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sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Seminário Nacional sobre mudanças climáticas clama por proteção à Mãe Terra

Durante Seminário Nacional do Fórum de Mudanças Climáticas e Justiça Social (FMCJS), em Brasília, o professor Heitor Scalambrini (PE) e Zoraide Vilasboas (BA), representantes da Articulação Antinuclear Brasileira, defenderam o uso de energias renováveis e negaram que a fonte nuclear seja limpa, já que sua cadeia de produção é cara, suja e perigosa, sendo, portanto, econômica, social e ambientalmente insustentável.

O convite à luta contra a exploração irresponsável dos recursos naturais do planeta por parte dos capitalistas e suas consequências sobre as mudanças climáticas é o foco principal da carta final do evento, promovido pelo FMCJS.

Íntegra da Carta aprovada por mais de 100 participantes do Seminário

PRECISAMOS REESCREVER O FUTURO

AGORA!

Viemos de todos os estados brasileiros, do Distrito Federal, das comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas, da agricultura familiar, das cidades, dos movimentos sociais e populares do campo, das florestas, das águas e das cidades, todxs violentadxs por projetos extrativistas e de infraestrutura como hidrelétricas, termoelétricas, energia eólica e nuclear, transposição de rios, mineração, pecuária, extração de fontes fósseis (convencionais e não convencionais), expansão da monocultura e do agronegócio, agrotóxicos, projetos de créditos de carbono, desastres ambientais que geram migrações forçadas e projetos urbanos que expulsam comunidades. Em Brasília, no Seminário Nacional do Fórum de Mudanças Climáticas e Justiça Social, de 25 a 28 de outubro de 2016, refletimos sobre as mudanças climáticas, socializamos os gritos, nos fortalecemos para enfrentar os mega-projetos patrocinados pelo sistema capitalista, por meio de corporações e governos que atentam contra a vida da Mãe Terra, de suas Filhas e Filhos.

Motivados pela espiritualidade dos povos da floresta, das águas, do campo e das cidades, em uma só voz denunciamos as faces desse desenvolvimento perverso, que produz o Ecocídio, o Etnocídio e o Genocídio da Mãe Terra e alimenta o capitalismo financeirizado, globalizado e agressivo. Denunciamos a falácia da “Economia Verde”, que mercantiliza e privatiza rios, oceanos, florestas, o ar e a Mãe Terra, expulsando suas filhas e filhos em favor de projetos que produzem morte cultural, econômica, social e organizacional de povos e comunidades tradicionais, camponeses e comunidades urbanas.

Somando-se à voz dos povos originários, a ciência revelou que chegamos a uma nova época geológica, chamada de ”Antropoceno”. Nele, a humanidade, com uma responsabilidade bem maior por parte dos mais ricos e que mais consomem, tornou-se uma força indutora de impactos profundos e irreversíveis em escala global. Impactos que incluem a 6ª grande extinção de espécies da história terrestre, um domínio destrutivo sobre a maior parte das terras e da água doce, a acidificação dos mares, a destruição da camada de ozônio. Incluem, sobretudo, uma radical mudança do clima da Terra provocada pelo aumento exponencial da concentração dos gases de efeito estufa pela queima de combustíveis fósseis, desmatamento, etc. São frutos envenenados de uma economia da morte.

As mudanças climáticas já aumentaram em 1,2oC a temperatura do planeta desde o início da era industrial, provocando efeitos extremos, tais como furacões, secas, tempestades, ondas de calor, elevação crescente do nível do mar. Ameaçam a vida de milhões de seres humanos e de outras espécies. É o maior desafio jamais posto diante da humanidade. Precisamos agir para deter essas mudanças. O causador destas aflições é o modo capitalista de desenvolvimento, que prioriza o lucro e a acumulação, e não o atendimento das reais necessidades materiais e imateriais da humanidade, que confunde desenvolvimento com mero crescimento físico. Estamos perto de esgotar os bens naturais e é urgente determos a voracidade do crescimento capitalista. Constatamos que, sem superar o sistema do capital, o Planeta mergulhará no caos e a vida nas formas conhecidas desaparecerá. Para viver, precisamos de alimentação boa e saudável, beleza e amor, e não de alimentos e água contaminados, pobreza e egoísmo. A produção contínua de desigualdades sociais e a destruição de comunidades humanas e seus modos de reprodução ampliada da vida tornam o sistema insustentável. De quanto tempo a fração privilegiada da humanidade vai precisar para descobrir que não se come dinheiro nem se bebe petróleo?

O predomínio antagônico do homem sobre a mulher e sobre a Mãe Terra, de nossa espécie sobre as demais, do capital sobre o trabalho, da riqueza material sobre a não material, da ilusão de que a técnica resolve tudo, e das corporações sobre os povos da Terra anula o sentido participativo da democracia. Reconstruir as sociedades humanas de baixo para cima começa com a organização de comunidades intencionais onde as pessoas vivem e trabalham. Produzir e consumir localmente; partilhar solidariamente nossos excedentes; promover saúde coletiva; garantir espaços de mobilidade ativa, ferrovias para passageiros e cargas, e transporte público includente, multimodal e de qualidade; assegurar terra para quem dela necessita para viver e trabalhar; universalizar a permacultura, a agrofloresta e a agroecologia; acolher os que sofrem as mazelas espalhadas pelo capital; receber refugiados climáticxs com braços, portas e fronteiras abertas para a partilha; construir uma economia do suficiente (bens materiais), e da abundância em qualidade de vida – lazer, comunicação, artes, amizade, amor, felicidade, criando o ambiente político, social, natural e espiritual propício para que cada pessoa desenvolva sempre mais plenamente seus potenciais individuais e coletivos – este é o sentido maior da vida humana.

A economia da vida promove a descentralização do poder político, econômico e cultural, e a valorização da unicidade (comunidade da vida que habita a Casa Comum) e da diversidade humana e biológica. Promove o empoderamento das comunidades para planejarem e implementarem o seu próprio desenvolvimento de forma autogestionária, solidária, sustentável, e articuladas entre si em escala sucessiva até o âmbito nacional e global. Com a posse compartilhada dos bens produtivos e o planejamento participativo superam-se os riscos da superprodução, do descarte e da especulação; em vez da privatização, o cuidado e a partilha dos bens comuns. A matriz energética se reerguerá num modelo descentralizado de produção e consumo da escala comunitária até a nacional. A educação para a vida ensinará valores e métodos da partilha dos bens produtivos e da troca solidária, ou doação dos excedentes, da reciprocidade voluntária, da restauração e da conservação dos ecossistemas.

O futuro escrito pelo capital é de destruição e morte, mas já está sendo reescrito na sabedoria representada pelos povos originários e demais comunidades tradicionais, e por outras formas de comunidades intencionais, como comunidades camponesas, ecovilas e ecocidades. Aprendamos com eles o modo de vida simples, compartilhado e rico de tradições ancestrais, o seu cuidado com o meio natural e a sua espiritualidade enraizada na Mãe-Terra, na perspectiva da construção de sociedades do bem viver!

Brasília, 28 de outubro de 2016

Zoraide Vilasboas
Movimento Paulo Jackson – Ética, Justiça, Cidadania
Articulaçao Antinuclear Brasiliera

in EcoDebate, 04/11/2016

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Desmatamento, agricultura e pecuária modificam composição química no solo da Amazônia

Pesquisa observou que as áreas de floresta nativa apresentam uma menor diversidade, mas uma maior abundância de micro-organismos comparadas às zonas em que o solo sofreu manejo – Foto: Divulgação

A forma como é preparado o solo tem ligação direta com as respostas das comunidades microbianas na região amazônica, atesta pesquisa realizada pelo Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) da USP, em Piracicaba. O estudo do biólogo Lucas William Mendes demonstra que a substituição da floresta nativa por áreas de agricultura e pecuária tem modificado a composição química do solo e levado os micro-organismos a se adaptarem para sobreviver e manter o equilíbrio do ecossistema. O conhecimento dessas adaptações pode ajudar a encontrar maneiras sustentáveis de melhorar a fertilidade do solo.

Para a pesquisa foram coletadas amostras de solo em áreas de floresta nativa, área desmatada, agricultura (plantio de soja) e pastagem. “As coletas foram realizadas na região Centro-Oeste do Brasil, no Estado do Mato Grosso, numa região conhecida como ‘arco do desmatamento’, devido ao intenso processo de conversão da floresta em agricultura”, conta o pesquisador. “Foram realizadas quatro coletas durante o período de 2009 a 2011, compreendendo o período de chuva e seca da região.”

O estudo avaliou o efeito das mudanças do uso do solo, ou seja, a conversão de áreas de floresta em agricultura e pastagem, sob as comunidades de micro-organismos. “Como as comunidades microbianas têm papel fundamental na manutenção da qualidade do solo, é de suma importância entender sua resposta aos distúrbios da paisagem ocasionados pelo crescimento da agricultura na região amazônica”, afirma Mendes.

