domingo, 24 de fevereiro de 2013

Trabalhos com plantas medicinais na Universidade Federal do Ceará


Cada uma das plaquinhas que identificam as 140 espécies vegetais cultivadas no horto de plantas medicinais da Universidade Federal do Ceará (UFC), em Fortaleza, traz em destaque a frase “O povo usa para...”. Trata-se de uma referência respeitosa à função terapêutica atribuída pelos sertanejos à raiz, casca, folha, flor ou fruto das ervas ou árvores lá existentes.


O horto é resultado de quatro décadas de trabalho de pesquisadores da UFC, que realizaram um meticuloso estudo de valorização do conhecimento popular de comunidades espalhadas pelo Nordeste brasileiro. Liderados pelo doutor José Abreu Matos, morto em 2008, eles desbravaram sertões e interagiram com pessoas humildes, sistematizando um precioso banco de informações sobre a flora da região.

Esse encontro da sabedoria popular com o conhecimento científico resultou, em 1983, na criação do projeto Farmácias Vivas, iniciativa que, ao longo de muitos anos, analisou centenas de plantas e já comprovou as propriedades medicinais de 64 delas – das quais cerca de 30 são cultivadas e regularmente utilizadas como medicamentos por várias prefeituras, pequenas comunidades e instituições sociais no Nordeste.

Reconhecido pelo rigor científico e alcance social, o projeto avançou bastante a partir de 1999, quando uma lei do Estado do Ceará abriu a possibilidade de incorporar o Farmácias Vivas ao sistema público de saúde. Atualmente, 74 unidades estão em funcionamento no Ceará e outros Estados, cultivando plantas, processando e distribuindo medicamentos.

Em meados de 2010, o Ministério da Saúde também aderiu a essa iniciativa com a edição da portaria 886 – que está em fase final de regulamentação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Na prática, o aval da Anvisa, previsto para ser editado este ano, vai permitir que os remédios fitoterápicos entrem de forma definitiva em milhares de postos de saúde do país, dando novo impulso ao Farmácias Vivas.

“A Anvisa já realizou consultas públicas, e estamos aguardando para muito breve a publicação dessa regulamentação”, relata a pesquisadora Mary Anne Bandeira, que coordena o projeto na UFC. Na avaliação do farmacêutico Júlio Peixe, que comanda uma unidade do Farmácias Vivas no município de Maracanaú, a 12 quilômetros de Fortaleza, a regulamentação trará benefícios tanto para as pessoas carentes como para o poder público.

Em um trabalho científico publicado em 2010, Peixe comprovou que alguns remédios processados no Farmácias Vivas representavam uma economia superior a 800% em relação aos medicamentos convencionais. Ele cita como exemplo o xarope de chambá (Justicia pectoralis Jacq), que é repassado da Farmácia Viva para a prefeitura a R$ 1,64, enquanto o produto similar custa R$ 8,90 no mercado.

Na unidade do projeto em Maracanaú, que começou a funcionar em 1992, são processadas 6 mil unidades do xarope de chambá a cada mês – quantidade que é insuficiente para atender a população de 210 mil habitantes que procura as 29 unidades de saúde do município. “Nossa produção se esgota nos primeiros 20 dias do mês. Isso é um indicativo de que o produto é seguro, eficaz e bem aceito”, conclui Júlio Peixe.
Alcance social

Com a regulamentação pela Anvisa, a expectativa é que o Farmácias Vivas seja mais amplamente utilizado no âmbito do SUS. E assim, além da missão de levar medicamentos a baixo custo para as pessoas carentes, é muito provável que o projeto passe a cumprir outra função social importante: a de geração de emprego e renda em muitas localidades país afora, gerando oportunidades especialmente para praticantes da agricultura familiar.

“O trabalho do professor Matos sempre despertou o interesse de grandes laboratórios farmacêuticos, mas ele vivia nos alertando para jamais perdermos a dimensão social do projeto”, observa a doutora Mary Anne. “A preocupação dele era com as pessoas que não tinham plano de saúde, que não podiam comprar um medicamento numa drogaria. Com as plantas, alguns desses remédios podem estar à mão, ali no quintal.”

Segundo Mary Anne, o professor Matos vislumbrava no Farmácias Vivas também uma dimensão humanista, que ia além do tratamento das enfermidades do corpo. “Quando o projeto é implantado numa determinada comunidade, nós percebemos que os laços de solidariedade, mobilização e cooperação são reforçados. O cultivo e o processamento das plantas, em certo sentido, devolvem dignidade e autoestima às pessoas.”

Ela cita como exemplo casos de sertanejos que migraram para a periferia da capital cearense e, no novo ambiente, passaram a se sentir deslocados e a desenvolver problemas de ordem psíquica. “O cultivo comunitário das plantas medicinais serviu, ao mesmo tempo, para recolocar essas pessoas em contato com suas origens do Sertão e também para tirá-las do isolamento social”, afirma.

Para preservar essa essência, o Farmácias Vivas trabalha em três dimensões. Uma básica, na qual as pessoas cultivam algumas plantam e, devidamente orientadas, podem produzir chás e xaropes em suas comunidades; uma intermediária, em que as ervas são dessecadas para a formulação de sachês (chás em saquinhos); e uma mais avançada, para atender com medicamentos às unidades de saúde em maior escala.
Conhecimento validado

Quase sempre o trabalho liderado pelo professor Matos consistia em dois movimentos: primeiro, tentar confirmar se determinada qualidade medicinal atribuída a uma planta realmente tinha fundamento; em seguida, devolver para as comunidades o conhecimento validado pela universidade após rigorosos estudos farmacológicos e químicos, a fim de identificar princípios ativos, indicar a dosagem recomendada ou apontar efeitos colaterais.

Isso ocorreu, por exemplo, com a aroeira-do-sertão, cujas propriedades anti-inflamatórias e cicatrizantes ficaram patentes no decorrer dos estudos. A tradição das mulheres sertanejas de utilizar a casca da planta em “banhos de assento” para tratar problemas ginecológicos não apenas se confirmou como a planta também se revelou muito eficiente para problemas de pele, gastrite e até úlceras.

Em outras situações, as análises apontaram para descobertas além do esperado. Caso do alecrim-pimenta, no qual foi identificada a presença da substância timol – um antisséptico vigoroso que antes se imaginava fosse produzido apenas industrialmente. “O alecrim-pimenta era uma das plantas mais queridas do doutor Matos”, conta a química Amélia Ramos, que há muitos anos trabalha no horto de plantas medicinais da UFC.

No horto também há outras referências importantes, como o cipó-cainca, que é recomendado contra mordidas de cobra, ou a flor-de-perpétua - para palpitações do coração. “Lá está um belo acervo transmitido ao longo de gerações pela sabedoria popular e que o trabalho apaixonado do professor Matos cuidou de preservar e conferir validade científica”, observa Mary Anne.
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