quarta-feira, 3 de abril de 2013

A busca de cientistas aos óleos e essências da Caatinga - III

Plantas combustíveis do Nordeste - espécies nativas como opção para produzir BIODIESEL

Por Ribamar Mesquita - Recife, dez.2012.
(Agência Prodetec) - Conquanto apresente menor biodiversidade que outros biomas brasileiros, a caatinga nordestina oferece várias opções para a produção de óleos, a exemplo do algodão e do babaçu, talvez as oleaginosas mais estudadas como matéria-prima para o programa de biodiesel, e das tradicionais mamona e oiticica que, no passado, foram fontes importantes de renda para o sertanejo.

Um grupo de pesquisadores ligados ao Centro de Tecnologias Estratégicas do Nordeste (Cetene) analisou um conjunto de sete plantas comuns na região para verificar a sua viabilidade como matéria-prima para o biodiesel. Todas as espécies examinadas apresentaram teor de óleo bem acima da soja (cerca de 20%). De um mínimo de 30% para a Bombacopsis glabra (castanha ou cacau do Maranhão) a 67% para a campeã, Syagrus coronata, palmeira natural da Mata Atlântica, que o homem do campo conhece como licuri.

As demais apresentaram os seguintes teores de óleo: Acrocomia intumescens (macaúba), 54%; Orbignya phalerata (babaçu), 59,1%; Hevea brasiliensis (seringueira), 41%; Ouratea hexasperma (vassoura de bruxa), 34% e Bombacopsis retusa (barriguda), 44%.

Óleo de seringueira


Conforme o trabalho, a seringueira (H. brasiliensis), que não é aproveitada hoje para produção de biodiesel, tem um óleo semelhante ao da soja, fonte principal de biodiesel no Brasil, e no qual predomina o ácido linoleico. Já o óleo extraído da planta que o sertanejo identifica como vassoura de bruxa (O. hexasperma) difere do da soja pela dominância do ácido oleico e teor elevado de ácido palmítico.

Para os pesquisadores responsáveis pelo estudo, as três espécies de palmeiras examinadas (Arecaceae) apresentam "perfis semelhantes de ácidos graxos caracterizados por alta porcentagem de ácido láurico e predominância de ácidos graxos saturados de cadeia curta e média (C8-C14)". No caso da macaúba, eles afirmam que foi observada uma grande diferença na composição do óleo do endosperma e do mesocarpo, o qual não contém ácidos graxos de cadeia menor que C16 e alto teor de ácido oleico.

As duas espécies do gênero Bombacopsis – acrescentam eles - são caracterizadas por "teores de ácido láurico iguais ou maiores que 60% e aproximadamente 5% de ácidos de cadeia longa (C18) não identificados".


Boa qualidade

Além do maior teor de óleo, todas as espécies estudadas têm óleo com características superiores ao da soja para produção de biodiesel, apresentando também "perfil de ácidos graxos com menor nível de insaturação, o que as torna menos suscetível à degradação por oxidação".
A recomendação dos especialistas é no sentido de aprofundar a investigação sobre essas plantas, considerando a sua representatividade na região Nordeste e o grande potencial para a produção de óleos vegetais.

O trabalho deles - "Caracterização de espécies oleaginosas nativas: teor de óleo e perfil de ácidos graxos" - foi apresentado com sucesso no IV Congresso da Rede Brasileira de Tecnologia do Biodiesel. A maioria trabalha no Cetene, em Recife: Wolfgang Harand, Roberta Sampaio Pinho, Simone Pereira Cabral e Marcelo Bezerra de Andrade. Outros dois são professores: Leonardo Pessoa Félix (UFPB) e Alexandre Ricardo Pereira Schuler (UFPE).

Mais experimentos

Em outro trabalho, esse mesmo grupo de pesquisadores, desfalcado de Alexandre Ricardo Pereira Schuler (UFPE) e Marcelo Bezerra de Andrade, levantou o potencial de óleo de outras espécies nativas a Magonia pubescens A. St. Hil. (tingui), a Pachira aquatica Aubl. (munguba, mamorana) e a Sterculia foetida L (Chichá-fedorento, oliva-de-java, castanha-da-Índia), a partir de amostras coletadas nos estados do Piauí, no caso da primeira planta, e em Pernambuco, cujas sementes foram secadas para a retirada da umidade, antes da extração do óleo.

