segunda-feira, 6 de maio de 2013

UE proíbe entrada de madeira que possa estar ligada a desmatamento e ilegalidades


UE proíbe entrada de madeira com origem em desmatamentos – A União Europeia decidiu proibir a entrada de madeira e produtos de madeira que possam estar ligados a desmatamento e ilegalidades. Importadores europeus vão solicitar aos fornecedores uma série de documentos que comprovem a origem da mercadoria e a legalidade de sua cadeia de produção. Matéria de Cristina Mueller e Daniela Chiaretti, no Valor Econômico, socializada pelo
ClippingMP.

Como no Brasil a fiscalização é falha, o número de fraudes, grande, e não há sequer números confiáveis sobre produção de madeira na Amazônia, a decisão agitou o setor. O órgão ambiental do Pará, por exemplo, estuda a implantação de chips nas árvores indicadas em projetos de manejo para conseguir controlar melhor a atividade madeireira no Estado brasileiro que mais exporta madeira nativa.

A entrada em vigor, em 3 de março, da EUTR – sigla em inglês para Regulamentação Madeireira da União Europeia – é o fim de um processo que vem sendo discutido há dez anos. A partir de agora, quem quiser vender madeira ou produtos madeireiros (como papel e celulose) aos europeus terá que submeter os documentos à análise de uma autoridade europeia e cumprir o processo conhecido por “due diligence”. Ou seja, provar que está em conformidade com a legislação ambiental e fiscal do país de origem.

“Ninguém mais coloca produto ilegal no mercado europeu. Esse é o fato novo”, diz Roberto Waack, presidente da Amata, a primeira empresa a conseguir concessão de floresta pública no Brasil. “Esse processo já vinha sendo anunciado e agora haverá um período de adequação”, afirma. De agora em diante, todos terão que apresentar ao comprador europeu documentos que comprovem a rastreabilidade da madeira, guias florestais e de transporte, planos de manejo, guias de exportação, notas fiscais. “Isso, para o mercado tradicional da madeira, é complicado. Muitos terão que pular miudinho para cumprir as regras”, diz Waack. “A medida é fundamental e muda a realidade do setor.”

Segundo o presidente da Amata, o mercado brasileiro consome 95% da madeira produzida na Amazônia. “Somos um grande exportador em números absolutos, mas grande parte da madeira fica no Brasil.” Ele estima que só 10% a 15% do volume de madeira produzida na Amazônia é rastreada.

O Pará tem hoje 200 planos de manejo florestais, cada um produzindo entre 30 mil a 40 mil m3 de madeira ao ano. Em 2012, a Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema) licenciou 3,5 milhões de m3. O órgão montou uma sala de monitoramento e estuda melhorias no controle – isso inclui rastrear a madeira colocando chips nas árvores.

“Não é tecnologia cara”, diz Hildemberg Cruz, secretário-adjunto da Sema. Os chips podem custar cerca de R$ 0,30. “Temos que testar, mas os chips poderiam combater as notas frias das árvores”, diz. “Precisamos trabalhar em varias atividades para melhor nossa gestão florestal.” Estuda-se uma reestruturação no órgão, com a criação de três institutos – um para licenciamento, outro para unidades de conservação e um terceiro para águas e clima. Estima-se que a exploração ilegal no Pará seja equivalente a 70% da produção total de madeira. “Temos que nos preparar melhor para comprovar que a origem da madeira é de fonte legalizada”, afirma Cruz.

A discussão do setor, diante da decisão da UE, avançou. “O problema é que grande parte da madeira comercializada navega na fragilidade dos sistemas atuais”, diz Waack, da Amata. “Os documentos que serão apresentados serão realmente verdadeiros? Existe espaço em um país como o Brasil para falsificar documentos aos clientes europeus? Esse é o debate agora”, afirma. “A regra europeia é positiva e vamos ter pela frente um processo de aprendizado.”