Para a análise da diversidade microbiana foi feito o sequenciamento massivo (metagenômica) a partir de DNA extraído das amostras do solo. “As comunidades microbianas estão envolvidas em processos biogeoquímicos, ciclagem de nutrientes e até mesmo emissão de gases do efeito estufa, tendo um papel considerável na manutenção da qualidade do solo”, aponta o pesquisador.

"Entender quem são esses micro-organismos e o que eles estão fazendo lá é o primeiro passo para futuras pesquisas que auxiliem na escolha do melhor manejo que preserve essa diversidade.”

Redundância

A conversão da floresta em áreas de agricultura ou pastagem é feita por meio do “corte e queima”, seguidos pelo preparo do solo para o plantio. “Essa atividade tem grande efeito sobre o solo, alterando drasticamente sua composição física e química”, aponta Mendes. Segundo o biólogo, alguns grupos microbianos respondem a alterações em parâmetros específicos, como pH, sódio, alumínio, entre outros. Portanto, é possível afirmar que a alteração química do solo, provocada pelo tipo de manejo, é o principal fator que afeta o microbioma presente ali.
Foto: Divulgação/DiarioNet

Ao avaliar a diversidade em detalhes, a pesquisa concluiu que o aumento da diversidade nas áreas alteradas levou a uma redundância funcional, ou seja, diferentes grupos de micro-organismos realizando uma mesma função. “A redundância funcional é importante para manter o funcionamento do sistema, uma vez que drásticas alterações do solo podem eliminar alguns grupos”, explica o cientista. “Dessa forma, o ambiente em equilíbrio é mantido por uma baixa diversidade, mas alta abundância microbiana, enquanto um desequilíbrio leva a um aumento da diversidade para que funções importantes do ecossistema não sejam perdidas.”

Premiado na categoria Ciências Agrárias do Prêmio Tese Destaque USP deste ano, o trabalho foi orientado pela professora Siu Mui Tsai, no Laboratório de Biologia Celular e Molecular do Cena. Parte do estudo aconteceu no Netherlands Institute of Ecology (NIOO-KNAW), em Wageningen (Holanda), sob a supervisão de Eiko Eurya Kuramae.

O próximo passo, ele anuncia, é identificar os grupos de micro-organismos que promovam benefícios às plantas, de modo a auxiliar a produção agrícola, melhorando a fertilidade do solo e promovendo um uso mais sustentável do meio ambiente. Um exemplo prático seria estimular o aumento dos grupos microbianos que fixam nitrogênio no solo, diminuindo assim o uso de insumos artificiais.

Por Júlio Bernardes, do Jornal/Agência USP, in EcoDebate, 27/09/2016

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

[Biblioteca do Ideias] O estado das Florestas do Mundo 2016

postado por Isadora Dias Nunes de Sena em Quarta-feira, 14 de Setembro de 2016

Florestas e árvores favorecem a agricultura sustentável porque, entre outras coisas, estabilizam os solos e o clima, regulam fluxos de água, fornecem sombra, abrigo e um habitat para polinizadores e predadores naturais de pragas agrícolas. Quando integradas com prudência a terras agrícolas, permitem aumentar a produtividade da agricultura. As matas também ajudam a garantir a segurança alimentar de centenas de milhões de pessoas, para as quais são fontes importantes de alimentos, energia e renda, especialmente em momentos difíceis. No entanto, a agricultura continua a ser o principal fator de desmatamento em todo o mundo, e muitas vezes as políticas agrícolas, florestais e de uso da terra não estão harmonizadas.
Essas são algumas das constatações do relatório "O estado das Florestas do Mundo 2016 - Florestas e agricultura: desafios e oportunidades em relação ao uso da terra (SOFO)" que o [Biblioteca do Ideias] de hoje traz. Lançado pela FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), mostra, a partir da análise de esforços bem sucedidos de sete países (Chile, Costa Rica, Gâmbia, Geórgia, Gana, Tunísia e Vietnã), que é possível ser capaz de conciliar as aspirações dos diferentes setores e aumentar a produtividade e a segurança alimentar de suas populações e, ao mesmo tempo, parar ou mesmo reverter o desmatamento.
O documento pretende servir de base para os países desenvolverem planos, políticas e programas para a realização dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, os quais possuem "caráter integrado e indivisível". Alimentação, meios de subsistência e gestão de recursos naturais não podem ser considerados separadamente, é necessário abordagens coerentes e integradas de sustentabilidade em todos os setores agrícolas e sistemas alimentares. A publicação traz também a importância da inclusão participativa significativa das partes interessadas para garantir a legitimidade da implementação e do monitoramento de tais processos de planejamento integrado do uso da terra.
Assim, "O estado das Florestas do Mundo 2016" apresenta dados importantes que evidenciam a necessidade de harmonia e conexão entres as áreas para que se estabeleça condições que tornem possível alcançar a agricultura sustentável, a segurança alimentar e a estabilidade climática. Lembrando que tais mudanças e reformulações precisam ser buscadas com urgência.


Quarta-feira, 14 de Setembro de 2016

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quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Amazônia e Cerrado são os Biomas mais atingidos por queimadas no inverno

Impactos sobre a vegetação ainda provocam alterações no clima e põem em risco grande quantidade de espécies animais

A estação da seca entre julho e setembro, aliada à formação de bolsões de calor nas regiões Norte e Centro-Oeste, favorecem a ocorrência de queimadas que prejudicam especialmente a flora e a fauna da Amazônia e do Cerrado.

Um estudo do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostra que são as vegetações destes dois biomas as mais afetadas pelos incêndios florestais: 82,45% dos 3.568 focos registrados já em maio estavam concentrados nessas regiões.

O chefe do centro especializado do PrevFogo, ligado ao Ibama, Gabriel Zacharias, afirma que a devastação das propriedades pela a agricultura para renovação da pastagem e trocas de lavouras contribui para esse índice.

“Na região amazônica tem o desmatamento que é um problema famoso. O uso do fogo é para desmatar, o que acaba agravando o problema, assim como em grande área de Cerrado”, afirmou. Contudo, ele diz que a situação “já era esperada”.

Segundo Zacharias, “esse ano estamos com um agravamento do período da seca, por causa do final do El Niño e com isso há dois períodos acumulados de pouca chuva, desde o segundo semestre do ano passado. Esse aumento do período seco fez com que a vegetação ficasse mais seca, a menor disponibilidade de água, gerou o maior potencial para as queimadas”, explicou.

Em um relatório do PrevFogo produzido em 2011 há o registro do trabalho de combate nas áreas prioritárias para o Ibama. Na ocasião, uma das áreas atingidas por queimadas foi o Parque Nacional dos Campos Amazônicos, em Rondônia (RO). O fogo só foi extinto pelos 45 brigadistas depois de 18 dias de operação no local, que teve 33.800 hectares de área devastada.

Impacto ambiental

O fogo que atinge essas regiões acaba por comprometer ainda a qualidade do solo, cujas camadas superiores perdem nutrientes e matéria orgânica e se tornam mais pobres e menos eficazes para plantações.

O impacto sobre a vegetação provoca consequências também sobre o clima, já que com a diminuição da área plantada há a queda na umidade do ar e redução das chuvas. “Quando chove a água não infiltra e logo escorre para os rios levando a matéria orgânica da superfície do solo, o que gera o assoreamento”, destaca o coordenador de emergências ambientais do Instituto Chico Mendes (ICMBio), Cristian Berlink. Ele lembra ainda que a degradação vegetal também põe em risco as espécies animais.

“Os incêndios têm alterado a vegetação e isso tira o habitat dos animais, reduz a oferta de alimentação e impacta na reprodução deles, porque não têm lugar para se procriar e alimentar os filhotes”. Berlink ressalta ainda que os mais vulneráveis ao fogo são os animais de pequeno porte, como mamíferos e cobras que se deslocam mais devagar. Outros, como macacos, podem acabar morrendo nas florestas devastadas pela falta de alimentos.

Em todo o ano passado, foram queimados 1,18 milhão de hectares em unidades de conservação federais de todo o País, que abrangem parques nacionais, reservas biológicas e áreas de proteção ambiental. Segundo Berlinck, essas áreas de florestas podem levar até cem anos para recuperar o ambiente que foi destruído pelas chamas. “A vegetação cresce lentamente, mas há perda de espécies que não conseguem voltar”, completa.

Fontes: Portal Brasil, com informações do INPE, ICMBio, PrevFogo e Ibama

in EcoDebate, 29/08/2016

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Desmate zero é viável, dizem economistas

Pagar fazendeiros para não desmatar no país inteiro exigiria R$ 5,2 bilhões por ano em 15 anos, sugerem cálculos feitos por equipe da UFRJ sob encomenda do Ministério do Meio Ambiente
Floresta no rio Cristalino, norte de Mato Grosso (Foto: Claudio Angelo/OC)

Por Claudio Angelo, do Observatório do Clima.

