sábado, 21 de abril de 2012

Plantas medicinais na odontologia

Autor Victor Hugo Cardoso
02 e 04.04.2012

Parte I


Alho, aroeira, juá, barbatimão. Romã, cajueiro, hortelã, malva… Se fosse para fazer a relação completa, a lista das plantas medicinais amigas da saúde bucal passaria de 500 espécies. “Só no Nordeste, já foram identificadas mais de 260, com 19 indicações diferentes em odontologia”, conta o professor Fábio Correia Sampaio, coordenador do Grupo de Estudos de Fitoterapia aplicada à Odontologia (Gefao), da Universidade Federal da Paraíba. “As plantas mais usadas são as conhecidas pelas atividades analgésica, cicatrizante e anti-inflamatória”, completa o pesquisador, que em 2009 publicou, junto com os colegas do Gefao, um levantamento sobre o uso de plantas medicinais para tratar problemas bucais em João Pessoa.

Na pesquisa, das várias espécies citadas pelos paraibanos, a romã (Punica granatum) foi, de longe, a mais lembrada. A fruta é também uma das espécies mais investigadas na área acadêmica da odontologia. Na literatura científica, não faltam estudos in vitro comprovando que ela é capaz de eliminar diversas linhagens de bactérias e, assim, prevenir a formação do biofilme dental, a famosa placa bacteriana. “Se não for tratado, o biofilme pode progredir para gengivite e até perda dos dentes e óssea”, explica a microbiologista Paula Cristina Aníbal, que, há quase uma década, estuda a romã na Faculdade de Odontologia de Piracicaba, ligada à Universidade de Campinas (Unicamp). O interesse principal de Paula na fruta é o seu potencial antimicrobiano no combate aos fungos do gênero Candida, que está implicado no surgimento da candidíase oral, o popular “sapinho”. Em 2010, Paula descobriu, em sua pesquisa de doutorado, que também nessa frente a romã é boa de briga. “Os extratos da P. granatum promovem alterações nas células dos fungos, como má-formação da parede celular, inibição do crescimento e agregação celular”, explica.

Tudo bem que a romã pode se destacar na boca do povo e nos microscópios dos cientistas, mas quem ainda reina absoluto nos consultórios é o cravo-da-índia (Eugenia caryophyllata). Suas propriedades antissépticas, aromáticas, analgésicas, cicatrizantes e antifúngicas são conhecidas, literalmente, há séculos. Em 1728, o francês Pierre Fauchard, considerado o pai da odontologia moderna, já indicava o óleo do cravo para o tratamento da dor de dente e da cárie dentária. Seu princípio ativo mais importante, o eugenol, é usado em restaurações desde o final do século 19. É ele, aliás, o responsável pelo cheiro típico dos consultórios de dentista. “O óleo de cravo, embebido em pelota de algodão, pode ser aplicado diretamente no dente cariado dolorido”, diz Rogério Cavalcante, de Rio Branco (AC), cirurgião dentista habilitado em Fitoterapia pelo Conselho Federal de Odontologia (CFO).

E tem mais: “O chá pode ser usado contra a dor e também para halitose, estomatite e gengivites”, afirma Cavalcante. Autor dos livros As Plantas na Odontologia (Edição do autor, 265 págs.) e Plantas da Amazônia na Saúde Bucal (Edição do autor, 76 págs.), o cirurgião defende que o cravo-da-índia seja adotado como símbolo universal da odontologia. “Ele é a planta mais largamente empregada pelos dentistas do mundo inteiro”, justifica.

Em seu consultório em Curitiba, a dentista Beatriz de Bittencourt Grotzner, também habilitada em fitoterapia, receita outras plantas. Uma delas é a zedoária (Curcuma zedoaria), cujo extrato trata inflamações nas gengivas. “Ela tem ação antibacteriana, antifúngica e analgésica, mas seu uso é contraindicado para grávidas e mães que estão amamentando”, conta Beatriz, que ainda receita bochechos com chá verde (Camelia sinensis). “Ele inibe o crescimento da Streptococcus mutans, uma das bactérias causadoras da cárie, além de ter ação anti-inflamatória e antioxidante”, completa.

Beatriz também lança mão, com frequência, do extrato de própolis. “Ele é coadjuvante no tratamento das enfermidades gengivais, estomatites, aftas, úlceras bucais, candidíase bucal, boca seca e halitose”, lista. Tanta versatilidade deve-se às atividades antimicrobiana, antifúngica, anti-inflamatória e cicatrizante da substância. Ou seja, tudo o que nosso sorriso mais precisa.

Parte II

Romanzeira (Punica granatum)

As propriedades antimicrobianas são atribuídas aos taninos, substâncias concentradas principalmente na casca do caule e do fruto. É dotada ainda de poderes anti-inflamatórios e antibacterianos, além de conter substâncias capazes de estancar hemorragias. O suco é usado contra úlceras na boca. Já as flores entram em ação no tratamento das gengivas, prevenindo a perda dentária. Em experimentos, o extrato da casca de romã mostrou-se tão eficaz no combate à placa bacteriana quanto a clorexidina, composto muito usado em antissépticos bucais e assepsias pré-cirúrgicas.

