Eloisa Ramos Da Costa – Medicina Veterinária - UNITAU
Gustavo José Rangel Gomes – Medicina Veterinária - UNITAU
INTRODUÇÃO
A cinomose canina é uma doença infectocontagiosa de elevada importância na medicina veterinária, causada pelo vírus da cinomose canina, pertencente à família Paramyxoviridae e ao gênero Morbillivirus. A enfermidade apresenta elevada contagiosidade, podendo provocar manifestações respiratórias, gastrointestinais, cutâneas e neurológicas. O comprometimento do sistema nervoso central é particularmente relevante, pois pode resultar em sinais clínicos graves e em sequelas neurológicas persistentes nos animais sobreviventes (SOUSA; VIANA, 2024). A revisão de Sousa e Viana caracteriza a enfermidade como altamente contagiosa, de elevada mortalidade e particularmente importante em animais jovens e não vacinados ou com protocolo vacinal incompleto.
Entre as principais manifestações neurológicas associadas à doença estão as mioclonias, convulsões, tremores e alterações da coordenação motora. Mesmo após a recuperação da fase aguda, alguns animais podem permanecer com sequelas neurológicas, cujo manejo representa um desafio na prática clínica veterinária. Nesse contexto, cresce o interesse por terapias complementares capazes de auxiliar no controle dos sinais clínicos e na melhoria da qualidade de vida desses animais.
Entre as alternativas em investigação, destacam-se os compostos derivados de Cannabis sativa, especialmente o canabidiol (CBD) e o delta-9-tetrahidrocanabinol (THC). Relatos e trabalhos recentes têm investigado a utilização de produtos à base de canabinoides em cães com sequelas neurológicas decorrentes da cinomose (SANTOS; DUARTE; BRAGA, 2022; PRADO; OLIVEIRA; BLAITT, 2023; CARVALHO et al., 2021; CAVALCANTE et al., 2025). O trabalho de Santos, Duarte e Braga, publicado em 2022, destaca especificamente a utilização medicinal de derivados de Cannabis em sequelas da cinomose como área ainda carente de estudos.
Dessa forma, torna-se relevante discutir o potencial dos canabinoides como terapia complementar no manejo das sequelas neurológicas da cinomose canina, considerando os possíveis benefícios relatados, as limitações das evidências disponíveis e a necessidade de estudos que estabeleçam sua eficácia e segurança.
REVISÃO DE LITERATURA
Cinomose canina
A cinomose canina é uma enfermidade viral altamente contagiosa que acomete principalmente cães jovens, não vacinados ou com protocolo vacinal incompleto, embora possa ocorrer em animais de diferentes faixas etárias. O vírus apresenta distribuição mundial e pode comprometer diferentes sistemas orgânicos. A transmissão pode ocorrer por contato com animais infectados, objetos ou alimentos contaminados e pela dispersão de aerossóis (SOUSA; VIANA, 2024).
Durante a evolução da doença, podem ser observadas manifestações respiratórias, gastrointestinais, cutâneas e neurológicas. Entre os sinais clínicos descritos estão alterações respiratórias e digestivas, enquanto o envolvimento do sistema nervoso central pode ocasionar manifestações neurológicas importantes (SOUSA; VIANA, 2024).
O comprometimento neurológico merece especial atenção devido à gravidade das alterações e à possibilidade de persistência de sequelas. Entre as manifestações observadas podem ocorrer mioclonias, convulsões, tremores, alterações de coordenação motora, fraqueza muscular e distúrbios relacionados à postura e à locomoção.
As mioclonias são particularmente relevantes porque podem permanecer após o período agudo da enfermidade, comprometendo a qualidade de vida do animal. Deve-se considerar, entretanto, que mioclonias e convulsões representam alterações neurológicas distintas. Portanto, evidências relacionadas à ação anticonvulsivante de determinado composto não podem ser automaticamente interpretadas como evidências de eficácia contra as mioclonias decorrentes da cinomose.
Atualmente, não existe tratamento antiviral específico capaz de eliminar a infecção estabelecida pelo vírus da cinomose. O manejo clínico é direcionado aos sinais apresentados e às condições individuais do paciente. A revisão de Sousa e Viana destaca a ausência de tratamento específico e a importância da vacinação como principal medida preventiva (SOUSA; VIANA, 2024).