“Por enquanto está funcionando quadrado. Vai ser preciso aparar muitas arestas até esse negócio começar a girar redondo”, avalia Guilherme Carvalho, diretor-técnico da Associação das Indústrias Exportadoras do Pará (Aimex), entidade que representa os madeireiros do Estado. A exportação de madeira paraense encolheu com a crise econômica global de 2008. Eram mais de 70 associadas, hoje são 35. “Muitas empresas paralisaram ou encerraram atividades”, diz Carvalho. Em 2007, a exportação paraense de toras, molduras, janelas, pisos e deques (à exceção de papel, celulose e móveis) foi de US$ 800 milhões. Em 2012 caiu para US$ 319 milhões. O mercado principal são EUA e Europa. “As vendas para os EUA melhoraram, mas para a UE continuam imprevisíveis.”. Na Europa, os grandes compradores são França, Portugal, Reino Unido, Espanha e Itália.

No ranking dos Estados brasileiros exportadores de madeira, o Pará ocupa o primeiro lugar, considerando-se madeira originária de floresta nativa. “A princípio, toda madeira que sai do Brasil é legal, porque vai com documento”, diz Carvalho. “Agora, se o documento é legítimo ou não, se está havendo fraude, é outra questão.”

Carvalho lembra que em abril o Ibama flagrou 27 empresas cometendo fraude no comércio de madeira no Pará, com guias de transporte falsas vindas do Maranhão, Mato Grosso e Amapá. “Temos que saber rapidamente quem são essas empresas. Quem comprar delas estará colocando a cabeça na guilhotina”, diz o diretor da Aimex. “Os órgãos ambientais têm que comunicar as fraudes, ou a ilegalidade contaminará muitas empresas”, explica.

Os europeus solicitam a legalidade da cadeia de custódia – ou seja, de toda a cadeia de produção, desde as florestas com plano de manejo até as serrarias, do transporte da madeira em caminhões ao embarque nos navios. “A medida da UE estabelecendo um sistema de controle para combater a madeira ilegal, é correta e positiva”, diz Carvalho. “Nós, na Aimex, queremos que haja um ordenamento do setor, mas os órgãos ambientais no Brasil têm que estar melhor aparelhados.”

“Vemos essa decisão com bons olhos”, diz Volney Zanardi Júnior, presidente do Ibama. “É um incentivo para que tenhamos a cadeia de produção de madeira legalizada e vem ao encontro dos nossos esforços de controle do desmatamento.” O Ibama fiscaliza os planos de manejo nas florestas nacionais, autorizados pelo Serviço Florestal Brasileiro. Em outros lugares o trabalho é feito pelos órgãos ambientais estaduais.

É o Ibama que concede o Documento de Origem Florestal (DOF), a licença obrigatória para o transporte da madeira. “Não vai ter mercado para madeira que não for legalizada”, diz Zanardi Júnior. “Tudo o que vier na direção da responsabilidade, e de um consumo que se preocupa com a origem do produto, é muito favorável à questão ambiental.” Sobre a certificação, o presidente do Ibama diz que se trata de boa alternativa e um instrumento a mais. “Mas não é o Santo Graal, não vai resolver tudo.”

Para Antônio Carlos Hummel, diretor-geral do Serviço Florestal Brasileiro (SFB), com as concessões florestais “o Brasil se prepara para oferecer madeira com origem rastreada e manejada de forma sustentável”. As concessões começaram em 2010, e hoje há quatro empresas explorando madeira em florestas públicas. “Espero que, no futuro, tenhamos madeira totalmente sustentável na Amazônia.”

Hoje, o Brasil tem cerca de 16 milhões de hectares em florestas nacionais criadas. O mercado é algo entre 14 e 20 milhões de m3 de madeira, sendo que 85% desse volume vai ao mercado interno. “O Brasil tem condições de atender a norma europeia através das concessões florestais”, continua. “Medidas que são boas para a floresta são importantes para nós.”

“DOFs e guias florestais não funcionam”, critica Alan Rigolo, coordenador de certificação e gestão de risco da Amata. “Se fossem executados como se deve, talvez, mas a gente sabe que são mecanismos frágeis”. diz.

