Paula Xagoraris Telles Nunes Cost
Advogada e acadêmica de Medicina Veterinária da Universidade de Taubaté
O conhecimento e a utilização de plantas para a cura e estabilização de doenças em humanos são milenares, com registros desde as dinastias egípcias, séculos antes de Cristo. Apesar de ser um campo amplo e antigo, ainda há importantes lacunas quanto à definição de protocolos terapêuticos para animais, especialmente aqueles que permitam reduzir o uso intensivo de medicamentos industrializados. Nesse contexto, a área da Medicina Veterinária integrativa, que engloba práticas como a fitoterapia e a homeopatia, ainda se encontra em desenvolvimento (Santos et al., 2017).
Entre as afecções que acometem
animais de companhia, como cães e gatos, destaca-se a urolitíase. Essa condição
caracteriza-se pela formação de urólitos (concreções sólidas) no trato
urinário, podendo ocorrer nos rins, ureteres, bexiga urinária e uretra.
Os rins de cães e gatos são
órgãos retroperitoneais, recobertos por uma cápsula renal que limita a expansão
do parênquima. Essa característica dificulta a acomodação de formações sólidas
em seu interior sem a ocorrência de dor. De forma semelhante, ureteres e uretra
apresentam baixa capacidade de distensão, o que dificulta a passagem de
cálculos maiores que seus diâmetros. Por esse motivo, além de representar risco
clínico — como obstrução urinária, infecções, hidronefrose e insuficiência
renal —, a urolitíase é uma condição altamente dolorosa, sendo frequentemente
comparada, em humanos, a uma das dores mais intensas já descritas (Pucci et
al., 2018).
O tratamento e a manutenção de
pacientes com litíase urinária geralmente são prolongados. Dessa forma,
torna-se desejável o uso de substâncias com baixo potencial de efeitos adversos
e custo acessível, favorecendo a adesão ao tratamento por parte dos tutores
(Santos et al., 2017).
Nesse cenário, a planta
popularmente conhecida como “quebra-pedra” (Phyllanthus niruri)
destaca-se como uma alternativa de interesse. Trata-se de uma espécie nativa
das Américas, amplamente distribuída em regiões tropicais, o que favorece sua
utilização no Brasil. Pode ser empregada sob diferentes formas, como planta
fresca, seca (infusão) ou extrato líquido, facilitando seu armazenamento,
distribuição e preparo (Boim et al., 2010).
A P. niruri apresenta
múltiplos mecanismos de ação. Destaca-se sua atividade antiespasmódica sobre a
musculatura lisa do trato urinário, além de efeitos antioxidantes, que
contribuem para a redução da ação citotóxica dos urólitos sobre os tecidos
(Boim et al., 2010). Estudos também indicam possíveis efeitos analgésicos,
associados à modulação de receptores relacionados à dor, bem como ação
anti-inflamatória mediada pela redução da produção de prostaglandinas,
contribuindo para a diminuição da dor provocada pelo atrito dos cálculos no
epitélio urinário.
Adicionalmente, a planta
apresenta efeito vasodilatador, podendo auxiliar na redução da pressão arterial
(Pucci et al., 2018), e ação diurética. Ao aumentar a excreção de sódio e
potássio, promove uma diurese mais diluída, contribuindo para a redução da densidade
urinária e dificultando a agregação de cristais (Udupa et al., 2007).
Em relação aos parâmetros
metabólicos, a espécie pode reduzir os níveis séricos e urinários de cálcio em
pacientes com hipercalciúria, além de diminuir os níveis de ácido úrico em
animais hiperuricêmicos, de forma semelhante ao alopurinol. Esses efeitos contribuem
para a redução da formação de novos cristais e para a estabilização dos
cálculos já existentes, além de influenciar positivamente o pH urinário, fator
importante na dinâmica de agregação cristalina (Campos; Schor, 1999;
Murugaiyah; Chan, 2009).
No que se refere aos diferentes
tipos de urólitos, evidências sugerem que a P. niruri pode interferir na
agregação de cristais de oxalato de cálcio, contribuindo para sua prevenção e
possível dissolução (Barros et al., 2003). Para cálculos de estruvita e urato,
embora o efeito dissolutivo direto seja mais limitado, a planta apresenta relevância
por sua atividade antimicrobiana, atuando contra bactérias frequentemente
envolvidas em infecções urinárias e na formação desses urólitos (Ibrahim et
al., 2013).
Para que sua utilização seja
segura e eficaz, é fundamental estabelecer protocolos terapêuticos bem
definidos, considerando doses adequadas, tipo de urólito e características
individuais do paciente. A literatura ressalta a necessidade de estudos específicos
em cães e gatos, com acompanhamento clínico e laboratorial a longo prazo
(CRMV-MA, 2023). A individualização do tratamento é particularmente importante
em felinos, cujo metabolismo hepático apresenta limitações que exigem maior
cautela e monitoramento (Asare et al., 2011).
A Phyllanthus niruri
apresenta-se como uma alternativa promissora e multifatorial no manejo da
urolitíase em pequenos animais, atuando de forma integrada na prevenção da
formação, agregação e eliminação de urólitos, especialmente os de oxalato de
cálcio. Além disso, contribui para o controle de fatores associados, como
inflamação, dor, infecção bacteriana e alterações metabólicas, por meio de seus
efeitos antiespasmódicos, diuréticos, antioxidantes e moduladores do pH
urinário.
Entretanto, sua utilização deve ser pautada em critérios técnicos rigorosos, com identificação prévia do tipo de urólito, definição de doses seguras e monitoramento clínico e laboratorial contínuo, sobretudo em espécies mais sensíveis, como os felinos. Nesse contexto, a consolidação de protocolos específicos, baseados em evidências científicas, torna-se indispensável para garantir a eficácia e a segurança dessa abordagem terapêutica na prática clínica veterinária.
Referências
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