lesão
induzida, ele não permite generalizar o benefício para todas as doenças
hepáticas que surgem espontaneamente. Também não estabelece uma dose aplicável
a qualquer paciente.
O consenso do American College of
Veterinary Internal Medicine sobre hepatite crônica em cães, publicado em 2019,
reconhece que a documentação de benefícios dos derivados do cardo-mariano
permanece inconclusiva. Diferenças entre compostos, doses e formulações
dificultam a comparação das pesquisas.
Melhorar as enzimas não conta toda a história
A ALT é um marcador associado à lesão dos
hepatócitos, as principais células funcionais do fígado. Sua redução pode ser
um achado favorável, mas, isoladamente, não comprova recuperação da estrutura
ou da função do órgão.
Essa distinção aparece em uma pesquisa de
Rezende (2003), realizada com camundongos submetidos à intoxicação
experimental. A silimarina melhorou determinados marcadores sanguíneos nas
primeiras avaliações, sem demonstrar redução significativa da área de necrose
hepática atribuível ao tratamento.
A interpretação dos resultados deve reunir
informações sobre o estado clínico, os exames e a evolução do animal.
Demonstrar melhora sustentada da saúde exige mais do que observar a mudança de
um único marcador.
Formulação e segurança também fazem diferença
A absorção oral da silimarina convencional
é limitada. Formulações que associam silibina a fosfolipídios podem aumentar
sua disponibilidade no organismo. Ainda assim, uma maior absorção não garante,
por si só, melhores resultados clínicos.
A origem vegetal também não dispensa a
avaliação de segurança. São descritas possibilidades de interferência em
enzimas e transportadores envolvidos no processamento de medicamentos, embora a
importância clínica dessas interações precise ser avaliada em cada situação. O
cuidado é especialmente relevante quando o animal recebe vários fármacos.
A escolha da preparação e do esquema de uso
deve considerar a condição do paciente, os demais tratamentos e a qualidade do
produto. Doses de pesquisas experimentais não devem ser transformadas
automaticamente em orientações para uso doméstico.
O lugar da silimarina no cuidado veterinário
A silimarina apresenta mecanismos de ação
que justificam a continuidade das pesquisas. Há resultados favoráveis em
determinados modelos experimentais, mas faltam evidências clínicas consistentes
para definir seu benefício nas diferentes hepatopatias caninas.
Seu eventual uso como complemento deve
integrar um plano de cuidado orientado pelo médico-veterinário, com diagnóstico
da causa da doença e acompanhamento da resposta ao tratamento. O conhecimento
sobre plantas medicinais contribui para esse cuidado quando vem acompanhado de
identificação correta, preparações bem caracterizadas e avaliação crítica das
evidências.
Referências e leituras
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REZENDE, R. J. Efeitos da
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(Mestrado em Ciências Veterinárias) — Universidade Federal de Uberlândia.
https://repositorio.ufu.br/entities/publication/4b3f9d1c-4b24-48af-a6ae-06dd4facdbae
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https://doi.org/10.3390/antiox4010204