Mais óleo que a soja

De acordo com os pesquisadores, as duas espécies apresentam teor de óleo promissor e como são perenes, pode-se esperar uma produção de biomassa bastante elevada em comparação com as espécies anuais.

Comparado com a soja, principal fonte de óleo vegetal no Brasil, o teor de óleo da semente dessas espécies atingiu mais que o dobro, o que ressalta seu potencial como matéria-prima para uso em biodiesel. A pachira aquática apresentou 47% de teor de óleo, a Sterculia foetida entre 35 e 41% e a Magonia pubescens, 28%, mesmo assim um pouco maior que a soja, em torno de 20%.

Além disso, apresentam ainda outras vantagens: podem ser usadas na recuperação de áreas degradadas e consorciadas com animais de pequeno e médio porte ou com agricultura de ciclo curto ou de subsistência (feijão, milho, mandioca, entre outros).

Extrativismo representa gargalo

De acordo com o Plano Nacional de Agroenergia, o problema com essas plantas nativas é que a sua produção ainda é puramente extrativista, não existindo plantios comerciais que permitam avaliar, com precisão, suas potencialidades. "Isso ainda levará certo tempo, uma vez que a pesquisa agropecuária nacional com foco no domínio dos ciclos botânico e agronômico dessas espécies ainda não tem resultados substanciais", afirma o documento reeditado pelo Ministério da Agricultura, em 2006.

Seu aproveitamento para a produção de óleo vai demandar novos desafios tecnológicos, tanto na parte da produção quanto na agroindustrial, de forma a suplementar a produção de culturas tradicionais como a soja, a mamona, o girassol e o dendê. Mais importante: pode representar uma alternativa ambiciosa de elevação de renda para o pequeno produtor rural.

De fato, segundo o engenheiro e deputado federal Ariosto Holanda (CE), a cada 1% de participação da agricultura familiar no mercado de biodiesel, seria possível gerar, aproximadamente, 45 mil empregos no campo, ao custo médio aproximado de R$ 4.900,00 cada um. Admitindo-se que um emprego no campo gere três na cidade, seriam criados 180 mil empregos. Por fim, diz ele, é importante destacar que, na agricultura empresarial, emprega-se, em média, um trabalhador para cada 100 hectares cultivados. Na agricultura familiar, são 10 ha por trabalhador.

Conforme estudo do MAPA, a cada 1% de participação desse segmento no mercado de biodiesel, são necessários R$ 220 milhões por ano, os quais proporcionam acréscimo de renda bruta anual ao redor de R$ 470 milhões. Cada R$ 1,00 aplicado na agricultura familiar gera R$ 2,13 adicionais na renda bruta anual, o que implicaria dobrar a renda familiar.

Para comparar a dimensão social disso, basta lembrar o estudo dos pesquisadores mineiros Admir Antonio Betarelli Junior, Aline Souza Magalhães e Edson Paulo Domingues, todos do CEDEPLAR, sobre a repercussão da Copa do Mundo de Futebol na economia do Nordeste ("Nordeste e a Copa do Mundo 2014: impactos econômicos de megaeventos esportivos", apresentado no Fórum BNB de Desenvolvimento de 2010, em Fortaleza). Segundo eles, os investimentos (R$ 4.025 milhões) devem contribuir para a geração de cerca de 50 mil empregos, o que equivale a R$ 80,5 mil por ocupação, valor 16 vezes maior que o apurado no caso da produção de biodiesel pela agricultura familiar.

O Ministério das Minas e Energia garante que a participação da agricultura familiar no programa de biodiesel é bastante expressiva, lembrando que do total de 6 bilhões de litros/ano do produto, que é a capacidade nominal das 56 unidades autorizadas a produzir e a comercializar o biocombustível, 78% procedem de usinas detentoras do selo combustível social. Trata-se de um certificado fornecido pelo governo às unidades produtoras que atendem aos requisitos de inclusão da agricultura familiar na cadeia produtiva do biodiesel.

Link:

http://www.agenciaprodetec.com.br/especiais/319-a-busca-dos-cientistas-aos-oleos-e-essencias-da-caatinga-3.html

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