Uma equipe de economistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro acaba de pôr uma etiqueta de preço em algo que até pouco tempo atrás pareceria utopia de ambientalista: eles calcularam quanto custaria zerar o desmatamento no Brasil. O valor aproximado é de R$ 5,2 bilhões por ano, a serem pagos ao longo de 15 anos para que produtores rurais conservassem a vegetação nativa em suas terras.

O investimento pouparia da motosserra 205 mil quilômetros quadrados de floresta, ou quase duas Inglaterras. Evitaria lançar na atmosfera 5,6 bilhões de toneladas de gás carbônico, ou o equivalente a quatro anos de emissões do Brasil – ajudando o mundo a cumprir a meta do Acordo de Paris de estabilizar o aquecimento global. E traria benefícios adicionais para a biodiversidade, a agricultura e o uso da água no país.

Olhando assim, parece muito dinheiro. Mas essa conta, e várias outras feitas pelo Grupo de Economia Ambiental da UFRJ sob encomenda do Ministério do Meio Ambiente, visam justamente mostrar que conservar florestas no Brasil é o jeito mais barato de promover serviços ambientais essenciais, como fixação de carbono, proteção de solo e água. E que há diversas maneiras de fazer isso a baixo custo – dependendo do que se quer proteger, de quais municípios focar e, claro, do quanto se tem para gastar.

“Você me diz quanto dinheiro você tem e eu te digo o que dá para fazer”, afirma Carlos Eduardo Frickmann Young, professor do Departamento de Economia da URFJ. Juntamente com Biancca Scarpeline de Castro, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, ele coordenou o trabalho, que envolveu uma equipe de 13 pesquisadores durante um ano e meio.

Young explica que não fez exatamente um estudo, mas sim uma ferramenta. Por meio dela, o governo federal poderá criar uma política de pagamento por serviços ambientais sob medida para qualquer objetivo de conservação e qualquer orçamento possível.

Se R$ 5,2 bilhões não estão sobrando na conta do governo em tempos de déficit de R$ 170 bilhões, pense por exemplo no que dá para fazer com 1 UBR, ou “Unidade Barusco de Referência”. Esta unidade monetária fictícia corresponde a R$ 300 milhões, cifra que um dos condenados do esquema da Petrobras, Pedro Barusco, prometeu que iria devolver aos cofres públicos como parte de seu acordo com a Justiça.

Com 1 UBR, dividida em pagamentos anuais de R$ 29,1 milhões por 15 anos (à vista é mais barato, mas o pagamento feito em parcelas exige um ajuste), seria possível conservar o equivalente a 6,2 mil quilômetros quadrados, ou 620 mil hectares (o equivalente a quatro vezes a área da cidade de São Paulo), evitando a emissão de 104 milhões de toneladas de gás carbônico para a atmosfera – o impacto climático seria o mesmo de tirar todos os carros de passeio de circulação no país.

Além do orçamento, também é possível escolher que tipo de serviço ambiental se quer promover: conservação de solos para evitar erosão, recuperação de florestas para manter recursos hídricos, conservação de biodiversidade ou manutenção de estoques de carbono.

“FLANELINHA DE FLORESTA”

O pagamento por serviços ambientais, ou PSA, é uma ideia relativamente antiga, que ainda encontra dificuldades para vingar no Brasil. O princípio é simples: consiste em atribuir valor a serviços que a natureza nos presta de graça, e fazer a sociedade pagar por eles.

O exemplo clássico é a conservação de recursos hídricos. As matas ciliares têm o papel conhecido de proteger mananciais. Como a cidade de São Paulo descobriu de forma dramática em 2014, a ausência dessas florestas ao longo de rios e reservatórios pode comprometer o abastecimento humano. Então um jeito de manter a água das cidades é pagar os fazendeiros que têm terras ao longo desses rios ou reservatórios para não desmatar suas florestas. O pagamento precisa ser igual ou maior ao chamado custo de oportunidade da terra, ou a expectativa de ganho do proprietário caso ele convertesse um hectare de floresta em lavoura ou pasto, por exemplo.

Várias experiências de PSA bem-sucedidas vêm acontecendo mundo afora. O principal caso é o da cidade de Nova York, que descobriu que saía mais barato pagar os fazendeiros para manter florestas nas montanhas onde estão os principais mananciais da cidade do que gastar bilhões de dólares em engenharia de captação e tratamento, por exemplo.

O Brasil não tem uma legislação nacional de PSA, embora haja projetos de lei em análise no Congresso. Em 2012, o Código Florestal previu a criação de um sistema de PSA nacional, o que ainda não ocorreu. Há iniciativas em curso em alguns municípios: um programa conduzido pela Fundação Grupo Boticário em seis Estados paga proprietários para manter biodiversidade. A ANA (Agência Nacional de Águas) também mantém um programa para conservação de mananciais por meio de PSA em 38 municípios.

A metodologia desenvolvida por Young e seu grupo visa criar a base para um sistema nacional, quando – e se – ele for desenvolvido. Há resistências diversas: algumas autoridades do próprio governo argumentam, por exemplo, que proteger florestas para evitar emissões de carbono e cobrar por isso seria o equivalente ao que faz um flanelinha num estacionamento público. Há, ainda, um dilema moral: por que compensar um proprietário rural para fazer o que ele já é obrigado a fazer pelo Código Florestal, como restaurar passivos de reserva legal, por exemplo?

“Este argumento faz sentido no âmbito nacional, mas não no internacional, pois, se válido, prejudica os países com legislação mais favorável à conservação florestal”, diz Young, recorrendo à parábola bíblica do filho pródigo: “Na prática, o que é preciso fazer é criar um mecanismo para manter o filho mais velho no trabalho – pagando pela conservação – ao mesmo tempo em que se cria incentivos para corrigir o comportamento do pródigo – os que desmatam e precisam parar de desmatar.”

Sobre a questão do “flanelinha”, o economista afirma que esse pensamento fez o Brasil “perder o trem da história” do chamado REDD+, o pagamento por redução de emissões por desmatamento. Como o governo do Brasil sempre foi contra pagar por desmate evitado, “o maior esforço de mitigação do planeta na primeira década do milênio, o de reduzir o desmatamento na Amazônia, teve custos integralmente pagos pelo Brasil, enquanto o Protocolo de Kyoto garantiu uma boa quantidade de dinheiro para os países que mais aumentaram suas emissões, a China e a Índia”.

A RESPOSTA É 402

Para elaborar a ferramenta, Young e seu grupo começaram calculando o custo de oportunidade da terra no país inteiro. Para isso, usaram dados disponíveis dos Estados de São Paulo, Paraná e Santa Catarina e extrapolaram a informação para todos os 5.570 municípios do Brasil.

Como era esperado, os valores diferem imensamente. Há áreas de aptidão agrícola baixíssima, principalmente na Amazônia, na caatinga e em partes do cerrado, onde o custo de oportunidade por hectare é menor do que R$ 10 ou até negativo – isso mesmo: desmatar nesses lugares dá prejuízo. E há outras áreas, em regiões agrícolas nobres do Sul e do Sudeste onde o custo de oportunidade é de milhares de reais por hectare.

O número “mágico” da média nacional é R$ 402 por hectare/ano – claro, o valor a ser pago individualmente aos produtores depende do custo de oportunidade em cada município. Mas, mais do que isso, a ferramenta permite criar mapas que mostrem quais são os municípios do Brasil onde custa menos conservar. Nos mapas abaixo é possível ver quais são os municípios onde é mais barato manter estoques de carbono (ou seja, os que aliam florestas densas a um baixo custo de oportunidade da terra) e quais são os municípios que deveriam ser priorizados num programa de PSA hipotético caso o juiz Sérgio Moro decidisse aplicar toda a bufunfa a ser devolvida por Pedro Barusco em conservação.
Municípios onde é mais barato manter estoques de carbono florestal
Municípios onde dá para zerar o desmatamento com R$ 300 milhões

“Para gerar 1 UBR de lucro nas áreas de pior rentabilidade agrícola, desmata-se uma área quatro vezes maior que a da cidade de São Paulo, e gera-se a emissão equivalente de toda a frota de carros de passeio do país”, diz Young. “Estamos trocando ouro por espelhos quebrados.”

INDC

Os pesquisadores do Gema também calcularam os custos de recuperar com espécies nativas os 18 milhões de hectares de passivo de reserva legal que o Código Florestal diz ser preciso recuperar, ou os 12 milhões de hectares previstos na INDC (a meta do Brasil no Acordo de Paris). A conta foi feita sob duas premissas: ou pagando apenas os custos de oportunidade da terra e de cercar as áreas ou pagando também pelo replantio. A primeira abordagem é adequada sobretudo à Amazônia; a segunda, à Mata Atlântica.

Pagando apenas o custo de cerca e o custo de oportunidade da terra, o valor total para recuperar 12 milhões de hectares em 15 anos seria de R$ 57,6 bilhões.

Pagando o custo total de replantio, a conta sobe para R$ 173,6 bilhões – mais do que o valor do déficit brasileiro em 2016.

