sexta-feira, 3 de abril de 2026

Urolitíase em pequenos animais e o potencial terapêutico de Phyllanthus niruri: uma abordagem integrativa

Paula Xagoraris Telles Nunes Cost

Advogada e acadêmica de Medicina Veterinária da Universidade de Taubaté

O conhecimento e a utilização de plantas para a cura e estabilização de doenças em humanos são milenares, com registros desde as dinastias egípcias, séculos antes de Cristo. Apesar de ser um campo amplo e antigo, ainda há importantes lacunas quanto à definição de protocolos terapêuticos para animais, especialmente aqueles que permitam reduzir o uso intensivo de medicamentos industrializados. Nesse contexto, a área da Medicina Veterinária integrativa, que engloba práticas como a fitoterapia e a homeopatia, ainda se encontra em desenvolvimento (Santos et al., 2017).

Entre as afecções que acometem animais de companhia, como cães e gatos, destaca-se a urolitíase. Essa condição caracteriza-se pela formação de urólitos (concreções sólidas) no trato urinário, podendo ocorrer nos rins, ureteres, bexiga urinária e uretra.

Os rins de cães e gatos são órgãos retroperitoneais, recobertos por uma cápsula renal que limita a expansão do parênquima. Essa característica dificulta a acomodação de formações sólidas em seu interior sem a ocorrência de dor. De forma semelhante, ureteres e uretra apresentam baixa capacidade de distensão, o que dificulta a passagem de cálculos maiores que seus diâmetros. Por esse motivo, além de representar risco clínico — como obstrução urinária, infecções, hidronefrose e insuficiência renal —, a urolitíase é uma condição altamente dolorosa, sendo frequentemente comparada, em humanos, a uma das dores mais intensas já descritas (Pucci et al., 2018).

O tratamento e a manutenção de pacientes com litíase urinária geralmente são prolongados. Dessa forma, torna-se desejável o uso de substâncias com baixo potencial de efeitos adversos e custo acessível, favorecendo a adesão ao tratamento por parte dos tutores (Santos et al., 2017).

Nesse cenário, a planta popularmente conhecida como “quebra-pedra” (Phyllanthus niruri) destaca-se como uma alternativa de interesse. Trata-se de uma espécie nativa das Américas, amplamente distribuída em regiões tropicais, o que favorece sua utilização no Brasil. Pode ser empregada sob diferentes formas, como planta fresca, seca (infusão) ou extrato líquido, facilitando seu armazenamento, distribuição e preparo (Boim et al., 2010).

A P. niruri apresenta múltiplos mecanismos de ação. Destaca-se sua atividade antiespasmódica sobre a musculatura lisa do trato urinário, além de efeitos antioxidantes, que contribuem para a redução da ação citotóxica dos urólitos sobre os tecidos (Boim et al., 2010). Estudos também indicam possíveis efeitos analgésicos, associados à modulação de receptores relacionados à dor, bem como ação anti-inflamatória mediada pela redução da produção de prostaglandinas, contribuindo para a diminuição da dor provocada pelo atrito dos cálculos no epitélio urinário.

Adicionalmente, a planta apresenta efeito vasodilatador, podendo auxiliar na redução da pressão arterial (Pucci et al., 2018), e ação diurética. Ao aumentar a excreção de sódio e potássio, promove uma diurese mais diluída, contribuindo para a redução da densidade urinária e dificultando a agregação de cristais (Udupa et al., 2007).

Em relação aos parâmetros metabólicos, a espécie pode reduzir os níveis séricos e urinários de cálcio em pacientes com hipercalciúria, além de diminuir os níveis de ácido úrico em animais hiperuricêmicos, de forma semelhante ao alopurinol. Esses efeitos contribuem para a redução da formação de novos cristais e para a estabilização dos cálculos já existentes, além de influenciar positivamente o pH urinário, fator importante na dinâmica de agregação cristalina (Campos; Schor, 1999; Murugaiyah; Chan, 2009).

No que se refere aos diferentes tipos de urólitos, evidências sugerem que a P. niruri pode interferir na agregação de cristais de oxalato de cálcio, contribuindo para sua prevenção e possível dissolução (Barros et al., 2003). Para cálculos de estruvita e urato, embora o efeito dissolutivo direto seja mais limitado, a planta apresenta relevância por sua atividade antimicrobiana, atuando contra bactérias frequentemente envolvidas em infecções urinárias e na formação desses urólitos (Ibrahim et al., 2013).

