sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Café não aumenta gravidade de doença arterial coronariana

Por Júlio Bernardes - jubern@usp.br
Publicado em 24/janeiro/2013

O consumo de café não interfere na gravidade da doença arterial coronariana (DAC), revela pesquisa do Programa Interunidades de Pós-graduação em Nutrição Humana Aplicada (Pronut) da USP. O estudo da nutricionista Juliana Gimenez Casagrande em 115 portadores de DAC mostra que um aumento de 50 mililitros (ml) na ingestão diária da bebida, equivalente ao volume de uma xícara, pode diminuir em cerca de 3,15% a probabilidade do paciente vir a apresentar um quadro mais grave da doença.
Café não afetou qualidade de vida portadores da doença arterial coronariana

A pesquisa analisou pacientes do ambulatório de cardiologia do InCor Osasco, localizado na Policlínica Zona Norte Dona Leonil Crê Bortolosso, em Osasco (Grande São Paulo) e na Unidade Clínica de Coronariopatia Crônica do Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clinicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP). “Os critérios de seleção utilizados para inclusão de pacientes com coronariopatia diagnosticada foram histórico de revascularização cirúrgica, angioplastia e exame de cinecoronariografia que constate obstrução coronariana”, afirma a nutricionista.

De acordo com Juliana, poucos estudos apontam alguma conclusão significativa sobre os efeitos do consumo de café em doenças coronarianas. “A maioria estuda o efeito sobre os fatores de risco para a DAC, como dislipidemia [níveis elevados de lipídeos no sangue], hipertensão arterial e diabetes mellitus”, aponta. “Os participantes da pesquisa não receberam nenhuma orientação específica sobre a quantidade de café a ser consumida, apenas os que tomavam moderadamente a bebida foram orientados de que não havia necessidade de interromper totalmente o consumo.”

Os pacientes foram acompanhados durante um ano e meio. O estado clínico dos pacientes foi avaliado por intermédio da aplicação de questionário com cerca de 25 questões divididas em seis blocos: identificação, classificação sócio-econômica, história clínica, avaliação antropométrica, hábitos alimentares (incluindo o consumo de café) e qualidade de vida. A pesquisa mostrou que a ingestão de café demonstrou uma relação significativa com menores níveis de gravidade da DAC. “Não foram verificados efeitos maléficos para a qualidade de vida dos portadores da doença”, ressalta Juliana. “A única relação inversa significativa foi entre o consumo de café e estabilidade de angina [dores no peito de origem cardíaca]”.

Efeitos

Juliana afirma que a pesquisa não determinou uma quantidade específica de consumo de café que seja boa ou ruim para a DAC. “O que foi observado é que o aumento do consumo diário de 1 ml de café diminui em aproximadamente 0,063% a probabilidade do paciente vir a apresentar uma piora na quadro da doença”, conta. “Convertendo em proporções maiores, o aumento do consumo diário de 50 ml de café diminui em cerca de 3,15% a probabilidade do paciente vir a apresentar um quadro mais grave de DAC”. A nutricionista relata que outros estudos levantaram a hipótese de que a presença de antioxidantes na bebida esteja associada a uma redução dos processos inflamatórios que desencadeiam a DAC.

O estudo também verificou uma relação marcante entre consumo de gorduras, gravidade da DAC e capacidade física. “Muitos estudos já apontam uma relação benéfica entre o consumo de café, com quantidade ainda indeterminada, e os fatores de risco para a doença”, diz a nutricionista. “Uma relação que ainda deve ser vista com cautela é o consumo excessivo em portadores de hipertensão, pois já foi visto que a ingestão moderada da bebida não eleva a pressão arterial”.

A nutricionista aponta que o consumo de café não deve ser proibido aos portadores de DAC. “Muitos profissionais de saúde recomendam uma restrição total”, afirma. “No entanto, embora a pesquisa não tenha sido conclusiva sobre a quantidade ideal, o mais indicado é sugerir o consumo moderado, que é calculado em 3 a 5 xícaras por dia, número que varia conforme a referência. A indicação também varia de acordo com a presença ou não de hipertensão arterial no paciente”.

A pesquisa faz parte de dissertação de mestrado apresentada em maio de 2012 no Pronut, que é desenvolvido pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF), Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) e Faculdade de Saúde Pública (FSP). O trabalho foi orientado pelo professor Antonio Carlos Coelho Campino, da FEA.


Mais informações: email julicasagrande@yahoo.com.br, com Juliana Gimenez Casagrande

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