“De longe a coisa mais barata a fazer é evitar o desmatamento”, diz Young.

A verba para as ações de PSA poderia sair da cobrança pelo uso da água, no molde das ações que a ANA já tem em curso hoje. Com uma taxa de 2,1% pela água, o Gema identificou um potencial de arrecadação anual de R$ 1 bilhão. É um bom começo, mas ainda longe dos R$ 5,7 bilhões anuais para zerar o desmatamento.

Uma outra fonte foi aventada, e esta é uma discussão que deverá se colocar no país nos próximos anos: uma taxa sobre a emissão de carbono. Com R$ 50 por tonelada, seria possível zerar o desmatamento, argumentam Young e colegas.

O governo, porém, não anda muito disposto a discutir taxação de carbono neste momento. Embora seja inevitável que o carbono seja precificado a entrada em vigor do Acordo de Paris, em 2017, isso implica em que setores mais emissores, como o de petróleo, precisariam se adequar. Num momento em que a Petrobras luta para sair do buraco no qual lhe meteram Pedro Barusco e vários outros, o Palácio do Planalto não quer nem ouvir falar dessa história.

in EcoDebate, 13/07/2016

FAO: pecuária causou 80% do desflorestamento no Brasil entre 1990-2005

Fonte: MST - Terça-feira, 26 de Julho de 2016 


Mais de 80% do desflorestamento ocorrido no Brasil entre 1990 a 2005 foi associado à conversão de terras em terrenos de pastoreio, mostrou relatório da FAO, denominado “O estado das florestas no mundo"

A participação do pastoreio no desflorestamento é maior no Brasil do que em outros seis países da região analisados no mesmo período: Argentina, Bolívia, Paraguai, Venezuela, Colômbia e Peru, de acordo com a FAO.

Segundo a agência da ONU, além do pastoreio, o cultivo comercial foi responsável por cerca de 10% do desflorestamento no Brasil no período analisado, enquanto outras formas de exploração da terra, cultivo em pequena escala, agricultura mista, infraestrutura responderam juntos pelos demais 10%.

Na análise dos sete países consolidados, o estudo apontou que 71% do desflorestamento ocorreu devido ao aumento da demanda de pastos; 14% devido aos cultivos comerciais e menos de 2% devido à infraestrutura e à expansão urbana.

A expansão dos pastos causou a perda de ao menos um terço das florestas em seis dos países analisados. A exceção foi o Peru, onde o aumento das terras cultiváveis em pequena escala foi o fator dominante para 41% do desflorestamento.

Na Argentina, a expansão dos pastos foi responsável por 45% do desflorestamento, enquanto a expansão de terras cultiváveis comerciais respondeu por mais de 43%.

Agricultura comercial

O estudo concluiu que a agricultura comercial é a principal causadora do desflorestamento na América Latina.

Particularmente na Amazônia, a produção do agronegócio para os mercados internacionais foi o principal fator de desflorestamento, fruto de práticas como o pastoreio extensivo, o cultivo de soja e as plantações de coqueiro-de-dendê.

“A agricultura comercial não pode continuar crescendo à custa das florestas e dos recursos naturais da região”, disse Jorge Mexa, oficial florestal da FAO.

Mexa destacou que políticas como a vinculação de incentivos agrícolas a critérios ambientais, a adoção de práticas silvipastoris — combinação intencional de árvores, pastagem e gado numa mesma área e manejados de forma integrada —, o pagamento por serviços ambientais e a recuperação dos pastos degradados podem evitar a ampliação da fronteira agrícola em detrimento das florestas.

Apesar de o desflorestamento continuar em alta na região, em 2015 sua taxa se reduziu em quase 50% quando comparada a 1990. Esta redução também foi significativa na Amazônia, fruto de políticas de desenvolvimento sustentável impulsionadas pelos países que dividem a bacia amazônica.

Segundo o documento da FAO, desde 1990 mais de 20 países melhoraram sua segurança alimentar e mantiveram ou aumentaram sua cobertura florestal, demonstrando que não é necessário cortar árvores para produzir mais alimentos.

Vincular os subsídios agrícolas às normas ambientais

Em vários países, as subvenções agrícolas em grande escala fomentaram o desflorestamento, já que aumentam a rentabilidade da produção agropecuária e geram pressão para ampliar a fronteira agrícola. Exemplos disso na região são o pastoreio extensivo e a produção de soja em escala industrial.

Uma opção de política para evitar esses danos, segundo a FAO, é vincular os incentivos e mecanismos de fomento público recebidos pela agricultura comercial ao cumprimento de normas ambientais.

O relatório destacou que uma reforma desse tipo ocorreu no Brasil, que passou a vincular os subsídios ao crédito rural com critérios ambientais, evitando a perda de 270 mil hectares de florestas que haviam sido destruídas para aumentar a produção de carne bovina.

A iniciativa brasileira “Bolsa Verde” foi outro exemplo citado pela FAO: um programa de transferência condicionada que entrega recursos a milhares de famílias pobres em troca de manter a cobertura vegetal e gerir seus recursos naturais de forma sustentável.


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quinta-feira, 14 de julho de 2016

Combater desmatamento é insuficiente para conservar a biodiversidade da Amazônia

Trabalho publicado na Nature tem como um dos autores o professor Silvio Ferraz, do Departamento de Ciências Florestais da Esalq

Esforços internacionais visando à conservação de espécies das florestas tropicais irão falhar se não levarem em consideração o controle da exploração madeireira ilegal, de incêndios florestais e da fragmentação de áreas remanescentes. Esta é a conclusão de um estudo inovador, que acaba de ser publicado na Nature, a principal revista científica internacional.

O estudo Anthropogenic disturbance can be as important as deforestation in driving tropical biodiversity loss (Perturbação antropogênica pode ser tão importante quanto o desmatamento na condução de perda de biodiversidade tropical) mediu o impacto geral das perturbações florestais mais comuns – o que inclui exploração madeireira, incêndios e fragmentação de florestas remanescentes – em 1.538 espécies de árvores, 460 de aves e 156 de besouros encontradas na Amazônia paraense.

Pela primeira vez, pesquisadores de 18 instituições internacionais, dentre as quais 11 brasileiras, foram capazes de comparar a perda de espécies causada por perturbações humanas com aquelas resultantes da perda de hábitat pelo desmatamento.
Amazônia – Foto: Wikimedia Commons

E o resultado desafia a atual concepção das estratégias de conservação, na qual prevalece o foco no combate ao desflorestamento: os cientistas demonstraram que, para a floresta tropical, os efeitos das perturbações causadas por atividades humanas resultam em perda de biodiversidade tão ostensiva quanto a causada pelo desmatamento.

Uma das principais pesquisadoras do projeto, Joice Ferreira, da Embrapa Amazônia Oriental, diz: “Conseguimos oferecer evidências convincentes de que as iniciativas de conservação amazônica precisam considerar as perturbações florestais e o desmatamento. Sem ações urgentes, a expansão da exploração ilegal de madeira e a ocorrência cada vez maior de incêndios causados pelo homem irão resultar em áreas de florestas tropicais cada vez mais degradadas, conservando apenas uma pequena fração da exuberante diversidade que já abrigaram.”

Quando analisado em conjunto, o efeito das atividades humanas resultantes em perturbações florestais no Pará é equivalente a uma perda adicional de mais de 139.000 quilômetros quadrados (km2) de floresta pristina (sem intervenção humana) e correspondente a todo o desmatamento no Estado desde 1988, ano que inaugurou o monitoramento oficial.

O pesquisador sênior do projeto, Toby Gardner, do Instituto Ambiental de Estocolmo (SEI), destaca: “As florestas tropicais são um dos mais valiosos tesouros biológicos do planeta. Ao focar exclusivamente as extensões de floresta remanescentes, sem levar em conta o estado de saúde dessas áreas, as atuais iniciativas de conservação estão colocando em perigo tal riqueza”.

Espécies raras são as mais ameaçadas

Os cientistas também descobriram que espécies sob o risco máximo de extinção foram as mais atingidas pelas perturbações causadas por atividade humana.

Ima Vieira, pesquisadora sênior do Museu Paraense Emílio Goeldi e uma das colaboradoras do projeto, diz: “O estado do Pará abriga mais de 10% das espécies de aves do planeta, muitas das quais endêmicas. Nossos estudos demonstram que são justamente estas espécies as que estão sofrendo o maior impacto da ação antrópica, pois elas não sobrevivem em ambientes com estes níveis de perturbação”.
É preciso ir além do combate ao desmatamento

Enquanto a redução do desmatamento é acertadamente o principal foco da maioria das estratégias de conservação em nações tropicais, a condição das florestas remanescentes não costuma ser avaliada ou mesmo controlada por políticas públicas.