Para que sua utilização seja segura e eficaz, é fundamental estabelecer protocolos terapêuticos bem definidos, considerando doses adequadas, tipo de urólito e características individuais do paciente. A literatura ressalta a necessidade de estudos específicos em cães e gatos, com acompanhamento clínico e laboratorial a longo prazo (CRMV-MA, 2023). A individualização do tratamento é particularmente importante em felinos, cujo metabolismo hepático apresenta limitações que exigem maior cautela e monitoramento (Asare et al., 2011).

A Phyllanthus niruri apresenta-se como uma alternativa promissora e multifatorial no manejo da urolitíase em pequenos animais, atuando de forma integrada na prevenção da formação, agregação e eliminação de urólitos, especialmente os de oxalato de cálcio. Além disso, contribui para o controle de fatores associados, como inflamação, dor, infecção bacteriana e alterações metabólicas, por meio de seus efeitos antiespasmódicos, diuréticos, antioxidantes e moduladores do pH urinário.

Entretanto, sua utilização deve ser pautada em critérios técnicos rigorosos, com identificação prévia do tipo de urólito, definição de doses seguras e monitoramento clínico e laboratorial contínuo, sobretudo em espécies mais sensíveis, como os felinos. Nesse contexto, a consolidação de protocolos específicos, baseados em evidências científicas, torna-se indispensável para garantir a eficácia e a segurança dessa abordagem terapêutica na prática clínica veterinária. 

Referências

ASARE, G. A. et al. Acute and sub-chronic toxicity studies of Phyllanthus niruri L. whole plant extract. Methods and Findings in Experimental and Clinical Pharmacology, [S. l.], v. 33, n. 3, p. 179–187, 2011. Disponível em: https://doi.org/10.1358/mf.2011.33.3.1632295. Acesso em: 02 abr. 2026. 

BARROS, M. E. et al. Effect of extract of Phyllanthus niruri on urinary sulfate, citrate and magnesium in rats. International Brazilian Journal of Urology, Rio de Janeiro, v. 29, n. 3, p. 263–267, 2003. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S1677-55382003000300011. Acesso em: 02 abr. 2026.

BOIM, M. A.; HEILBERG, I. P.; SCHOR, N. Phyllanthus niruri como alternativa promissora no tratamento da nefrolitíase. International Brazilian Journal of Urology, Rio de Janeiro, v. 36, n. 6, p. 657–664, 2010. Disponível em: https://repositorio.unifesp.br/handle/11600/6022. Acesso em: 02 abr. 2026.

CAMPOS, A. H.; SCHOR, N. Phyllanthus niruri inhibits calcium oxalate endocytosis by renal tubular cells: its role in urolithiasis. Nephron, [S. l.], v. 81, n. 4, p. 393–397, 1999. Disponível em: https://doi.org/10.1159/000045327. Acesso em: 02 abr. 2026.

CONSELHO REGIONAL DE MEDICINA VETERINÁRIA DO MARANHÃO (CRMV-MA). Nota técnica: uso de chá de quebra-pedra para prevenção e tratamento de doença renal em gatos. São Luís: CRMV-MA, 2023. Disponível em: https://crmvma.org.br. Acesso em: 02 abr. 2026.

IBRAHIM, J. F. et al. Antimicrobial activity of Phyllanthus niruri L. (Euphorbiaceae) against pathogenic bacteria. Journal of Pharmacognosy and Phytochemistry, [S. l.], v. 2, n. 3, p. 202–205, 2013. Disponível em: https://www.phytojournal.com. Acesso em: 02 abr. 2026.

MURUGAIYAH, V.; CHAN, K. L. Mechanisms of antihyperuricemic effect of Phyllanthus niruri and its lignans. Journal of Ethnopharmacology, [S. l.], v. 124, n. 2, p. 233–239, 2009. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.jep.2009.04.026. Acesso em: 02 abr. 2026.

PUCCI, N. D. et al. Efeito de Phyllanthus niruri em parâmetros metabólicos de pacientes com cálculos renais: perspectiva para prevenção da doença. International Brazilian Journal of Urology, Rio de Janeiro, v. 44, n. 4, p. 758–764, 2018. Disponível em: https://repositorio.usp.br/item/002853578. Acesso em: 02 abr. 2026.

SANTOS, L. S. et al. O uso de Phyllanthus niruri (“quebra-pedra”) como nefrolítico: uma revisão integrativa. In: CONBRACIS, 2., 2017, Campina Grande. Anais [...]. Campina Grande: Realize Editora, 2017. Disponível em: https://editorarealize.com.br/artigo/visualizar/28544. Acesso em: 02 abr. 2026.

UDUPA, A. L. et al. Diuretic activity of Phyllanthus niruri Linn. in rats. Health, [S. l.], v. 2, n. 1, p. 11–12, 2007. Disponível em: https://www.scirp.org. Acesso em: 02 abr. 2026.