Cannabis sativa e sistema endocanabinoide
A Cannabis sativa apresenta diversos compostos biologicamente ativos, entre os quais se destacam os fitocanabinoides CBD e THC. Esses compostos têm despertado crescente interesse científico e clínico em razão de sua interação com mecanismos relacionados ao sistema endocanabinoide.
O sistema endocanabinoide encontra-se presente nos mamíferos e está envolvido na regulação de diferentes funções fisiológicas. Santos, Duarte e Braga (2022) descrevem receptores canabinoides localizados, entre outros locais, no sistema nervoso central e no sistema imunológico, relacionando o sistema endocanabinoide a diferentes processos fisiológicos.
Carvalho et al. (2021) também relacionam os canabinoides e o sistema endocanabinoide à homeostase neuronal e apresentam um relato de caso envolvendo a utilização de óleo contendo CBD e THC em uma cadela com sequelas neurológicas decorrentes da cinomose.
Apesar do interesse crescente pelo uso veterinário de produtos derivados de Cannabis, é importante diferenciar o CBD do THC. Esses compostos apresentam características farmacológicas distintas e, portanto, não devem ser tratados como substâncias terapeuticamente equivalentes. Da mesma forma, resultados obtidos com formulações full spectrum, que apresentam mais de um componente, não devem ser atribuídos exclusivamente ao CBD sem evidência específica que permita essa conclusão.
Potencial dos canabinoides nas sequelas neurológicas da cinomose
O emprego de produtos derivados de Cannabis no tratamento complementar de alterações neurológicas em animais tem despertado interesse, particularmente em razão da possibilidade de atuação sobre algumas manifestações clínicas.
No caso das sequelas decorrentes da cinomose, existem relatos e trabalhos acadêmicos descrevendo a utilização de óleo de Cannabis. Santos, Duarte e Braga (2022), por exemplo, realizaram uma revisão de literatura relacionada ao emprego de derivados de Cannabis nas sequelas da cinomose e em quadros associados à epilepsia. Os próprios autores ressaltam a necessidade de estudos adicionais sobre os mecanismos de ação e a farmacodinâmica desses compostos em animais.
Carvalho et al. (2021) apresentaram um relato de caso envolvendo uma cadela com histórico de cinomose, mioclonia e crises epilépticas submetida à terapia integrativa utilizando óleo full spectrum contendo CBD e THC, concomitantemente ao manejo de medicamentos anticonvulsivantes. O trabalho relatou evolução clínica favorável em relação às crises convulsivas durante o acompanhamento apresentado pelos autores. Entretanto, por se tratar de um relato de caso e envolver tratamento concomitante, os resultados não permitem estabelecer uma relação causal ou generalizar a eficácia da terapia para outros animais com a mesma condição.
Prado, Oliveira e Blaitt (2023) também apresentaram um relato clínico de uma cadela com sequela neurológica decorrente da cinomose submetida a tratamento complementar com óleo de Cannabis full spectrum. Segundo o resumo disponibilizado no Repositório Institucional da Universidade de Sorocaba, o óleo foi empregado concomitantemente ao fenobarbital e ao brometo de potássio, e os autores relataram evolução clínica após a introdução dos fitocanabinoides.
Esses resultados devem, porém, ser interpretados com cautela. Relatos de caso são relevantes para gerar hipóteses e documentar experiências clínicas, mas apresentam limitações importantes para demonstrar eficácia terapêutica, sobretudo pela ausência de grupos-controle, pelo pequeno número de indivíduos e pela possível utilização concomitante de outros medicamentos.
Outro trabalho relacionado ao tema é o de Cavalcante et al. (2025), direcionado ao uso de óleo de Cannabis em cães com sequelas de cinomose. Entretanto, a contribuição desse tipo de publicação deve ser analisada de acordo com o delineamento e o nível de evidência apresentado, evitando-se utilizar estudos preliminares como comprovação definitiva da eficácia clínica dos canabinoides.
Nesse sentido, embora existam resultados que justifiquem a continuidade das pesquisas, as evidências atualmente apresentadas na literatura selecionada não são suficientes para afirmar que CBD ou THC sejam eficazes especificamente no tratamento das mioclonias e demais sequelas neurológicas da cinomose canina.
Também não há, nessas referências, evidência suficiente para afirmar que esses compostos sejam capazes de regenerar neurônios lesionados pelo vírus da cinomose ou reverter definitivamente as alterações neurológicas estabelecidas. Assim, é mais adequado discutir seu uso como uma possível terapia complementar direcionada ao manejo de determinados sinais clínicos, e não como tratamento curativo das lesões neurológicas.