“Ações imediatas são necessárias para combater as perturbações florestais em nações tropicais”, explica Silvio Ferraz, professor do Departamento de Ciências Florestais da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP. “No caso do Brasil, a situação é ainda mais crítica, já que 40% dos remanescentes de florestas tropicais da Terra se encontram aqui”, completa o pesquisador, que integrou a equipe do estudo. Ainda que donos de terras na Amazônia brasileira sejam obrigados por lei a manter 80% da cobertura primária em suas propriedades, a nova pesquisa demonstra que, em paisagens nas quais a lei é cumprida, a metade do valor potencial de conservação já pode ter sido perdida.

“Estes resultados devem servir de alerta para a comunidade global”, afirma Jos Barlow, o principal autor do estudo. “O Brasil demonstrou uma liderança sem precedentes no combate ao desmatamento na última década. O mesmo nível de liderança é necessário agora para proteger a saúde das florestas restantes nos trópicos. Do contrário, décadas de esforço de conservação terão sido em vão.”
Foto: Wikimedia Commons

Infelizmente, a rica biodiversidade do Brasil está mais uma vez ameaçada por novas tentativas de mudanças no Código Florestal. Luiz Aragão, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, também integrou a equipe do estudo e destaca: “O Senado brasileiro está propondo uma nova lei que vai permitir aos produtores se valerem de florestas plantadas, como as monoculturas de eucalipto, para atingir a meta legal de cobertura florestal. Propostas como esta, que ignoram as condições das florestas em questão, podem acelerar a perda de biodiversidade tropical”.

O estudo publicado é fruto da Rede Amazônia Sustentável (RAS), um consórcio de instituições brasileiras e estrangeiras, coordenado pela Embrapa Amazônia Oriental, Museu Paraense Emílio Goeldi, Universidade de Lancaster (Reino Unido) e Instituto Ambiental de Estocolmo (Suécia). A RAS é também parte do INCT Biodiversidade e Uso da Terra na Amazônia.

Do Jornal/Agência USP, in EcoDebate, 07/07/2016

Estudo aponta que biodiversidade da Amazônia depende do combate à degradação florestal

Brasnorte, MT, Brasil: Árvore em meio a plantação de soja. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Um esforço inédito de cientistas de 18 instituições internacionais, entre elas o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), foi capaz de comparar a diminuição de espécies causada por degradação florestal com aquelas resultantes da perda de habitat pelo desmatamento.

O trabalho inovador, que acaba de ser publicado na revista Nature, prestigiado periódico científico internacional, concluiu que a conservação de espécies das florestas tropicais exige que o controle da exploração madeireira ilegal, de incêndios florestais e da fragmentação de áreas remanescentes deve ser considerado nos planos de mitigação.

O estudo Anthropogenic disturbance can be as important as deforestation in driving tropical biodiversity loss (Perturbação antropogênica pode ser tão importante quanto o desmatamento na condução de perda de biodiversidade tropical) mediu o impacto geral das perturbações florestais mais comuns – o que inclui exploração madeireira, incêndios e fragmentação de florestas remanescentes – em 1.538 espécies de árvores, 460 de aves e 156 de besouros encontrados na Amazônia paraense.

O resultado desafia a atual concepção das estratégias de conservação, na qual prevalece o foco no combate ao desflorestamento. Os cientistas demonstraram que, para a floresta tropical, os efeitos das perturbações causadas por atividades humanas resultam em perda de biodiversidade tão ostensiva quanto à causada pelo desmatamento.

“O Brasil conseguiu reduzir seu desmatamento em cerca de 80% como resultado de seu Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm). Contudo, demonstramos neste estudo que precisamos, urgentemente, de um planejamento governamental orquestrado para quantificar a extensão e impactos da degradação florestal se quisermos resguardar nossa biodiversidade, estoques de carbono, e serviços ecossistêmicos”, afirma Luiz Aragão, pesquisador da Divisão de Sensoriamento Remoto do INPE e um dos autores do estudo.

Segundo o estudo, espécies sob o risco máximo de extinção foram as mais atingidas pelas perturbações causadas por atividade humana. Quando analisado em conjunto, o efeito das atividades humanas que resultam em degradação no Pará é equivalente a uma perda adicional de mais de 139.000 km2 de floresta primária, correspondendo a todo o desmatamento no estado desde 1988, ano em que o INPE começou a monitorar por satélites o corte raso na Amazônia.

Enquanto a redução do desmatamento é acertadamente o principal foco da maioria das estratégias de conservação em nações tropicais, a condição das florestas remanescentes não costuma ser avaliada ou mesmo controlada por políticas públicas. Ainda que donos de terras na Amazônia brasileira sejam obrigados a manter 80% da cobertura primária em suas propriedades, a nova pesquisa demonstra que, em paisagens nas quais a lei é cumprida, a metade do valor potencial de conservação já pode ter sido perdida.

“Estes resultados devem servir de alerta para a comunidade global”, diz Jos Barlow, o principal autor do estudo. “O Brasil demonstrou uma liderança sem precedentes no combate ao desmatamento na última década. O mesmo nível de liderança é necessário agora para proteger a saúde das florestas restantes nos trópicos. Do contrário, décadas de esforço de conservação terão sido em vão”.

Fonte: INPE

in EcoDebate, 05/07/2016

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Brasil reduziu desmatamento, mas ainda enfrenta diversas ameaças à biodiversidade, alerta PNUMA

Mineração, atividades extrativistas, expansão econômica na Amazônia e pesca destrutiva são citadas em novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) como riscos para os habitat naturais do Brasil. Mata Atlântica e Cerrado também estão ameaçados.
Mais de 62 milhões de metros cúbicos de rejeitos e água foram despejados sobre a região de Mariana, em Minas Gerais, com a queda das barragens. Onze pessoas morreram, 12 estão desaparecidas e milhões foram afetadas pela lama tóxica e pela falta de água em dezenas de cidades em dois estados brasileiros, com possibilidade de outros serem atingidos. Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

O Brasil tem apresentado avanços na redução do desmatamento da Amazônia e do Cerrado, mas precisa fortalecer a proteção da Mata Atlântica e combater ameaças — que incluem atividades da agricultura, mineração, geração de energia, pesca e extração de petróleo — a sua biodiversidade.

A conclusão é de um novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), publicado no último domingo (20) — Dia Internacional para a Diversidade Biológica. O documentoavalia os progressos da América Latina e do Caribe no cumprimento das Metas de Aichi de Biodiversidade, adotadas por mais de 190 países em 2010.

De 2005 a 2009, o Brasil registrou uma queda de 36% na taxa de desflorestamento da porção da Amazônia em seu território. Na comparação entre os anos 1990 e 2000, o índice anual de perda da cobertura vegetal do Cerrado caiu de 0,79% para 0,44%.

Apesar desses progressos, a análise do PNUMA estima que, de 1990 a 2015, o Brasil registrou uma redução de quase 55 mil hectares no tamanho de suas florestas. Até o ano passado, o maior compromisso de reflorestamento feito pelo país previa a restauração de cerca de 12 mil hectares.

A agência da ONU alerta para a situação da Mata Atlântica brasileira — que foi dramaticamente fragmentada e é, atualmente, composta por zonas separadas que não ultrapassam os mil hectares cada.

Segundo o PNUMA, a fragmentação de todos os tipos de florestas afeta negativamente não só a biodiversidade local, mas também a capacidade de a vegetação estocar carbono.

Ao lado da Caatinga e do Pantanal — região pantanosa mais extensa em todo o planeta —, o Cerrado também corre riscos associados a mudanças no uso das terras nas regiões onde a vegetação é encontrada. A expansão da agropecuária é citada como uma das ameaças ao bioma que, no Brasil, concentra a maior biodiversidade do mundo verificada em áreas de savana.

O incidente envolvendo a ruptura das barragens da Samarco em novembro de 2015 foi lembrado pelo PNUMA como exemplo de perigo associado à mineração para os habitats naturais brasileiros.

Segundo a agência das Nações Unidas, desde o final do ano passado, o Brasil enfrenta efeitos “devastadores” da liberação de substâncias tóxicas que já percorreram 850 km e se deslocaram de Minas Gerais até o Espírito Santo.

O PNUMA citou ainda outros casos de contaminações do meio ambiente provocadas por atividades mineradoras e extrativistas, como os vazamentos de petróleo em Loreto e o despejo de resíduos nocivos em córregos na Amazônia — prática realizada por décadas e suspensa apenas em 2009 por pressão de comunidades indígenas.
Investimentos trazem riscos para região da bacia Amazônia

O programa da ONU chama atenção também para os investimentos em infraestrutura na bacia Amazônica: 416 represas já estão operando ou estão em construção na região e outras 334 já foram propostas ou planejadas.

Brasil, Chile e Equador são citados como as nações que concentram o maior número desses projetos — que podem levar à ampliação de redes rodoviárias para porções da Amazônia antes intocadas. Comércio e busca por bens como madeira, minérios e petróleo podem motivar expansões capazes de provocar degradação ambiental, ressalta o PNUMA.

