segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Cardápio mal-educado

Influência de adultos leva crianças a consumir alimentos poucos saudáveis, revela levantamento em escola

Genira Chagas

As crianças costumam perceber a importância de uma alimentação saudável. Mas, como não costumam escolher o que consomem nas principais refeições, esse entendimento nem sempre se reverte em cardápio balanceado. A conclusão é da nutricionista Roberta Alessandra Gaino, autora do mestrado

Concepção da criança em idade escolar sobre alimentação e nutrição, apresentado em 2012 no programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Faculdade de Medicina da Unesp, Câmpus de Botucatu. Realizado com 17 crianças entre 9 e 11 anos, do 5º ano do ensino fundamental de uma escola municipal do Interior paulista, o estudo radiografou a compreensão desses estudantes sobre as funções dos alimentos.

“Os entrevistados demonstraram possuir um repertório sobre alimentação e nutrição, construído a partir do cotidiano, da vivência com familiares e amigos e na escola, além da contribuição dos meios de comunicação”, explica Roberta.

Para que os entrevistados expusessem suas experiências e concepções, a nutricionista estabeleceu vínculos com o grupo durante as diversas etapas do trabalho, em que foram realizadas entrevistas, leitura de histórias infantis relacionadas a alimentos, oficinas de desenho, prática culinária e observações durante as aulas e nos intervalos.

No estudo, os escolares foram identificados com números, para preservar suas identidades. De acordo com o aluno “nº 6”, por exemplo, “[...] pelo menos em um prato tem que ter arroz, feijão, salada, uma carne, isso é o básico para ter uma alimentação boa, saudável!”.

Os entrevistados também mostraram ter informações sobre a importância de vitaminas e minerais para o organismo. A criança “nº 10” mencionou “cálcio, ferro, vitamina A e B”. “[...] O que eu conheço são esses, que eu vejo muito na TV [...], onde fala: tem vitamina A, vitamina B, fortalecem (sic) os músculos, os ossos. [...]”.

Conflito

Ao mesmo tempo, eles admitiram que consomem poucas hortaliças e frutas e se deliciam com frituras e bebidas industrializadas. Segundo Roberta, os hábitos alimentares relatados sofrem principalmente influência das mães, responsáveis pela escolha do que é consumido e pelo preparo das refeições.

A criança “nº 17” assinala que sua mãe costuma fazer cachorro quente, coxinha e batata frita. E, quando não quer preparar a refeição, ela propõe comer numa “barraquinha”. Ao falar de seus hábitos alimentares, a entrevistada “nº 5” detalha: “É mais fritura, carne, essas coisas, de vez em quando, salada. Eu como bastante salgadinho, bolacha e esses doces, chocolate, essas coisas”, explica. “De vez em quando, quando a minha mãe faz compra, compra um monte de coisa, daí eu como tudo em um dia.”

“Fica claro que, por motivos diferentes – praticidade ou prazer –, as famílias estão trocando alimentos saudáveis por industrializados, ou por produtos que podem ser adquiridos e preparados com maior facilidade”, diz a nutricionista.

Contudo, há casos em que a influência materna estimula uma alimentação saudável, como demonstra a criança “nº13”: “Eu como porque a minha mãe fala para eu comer para ficar bem na escola e estudar bem [...] minha mãe faz uma alimentação boa na minha casa”.

A professora Eliana Goldfarb Cyrino, orientadora do trabalho, conclui que, diante de desafios como o aumento da obesidade na infância e a mudança dos hábitos alimentares, essa investigação auxilia a adoção de iniciativas educativas na área alimentar. Eliana coordena um grupo de estudos, no âmbito da linha de pesquisa “Desenvolvimento e análise de tecnologia e processos para formação de profissionais de saúde”, com financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

O estudo colheu também a opinião da professora dos escolares, que garantiu ter abordado com eles os conceitos fundamentais sobre alimentação e nutrição. No entanto, a docente assinalou que o material didático sobre esses temas é insuficiente e que não se sente plenamente capacitada para tratar de todos os assuntos da área. “Percebe-se, na fala da professora, a ausência de uma educação nutricional que adote estratégias nas quais os estudantes possam participar ativamente da construção dos conhecimentos”, comenta Eliana.

Roberta adverte que na idade escolar são estabelecidas as preferências e restrições alimentares, origens do comportamento de toda a vida. Para ela, a integração dos setores de educação e saúde poderia contribuir para ampliar e melhorar a transmissão do conhecimento 
sobre alimentação saudável.

Jornal da UNESP 
Janeiro/Fevereiro 2013 - Ano XXII - n° 285
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