Paulo Adario, estrategista-sênior de florestas do Greenpeace Internacional acredita que a legislação europeia tem várias vantagens e um risco. “A vantagem é ter uma legislação internacional forte. A Europa é grande consumidor de madeira e essas regras podem contribuir para reduzir a destruição florestal em vários países, além de fortalecer a governança nos países produtores”, avalia. O risco, diz, é que a ilegalidade saia da região de maior controle e se desloque para outro lugar. “Mas legalidade não quer dizer sustentabilidade”, afirma Adario. “As leis do país produtor têm que estar mirando preservar a floresta.”

A Interpol classifica a venda ilegal de madeira como crime internacional, assim como tráfico de drogas ou de animais. “O desmatamento é crime internacional, porque afeta pessoas além da fronteira onde ocorre”, disse Davyth Stewart, do Projeto Leaf (Law Enforcement Assistance for Forests) da Interpol, em evento que reuniu 190 especialistas do setor florestal, em Estocolmo, na Suécia. Um dos crimes recorrentes é misturar madeira legal com ilegal nos carregamentos, dificultando a inspeção.

Em setores organizados, como o de papel e celulose, a decisão europeia foi recebida com mais tranquilidade. O Brasil exporta 46% de sua produção de celulose e 15% da produção de papel para a Europa. “Nossas associadas já cumprem exigências abrangentes, como as estipuladas pelas certificações, que incluem regulamentações trabalhistas, de engajamento comunitário e uso da terra”, diz Elizabeth de Carvalhaes, presidente-executiva da Associação Brasileira de Celulose e Papel (Bracelpa), que reúne as empresas do setor.

“Isso é novo para todos”, disse o francês Bernard de Galembert, diretor florestal da Cepi, a confederação europeia das indústrias de papel, durante workshop em São Paulo. “Mas logo virará um procedimento rotineiro, e é possível que vejamos mais iniciativas assim em outras partes do mundo”, afirmou. “É impossível dizer que não é boa uma iniciativa de combater ao desmatamento no mundo. Qualquer passo nesse caminho está na direção certa.”
EcoDebate, 06/05/2013

Link:
http://www.ecodebate.com.br/2013/05/06/ue-proibe-entrada-de-madeira-que-possa-estar-ligada-a-desmatamento-e-ilegalidades/

Convenção do Clima – O que vai prevalecer, ciência ou finanças? artigo de Washington Novaes


[O Estado de S.Paulo] Em princípio, termina hoje em Bonn mais uma reunião da Convenção do Clima em que se tenta chegar a acordos para um compromisso, a ser assinado no ano que vem, no qual todos os países-membros, em princípio, assumirão compromissos obrigatórios a partir de 2020 para reduzir as emissões de gases poluentes que aumentam a temperatura da Terra e intensificam os desastres climáticos. Pode ser que a reunião se prolongue neste fim de semana, porque em discussões dessa natureza ninguém abre todo o jogo antes da última hora e isso obriga a penosas negociações finais.

O grupo dos países menos desenvolvidos aperta as cravelhas: “Precisamos chegar a um acordo já, não podemos continuar rodando em círculos, porque nesse ritmo a temperatura planetária poderá subir mais de 4 graus Celsius; nós somos e seremos os mais atingidos pelos desastres”. O próprio secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, faz coro (Bloomberg, 24/4): “Os recursos para energias renováveis e eficiência energética não são suficientes para evitar as calamidades; é preciso investir mais e mais rapidamente em novas tecnologias energéticas. Já são muito fortes as ameaças às economias dos países e à estabilidade do sistema financeiro. O relógio está correndo. Nós só temos um planeta e não há plano B”. Christiana Figueres, secretária-geral da convenção, reforça: “Nenhum país está fazendo o suficiente”.

Todos têm razão. Apesar das gravíssimas ameaças conhecidas, os investimentos em energias “limpas” no primeiro trimestre deste ano ficaram 22% abaixo dos que foram feitos em igual período do ano passado. Em 2012 o investimento global em renováveis já caíra 11%, para US$ 269 bilhões. E, segundo a ONU, é preciso investir anualmente pelo menos US$ 700 bilhões para atender à população de 8 bilhões de pessoas em 2030. As emissões de poluentes na Grã-Bretanha (Environment, 25/4) aumentaram, embora o país as atribua a mais produtos importados (em lugar dos poluentes que eram fabricados internamente). Nos EUA, o presidente empaca em seus projetos de um modelo menos poluente, diante da resistência do Congresso. Metade da energia consumida no país é desperdiçada, mais que todo o consumo no Japão (New Scientist, 13/4). Na Austrália, teme-se que acabe implodindo a “bolha” do comércio de carbono, principalmente nas exportações, pois ao menos dois terços das gigantescas reservas de carvão terão de permanecer no subsolo, inexploradas (The Guardian, 28/4), diante de limites graves.