O relatório destaca a dependência dos estados latino-americanos e caribenhos de recursos oriundos de habitats naturais. Mais de dois terços do abastecimento de energia do Brasil, por exemplo, é fornecido por hidrelétricas — proporção que tende a aumentar devido a projetos já previstos para a bacia Amazônica.
Reservas privadas, parcerias internacionais e terras indígenas são destaques na proteção de habitats naturais

Ainda sobre a porção brasileira da bacia Amazônica, o PNUMA considerou como uma das mais efetivas formas de proteção da natureza a categorização oficial de faixas do território como “terras indígenas”. Evidências indicam que florestas administradas por indígenas apresentaram taxas anuais de desmatamento menores e menos variáveis do que em outras regiões protegidas.

O relatório elogia o projeto Gestão Ambiental e Territorial Indígena (GATI), que já foi implementado em 32 terras indígenas desde 2010 — escolhidas para contemplar todos os biomas florestais brasileiros, mas também pelo fato de registrarem ameaças à biodiversidade que poderiam ser contidas pela iniciativa.
Exploração de madeira na Amazônia é um dos riscos associados à expansão da infraestrutura na região. Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil

O programa busca fortalecer as práticas de uso sustentável e conservação dos recursos naturais através de capacitação e eventos de troca de informações.

A pesquisa do PNUMA também destaca o impacto positivo que propriedades privadas protegidas podem ter em meio aos esforços de conservação. No Brasil, a rede privada de reservas já alcança quase 480 mil hectares.

De acordo com a agência das Nações Unidas, essas terras podem conscientizar comunidades sobre os benefícios da preservação ambiental e complementar — mas não substituir — o papel das unidades de conservação do Estado.

O PNUMA revela ainda que um quinto da Amazônia brasileira está sob proteção de 300 unidades de conservação através de iniciativas como a Integração de Áreas Protegidas do Bioma Amazônico (IAPA) — uma parceria do programa da ONU, da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), o World Wildlife Fund e a União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN).
Pesca excessiva e poluição ameaçam vida marinha

O Brasil também é citado no relatório — junto com a Colômbia e o Peru — por abrigar comunidades pesqueiras que poderão ser afetadas pelo colapso dessa atividade — causado por gestões não sustentáveis e ineficientes dos recursos naturais.

Em décadas recentes, a pesca continental registrou uma queda de cerca de 60% na produção, que está sob pressão de métodos tradicionais ignorados por políticas que visam à implementação de estratégias mais sustentáveis.

Outra ameaça à vida marinha no Brasil é a poluição. O país apresenta “zonas oceânicas mortas” onde a biodiversidade dos mares não consegue sobreviver devido aos baixos níveis de oxigênio da água. A maior parte dessas regiões estaria associada a áreas urbanas, como Recife, Rio de Janeiro e São Paulo.
Brasil é um dos campeões da agricultura sustentável

Apesar dos diversos desafios à preservação da biodiversidade, o Brasil também foi destaque na análise do PNUMA por abrigar a terceira maior área de cultivo do mundo adequada ao Padrão da Rede de Agricultura Sustentável (SAN) — quase 236 mil hectares distribuídos por 339 fazendas, a maioria das quais é de cafeicultores.
Informação e monitoramento são pontos fortes de estratégias brasileiras

O país foi elogiado ainda por ser o único Estado que realiza um acompanhamento quantitativo da conscientização da população sobre a perda de biodiversidade. Em 2012, 50% dos brasileiros tinham conhecimento sobre o tema — índice que representa um aumento em comparação aos 43% de 2006.

Iniciativas para monitorar e projetar riscos para espécies também foram louvadas por preverem diferentes cenários de acordo com a execução plena ou não do Código Florestal brasileiro.

As estimativas indicam que a aplicação da lei poderá ter impactos negativos segundo a espécie analisada, pois o Código poderá instituir mudanças no uso da terra que vão diminuir o território que alguns animais — como o tatu-bola-da-caatinga — possuem atualmente como habitat.

Da ONU Brasil, in EcoDebate, 27/05/2016

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Inconsistência de leis ambientais entre países da América do Sul facilita avanço do desmatamento na região

Pesquisadores da Universidade de Stanford concluem que leis ambientais inconsistentes na América do Sul abrem brechas para o avanço do desmatamento na região

Controlar o desmatamento requer harmonização de leis em diferentes países
Empresas agrícolas que estão fortemente ligadas ao desmatamento preferem operar em áreas com menores restrições ambientais, aponta um estudo publicado em 28 de Março na revista Proceedings of the National Academy of Sciences. A pesquisa da Universidade de Stanford – Escola de Ciências Ambientais, Energia e Terra , conduzida pelo professor Eric Lambin e sua equipe, também aponta que as empresas geralmente preferem atuar em áreas com baixa aplicação e fiscalização das leis. Essas tendências podem levar o desmatamento a migrar de uma região para outra. Os autores concluem que isso pode ser evitado por meio da padronização das regulamentações em diferentes países e, simultaneamente, com o incentivo à intensificação sustentável da agricultura.

“Os estudos sugerem que, comparado com o ano 2000, serão necessários, pelo menos, mais 100 milhões de hectares de terras agrícolas para atender à demanda global por alimentos até 2030”, disse o Prof. Lambin, que também é professor do Stanford Woods Institute for the Environment. “Portanto, é primordial encontrar maneiras para atender essa demanda sem destruir os ecossistemas naturais.”

Algumas políticas de conservação parecem funcionar, mas os sinais podem ser enganadores. Há indícios de que a imposição de limites na expansão de commodities como soja e carne em um local podem simplesmente resultar no avanço do desmatamento em outros locais. Esse fenômeno, conhecido como vazamento de desmatamento, poderia ter importantes implicações para políticas públicas, mas atualmente esses processos permanecem amplamente ignorados.

As terras da região do Grande Chaco e Chiquitano, que abrangem Brasil, Argentina, Bolívia e Paraguai proporcionam um experimento natural para a análise de processos de vazamento de desmatamento. O uso da terra nestas áreas permaneceu em grande parte não regulamentado até meados da década de 2000. Posteriormente, a criação de novas políticas públicas estabeleceu diferenças regulatórias significativas entre as regiões que compõe o Grande Chaco e o Chiquitano.

Para analisar como as empresas direcionaram seus investimentos nas regiões do Grande Chaco e Chiquitano, foram realizadas entrevistas com 82 empresas de soja e gado na Argentina, Bolívia e Paraguai, cujas propriedades somam 2,5 milhões de hectares. Os pesquisadores questionaram o quanto as regras contra o desmatamento afetaram o destino de seus investimentos e se a falta de padrão e diferenças nessas leis abriram brechas para os vazamentos de desmatamento.

Os pesquisadores descobriram que essas decisões foram tomadas influenciadas predominantemente pela proximidade com investimentos preexistentes feitos pelas empresas e a disponibilidade de terras com florestas, mas regiões com leis menos severas sobre o desmatamento foram efetivas em atrair empresas agrícolas mais fortemente associadas ao desmatamento.

“Embora os efeitos da regulamentação do desmatamento nas decisões de investimentos possam ter sido minimizados por outros fatores, eles ainda continuam significativos”, diz Yann le Polain de Waroux, pesquisador pós-doutorado da Stanford University School of Earth, Energy, and Environmental Sciences. “Para evitar mais vazamento de desmatamento, precisaríamos de uma maior harmonização das leis contra desmatamento causado pela expansão de commodities em todas as regiões, e de práticas de pecuária mais eficiente e sustentável.”

Essa última solução é proposta porque a prática da pecuária mais eficiente e sustentável pode resultar em maior produtividade e rentabilidade em regiões com políticas públicas mais rigorosas que, por sua vez, poderiam reduzir o ímpeto das empresas em migrar para outras regiões.

A auto-regulamentação pelos setores agropecuário e financeiro para implementar padrões de sustentabilidade pode contribuir diretamente para a harmonização das leis em todas as regiões.

“Se as empresas internacionais e os bancos adotassem padrões harmonizados de sustentabilidade em todos os países em que atuam, o vazamento de desmatamento seria menos comum”, diz o Dr. Le Polain. Nos últimos anos, tem acontecido uma onda de compromissos corporativos e com investidores para remover o desmatamento nas cadeias de abastecimento e carteiras de investimento. O Consumers Goods Forum (CGF), um grupo de varejistas e marcas com uma receita combinada de mais de USD 2,8 trilhões (R$ 10,2 tri), que incluem gigantes como Unilever e Walmart, está comprometido em alcançar o desmatamento zero em suas cadeias produtivas até 2020. Dez bancos estão alinhando seus objetivos com o compromisso do CGF, e também pretendem alcançar o desmatamento líquido zero até 2020, como parte do Soft Commodities Compact ligados à Iniciativa Bancária Ambiental (Banking and Environment Initiative – BEI). Outras empresas como a Cargill e McDonalds estão comprometidas com o desmatamento zero como parte da Declaração de Nova Iorque sobre as Florestas, de 2014.