Além disso, efeitos adversos e questões relacionadas à dose, composição dos produtos, proporção entre CBD e THC, interações medicamentosas e segurança do uso prolongado devem ser considerados. Essas características reforçam a necessidade de acompanhamento médico-veterinário e de estudos experimentais e clínicos controlados que avaliem especificamente cães acometidos por sequelas neurológicas da cinomose.
CONCLUSÃO
Diante do exposto, os derivados de Cannabis sativa, especialmente as formulações contendo canabidiol (CBD), constituem uma área de interesse para investigação como terapia complementar no manejo de alterações neurológicas em cães. Relatos envolvendo animais com sequelas decorrentes da cinomose descrevem evolução clínica favorável em determinados casos; entretanto, o nível de evidência proporcionado por esses trabalhos ainda é limitado.
Particularmente em relação à cinomose, ainda não existem evidências suficientes, entre as referências analisadas, para estabelecer a eficácia dos canabinoides no controle das mioclonias e demais distúrbios motores ou para afirmar que sejam capazes de promover a recuperação das lesões neurológicas provocadas pela enfermidade.
Dessa forma, os resultados disponíveis devem ser interpretados com cautela, especialmente porque parte significativa das evidências específicas para cinomose se baseia em relatos de caso e trabalhos preliminares. A utilização dos canabinoides deve, portanto, ser considerada como uma possível estratégia terapêutica complementar, sempre sob acompanhamento de médico-veterinário e sem substituir os tratamentos convencionais indicados para o quadro clínico do animal.
Conclui-se que são necessários estudos clínicos controlados, com maior número de animais e protocolos terapêuticos bem definidos, que avaliem parâmetros como frequência e intensidade das mioclonias e convulsões, função motora, qualidade de vida, ocorrência de efeitos adversos e possíveis interações medicamentosas. Esses estudos poderão contribuir para determinar com maior precisão a eficácia, a segurança, as limitações e as possíveis aplicações dos canabinoides no manejo das sequelas neurológicas da cinomose canina.
REFERÊNCIAS
CARVALHO, Gustavo Sá de; MENEZES, Liz Oliveira; SANTOS, Maria Yasmim Florentino dos; NUNES, Yade Farias. Uso do óleo de CBD e THC (full spectrum) como terapia integrativa no tratamento de sequela de cinomose em cão: relato de caso. In: SIMPÓSIO EM BEM-ESTAR ANIMAL (SIMBEA 21), 2021. Anais do Simpósio em Bem-estar Animal. Cangaceiro Vet, 2021. ISBN 978-65-5941-290-7. O registro da publicação informa data de publicação de 4 ago. 2021, modalidade Resumo Simples e meio digital.
CAVALCANTE, Vitoria Gonçalves; PERNAMBUCO, Lorena Rodrigues; SILVA, Samantha Gomes da; BRITO, Stefani da Silva; ALVES, Mylena Santos da Silva; SILVA, Sheilla Nogueira Saraiva da. Uso de óleo de cannabis em cães com sequelas de cinomose. In: JORNADA CIENTÍFICA DO PROMIC, 2., 2025. Anais [...]. Centro Universitário Fametro (UNIFAMETRO), 2025.
PRADO, Ana Blandina Cintra de Almeida; OLIVEIRA, Elisângela França de; BLAITT, Regina Maria Nascimento Augusto. Uso de óleo de Cannabis no tratamento de sequela de cinomose: relato de caso. Sorocaba: Universidade de Sorocaba, 2023. Artigo/TCC, Curso de Medicina Veterinária. O Repositório Institucional da UNISO confirma o ano, título e natureza do documento.
SANTOS, Aline Viana dos; DUARTE, Raiany Borges; BRAGA, Ísis Assis. Uso de óleo de Cannabis spp. em sequelas da cinomose canina: uma terapia integrativa promissora. In: COLÓQUIO ESTADUAL DE PESQUISA MULTIDISCIPLINAR, 2022. Anais do Colóquio Estadual de Pesquisa Multidisciplinar. 2022. Resumo simples. ISSN 2527-2500.
SOUSA, Raquel Silva e; VIANA, Joaquim Albuquerque. Cinomose canina: revisão de literatura. Research, Society and Development, v. 13, n. 11, e80131147381, 2024. DOI: 10.33448/rsd-v13i11.47381.