A China começa a assumir a vanguarda na área das renováveis, embora ainda seja o país que mais emite poluentes. Em 2012 investiu US$ 65 bilhões nessa área (AFP, 27/4), 20% mais que no ano anterior, ou 30% do investimento total dos países do G-20. Na energia solar o crescimento foi de 75%; na eólica, 36%. No mundo, o crescimento na primeira área foi de 42%; na segunda, 21%. Ainda assim, as emissões globais aumentaram em 2012. Rajendra Pachauri, que dirige o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), não se cansa de advertir: se as emissões não baixarem, até 2050 a temperatura subirá entre 2 e 2,4 graus Celsius, pelo menos; e o nível dos oceanos se elevará entre 0,4 e 1,4 metro; poderá ser até mais com o degelo no Ártico.

E onde fica o Brasil nesse panorama? Garantem nossos técnicos que o Plano Nacional de Mudanças do Clima está sendo revisto e será levado à convenção, com o compromisso de reduzir as emissões entre 36,1% e 38,9% sobre o patamar previsto para 2020 – o que significa 1 bilhão de toneladas equivalentes de carbono. Estudo da Unicamp garante (24/4) que a agropecuária poderá contribuir com 13% da redução, graças principalmente à recuperação de 19 milhões de hectares de pastagens degradadas.

O Observatório do Clima, que reúne mais de 30 ONGs, observa, entretanto, que o governo Dilma Rousseff não dá a devida importância à área do clima (Valor Econômico, 25/4). Outros críticos afirmam que não se pode continuar depositando as esperanças nacionais no petróleo do pré-sal, pois, além dos problemas da poluição no consumo, não estão equacionados os das tecnologias a serem usadas na extração e possíveis consequências ambientais. Nesse contexto é lembrado o relatório da Carbon Tracker e do Instituto de Pesquisas Grantham segundo o qual de 60% a 80% das reservas de petróleo, carvão e gás natural em poder das grandes empresas “nunca poderão ser aproveitadas” – diante do que estabelecem e estabelecerão os acordos em discussão na área do clima, como na conferência que se realiza em Bonn. Trata-se, diz o relatório (apoiado por HSBC, Standard and Poor’s e Agência Internacional de Energia), de uma nova “bolha financeira”, que poderá gerar nova crise mundial. Ainda assim, adverte o conceituado economista Nicholas Stern, as 200 maiores empresas do setor investiram US$ 674 bilhões na descoberta de novas reservas no ano passado – cerca de 1% do PIB mundial.

Reforça apreensões o relatório do Scripps Institution of Oceanography, da Universidade de San Diego, segundo o qual no dia 22 último um laboratório no Havaí registrou o índice de 398,36 partes de poluentes por milhão (ppm) na atmosfera (eram 250 no início da revolução industrial). E há outros pontos do planeta onde esse índice já superou 400 ppm – taxa só registrada na Terra há pelo menos 3,2 milhões de anos. Se chegar a 450 ppm, dizem os cientistas, as consequências serão inimagináveis.

Que prevalecerá? A lógica apenas econômico-financeira? Ou a crença – que a ciência julga perigosa – de que novas tecnologias resolverão tudo? Ou ainda a convicção de economistas (ou ex-economistas, assim ele se qualificou há algum tempo) como André Lara Resende de que “existem limites físicos para o crescimento” (Valor Econômico, 26/4) – pensamento que está no livro Os Limites do Possível, que acaba de ser lançado?

* Washington Novaes é jornalista. E-mail: wrlnovaes@uol.com.br.

Artigo originalmente publicado em
O Estado de S.Paulo.EcoDebate, 06/05/2013

Link:
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