“O movimento de redução de desmatamento está crescendo entre os grandes varejistas e compradores globais da cadeia de soja e carne, e os nossos resultados sugerem que a harmonização de padrões entre essas empresas poderiam contribuir no alcance a meta de desmatamento zero”, conclui o Prof. Lambin.

Esta pesquisa recebeu o apoio da Fundação Gordon e Betty Moore por meio da concessão GBMF4263. Para ver a pesquisa completa, acesse:

Nesse link, estão disponíveis imagens em alta resolução (créditos estão no documento word):

Colaboração de Tiago Lopes, in EcoDebate, 13/04/2016

quinta-feira, 24 de março de 2016

Cuidar das florestas significa cuidar da água

A América Latina possui uma enorme riqueza de recursos florestais e hídricos que devem ser protegidos para erradicar a fome e alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável
A América Latina e Caribe possui uma enorme riqueza de recursos florestais que devem ser protegidos para erradicar a fome e alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, assinalou hoje a FAO durante o Dia Internacional dos Bosques, dedicado ao vínculo profundo e essencial entre as florestas e a água.

“A água e as florestas estão inteiramente ligadas – explicou Jorge Meza, da Unidade Florestal da FAO – já que as árvores filtram a água, aumentam os níveis de umidade no ar e incorporam mais profundamente na terra, evitando a evaporação”.

A América Latina e Caribe recebe 29% das precipitações do planeta e possui 23,4% da área de florestas do mundo, recursos estratégicos para a segurança alimentar e a geração de serviços ecossistêmicos.

Em âmbito mundial, as bacias hidrográficas e as zonas úmidas florestais proporcionam até 75% dos recursos de água doce, por exemplo, mais de 70% da pluviometria da bacia do Rio de la Plata se origina a partir da evaporação e transpiração da selva amazônica.

De acordo com a FAO, as florestas também podem reduzir os efeitos das inundações, além de prevenir e reduzir a salinidade das terras áridas e a desertificação.

A seca é um dos sintomas mais negativos das mudanças climáticas. Por meio do armazenamento de água, as árvores e os bosques podem fortalecer a resiliência às secas.

Combater o desmatamento para cuidar da água

A FAO chama a atenção dos governos para acelerar a gestão das florestas e reduzir o desmatamento, como uma ferramenta para melhorar a quantidade e qualidade da água disponível.

Nas últimas décadas, caiu a perda da área de floresta na região. Entre 1990 e 2000, 4,5 milhões de hectares eram perdidos por ano. Já entre 2010 e 2015, essas perdas caíram para 2,18 milhões de hectares, principalmente por causa da diminuição de perdas no Brasil, Mesoamérica e no Cone Sul.

O Caribe vem registrando um aumento liquido nas áreas florestais em locais que antes eram plantações da cana de açúcar e outras terras agrícolas. Esse crescimento é visto principalmente na Cuba, República Dominicana, Porto Rico e em Trinidad e Tobago.

Fora do Caribe, o Chile, a Costa Rica e o Uruguai são os únicos países que mostraram um aumento na área de floresta durante 2010 e 2015.

No entanto, as perdas líquidas anuais na região continuam sendo superiores as perdas globais. “Quando o desmatamento é elevado, gera erosão do solo e altera a qualidade da água. As florestas regulam o regime hídrico, e quanto mais natural seja o ecossistema, mais efetiva será essa função”, explicou Meza.

“Cuidar das florestas da região significa também cuidar da água”, ressaltou Meza.

Meza também destacou que além de proteger o fornecimento de água de qualidade, o manejo florestal reduz a pobreza mediante a criação de empregos, a produção de alimentos, a prevenção de incêndios florestais, a proteção de bacias hidrográficas e a prestação de outros serviços, tais como a eliminação de dióxido de carbono do ar que respiramos.

O uso de água dobrou na América Latina

A situação dos recursos hídricos da região é dupla: alguns dos lugares mais áridos e dos mais úmidos do planeta estão na América Latina e Caribe.

Isso significa que a disponibilidade de água varia consideravelmente entre países e dentro de diferentes áreas de um mesmo país.

De acordo com a FAO, nas três últimas décadas a extração de água se duplicou na América Latina e Caribe a um ritmo muito superior da média mundial.

Nessa região, o setor agrícola e, especialmente, a agricultura irrigada usa a maior parte da água, uma média de 70% do uso, seguido pela extração para uso doméstico com 20% e a indústria com 10%.

As mudanças climáticas podem degradar as florestas e afetar a água

As mudanças climáticas estão modificando o comportamento de precipitações e temperaturas, o que vai alterar os agrossistemas atuais.

Na América Latina e Caribe, as mudanças nos padrões de chuvas e temperaturas vão afetar o rendimento de cultivos básicos como trigo, arroz e feijão, gerando uma pressão sobre as áreas não agrícolas, geralmente cobertas pelas florestas, para convertê-las em áreas produtoras de alimentos.

“As mudanças climáticas afetam a saúde e a qualidade das florestas e a disponibilidade de água, sendo que este efeito é ampliado pela degradação dos solos devido a expansão das áreas de cultivos em locais não apropriados e a intensificação da produção e do uso não apropriado de insumos agrícolas”, salientou Meza.

Entre possíveis efeitos das mudanças climáticas, se espera que no meio deste século ocorra uma substituição gradual das florestas tropicais por savanas no leste da Amazônia, e ainda da vegetação semiárida por vegetação de áreas áridas devido ao aumento da temperatura e da diminuição de água no solo.

Atualmente, a FAO está implementando uma iniciativa regional que trabalha com os governos para apoia-los no cuidado com os recursos naturais, enfrentar as mudanças climáticas e gerir os riscos de desastres.

Da FAO, in EcoDebate, 22/03/2016

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

É possível zerar o desmatamento na Amazônia brasileira? artigo de Paulo Moutinho

Sim – se assegurarmos que o crescimento econômico, a justiça social e a agricultura são parte do quadro.

De 2005 a 2014, a taxa de desmatamento da floresta amazônica foi de 19.014 quilômetros quadrados para 5.012 km2: uma redução de cerca de 70%. É impressionante, mas a taxa ainda permanece alta. Além disso, quando os efeitos do desmatamento são combinados às mudanças no clima, a tendência em curto prazo é de degradação severa da Amazônia. É urgente que o desmatamento ainda corrente na região cesse completamente, a fim de interrompermos esse processo de empobrecimento biológico.

O desmatamento zero é vital para a manutenção dos serviços ambientais que a Amazônia gera: fornecimento de água, regulação climática, estoque de carbono, polinização, biodiversidade, controle natural de pestes, beleza cênica, turismo e muito mais. A floresta tem uma importante função em manter a chuva além das fronteiras da região amazônica: o vapor do Oceano Atlântico que chega ali é reciclado na floresta e é responsável pela chuva fora da bacia amazônica. E as florestas ainda atuam como um imenso ar condicionado para a região, cumprindo um importante papel na manutenção das temperaturas na área.

O governo brasileiro recentemente submeteu às negociações climáticas que culminaram na COP 21 sua intenção de reduzir 37% da emissão nacional de gases estufa até 2025, e 43% até 2030. As principais ações propostas são zerar o desmatamento ilegal até 2030, restaurar 12 milhões de hectares de floresta e recuperar 15 milhões de hectares de pastagens degradadas.

Ainda que essas ações sejam necessárias, o prazo proposto não é adequado. Secas severas nos últimos dez anos já causaram muitas alterações na Amazônia, como mortalidade de árvores, mudanças no padrão de chuvas e erosão do solo. Simplesmente não podemos esperar até 2030 para parar o desmatamento, legal ou ilegal.

O que seria necessário para zerar o desmatamento antes de 2025? O governo brasileiro deve lidar com as ameaças históricas que impulsionam a derrubada na região. O Programa de Aceleração do Crescimento, um plano para expansão da infraestrutura, e a crescente demanda nacional e internacional por carne e grãos continuam a ser ameaças importantes aos avanços conquistados pelo Brasil contra o desmatamento na Amazônia.

Para superar essas ameaçadas, o país deve primeiro impor protocolos ambientais robustos a qualquer investimento em infraestrutura. Segundo, mecanismos que promovam a participação da sociedade civil em decisões a respeito desses projetos devem ser melhorados – inclusive respeitando a história e a preservação da cultura de mais de 450 mil indígenas na Amazônia. Terceiro, os 80 milhões de hectares de terras devolutas na Amazônia devem ser definidas como áreas de conservação.

Contudo, nenhum desses protocolos foi ainda adotado pelo governo brasileiro, e a participação na mitigação de impactos de projetos de infraestrutura ainda é limitado.

Uma estratégia que foi implantada é a aplicação de um instrumento legal conhecido como Cadastro Ambiental Rural (CAR), um sistema de registro de propriedades rurais que mostra a quem elas pertencem e seus limites. Ele permite o monitoramento dessas áreas na Amazônia e é uma ferramenta importante para prevenir o desmatamento ilegal.

