quarta-feira, 25 de junho de 2014

A seca: inimiga silenciosa do Brasil e da América Latina

A falta de água gera mais vítimas que a combinação de terremotos e furacões. O fenômeno afetou a 2 bilhões de pessoas no mundo no último século.

Na América Latina hoje há mais conhecimento sobre o tema e que a capacidade dos governos é maior do que há 10 ou 20 anos.

Países com diferentes regimes climáticos estão se unindo e vendo o que necessitam para fazer frente às secas.

A seca é o membro tímido da família dos fenômenos naturais, na qual os furacões e os terremotos são os parentes extrovertidos, que recebem a maior atenção. Entretanto, de maneira silenciosa, a seca causa tantas ou mais perdas de vida e de bens materiais do que qualquer outro perigo físico, segundo dados da FAO.

No último século, mais de 2 bilhões de pessoas sofreram com as secas no mundo, das quais 11 milhões perderam a vida em consequência delas, segundo a organização.

No hemisfério norte, os agricultores de milho dos Estados Unidos sofreram em 2012 a seca mais grave dos últimos 50 anos, enquanto na América do Sul as plantações brasileiras e argentinas de soja e milho padeceram uma aridez particular que dizimou os cultivos, os quais correspondiam à metade da demanda mundial do grão.

Secas recentes provocaram um aumento nos preços dos alimentos em todo o mundo e levaram o México, por exemplo, a considerar a adoção de mecanismos como uma bolsa agrícola própria, para fazer frente às flutuações no mercado de milho.

E essa tendência a um mundo mais seco só vai piorar. Segundo os especialistas, na década de 80, houve uma média de 10 secas que produziram perdas econômicas da ordem dos milhões. Nos últimos anos, essas perdas se duplicaram.

O pior de tudo é que a maneira como os governos lidam com o chamado “ciclo hidrológico” não tem muito sentido. Daí o climatólogo norte-americano Donald Wilhite ter decidido chamá-lo de “ciclo hidro-ilógico”.

Wilhite, reconhecido como o principal especialista mundial no desenho de políticas para a gestão da seca, afirma que o pânico é a primeira etapa desse círculo vicioso. Logo vem a chuva e, com ela, a apatia: nem os cidadãos nem os políticos veem a necessidade de se preparar para a próxima seca. Mas quando ela volta, desperta novamente a preocupação e o medo daqueles que não se prepararam para enfrentá-las.

Para ajudar a romper esse ciclo no Brasil, Wilhite trabalha num projeto piloto do Banco Mundial que desenha o primeiro sistema nacional de monitoramento constante da seca. O sistema funcionará no Ceará, um dos estados mais secos do Nordeste.

“Com os dados, podem ser tomadas decisões melhores e isso ajuda a enfrentar o problema”, disse Wilhite numa entrevista realizada em Brasília, depois de participar de uma série de oficinas para os governos do Brasil e de outros países latino-americanos.

O especialista avalia que na América Latina hoje há mais conhecimento sobre o tema e que a capacidade dos governos é maior do que há 10 ou 20 anos. “O México, por exemplo, sofreu graves secas nos últimos anos. E quando o novo presidente (Enrique Peña Nieto) assumiu o cargo em dezembro de 2012, estava convencido de que era necessário desenvolver um programa contra as secas”.

Aqui ele destaca o desafio lançado à Comissão Nacional da Água (Conagua) que ajudou o país a atuar com determinação. “Na oficina que fiz na semana passada em Fortaleza (Brasil), vi que muitos países da América Latina e do Caribe têm interesse nesse tipo de histórias. É bom ver como os países com diferentes padrões climáticos estão se unindo e vendo o que necessitam para fazer frente às secas.”

Ao ser consultado sobre quais seriam as novas formas de enfrentar o problema, Wilhite recomenda que quando acontece uma seca, as autoridades devem estar atentas.

“É nesse momento que estão em melhor posição para fazer mudanças no planejamento e na avaliação de como podem gerir seus recursos de maneira preventiva. Os eventos extremos (secas, inundações, etc.) tendem a aumentar com a mudança climática, e seu custo é muito elevado. Limitar-se a reagir a eles é muito custoso, e tem outras consequências negativas, não só para as pessoas, mas para os vários setores econômicos”, garante.

 Os meios de comunicação não só devem informar sobre a seca, mas sobre o processo de planejamento contra esses desastres.

Donald Wilhite
Climatologista

A seca, o parente pobre

O especialista, que também é professor da Universidade de Nebrasca-Lincoln, destaca que a seca é o “parente pobre” dos fenômenos naturais . “De fato, o tema fica um pouco em evidência quando há uma crise, mas uma vez que o evento passa, a atenção da mídia se volta para outro assunto”.

Ele acrescenta que a comunicação é muito importante na prevenção de novas catástrofes relacionadas com o processo de seca: “Os meios de comunicação não só devem informar sobre a seca, mas sobre o processo de planejamento contra esses desastres. Diferentemente dos cientistas, os jornalistas sabem transmitir as mensagens de forma que as pessoas as entendam”.

Em relação ao que se está fazendo no Brasil, Wilhite destaca que não é uma coisa que se possa fazer de um dia para o outro.

“Em seis meses, se há vontade, é possível esboçar uma política nas reuniões com os ministérios e outras partes interessadas. É preciso tempo para integrar tanta gente e para que todo mundo entenda o problema. E ainda mais tempo para desenvolver as ferramentas para a ação. Por exemplo, o desenvolvimento do sistema de vigilância da seca no Nordeste é um pouco lento, mas possível”.

Fonte: Banco Mundial

EcoDebate, 25/06/2014

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