Malva (Malva sylvestris)

Possui propriedades anti-inflamatórias, antibacterianas, antimicrobianas, antifúngicas e cicatrizantes. A infusão ou tintura das folhas secas, flores e raízes ajuda a tratar gengivites e dor de dente. “Pode ser utilizada sob a forma de bochecho para inflamações na boca, mas em doses excessivas pode ter efeito laxativo”, alerta a dentista Beatriz de Bittencourt Grotzner.

Juá (Zizyphys joazeiro)

Tem ação antimicrobiana e antisséptica. Seu pó pode ser usado como creme dental, pois desestabiliza o biofilme (a placa bacteriana), ajudando em sua remoção.

Aroeira (Schinus terenithiofolius)

Possui ação antimicrobiana, anti-inflamatória e antiulcerogênica, sendo utilizada como antisséptico e no tratamento de estomatites. Além disso, apresenta atividade bactericida e antifúngica. Sua tintura pode ser usada para esterilizar escovas dentais contaminadas com a bactéria Streptococcus mutans, a principal causadora da cárie.

Cajueiro-roxo (Anacardium occidentale)

Essa árvore tipicamente nordestina é rica em taninos, que lhe conferem poderes anti-inflamatórios e anti-hemorrágicos. Tem ação antisséptica, antifúngica e antiviral. O chá da casca da árvore combate feridas, estomatites, aftas, cáries e queimaduras bucais. O óleo é indicado para dor de dente.

Hortelã (Mentha spicata)

A ação antimicrobiana dessa erva acaba de ser comprovada pela cirurgiã dentista Iza Teixeira Alves Peixoto, em sua tese de doutorado na Faculdade de Odontologia de Piracicaba. Ela descobriu que o óleo essencial da hortelã combate o fungo causador do “sapinho”. E o melhor é que a Mentha não afetou o metabolismo das células epiteliais, agindo apenas no fungo. O estudo é importante porque várias pesquisas já demonstraram que a eficácia dos agentes antifúngicos usados atualmente, como o fluconazol, vem diminuindo devido à resistência microbiana.

Açaí: da tigela para o dentista

Gostoso e energético, o açaí (Euterpe oleracea) agora virou “evidenciador de placa bacteriana” – aquele corante que aponta a aglomeração de bactérias no esmalte dos dentes. A dentista Danielle Emmi, da Universidade Federal do Pará (UFPA), foi quem teve o insight para desenvolver o corante natural, ao observar que a fruta deixa a boca e os dentes coloridos de vermelho. Obra da antocianina, a mesma substância que dá cor às uvas rubras. 

Ao testar um concentrado do corante de açaí, a pesquisadora confirmou a suspeita e ainda teve uma boa surpresa. “O açaí consegue detectar as áreas comprometidas já a partir do momento em que o biofilme começa a se formar, algo que os corantes hoje disponíveis no mercado não fazem”, diz Danielle. “A eficácia do corante natural chegou a ser 90% superior à dos corantes sintéticos em uso hoje.”

O concentrado, que está patenteado, foi desenvolvido para consultórios, mas, segundo Danielle, nada impede que ele entre na composição de produtos acessíveis à população. “É possível desenvolver produtos baratos, como enxaguantes e pastas de dentes.” Aí, bastará um bochecho na frente do espelho para flagar a placa. Danielle segue apostando na biodiversidade da Amazônia e agora investiga outras espécies, como a castanha-do-pará, o bacuri, a pupunha e o tucumã. “Eles podem ter efeito protetor contra as cáries”, desconfia. Já o uxi tem ação anti-inflamatória e potencial para inibir o crescimento das bactérias formadoras da placa.

O poder da copaíba

Nativa da Amazônia, a copaíba (Copaifera langsdorffii) já ganhou fama por sua ação antibacteriana e analgésica. Agora, o óleo dessa árvore faz parte da composição de um cimento odontológico desenvolvido na Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e usado para preencher o canal radicular – o espaço dentro do dente onde fica a polpa.

Quem já fez tratamento de canal sabe: é preciso tirar a polpa, limpar e preencher o espaço vazio com uma massa. “Hoje, não existe um produto que cumpra esse papel dentro dos padrões físicos e biológicos ideais”, diz a professora Angela Garrido, que desenvolveu o novo cimento. “O produto ideal não pode escoar ou se retrair, deve preencher o canal sem falhas para não entrar umidade e ainda possuir atividade antimicrobiana, pois fica em contato com as células do paciente”, esclarece. “O cimento à base do óleo de copaíba cumpre tudo isso e ainda custará cinco vezes menos do que os produtos tradicionais.”

Outra vantagem: o óleo natural não irrita os tecidos e não causa inflamações, um efeito colateral comum dos cimentos já utilizados. O produto foi patenteado e aguarda liberação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária para chegar ao mercado.



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