Porém, para realmente proteger a floresta e os serviços que ela fornece, o CAR não é suficiente, nem o objetivo apresentado pelo governo brasileiro na COP 21. O desmatamento zero antes de 2025 é possível, e nós sabemos o que é necessário para obtê-lo. O governo brasileiro deve estabelecer metas mais ambiciosas e, ainda mais importante, partir para um novo paradigma, no qual crescimento econômico, justiça social e agricultura não são considerados itens separados da manutenção florestal e dos serviços ambientais.

*Esse artigo foi originalmente publicado na revista eletrônica “Ensia”, em parceria com a revista acadêmica “Elementa”. Ele integra a edição especial “A extinção do desmatamento na Amazônia brasileira: é possível?”, editada pelo autor do artigo.


Por Paulo Moutinho, pesquisador sênior do IPAM*

Fonte: IPAM

in EcoDebate, 05/02/2016

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Estudo aponta fragilidade da caatinga devido a desertificação

Por Maíra Menezes (IOC/Fiocruz)

Na Bahia, quase a metade das cidades da caatinga no entorno do Rio São Francisco têm alto risco de sofrer danos provocados pelas mudanças climáticas nos próximos 25 anos. A conclusão é de um estudo realizado por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que mapeou a vulnerabilidade às alterações do clima em 84 municípios que fazem parte da bacia hidrográfica do Velho Chico e estão localizados na região do bioma caatinga. Coordenada pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz) e Centro de Pesquisas René Rachou (Fiocruz Minas), a pesquisa utiliza uma metodologia desenvolvida na Fiocruz que já foi aplicada para mapear a vulnerabilidade nas cidades do Rio de Janeiro. O trabalho foi financiado pela Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, por meio de edital, e contou com o apoio da Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde da Fiocruz.
 
Clique para ver o mapa ampliado da região estudada (imagem: IOC/Fiocruz)

A gravidade das alterações climáticas previstas para a região foi um dos fatores que levaram os pesquisadores a realizar o estudo. “Esta será uma das áreas mais afetadas pelas mudanças do clima. Além disso, o bioma da caatinga é muito peculiar e característico do nosso país. É importante preservá-lo”, afirma a pesquisadora do IOC Martha Barata, coordenadora-geral do projeto. Especialista em mudanças do clima e cidades, Martha é coordenadora do núcleo da Rede de Pesquisas sobre Mudanças Climáticas Urbanas (UCCRN, na sigla em inglês) para a América Latina,anunciado no ano passado.

Mais calor e menos chuva

Com base em dados do Instituto Nacional de Estudos Espaciais (Inpe), os pesquisadores identificaram as possíveis alterações de temperatura e de volume de chuvas para cada um dos 84 municípios nos próximos 25 anos considerando dois cenários de futuro: um cenário com redução nas emissões de gases do efeito estufa e menor aquecimento global, e outro que considera a progressão contínua dessas emissões e maior impacto no clima. Para 2040, a previsão é de que a média de temperatura na região suba no mínimo 0,98°C e no máximo 1,75°C. Ao mesmo tempo, o volume de chuvas anual deve cair entre 101 mm e 172 mm no conjunto dos municípios. Além da tendência geral de clima mais quente e seco, os índices apontam para a possibilidade de mudanças extremas. A cidade de Buritirama pode ficar 2,13°C mais quente. Já em Urandi, a queda na precipitação pode ser de 438 mm.


Calcular o impacto das alterações de chuvas e temperatura em cada cidade é apenas uma das etapas para determinar a vulnerabilidade da população às mudanças climáticas. Segundo Martha, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (chamado de IPCC, na sigla em inglês) define a vulnerabilidade como “a propensão a sofrer danos”. Esta é influenciada pelo nível de exposição, pela sensibilidade e pela capacidade de adaptação da população ao fator de perigo. “No estudo, consideramos que o nível de exposição é apontado pelas características ambientais, a sensibilidade pode ser percebida pela ocorrência de certas doenças, a capacidade de reação é indicada pelo perfil socioeconômico do município e o fator de perigo é a possível mudança do clima”, enumera a pesquisadora.
 
Clique e confira o mapa ampliado do Índice de Vulnerabilidade Municipal no cenário climático com redução nas emissões de gases do efeito estufa (imagem: IOC/Fiocruz)

Fatores de vulnerabilidade

Dessa forma, seguindo a metodologia desenvolvida na Fiocruz, o Índice de Vulnerabilidade Municipal é calculado a partir de quatro fatores. A situação da saúde é avaliada pela ocorrência de doenças de notificação obrigatória na área de estudo que podem sofrer impactos do clima, incluindo os registros de dengue, leishmanioses, esquistossomose e acidentes com animais peçonhentos, além das mortes causadas por diarreia em crianças menores de cinco anos. Os aspectos ambientais são analisados considerando a preservação da biodiversidade, a disponibilidade de recursos hídricos, a situação do solo e a frequência de eventos hidrometeorológicos extremos, como secas e enchentes, com e sem vítimas fatais. Já as características socioeconômicas são apontadas por indicadores oficiais, além de informações sobre as condições de saneamento local, incluindo rede de esgoto e coleta de lixo. Por fim, as previsões climáticas são inseridas na fórmula, dando origem ao Índice de Vulnerabilidade Municipal, que varia de zero a um de acordo com a padronização realizada pelos pesquisadores e aponta o risco de danos para a população devidos às mudanças do clima. “O objetivo é que este indicador seja um alerta para os gestores. Eles podem observar os fatores mais relevantes para a vulnerabilidade em cada cidade e direcionar investimentos que previnam ou minimizem os problemas”, explica a pesquisadora da Ensp Diana Marinho, coordenadora-executiva do trabalho.

Entre os 84 municípios analisados na Bahia, 34 foram classificados nas faixas de maior vulnerabilidade mesmo no melhor cenário climático. Já considerando as piores previsões para o clima, o número de cidades com vulnerabilidade alta ou muito alta chegou a 40. A maioria das cidades nesta situação está concentrada entre o oeste e o sul da região estudada, em uma área que vai de Campo Alegre de Lourdes até Mortugaba. Neste trecho, os cientistas preveem os maiores impactos do aquecimento global, tornando o clima extremamente quente e seco. Entre as cidades mais vulneráveis estão os municípios de Urandi e Rio do Pires, que revelam como os diferentes fatores contribuem para o problema: de um lado as falhas na saúde e a degradação ambiental deixam a população exposta, de outro as fortes mudanças do clima representam uma grande ameaça. O resultado é uma população com muito alta propensão a sofrer danos no futuro caso medidas de adaptação, que reduzam a vulnerabilidade da população, não sejam adotadas.
 
Clique para ver o mapa ampliado do Índice de Vulnerabilidade Municipal no cenário climático com progressão das emissões de gases do efeito estufa (imagem: IOC/Fiocruz)

Contribuição para enfrentar os riscos

Além de oferecer um panorama geral sobre a situação futura dos municípios, o estudo traz detalhes de cada indicador, o que pode ajudar as autoridades a orientar suas ações. Na saúde, seis cidades apresentaram valores muito altos de vulnerabilidade: Uibaí, que registra a maior taxa de esquistossomose; Barra do Mendes, que possui altos índices de esquistossomose e leishmaniose visceral; Mulungu do Morro, que contabiliza casos de todas as doenças pesquisadas; Guanambi, que tem a maior taxa de leishmaniose visceral; Irecê, que registra altos índices de dengue e esquistossomose; e Urandi, que tem o maior número de acidentes com animais peçonhentos. Para o perfil socioeconômico, as cidades com maior vulnerabilidade são Pedro Alexandre, Pilão Arcado e Bonito, enquanto os municípios em menor vulnerabilidade são Paulo Afonso, Irecê, Guanambi, Jaguarari e Juazeiro. Já em relação às condições ambientais, os municípios de Abaré e Gentio do Ouro apresentaram problemas em todos os critérios analisados e são considerados em situação crítica de vulnerabilidade.

Os pesquisadores ressaltam que combater os fatores de vulnerabilidade é uma forma de preparar as cidades para enfrentar as mudanças climáticas no futuro. “Problemas de saúde e de condições socioeconômicas que já existem devem ser agravados pelas mudanças do clima. As cidades precisam de investimentos para dar à população condições de lidar com eventos extremos, como a seca que deve se intensificar na região”, avalia Diana. Além disso, embora os efeitos das mudanças climáticas devam ser mais graves na parte oeste e sul da área estudada, os autores destacam que condições de vulnerabilidade foram identificadas de forma disseminada. “O município menos vulnerável da região é Paulo Afonso, que constitui um pólo econômico por causa da hidrelétrica. No entanto, ao lado deste município, está Jeremoabo, que tem alta vulnerabilidade considerando as condições socioeconômicas, ambientais e de saúde. Esse é um ponto relevante porque o poder público pode trabalhar para que as áreas mais desenvolvidas influenciem as cidades do entorno”, relata Martha.

in EcoDebate, 01/02/2016